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O diabo veste farda

Marco Zero Conteúdo / 13/04/2026
A imagem mostra um pilar de concreto cilíndrico em espaço público. Sobre ele, há várias marcas de mãos pintadas em vermelho, como se fossem impressões deixadas com tinta. Entre essas marcas, aparece uma frase escrita em português: “O diabo veste farda”, em letras pretas e vermelhas. O conjunto transmite uma mensagem de protesto ou crítica, reforçada pelo contraste entre as cores e pela repetição das mãos. Ao fundo, vê-se parte de uma calçada com corrimão e alguns prédios.

Crédito: Cortesia/Jota Camelo

por Milton Tenório*

É conhecido o histórico de sucessivos golpes, como o que levou à queda da monarquia (1889) em que o Exército brasileiro foi protagonista.

O Exército foi o pilar da “Revolução ” de 1930 (Getúlio Vargas ). No Governo Juscelino Kubitschek nos anos 1950 foram duas tentativas de golpe, ambas frustradas. Uma delas para impedir a posse de JK.

Em 1964, a deposição de João Goulart estabeleceu uma ditadura de 21 anos com repressão, perseguições, torturas e mortes.

A “permissão” silenciosa de acampamentos nas portas dos quartéis e a tentativa de golpe em 2023 trouxe novamente a discussão sobre a politização das tropas e a impunidade, levando à mobilização da sociedade civil e os poderes constituídos, um deles o STF, a prender medalhões das Forças Armadas e julgá-los exemplarmente.

O Caso da Escola de Sargentos do Exército na APA Aldeia Beberibe é, atualmente, um dos maiores pontos de conflito entre o Exército e a sociedade civil (especialmente ambientalistas e acadêmicos).

A área em questão é um dos últimos remanescentes contínuos de Mata Atlântica no Nordeste. O desmatamento para viabilizar a construção desse Complexo Militar, ameaça o Aquífero Beberibe, responsável pelo abastecimento de água da Região Metropolitana do Recife. Espécies endêmicas dependem daquele microclima.

A construção vai romper, destruir corredores ecológicos fundamentais.

O Exército Brasileiro por vezes age como um “Estado dentro do Estado”,priorizando projetos próprios em detrimento da preservação ambiental e da estabilidade democrática.

O Brasil precisa lutar para definir o lugar das Forças Armadas em uma democracia plena, onde elas devem ser subordinadas ao poder civil e às leis de proteção ao patrimônio natural do povo brasileiro.

Quando o Estado (ou o Exército, como no caso da Escola de Sargentos) propõe uma obra em área de Mata Atlântica sob o argumento de “segurança estratégica” ou “interesse público”, ele entra em rota de colisão direta com o espírito do artigo 225 da Constituição Brasileira de 1988.

O “interesse social” de uma escola militar é colocado na balança contra o “interesse difuso” (de todos os cidadãos) à preservação de um bioma do qual resta menos de 12% da sua cobertura original. Pela Constituição, a preservação da biodiversidade e das nascentes não é apenas um desejo ecológico, é um comando, é lei.

Ministério Público Federal

Por fim, trago uma atualização em relação ao processo n° 126.000.000690/2022-59 ação movida pelo Fórum Socioambiental de Aldeia. O procurador Fabio Holanda, do Ministério Público Federal da 5° Região, ainda não acatou a Ação Civil Pública diante de indícios suficientes de dano ambiental que deve ser julgado na Justiça Federal. Qualquer leigo entende que é um magistrado quem terá o poder de conceder, por exemplo, uma liminar para suspender as obras até que o mérito seja julgado, ou decidir se as compensações oferecidas são legalmente aceitáveis ou não.

*Profissional autônomo, ativista ambiental e fundador do Movimento Gato-Maracajá

AUTOR
Foto Marco Zero Conteúdo
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É um coletivo de jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.