Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

Quem sai da cidade de Custódia, no sertão do Moxotó, com destino ao povoado de Sítio Cacimbinha, tem de pegar a PE-280 e estar atento às placas de sinalização para não passar direto, deixando para trás o discreto acesso ao vilarejo. Se isso acontecer, o viajante acaba indo parar no distrito de Albuquerque Né. Foi isso que aconteceu comigo na missão de encontrar os agricultores que, há uma década, cultivam algodão 100% orgânico na zona rural do município de Sertânia, a 313 quilômetros do Recife.

O jeito foi enfrentar o caminho mais difícil, percorrendo mais 18 quilômetros por estrada de terra a partir de Albuquerque Né, passando por encruzilhadas e bifurcações que pareciam surgir a cada palmo, até chegar às casas dos de Bartolomeu dos Santos, de 60 anos, e Joana d’Arc (conhecida como Darquinha), de 34, que fazem parte do projeto Algodão em Consórcios Agroecológicos.

O projeto, que é coordenado pela Diaconia, organização social cristã sem fins lucrativos, que atua em regiões urbanas e em todo o semiárido nordestino com o objetivo de promover justiça social, em parceria estratégica com a Universidade Federal de Sergipe (UFS) e com o apoio da Laudes Foundation (antigo instituto C&A), do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), da Fundação Arthur Bernardes (Fundarbe), do Instituto de Políticas Públicas e Desenvolvimento Sustentável (IPPDS), do projeto Aksaam (Adaptando Conhecimento para a Agricultura Sustentável e o Acesso a Mercados) e da Universidade Federal de Viçosa (UFV), gera renda para mais de duas mil famílias que plantam algodão em consórcio com outras culturas. Em Pernambuco, o projeto está presente nos municípios de Sertânia, Serra Talhada, Afogados da Ingazeira e São José do Egito.

Darquinha e Bartolomeu fazem parte da Associação dos Pequenos Produtores Rurais do Jacú, que é formada por 12 famílias agricultoras da região. Para integrar o Algodão em Consórcios Agroecológicos e receber apoio técnico e financeiro, os agricultores precisaram plantar em seus terrenos, num espaço de pelo menos um hectare – além do algodão – milho, feijão e gergelim, também orgânicos.

A variação nas culturas mantidas pelos agricultores é uma exigência do projeto para manter o solo saudável, evitar a proliferação de pragas na plantação e garantir a segurança alimentar dos pequenos produtores. Tudo dentro da proposta agroecológica, que procura revisar os métodos convencionais de manejo da terra, comuns às monoculturas em grande escala, que precisam fazer uso de agrotóxicos e desmatar grandes áreas para plantio, empobrecendo o solo e prejudicando a biodiversidade. 

Joana D’Arc colheu 88 quilos de algodão em 2020. Crédito: Géssica Amorim/MZ

Atualmente, o quilo da pluma de algodão orgânico produzido pelos agricultores custa R$ 14,19. No ano passado, Darquinha colheu uma média 88 quilos. Já seu Bartolomeu produziu 253 quilos, o que lhe rendeu quase R$ 3,6 mil. A produção dos agricultores de todo o projeto é vendida para a empresa francesa Vert Shoes, que fabrica tênis a partir de produtos orgânicos, utilizando o algodão do semiárido nordestino, borracha natural da Amazônia e couro do Rio Grande do Sul. Em 2013, a marca iniciou a sua produção no Brasil com o nome de “Veja”. 

Instalada no Vale dos Sinos, Sul do país, sob os princípios do fair trade (comércio justo), que tem como objetivo estabelecer o contato direto entre produtores e compradores, facilitando o comércio dos produtos, afastando atravessadores e protegendo o negócio da instabilidade global do mercado de matérias-primas, como o algodão. 

Apesar de plantar algodão no meio do sertão, usando sementes agroecológicas, plantadas durante o último mês de chuva, adubadas com compostos orgânicos, sem utilizar as técnicas tradicionais e dependentes de defensivos agressivos, de efeitos nocivos para a terra e quem trabalha e se alimenta do que ela produz, Darquinha e seu Bartolomeu são subestimados na região do povoado onde moram.

“A gente passa e o pessoal diz ‘lá vão os doidos!’. Mesmo com o aumento na procura dos agricultores daqui para entrar para o projeto, tem gente que ainda não acredita que pode dar certo”, conta Darquinha.  A agricultora também concorda que o incentivo e apoio técnico e financeiro das instituições parceiras do projeto são fundamentais para o seu sucesso. “Sem apoio, incentivo, não é possível. Os treinamentos são muito importantes pra gente entender melhor a terra e como trabalhar com ela de forma digna e sustentável”.

Seja mais que um leitor da Marco Zero

A Marco Zero acredita que compartilhar informações de qualidade tem o poder de transformar a vida das pessoas. Por isso, produzimos um conteúdo jornalístico de interesse público e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Tudo feito de forma independente.

E para manter a nossa independência editorial, não recebemos dinheiro de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, dependemos de você, leitor e leitora, para continuar o nosso trabalho e torná-lo sustentável.

Ao contribuir com a Marco Zero, além de nos ajudar a produzir mais reportagens de qualidade, você estará possibilitando que outras pessoas tenham acesso gratuito ao nosso conteúdo.

Em uma época de tanta desinformação e ataques aos direitos humanos, nunca foi tão importante apoiar o jornalismo independente.

É hora de assinar a Marco Zero

Clique aqui para doar