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Receita de empatia

Ex-fotojornalista, médico de Petrolina cria ferramenta para que pacientes entendam tratamento prescrito

Inácio França / 06/05/2026
A foto mostra uma pequena casa vermelha, simples, com telhado de telhas e uma antena parabólica. Na frente, há alguns degraus que levam à porta de entrada, cercada por plantas e um muro baixo de tijolos inacabado ou danificado. O chão ao redor é arenoso e seco, com algumas árvores ao fundo. Perto da porta, uma pessoa de camisa branca e calça escura está de pé, olhando para dentro da casa. Na parede, há uma mensagem escrita à mão em português que diz: “Não tem inveja de mim nem da minha pessoa. Não sou rica, apenas trabalho.”

Crédito: Acervo pessoal

Em postagens nas redes sociais, repercutem as reportagens sobre um médico de Saúde da Família de Petrolina na Folha de S. Paulo, Globo, Record, Correio Braziliense. Há motivos para tamanha notoriedade: ele criou uma ferramenta online para elaborar receitas que facilitam a vida dos pacientes, ajudando as pessoas analfabetas ou com pouco letramento a entender o passo a passo do tratamento.

A tal ferramenta se traduz em um site chamado Cuidado para Todos e possibilita aos médicos gerarem prescrições com desenhos, ícones e adesivos no lugar daqueles garranchos incompreensíveis. Em uma das matérias publicadas leio que o médico se chama Lucas Cardim e que, antes de criar o sistema com ajuda de um amigo de infância que hoje trabalha na Suíça como engenheiro de software do Google, ele perdia um tempão desenhando xícaras, sol, lua e colheres no receituário de papel.

As receitas desenhadas a mão já tinham rendido alguma repercussão em blogs locais, mas agora foi pra valer, viralizou a tal ponto que Dráuzio Varela o convidou para participar de um podcast em São Paulo, gravado na terça-feira, 5 de maio. Na véspera, ele gravou sua participação no programa Caldeirão do Mion, da Rede Globo.

Vida de celebridade. Ou subcelebridade. No entanto, nada mais distante da personalidade e dos objetivos desse sujeito.

Depois que li as notícias e conversei um pouco com Cardim, percebi que o Cuidado para Todos é a síntese das motivações que levaram Cardim a fazer o Enem para Medicina, anos depois de concluir sua primeira graduação em Jornalismo.

Foi nessa época em que o conheci, quando fizemos juntos um livro para o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Ele como fotógrafo e eu como escriba, percorremos Alagoas para contar o que estava por trás da redução dos números da mortalidade infantil. Graças aos burocratas da agência das Nações Unidas em Brasília, o que devia ser um instigante livro-reportagem se tornou um calhamaço burocrático, tão aborrecido quanto pretensioso. Mas isso é outra história, um mero comentário ácido repleto de recalque ou ressentimento.

O que importa agora é contar que as dezenas de visitas que fizemos a postos de saúde em vilarejos na beira de estrada e UTIs em maternidades públicas alagoanas encerraram a carreira do repórter-fotográfico Lucas Cardim e o levaram à medicina.

“Não sou capaz de melhorar a vida das pessoas com a fotografia, vou estudar para cursar Medicina. Como médico vou poder fazer alguma coisa”. Foram essas suas palavras – ou quase – quando me contou sobre a decisão que tomara. Não sei dizer se a maior inspiração veio do sentimento de indignação diante do péssimo exemplo de um médico que só aparecia uma vez por semana numa unidade de saúde em Santana do Ipanema ou do respeito diante do pediatra que dobrava plantões na UTI do hospital de Arapiraca.

A foto mostra uma folha de receituário médico oficial, com o cabeçalho da Secretaria de Saúde de Senhor do Bonfim. O documento tem anotações manuscritas em letra cursiva, listando medicamentos, dosagens e horários de uso. Algumas informações pessoais estão cobertas para preservar a privacidade. No final da página, há assinatura e data do médico. Em resumo, é uma receita médica simples e manuscrita, usada para orientar o paciente sobre quais remédios tomar e em que momentos do dia.

Garranchos de médico em receita tradicional

Crédito: Acervo pessoal
A foto mostra uma receita médica acompanhada das cartelas dos remédios prescritos. O documento é oficial da Secretaria de Saúde de Senhor do Bonfim, assinado por um médico. Sobre a receita estão três cartelas de comprimidos, cada uma com etiquetas impressas que indicam o nome do medicamento, a dosagem e instruções claras de uso. As etiquetas trazem também pequenos ícones (como sol, lua, cama, xícara de café) para ajudar o paciente a identificar o momento certo de tomar cada remédio — de manhã, à noite ou antes de dormir. Em resumo, é uma imagem que combina a prescrição médica com os próprios medicamentos, organizada de forma acessível e visual para facilitar o tratamento diário.

Receita gerada no site Cuidado para Todos

Crédito: Acervo pessoal

Do sonho à prática

Mais de uma década depois, não me surpreendi ao ver seu nome associado à preocupação com as camponesas e camponeses que atende no posto de saúde de Bebedouro, zona rural de Petrolina, onde vive desde que se formou na Universidade Federal do Vale do São Francisco.

Mais do que se preocupar, ele não ficou paralisado, salivando indignação, esperando algo ou alguém aparecer com alguma solução. Ele correu atrás, imaginou uma saída e mobilizou gente que seria capaz de, assim como ele, trabalhar de graça para tornar realidade a ideia que concebeu.

Ele não acredita em soluções individuais ou milagres particulares. Agora, depois e arrumar um jeito de melhorar as receitas que passa para os pacientes, quer transformar isso em política pública, quer que outras pessoas sejam beneficiadas, quer motivar outros colegas médicos e médicas a usarem o site.

Isso é puro suco de Lucas Cardim.

“O acesso é gratuito, qualquer profissional de qualquer local do Brasil pode acessar e usar. Estamos conversando com o Ministério da Saúde para doar os códigos e fazer toda a transferência de tecnologia para o SUS”, explica. Inicialmente, ele me disse que outros dez municípios de Alagoas, Bahia, Pernambuco, Piauí, Santa Catarina, Sergipe e São Paulo estão treinando os profissionais de saúde de suas respectivas redes para usar a ferramenta. Depois de gravar o podcast com Varela, me enviou um áudio pelo zap dizendo que Davi Rios, seu amigo do Google na Suíça atualizou os dados de acesso e uso da plataforma: agora são pelo menos 200 médicos usando os formulários de receitas em 22 estados brasileiros.

No áudio, sua voz estava cansada. Foram vários voos, um atrás do outro, engarrafamentos em São Paulo e Rio de Janeiro, filmagens cansativas. “Estou indo pro aeroporto, não vejo a hora de voltar para casa, colocar meu filho para dormir e, depois, retomar os atendimentos”.

Quando fala em voltar ao trabalho, Cardim está se referindo a consultas que podem durar mais de uma hora com os homens, mulheres e crianças do Bebedouro que costuma ir à unidade de saúde da família local. Sim, é isso mesmo que você leu: consultas de mais de uma hora de duração no SUS, algo que é raro até mesmo em clínicas particulares. No Recife mesmo, sei de médicos especialistas que chegam numa policlínica da prefeitura da zona norte às 7h da manhã, atendem 30 pacientes no vapt-vupt e, às 8h, estão de saída, direto para seu consultório privado. E ai de quem ousar cobrá-los por um atendimento decente.

O posto do Bebedouro não é uma unidade básica de saúde tão básica assim. Por insistência dele, a secretária de saúde e o curso de Medicina da UFPE assinaram um convênio vinculando a unidade ao programa de residência médica de Medicina da Família e Comunidade. Assim, ele recebe alunos e alunas, atuando como preceptor.

O detalhe é que as três impressoras do posto usadas para imprimir os relatórios dos residentes e as próprias receitas geradas no site Cuidado para Todos foras compradas por Cardim. Aliás, conversei com outros dois profissionais da rede municipal de saúde que, para usar a ferramenta, também tiveram que levar suas respectivas impressoras para o local de trabalho.

A assessora de imprensa da secretaria municipal de Saúde, todavia, me garantiu que “já está na fase final de aquisição dos equipamentos necessários para a expansão do projeto. Assim que os aparelhos chegarem, a implantação será iniciada de forma gradativa em toda a rede municipal de saúde”. Petrolina conta com 57 Unidades Básicas de Saúde e seus 420 mil habitantes têm 85% de cobertura da Estratégia Saúde da Família.

Lucas Cardim não espera pela burocracia do serviço público. Mesmo admitindo que é preciso discutir “como outras boas ideias podem desaparecer no abismo que existe entre a assistência e a gestão”, ele continua sonhando alto. No texto de apresentação da plataforma que criou, ele revela que “sonha em transformar a Unidade Básica do Bebedouro em uma Unidade Escola Rural, incluindo a agricultura de subsistência e alimentação saudável como parte indissociável dos cuidados em Saúde”.

AUTOR
Foto Inácio França
Inácio França

Jornalista e escritor. É o diretor de conteúdo da MZ.