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Mastectomia no SUS devolve liberdade do banho de mar para pessoas transmasculinas

Jeniffer Oliveira / 28/06/2026
A imagem mostra uma pessoa jovem sentada dentro de um cômodo, próxima a uma janela por onde entra luz natural. Essa pessoa tem pele morena, cabelo curto e bem volumoso no topo, com as laterais raspadas. Está sorrindo levemente e olhando para fora da janela, com expressão tranquila. Veste uma camisa de manga comprida vermelha com o logotipo da Nike no peito, usa um relógio grande no pulso esquerdo e uma corrente prateada no pescoço. Ao fundo, há uma parede clara e parte de uma bandeira com duas faixas — branca em cima e vermelha embaixo — além de um objeto escuro que parece ser uma caixa de som. A luz suave destaca o rosto e o vermelho da roupa.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Tomar um banho de mar livremente pode não ser algo tão fácil para algumas pessoas. A comunidade trans e travesti, ou seja, das pessoas que não se identificam com o sexo atribuído na certidão de nascimento, enfrenta estigmas e preconceitos diariamente e uma simples ida a praia é motivo de medo e insegurança.

Isso, no entanto, está mudando. Homens trans e pessoas transmasculinas têm recorrido cada vez mais ao Sistema Único de Saúde (SUS) para fazer os tratamentos hormonais e cirurgias necessárias para reafirmar suas identidades, a exemplo da mastectomia bilateral masculinizadora ou mamoplastia masculinizadora (retirada das mamas) e da histerectomia, nome que se dá à retirada de útero e ovários.

O SUS é um catalisador dessa afirmação e, apesar dos desafios, contribui com a adequação de gênero dessa comunidade. Em Pernambuco, o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), vinculado à Universidade de Pernambuco (UPE) e o Hospital da Mulher do Recife realizam acompanhamento ambulatorial e realizam as cirurgias de readequação de gênero. A Policlínica Lessa de Andrade também oferece o atendimento ambulatorial.

Juntos, os três hospitais já realizaram 99 procedimentos de mastectomia. No Hospital das Clínicas (HC), primeiro do estado a oferecer o serviço, desde 2016 foram 54 procedimentos, o Cisam/UPE realizou 21, enquanto no Hospital da Mulher aconteceram 24. Com a chegada da cirurgia no Hospital da Mulher, o acesso ao serviço por parte das pessoas trans atendidas foi acelerado, considerando que a fila foi reduzida. Hoje, o tempo médio de espera na unidade por alguma dessas cirurgias demora de 45 a 60 dias.

“Cada dia que passa é algo muito grandioso. É acordar e se sentir bem, se sentir dentro de você mesmo. Sair sem ter tanto medo, porque é isso que eu sentia quando eu tinha as mamas”, conta o auxiliar de serviços gerais, Jack Mowatt, de 30 anos, que recentemente fez a mastectomia bilateral masculinizadora no Hospital da Mulher do Recife.

Foi possível ver o brilho no olhar de Jack ao contar como o procedimento realizado há pouco mais de dois meses transformou sua vida. Ele foi uma das dez primeiras pessoas trans a passar pelo bloco cirúrgico no Hospital da Mulher, que começou a oferecer o serviço no final de 2025.

Natural de Rio Formoso, na mata sul de Pernambuco, veio morar no Recife aos 12 anos de idade. Desde criança sempre soube quem era, mas só ao chegar na capital e conhecer e dialogar com outros homens trans, pôde compreender melhor sua identidade ainda durante a adolescência.

Os desafios foram muitos e apenas na vida adulta começou o acompanhamento para a readequação de gênero. “Só agora na fase adulta é que eu consegui, de fato, ter essa autonomia, tanto financeira quanto pessoal, para encarar uma terapia, me entender melhor pra chegar nesse processo da transição e da mastectomia também”, afirma.

Jack conta que começou seu acompanhamento no Hospital da Mulher para um tratamento de mioma no ambulatório especializado da unidade. Por causa desses problema de saúde, precisou fazer uma histerectomia e passou a ser atendido pelo serviço de acompanhamento psicológico. O tratamento hormonal veio dois anos depois, culminando com a mastectomia em abril de 2026.

A imagem mostra Jack Mowatt, uma pessoa jovem ajoelhada em uma quadra esportiva coberta, sorrindo amplamente e abrindo os braços em sinal de comemoração. À sua frente, há três troféus metálicos de tamanhos diferentes, todos brilhantes e ornamentados — o maior tem alças curvas e uma tampa com uma pequena figura alada no topo. A pessoa veste um uniforme esportivo preto com detalhes lilás e rosa, e um crachá pendurado no pescoço. No uniforme, há um logotipo circular com o desenho de um felino e algumas palavras parcialmente legíveis. Ao fundo, vê-se arquibancadas com assentos coloridos em amarelo, azul e verde, além de banners com inscrições como “Recife”, “2025” e “Movimento”.

Jack Mowatt passou pela cirurgia de mastectomia em abril de 2026

Crédito: Acervo pessoal

“É como se fosse algo que você não reconhecesse no seu corpo. Algo que incomodasse. Algo que fosse desconfortável em você, como uma mancha, algo assim. E quando você tira aquilo parece que tudo muda. A qualidade de vida diferente, surreal de tudo que eu já tinha sentido. Até quando vestia uma roupa qualquer, quando ia na praia não tirava roupa, não tomava um banho, ficava só era naquele chuveirão e muito mal, e corria logo porque achava que alguém estava olhando parecia uma fobia. Agora estou bem mais relaxado”, reflete.

Agora, Jack segue livre para ser quem é no seu trabalho em uma academia de crossfit, no sonho de realizar a graduação de Educação Física e como jogador no time de futsal Força Trans.

“Sempre fui uma pessoa do mar”

“Passando pra dar notícias para pessoas que amo muito que deu tudo certo com minha mastectomia, estou aqui na recuperação”, esse foi o áudio enviado pelo multiartista e artivista Vyvo Dayo, de 29 anos, poucas horas após sua mastectomia que aconteceu no sábado, 27 de junho, um dia antes do dia do orgulho LGBTIA+. Conversamos com Dayo dois dias antes para entender a expectativa que vivia.

Acompanhado pelo Cisam/UPE, o multiartista não imaginava que sua cirurgia iria ser realizada agora, pois a fila de espera na unidade é longa, por atender a todo o estado. No entanto, acabou conseguindo o procedimento no Hospital da Mulher, unidade que está ajudando a desafogar as filas de espera dos hospitais maiores.

Segurança e saúde são os fatores que mais pesaram para Dayo nos dias de expectativa antes da cirurgia, afinal as pessoas trans e travestis convivem durante anos com o medo de agressões e violações, o que as obriga a usarem mecanismos para disfarçar determinadas características. No caso de quem tem mama, é comum usar fitas e o binder, uma espécie de colete colocado para comprimir os seios. Por este e outros motivos, Dayo vê na mastectomia uma nova possibilidade de viver. E viver com qualidade.

“A minha expectativa para ter uma mastectomia é muito porque quero esse lugar da segurança, da segurança e da saúde. De não estar usando roupas ou fitas prendendo o meu peito, pois depois do uso o mpeito fica cortado. Quantas vezes meu peito fica todo machucado… às vezes com partes em carne viva, porque eu não consegui me adequar, inclusive ao binder por causa da respiração, já tive falta de ar”, desabafa.

O procedimento pode trazer a segurança necessária para fazer aquilo que, em outro tempo, era parte da rotina. “Sempre que eu tinha um tempinho eu corria ou então até me exercitar na praia, enfim, sempre fui uma pessoa muito do mar, da praia e também uma pessoa de muito de não ter vergonha de mostrar a minha pele, de gostar de roupas curtas. A transição voltada para os corpos, para as identidades da gente, cai muito nisso de não mostrar o seu corpo, por isso transmasculinas usam muito roupas folgadas”, conta.

A imagem mostra uma pessoa jovem deitada em uma cama, sorrindo para a câmera em um ambiente de aparência simples e clara. Essa pessoa tem pele clara, cabelo curto e loiro, barba rala e bigode. Está sem camisa e parece relaxada, com expressão tranquila e alegre. Ao lado da cabeça há uma camiseta cinza dobrada e um travesseiro preto. No fundo, vê-se uma parede branca com um painel elétrico fixado, contendo tomadas e cabos conectados — o que dá a impressão de um quarto ou ambiente hospitalar.

Dayo foi operado na véspera do Dia do Orgulho LGBTQIA+

Crédito: Acervo pessoal

Diferente de Jack, o multiartista é uma pessoa não-binária, cuja identidade de gênero não se encaixa nos gêneros tradicionais, transitando entre eles. Por isso, conta que diversas vezes já foi confundido com mulheres trans ou homens gays afeminados. “Cada vivência é submetido a um controle diferente. O controle que bate muito na gente é que transmasculino, pessoas não-binárias, passa por ‘esconda esse corpo, não se mostre’, afirma.

Até se entender como não-binário, Dayo passou por conflitos internos, processos depressivos e questionamentos, mas conta que a arte ajudou a salvá-lo. “Me descobri uma pessoa não-binária com uns 24 anos, mas ainda com muito medo do que isso iria significar socialmente. Sentia muito medo da repressão que já sofria sem apoio, sem referência. Até que fui buscando coletivos e descobrir referências na cultura ballroom”, relembra.

A cultura ballroom é um movimento político, artístico e de resistência criado por pessoas negras, latinas e LGBTQIA+ nos Estados Unidos na década de 1960. Esse movimento vai além de entretenimento, atuando como rede de apoio e acolhimento para corpos dissidentes, celebrando a diversidade por meio da dança, moda e autoexpressão.

Saúde e pertencimento caminham juntos

Há três anos, a organização não governamental Gestos passou a oferecer atendimento psicológico em grupo para homens trans e transmasculinos, dos 18 aos 29 anos. Para a psicóloga Juliana Mazza, que acompanha o grupo desde o início, o procedimento é desejado pela maioria das pessoas atendidas no grupo, salvo algumas exceções que não o fariam por diferentes fatores.

“A gente percebeu que eles recebem a pessoa que fez a mastectomia de volta no grupo com muita felicidade e com muita propriedade. E a gente foi perguntando quem faria, quem não faria. E digamos que 98% do grupo faria a mastectomia. As pessoas que não fariam são as pessoas que, ou tem muito medo da cirurgia, acham que a cirurgia vai ser muito desgastante, ou temem o resultado, tem medo do processo. Ou ainda pessoas que, por terem as mamas pequenas, acreditam que com treino e hormônio conseguem bom resultado sem intervenção”, analisa.

Para a profissional a cirurgia também reduz a disforia, que tem a ver com a incompatibilidade dessa imagem corporal da pessoa. Ela explica que “a disforia tem relação com a saúde mental e com a imagem corporal. É conseguir ficar bem com o seu corpo. Essa ideia de se olhar no espelho, de se sentir como se não tivesse algum órgão intruso no corpo, sabe? Por isso que chamam de intruso também. Então, além de diminuir a disforia de gênero, aumenta a autonomia. Porque a ideia de poder treinar, de poder ir à praia, de poder tirar camisa, que tem a ver também com um comportamento que tem relação com o gênero”.

A imagem mostra alguns folhetos impressos dispostos sobre uma superfície clara, como uma mesa. O foco está em um folheto em primeiro plano, enquanto os outros aparecem desfocados ao fundo. O folheto principal é de cor branca e contém texto em português com mensagens de conscientização sobre respeito às pessoas trans. No centro, lê-se em letras grandes: “PESSOAS TRANS SÃO COMO VOCÊ: HUMANAS E MERECEM RESPEITO”. Abaixo, há a frase “TRANSforme suas ideias!”. O design inclui pequenos símbolos de gênero — masculino, feminino e trans — espalhados ao redor do texto. Na parte superior, há um logotipo de uma instituição, mas os detalhes não estão totalmente legíveis.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

A enfermeira e supervisora do Espaço Trans do HC da UFPE, Paula Guerra, reitera essa ideia da autonomia e liberdade. “Se sentir bem no seu corpo, se ver, se visualizar como a pessoa se enxerga e ser passável por uma sociedade. A passibilidade quer dizer que ela ou ele passa pela sociedade, transita sem ser identificado como uma pessoa trans. Isso é muito importante porque a gente sabe do estigma, a gente sabe que os olhares e as pessoas trans sentem esse olhar perverso, né? Então, essas cirurgias vão melhorar a autoestima da pessoa, porque ela se sente um homem, ela se sente uma mulher, ela quer ter os órgãos que ela acha que deve ter”, explica.

Mas nem toda pessoa trans deseja fazer uma intervenção cirúrgica. Guerra explica existem pessoas trans que não desejam fazer intervenções e que elas não deixam de ser trans por isso. No entanto, nos casos que existe a disforia é extremamente importante. “Se essa pessoa tem uma disforia por aquele órgão que é sensual, no caso da mama, que chama a atenção como uma pessoa de gênero feminino, mas ela se sente gênero masculino, então essa mama incomoda. A retirada, a remoção dessa mama e colocar um peitoral masculino faz eles se sentirem livres. Para a questão psicológica da pessoa, a questão social melhora acho que 90%. Não melhora 100% sempre por conta da sociedade”, avalia.

O processo transexualizador no SUS exige que as unidades tenham equipes multidisciplinares para cuidar e acompanhar os pacientes. O HC tem a equipe composta por enfermeiros, psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas, assistentes sociais, ginecologistas, urologistas, mastologistas, cirurgiões plásticos, fonoaudiólogos, otorrinolaringologia e recepcionista.

No caso do HC, o acompanhamento acontece até um ano após a cirurgia. Apesar de ter sido o quinto serviço de saúde cadastrado no Ministério da Saúde para ter um espaço ambulatorial e cirúrgico para a população trans e travesti, uma referência nacional, o espaço trans enfrenta problemas estruturais. Para efeitos de comparação: desde 2016 foram realizados 54 procedimentos de mastectomia, enquanto que, no Hospital da Mulher do Recife, que começou a oferecer o serviço no fim do ano passado, já foram realizados 24, quase metade.

Isso acontece, porque o HC dispõe de quatro salas cirúrgicas para todos os procedimentos de afirmação de gênero previstos. Com a ampliação da equipe em 2025, foi possível ampliar o número de cirurgias de oito para até 18 ao ano, como explica Guerra. Mesmo assim, a fila de espera do hospital é de mais de 1400 pessoas, por este motivo, eles aconselham as pessoas a iniciarem o acompanhamento nos serviços de saúde dos respectivos municípios.

Para não errar!

Sexo Biológico: conjunto de características corporais que diferenciam machos e fêmeas, definido desde a concepção. Expressa-se inicialmente pelos genitais: pênis (menino) ou vulva (menina).

Identidade de Gênero: é como a pessoa se reconhece: masculina, feminina ou uma combinação dos dois, independentemente do sexo biológico. Pode ou não coincidir com o gênero atribuído ao nascer e envolve percepção do corpo, estilo, fala e comportamento social.

Orientação Sexual: refere-se ao gênero das pessoas por quem sentimos desejo e afeto. Relaciona-se à identidade de gênero dos envolvidos, não ao sexo biológico.

Transgeneridade: condição de quem possui identidade de gênero diferente daquela designada ao nascer, buscando viver e ser respeitada no gênero com que se identifica. Também chamada de transexualidade ou transidentidade.

Cisgeneridade: condição de quem possui identidade de gênero correspondente ao gênero atribuído ao nascer.

Fonte: Cartilha Espaço Trans HC-UFPE/HUBrasil

AUTOR
Foto Jeniffer Oliveira
Jeniffer Oliveira

Jornalista formada pelo Centro Universitário Aeso Barros Melo (UNIAESO). Contato: jeniffer@marcozero.org.