Isis recebeu alta, mas sua vida jamais será a mesma. Após quebrar o braço em um acidente de moto voltando de Carpina, na Zona da Mata Norte, para o Recife, Isis François, de 26 anos, tem vivido situações que não deseja a ninguém. O acidente aconteceu em setembro e, após passar por diferentes hospitais, 24 horas depois ela foi parar no Hospital Otávio de Freitas (HOF), na zona oeste do Recife, onde chegou com o ferimento já infeccionado. Por isso, passou um mês internada até ter condições de passar pela cirurgia.

O Hospital Otávio de Freitas é uma referência no atendimento a esse tipo de ferimento. Lá, de janeiro de 2025 a julho de 2026, foram realizadas 2.683 cirurgias de traumato-ortopedia. Dessas, 1.747, o que equivale a 65,1% do total, foram realizadas pelo plantão de emergência. O total de cirurgias representa, aproximadamente, 1/3 (um terço) de todos os procedimentos desse tipo realizados nos hospitais da rede estadual.
Quando imaginava que teria apenas de se cuidar durante o pós-operatório para garantir uma boa recuperação, tudo desandou para Isis. Logo após receber alta pela primeira vez, já começou a se sentir mal. Na consulta retorno da cirurgia, 15 dias depois, percebeu um ponto inflamado e questionou o médico, que disse ser normal.
“Foi criando como se fosse uma queloide. Aí as pessoas que viam diziam que queloide não ficava assim, porque inchava e desinchava. Depois de eu ficar correndo atrás, no pé, o médico passou um antibiótico e chegou um tempo que ela secou. E eu dizendo que aquilo não era normal. No que secou, depois fazendo as fisioterapias, apareceu uma bolinha longe da cicatriz como se fosse um furo de agulha de onde saia secreção”, conta.
Sempre que tinha oportunidade questionava o médico sobre esse furo na pele e todas as vezes ouvia a mesma resposta: é normal. Foi em uma ida ao INSS para conseguir o auxílio-doença, no mês de março, que a desconfiança aumentou. “Ela [a médica] disse que eu teria que voltar no médico porque isso não era normal não, que estava saindo secreção”, relata.
A situação piorou com o tempo. Em maio, Isis se internou novamente, mas antes disso teve que passar dois dias em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) aguardando uma ambulância para ser transferida. “Quando eu cheguei lá, foi o mesmo ortopedista. Ele disse que eu não ia poder ficar no hospital porque tinha gente pior que eu. Então eu respondi ‘olha, eu vou ficar porque eu não aguento mais essa dor’,” recorda. Àquela altura, a placa de titânio implantada pela equipe médica do Otávio de Freitas teria sido rejeitada pelo corpo da jovem, começou a ficar exposta e precisou ser retirada. Isso aconteceu depois de um mês de internação, mais 40 dias tomando antibióticos em casa e muitas idas ao hospital.
Até hoje, ela sofre com uma infecção resistente, mas, como o material retirado não foi coletado para a cultura, não se sabe qual a bactéria causadora da doença. “Depois da cirurgia eu já estava sentindo umas molezas, alguma coisa estranha. Antes era ‘só’ a secreção que saía do braço, mas depois que passou a anestesia, eu comecei a ficar sentindo o corpo mole, dor de cabeça. Hoje, sinto moleza nas pernas, a cabeça doendo dos dois lados, tortura, febre e o braço fica furando, com uma sensação de pinicar”, reflete.
As paredes limpas com aparência de recém-pintadas podem ser vistas nos corredores externos. A grama bem cortada também. No entanto, basta entrar na enfermaria da traumatologia para o cenário mudar. Ali, o mato no pátio interno está alto, há muito não recebe uma poda, para impedir que as pessoas passem há caçambas de lixo.
Os quartos são quentes, abafados e pequenos. A maioria das portas não têm fechaduras, os banheiros ostentam infiltrações, as privadas não têm assentos, falta tampa nas caixas acopladas e higiene adequada. Todos os pacientes ouvidos pela reportagem reclamaram da limpeza. Ou melhor, da sujeira. A mãe de Isis, por exemplo, precisou levar desinfetante para amenizar o odor enquanto a filha estava internada.
Os animais merecem um capítulo à parte na lista de reclamações. Gatos e timbus são vistos circulando pelos corredores das enfermarias repletas de pacientes recém cirurgiados, fora os ratos, baratas e tudo quanto é inseto.
O caso de Isis, como se vê, não é isolado. A Marco Zero foi até o hospital e, com ajuda das famílias de pacientes, passou todo o período de visitas em contato com quatro pessoas internadas na enfermaria de traumatologia para retirada de placas, tratamento de infecções que persistem, causados por bactérias não identificadas. Outro paciente está internado há quatro meses, mas não quis que sua história fosse publicada. Mas todos eles contaram viver um drama tão angustiante quanto dolorido.
Banheiro no setor de traumatologia no Hospital Otávio de Freitas
Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero
Em leitos próximos, Henrique Cavalcanti, de 51 anos, e Edcley Xavier, de 35 anos, contam histórias parecidas e que se prolongam há vários meses. Henrique está internado desde janeiro. Isso mesmo: há quase sete meses numa enfermaria, onde foi parar depois que desviou sua moto para não atropelar um carroceiro em Boa Viagem e acabou se chocando com a carroça.
Quando ele foi levado para o Otávio de Freitas com o fêmur e a perna esquerda quebrados, Edcley já estava lá há um mês, também por causa de um acidente de moto.
Não é só isso que os dois têm em comum. Ambos lutam contra infecções persistentes. Henrique enfrenta uma osteomielite, uma doença grave que atinge os ossos, cujo tratamento o levou à hemodiálise por mais duas semanas.
Em respeito à imagem e à vulnerabilidade dos pacientes, não publicaremos suas fotografias feitas durante a visita da equipe da MZ.
Segundo ele, ao prescrever um antibiótico forte por 21 dias, o médico advertiu: “tem um antibiótico que é muito bom e é muito forte. Agora esse antibiótico, você corre o risco de perder a audição. Você corre o risco de ficar com a pele toda escura. E vamos rezar para não afetar os rins”, conta. Tomou apenas 14 dias da medicação e precisou ir para hemodiálise às pressas. Ou seja, os rins foram severamente afetados.
O pior estava por vir. Em uma das frequentes trocas de médicos, o residente que teria acompanhado a penúltima limpeza fez uma sugestão que deixou o paciente apavorado: amputar a perna. “Eu disse que achava que isso era o último caso, a última instância. Se lá tem medicamento, tem estrutura, tem tudo para fazer, se não tem aqui, me manda para o hospital que faz. Mas chegar ao ponto de dizer isso ao paciente sem discutir com outro médico antes?”
A poucos metros de Henrique, Edcley espera o fim do tratamento com antibióticos porque também contraiu uma infecção no hospital. Quando estivemos lá, a previsão de alta estava próxima.
Assim que chegou, passou quatro dias na emergência sem comer e sem tomar água aguardando a cirurgia. Só conseguiu fazer o procedimento depois disso. O fixador foi colocado e Xavier passou mais dois meses internado. Depois da retirada do fixador, foram mais 15 dias para colocar a placa de titânio. Após 30 dias voltou para tirar os pontos. Foi aí que começou a sair secreção do local, um quadro quase idêntico ao de Isis.
A própria equipe médica afirmou que a infecção ocorreu no bloco cirúrgico.
Além disso, como a cirurgia foi próximo ao joelho, segundo o rapaz a indicação é que ao retirar a placa, o médico aproveitasse para tirar também a fibrose do joelho, o que não aconteceu. Por isso, vai precisar passar por uma nova cirurgia. “É sofrimento e risco. Esse hospital aqui tá todo contaminado”, pontua.
O homem denuncia que os médicos circulam pelos corredores com roupas que utilizam na cirurgia. “O médico tem que estar lá dentro do bloco cirúrgico. O médico não é para estar vindo aqui no corredor buscar paciente com a roupa que vai operar, não. É um açougue?”, questiona.
Além disso, Edcley e o parente que lhe acompanha questionam a falta de higiene do local. São gatos, cachorros, timbus, árvores com cupins, mato alto e limpeza precária que, para eles, aumenta o risco de contaminação. Os vídeos recebidos pela MZ confirmam isso.
Se Edcley aguarda a próxima cirurgia, Henrique alimenta a esperança de que o tratamento surta efeito e que possa recuperar minimamente a sua perna. Dias antes de conversar com a Marco Zero, teve um vislumbre de esperança, pois na última avaliação, outro médico descartou a possibilidade de colocar o fixador novamente e prescreveu seguir com os antibióticos.
Além disso, há o desalento. Para quem chegou para tratar fraturas e sofreu o impacto do colapso dos seus rins e a ameaça de amputação, agora ele convive com um profundo desânimo. “Dentro da hemodiálise eu tinha visto as piores coisas que eu nunca tinha visto ainda, nunca pensei que uma hemodiálise fosse um negócio tão pesado, um sistema tão pesado que a máquina é toda adaptada dentro de você. Um cateter, ou no pescoço ou na virilha. O meu não conseguiu pegar no pescoço, pegou aqui na virilha… eu não estava com opção naquele momento. Eu estava numa situação que afetou a perna, afetou os rins e o psicológico já está a mil, sem saber o que focar realmente na vida”, lamenta.
De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE), no período entre janeiro de 2025 e julho de 2026, “foram registrados 50 procedimentos de retirada de placas, parafusos ou outros materiais de síntese. Esse número corresponde a 1,86% das 2.683 cirurgias ortopédicas realizadas. Os 50 registros representam procedimentos, e não necessariamente 50 pacientes distintos, não podendo ser interpretados como 50 casos de infecção ou de ‘rejeição’”.
Seguindo essa lógica, após as primeiras cirurgias e colocação da placa, as repetidas cirurgia realizadas apenas nos pacientes mostrados nesta reportagem juntos somam seis procedimentos. O equivalente a 12% dos 50 casos informados pela SES.
A Marco Zero procurou a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) questionando os pontos apontados nesta reportagem e pedindo um representante do órgão para falar das denúncias feitas. Ignoraram a possibilidade e enviaram uma nota que afirma:
Sobre os três casos dos pacientes descritos, a conduta médica foi direcionada ao controle da infecção, à preservação do membro e à reavaliação da necessidade de procedimentos reconstrutivos ou complementares, conforme a evolução clínica. Nos documentos analisados, não há indicação formal de amputação.
Sobre a atuação dos médicos residentes, O Hospital Otávio de Freitas (HOF) reforça que eles são profissionais graduados em medicina e regularmente inscritos no Conselho Regional de Medicina (CRM). A residência médica é uma modalidade de especialização em serviço, realizada sob supervisão de médicos especialistas e preceptores.
Os residentes podem examinar pacientes, registrar evoluções, realizar procedimentos e participar de cirurgias, conforme seu nível de formação, sempre integrados à equipe responsável. As descrições cirúrgicas dos casos apresentados identificam os cirurgiões responsáveis e seus auxiliares. Não existe orientação institucional para que procedimentos ou decisões complexas sejam realizados por residentes sem supervisão. Eventuais queixas relacionadas ao tempo de visita, à comunicação ou à identificação do médico responsável podem ser apuradas individualmente, desde que sejam fornecidas informações que permitam localizar o episódio.
Sobre a questão de animais transitando pela unidade, a direção do HOF informa que mantém contratos regulares de limpeza e desinfecção hospitalar, seguindo protocolos técnicos e sanitários estabelecidos pelas normas vigentes. Além disso, são realizadas ações periódicas de controle ambiental e manejo da área externa, incluindo medidas voltadas à prevenção e mitigação da presença de animais nas dependências da unidade.
A direção informa ainda que a unidade vem desenvolvendo ações educativas junto aos funcionários, pacientes e acompanhantes para orientá-los a não alimentar nem interagir com os animais e, também, a comunicar sua presença sempre que identificados. Rotineiramente, são realizadas rondas pela administração do serviço para identificar a presença de animais. Além disso, foram instaladas barreiras físicas para impedir o acesso desses animais às dependências da unidade.
Em relação aos apontamentos sobre o Setor de Traumatologia do HOF, a unidade esclarece ainda que a Superintendência de Engenharia e Manutenção elaborou e atualizou o Plano de Ação para Requalificação do Trauma Adulto e Pediátrico, contemplando intervenções nas enfermarias, postos de enfermagem e depósitos de material de limpeza (DML), incluindo a recuperação de paredes, tetos, pias, vasos sanitários, revestimentos, portas, fechaduras, sistemas de ventilação e demais adequações estruturais.
Os problemas não são de hoje. O hospital tem uma reputação negativa entre os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) no estado. Em 2021, a Marco Zero acompanhou denúncias de superlotação feitas por pacientes e acompanhantes. Os pacientes eram amontoados pelos corredores da unidade e ficavam à mercê de uma vaga em um leito.
Em 26 de maio deste ano, a então governadora Raquel Lyra (PSD) e a vice-governadora Priscila Krause (PSD) entregaram a requalificação do centro cirúrgico ambulatorial da unidade, alegando ainda a melhoria da recepção da emergência, fachada e portaria da unidade. Comemoram o investimento de mais de R$ 800 mil, somando mais de R$ 158 milhões em investimentos, com obras de ampliação, novos equipamentos, modernização da estrutura e abertura de novos leitos. No entanto, os relatos dos pacientes indicam que esse investimento ainda não chegou na traumatologia.
Apenas dois dias depois, o Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE) julgou a auditoria especial operacional realizada no primeiro semestre de 2025, com objetivo de, segundo o documento, “analisar os fatores operacionais internos e externos que têm impactado a produção cirúrgica do centro cirúrgico”, relatada pelo conselheiro Marcos Loreto.
O julgamento, divulgado em 02 de junho no Diário Oficial do TCE-PE, entre os problemas apresentados, constatou que a unidade possuía inadequações na estrutura física do centro cirúrgico, como o descascamento do revestimento nas paredes e na junção com o piso em todas as salas operatórias, a existência de diversos equipamentos inoperantes nos blocos cirúrgicos e a ausência de reserva técnica – os aparelhos de backup para o sistema.
Também identificou que “o centro cirúrgico apresentou baixa efetividade operacional, revelada por indicadores de processo, destacando-se elevado índice de cancelamentos de cirurgias (entre 16,7% e 18,6%) por causas em grande parte evitáveis, e significativo atraso para o início da primeira cirurgia do dia”.
Além disso, “a análise do desempenho do Bloco da Traumatologia/Ortopedia revelou efetividade de apenas 47,5% (ORE /ECC), abaixo da média observada em centros brasileiros de porte similar (50-60%), enquanto o Bloco Central (Geral) não pôde ter seu indicador mensurado devido à impossibilidade de definir o Tempo Total Disponível e o Tempo Total Utilizado”.
O documento também constatou a inconsistência nos dados e informações disponibilizadas no sistema informatizado, causando subutilização e falhas de registro pelas equipes.
Entre as considerações, atestou-se que “a baixa efetividade do centro cirúrgico na realização de cirurgias eletivas, evidenciada pelo indicador Overall Equipment Effectiveness (ORE/ECC), de apenas 47,5% no Bloco da Traumatologia/Ortopedia — índice inferior à média de centros de porte similar —, e pelo fato de a maior parte das cirurgias ditas “eletivas” ser proveniente da Emergência, gerando fila de espera e aproveitamento aquém do ideal da capacidade instalada”.
Por fim, ficou determinado que a Secretaria Estadual de Saúde e a Direção do HOF adotassem medidas para sanar as deficiências apresentadas e melhorar a qualidade dos atendimentos aos pacientes em 60 dias. Como já apresentado nesta reportagem, mesmo com as melhorias divulgadas pelo governo do estado, ainda há denúncias de desassistência na unidade.
Jornalista formada pelo Centro Universitário Aeso Barros Melo (UNIAESO). Contato: jeniffer@marcozero.org.