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Mais mulheres se mobilizam para denunciar professor preso por estupro de criança no Recife

Raíssa Ebrahim / 11/01/2024

crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo

Outras acusações de violência sexual contra o professor e músico recifense Francisco Nery Alves da Silva Neto, de 34 anos, voltaram à tona depois que ele foi preso preventivamente, no dia 5 de janeiro, no bairro de Casa Amarela, zona norte da cidade. A prisão se deu por denúncia de estupro de uma criança a quem ele dava aulas de música. Ao menos 60 mulheres já se disseram vítimas dele.

Francisco já aguarda sentença de outro caso de estupro de uma jovem de 22 anos que aconteceu em 2012 e foi parar no tribunal em 2018. Ambos os processos correm em segredo de Justiça.

Também em 2018, uma outra jovem relatou nas redes sociais a violência que diz ter sofrido por parte do artista. Após a postagem do relato e de prints de conversas com o professor, ela recebeu mensagens de outras 60 mulheres dizendo que também foram vítimas de Francisco, algumas de outros estados.

Na época, um grupo de jovens chegou a ir à Delegacia da Mulher, em Santo Amaro, área central do Recife, para prestar queixa contra o artista, porém, contam que se sentiram desestimuladas a prosseguir com as denúncias. Elas relatam que a delegada perguntou se ele havia colocado uma arma na cabeça delas para forçá-las a terem relação sexual. Duas delas eram menores de idade, na época com 14 e 16 anos, alunas de Francisco na escola de tecido onde ele dava aulas.

“Amedrontadas, muitas delas se culparam pela violência que haviam sofrido e deixaram a denúncia para lá. Seguiram a vida, cada uma com as suas dores, fazendo seus tratamentos psicológicos. Agora, com a notícia da prisão, resolveram se manifestar novamente”, afirma a advogada criminalista Maria Júlia Leonel. Ela representa a vítima do caso de 2012 e também um grupo de 13 mulheres que irá formalizar denúncias contra Francisco.

Maria Júlia explicou à Marco Zero que, em todos os casos, Francisco se aproveitava de meninas menores de idade ou que passavam por alguma fragilidade emocional. Alguns dos depoimentos são bastante fortes, a reportagem optou por não reproduzi-los, assim como não mostrar os prints a que teve acesso.

Sobre o caso de 2012, a advogada lamenta a postura do juiz: “durante a audiência, ele questionou como uma mulher que já tinha sido vítima de violência sexual na infância havia ido à casa de uma pessoa desconhecida”.

“Foi uma audiência pesada. Ele colocou a palavra dela em xeque a todo momento e ainda mostrou determinada afinidade com o acusado perguntando se ele fazia poesias e se já tinha escrito livros, porque adorava poesia”, recorda. “Enquanto o juiz lia o depoimento, na presença da vítima, o acusado debochou dela, rindo”, complementa.

Sobre a lentidão do judiciário, Maria Júlia comenta que esse tipo de processo costuma demorar sobretudo quando se está diante de um caso em que a materialidade da prova não é palpável, é baseada na palavra da vítima. “Tanto que, durante aquele processo, ele sequer contratou um advogado, demonstrando, assim, descaso”, avalia. “Essa lentidão corriqueira do Judiciário atrapalha as próprias vítimas, porque elas têm que conviver com a sensação de que a Justiça ainda não foi feita”.

Em nota, a Polícia Civil de Pernambuco informou que “deu cumprimento a mandado de prisão, no dia 05.01, em desfavor de um homem de 34 anos. O autor foi localizado em uma residência na rua Guimarães Peixoto, em Casa Amarela, e tinha mandado de prisão em aberto contra ele. Contra o autor havia um registro de Estupro de Vulnerável, ocorrido no dia 05.01, no bairro da Tamarineira. Após realização dos procedimentos cabíveis (oitiva e encaminhamento para o Instituto Médico Legal), o autor ficou à disposição da Justiça”.

A reportagem entrou em contato com uma pessoa da família de Francisco Nery para saber se algum parente daria entrevista ou poderia fazer a ponte com seu advogado de defesa, mas não obteve retorno até o fechamento da matéria. Se recebermos retorno, este texto será atualizado imediatamente.

Casos de estupro cresceram no Brasil

Os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que, a cada oito minutos, uma menina ou mulher foi estuprada no Brasil no primeiro semestre de 2023. Um recorde da série histórica, iniciada em 2019. Foram registrados 34 mil estupros e estupros de vulneráveis de meninas e mulheres entre janeiro e junho do ano passado, 14,9% a mais que no mesmo período de 2022.

Em Pernambuco, foram 1.166 registros, um crescimento de 3,3% em relação ao primeiro semestre de 2022 e de 9,8% na comparação com esse período de 2019.

Estupro de vulnerável é um crime previsto no artigo 217-A do Código Penal e tipifica qualquer pessoa que mantenha conjunção carnal ou pratique outro ato libidinoso com menor de 14 anos, sob pena de reclusão de oito a 15 anos.

Foto diurna da fachada do presídio Cotel

Crédito: Google Street View

AUTOR
Foto Raíssa Ebrahim
Raíssa Ebrahim

Vencedora do Prêmio Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petróleo, é jornalista profissional há 12 anos, com foco nos temas de economia, direitos humanos e questões socioambientais. Formada pela UFPE, foi trainee no Estadão, repórter no Jornal do Commercio e editora do PorAqui (startup de jornalismo hiperlocal do Porto Digital). Também foi fellowship da Thomson Reuters Foundation e bolsista do Instituto ClimaInfo. Já colaborou com Agência Pública, Le Monde Diplomatique Brasil, Gênero e Número e Trovão Mídia (podcast). Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com