* Por Bia Pankararu

Estamos num momento social e político no país onde é preciso reafirmar um pacto com a democracia. Após 132 anos de Proclamação da República, entre república velha e a Constituição Federal de 1988, que rege nossa sociedade até os dias atuais, velhas práticas políticas continuam fortes no cenário como, por exemplo, a principal delas: carreiras políticas hereditárias, de pai pra filho, pra neto, sobrinha e, assim, gerações de poder concentrado em pouquíssimas famílias, dificultando gravemente a diversidade de representação e de interesses reais do povo.

Em Pernambuco, clãs familiares ocupam gerações de domínio político, e o próximo governador, ou governadora, provavelmente terá um de seus sobrenomes. Os Arraes-Campos, que disputam entre si o poder político da capital, Recife, assim como do estado. O embate dos primos, Marília Arraes e João Campos, neta e bisneto de Miguel Arraes, nas últimas eleições municipais do Recife, ficou marcado na minha memória como a personificação da carreira política hereditária e de como o sobrenome carrega mais poder do que o projeto político.

Disputar uma eleição contra um Arraes ou um Campos em Pernambuco não é tarefa fácil. Existe uma narrativa profética, principalmente após a morte de Eduardo Campos, de como a família seria encarregada de dar continuidade eterna a seu legado. A família Campos apoia Danilo Cabral, PSB, para a disputa ao Governo. Filho do ex-deputado Adalberto Cabral, também um sobrenome de peso na política estadual. O PSB ocupa o Governo Estadual desde 2007, com dois mandatos de Eduardo Campos e dois mandatos de Paulo Câmara, fazendo assim, em janeiro de 2023, 16 anos de poder. Será que está dando certo? Pernambuco terminou 2021 com 44% da sua população na pobreza, maior índice dos últimos 10 anos, segundo o Instituto de Mobilidade e Desenvolvimento Social. A família PSB se encontra muito bem no Governo e na Prefeitura do Recife.

Marília Arraes, do Solidariedade, deputada federal, está candidata ao Governo de Pernambuco e lidera as intenções de voto. Após divergências no PT, Marília filiou-se ao Solidariedade e lançou campanha para governar o estado. O PT apoia o candidato do PSB, Danilo Cabral. Mesmo assim, Marília tem recebido apoio, inclusive, de prefeitos do PSB e líderes do PT do estado, além de apoiar a candidatura à presidência de Lula. Marília Arraes é a principal concorrente dos Campos pelo trono político que Miguel Arraes iniciou em 1959.

No Vale do São Francisco, mais precisamente em Petrolina, o domínio político da família Coelho é datado desde 1800. O senador Fernando Bezerra Coelho, do MDB, tem em sua prole o ex-prefeito Miguel Coelho, que renunciou à prefeitura de Petrolina e é candidato ao Governo do Estado pelo União Brasil. Além de Fernando Coelho Filho como deputado federal e Antônio Coelho como deputado Estadual. Ou seja, uma verdadeira instituição política de berço.

Já no Agreste do estado, a candidata ao Governo Raquel Lyra, também possui um sobrenome tradicional na política. Filha do ex-governador João Lyra Neto, que também foi vice de Eduardo Campos. Raquel deixou o PSB em 2016, pelo fato de o partido não apoiar sua candidatura à prefeitura de Caruaru, quando migrou para o PSDB e foi eleita.

É histórico como a política é feita por quem tem dinheiro e fortes aliados, como os coronéis que manipulavam os votos da população que era, em sua grande maioria, analfabeta, dependente de trabalho e facilmente controlada, vigiada e até punida. Conhecida como currais eleitorais, a prática de favores políticos àqueles coronéis que fizessem o seu reduto votar em determinado candidato, é a mesma prática que perdura quando uma prefeitura usa da máquina pública para colocar seus servidores nas campanhas políticas de seus aliados. Esse reduto onde quem exerce o poder municipal consegue manipular os espaços de campanha, principalmente perseguindo quem venha a participar de campanhas concorrentes, rompe com o que a própria democracia prega, a liberdade de manifestação e escolha política.

Por mais que haja o incentivo legal de candidaturas diversas em gênero e raça, a corrida eleitoral é muito desigual enquanto incentivo e prioridade. A prioridade sempre foi manter o poder girando entre esses clãs familiares e de aliados, aliados esses que financiam suas campanhas em troca, claro, de favorecimentos políticos, econômicos e fiscais, assim como nos tempos dos coronéis. Ter um sobrenome tradicional e aliados influentes, já é metade do caminho para se eleger, enquanto candidaturas populares sempre largam dois metros atrás da linha de partida.

É preciso um comprometimento real dos partidos políticos em diversificar e fortalecer não só as candidaturas, mas as condições de campanha para poder eleger novos nomes e, principalmente, nomes que sabem como é a realidade da população, pois veem e vivem essa realidade de perto. Enquanto os partidos lançarem candidaturas de mulheres, negros, indígenas e de movimentos sociais, mas não financiarem essas campanhas com equidade, é como oferecer uma oportunidade de emprego a uma pessoa que não poderá aceitar, nesse caso, sem estrutura suficiente para se eleger.

Quando juntamos as populações negra, indígena, mulher, LGBT e periférica, estamos falando da maioria populacional, mas seguimos elegendo a minoria que são os ricos, grandes empresários, famílias de renome, que são, quase que em regra, os herdeiros das capitanias, engenhos e dos coronéis. Do sertão à capital, as campanhas já estão acontecendo e espero ansiosa por novos sobrenomes sendo eleitos em todas as esferas de cargos. Só assim conseguiremos, de fato, ter a representatividade política que faça jus à diversidade de um país como o nosso país Pernambuco.

Bia Pankararu tem 28 anos, é mulher indígena, sertaneja, mãe de Otto, LGBT+, técnica em enfermagem e produtora cultural e audiovisual. Ativista pelos direitos humanos e ambientais. Comunicadora da rede @povopankararu.

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