Edição 2027 da Marcha das Margaridas já começou na Paraíba

Inácio França / 26/09/2026

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
  • Em parceria com Amado Mundo, conteúdo do projeto Território do Voto*

Alagoa Grande (PB) – Os usineiros paraibanos que, em agosto de 1983, pagaram 1,5 milhão de cruzeiros (ou 36,3 mil reais a dinheiro de hoje, corrigidos pela inflação) a uma dupla de matadores profissionais pelo assassinato da líder camponesa Margarida Maria Alves acreditavam que o crime seria o suficiente para gerar pânico entre as famílias agricultoras e de cortadores de cana, colocando um ponto final na luta por direitos sociais e trabalhistas. Não poderiam estar mais enganados.

A morte de Margarida se transformou em um marco. Desde então, os movimentos sociais acumularam força e conquistas nas regiões do Brejo e do Planalto da Borborema. O primeiro exemplo disso foi o Polo Borborema, uma articulação de sindicatos de trabalhadores rurais e 150 associações comunitárias de 15 municípios criada em 1993, dez anos depois do crime.

Sete anos depois, veio a Marcha das Margaridas.

A primeira Marcha das Margaridas pelas avenidas de Brasília aconteceu em agosto de 2000, com a participação de 20.000 trabalhadoras rurais. Inicialmente, o movimento fez parte de uma mobilização global contra a fome e a violência de gênero, a Marcha Mundial de Mulheres.

Naquele momento, a comissão de mulheres da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag) decidiu que a Marcha aconteceria no primeiro ano de mandato dos presidentes da República, sempre no dia 12 de agosto, data do assassinato de Margarida Alves.

Desde então, foram oito marchas. A próxima já está sendo preparada para acontecer em 2027, independente de quem esteja ocupando o Palácio do Planalto.

“Terra é poder”, sentencia Leônia, resumindo luta das mulheres paraibanas

“O movimento social do Brasil precisou se reunir para garantir os direitos pelos quais, historicamente, Margarida Maria Alves deu sua vida. Garantir o acesso à terra, à aposentadoria, à própria educação, essas eram as preocupações de Margarida Maria Alves”, recorda Maria Leônia Soares da Silva, agricultora no município de Massaranduba e coordenadora de mulheres da Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado da Paraíba (Fetag-PB).

No início de setembro, Leônia, ou Léa, como é mais conhecida, esteve à frente da caminhada com centenas de mulheres de vários municípios paraibanos que marcou o início dos preparativos para a Marcha do próximo ano. O ato público começou diante da casa de Margarida e terminou no Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alagoa Grande.

Ela explicou porque o movimento social atua para manter vivo o nome de Margarida entre os mais jovens: “o caminho que está construído hoje não foi construído da noite para o dia, já vem sendo trilhado há muito tempo. Muitas pessoas vieram construindo as políticas, vieram pautando a questão da educação contextualizada, a questão do acesso à água, da água com dignidade, lembrando que o acesso à terra ainda é um desafio”.

“Ter terra é ter vida, ter terra é ter alimento, ter terra é dignidade, ter terra é poder”, sentencia Leônia.

Nenhuma das Marchas das Margaridas foi tão tensa quanto a de 2019, a única sob o governo Bolsonaro. Pela primeira vez, garrafas de vinagre foram incluídas no kit levado pelas participantes e seriam usadas para umedecer os lenços caso a Polícia Militar do Distrito Federal tivesse usado gás lacrimogêneo. No final, nada disso foi necessário e as mulheres acabaram levando as garrafas para usar em suas cozinhas.

Outra marcha

Manifestações assim, conduzidas por mulheres, não são episódios isolados naquela região. Todos os anos, desde 2010, milhares de famílias agriculturas, principalmente mulheres, saem em caminhadas pelas ruas de alguma das cidades da região para cobrar políticas públicas ou denunciar violações de direitos. É a Marcha pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia, organizada pelo Polo Borborema.

Houve casos, como em 2023, em Montadas, quando o número de participantes da marcha era praticamente o mesmo da população do município. Naquela ocasião, a cidade de 5,8 mil habitantes recebeu 5 mil pessoas em uma manhã.

Nas últimas edições, a principal motivação da marcha foi o protesto contra os impactos gerados pelos grandes empreendimentos de energia eólica no interior do Nordeste.

“Como agricultoras, como movimento sindical que está nos territórios, a gente começou a perceber que a forma e o modelo como essas energias chegaram não é viável para a gente continuar no campo fazendo agricultura familiar”, explica Maria do Céu da Silva, agricultora e sindicalista em Solânea, lembrando que a virada de chave em relação às eólicas aconteceu em 2018.

“Foi quando a gente começou a descobrir anemômetros (instrumento que mede a velocidade do vento) implantados nas comunidades rurais. Então, nas visitas de intercâmbios com as mulheres ou com a juventude, a gente percebeu que aquilo não era bom, que esse modelo de energia traz muita violência para a vida das mulheres para o campo, traz muitas doenças, diminui a produção dos animais e das lavouras, vai tirando toda a paz, todo o sossego daquelas famílias”, contou Maria do Céu.

Projeto que regulamenta distância de aerogeradores aguarda sanção

De tanto bater nessa tecla, a marcha das mulheres paraibanas alcançou uma vitória que, por enquanto, é parcial. Em junho, a Assembleia Legislativa do estado aprovou o projeto de lei 2.061, que estabelece a distância mínima de 1.500 metros entre aerogeradores e residências ou edificações de uso público, coletivo ou privado.

O governador Lucas Ribeiro (PP), candidato à reeleição com apoio do presidente Lula (PT), ainda não sancionou a lei.

A pressão pela sanção contou com o reforço da Procuradoria da República na Paraíba, que emitiu uma Nota Técnica sobre o tema assinado pelo procurador José Godoy Bezerra de Souza. O documento defende considerar os impactos socioambientais da expansão eólica e aponta a necessidade de regulamentações que garantam a proteção das comunidades.

AUTOR
Foto Inácio França
Inácio França

Jornalista e escritor. É o diretor de conteúdo da MZ.