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Guia Comum do Centro do Recife traz curiosidades, ruínas e memórias

Maria Carolina Santos / 06/02/2026
A foto mostra a parte superior de um prédio antigo e desgastado, com sinais de envelhecimento nas paredes. No topo, há uma escultura de um coelho deitado, chamando atenção por ser incomum e curiosa. Logo abaixo, uma placa traz a palavra “COELHO”, em destaque, reforçando a ligação com a escultura. Também aparece um banner com texto em português parcialmente visível, sugerindo propaganda ou promoção de algum negócio. Ao fundo, o céu azul e algumas plantas contrastam com a aparência envelhecida da construção.

Crédito: Chico Ludermir/Divulgação

Um edifício chamado Coelho. E com uma linda escultura de um coelho no topo dele. Uma loja que praticamente só vende cadarços: tem de todos os tipos, de todas as cores. Se você quiser um pão em formato de jacaré, tem. Se preferir com a forma de uma tartaruga, também tem. Uma ponte que é chamada de giratória, mas fica sempre ali, paradinha. Árvores inteiras – com galhos, troncos e raízes – que (sobre)vivem emparedadas em prédios há muito abandonados. Uma livraria em que o roubo de livros era visto com parcimônia e um mural de um dos maiores artistas brasileiros do século 20.

É claro que estamos falando do centro do Recife, também chamado simplesmente de “cidade”. Em pouco mais de 100 páginas, o livro Guia Comum do Centro do Recife apresenta uma cidade que já foi e ainda é, mesmo que seja somente na memória, única e cheia de descobertas surpreendentes. Lançado em 2015, por meio de um projeto do Funcultura, o livro ganhou uma reimpressão por meio de um financiamento coletivo e será relançado neste sábado (07), das 09h às 13h, no Chá Mate Brasília.

A foto mostra o interior de uma pequena lanchonete com balcão metálico e decoração simples. Atrás do balcão está um homem de uniforme branco e boné, provavelmente funcionário do local. Do outro lado, uma mulher sorri enquanto conversa com ele, transmitindo um clima descontraído e acolhedor. Sobre o balcão há uma garrafa de vidro de Coca-Cola. Ao fundo, vê-se um painel com cardápio em português, relógio de parede e equipamentos como liquidificador e dispensador de sucos, reforçando o ambiente típico de um ponto tradicional de bebidas e lanches.

Bruna Rafaella com José Pinheiro, sócio e atendente do tradicional Chá Mate Brasília.

Crédito: Isabela Cunha/Divulgação

Assim como a cidade é múltipla, o Guia também é. Na equipe, há artistas, designers, ilustradores, urbanistas, jornalistas e fotógrafos explorando diferentes linguagens – tem poema, reportagem, partitura musical, muitas ilustrações e fotos – para fazer um tour poético e político pela identidade urbana do centro do Recife. O índice poético do livro traz 15 categorias que propõem diferentes passeios como “lugares para levantar o olhar”, “lugares para baixar o olhar”, “lugares invisíveis”, “lugares que são becos”, “lugares para comer pão em formato de bicho”.

“O centro, de todas as cidades, é o espaço da vida pública. É o espaço de circulação das novas ideias, das trocas com o diferente. É onde você vai encontrar gente do interior, como eu, circulando, onde você vai encontrar gente de várias gerações. Onde se vê os ciclos da cidade: agora são as compras de pré-carnaval e início de aulas. Não é só o consumo no sentido do poder aquisitivo, é o da circulação desse ciclo da vida, dessa passagem de estudar, trabalhar, comer, se divertir. É como se o centro convergisse todo esse ciclo de vida”, conta a artista visual e pesquisadora Bruna Rafaella Ferrer, idealizadora e organizadora do livro.

Inicialmente, o projeto era para falar das ruínas do centro do Recife. Ao longo de dois anos de pesquisa, se transformou no Guia. Como não é uma nova edição, não há atualização das informações – virou também um retrato de como era aquele centro de dez anos atrás. De lá pra cá, houve mais permanências que mudanças, mas parece que a cidade se aproxima mais daquela ideia inicial de ruína. “Há lugares que estão no meio do caminho entre existir e não existir ou na iminência de não existirem mais, mas que ainda persistem seja materialmente no espaço seja simbolicamente na memória afetiva das pessoas”, conta Bruna Rafaella.

Nos últimos meses, ela fez algumas ativações do Guia, fazendo tours pelos lugares da cidade que constam no livro. “Tem lugares que eu não tinha ido novamente em 10 anos. Eu acho que o ponto de partida da ruína viva está mais forte ainda agora, dez anos depois. Eu tinha muita curiosidade, por exemplo, na casa do cadarço, que era algo muito específico, muito inusitado. Eu fui lá e deu uma dó, tinha só uns cadarçozinhos lá pendurados, mas eu não tive coragem nem de bater para saber se tinha alguém dentro. Muitos lugares do Guia ainda estão vivos, mas é como se o esqueleto estivesse mais à vista do que a carne”, disse.

A foto mostra um livro aberto, segurado por duas mãos. As páginas são impressas em papel cor-de-rosa. À esquerda, há um título em destaque: “Gárgulas do Mercado de São José”, acompanhado de uma ilustração de gárgula e um texto em português que fala sobre a arquitetura e a história do mercado no Recife. À direita, aparece uma fotografia em preto e branco da parte superior de um edifício, onde duas gárgulas estão posicionadas nos cantos. Abaixo da foto, há informações práticas sobre o local, como endereço e horários de funcionamento.

Ilustrações e fotos também contam a história do centro do Recife no livro.

Crédito: Rafael Céu/Divulgação

Natural de Vitória de Santo Antão, Bruna Rafaella cresceu visitando o Recife e se surpreendendo e encantando pela avenida Guararapes, com seus sebos de discos e livros debaixo das marquises dos prédios. Toda a atual discussão política e econômica sobre os rumos do centro do Recife foi um incentivo a mais para a reimpressão do livro, mas a ideia é fazer um projeto de financiamento para uma segunda edição atualizada do guia.

O preço do livro, R$ 100, é salgado porque a reimpressão foi toda custeada pela venda dos exemplares, que são poucos. “Todos os serviços de produção como gráfica, confecção de camisetas e compra de materiais foram realizados em estabelecimentos no centro da cidade. É um projeto concebido do centro para o centro”, conta Bruna.

Como ao longo desses dez anos o livro tem sido usado em sala de aula, há a possibilidade de professores e professoras conseguirem o livro de forma gratuita. Quem quiser saber mais detalhes, pode entrar em contato pelo Instagram do guia:@guiacomumdorecife.

Serviço

Relançamento do Guia Comum do Centro do Recife

  • Quando: Amanhã (07/02), das 09 às 13h
  • Onde: Chá Mate Brasília (R. Alarico Bezerra, 279 – Loja 28, Santo Antônio)
    Conversa com a organizadora do livro e DJ set do artista e curador Aslan Cabral. Também terá entrega do livro para quem comprou na campanha de financiamento, lançamento de um novo sabor de chá mate (chá de erva mate com limão, abacaxi e hortelã) e de cartões postais do Guia.
    O acesso é gratuito e o Guia Comum do Centro do Recife estará à venda por R$ 100
  • Mais informações: @guiacomumdorecife 

AUTOR
Foto Maria Carolina Santos
Maria Carolina Santos

Jornalista pela UFPE. Fez carreira no Diario de Pernambuco, onde foi de estagiária a editora do site, com passagem pelo caderno de cultura. Contribuiu para veículos como Correio Braziliense, O Globo e Revista Continente. Contato: carolsantos@marcozero.org