Entrevista | Lídia Brunes (Pros): “Conheço cada dor dessa, isso é o que eu vivo”

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por Helena Dias

adalgisasaberturaAos 38 anos, a técnica de enfermagem e estudante de administração, Lídia Brunes, é candidata do PROS à segunda vaga de Pernambuco no Senado Federal. Para chegar nesta disputa, percorreu um longo trajeto fora da política partidária. Trabalhou como empregada doméstica até os 24 anos, enquanto estudava para ser técnica de enfermagem. Período difícil, segundo ela, pois as contas fechavam sempre no vermelho tentando conciliar a mensalidade do curso com o aluguel de casa.

Nessa época, já fazia parte do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto de Pernambuco (MTST-PE), entidade ligada ao reverendo Marcos Cosmo, sacerdote evangélico que é veterano da luta por moradia, e não ao candidato à presidência da República pelo PSOL, Guilhermes Boulos, coordenador do MTST. Assim, a candidata afirma o voto em Fernando Haddad do PT, e ressalta várias vezes o programa Minha Casa, Minha Vida instituído por Lula.

Nascida e criada no Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife, Lídia hoje é uma das coordenadoras do MTST-PE e da União Nacional por Moradia Popular (UNMP), além de integrar também a Secretaria Latino-americana por Vivenda Popular (SELVIP).

No âmbito estadual, Brunes está na chapa majoritária encampada por Maurício Rands (PROS), ao lado do candidato à primeira vaga do senado Silvio Costa (Avante), apesar de ter sido filiada ao PT até o início deste ano. Lídia foi para o PROS como uma forma de viabilizar sua candidatura. No PT, de acordo com Lídia, não havia “diálogo nem espaço para que ela como representante de um movimento concorresse a um cargo nestas eleições”.

Se eleita, a candidata diz que irá legislar para além das questões de moradia. Garante que, mesmo sem muito conhecimento da função no Senado, terá uma boa equipe para apoiá-la. Logo de primeira, Lídia quer transformar o Minha Casa, Minha Vida em lei, o que daria segurança sobre os repasses de verbas para as moradias populares independente de governo, segundo ela.

O trabalho legislativo

“Estou saindo pela primeira vez como candidata ao Senado, vou precisar de pessoas boas pessoas ao meu redor que compreendam leis, que possam estar junto a mim realizando esse processo. Vou ser uma senadora de Pernambuco que não vou poder tratar apenas a pauta da moradia, vou precisar compreender e debater leis e defendê-las quando forem a favor dos pernambucanos e pernambucanas. Sendo eleita, eu vou me empoderar desse processo.”

Propostas

“Eu ando de ônibus, não tenho plano de saúde e moro de aluguel, sei o que é ser violentada. A maioria dos candidatos escuta, eu vivencio tudo isso. Agora, com o governo Temer, o Minha Casa, Minha Vida está ameaçado. É um programa que vem sendo muito discutido no Conselho Nacional das Cidades e, desde que Temer assumiu, este conselho não se reúne. Queremos propor que o programa deixe de ser governo e passe a ser de Estado. Também quero conseguir recursos para revitalizar nossos hospitais, fazer com que a gente consiga marcar consultas online de fato, porque nem todo mundo tem condição de fazer. Temos que olhar a saúde como um todo. Para educação, continuo querendo revitalizar as escolas principalmente dos municípios do interior. Precisamos de escolas perto de nossas casas para que as famílias coloquem as crianças na escola.”

Ocupar, resistir e construir

“Há muitos anos, os movimentos de moradia sempre ocuparam espaços ociosos e sempre resistiram, mas não construíam. O município ou o estado (governos) sempre faziam reintegração de posse e depois construíam moradia em um lugar diferente da ocupação. Só que nossa história mudou, a gente continua ocupando resistindo e construindo pelo programa MCMV, que foi o governo Lula que implementou. Quando mapeamos espaços ociosos em Pernambuco, a gente já ocupa aquela área com a perspectiva de ali também fazer um grande empreendimento para essas famílias. Atuamos hoje no agreste, temos obras em Caruaru, temos projetos a serem implementados em Santa Cruz do Capibaribe, temos obras em Igapó e em Tacaimbó.”

Mídia e os sem-teto

“Estamos construindo uma obra de 224 apartamentos, chamado Júlia Beatriz, em Rio Doce (Olinda). É um terreno que ocupamos há 10 anos atrás e estamos com 89% de obra concluída, logo entregaremos. Os movimentos sociais são muito marginalizados, sempre são vistos como quem queima pneu, quem paralisa rua e quem impede do trabalhador chegar ao trabalho. Queremos que a sociedade reconheça nossas conquistas, o valor que a gente tem. Por diversas vezes, por exemplo, a gente liga dizendo que vai fazer uma paralisação na avenida Conde da Boa Vista e vai queimar pneu, aí o que tem de imprensa para ver a gente apanhando de policial… é muita imprensa. Mas quando chamamos a mesma imprensa para ir para uma obra nossa, uma entrega de chaves, ninguém vai.”

Marielle Franco

“Me vejo como Marielle, eu acho a luta histórica dela, a luta com o povo de favela, é a minha luta. Eu vim de ocupação, eu vim de subúrbio. Sou negra como ela. A exclusão que mulheres como nós sofremos, não é?! Costumo dizer que terei dois caminhos: ou serei assassinada, ou farei uma boa política. Quero fazer a boa política e não ser assassinada, porque Marielle fez a boa política, foi verdadeira, trabalhou para o público. Eu vejo que vou fazer esse trabalho. Na verdade, já venho fazendo, já estou no movimento há quase 16 anos, trabalho com e para o povo.Eu me identifico muito com ela porque eu sei que ela fez esse trabalho para homens e mulheres, negros e negras e sei o preço que ela pagou por ser uma mulher que estava sempre dialogando com os direitos humanos”.

#EleNão

“A gente aderiu porque tem a certeza que é ele não mesmo. Bolsonaro vem pautando nas suas falas e ações o preconceito, o retrocesso. Para ele, temos que ter apenas mulheres no lar, é uma figura homofóbica e machista. Não poderíamos deixar de aderir a uma campanha que é nossa, que é dizer não ao retrocesso. Dizer não a uma figura extremamente preconceituosa e que vem mostrando que, se eleito, vai destruir nosso país. Essa é a verdade. No dia do ato (29 de setembro), nós tivemos uma grande agenda em Caruaru e Água Preta e eu não consegui ir, mas muita gente do movimento de moradia nos representou.”

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