Gritos dos Excluídos e Excluídas no Recife, 2021
Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo

Errou feio quem imaginava que, na quinta manifestação seguida em pouco mais de três meses, as forças progressistas do Recife estariam desmobilizadas ou acuadas pelas ameaças de violência bolsonarista. Pelo 27º ano consecutivo, o Grito dos Excluídos e Excluídas aconteceu no Recife na manhã de 7 de setembro, mas desta vez com foco na defesa da democracia e em resposta à ameaça golpista do presidente Jair Bolsonaro. Como nos quatro protestos anteriores, a concentração do ato aconteceu na praça do Derby e teve como destino o pátio da basílica de Nossa Senhora do Carmo, a três quilômetros de distância.

E também como das outras quatro vezes este ano, as esquerdas tomaram as ruas com a marca da diversidade e pluralidade: frades franciscanos ao lado de militantes empunhando as bandeiras do movimento LGBTQIA+, policiais antifascistas caminhando junto às lideranças indígenas, estudantes misturando-se aos ex-presos políticos da geração de 1968, feministas com evangélicos, bandeiras vermelhas dividindo espaço com fantasias que lembravam o carnaval de rua de Olinda, como a que associa a imagem clássica da morte a Bolsonaro.

Os missionários franciscanos Gabriel Maria, Mariófilo Maria e Lourenço de Santa Isabel saíram da comunidade do Tururu, no Janga, para participar pela primeira vez do Grito levando bandeiras do ex-presidente Lula (PT). “Temos uma formação voltada para a luta das classes sociais. Pela vida do pobre, como Francisco nos ensinou, por isso viemos por todos os excluídos. E, principalmente, pelo Fora Bolsonaro. Ele não servia e agora é que não serve mesmo para a condição do nosso país. Chegou a vez do povo mostrar sua força e tirar do poder essa pessoa que não serve para o Brasil”, explicou o frade Mariófilo.

Gritos dos Excluídos e Excluídas no Recife, 2021
Diversidade marcou o Grito dos Excluídos e Excluídas. Crédito: Giovanna Carneiro/MZ Conteúdo

Indígenas e militantes “das antigas”

Logo à frente da passeata, que começou a atravessar a avenida Agamenon Magalhães pouco depois das 11h, estava a cacica Valquíria Kialonu, da Karaxu Wanassu, entidade que agrega indígenas de vários povos que vivem na cidade do Recife. “Estamos aqui em busca dos nossos territórios, dos nossos direitos, e também de políticas públicas”, disse ela, que também representa a Assikuka, Associação Indígena em Contexto Urbano.

De acordo com Valquíria, 3.645 indígenas estão vivendo no Recife e mais de 6 mil moram em contexto urbano em várias cidades de Pernambuco. No entanto, ela explicou que muitos estão hoje em Brasília, no acampamento contra o Marco Temporal. “Somos Fora Bolsonaro porque ele está tirando todos os nossos direitos que foram conquistados desde a Constituição de 1988. Somos contra o PL 490. Nós existimos antes do Estado, antes de 1988. É um governo genocida. Estamos pleiteando também as políticas públicas dentro da cidade, somos indígenas onde estivermos, mesmo no contexto urbano”, disse a cacica.

Acompanhando os representantes da geração de militantes que participaram da resistência à ditadura militar, o sociólogo e ex-preso político Edval Nunes Cajá comentou sobre o momento de ameaça de ruptura democrática: “Não esperávamos que o retrocesso político, econômico e social fosse tamanho. Estamos vivendo uma situação de barbarização impensável da sociedade brasileira. Aumento da quantidade de pessoas em situação de rua, sem alimentos…é preciso deter essa marcha sinistra para o fascismo”.

Cacica Valquíria Kialonu do Karaxu Wanassu no Grito dos Excluídos e Excluídas 2021
Cacica Valquíria representou organizações da luta indígena. Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo

Bolsonarismo na polícia está caindo

O presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco e coordenador nacional do Movimento Policiais Antifascismo, Áureo Cisneiros, levou boas notícias ao Grito dos Excluídos e Excluídas. Ele reconhece que a atmosfera de golpe de Estado aumentou e se tornou mais intensa nos últimos dias, mas ele está convicto de que “isso não vai prosperar”.

“Até porque o bolsonarismo caiu muito. Na polícia civil, por exemplo, houve ataques (do governo) aos direitos dos policiais civis. Na polícia militar temos uma resistência maior, mas a gente vê que já está também dando uma reviravolta”, revelou, concluindo que, “passando o Sete de Setembro não vai mais ter esse clima para golpe aqui no Brasil”.

Segundo ele, o Movimento Policiais Antifascismo tem cerca de dois mil integrantes em todo o Brasil. “Temos a esperança que nosso projeto seja implementado, num possível governo progressista, que é de uma segurança pública pautada nos direitos humanos, na cidadania. Temos movimento no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, nas principais capitais do Nordeste. Estamos nas ruas contra o golpe, contra o fascismo e que se estabeleça no Brasil uma ordem democrática firme. É isso o que a gente quer e é por isso que estamos na luta. Não vamos admitir nenhum tipo de golpe”, afirmou.

Ciranda e frevo

A dispersão do ato no pátio do Carmo ajudou os militantes a lembrar do carnaval, cancelado em 2021 por causa da pandemia. Teve ciranda, teve orquestra de frevo e teve calor, muito calor. Sob o sol das 13h20min, os manifestantes espalharam-se pelas avenidas do centro. Enquanto a maioria seguiu para casa ou para o Armazém do Campo, na rua do Imperador, outros foram dar suporte às 150 famílias da Frente Popular por Moradia no Centro, que ocuparam o prédio do Centro Cultural dos Correios, na avenida Marquês de Olinda, fechado durante a pandemia.

Famílias sem-teto ocupam prédio dos Correios no Recife Antigo fechado no início da pandemia