“Meu filho de 11 anos não dorme sem remédio”, denuncia agricultor vizinho de eólica

Raíssa Ebrahim / 15/07/2026
A foto mostra um homem com duas crianças em um ambiente rural ensolarado. Eles estão de pé sobre um solo de terra, próximos a uma grande árvore de raízes expostas e folhagem verde. À direita, há uma estrutura simples de madeira com telhado de barro, parecendo um abrigo ou galpão. Ao fundo, destacam-se vários aerogeradores — grandes turbinas de energia eólica — contrastando com a paisagem natural e os cactos ao redor.

Crédito: Jezz Maia/Caatinga Climate Week

“A felicidade do meu filho foi chegar em casa gritando ‘pai, eu consegui dormir’, quando voltou da casa de uma parente longe daqui”. O depoimento é do agricultor Walisson José da Silva, de 32 anos. O primogénito, José Heytor, tem apenas 11 anos, mas precisa tomar remédio para dormir diariamente. O barulho incessante das torres eólicas ao lado de casa, em Caetés, no agreste pernambucano, tirou o sossego também das crianças.

“Se a gente não dá a medicação altamente forte, nem dorme ele nem dorme a gente, ele fica delirando. Infelizmente esse é o resultado do empreendimento que trouxeram para nós”, lamenta Walisson. A caçula, Jenifer Victória, de 6 anos, também já sente os efeitos. “Eu comecei a perceber recentemente que ela está com sinais de ansiedade e de bruxismo”, relata o trabalhador rural, que teve perda auditiva por causa das turbinas, instaladas no município há mais de uma década.

Ainda não há pesquisas científicas que relacionem o impacto desse tipo de geração de energia na saúde infantil de Caetés, a 250 quilômetros do Recife. Mas, para os profissionais da saúde, os relatos clínicos não deixam dúvidas: a vida dos mais novos já não é mais a mesma, as mudanças atravessam o cotidiano, as formas de brincar, o sono, a sensação de segurança e a relação com o território.

“O que tenho visto, dando suporte médico no território, é que crianças e adolescentes desenvolveram, entre outras coisas, transtorno de ansiedade generalizado e que a síndrome da turbina eólica atingiu também essa população”, relata Maria Eduarda Valois Spencer, médica da atenção primária à saúde e professora de Medicina no Centro Acadêmico do Agreste da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e na Autarquia de Ensino Superior de Garanhuns (Aesga). Ela é colaboradora da pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade de Pernambuco (UPE) que constatou que 68% dos camponeses de Caetés estão em sofrimento psíquico.

Os ruídos emitidos pelas hélices gigantes costumam gerar sintomas como dor de cabeça, zumbido e pressão nos ouvidos, náusea, tontura, taquicardia, irritabilidade, problemas de concentração e memória e episódios de pânico. A exposição às torres por tempo prolongado pode causar, além desses sintomas, distúrbios mais graves como a Síndrome da Turbina Eólica e a Doença Vibroacústica.

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Síndrome da turbina eólica

Os sintomas compreendem distúrbios do sono, aumento de frequência e/ou gravidade de dores de cabeça, tonturas, instabilidades, náusea, exaustão e alterações no humor, problemas de concentração e aprendizagem e zumbido nos ouvidos. Indivíduos com histórico de enxaqueca ou problemas auditivos anteriores ao contato com as eólicas e pessoas idosas são grupos mais suscetíveis.

 

Doença Vibroacústica

É uma doença sistêmica causada pela exposição prolongada a ruído de grandes amplitudes (90 dB) e baixa frequência (< 500Hz, incluindo os infrassons). É uma patologia com evolução lenta e que pode afetar vários órgãos e tecidos, como os sistemas nervoso e imunitário e os aparelhos cardiovascular e respiratório. Além de ser caracterizada por lesões nos tecidos ou órgãos, pode ocasionar uma série de alterações no organismo, como alterações neurológicas, endócrinas, na tensão arterial e na função respiratória.

“É frequente o relato de crianças que fazem uso de medicações psicotrópicas desde muito novas e que, quando vão passar férias em regiões mais distantes, onde não há usinas eólicas, as famílias já testaram não dar a medicação e as crianças conseguiram viver e dormir melhor”, atesta Maria Eduarda, que também é coordenadora do projeto “Reflorestando o Cuidado na Caatinga: semeaduras de esperança e resiliência frente aos impactos do Complexo Eólico em Paranatama” do PET-Saúde Clima, do Ministério da Saúde.

A médica relata ainda o aparecimento de questões dermatológicas e respiratórias. “As turbinas, que ficam próximas às casas, provocam poeira que contém diversas partículas do ambiente e da própria turbina que causam reações alérgicas na pele e no sistema respiratório”, explica. “Além disso, a questão do zumbido e do efeito estroboscópico das hélices têm um potencial de gerar náuseas e problemas de equilíbrio, por exemplo, numa fase muito importante, de intenso desenvolvimento neuromotor da criança, principalmente na primeira infância”, complementa.

“Uma, duas horas da manhã, eles estão acordados no meio da casa”

“Estamos vendo crianças mais agitadas, com alteração do ciclo sono-vigília, agressivas, irritadas, isso tudo numa fase ainda de construção neurológica e emocional, o que acaba potencializando e atrapalhando um desenvolvimento mais seguro e equilibrado dessa população”, alerta Maria Eduarda.

É o que vem acontecendo com os filhos da agricultora Michele Maria da Silva, de 39 anos, mãe de seis, com idades entre 22 e quatro anos. Eles vivem a apenas 500 metros das turbinas. “Os que ainda moram comigo dormem muito tarde. Uma, duas horas da manhã, estão acordados no meio da casa. Mesmo acordando cedo de manhã, não conseguem dormir cedo. Eles ficam muito incomodados à noite, é muito forte o barulho”, afirma a agricultora, diagnosticada com depressão, diabetes e distúrbios na tireoide.

À noite, o barulho das hélices aumenta porque é um horário em que tende a ventar mais. Despertar na madrugada, detalha Maria Eduarda, é justamente atrapalhar o pico de produção de melatonina pela glândula pineal, localizada no cérebro, que precisa de silêncio e escuridão, caso contrário a produção é interrompida.

Há um ano, ela teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Antes das torres, eu não tinha de jeito nenhum esses problemas”, diz. O filho de 10 anos começou a tomar remédio para ansiedade. “Ele está muito agitado. Agora, com a medicação, se acalmou um pouco. Mas ele fica muito aperreado, cansado, sufocado. E agora apareceu esse medo que ele está, da torre cair”, descreve Michele. Ela gasta R$ 450 de remédio por mês, é mais da metade do Bolsa Família, de R$ 800, que recebe.

O filho mais novo, de apenas quatro anos, está aguardando consulta com um psiquiatra, após encaminhamento de um psicólogo. “Ele está muito agitado, não tem paciência com nada, quebra tudo”, conta.

A imagem mostra um pequeno parquinho de ferro enferrujado, com balanços e escorregador amarelos, em meio a um terreno seco e coberto por vegetação rala. Ao fundo, erguem-se imponentes turbinas eólicas brancas, contrastando com o céu azul intenso e nuvens brancas espalhadas. Linhas de energia cruzam o cenário, reforçando a presença da infraestrutura elétrica na paisagem rural. A cena transmite uma mistura de simplicidade e modernidade, onde o cotidiano do interior se encontra com a tecnologia sustentável.

Crédito: Raíssa Ebrahim/Marco Zero
A imagem mostra um pequeno parquinho de ferro, com balanços e escorregador amarelos e enferrujados, em meio a um terreno seco e coberto por vegetação rasteira. Ao fundo, erguem-se grandes turbinas eólicas brancas, alinhadas com postes e fios elétricos que cortam o céu azul intenso, pontuado por poucas nuvens brancas. A cena transmite um contraste entre o antigo e o moderno — o parquinho simples e desgastado diante da presença marcante da energia sustentável — sugerindo falsamente uma convivência entre o cotidiano rural e o avanço tecnológico.

Crédito: Raíssa Ebrahim/Marco Zero
A imagem mostra uma estrada de terra que atravessa uma porteira de madeira simples, cercada por vegetação verde e árvores de médio porte. O céu está intensamente azul, sem nuvens, e ao fundo erguem-se grandes turbinas eólicas, brancas e elegantes, destacando-se contra o horizonte. A cena transmite tranquilidade e um contraste marcante entre o ambiente rural e a presença da energia limpa, sugerindo falsamente a convivência entre natureza e tecnologia sustentável.

Crédito: Raíssa Ebrahim/MZ

Crédito: Raíssa Ebrahim/Marco Zero
A foto mostra uma casa simples de parede amarelada e telhado de barro, típica de área rural, com roupas coloridas penduradas em um varal à frente. No quintal, há uma grande antena parabólica apoiada em um pilar de tijolos e outra menor no telhado, marcada com o logotipo “Vivo”. Ao fundo, destacam-se imensas turbinas eólicas brancas sob um céu azul intenso, sugerindo a presença de um parque de energia renovável. Galhos de uma árvore sombreiam parcialmente a cena, criando um contraste entre o cotidiano rural e os avanços tecnológicos que se integram à paisagem.

Crédito: Raíssa Ebrahim/Marco Zero

Desenvolvimento infantil comprometido

A médica Maria Eduarda defende que os impactos das usinas eólicas sobre a saúde infantil devem ser analisados a partir do conceito de cuidado integral. Para ela, não é possível avaliar a saúde das crianças apenas pela presença ou ausência de doenças, sem considerar o ambiente em que vivem.

“O primeiro aspecto que a gente precisa analisar é o meio em que essas crianças vivem, o território. As transformações provocadas pela instalação dos parques eólicos na caatinga alteram justamente esse ambiente, o que pode repercutir no desenvolvimento infantil”, explica.

Maria Eduarda integra pesquisa sobre impacto das eólicas

Embora as evidências disponíveis atualmente se baseiam principalmente em relatos de populações afetadas, esses relatos apontam para impactos que merecem atenção, especialmente na primeira infância. “Essa é uma fase em que hiperestímulos e ruídos acabam atrapalhando o desenvolvimento neuropsicomotor das crianças. É um período muito delicado e tudo o que acontece nessa fase reverbera mais na frente”, diz Maria Eduarda.

Na avaliação dela, a exposição contínua aos ruídos das turbinas, que não cessam, pode estar associada a dificuldades de concentração, maior agitação e outros sinais observados durante a infância, mas que também podem se desenvolver mais tarde, aparecendo na adolescência com ansiedade, traumas ou outros transtornos emocionais.

“E aí a necessidade de medicação logo na primeira infância preocupa porque esses remédios têm efeitos colaterais e podem acompanhar a criança por muitos anos. Mas o problema não se resolve apenas com um diagnóstico e um remédio. É preciso compreender o território, o meio ambiente e o contexto cultural em que essas crianças vivem”, afirma Maria Eduarda.

Os empreendimentos eólicos também impactam o brincar, por causa do aumento do risco de acidentes durante a implantação e a manutenção desses empreendimentos, com a circulação intensificada de caminhões e veículos pesados nas estradas rurais, modificando espaços tradicionalmente ocupados pelas crianças.

Dica da redação

Documentário “Filhos do Vento”, disponível no Youtube.

O filme é uma produção dos jornalistas Euziane Bastos e Rogério Bié que mergulha nos conflitos socioambientais e na resistência da comunidade quilombola do Cumbe, em Aracati (CE), diante da chegada de um parque eólico em 2008. Sem serem consultados, os moradores deram início a uma luta contra os impactos que o empreendimento causou nos seus modos de vida, cultura e relação com o território.

O documentário revela o cenário de conflitos e contradições por trás do discurso de “energia limpa” desse modelo energético. O filme é uma narrativa direta sobre a luta pela preservação de uma comunidade quilombola frente às mudanças trazidas por grandes empreendimentos.

A repórter viajou a convite da Caatinga Climate Week

AUTOR
Foto Raíssa Ebrahim
Raíssa Ebrahim

Vencedora do Prêmio Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petróleo, é jornalista profissional há 12 anos, com foco nos temas de economia, direitos humanos e questões socioambientais. Formada pela UFPE, foi trainee no Estadão, repórter no Jornal do Commercio e editora do PorAqui (startup de jornais de bairro do Porto Digital). Também foi fellowship da Thomson Reuters Foundation e bolsista do Instituto ClimaInfo. Já colaborou com Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Gênero e Número e Trovão Mídia (podcast). Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com