Luiz Inácio Lula da Silva, pé, se dirigindo à multidão que não aparece na imagem, com o punho direito levantado e mão esquerda segurando o microfone junto à boca. Ele usa camisa branca de mangas compridas, em contraste com o fundo escuro.
Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

O primeiro dia de pré-campanha de Lula em Pernambuco foi para consolidar o apoio à candidatura de Danilo Cabral. Vestindo camisa branca e calça jeans – a “farda” do PSB criada por Eduardo Campos – o ex-presidente fez discuros semelhantes em Garanhuns e Serra Talhada, deixando claro que apoia apenas Danilo Cabral na disputa pelo governo estadual. “Eu não confundo a minha relação pessoal com a minha relação política. O PT tem um compromisso nacional com o PSB”, afirmou em Garanhuns, sem citar o nome de Marília Arraes (SD), que saiu do PT para se candidatar ao governo e também usa a imagem do ex-presidente no seu material de campanha. “E eu quero cumprir o compromisso com o PSB e quero que o PSB cumpra o compromisso com o PT”, continuou.

Lula defendeu as diferenças ao falar da aliança com o PSB, que votou em peso no impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. “Nós não precisamos professar a mesma religião. Nós não precisamos torcer pro mesmo time. Nós não precisamos gostar da mesma praia. O que nós precisamos aprender é gostar de gente. É gostar do ser humano. É respeitar a diversidade. Por isso eu tinha que vir aqui dizer que eu tenho candidato em Pernambuco e esse candidato chama-se Danilo Cabral”, reforçou. O mesmo discurso pró aliança nacional foi repetido em Serra Talhada.

Nem em Garanhuns, nem em Serra Talhada o nome de Marília Arraes foi citado no palco, exceto por uma quase gafe da pré-candidata ao Senado Teresa Leitão (PT), que hesitou ao chamar o sobrenome de uma outra pré-candidata também chamada Marília.

Mais bem colocada nas pesquisas, Marília Arraes emitiu uma nota por sua assessoria de comunicação dizendo que não iria fazer comentários, mas já comentando: a pré-candidata disse lamentar “que o PSB submeta o presidente Lula a tamanho constrangimento em Pernambuco”, diz a nota.

Lula recebe gibão de couro observado por aliados do PSB e lideranças do PT. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

Os discursos de Lula e de Danilo Cabral

Em Serra Talhada, Lula começou a falar às 20h, quando o evento estava marcado para começar às 16h. Pediu desculpas: “Sei que nem todos têm minha disposição”, brincou, antes de iniciar um discurso de 40 minutos sem pausas. Lembrou que nunca perdeu uma eleição para presidente em Serra Talhada e recebeu 90.8% dos votos na última eleição, maior percentual entre as cidades brasileiras. Falou do orçamento secreto, do aumento da fome, do desemprego, da necessidade do acesso à cultura, da miséria e da paixão por Janja, sua esposa, que cantou o “Lula lá” nas duas cidades.

Mostrando que não perdeu nem um pouco do carisma e da conexão com o eleitorado, Lula falou sobre tomar uma caninha, uma cervejinha, comer buchada e churrasco. Lula também falou do aumento do Auxílio Brasil como uma ação eleitoreira de Bolsonaro, afirmando que há dois anos o PT defende o aumento do Bolsa Família. “Se aparecer dinheiro na conta de vocês, pegue. Peguem o dinheiro, compre a comida, compre o que precisam. E na hora de votar deem uma banana para ele e votem em quem vai resolver o problema de vocês”, disse. Destacou bastante a questão da fome e da alimentação na fala. Lula também defendeu o voto eletrônico. “Se pudessem roubar na urna eletrônica, vocês acham que Lulinha seria eleito em 2002?”

“Não estamos fazendo uma eleição comum. Essa eleição é diferente: não estamos fazendo disputa entre dois candidatos, entre dois partidos. É entre uma candidatura que defende a democracia, a questão dos direitos humanos, e estamos com outro candidato que é um negacionista, um desumano, que não soltou uma lágrima pelas vítimas da covid nem foi visitar as crianças orfãs por esse vírus”, afirmou, lembrando também da calamidade dos desabamentos após as chuvas no grande Recife. “Ele veio ver os alagamentos no Recife, sobrevoou, não falou com ninguém, e foi andar de jet ski em Santa Catarina”, criticou.

As chamadas pautas identitárias não foram destacadas. Apesar de, em Garanhuns, Lula ter falado rapidamente em “respeitar a diversidade”, a fala foi em um contexto mais de diferenças políticas. As questões indígenas foram levantadas apenas em Garanhuns, onde lideranças de vários povos estiveram no palco e fizeram um ritual de proteção para Lula. Os quilombolas foram lembrados por Marquinhos Xukuru, que puxou uma bandeira quilombola que estava na plateia. E foi só.

Temas como os direitos LGBTQIA+ não foram citados pelo candidato – ou nenhum outro político no palco de Serra Talhada, apesar de várias bandeiras do movimento na plateia.

Por sua vez, o candidato de Lula seguiu na mesma direção, focando o discurso em trabalho, educação e renda. Com uma camisa vermelha em Serra Talhada, Danilo Cabral lembrou das vitórias da Frente Popular – que há 16 anos governa Pernambuco – e de Eduardo Campos, elogiou Paulo Câmara e criticou Bolsonaro. Falou mais das mazelas nacionais e não tocou muito em assuntos mais locais.

Danilo Cabral falou bom tempo de costas para o público e se dirigindo a Lula. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

Citou Eduardo Campos como o maior governador de Pernambuco e que foi com ele que “aprendi tudo que sei”. Elencou também todo seu currículo, como ter sido secretário de governo e vereador do Recife. “Eu sonho em construir um Pernambuco que olhe para o povo do interior”, disse, afirmando que conhece todos os municípios do estado. Falou que vai criar um “pacto pela água”, coordenado por ele mesmo, para diminuir perdas e levar água para zona rural.

Em vários momentos, e por vários minutos, Danilo Cabral ficou de costas para o público, falando diretamente para Lula. “Tenha certeza de que estou preparado para esse desafio”, afirmou para o ex-presidente, ao entregar uma bandeira de Pernambuco, como se estivesse sendo entrevistado para um novo emprego.

Outro ponto que perpassou os discursos no palco foi a necessidade das esquerdas ocuparem às ruas. O senador pelo Amapá Randolfe Rodrigues (Rede), que é de Garanhuns e discursou na cidade, insistiu na posição de levar à oposição para as ruas. Em Serra Talhada, a candidata à vice na chapa de Danilo Cabral, Luciana Santos, repetiu o “não vamos nos intimidar”.

Câmara vaiado, Alckmin poupado

Nas duas cidades, o governador Paulo Câmara (PSB) foi vaiado ao ser anunciado no palco. Também sobraram vaias na entrada para Danilo Cabral e o prefeito do Recife, João Campos, mas não com o mesmo vigor. Em Garanhuns, porém, os ânimos se acalmaram e os três já não foram (tão) vaiados quando pegaram o microfone.

Em Serra Talhada, a plateia foi mais resistente. Ao iniciar sua fala, Paulo Câmara voltou a receber uma saraivada de vaias, misturado com aplausos da militância. Para evitar o climão, Lula se levantou e se posicionou ao lado do governador, encerrando os protestos.

O candidato à vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) passou incólume pelas vaias. Nas duas cidades, enfatizou ser a primeira vez que pisava nelas. Em Garanhuns, fez um discurso rápido em que repetia o bordão “Volta, Lula”. Em Serra Talhada, chamou o atual presidente de “bozo” e disse que ele não gosta do povo. E que tudo melhorará com a volta de Lula.

Antes do ato público em Garanhuns, Lula visitou a réplica da casa de infância em Caetés, cidade vizinha. Amanhã Lula tem um encontro com artistas no Teatro do Parque, seguido de almoço na casa de Danilo Cabral. Fechando a agenda em Pernambuco, o pré-candidato recebe a militância nesta quinta-feira no Classic Hall, em Olinda, a partir das 17h.

Multidão esperou quatro horas pelo discurso de Lula. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

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