Ocupação no prédio do Centro Cultural dos Correios
Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo

Cerca de 150 famílias ocuparam neste Sete de Setembro o prédio do Centro Cultural Correios, localizado na esquina da avenida Marquês de Olinda com a rua Madre de Deus, no Recife Antigo. As famílias fazem parte do recém-criado movimento Frente Popular por Moradia no Centro e chegaram ao local às 13h, logo após o fim da manifestação do Grito dos Excluídos e Excluídas.

O prédio, que pertence aos Correios, estava desativado desde o início da pandemia, em março de 2020, quando as atividades no local foram suspensas. No ano passado, a empresa pública divulgou que o prédio iria a leilão. De acordo com as líderes do movimento, as famílias são oriundas de diversos lugares do Recife, como Mustardinha, Mangueira, Afogados e Caranguejo Tabaiares.

A ocupação estava sendo articulada há dois meses. “Decidimos que o dia Sete de Setembro seria o dia marcado para se ocupar”, conta uma das líderes, Thaís Maria, de 21 anos. A ideia é pressionar o poder público por uma moradia digna também no Centro do Recife. “Não é só o Porto Digital, nem os ricos que podem morar no centro. Os pobres e os trabalhadores também têm direito de morar no centro da cidade”, afirma Thaís.

Outra líder do movimento, Bruna de Oliveira, de 28 anos, frisa que a maioria das pessoas na ocupação são mulheres e crianças. “Viemos para essa ocupação porque a gente viu que as famílias não conseguiam mais pagar um aluguel na pandemia. A gente decidiu ocupar esse prédio, porque vai ser leiloado”, diz.

Citando um levantamento da organização não-governamental Habitat Brasil, Bruna lembrou que somente no bairro de Santo Antônio ha 42 prédios desocupados ou abandonados. “E quando a gente viu outros movimentos ocupando prédios, a gente decidiu ocupar também. Criamos esse movimento há dois meses e para mostrar também que não é só homem, que as mulheres podem lutar pela moradia. As mulheres estão de frente nessa ocupação. Estamos com força e garra que vamos resistir e vamos morar no centro”, afirmou, reiterando que a ideia das famílias é conseguir uma habitação no próprio centro do Recife.

Logo após a entrada das famílias, policiais militares do 16º batalhão foram até o local e ameaçaram chamar o Batalhão de Choque para acabar com a ocupação. O advogado popular Antônio Celestino, da Comissão de Advocacia Popular da OAB-PE, acompanhava o Grito dos Excluídos e Excluídas e foi até o local intermediar a conversa com a PM. “Conversamos com os policiais e explicamos que se eles entrassem iria ser um desastre. Tem muita criança e mulheres, é um perfil diferente. Também estão contra a privatização dos Correios”, disse o advogado.

O nome da Ocupação é Custódio Pereira, em referência a um representante da luta por moradia em Pernambuco, que faleceu há um ano.

Moradia digna no centro

O vereador Ivan Moraes (Psol) foi até o local prestar apoio às famílias. “. “Estamos em uma cidade em que mais de 60 mil famílias não têm onde morar com dignidade. Tem muita gente ameaçada de despejo em plena pandemia. É muito relevante que haja pessoas dispostas a realizar atos diretos de ocupação de espaços”, disse.

O vereador citou a matéria da Marco Zero que mostra as dívidas de IPTU de prédios no centro para cobrar políticas públicas do governo do estado e da prefeitura. “Precisamos de políticas de moradia, os programas estão parados. A prefeitura e o estado não caminham na pauta de habitação. Nosso objetivo é que essas famílias só saiam daqui para morar com dignidade”, disse.

A também vereadora Dani Portela (Psol) ), que integra uma frente parlamentar em defesa do centro do Recife, também está acompanhando a ocupação. Ela criticou a condução das políticas urbanas no centro da capital. “As revitalizações que ocorreram nos anos 2000 foram em uma perspectiva higienista. Então revitalização era pintar fachada, trazer empreendedores, mas não pensar numa revitalização que traz vida, com pessoas circulando. É uma luta muito justa a pela moradia no centro. As desigualdades sociais fizeram com que o racismo, que é ambiental também, expulsasse as pessoas mais pobres, em maioria negra, para as periferias, para os lugares mais distantes. E são as pessoas que mais precisam se deslocar para ir trabalhar. É uma luta pautada por moradia justa no centro da cidade, principalmente nesse momento em que a miséria e o desemprego estão aumentando”, afirmou.

A privatização dos Correios

O comunicador popular e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Jones Manoel, contextualizou a escolha do prédio dos Correios para a ocupação. “Primeiro e mais importante, é para denunciar a falta de política de moradia popular. O Brasil tem um déficit de moradia de mais de três milhões de famílias e crescendo. O próprio processo de geração de dados sobre moradia popular vem sendo atacado por Bolsonaro, frente ao desmonte do IBGE e a sabotagem dos processos de pesquisa do órgão. Então até os números não são algo tão certo”, disse.

Jones Manoel também criticou a falta de políticas públicas na área de habitação. “Aqui em Pernambuco a gente tem um governo estadual que se diz progressista, de Paulo Câmara, mas não tem nenhum programa de moradia popular. Quase oito anos de governo e não tem números para mostrar na habitação. Recife, governada também pelo PSB, agora com João Campos, é a capital brasileira com a maior desigualdade. Recife que já foi marcada por uma forte política de moradia popular, agora está abandonada”, afirmou.

Ele também lembrou que os Correios já foram considerados a melhor empresa do ramo no mundo. “É uma empresa lucrativa, que cobre todo o território nacional. Em muitas cidades pequenas os correios são o único lugar para pagamentos, porque não tem banco ou casa lotérica”, ponderou.

A privatização dos Correios foi aprovada no dia cinco de agosto na Câmara dos Deputados. Agora, segue no Senado. Os Correios são a estatal que mais emprega no Brasil, com 98 mil empregos diretos e indiretos. No ano passado, a empresa teve um lucro de R$ 1,3 bilhão.

“O Governo Bolsonaro está privatizando os Correios por um valor irrisório. E já fala em criar uma empresa para atender as cidades pequenas e médias, que não dão lucro. Ou seja, vai pegar o filé mignon, o serviço de entrega em cidades grandes, e entregar para uma empresa privada, enquanto nos interiores Brasil afora fica uma empresa pública levando prejuízo. Lucro, privado. Prejuízo, público. Isso vai piorar muito as condições de vida e os serviços em todo o Brasil. Estamos contra a privatização. Esse ato aqui é também contra a destruição dos Correios. É um patrimônio público fundamental e não vamos abandoná-lo”, afirmou Jones Manoel.

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