Os ciganos chegam a 20 mil em Pernambuco, mas não constam das estatísticas e do planejamento do governo. Crédito: ICB

Pernambuco tem a terceira maior população cigana do Nordeste. São cerca de 20 mil pessoas espalhadas por 32 municípios que vão desde a Região Metropolitana do Recife ao Sertão, passando pela Zona da Mata e pelo Agreste, segundo dados do Instituto Cigano Brasil (ICB). Embora expressivo em números, esse povo tradicional vive à margem das políticas públicas e, como invisíveis, sofrem com a discriminação, o preconceito e as tentativas de apagamento de sua cultura.

Esse silenciamento imposto aos ciganos faz com que, por exemplo, não se saiba o número exato de crianças, homens e mulheres infectados pelo novo coronavírus, nem muito menos quantos morreram vítimas da Covid-19. “Nosso povo tem medo de dizer em um posto de saúde que é cigano, pois sabe que será maltratado porque somos vistos como bandidos”, lamenta o presidente do ICB, cigano Calon Rogério Ribeiro. No país há duas etnias ciganas, os Rom e os Calon.

O ICB, que há dois anos faz o mapeamento dos povos ciganos que vivem no país, tenta monitorar também os casos de contaminação pelo coronavírus. De acordo com dados colhidos com a ajuda dos líderes ciganos, Pernambuco está em segundo lugar no ranking de mortos em decorrência da Covid-19, com cinco óbitos, empatado com Goiás. A Bahia lidera com dez.

“Em todo o país conseguimos registrar 40 ciganos mortos por Covid-19, mas com certeza esse número é bem maior. Isso mostra a importância do mapeamento do nosso povo, que tem que ser feito o mais rápido possível”, diz Ribeiro. O presidente completa informando que as duas etnias Rom e Calon tiveram membros mortos pela infecção.

O ICB pressiona para que o novo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) inclua na pesquisa a opção de autodeclaração por etnia. Para a entidade, essa medida simples ajudaria a quantificar a população cigana e, com esses números, os governos poderiam promover políticas públicas específicas para esse público.

“Nesta pandemia, por exemplo, nós confeccionamos uma cartilha digital sobre o coronavírus, sintomas da Covid-19 e as formas de prevenção na língua Chibi. Também fizemos a campanha ‘Fique na barraca, cigano’ e produzimos máscaras. Nada veio de nenhum governo”, explica Ribeiro.

Impacto econômico e pobreza

Edson Pereira de Morais, 38, é comerciante como a maioria dos ciganos. Na pandemia, com as medidas de restrição das atividades econômicas e de circulação de pessoas, viu sua renda despencar. Morador de Ipubi, no Sertão, Ramon, como é mais conhecido, passou a depender do auxílio emergencial.

Casado com uma técnica em enfermagem e pai de dois filhos, uma de 14 e um de 7 anos, Ramon conta que a crise expôs ainda mais as dificuldades do seu povo. “A maioria não tem estudo então sofreu mais para acessar o auxílio emergencial. Mesmo esse dinheiro não foi suficiente para muitas famílias que têm pelo menos oito pessoas”, afirma.

Ramon, que retomou recentemente a vida de negociante, diz que o que o povo cigano precisa é de oportunidades de qualificação. “Primeiro, temos que ser reconhecidos como cidadãos e não vistos com preconceito. Somos atacados pela polícia muitas vezes só pelo fato de dizermos que somos ciganos, porque eles têm na cabeça que todo cigano é bandido. Depois do respeito, precisamos de trabalho”, argumenta.

Muitos dos ciganos que vivem no interior de Pernambuco moram em barracas e sofrem com o preconceito e a falta de apoio do poder público. Crédito: ICB

Nascido na cidade sertaneja de Ibirajuba, a 182 quilômetros do Recife, Sebastião Pereira, 36, já perdeu as contas de em quantos municípios já morou em Pernambuco e Sergipe. Há oito anos, Pierre, como gosta de ser chamado, resolveu fixar residência em Caruaru, no Agreste, junto com a esposa, abrindo mão do nomadismo, traço forte da cultura cigana.

Sem casa própria, ele mora na parte de cima do imóvel do pai com a companheira e uma filha de 4 anos. Músico, Pierre perdeu os poucos trabalhos que tinha durante a pandemia e ficou dependendo dos R$ 1,2 mil que a esposa recebia do auxílio emergencial. Em novembro, no entanto, a ajuda foi cortada e, atualmente, eles contam apenas com R$ 200 do Bolsa Família.

“Acho que pegamos [a Covid-19], tivemos sintomas de gripe, como febre e dor de cabeça, não tivemos cansaço, mas ficamos sem sentir cheiro. Não tivemos atendimento médico, ficamos em casa e depois de uns 15 dias passou. Agora tô pegando alguns bicos de músico, torcendo para que as coisas não fechem de novo”, conta Pierre.

O ICB tem a expectativa de que o governo de Pernambuco entregue um vale alimentação no valor de R$ 2 mil a famílias ciganas. Segundo o presidente, Rogério Ribeiro, essa ajuda deve chegar ainda este ano.

Governo de Pernambuco silencia

A Marco Zero Conteúdo procurou o governo do estado para saber se a atual gestão dispõe de dados quantitativos e qualitativos sobre os ciganos. A reportagem também perguntou quais ações o poder executivo tem desenvolvido em favor dessas famílias.

Também foi questionado se o estado sabe quantos ciganos foram infectados pelo novo coronavírus e se há a intenção de oferecer um auxílio de R$ 2 mil.

Os questionamentos não foram respondidos pela assessoria de imprensa do governo de Pernambuco até o fechamento desta reportagem. Caso as informações sejam repassadas, o texto será atualizado.