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Quem é a jovem trans que vai representar Pernambuco em conferência global de segurança de dados

Giovanna Carneiro / 26/11/2023
Close de mulher jovem, de óculos de aros vermelhos, cabelois castanhos encaracolados, sorrindo com olhar direcionado para cima, mirando ponto indefinido à direita da imagem. Sobre a imagem do rosto, sobrepõem linhas de código de desenvolvimento de sistemas.

Cria do bairro do Ibura, na zona sul do Recife, Luana Maria acredita que a tecnologia é uma ferramenta de transformação social capaz de desenvolver políticas de bem viver para as pessoas negras, LGBTQIA+ e periféricas. Aos 23 anos, a programadora e diretora executiva da Pajubá Tech vai representar Pernambuco na Data Privacy Global Conference, a conferência internacional que realiza debates sobre o ecossistema regulatório dos direitos digitais e novas tecnologias, que acontece em São Paulo nesta segunda-feira, 27 de novembro. 

“Eu vou para aprender e também para marcar território e dizer que a nossa população preta, LGBT e periférica  pode estar dentro desses espaços e pode ainda ocupar cargos de liderança”, afirmou a jovem mobilizadora social. Mulher trans, Luana Maria tem o sonho de utilizar seus conhecimentos na área de tecnologia e programação para criar soluções práticas para os problemas sociais que incidem dentro de sua comunidade, sobretudo para mudar a realidade de violência enfrentada pela população trans. “Eu vejo que a tecnologia está cada vez mais abrindo vagas afirmativas para a diversidade e, ao mesmo tempo, eu me vejo inserida em um contexto desumano onde Pernambuco lidera como um dos estados que mais mata pessoas trans no Brasil, por isso que meu trabalho é voltado para uma tecnologia social, que seja capaz de proporcionar soluções diversas para as problemáticas da quebrada”, declarou a programadora. 

Movida pela curiosidade e pela inquietação, a trajetória de Luana tem muito a nos ensinar sobre a potência intelectual e estratégias de resistência da juventude negra e periférica que lutam para conseguir promover mudanças e melhorias não só para si mesmo, mas para toda a sua comunidade. Além de ressaltar a importância da educação pública na formação de lideranças. Sendo assim, deixemos Luana conduzir este relato. 

Ingresso na área de tecnologia

“Eu fui nascida e criada lá no Ibura, que é um bairro que tem o desenvolvimento humano bem baixo, uma das periferias mais violentas do Recife e Região Metropolitana e sempre foi um desafio muito grande para gente viver dentro da periferia. Mas ao mesmo tempo o Ibura é uma fábrica de artistas, de pessoas multiplicadoras. E então, em 2017, eu comecei a me empoderar e pensar nas soluções para os desafios do nosso cotidiano porque eu sou essa pessoa que gosta de propor soluções. Foi aí que, enquanto articuladora social, eu cofundei um coletivo chamado Favela LGBT, que é um coletivo que visa, principalmente, dar visibilidade a artistas LGBTs na periferia.

Aos 23 anos, Luana Maria vai representar Pernambuco na Data Privacy Global Confere. Crédito: Arnaldo Sete / MZ Conteúdo

Depois disso, em 2019, ingressei no IFPE [Instituto Federal de Pernambuco], no curso técnico de Saneamento, e foi onde começou o meu interesse por tecnologia, especificamente em uma disciplina chamada Geoprocessamento, onde a gente estuda geotecnologia, georreferenciamento e a gente utiliza um programa chamado QGIS.

O QGIS é um aplicação de Sistema de Informações Geográficas (SIG) gratuito e de código aberto que oferece suporte à visualização, edição e análise de dados geoespaciais. O SIG facilita a manipulação e análise de dados espaciais e se refere a todos os aspectos do gerenciamento e uso de dados geográficos digitais, como dados vetoriais e raster

E aí eu fui pesquisar, porque eu sou uma pessoa muito curiosa, e vi que o QGIS é um software livre. Um software livre é, basicamente, uma comunidade que vai cada vez mais melhorando naquela plataforma, e esse movimento do software livre é um movimento incrível que democratiza o acesso do conhecimento técnico da área da tecnologia, da programação. Então, eu comecei a ter interesse por essa área.

A partir disso, eu comecei a pesquisar escolas, organizações que dessem aulas de programação de graça, porque estudar a programação em si é um conhecimento muito elitizado, enfim, a área da tecnologia é composta, basicamente, por homens brancos, cisgêneros, héteros, que têm dinheiro para poder investir na sua formação e eu não tenho. Então, eu fui em busca de organizações que ajudassem a impulsionar a minha carreira na área da tecnologia. Foi aí que eu encontrei o Instituto Minas Programam e ingressei no programa de formação em 2021.  

O Minas Programam é uma iniciativa criada em 2015 para desafiar os estereótipos de gênero e de raça que influenciam nossa relação com as áreas de ciências, tecnologia e computação. A iniciativa promove oportunidades de aprendizado sobre programação para meninas e mulheres, priorizando àquelas que são negras ou indígenas.

Em 2022, eu ingressei no Bootcamp da Generation Brasil, que é uma organização lá de São Paulo, e me formei como desenvolvedora Java First Tech Junior, e me tornei alguém capaz de desenvolver software, com instrução sobre linguagem e programação. No final de 2022, consegui uma bolsa pelo Prouni no curso de Sistemas para a Internet, na Faculdade Imaculada Conceição do Recife. Ainda em 2022 participei do Cidadão Digital, que é um programa da Safernet Brasil, junto com a Meta, que visa pensar as tecnologias, as redes sociais para serem utilizadas de forma mais ética, para poder repassar para os jovens informações de segurança e evidenciar que podemos usar as redes sociais de forma não violenta porque a internet não é uma terra sem lei, é um espaço público e por isso precisamos pensar em sua regulamentação. Foi o Cidadão Digital que me empoderou dessas informações, de pensar uma cidadania digital, de pensar uma internet segura”. 

Pajubá Tech: iniciativa estratégica de inclusão 

“Em outubro de 2022, comecei a ter essa inquietação, de querer proporcionar espaços para outras pessoas trans e travestis também ingressarem na área da tecnologia. Eu vejo que a tecnologia está cada vez mais abrindo vagas afirmativas para a diversidade e ao mesmo tempo eu me vejo inserida em um contexto desumano onde Pernambuco lidera como estado que mais mata pessoas trans no Brasil, por isso que meu trabalho é voltado para uma tecnologia social, que seja capaz de proporcionar soluções diversas para as problemáticas da quebrada. 

Então decidi criar a Pajubá Tech, que é uma iniciativa, um empreendimento social, que entende a tecnologia como tecnologia social e não apenas como tecnologia da informação. Atualmente, a Pajubá Tech tem dois objetivos: propor consultorias para que as empresas possam tornar seus processos seletivos mais diversos e proporcionar ambientes de trabalhos acolhedores para pessoas negras e LBTQIA+ , e o objetivo Adocacy que é apresentar estratégias de incidências políticas que afirmem a inclusão de pessoas trans e travestis no mercado de trabalho. 

Esse ano eu consegui minha primeira experiência como desenvolvedora, só depois de dois anos como estudante dentro do mercado da tecnologia, e fundar a Pajubá chega como uma solução para a falta de oportunidades para pessoas trans ingressarem no mercado de trabalho.

Hoje, a Pajubá foca muito no território do Ibura, mas a gente realizou o Summit Tech LGBTQIA + periférico, que foi o primeiro encontro de tecnologia e inovação voltado para a comunidade LGBTQIA +, e o evento acabou tomando uma expansão muito maior e várias pessoas da região metropolitana participaram, e  isso reforça o fato de que não há espaços dentro do nosso território que sejam inclusivos e abracem a nossa diversidade, e uma organização como a Pajubá é composta por três mulheres trans e travestis, que são do Ibura, e é a prova de que mulheres trans e travestis sempre estiveram na liderança de diversas iniciativas, sobretudo no movimento LBTQIA+. 

O 1ª Summit Tech LGBTQIA+ aconteceu em setembro de 2023, no Ibura. Crédito: Dimitri Carlovich Gouveia

Então a Pajubá Tech é também sobre continuar um legado de outras mulheres trans e travestis, que precisam criar estratégias, que morreram de forma violenta, e nós queremos outras mulheres e homens trans através da nossa atuação e trajetória, queremos que essas pessoas tenham outras narrativas e oportunidades que não seja a prostituição, porque o que a gente vê hoje dentro do nosso território é que pessoas trans e travestis são mortas e ninguém faz nada, porque nosso corpo é visto como um nada”. 

Criação de ferramenta para a população trans

“O Data Privacy abriu bolsas com uma vaga para cada região do Brasil e eu decidi me inscrever. No processo de seleção tive que escrever uma carta motivacional falando o porquê que eu gostaria de participar da conferência e também como eu replicaria o conhecimento adquirido lá. A Data Privacy Global Conference é uma conferência que reúne diversos setores, várias instituições do mundo todo para poder discutir segurança de dados e discutir como a inteligência artificial tem sido utilizada para pensar as regulamentações da internet.

No Brasil, o debate sobre essas novas tecnologias ainda não está tão avançado, nós temos a Lei Geral de Proteção de Dados, mas ela ainda é muito falha. Então, precisamos discutir como os dados podem ser utilizados como uma ferramenta de transformação social, esse é o meu objetivo tanto na minha participação na conferência como no trabalho que desenvolvo na Pajubá Tech.

A gente vem pensando cada vez mais como não há dados sobre  o emprego formal para as pessoas trans e travestis e quando não existe dados a gente basicamente está dizendo que aquele público não existe. E se a gente for pensar de forma geral, quem hoje fomenta os dados de assassinato de pessoas trans e travestis, por exemplo, é a Antra [Associação Nacional de Travestis Trantexuais],  e a Pajubá pensa em criar uma solução tecnológica que contribua para o monitoramento de dados de pessoas trans que não estão empregadas. 

Então, ir para a Data Privacy é muito além de aprender e trazer essas informações para o meu território, para a minha organização, é para discutir como a gente pode fazer essas cooperações que ajudem a contribuir com políticas públicas para a população trans e travesti. Por isso, eu vou para aprender e vou também para marcar território e dizer que a nossa população preta, LGBT e periférica pode estar dentro desses espaços e pode ainda ocupar cargos de liderança.

A partir do ano que vem, especificamente no mês de janeiro, que é o mês da visibilidade trans, a gente quer começar a co-construir esse diálogo com o poder público para que a gente possa ter um protótipo dessa solução que a gente quer efetivar e construir. E isso não só a Pajubá Tech construindo, mas também quem está lá no território do Ibura, a travesti, que está lá na ponta, que está se prostituindo, porque a gente entende que a participação não é só de quem está na linha de frente, fazendo o ativismo e tal,  mas quem também não está tão empoderada dessas articulações, mas vive e entende o cotidiano da periferia”.

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