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Titãs voltam ao Recife nesta sexta-feira, mas transtornos do show anterior levaram 204 fãs à Justiça

Marco Zero Conteúdo / 23/11/2023
Foto colorida de show do Titãs, onde os componentes da banda estão sentados, de costas para a câmera e diante de uma plateia em um ginásio ou teatro lotado.

Crédito: Instagram/@titas_encontro

por Fabiana Coelho*

Nesta sexta (24), o Titãs volta aos palcos do Recife em mais um show de despedida da banda. No entanto, muitos fãs do histórico grupo não estarão lá: eles não querem correr o risco de passar pelo que viveram na apresentação anterior da banda no Recife, realizada no início de junho. Uma única ação coletiva, movida contra os organizadores do evento, envolve 204 pessoas, que compraram ingresso e não conseguiram usufruir do show. A superlotação, tumulto e desorganização levaram dezenas de pessoas a voltar para casa antes da hora. A segregação de pistas e de ingressos, hoje comuns em grandes eventos, contribuíram para as situações dramáticas relatadas pelo público.

Maria Teresa Perez é uma das vítimas. Ela comprou o ingresso quatro meses antes do show, mas não chegou a acompanhar sequer três músicas. “Era uma situação de muito risco. Ninguém podia entrar nem sair, sequer se mexer. Eu sou acostumada com a multidão, acompanho blocos de carnaval que arrastam muita gente, mas nunca vivi uma situação daquelas”, conta.

Imagem retirada do processo judicial

Teresa é uma das 204 pessoas que estão representadas em uma ação coletiva, movida pelo advogado Bruno Raposo no 14º Juizado Especial Cível e das Relações de Consumo da Capital. Um inquérito foi instaurado na Delegacia do Consumidor para apurar as responsabilidades e acusações de dano moral coletivo e submissão a risco. Parte do grupo representado optou por não esperar o resultado do inquérito e está com audiência marcada para dia 8 de fevereiro, para garantir, ao menos, a devolução do valor do ingresso.

A ação cita três responsáveis: a Eventim Brasil, responsável pela comercialização dos ingressos; a Lazzulli, responsável pela administração do Chevrolet Hall – onde ocorreu o show -; e a BPC Produções e Participações Artísticas, conhecida como 30e – ou Thirty Entertainment, produtora nacional. A reportagem tentou contato com os três envolvidos. A administração do Chevrolet Hall alega que apenas alugou o espaço e que toda responsabilidade seria da 30e.

A reportagem não obteve resposta da produtora nacional. Conseguiu, contudo, conversar com Flávio Perruci, da empresa Raio Laser, que fez a produção local. Flávio tentou minimizar os problemas: “Esta aglomeração na entrada é normal, muita gente deixa pra chegar em cima da hora”, disse. Segundo ele, a responsabilidade pela venda dos ingressos é da 30e. “A gente cuida da hospedagem e acomodação do grupo, divulgação, montagem e organização do espaço, orientação ao público. Fizemos o possível para atender as demandas de todos os que nos procuraram com alguma queixa”, diz.

Flávio faz questão de ressaltar a seriedade da produtora 30e (ou BPC Participações e Produções Artísticas). No entanto, somente no portal Reclame Aqui, há 136 queixas. A empresa é enquadrada como “não recomendada” pelo portal, pois não responde a, pelo menos, 50% das reclamações.

Homem primata: capitalismo selvagem

Roger de Renor é fã do Titãs. Com uma longa trajetória como produtor cultural na cidade do Recife, ele recebeu convite de um dos produtores de palco para o show de junho. Desenterrou a carteirinha do fã clube e as lembranças. “Eu estava na primeira estadia do Titãs no Recife. Era um showmício de Tancredo, acompanhei o lançamento da música ‘Sonífera Ilha’ aqui, já trabalhei com a gravadora da banda, tenho um longo percurso como fã do Titãs. Mas saí no meio da apresentação. Nunca fui em um show tão lotado”, relata.

Para Roger, na base dos problemas está uma postura que se naturalizou em todos os grandes eventos realizados pelas produtoras: a segregação de espaços. “Antes, as pessoas optavam pela pista ou pelo camarote. Mas os camarotes não atrapalhavam quem está na pista. Quem queria, se aventurava na multidão para chegar no palco. Hoje, quem enfrenta o desafio de chegar mais perto, encontra uma barreira de mesas, onde os que pagaram mais assistem o show confortavelmente, tomando seus uísques. Há cercadinhos e barreiras que atrapalham a mobilidade e a visão”, critica.

Imagem retirada do processo judicial

Paula Pierreck de Sá sabe bem disso. Comprou ingresso para a Pista VIP-Diversão que, em tese, garantiria um local privilegiado. “Para entrar, tivemos que passar por um curralzinho na lateral, com catracas e gelo baiano. Quando, depois de um longo tempo, conseguimos acesso, ficamos encurralados na lateral, sem nenhuma visibilidade. Não conseguíamos nos mover mais para o meio por que a divisória que separava as pistas estava posta no sentido perpendicular ao palco”. Paula não conseguiu ver nada e foi embora antes do fim do show.

Natália Jaqueline viveu situação semelhante. Ela e o namorado também compraram o ingresso VIP. Mas, depois de muita briga e tumulto, viram a multidão derrubar uma parte da divisória e acabaram sendo empurrados para a outra pista: a Flores.

No show desta sexta-feia, para a pista Flores, os ingressos vão de R$ 100 (meia entrada) a R$ 200. Na Pista VIP-Diversão, vão de R$ 160 a R$ 320. Mas há, também, a VIP Soundcheck, com ingressos de R$ 410 a R$ 570, que inclui Open Bar em mesas na frente do palco, entrada antecipada e acesso à passagem de som. E a VIP Meet and Greet que, além das vantagens da Soundcheck, inclui foto com os artistas e pôster comemorativo. “É a mercantilização da relação com os fãs. Sou do tempo em que o artista recebia, com um carinho gratuito, os fãs que iam até o hotel ou que esperavam na passagem de som. Hoje, são recebidos os fãs que podem pagar. É o ‘homem primata, capitalismo selvagem’ ditando as regras”, critica Roger.

*Jornalista

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