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Homens viajam para arrumar trabalho e mulheres quilombolas ficam pra cuidar da lavoura, da casa e dos filhos

Géssica Amorim / 15/06/2022
Fachada de casa simples, pintada de amarelo claro com uma porta de metal à esquerda da foto e uma janela basculante gradeada à direita. Na porta da casa está uma mulher negra, magra, de cabelos curtos, descalça, vestindo uma blusa cor de rosa e uma saia estampada nos tons azul, verde e rosa. Aos pés da mulher, na calçada, quatro pares de sandálias japonesas estão amontoados.

Todos os anos, mais da metade dos homens do Quilombo Teixeira que estão na faixa etária considerada como “economicamente ativa” viajam para trabalhar com o corte de cana em engenhos dos estados de Alagoas, Bahia e Rio de Janeiro. Esta comunidade quilombola, na zona rural de Betânia, no sertão de Pernambuco, a 349 quilômetros do Recife, é formada por pouco mais de 90 famílias. 

São seis, sete, até nove meses longe de casa. Entre os homens, praticamente, só permanecem em Teixeira as crianças, os aposentados e quem tem a sorte de possuir um emprego fixo em algum outro lugar do município. As mulheres que são casadas com cortadores de cana também permanecem na comunidade e trabalham sozinhas, cuidando dos filhos, da casa, dos animais e da roça. 

São os casos das agricultoras Josefa Eva, de 38 anos, Josielma dos Santos (conhecida como Nelma), 32, e Maria das Graças (conhecida como Pretinha), de 44. Casadas com agricultores que trabalham com o corte de cana e, de segunda a sexta, também precisam se dedicar a uma jornada de trabalho intensa e pesada. 

Josefa Eva é agricultora desde criança, sempre trabalhou plantando e colhendo. Quando casou com Josias Manoel, 41, há mais de 20 anos, além de continuar trabalhando na roça, passou a ser responsável por cuidar das três filhas do casal, dos animais que pertencem a eles e da casa. Josias começou a trabalhar cortando cana no final da década de 90 e, de lá para cá, só passou um ano inteiro em casa. O engenho para onde ele costuma viajar fica localizado no estado de Alagoas, no município de Coruripe, a pouco mais de 80 quilômetros de Maceió.

“Vou pra roça de carro de boi, de moto. Antes, ia a pé. O período que ele [Josias] viaja é difícil porque a gente faz tudo sozinha, né? É bastante coisa pra dar conta, é bem complicado. Mas, ele precisa se deslocar para trabalhar. Aqui não tem emprego fixo pra ninguém”, conta Josefa.

Este ano, Josias Manoel deve viajar para passar pelo menos 9 meses longe de casa. Pela segunda vez, em quase duas décadas de casamento, Josefa deve acompanhá-lo. Marta, a filha mais nova, de 10 anos, vai viajar com o casal. As outras duas, Jamile e  Josiérica, de 13 e 17, ficarão com as tias, irmãs de Josefa. Os animais também ficarão sob responsabilidade de familiares da agricultora. 

Bem perto da casa de Josefa, mora a agricultora Nelma. Ela é casada com Aelson João, 35, há mais de 12 anos. Ele também sempre trabalhou com o corte de cana e deve viajar para Pindorama (outro município de Alagoas) em setembro deste ano e ficar por lá por pelo menos seis meses. 

Mulher negra, com semblante sério e cabelos curtos, usando blusa rosa, olha fixamente para a câmera. À direita, um menino negro, de cabelos bem curtos e óculos de grau, usa camisa polo verde. Ambos estão sentados num sofá cinza escuro estampado, com uma parede rosa por trás.

Quando o marido está fora, jornada de Nelma começa de madrugada. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

 O casal tem dois filhos: Adryan e Andrey, de 11 e cinco anos. Nelma nunca chegou a acompanhar o marido. Durante todo o tempo de casada, permaneceu vivendo e trabalhando no quilombo Teixeira. O seu filho mais novo é autista, foi diagnosticado aos três anos. A agricultora conta que, dentro da sua rotina, precisa se dedicar principalmente ao acompanhamento médico do filho. “Eu nunca fui com ele [Aelson] porque tem muita coisa aqui pra fazer. E o meu filho mais novo é autista. Além de todo o trabalho que tenho na roça, com os bichos e em casa, preciso cuidar dele. Do tratamento dele. Não posso viajar e deixar ele aqui – coisa que nunca nem pensei”.

Todos os dias, Nelma acorda às cinco da manhã e enfrenta uma jornada bastante cansativa. “Levanto cinco horas. Faço café e solto as cabras no mato. Depois, levo os meninos pra escola e vou pra roça. Mais tarde, volto em casa pra fazer o almoço e buscar eles. Arrumo a casa e, quando precisa, volto pra roça de novo. Quando chego em casa de vez, é hora de recolher as cabras e me preparar pra dormir com os meninos. É uma correria”.

Esse ano a chuva chegou tarde no quilombo Teixeira. A água veio muito tempo depois do plantio. Quem conseguiu colher, colheu pouco. Numa quantidade insuficiente para o consumo até a próxima safra. 

 Josefa e Nelma ainda conseguiram tirar da terra um pouco de milho e feijão, mas a agricultora Pretinha não teve a mesma sorte. A sua roça não deu nada esse ano. Em março, antes de viajar para cortar cana em um engenho de São Francisco do Itabapoana (interior do Rio de Janeiro), o seu marido, Carlos Rosa, 47, ainda preparou a terra para o plantio, mas o sol queimou o que estava brotando. 

Pretinha e Carlos estão casados há 20 anos e têm dois filhos e uma neta. Josielson, 25, viajou para o Rio de Janeiro para trabalhar com o pai. Com Pretinha, ficaram Jaqueline, 23, e a sua filha Maria Liz, de 3 anos. Como outras agricultoras, Pretinha também precisa cuidar da terra, dos animais, da casa e da neta, quando a sua filha precisa se ausentar. 

No quilombo Teixeira, a rotina das mulheres cujos maridos precisam se deslocar para trabalhar com o corte de cana em outras cidades e estados é, praticamente, a mesma. Nitidamente, há um grande acúmulo de funções na vida e no trabalho dessas mulheres. “Por aqui, o agricultor vive no meio do mundo. As mulheres ficam em casa, cuidando de tudo. É difícil quando um filho adoece e a gente tem que cuidar sozinha, além de dar conta de todas as outras coisas. No inverno, nós temos que plantar, capinar e colher. Eles deixam só a terra arada e o resto é a gente quem faz. É muito difícil”, conta Pretinha. 

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2020, as mulheres que trabalham dedicam cerca de 18,5 horas todos os dias para realizar tarefas domésticas e cuidar de pessoas da família, especialmente dos filhos. Já com relação aos homens empregados, a pesquisa mostra uma dedicação de 10,4 horas para essas atividades. A diferença é de mais de oito horas.

Close de homem negro, aparentando mais de 40 anos, fotografado em ambiente de pouca luz e parede rosa. Ele usa camisa cinza e olha fixamente para a câmera. Ele está com semblante sério e sua esclera (o branco dos olhos) é amarelada.

Josias Manoel deve ficar pelo menos nove meses longe de Teixeira. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

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