Fachada de casa simples, pintada de amarelo claro com uma porta de metal à esquerda da foto e uma janela basculante gradeada à direita. Na porta da casa está uma mulher negra, magra, de cabelos curtos, descalça, vestindo uma blusa cor de rosa e uma saia estampada nos tons azul, verde e rosa. Aos pés da mulher, na calçada, quatro pares de sandálias japonesas estão amontoados.
Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

Todos os anos, mais da metade dos homens do Quilombo Teixeira que estão na faixa etária considerada como “economicamente ativa” viajam para trabalhar com o corte de cana em engenhos dos estados de Alagoas, Bahia e Rio de Janeiro. Esta comunidade quilombola, na zona rural de Betânia, no sertão de Pernambuco, a 349 quilômetros do Recife, é formada por pouco mais de 90 famílias. 

São seis, sete, até nove meses longe de casa. Entre os homens, praticamente, só permanecem em Teixeira as crianças, os aposentados e quem tem a sorte de possuir um emprego fixo em algum outro lugar do município. As mulheres que são casadas com cortadores de cana também permanecem na comunidade e trabalham sozinhas, cuidando dos filhos, da casa, dos animais e da roça. 

São os casos das agricultoras Josefa Eva, de 38 anos, Josielma dos Santos (conhecida como Nelma), 32, e Maria das Graças (conhecida como Pretinha), de 44. Casadas com agricultores que trabalham com o corte de cana e, de segunda a sexta, também precisam se dedicar a uma jornada de trabalho intensa e pesada. 

Josefa Eva é agricultora desde criança, sempre trabalhou plantando e colhendo. Quando casou com Josias Manoel, 41, há mais de 20 anos, além de continuar trabalhando na roça, passou a ser responsável por cuidar das três filhas do casal, dos animais que pertencem a eles e da casa. Josias começou a trabalhar cortando cana no final da década de 90 e, de lá para cá, só passou um ano inteiro em casa. O engenho para onde ele costuma viajar fica localizado no estado de Alagoas, no município de Coruripe, a pouco mais de 80 quilômetros de Maceió.

“Vou pra roça de carro de boi, de moto. Antes, ia a pé. O período que ele [Josias] viaja é difícil porque a gente faz tudo sozinha, né? É bastante coisa pra dar conta, é bem complicado. Mas, ele precisa se deslocar para trabalhar. Aqui não tem emprego fixo pra ninguém”, conta Josefa.

Este ano, Josias Manoel deve viajar para passar pelo menos 9 meses longe de casa. Pela segunda vez, em quase duas décadas de casamento, Josefa deve acompanhá-lo. Marta, a filha mais nova, de 10 anos, vai viajar com o casal. As outras duas, Jamile e  Josiérica, de 13 e 17, ficarão com as tias, irmãs de Josefa. Os animais também ficarão sob responsabilidade de familiares da agricultora. 

Bem perto da casa de Josefa, mora a agricultora Nelma. Ela é casada com Aelson João, 35, há mais de 12 anos. Ele também sempre trabalhou com o corte de cana e deve viajar para Pindorama (outro município de Alagoas) em setembro deste ano e ficar por lá por pelo menos seis meses. 

Mulher negra, com semblante sério e cabelos curtos, usando blusa rosa, olha fixamente para a câmera. À direita, um menino negro, de cabelos bem curtos e óculos de grau, usa camisa polo verde. Ambos estão sentados num sofá cinza escuro estampado, com uma parede rosa por trás.
Quando o marido está fora, jornada de Nelma começa de madrugada. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

 O casal tem dois filhos: Adryan e Andrey, de 11 e cinco anos. Nelma nunca chegou a acompanhar o marido. Durante todo o tempo de casada, permaneceu vivendo e trabalhando no quilombo Teixeira. O seu filho mais novo é autista, foi diagnosticado aos três anos. A agricultora conta que, dentro da sua rotina, precisa se dedicar principalmente ao acompanhamento médico do filho. “Eu nunca fui com ele [Aelson] porque tem muita coisa aqui pra fazer. E o meu filho mais novo é autista. Além de todo o trabalho que tenho na roça, com os bichos e em casa, preciso cuidar dele. Do tratamento dele. Não posso viajar e deixar ele aqui – coisa que nunca nem pensei”.

Todos os dias, Nelma acorda às cinco da manhã e enfrenta uma jornada bastante cansativa. “Levanto cinco horas. Faço café e solto as cabras no mato. Depois, levo os meninos pra escola e vou pra roça. Mais tarde, volto em casa pra fazer o almoço e buscar eles. Arrumo a casa e, quando precisa, volto pra roça de novo. Quando chego em casa de vez, é hora de recolher as cabras e me preparar pra dormir com os meninos. É uma correria”.

Esse ano a chuva chegou tarde no quilombo Teixeira. A água veio muito tempo depois do plantio. Quem conseguiu colher, colheu pouco. Numa quantidade insuficiente para o consumo até a próxima safra. 

 Josefa e Nelma ainda conseguiram tirar da terra um pouco de milho e feijão, mas a agricultora Pretinha não teve a mesma sorte. A sua roça não deu nada esse ano. Em março, antes de viajar para cortar cana em um engenho de São Francisco do Itabapoana (interior do Rio de Janeiro), o seu marido, Carlos Rosa, 47, ainda preparou a terra para o plantio, mas o sol queimou o que estava brotando. 

Pretinha e Carlos estão casados há 20 anos e têm dois filhos e uma neta. Josielson, 25, viajou para o Rio de Janeiro para trabalhar com o pai. Com Pretinha, ficaram Jaqueline, 23, e a sua filha Maria Liz, de 3 anos. Como outras agricultoras, Pretinha também precisa cuidar da terra, dos animais, da casa e da neta, quando a sua filha precisa se ausentar. 

No quilombo Teixeira, a rotina das mulheres cujos maridos precisam se deslocar para trabalhar com o corte de cana em outras cidades e estados é, praticamente, a mesma. Nitidamente, há um grande acúmulo de funções na vida e no trabalho dessas mulheres. “Por aqui, o agricultor vive no meio do mundo. As mulheres ficam em casa, cuidando de tudo. É difícil quando um filho adoece e a gente tem que cuidar sozinha, além de dar conta de todas as outras coisas. No inverno, nós temos que plantar, capinar e colher. Eles deixam só a terra arada e o resto é a gente quem faz. É muito difícil”, conta Pretinha. 

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2020, as mulheres que trabalham dedicam cerca de 18,5 horas todos os dias para realizar tarefas domésticas e cuidar de pessoas da família, especialmente dos filhos. Já com relação aos homens empregados, a pesquisa mostra uma dedicação de 10,4 horas para essas atividades. A diferença é de mais de oito horas.

Close de homem negro, aparentando mais de 40 anos, fotografado em ambiente de pouca luz e parede rosa. Ele usa camisa cinza e olha fixamente para a câmera. Ele está com semblante sério e sua esclera (o branco dos olhos) é amarelada.
Josias Manoel deve ficar pelo menos nove meses longe de Teixeira. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo

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