por Franco Benites*

Para aqueles que repudiam o bolsonarismo, o segundo turno das eleições para prefeito do Recife parece um paraíso: chegaram à disputa final dois candidatos que, apesar de terem apoios de partidos da base bolsonarista, nadam contra a corrente do que prega o presidente da República no oceano de pautas e propostas eleitorais e administrativas. E é justamente pelo distanciamento do ódio e rancor que marca a gestão presidencial – e quase tudo o que envolve o atual presidente da República – que se esperava muito mais de Marília Arraes (PT) e João Campos (PSB) no primeiro debate televisivo do segundo turno.

Grosso modo, o que se viu na TV Clube na última sexta-feira foi um repeteco de debates eleitorais passados. O que tornou o encontro dos candidatos mais pitoresco foi o fato de que eles são da mesma família. O que era para ser uma briga de ideias sobre um interesse público, a zeladoria de uma das principais capitais do Brasil, tornou-se uma rinha de um caráter íntimo. Melhor para quem ligou a TV já com o balde de pipoca nas mãos e pior para quem esperava a apresentação de propostas e projetos.

O debate da TV Clube ocorreu no dia em que boa parte do Brasil lamentava mais um episódio trágico de racismo, o espancamento seguido de morte de João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, no sul do Brasil. Acompanhar as notícias e debates gerados pela morte de João Alberto e depois assistir ao debate da TV Clube, com acusações de cunho familiar e muito mais menções ao passado (Arraes, Eduardo, 1985, 2014) do que ao futuro, me deu a sensação de que estava em dois mundos totalmente diferentes.

O racismo entranhado na morte de João Alberto e o Dia da Consciência Negra me remeteram ao racismo que resultou na morte do menino Miguel Otávio, no centro do Recife. Pensei em Mirtes Souza, mãe do garoto, moradora da periferia da capital. Até que ponto o discurso de Marília e João durante o debate se destinou aos milhares de Miguel, Mirtes e João Alberto que vivem na cidade?

É bem possível que os ataques prossigam nos próximos debates, ainda mais se as pesquisas internas dos candidatos apontarem que a postura no último dia 20 rendeu algum tipo de simpatia popular que se traduza em votos. Talvez eu faça parte de uma minoria, mas acho uma pena que duas figuras políticas jovens repitam o padrão de políticos do passado. Como escreveu o repórter João Valadares, da Folha de S. Paulo, talvez Marília e João devessem separar um tempo das suas atribuladas agendas de campanha para assistir a um dos debates entre Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL) na briga pela prefeitura de São Paulo.

De quebra, a postura de Marília e João de transformar um debate sobre o Recife em uma contenda familiar termina por referendar o discurso dos candidatos de oposição que, no primeiro turno, diziam que o sobrenome do povo recifense não é Campos e nem Arraes. Não que isso vá fazer diferença prática agora, mas Mendonça Filho e Patrícia Domingos devem ter esboçado um sorriso por poder continuar a replicar esse discurso.

Quem acompanha eleições sabe que a maioria dos posicionamentos de quem busca o voto é tomada com base em uma orientação que passa, antes de tudo, pelo marketing. João não provocou Marília sobre Eduardo Campos à toa. Tampouco a, agora já famosa e elevada à categoria de lacração, frase de Marília sobre a prefeitura não ser um pirulito apareceu de graça. Mas os dois candidatos têm capacidade para ir além disso.

*Franco Benites de Almeida é jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade do Minho, de Portugal.