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“Eu, o assaltante e o policial não éramos negros do mesmo jeito”: reflexões de um intelectual vítima de violência

Maria Carolina Santos / 15/08/2023
Evandro Cruz Silva: homem negro, jovem, de cabelos e barbas pretas, vestindo camisa marrom e olhando diretamente para a câmera, ao fundo uma parede marrom avermelhada

Era noite em Salvador quando o escritor e sociólogo negro Evandro Cruz Silva foi assaltado a mão armada por um jovem, também negro. Na delegacia ao turista da capital baiana, um policial, negro, afirmou para Evandro que iria “caçar” o assaltante. O que viveu naquela noite levou o intelectual paulista, da periferia de Santos, a se questionar sobre se a defesa dos direitos de “nós negros” serve tanto para ele, quanto para o assaltante e o policial.

“…qualquer observador perceberia que eu, o assaltante e o policial não éramos “negros” do mesmo jeito. Aquela categoria, naquela situação, não resolvia o conflito no qual nos envolvemos”, escreveu Evandro no ensaio Eu, minhas convicções e um moleque preto com arma na mão, publicado na edição 44 da revista Serrote, do Instituto Moreira Salles.

No texto, Evandro propõe uma discussão sobre o risco de uma classe média negra consolidada “nos levar a uma solidariedade inter-racial (com os brancos) em nome da defesa do patrimônio privado e do punitivismo. Ignorar essa discussão pressupondo uma eventual aliança racial derivada da simples identificação entre os negros é ignorar seu aspecto de classe e abrir caminho para os “jagunços” e suas respostas baseadas na violência pura”, escreveu.

Não se trata, contudo, de afirmar que a solidariedade de classe se sobrepõe à solidariedade racial, diz Evandro Cruz Silva em entrevista por telefone à Marco Zero. “São aspectos que agem em momentos diferentes: em um dado momento, uma se torna mais importante que a outra. Na situação que eu cito, a identificação racial entre eu e o assaltante não funcionava para entender a situação. Ainda há muito pouca discussão de classe e raça em situações de violência”, diz.

Para Evandro, o acesso às políticas de cotas ajudaram a dar volume a uma classe média negra no Brasil. “Vemos a ascensão da classe média negra sob a lente da discriminação, o que, óbvio, vai acontecer: ninguém vai deixar uma pessoa negra ascender em paz. Mas, por outro lado, a ascensão de classe também é um antagonismo de classe. Esse tipo de conflito que eu sofri é típico da classe média, que é a que tem medo da violência. É uma questão a ser debatida: como não cair para a direita nesse momento de vulnerabilidade?”, questiona.

O apelo por essa queda, diz Evandro, se dá porque a extrema-direita é muito bem resolvida com a questão da violência, diferentemente do campo de esquerda: há uma solução simples e direta, que é a violência sendo punida com mais e mais violência. “É como a fala do policial que me atendeu, de “caçar”. Não é uma questão de letramento, de ignorância: são pessoas que têm uma teoria sobre o mundo e uma posição ideológica sobre o mundo, que nós não temos. Os projetos de segurança da esquerda são tímidos. É interessante como conseguimos ascender em vários lugares, mas no campo da segurança não há uma evolução das ideais há muito tempo – ao contrário do que acontece com a questão de gênero, por exemplo”, diz.

Para o sociólogo, não se trata, porém, de um abandono ou desinteresse das esquerdas com o debate sobre segurança pública. É mais perigoso que isso. “Existe uma concordância com as ideias da direita. Quando não estamos constrangidos e fingimos que o problema não existe, que é uma das saídas, reproduzimos o problema. A Polícia Militar que mais mata no Brasil hoje é a da Bahia, um estado negro, comandado há muito tempo por um governo de esquerda [o PT governa a Bahia desde 2007]. Não é coincidência, há algo no nível da adesão. Uma adesão constrangida”, acredita.

Por ser um problema complexo, a questão da segurança pública acaba sendo posta de lado ou silenciada. “Taticamente, a crítica tem seus momentos. Não é esperto politicamente ficar toda hora falando sobre o que aquilo que não conseguimos, a esquerda, fazer. A questão é que em outras pautas há um avanço na discussão – como a de questão de gênero, que não para – mas no campo da segurança, a discussão para em lugares muito simples e, de resto, só há o silêncio mesmo”.

Evandro Cruz Silva defende que deve haver alguma punibilidade e que um certo discurso de “vítima da sociedade” quando se fala sobre quem comete crimes pode soar como cinismo. “Ficamos revoltados quando somos vítimas de violência. E há uma lógica da política progressista de querer tentar eliminar os sentimentos ruins, como se ser progressista fosse ser um pacifista dos anos 60. Acho isso frágil, politicamente. É sempre importante não tirar a realidade da situação porque isso pode soar como cinismo para as pessoas que estão em vulnerabilidade. Só falar que a questão da violência é de cunho social, que o ladrão também é uma vítima, a depender da maneira que você fala, não só parece defesa do crime como desconsidera a dor das vítimas. Fica parecendo que a esquerda é um grande grupo de privilegiados que não tem que lidar com a violência. É importante reconhecer a dimensão real da violência e que a punição tem um lugar na vida social. Sem a punição, é muito difícil ter uma vida social viável”, afirma.

Direita trata segurança como questão moral, mas ganha dinheiro com prisões lotadas. Crédito: Canal Ciências Criminais

O lucrativo mercado da segurança

Porém, a maneira que o Brasil pune os criminosos hoje só reforça o ciclo de violência, diz o sociólogo. “Existem milhares de formas de punir e a que fazemos o Brasil é a pior possível. Se o menino que me roubou for preso – e ele vai ser preso, é tão estrutural isso – , esse evento da prisão não vai fazer nada para que ele não roube outra vez”.

As prisões no Brasil, diz Evandro, reproduzem uma lógica de mercado. “A segurança é um mercado bastante lucrativo. Não tratamos como mercado, mas as pessoas que a tratam como mercado ganham muito dinheiro com isso. A direita não trata o crime como mercado, trata como moral: “aquele moleque é o demônio e tenho que impedi-lo de roubar de novo, matando ou prendendo”. Mas o que não falam é que ao tratar a violência como problema moral ganham muito dinheiro com o mercado da segurança. Ao não falar sobre dinheiro, ganham dinheiro: as pessoas que constroem prisões ganham dinheiro, as que vendem marmita, a fábrica de armas, a polícia abre mais concurso porque tem que ter mais policial. E ainda tem o cinismo de falar que o ladrão é que está ganhando dinheiro. Há um mercado gigante e não conseguimos tratar o crime como mercado, não conseguimos descriminalizar as drogas e tem muita gente enriquecendo só porque tem milhares encarcerados por conta do tráfico de drogas. É uma disputa por dinheiro”.

Para Evandro Cruz Silva, a solução para o complexo problema da violência no Brasil passa primeiramente pela abolição da cadeia. “O esvaziamento progressivo de ambientes prisionais vai quebrando uma carreira criminal para sujeitos muito pobres. Precisamos disputar a sério a ideia de que um mundo com menos cadeia é um mundo mais seguro. A discussão sobre a descriminalização da venda de drogas é um ponto central. Se você tirar 30% do contingente que está preso por tráfico, já se tem um argumento sério de que isso tornou a vida mais segura e a direita está errada. Tira um pouco do monopólio que a direita tem sobre a segurança. Aposto muito nisso: um mundo com menos prisões talvez seja mais fácil de demonstrar qual é a nossa ideia de segurança”, diz.

Como alternativa para o encarceramento, Evandro Cruz Silva cita os regimes de semi-aberto, liberdade condicionada, prestação de serviços, multas. “Toda punição requer uma desigualdade. Mas da mesma maneira que eu quero que uma pessoa que me chame de macaco seja punida, eu não posso prescindir da ideia de que uma pessoa que está assaltando outra não seja punida. Mas se o menino que me assaltou fosse preso, receberia uns 12 anos de cadeia, por agressão e assalto à mão armada. Ele iria sair da cadeia somente após uns cinco ou seus anos. Isso é inviável. Não dá para colocar um jovem que cometeu uma violência encarcerado por meia década. A gente pune demais, porque tem que alimentar esse mercado da segurança. Não é para proteger a sociedade, mas para dar uma razão para a existência da cadeia”, afirma.

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AUTOR
Foto Maria Carolina Santos
Maria Carolina Santos

Jornalista pela UFPE. Fez carreira no Diario de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Ávida leitora de romances, gosta de escrever sobre tecnologia, política e cultura. Contato: carolsantos@gmail.com