Por Maria Carolina Santos e Raíssa Ebrahim

O Brasil talvez esteja vivendo sua eleição mais polarizada. No ano em que se celebra as três décadas da Constituição, o tema democracia nunca esteve tão em pauta. De um lado, o candidato Jair Bolsonaro (PSL) tece elogios ao período da ditadura militar e fala em “banir da pátria” os opositores. Ainda assim, afirma que tem “total compromisso”  com a democracia.

Do outro lado, Fernando Haddad (PT) afirma que a democracia brasileira ficará ameaçada, caso Bolsonaro ganhe as eleições. Jornais internacionais, como o The Economist e o The New York Times, fazem coro ao receio petista. Mas, afinal, o que é democracia?

O historiador Rodrigo Bione afirma que a definição do conceito é bem mais amplo do que apenas exercer o direito de votar e ser votado. “Não é apenas o direito de escolher o representante, mas de ser representado. Historicamente, o espaço de poder no Brasil vem sendo ocupado por homens brancos que pertencem as elites. Quebrar essa corrente é difícil. Temos também um fator de laços familiares na política. Em Pernambuco, João Campos (filho de Eduardo Campos) teve um recorde de votos sem ter uma história de vida compatível com isso”.

Bione lembra que dos eleitos para a próxima Câmara Federal, apenas 15% são mulheres. “E esse é também um número recorde. Há uma crise de representatividade no Brasil de vários grupos, como mulheres, negros, indígenas. Quando se coloca a questão de representatividade destes grupos, é como se esses grupos tivessem privilégios, mas é o contrário. A inclusão desses grupos é que é diminuir privilégios”, diz.

Professora de Direito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Luciana Grassano diz que um dos pilares de uma democracia é que as minorias possam ter seus direitos garantidos e viver com dignidade. “É o oposto das falas de Bolsonaro, que tem falas contra gays, contra mulheres, contra índios. Ele é avesso às minorias. Bolsonaro mudou as falas para se colocar como um democrata, mas os 28 anos de vida pública dele mostram o contrário”, diz Grassano, que foi coordenadora da Faculdade de Direito do Recife de 2007 a 2015.

Ela vê o perfil autoritário de Bolsonaro como uma mistura da falta de informações sobre a ditadura brasileira e a enxurrada de fake news a favor do candidato do PSL  durante a campanha.  “O Brasil tem um problema de memória. O país não fez uma autocrítica em relação ao período do regime ditatorial. As pessoas não têm o conhecimento do que é um regime opressor. Muitas pessoas acham que Bolsonaro está apenas usando frases de efeito, e não vai fazer nada disso”, afirma a professora.

Antes da Constituição de 1988, o Brasil teve poucos momentos de democracia. “Em que a voz a oposição não foi silenciada, sem censura social, tivemos o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961) e o governo de Getúlio Vargas que não foi ditatorial. A democracia brasileira é muito jovem. E agora estamos em risco. Pode ter havido falhas ao longo desses 30 anos de Constituição, mas o importante é corrigir essas falhas, ao invés de matar a democracia, em nome de um projeto autoritário”, acredita Bione.

A Marco Zero ouviu formadores de opinião e foi às ruas do Recife para saber o que as pessoas acham que é democracia. Nas ruas, muitas pessoas se recusaram a dar sua opinião: ao associarem o termo com política, logo deixaram claro que não querem envolvimento. 

otto“A democracia foi criada para que não houvesse morte, guerra ou um único pensamento. Ou a imposição autoritária. Democracia é o poder da maioria . É nela que estão todos os direitos universais do homem e a justiça. Quando se perde a democracia perdemos os nossos direitos. Uma peça fundamental de paz e evolução. E que deve ser respeitada”.
Otto, músico


policial“Democracia é expressão popular. Cada um escolhe o que é importante para si e também para a comunidade. A ideia é essa: ter pessoas que tenham ideias diferentes e expressar essas ideias. Poder ser ouvido e participar da vida política. Acho que a democracia não está em risco nessas eleições. Seria precipitado dizer isso. Claro que pode ter alguns retrocessos, mas nada a ponto do fim da democracia. Prefiro não dizer meu voto, mas vou votar pelas minorias”
Pedro Pereira, policial militar


“Democracia é o espaço de participação coletiva, onde todos os direitos são respeitados, dentro da diretriz nacional que é nossa constituição. É a garantia da constitucionalidade dos direitos e das garantias individuais. Os indivíduos merecem participar do processo de decisões do Brasil. Não podemos perder esse espaço. Essa democracia é ferida quando indivíduos e direitos não são reconhecidos”
Anderson Moreira, ativista do Grupo LGBT Leões do Norte 


 

carlotapereira“Democracia é o direito a liberdade, a igualdade e a justiça. É cidadania. Inclusive, para termos democracia tem que haver a divergência e a escuta e a conciliação. O estado democrático de direitos é aquele onde todos são iguais em direito e deveres e um lugar para salvaguardar a vida de todos seus cidadãos” Carlota Pereira, produtor


tradutora2270x190“Democracia é você ter a liberdade de você ser quem você é, você ter a liberdade de escolher o candidato que você deseja sem sofrer nenhum tipo de repressão por causa disso. De você ter o direito de ter escolhas, de você não sofrer nenhum tipo de repressão. A democracia tanto tem a ver com o voto, com quem você vai escolher para lhe representar, quanto na sua vida prática, na sala de aula, no seu trabalho, de todos serem tratados com igualdade”.
Maria Carolina Morais, tradutora


Não entendo (o que é democracia). Sou analfabeto, não sei de nada mesmo. Eu não aprendi a ler, não aprendi nada. Só a trabalhar na feira. Voto desde quando eu estava com 18 anos. Eu só voto no 13. Dê o que der, só voto no 13. Tenho 74 anos, mas vou votar só pra meter um voto no 13” Edvaldo José de Lima, feirante


okadodocanal“Democracia é poder decidir meu futuro e o futuro de um futuro filho através do voto. É ter o direito de ir e vir sem ser violado, saca ? De ver meus amigos se divertirem na praia sem ser expulsos, entende? De poder andar na Rua da Moeda em um 20 de novembro, por exemplo, sem ser colocado pra casa” Okado do Canal, músico e integrante do Favela News


“Para dizer sinceramente…eu não entendo nada. Esse negócio de política eu não entendo nada, nada mesmo. Não procuro saber dessas coisas, não gosto. Quando eu escuto “democracia” eu ligo à política…e também ligo a quando o Brasil tá bem, quando não tá. Mas não sei dizer se quando tem mais democracia tá bem ou tá mal. Não vivo dentro dessas coisas”
Rebeca Fernanda, comerciária


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“Democracia…não sei. É o que? Eu não sei…me explique: é o que? Eu acho que é coisa ruim, não? Acho que não tem a ver com votar. Pode ser que tenha a ver com liberdade…e liberdade eu acho que não é ruim”
Maria José de Souza, cambista


 

“Não dá nem pra responder muita coisa, hoje a gente acha que tem democracia, mas não tem porque a gente não tem liberdade de expressão. Talvez a eleição mude democracia”
Ednaldo Batista, motorista


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“Pra falar a verdade, o que democracia mesmo hoje neste mundo? Acho que é cada um ter sua opinião. Mas, pra esse mundo mudar, só quando Jesus vier. Nem Haddad nem Bolsonaro com essa loucura dele, nem nenhum. Voto nulo desde o dia que comecei a votar ”
Jéssica Natália, recepcionista


 

feirante2“Democracia é o direito de votar, escolher, opinar. Voto em Bolsonaro pra mudar, não tô empregada hoje em dia por causa do PT”
Gláucia Fernanda de Olveira, feirante