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	<title>Arquivos conservadorismo - Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Arquivos conservadorismo - Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Câmara Municipal do Recife rejeita medalha para Michelle Bolsonaro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Jul 2022 16:54:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Câmara Municipal do Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com ativistas de esquerda e fundamentalistas religiosos trocando insultos, empurrões e algumas tapas no estacionamento da Câmara Municipal, vereadores e vereadoras do Recife apressaram a votação e decidiram não conceder a medalha de mérito Olegária Mariano para Michelle Bolsonaro. Por 16 votos a 9, a honraria foi rejeitada. Seriam necessários 24 votos favoráveis. Foi uma [&#8230;]</p>
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<p>Com ativistas de esquerda e fundamentalistas religiosos trocando insultos, empurrões e algumas tapas no estacionamento da Câmara Municipal, vereadores e vereadoras do Recife apressaram a votação e decidiram não conceder a medalha de mérito Olegária Mariano para Michelle Bolsonaro. Por 16 votos a 9, a honraria foi rejeitada. Seriam necessários 24 votos favoráveis. Foi uma derrota dupla: na véspera, a proposta para homenagear o presidente Jair Bolsonaro havia sido retirada pelo seu autor, o vereador Dilson Batista (Avante), que cedeu à pressão do seu partido, que faz parte da coligação que apoia a pré-candidata a governador Marília Arraes.</p>



<p>Foi a sessão da plenária mais concorrida da Câmara Municipal dessa legislatura. As galerias lotaram com militantes convocados pelos vereadores, mas, outras dezenas de ativistas progressistas e fundamentalistas evangélicos ficaram do lado de fora, o que aumentou a tensão que cercou a sede do legislativo municipal. Durante o debate no plenário, a bancada de extrema-direita apelou para o corporativismo dos vereadores e para uma leitura distorcida do feminismo na tentativa de convencer seus colegas.</p>



<p>A vereadora Michelle Collins (PP), responsável pela proposta, recorreu a argumentos como o &#8220;cavalheirismo&#8221; dos vereadores e a tradição de se aprovar todas as propostas de medalhas apresentadas pelos demais. Dilson Batista afirmou que votaria a favor &#8220;apenas pela primeira-dama ser mulher&#8221;, mas, em seu primeiro discurso, cometeu um ato falho e disse que não teria sentido votar contra uma homenagem à Michelle &#8220;só por ela ser casada com quem não presta&#8221;.</p>



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	                                        <p class="m-0">Inconformada com a derrota, Michelle Collins culpou o PSB. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>Ao final da votação, a evangélica Michelle Collins estava inconformada e culpou o PSB pela rejeição à sua proposta. &#8220;O que houve aqui hoje foi uma voz de comando do PSB, junto com o PSOL, articulando contra, usando todo seu peso e poder para arrastar a bancada no voto contrário&#8221;, queixou-se a autora do projeto derrotado.</p>



<p>Três vereadoras de três partidos diferentes &#8211; Cida Pedrosa (PCdoB), Dani Portela (PSOL) e Liana Cirne (PT) se revezaram na tarefa de desconstruir a proposta com a ajuda de três homens, Ivan Moraes (PSOL), Osmar Ricardo (PT) e Rinaldo Júnior (PSB). Usando dados oficiais, as parlamentares mencionaram os altos custos do programa Pátria Voluntária, coordenado pela primeira-dama, destacando que o Governo Federal gastou mais dinheiro com a publicidade do projeto do que com as ações concretas.</p>



<p>Irônico, Rinaldo Júnior frisou que, durante a pandemia, o MST distribuiu no Recife mais refeições para a população de rua do que o Pátria Voluntária no Brasil todo. Rinaldo irritou Michelle Collins ao atacar a homenagem a Michelle Bolsonaro com trechos da justificativa usada pela evangélica, autora do projeto que levou a Câmara a criar a medalha Olegária Mariano em 2009. &#8220;Olegária Mariano foi uma abolicionista, uma libertária, uma mulher que transformou sua casa num quilombo para ajudar negros a escaparem da escravidão&#8221;.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><cite>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa<a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> página de doação</a> ou, se preferir, usar nosso <strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong>.<br><br><strong>Apoie o jornalismo que está do seu lado</strong>.</cite></blockquote>
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		<title>Cristãos progressistas lançam pré-candidaturas para disputar voto religioso e enfrentar conservadorismo</title>
		<link>https://marcozero.org/cristaos-progressistas-lancam-candidaturas-para-disputar-voto-religioso-e-enfrentar-conservadorismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Jul 2022 00:35:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[católicos]]></category>
		<category><![CDATA[conservadorismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristãos progressitas]]></category>
		<category><![CDATA[Evangélicos contra Bolsonaro]]></category>
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		<category><![CDATA[religião e política]]></category>
		<category><![CDATA[voto evangélico]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com o slogan “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, &#8211; trecho do evangelho de João -, Jair Messias Bolsonaro fez sua campanha em 2018 dirigida para o público evangélico e garantiu um grande percentual de votos que o colocou na presidência do Brasil. Desde então, líderes de igrejas evangélicas e católicos conservadores seguiram [&#8230;]</p>
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<p>Com o slogan “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, &#8211; trecho do evangelho de João -, Jair Messias Bolsonaro fez sua campanha em 2018 dirigida para o público evangélico e garantiu um grande percentual de votos que o colocou na presidência do Brasil. Desde então, líderes de igrejas evangélicas e católicos conservadores seguiram em permanente campanha em apoio ao presidente. Porém, a presença do ex-presidente Lula no embate eleitoral deste ano abalou a popularidade de Bolsonaro entre os cristãos.</p>



<p>De acordo com a última pesquisa Datafolha, divulgada no dia 23 de junho, 42% dos católicos pretendem votar em Lula e 20% em Bolsonaro. Entre os evangélicos, o atual presidente mantém vantagem, com 36% de intenções de votos contra 28% do petista. A pesquisa foi feita com 2.556 eleitores de 181 cidades do Brasil. Se compararmos o cenário atual com o das eleições passadas, é possível notar crescimento da intenção de votos no pré-candidato do PT.</p>



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<p>Em 2018, de acordo com a pesquisa Datafolha sobre o perfil religioso dos eleitores, o candidato Fernando Haddad (PT) só ganhou para Bolsonaro entre as religiões afro-brasileiras e entre as pessoas que se autodeclaram sem religião e entre os ateus e agnósticos (e com uma diferença não muito significativa). Bolsonaro teve maioria dos votos entre evangélicos, católicos e espíritas. A diferença maior foi entre os evangélicos, onde Bolsonaro somou mais de 11 milhões de votos a mais que Haddad.</p>



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<p>Para este ano, as pesquisas mostram que, além de diminuir a diferença de votos entre os evangélicos, o pré-candidato petista deve ter uma boa vantagem entre os católicos, o que pode ser decisivo nas eleições para garantir sua vitória.</p>



<p>No entanto, esse resultado depende do engajamento das igrejas e instituições religiosas nos debates políticos, como afirma o teólogo e biblista Marcelo Barros: “Desde muitas décadas, as igrejas cristãs procuram na sua metodologia de trabalho fornecer subsídios para os fiéis terem critérios de como votar. Não é justo, não é correto o padre ou pastor dizer em quem você deve votar, o voto é livre. Mas as igrejas tem, sim, a missão de ajudar o povo a formar critérios e insistir em pautas como ecologia, defesa da natureza, da água, da terra, a justiça para os povos originários e também exigir que os candidatos se comprometam com essas pautas”.</p>



<p>Membro do Fórum Diálogos pela Diversidade Religiosa e contra a Discriminação do Ministério Público de Pernambuco e da Comissão Teológica da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo, Marcelo Barros defende a comunhão entre política e religião e lamenta o resultado das últimas eleições presidenciais: “a eleição de 2018 era entre democracia e barbárie e houve muitos cristãos, evangélicos e católicos que votaram pela barbárie e que votam contra a democracia até hoje. Isso é certamente um escândalo para o mundo, é um contrassenso para quem busca a fé a partir dos evangelhos, da bíblia e da tradição mais profunda das igrejas cristãs. Se Deus existe ele só pode ser amor e se Deus é amor, não pode ser de direita”.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Negras cristãs decidem</strong></h2>



<p>Mulher e negra. Esse é o perfil dominante das pessoas religiosas no Brasil, segundo a pesquisa Datafolha divulgada em 2020. Entre os evangélicos as mulheres são 58% dos membros. Já entre os católicos a diferença cai e as mulheres são 51%. A maioria dos brasileiros segue a religião católica, sendo 50% do total. Já os evangélicos correspondem a 31% da população.</p>



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<p>Ainda de acordo com a pesquisa, o perfil evangélico é mais negro do que o católico e chega a representar 59% dos fiéis. A maioria dos evangélicos reside na Região Norte do país, onde Bolsonaro teve maioria dos votos válidos nas últimas eleições.</p>



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<p>Apesar da pesquisa ter a pretensão de determinar um perfil dominante entre os religiosos, a pluralidade dos membros das diferentes crenças e religiões é fundamental para tentar entender o contexto social, cultural e econômico que é determinante nas eleições.</p>



<p>Mesmo que a maioria católica e evangélica tenha escolhido votar em Bolsonaro em 2018, isso não significa que o mesmo deve acontecer esse ano. A prova disso seria o crescimento de grupos como o <a href="https://www.instagram.com/cristaoscontraofascismo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Cristãos Contra o Fascismo</a>, <a href="https://www.facebook.com/frentedeevangelicos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito</a>,  <a href="https://www.geledes.org.br/evangelicos-se-unem-em-coalizao-contra-bolsonaro/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coalizão Evangélica contra Bolsonaro</a>, <a href="https://pt-br.facebook.com/mulhereseig/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Evangélicas pela Igualdade de Gênero</a> e <a href="https://evangelicxs.com/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Evangélicxs pela Diversidade</a>, além do aumento do número de pré-candidaturas de pessoas cristãs com ideais políticos progressistas.</p>



<p>“A vinculação da religião cristã ao autoritarismo é, a um só tempo, compreensível e questionável: se é verdade que diversos autoritarismos buscaram justificativas na religião cristã, é igualmente verdade que a religião cristã é morada de potências de liberdade e de subversão”, disse o pastor batista membro da Igreja Batista do Pinheiro, que pertence à <a href="https://www.aliancadebatistas.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Aliança de Batistas do Brasil</a> (ABB), Kinno Cerqueira.</p>



<p>Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil,com validação pela Faculdade Diocesana de Mossoró, Kinno é um dos evangélicos que romperam com as tradicionais igrejas justamente por não aceitar certos posicionamentos políticos e resolveu alinhar sua vivência pastoral à ABB que, segundo ele, é “uma comunhão de igrejas dissidentes dos batistas hegemônicos, um testemunho de comunidades batistas que fizeram uma aliança de viver e lutar pela liberdade de todas as pessoas e do planeta”.</p>



<p>Essa nova ordem cristã, que chega para criar uma nova leitura e interpretação da Bíblia Sagrada e lançar um olhar crítico às atitudes de seu povo, também quer dialogar com a política por acreditar que “a política não é uma opção, é uma imposição existencial contra a qual não se pode lutar. A isenção política, tão bem quista por muitos religiosos, não é uma decisão política? Assim como o ativismo, a indiferença é uma decisão política, e das mais imorais”, como afirmou Kinno.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-eleicao-sera-mais-suja-cristaos-conservadores-recebem-muito-dinheiro-de-fora-afirma-livia-reis/" class="titulo">&#8220;A eleição será muito mais suja, cristãos conservadores recebem muito dinheiro de fora&#8221;, afirma Lívia Reis</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/poder/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Poder</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h3 class="wp-block-heading"><strong>Evangélica e antiproibicionista</strong></h3>



<p>É possível ser cristã e ser a favor da legalização das drogas? Maria Tereza dos Santos, conhecida como Dona Tereza, tem convicção que sim. Integrante da Comunidade Cristã Ativa e da Associação de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade, Dona Tereza decidiu ser pré-candidata a deputada estadual em Minas Gerais pelo PT nessas eleições para tornar ainda mais público e coletivo aquilo que ela acredita ser o maior propósito de Deus em sua vida: o amor ao próximo.</p>



<p>Mulher negra e com 63 anos de idade, a coragem de Dona Tereza é surpreendente, pois, onde chega faz questão de levantar a bandeira do antiproibicionismo.</p>



<p>“A questão de eu ser antiproibicionista leva algumas pessoas a questionar se eu sou cristã ou não, mas está lá na bíblia, quando Deus proibiu Eva de comer do fruto proibido, ela foi lá comeu e ainda deu a Adão, e isso mostra que o atrativo está justamente naquilo que é proibido, então, nós não devemos proibir e sim orientar e dialogar com as pessoas”, disse Dona Tereza.</p>



<p>“Não existe lógica essa proibição do uso de drogas porque ela desencadeou uma guerra que eles dão o nome de guerra às drogas, mas que nós, enquanto pessoas negras e periféricas, desprovidas de recursos financeiros, sabemos que é uma guerra contra a pobreza, é uma guerra que justifica o genocídio e o encarceramento da juventude periférica e negra desse país”, completou.</p>



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	                                        <p class="m-0">Dona Tereza acredita que é melhor orientar os jovens  do que proibir as drogas. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
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<p>Para a pré-candidata, a escolha dos cristãos e evangélicos por Bolsonaro é extremamente contraditório pois suas atitudes não condizem com o que está escrito na bíblia: <strong>“</strong>como que o povo cristão consegue olhar na cara de um sujeito desse e achar que ele tem alguma coisa de Deus na vida dele? Ele prega o ódio, a desavença, o racismo, a homofobia. Eu acho que já tá na hora da gente deixar de dizer que é cristão e ser racista, não é? [&#8230;] Bolsonaro é um cara desprovido daquilo que Deus mais pregou: o amor”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Para normalizar relação religião e política</h3>



<p>Em Pernambuco, Ailce Moreira também se coloca como uma alternativa cristã progressista. Integrante da Igreja Batista de Coqueiral, a pré-candidata a deputada estadual pelo PSOL lamenta a generalização causada pelo resultado da última eleição e afirma que nem todos os cristão são conservadores.</p>



<p>“A gente precisa pensar que vivemos em uma sociedade onde as pessoas que frequentam a igreja são as mesmas pessoas que estão no mercado de trabalho, é o povo preto e periférico e também o dono da empresa, então, essas pessoas estão dentro da religião, crescem na igreja, mas também participam da política. A questão que deve ser priorizada agora é como fazer da relação entre política e religião algo que traga benefícios para toda a sociedade e não apenas para uma parcela dela, esse é esse nosso dever enquanto cristãos”, disse Ailce.</p>



<p>Para a pré-candidata o grande desafio das igrejas e dos cristãos progressistas agora é estabelecer um diálogo mais crítico e naturalizar o debate político nas instituições religiosas: “nesse contexto de polarização a gente já tem um juízo de valor e é muito mais fácil assumir que os cristãos são conservadores e por isso não merecem atenção do que se dispor a conversar e ouvir as pessoas”.</p>



<p>“O povo sofre na pele, sofre quando tem a casa invadida pela água, sofre quando ver a vida dos adolescentes serem ceifadas muito precoce, sofre por conta da política de drogas do nosso estado, então, a gente precisa trazer a memória essa vivência e assim construir um conhecimento político para que as pessoas estejam cientes e possam desenvolver suas próprias leituras”, concluiu a pré-candidata.</p>



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	                                        <p class="m-0">Ailce adverte que nem todo evangélico é conservador. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Ailce reforçou que a política não se faz apenas no período eleitoral, mas sim em todas as ações que proporcione a comunidade o poder de tomar e por em prática decisões determinantes para o seu convívio social, porque “o povo é capaz de criar seus próprios mecanismos de mobilização para mudar a dura realidade”. Ela cita o exemplo da Igreja Batista Coqueiral, da qual é membro, que, liderada pelo pastor José Marcos, promove ações de solidariedade e educação na Comunidade de Coqueiral, uma área periférica do Recife.</p>



<p>&#8220;A gente tem hoje uma série de cristãos que estão unidos para trazer à tona uma contra narrativa, uma narrativa de vida, de justiça e de combate às desigualdades, é para isso que estamos lançando as nossas pré-candidaturas&#8221;, finalizou Ailce Moreira.</p>



<p>Em diversos estados do Brasil é possível encontrar outros pré-candidatos e pré-candidatas cristãs progressistas, como afirma Ailce. Eis alguns cujas pré-candidaturas foram apresentadas: </p>



<ul class="wp-block-list"><li>Marcolino Poeta (UP-BA)</li><li>Anna Azevedo (PSOL-MG)</li><li>Fillipe Gibran (UP-MG)</li><li>Kenia Vertelo (UP-MG)</li><li>Kawan Lopes (PSOL-RJ)</li><li>Missionária Sabrina (PDT-RJ)</li><li>Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) </li><li>Pastora Mônica Francisco (PSOL-RJ)</li><li>Wesley Teixeira (PSB-RJ)</li><li>Bianca Ramires (PSOL-RS)</li><li>César Souza (PSOL-RS)</li><li>Teólogo Tiago Santos (PSOL-RS)</li><li>Danielle Rabelo (PDT-SP)</li><li>Diana Brasilis (PDT-SP)</li><li>Héber Farias (PSOL-SP)</li><li>Letícia Gabriella (PDT-SP)</li><li>Júlio Yamamoto (PT-SP)</li><li>Reverenda Alexya Salvador (PSOL-SP)</li><li>Zé Nildo (PSOL-SP)</li></ul>



<p><em><strong>Esta reportagem foi produzida com apoio do <a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do <a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project.</a></strong></em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante</strong>!</p><cite>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado como esse da cobertura das Eleições 2022 é caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa<a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a>ou, se preferir, usar nosso<strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong>. Nessa eleição, apoie o jornalismo que está do seu lado.</cite></blockquote>
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		<title>&#8220;A eleição será muito mais suja, cristãos conservadores recebem muito dinheiro de fora&#8221;, afirma Lívia Reis</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jun 2022 13:35:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[#eleições2022]]></category>
		<category><![CDATA[catolicos]]></category>
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<p class="has-text-align-left">Olhar para as eleições passadas pode ser como espiar pela brecha o quem vem em outubro. E uma das certezas que se antevê é de que a pauta moral, com lastro na religiosidade, vai continuar forte. Em 2020, as candidaturas com identidade religiosa foram mapeadas em oito capitais do Brasil em uma pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (Iser). O Recife foi uma dessas capitais &#8211; e a cidade onde a carta da religiosidade foi mais usada pelos candidatos.<br><br>Coordenadora nacional do estudo &#8220;<a href="https://religiaoepoder.org.br/artigo/iser-divulga-resultados-da-pesquisa-sobre-candidaturas-com-identidade-religiosa-nas-eleicoes-municipais-de-2020/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Religião e Voto: uma fotografia das candidaturas com identidade religiosa nas Eleições 2020</a>&#8220;, a pesquisadora Lívia Reis, doutora em ciências sociais, diz que a expectativa é de que o conservadorismo esteja ainda mais presente nas estratégias dos políticos. “Os religiosos conservadores vão adotar a narrativa dos ataques à religião cristã e à família tanto pelos governos que consideram “comunistas” quanto pelo STF. E esse tipo de ataque também é uma corrosão da democracia. É um poder atacando o outro e não permitindo o diálogo, mas pedindo o aniquilamento. Esse tipo de narrativa, com cristofobia e cerceamento de liberdades, vem com força nas eleições de 2022”, diz.</p>



<p>Na entrevista abaixo, Lívia Reis destrincha como as pautas morais, ligadas ao cotidiano, são usadas pelas candidaturas conservadoras com identidade religiosa. E como essas narrativas estão corrompendo a democracia brasileira.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>***</strong></p>



<p>Marco Zero Conteúdo &#8211; <strong>A pesquisa mostra que, apesar de representar 10% na eleição passada, candidaturas com identidade religiosa ocupam, em média, 51% das cadeiras nas câmaras municipais das oito capitais analisadas. É uma boa estratégia para ser eleito no Brasil?</strong></p>



<p><strong>Lívia Reis &#8211; </strong>Política e religião nunca foram uma coisa separada, sobretudo no Brasil. Temos a influência da Igreja Católica aqui, que acompanha a história da formação do Estado brasileiro. De novidade, não tem nada. O que está acontecendo é uma maior ênfase em pautas morais para a mobilização de candidaturas que, de alguma forma, apresentam certa identidade religiosa. Nessa pesquisa, tivemos o cuidado de avaliar mais especificamente como a religião é mobilizada pelas candidaturas. Não apenas no campo do que podemos chamar de conservador. A religião é mobilizada por progressistas também. Nesse campo, o mais comum é na religiosidade de matriz africana, com a pauta do fim da intolerância religiosa. Mas também pelos cristãos. Vimos nesta eleição da pesquisa, a de 2020, movimentos como <em>Cristãos contra o fascismo</em> e <em>Bancada Evangélica Popular,</em> que estavam ali também disputando o cristianismo durante a campanha eleitoral, dizendo &#8220;o cristianismo que a gente quer não é o do Bolsonaro, há outros tipos de cristianismo&#8221;. O que está acontecendo é que a pauta moral de base religiosa está ganhando mais espaço nas discussões eleitorais. Religião é uma variável importante na sociabilidade dos brasileiros, nunca esteve ausente da vida pública. Quando falo de pauta moral, não estou falando só de pautas como ideologia de gênero, como eles chamam, ou de aborto. Mas coisas mais cotidianas, como educação, violência contra a mulher, empreendedorismo, que são coisas que estão tematizadas dentro das igrejas. Então quando isso é trazido para o debate público durante as campanhas eleitorais, encontram uma certa equivalência de quem vai para as igrejas. Quando um candidato conservador está ali falando sobre cuidado, ele sabe que está falando para um público específico, que vai saber do que está sendo falado. Não precisa abertamente falar de religião para falar de religiosidade. Esse é um ponto. Por um lado, e nossa pesquisa mostra, isso é eficiente. Esse é um achado importante. Mas é importante pontuar que há diversas formas da mobilização da identidade religiosa. Então aquilo que chamamos de candidatura religiosa são aquelas pessoas que fizeram da religiosidade uma pauta central da campanha. Mas tem quem não usa como pauta central ou apenas é religioso. Tivemos o cuidado em separar essas candidaturas na pesquisa.</p>



<p><strong>A candidatura com identidade religiosa acontece mais na direita? Por que?</strong></p>



<p>A mobilização é diferente. Não é sobre a religião do candidato, é sobre quais pautas ele mobiliza durante o debate eleitoral. Isso, para quem está dentro das igrejas, comunica muito. Então você não precisa ficar batendo no seu peito e falando &#8220;olha, eu sou dessa tal igreja. Você fala assim: &#8220;Eu sou a favor do combate à intolerância religiosa porque os cristãos estão sendo perseguidos no mundo. Eu não quero que isso se torne uma realidade no Brasil&#8221;. Ou &#8220;eu defendo empreendedorismo, porque eu quero que as pessoas tenham liberdade e sejam incentivadas através de seus próprios méritos e seu esforço individual a alcançar a prosperidade&#8221;. Isso tem relevância dentro das igrejas. Ou quando o candidato fala que &#8220;eu não quero que educação sexual seja um tema dentro das escolas, porque eu acho que isso é um dever da família&#8221;. Então, quando o candidato levanta essas pautas no debate público durante as campanhas, ele está comunicando ao eleitor o tipo de cristianismo que ele pratica. Ele não precisa falar diretamente. Obviamente, alguns falam. As campanhas são feitas dentro das igrejas. O candidato da igreja Universal circula mais dentro dessas igrejas.  A questão do cuidado, por exemplo. Isso foi o slogan de campanha do Crivella, o &#8220;vou cuidar das pessoas&#8221;. Aí você transfere essa coisa do cuidado, que tem uma equivalência muito importante nas igrejas, que estão ali fazendo ações de assistência social o tempo inteiro, incentivando que seus membros façam assistência social. As pessoas que estão vendo ali dentro das igrejas, aquelas práticas de cuidado, podem pensar &#8220;tira isso da mão do Estado e passa para a mão da igreja&#8221;. As pessoas fazem suas associações sem que seja necessariamente importante você falar sobre o seu pertencimento religioso. As candidaturas que têm essas pautas no centro da sua candidatura são consideradas pela nossa pesquisa como candidaturas religiosas e no, caso do Recife, as candidaturas que mobilizaram a religião diretamente correspondem a 65,71% do total de candidaturas com a identidade religiosa.</p>



<p><strong>Foi a mais alta entre as oito capitais?</strong></p>



<p>Sim, dentro tipo de candidatura que mobiliza diretamente. O que gente tira disso é que quem mobiliza diretamente as pautas morais ligadas à religião são mais eleitas. A pesquisa demonstra que esse tipo de abordagem atraiu o eleitorado.</p>



<p><strong>Por que algumas candidaturas evangélicas usam o discurso de que são perseguidas?</strong> </p>



<p>Nos chamamos de retórica persecutória. A narrativa dos cristãos evangélicos para ingressarem na política &#8211; e estamos falando de 30, 40 anos atrás &#8211; é uma narrativa de perseguição. E que de fato existia. A narrativa de que os evangélicos não tinham espaço no debate público porque eles eram considerados uma minoria &#8220;burra&#8221; ou despolitizada foi um gancho muito utilizado para justificar a entrada dos evangélicos na política. Mas esse quadro mudou. Hoje, o que a gente vê é uma narrativa de cristofobia, que é diferente. Apesar dos evangélicos estarem cada vez mais presentes no espaço público, a narrativa que está em voga &#8211; e que está sendo disputada hoje &#8211; é a de que com as políticas progressistas do PT, como as ações afirmativas, eles foram perseguidos. Há um debate de raça muito intrínseco. A categoria raça virou uma disputa. Quando se diluiu aquele mito da igualdade racial, das três raças que convivem pacificamente, e se falou &#8220;não, as pessoas negras são discriminadas, por isso precisam de ações afirmativas&#8221;, essas políticas de integração para corrigir desigualdades não foram vistas com bons olhos. <br><br>Outra coisa foi o kit gay. Era, na verdade, um projeto de educação sexual nas escolas, muito diferente de um kit gay. Mas isso foi apropriado pela direita como sendo o kit gay. Diante dessa tentativa de redução de desigualdades e de ampliação do direito de minorias perseguidas — e estamos falando de combate à intolerância afro religiosa, de pessoas LGBTQIA+ — ,diante desses progressos na pauta dos direitos das minorias, veio colada uma narrativa de que existe uma perseguição aos cristãos. &#8220;Olha, se esse povo tá querendo falar de de ideologia de gênero nas escolas, isso é uma obra do demônio que precisa ser combatida&#8221; ou &#8220;eles vão transformar todos os nossos filhos em homossexuais&#8221;. Nisso, se propaga a ideia de que o avanço nos direitos das minorias é uma perseguição às moralidades cristãs. Outra coisa forte foi a equiparação da homofobia ao crime de racismo pelo STF. Isso tem uma ligação muito direta com a pauta da despatologização da homossexualidade, que já foi considerada doença, passível de cura. Então houve toda uma disputa, no Conselho Federal de Psicologia, para proibir os tratamentos de reversão sexual que eram praticados dentro das igrejas, por psicólogos. A partir do momento que o STF reconhece a homofobia como um crime, você não pode ficar dentro das igrejas falando que homossexualidade é uma doença. E isso também é considerado uma perseguição ao cristão. Essa narrativa de perseguição muda de configuração, mas ela vem de uma mesma linha. Quando o segmento religioso que hoje chamamos de evangélicos começa a crescer, lá na década de 1970, ele tem uma narrativa de perseguição: &#8220;A gente não tem o direito de professar nossa fé&#8221;. E isso vira a chave para entrada na política, porque também querem espaço e os direitos respeitados. Só que depois eles foram crescendo, cada vez mais, embora hoje tenhamos um cenário que indica uma estabilização, tanto da queda do catolicismo, quantos do crescimento do segmento evangélico. Essa narrativa de perseguição mudou de configuração e isso vai ser muito explorado nas próximas eleições. O Bolsonaro, quando leva isso para <a href="https://news.un.org/pt/story/2020/09/1727002" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a abertura da assembleia geral da ONU</a>, quando ele pede o combate à cristofobia, ele está falando disso, das pautas morais. O Brasil conseguiu avançar minimamente no que diz respeito à proteção dos direitos de minorias políticas e esse avanço foi usado para criar uma narrativa de perseguição às moralidades cristãs. Cristãs conservadoras, no caso, porque não é de todo o cristianismo que estamos falando.</p>





<p><strong>Então podemos esperar que, mesmo com temas tão fortes no Brasil atual, a pauta moral também virá com força?</strong></p>



<p>Com muita força. E vão muito além de aborto, ideologia de gênero e cristofobia. Agora em 2020, durante o auge da pandemia, isso foi muito explorado nas campanhas. Porque, entre as medidas sanitárias estava o fechamento das igrejas, que foi encarada como perseguição aos cristãos. Isso vira um argumento que corrobora o posicionamento do Governo Federal e dos seus atores. E qual que vai ser o argumento? Se o PT voltar, isso vai continuar acontecendo. E para isso deixar de acontecer, para as nossas liberdades individuais e de crença continuem sendo respeitadas, a gente não pode votar no PT. E quem é visto como o aliado dos &#8220;esquerdistas&#8221; nessa perseguição aos direitos dos cristãos? o Supremo Tribunal Federal (STF). Isso vai aparecer nas campanhas de uma forma muito articulada. A pauta moral é uma das chaves importantes da campanha das próximas eleições. Eu acho que essa pesquisa que fizemos já mostra muito como a pauta moral já está sendo articulada. O <em>homeschooling</em>, por exemplo, que já estava ali nas eleições de 2020 e vimos agora ser aprovado no Congresso.</p>



<p><strong>Isso vai ser um dos trunfos dos conservadores nas próximas eleições?</strong></p>



<p>Sim, porque tem a ver com ideologia de gênero, tem a ver com o cristofobia: &#8220;Eu quero que o meu filho não aprenda essa coisas&#8221;. A escola é associada não como um espaço seguro, mas como um espaço de perigo. E aí, quando você convence as pessoas que a escola não é um espaço seguro, a educação em casa é uma forma de assegurar a integridade das crianças. Então a proteção à criança e o cuidado com a família apresentam essas sutilezas. E estamos falando de família num sentido mais amplo, de responsabilidade de vínculos, não só de crianças, mas dos idosos também. Nas últimas eleições de 2020 tinha muito, muito político conservador com essa pauta de proteção dos idosos. O Governo Federal tem uma Secretaria Nacional de Idosos, então essas coisas são muito articuladas. Tem essas pequenas sutilezas de cuidados com a família, que são muito bem exploradas por esses políticos conservadores e que ligam a vida cotidiana à religiosidade. E aí que mora o perigo para a democracia. Passa-se uma falsa impressão de que se o Bolsonaro não ganhar, essas coisas vão estar em perigo.</p>



<p><strong>A pesquisa do Iser levantou 15 temas que são mais debatidos pelas candidaturas de identidade religiosa. E nessa lista tem o da segurança pública. Essa dupla arma e bíblia é algo historicamente ligado às candidaturas de identidade religiosa ou é algo que cresceu agora com Bolsonaro?</strong></p>



<p>Eu acho que ganhou novos contornos. Vemos um aumento progressivo dessa associação de identidade religiosa com militar. Até em nomes de urnas. Salvador, por exemplo, tem um Pastor Sargento Isidório. Houve um aumento nas últimas eleições, foi mais acionado, e isso tem a ver com essas articulações feitas. Quem nem são feitas pelo Bolsonaro, mas por um movimento mais amplo que podemos chamar de bolsonarismo ou neoconservadorismo, que fala da proteção às liberdades individuais. E a lógica é que se o Estado não me protege, eu não vou mais cobrar do Estado essa proteção: eu quero ter o direito de proteger a minha família. Entra na chave da defesa da família.</p>



<p><strong>Assim como o <em>homeschooling</em>, que também se pauta na defesa de uma &#8220;liberdade&#8221; individual. Processos que não passam pelo Estado, mas pelo núcleo familiar?</strong></p>



<p>Sim, e a consequência mais direta é uma corrosão do Estado de bem-estar. Vai minando. O que esse tipo de política propõe é que o Estado não é capaz de gerir a vida das pessoas, então você vai individualizando cada vez mais. Isso é uma característica de sociedades neoliberais. Vai minando tudo o que for para para promover o bem social, os direitos sociais e coletivos, que vão sendo colocados de lado em nome dos direitos individuais, das liberdades individuais. E falando de liberdade em um sentido muito amplo. O nosso sistema é de contrapesos, em que nenhum poder deve se sobrepor ao outro (individuais e coletivos). O ideal é que esses direitos estejam balanceados. E o que a gente está vendo é um desbalanceamento, no sentido de uma de uma superposição das liberdades individuais. É o discurso de &#8220;dane-se que minorias estão sendo prejudicadas por esse discurso de ódio, é a sua liberdade&#8221;.</p>



<p><strong>A pesquisa mostra que há poucos candidaturas religiosas de não cristãos e ainda menos eleitos. Em Recife, foram duas candidaturas, nenhuma eleita.  É comum essa subrepresentação?</strong></p>



<p>Sim, infelizmente. Apesar de que agora estamos vendo uma mudança nesse quadro. Candidaturas que se auto definem como afro religiosas e têm a pauta da intolerância e da defesa da cultura dos povos das culturas negros estão vendo que a representação na política institucional se tornou o requisito para a sobrevivência das religiosidades, que foi justamente o que fizeram os evangélicos 30, 40 anos atrás. Não estamos falando de equivalência de poder, é uma religiosidade que ainda não compõe nem 5% da população brasileira. Católicos e cristãos compõem mais de 80% da população, então essa subrepresentação se dá também na sociedade. As afro religiões nunca fizeram política institucional, é outra dinâmica de ocupação e relação com o espaço público e com a natureza. Historicamente, há essa ocupação como cultura. Tem toda uma história no PDT, pro exemplo, que tem um histórico de candidaturas negras com uma pauta mais ligada à cultura. O PT concentra mais candidaturas de católicos por conta da ligação histórica do PT com as comunidades eclesiais de base, com as pastorais da juventude. Agora estamos vendo mais candidaturas afros ligadas à religião, porque a representação política está sendo entendida como importante para a manutenção e garantia dos seus direitos. Infelizmente, porque, teoricamente, a religião da pessoa não não deveria influenciar no tipo de direito que é reivindicado. Se você tem pessoas comprometidas com a democracia e com os direitos humanos, não precisa de um representante da sua religião para ter seus direitos garantidos.<br><br><strong>O debate público, principalmente das esquerdas, ainda é muito voltado para o conservadorismo evangélico. Mas também existe um forte conservadorismo católico. Aqui no Recife, em 2020, teve um movimento das comunidades católicas que foi até a porta de um hospital público para tentar impedir o aborto legal em uma criança de dez anos. Como é esse conservadorismo católico nas eleições?</strong></p>



<p>Não é à toa que o Recife elegeu sete candidatos católicos, com diferentes graus de envolvimento com a igreja. Como coordenadora dessa pesquisa, fiquei um pouco impressionada também com a relação da igreja católica em Recife e esse setor de conservadores da igreja católica. Existe um conservadorismo católico que passa pela renovação carismática, mas que já começa a ir além dela. Existem muitos setores conservadores católicos que estão se mobilizando junto também com evangélicos conservadores e cristãos conservadores. Tem muitos conservadores que se denominam cristãos e são católicos. Quando precisam, eles se juntam. Das 39 cadeiras da Câmara de Vereadores do Recife, 20 candidatos com identidade religiosas foram eleitos. Desses 20, nove eram ligados ao PSB. Outra coisa importante também é que os católicos eleitos são majoritariamente brancos. São dados importantes a se trabalhar. Como o catolicismo é muito naturalizado, porque ele tende a ser visto como a religião dos brasileiros, começa a passar batido com a emergência do debate público dos evangélicos. Mas não é que eles deixam de existir: eles só ficam apagados. Eles ainda têm muito poder, ainda são muito conservadores e ainda têm um papel muito importante na manutenção dessas estruturas autoritárias de poder. É importante mostrar essa dimensão porque no Recife ficou muito evidente. É uma maioria branca, ligada a partidos conservadores &#8211; não no caso do PSB, que é um partido mais de centro-direita. Recife também foi a capital com mais candidaturas com identidade religiosa identificada em relação às candidaturas totais. A média nacional foi 10%. Recife foi 12,56 %: de 836 candidatos, foram 105 com identidade religiosa.</p>



<p><strong>O que podemos esperar das candidaturas com identidade religiosa para as eleições de 2022?</strong></p>



<p>Está sendo muito importante ver um crescimento da disputa pelo cristianismo também por setores de esquerda. Eu acho que isso é uma tendência que vai aumentar. É importante pontuar isso, de que existem muitos tipos de cristianismo e não só o conservadorismo cristão, uma direita cristã. O que está mandando no país atualmente não é o único tipo de cristianismo e isso está sendo disputado no espaço público. Estamos vendo também uma organização maior de afro religiosos, em torno da ocupação desse espaço, que eu não acho é necessariamente um indicativo da nossa qualidade democrática. Acho que é o contrário, indica que a nossa democracia está tão fraca que essas pessoas estão precisando recorrer a esses espaços para ter seus direitos garantidos. Enquanto minorias que são, a não representação delas nesses espaços têm significado um ataque cada vez maior a essas religiosidades. A maioria não está protegendo a minoria, o que mostra uma piora da nossa democracia.<br><br>Os ataques de um poder sobre o outro também são outro importante fator de risco para a nossa democracia nessas eleições. E isso vai ser feito muito por meio dessa pauta da cristofobia. O discurso, por exemplo, de que os valores cristãos e a família cristã estarão sob ameaça se o PT voltar. Os religiosos conservadores vão adotar a narrativa dos ataques à religião cristã e à família tanto pelos governos que consideram “comunistas” quanto pelo STF. E esse tipo de ataque também é uma corrosão da democracia. Não comporta o diferente. Esse tipo de narrativa, com cristofobia e cerceamento de liberdades, vem com força nas eleições de 2022. Vai ser uma eleição muito mais suja. Cristãos conservadores, sobretudo católicos, têm uma rede internacional de articulações, então recebem muito dinheiro de fora para investir nas narrativas. É tudo muito bem articulado.</p>



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		<title>Brasil tem 34 projetos de lei estadual para impedir uso da linguagem neutra</title>
		<link>https://marcozero.org/brasil-tem-34-projetos-de-lei-estadual-para-impedir-uso-da-linguagem-neutra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Oct 2021 14:28:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Camilla Figueiredo e Paulo Malvezzi, do site Diadorim Em 19 estados brasileiros e no Distrito Federal, o uso de gênero neutro na língua portuguesa é tema de projetos de leis, neste momento, de acordo com um levantamento feito pela Agência Diadorim. Ao todo, 34 propostas tramitam em Assembleias Legislativas do país. Todas querem impedir [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Camilla Figueiredo e Paulo Malvezzi, do site <a href="https://www.adiadorim.org/post/brasil-tem-34-projetos-de-lei-estadual-para-impedir-uso-da-linguagem-neutra">Diadorim</a></strong></p>



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<p id="viewer-1thff">Em 19 estados brasileiros e no Distrito Federal, o uso de gênero neutro na língua portuguesa é tema de projetos de leis, neste momento, de acordo com um levantamento feito pela <strong>Agência Diadorim</strong>. Ao todo, 34 propostas tramitam em Assembleias Legislativas do país. Todas querem impedir a variação na norma gramatical para além do binário masculino e feminino.</p>



<p id="viewer-bct84">A primeira lei aprovada e sancionada é de Rondônia. Ela foi assinada pelo governador Marcos Rocha (PSL) em 19 de outubro e proíbe a linguagem neutra na grade curricular e no material didático de instituições de ensino públicas ou privadas e em editais de concursos públicos.</p>



<p id="viewer-3jrun">Os lugares com mais projetos desse tipo, cada um com três propostas, são Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro e Santa Catarina. O Sudeste é a região onde há maior concentração de proposições, 11, seguido do Nordeste, com 10, e do Centro-Oeste e Sul, ambos com seis. No Norte, apenas o Amazonas discute o assunto, além de Rondônia, que se tornou o primeiro estado a aprovar uma legislação sobre o tema.</p>





<ul class="wp-block-list"><li><strong>Confira os projetos de lei estado por estado:</strong></li></ul>





<p id="viewer-cin08">A linguagem neutra considera o uso da letra “e” em vez de “o” ou “a”, em substantivos, e a inclusão dos pronomes “elu”, “delu”, “ile” e “dile”, no idioma. Ela é reivindicada principalmente por grupos de pessoas agênero e não-binárias.</p>



<p id="viewer-fernb">A discussão nas Assembleias Legislativas brasileiras em torno da linguagem neutra é liderada majoritariamente por partidos de direita do espectro político-ideológico. Dos 34 projetos, 13 são de parlamentares eleitos pelo PSL, ex-partido do presidente Jair Bolsonaro. Os dados apurados pela <strong>Diadorim </strong>mostram ainda que 31 propostas são de autoria de homens, o que representa 88,57 % dos casos. Oito deles foram criados por deputados militares (sargentos, tenentes, capitães ou delegados). Há também um pastor e um “apóstolo”.</p>



<p id="viewer-ee9ep">Para a presidenta da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Symmy Larrat, embora os deputados justifiquem em seus discursos a “defesa da família”, a política construída é “de morte”. “Com esse discurso de ódio, nos retiram da família, nos expulsam, nos colocam em vulnerabilidade”, diz ela. “Eles já aprenderam que quando eles contam essas mentiras, ganham voto. Esse movimento tem levado oportunistas religiosos ao poder.”</p>



<p id="viewer-fbv6u">Os principais eixos temáticos das propostas visam à proibição da linguagem não-binária na educação, 28, e na administração pública, 16. Algumas incluem ambas as áreas. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, há projeto de lei tratando também de restrição no campo de produções culturais, um em cada estado.</p>



<p id="viewer-bkf7v">Larrat acredita que o tema da linguagem neutra deve estar presente também nas eleições de 2022. “É mais um assunto de um movimento de mentiras. Vai entrar no discurso do mesmo jeito que entraram a ‘mamadeira de piroca’ e todas as mentiras sobre a vacina”, afirma. “Mas eu espero que as pessoas tenham percebido que isso está matando gente.”</p>



<p id="viewer-c8m8e">A ABGLT, diz a presidenta, tem orientado seus representantes em todos os estados brasileiros a dialogarem com deputadas e deputados para se opor aos PLs.</p>





<h2 class="wp-block-heading"><strong>A linguagem neutra na academia e nas artes</strong></h2>



<p id="viewer-94un7">A linguagem neutra é um mecanismo de inclusão e visibilidade, de acordo com o linguista Iran Melo, coordenador do NuQueer (Núcleo de Estudos Críticos do Discurso e Teoria Queer), da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco). Para ele, a língua também é uma ferramenta de disputa de poder. “O que repercute na língua é o que repercute na demanda social de maneira geral. De modo que as pessoas têm se reconhecido cada vez mais fora dos padrões de masculino e feminino e elas têm promovido novas maneiras de representatividade sobre suas identidades pela língua”, opina.</p>



<p id="viewer-fhkgm">O enfrentamento aos conceitos hegemônicos de gênero desperta reações violentas, pois “há um grande projeto de sociedade que não aceita as possibilidades de as pessoas terem liberdade com o corpo, com a vida, uma liberdade da categoria fundamental de suas vidas que é o gênero”, segundo o pesquisador. “Qualquer coisa que venha promover um outro modo de ser no mundo se apresenta como ameaça para esse projeto sócio-cultural, sócio-político.”</p>



<p id="viewer-6eo84">Em 24 de julho deste ano, o uso da palavra “todes” em uma postagem do Museu da Língua Portuguesa, nas redes sociais, despertou reação do secretário especial de Cultura do governo federal, Mário Frias. Ele acusou a instituição de vandalizar a cultura e afirmou que tomará medidas “para impedir que usem dinheiro público federal para piruetas ideológicas”. Após os ataques de Frias, nove projetos de lei foram apresentados por deputados estaduais.</p>



<p id="viewer-1rh2v">A linguagem neutra também já vem sendo incluída em obras artísticas no país. Recentemente, ela foi anunciada como elemento narrativo na novela “Cara e Coragem”, da Globo, escrita por Claudia Souto e prevista para estrear em maio de 2022. Na exposição sobre a vida e obra de Maria Carolina de Jesus — em cartaz até 30 de janeiro de 2022 no Instituto Moreira Salles de São Paulo — , os textos da curadoria incluem termos de gênero neutro, como “todes” e “outres”.</p>



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		<title>Movimento de médicos que mistura aborto com cloroquina tem ligações com Ministério da Saúde</title>
		<link>https://marcozero.org/movimento-de-medicos-que-mistura-aborto-com-cloroquina-tem-ligacoes-com-ministerio-da-saude/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Apr 2021 18:02:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[cloroquina]]></category>
		<category><![CDATA[conservadorismo]]></category>
		<category><![CDATA[extrema-direita]]></category>
		<category><![CDATA[hidroxicloroquina]]></category>
		<category><![CDATA[kit covid]]></category>
		<category><![CDATA[médicos]]></category>
		<category><![CDATA[ministério da saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Mariama Correia, da Agência Pública “Quem defende a vida não pode ser a favor do aborto”; “atendimento precoce salva sua vida”. Essas mensagens estão em dez outdoors espalhados por Fortaleza (CE). A ação é do “Ainda Há Bem”, um movimento formado por médicos conservadores do Ceará que surgiu de forma um tanto misteriosa. Sem [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Mariama Correia, da <a href="https://apublica.org/2021/04/movimento-de-medicos-que-mistura-aborto-com-cloroquina-tem-ligacoes-com-ministerio-da-saude/">Agência Pública</a></strong></p>



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<p>“Quem defende a vida não pode ser a favor do aborto”; “atendimento precoce salva sua vida”. Essas mensagens estão em dez outdoors espalhados por Fortaleza (CE). A ação é do “Ainda Há Bem”, um movimento formado por médicos conservadores do Ceará que surgiu de forma um tanto misteriosa. Sem divulgar a lista de seus integrantes, lançaram, em pleno feriado da Semana Santa, uma articulada campanha de marketing, com publicações em redes sociais, mídia exterior, jornais e distribuição de alimentos em bairros periféricos. Embora se diga apartidário, o grupo, que associa aborto e um suposto tratamento precoce contra a covid-19, tem ligações com gestores do Ministério da Saúde e com o grupo político do senador Eduardo Girão (Podemos).</p>



<p>Girão é autor do Projeto de Lei (PL) 5.435/2020, que ficou conhecido como “bolsa estupro”, porque queria criar um incentivo financeiro para que as vítimas de estupro não abortassem. Esse dispositivo foi retirado do PL depois da grande repercussão na mídia, mas os movimentos feministas defendem que a proposta seja cancelada por completo. “A ‘bolsa estupro’ é apenas um detalhe sórdido em um projeto cujo objetivo final é criminalizar ainda mais o aborto no Brasil”, comentou Jolúzia Batista, do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea).</p>



<p>Nas redes sociais, o “Ainda Há Bem” se apresenta como um movimento estadual de médicos cristãos que pretende se tornar nacional. O site do movimento foi registrado no fim de março em nome da Inovates, uma organização que trabalha com o desenvolvimento de soluções sustentáveis para empresas. O responsável pelo domínio, de acordo com o site Registro.BR, é Gabriel Fabres Beliqui, diretor-presidente da Inovates. No registro aparece também o nome de Vinícius Nunes Azevedo, diretor do Ministério da Saúde. Ele é sócio de Gabriel Beliqui e de Anselmo Buss Júnior – o presidente da Inovates – na Inovates Consult, que tem outro CNPJ, mas o mesmo telefone e o mesmo endereço eletrônico da Inovates no cadastro da Receita Federal.</p>



<p>Vinícius foi nomeado diretor do Departamento de Gestão da Educação na Saúde (Deges) em julho do ano passado, ainda na gestão do ministro Eduardo Pazuello, substituído pelo médico Marcelo Queiroga em março deste ano. Chegou a ser exonerado do cargo em fevereiro pelo ministro chefe da Casa Civil, general Braga Netto, mas a decisão foi revista poucos dias depois. A reportagem procurou o Ministério da Saúde para esclarecimentos, mas não obteve retorno até a publicação.</p>



<p>Em abril, pouco depois da aparição do “Ainda Há Bem”, Marcelo Queiroga designou Vinícius como substituto eventual da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, atualmente Mayra Pinheiro, a pediatra cearense conhecida como “capitã cloroquina”. Mayra ganhou relevância no Ministério da Saúde durante a gestão de Pazuello, quando virou uma espécie de porta-voz do chamado “tratamento precoce da covid-19”, que inclui ivermectina e cloroquina – medicações sem eficácia comprovada no combate à doença e que têm sido associadas a sérios efeitos colaterais, como hepatite.</p>



<p>A secretária Mayra divulgou o lançamento do “Ainda Há Bem” no seu perfil do Facebook. A postagem, em 31 de março, mostra os outdoors que já estavam sendo instalados em várias avenidas de grande circulação de Fortaleza e no município de Juazeiro do Norte, região do Cariri cearense. Cada outdoor custa aproximadamente R$ 750, segundo funcionários da Divulcart, empresa que assina as peças. Porém, ainda de acordo com as fontes consultadas pela reportagem, as dez peças da campanha de mídia exterior do “Ainda Há Bem” foram instaladas “sem custo, a pedido de representantes da empresa Coco Bambu”. A rede de restaurantes nascida no Ceará pertence ao empresário bolsonarista Afrânio Barreira, que, assim como o presidente, é devoto da cloroquina.</p>



<p>Pelo WhatsApp, Gabriel Beliqui informou que é “apoiador do projeto” que chamou de “bela iniciativa”. Ele disse que ajudou “apenas com o registro do domínio” do movimento Ainda Há Bem e negou que a Inovates tenha envolvimento institucional com o grupo, embora o site esteja registrado com o CNPJ da empresa.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O senador e a secretária negacionistas</h2>



<p>Em 17 de março, pouco antes do lançamento do “Ainda Há Bem”, a secretária do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, se reuniu com o senador Eduardo Girão (Podemos) e com o presidente do Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde), Wilames Freire Bezerra, que são seus conterrâneos. A reportagem solicitou detalhes sobre o assunto da reunião, mas não recebeu resposta do Ministério da Saúde.</p>



<p>A relação entre o empresário e senador Eduardo Girão e a secretária bolsonarista é antiga. Ela se candidatou ao Senado em 2018, formando chapa com ele, que conseguiu se eleger na época pelo Pros. Eles compartilham pautas conservadoras e são nomes fortes do ativismo antiaborto no Ceará. Como presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, ela mobilizou apoio para o movimento Pró-Vida de Fortaleza.</p>



<p>Desde 2008, a capital cearense é palco da Marcha pela Vida, um dos principais eventos do gênero Brasil, apoiado por artistas de relevo, como a cantora Elba Ramalho. A organização é do Movida (Movimento a Favor da Vida), pertencente a Eduardo Girão. Antes de assumir o mandato, Girão frequentava manifestações e audiências públicas, algumas ao lado da atual ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O papel do Sindicato dos Médicos do CE</h3>



<p>No Ceará, o sindicato dos médicos ainda é comandado pelo grupo político ligado à secretária Mayra Pinheiro. Conselheiro fiscal da atual gestão, o cirurgião Marcelo Esmeraldo Holanda apresenta o movimento de médicos anti-aborto e pró-cloroquina “Ainda Há Bem” em um vídeo. “Nós somos contra o aborto e a favor da vida porque somos cristãos por convicção”, diz na gravação. Ao lado dele está Fernando Dantas, da Associação Anjo Rafael, por meio da qual o grupo de médicos anti-aborto distribuiu alimentos na comunidade do Barroso, em Fortaleza.</p>



<p>“O grupo que está no comando do sindicato é muito ligado a pautas reacionárias. Defende cegamente Bolsonaro (mesmo com mais de 350 mil mortes por covid-19 no País), tratamento profilático ou precoce com medicações que as evidências científicas já demostraram ser ineficazes e inadequadas”, afirma o Coletivo Rebento/Médicos em Defesa da Vida, da Ciência e do SUS do Ceará, que reuniu assinaturas de 1.113 médicos do estado, em oposição a uma nota de apoio a Bolsonaro lançada por médicos de Fortaleza, cuja lista de assinaturas inclui o vice-reitor da Universidade Federal do Ceará, o médico José Glauco Lobo Filho; a secretária do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro; Marcelo Esmeraldo e Edmar Fernandes de Araújo Filho, que é diretor financeiro do Sindicato dos Médicos do Ceará.</p>



<p>Edmar foi presidente da entidade na gestão anterior e candidato a vereador pelo Pros, mesmo partido que elegeu Eduardo Girão no Senado. Em seu perfil no Instagram, ele defende o uso profilático de azitromicina e ivermectina no combate à covid-19, ambos remédios do chamado “kit covid”, que, como já dito, não têm eficácia comprovada contra a doença.</p>



<p>Por telefone, a comunicação do sindicato dos médicos do Ceará informou que o Ainda Há Bem é um movimento independente e que a adesão do médico Marcelo Esmeraldo não tem relação com a entidade. A comunicação da entidade disse não ter informações sobre a participação de outros integrantes da diretoria no movimento de médicos conservadores. O ‘Ainda Há Bem’ informou, pela página do Facebook, que responderia os questionamentos da reportagem por telefone, mas não fez contato até a publicação.</p>



<p>Até o momento da publicação, não recebemos informações do ministério da Saúde sobre o envolvimento dos seus servidores no movimento de médicos pró-cloroquina e contra o aborto. Também não conseguimos contato com o diretor Vinícius Nunes Azevedo.</p>



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	                                        <p class="m-0">Mayra Pinheiro e Eduardo Girão em vídeo da Associação Médicos pela Vida (crédito: Reprodução)</p>
	                
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<h4 class="wp-block-heading">Extrema-direita de jaleco</h4>



<p>O “Ainda Há Bem” não é o único movimento de médicos conservadores articulado em defesa de tratamentos ineficazes contra a covid-19 no Brasil. O próprio Conselho Federal de Medicina tem se alinhado com o discurso bolsonarista pró-cloroquina. Em fevereiro deste ano, 11 grandes jornais brasileiros publicaram um informe publicitário pró-cloroquina da Associação Médicos pela Vida, que é bancada por indústrias farmacêuticas, como revelou o Estado de S. Paulo e tem manifestos na internet com mais de 4 mil assinaturas.</p>



<p>A secretária Mayra Pinheiro e o senador Eduardo Girão também estão envolvidos na Associação Médicos pela Vida. Eles até mesmo aparecem em um vídeo do movimento. “Todo brasileiro tem direito à sua própria autonomia de receber as medicações cloroquina e hidroxicloroquina associadas à azitromicina”, diz Mayra no vídeo. “A gente vai garantir isso ao povo cearense”, completa.</p>



<p>“Nunca tínhamos visto tantos movimentos articulados de médicos conservadores no Brasil como há agora”, comenta Cristião Rosas, ginecologista obstetra, representante da Rede Médica pelo Direito de Decidir. “Esses profissionais têm se empoderado politicamente e articulado redes estaduais e nacionais, com forte discurso religioso”, observa.</p>



<p>Cristião Rosas alerta que “políticas públicas de saúde – como o enfrentamento da covid-19 e do aborto, que é legalizado no Brasil quando a gestação traz riscos para a saúde da mulher, é resultante de um estupro ou se o feto for anencéfalo – não podem ser pautadas pela religião. “Sou presbiteriano, mas entendo que descriminalizar o aborto é reduzir as mortes das mulheres, sobretudo negras e pobres. Também sou médico pela vida, mas pela vida das mulheres. Ser pró-vida não é ser antidireitos”, diz.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Seja mais que um leitor da Marco Zero</strong>…</p><cite>A Marco Zero acredita que compartilhar informações de qualidade tem o poder de transformar a vida das pessoas. Por isso, produzimos um conteúdo jornalístico de interesse público e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Tudo feito de forma independente.<br><br>E para manter a nossa independência editorial, não recebemos dinheiro de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, dependemos de você, leitor e leitora, para continuar o nosso trabalho e torná-lo sustentável.<br><br>Ao contribuir com a Marco Zero, além de nos ajudar a produzir mais reportagens de qualidade, você estará possibilitando que outras pessoas tenham acesso gratuito ao nosso conteúdo.<br><br>Em uma época de tanta desinformação e ataques aos direitos humanos, nunca foi tão importante apoiar o jornalismo independente.<br><br>É hora de assinar a Marco Zero <a target="_blank" href="https://marcozero.org/assine/" rel="noreferrer noopener">https://marcozero.org/assine/</a></cite></blockquote>
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		<title>Em meio ao caos, João Pedro Stédile mantém otimismo</title>
		<link>https://marcozero.org/em-meio-ao-caos-joao-pedro-stedile-mantem-otimismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Aug 2020 09:36:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[conservadorismo]]></category>
		<category><![CDATA[esquerda]]></category>
		<category><![CDATA[João Pedro Stédile]]></category>
		<category><![CDATA[MST]]></category>
		<category><![CDATA[partidos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Durante muito tempo, o economista João Pedro Stédile foi a cara do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) para boa parte da sociedade. Apesar de ser uma das principais lideranças do movimento, sua notoriedade na população era desproporcional ao suposto poder que exercia na organização, cuja coordenação é coletiva desde a fundação, em 1984. Sua [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Durante muito tempo, o economista João Pedro Stédile foi a cara do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) para boa parte da sociedade. Apesar de ser uma das principais lideranças do movimento, sua notoriedade na população era desproporcional ao suposto poder que exercia na organização, cuja coordenação é coletiva desde a fundação, em 1984.</p>



<p>Sua fama, na verdade, foi construída por capas de revistas, matérias de TV e manchetes de jornais que, ao longo da década de 1990, descreviam um Stédile ora como um terrorista, ora como um baderneiro. Ou um demônio, como em uma famosa capa da Veja de 1998.</p>



<p>Aos 66 anos, Stédile, admite ser leitor do jornal Valor Econômico e lembra com bom humor do processo de demonização da qual foi alvo &#8211; “Me botaram até uns cornos na cabeça” -, mas encara com naturalidade o fato de ter sido tratado como inimigo público. Segundo ele, quem entra na luta contra o poder da burguesia precisa estar preparado emocionalmente para enfrentar reações como aquelas.</p>



<p>Hoje, ele é um dos raros militantes de esquerda a esbanjar otimismo em pleno governo Bolsonaro.</p>



<p>Na entrevista que concedeu aos editores da Marco Zero, Stédile detalhou as razões do seu otimismo. Fizemos um resumo da entrevista:</p>



<figure class="wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Entrevista João Pedro Stédile" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/4dmMcar1yyY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Brasil não é conservador</strong></h2>



<p>João Pedro Stédile explica porque é um otimista com o futuro do Brasil a partir de 35:18 min do vídeo. Para ele, o capitalismo já não consegue gerar emprego e renda para os mais pobres e não vai resolver os problemas das pessoas. “Pessimistas nós podíamos ser na ditadura. Vivi a ditadura militar, senti o peso da ditadura, com a economia crescendo e o povo votando na Arena”.</p>



<p>Pouco antes (aos 26:25 min da entrevista), Stédile afirma que a sociedade brasileira não é conservadora. O Estado brasileiro e suas instituições é que são racistas, o que, em sua percepção, é bem pior do que o conservadorismo. A onda conservadora atual, de acordo com seu entendimento, é resultado da manipulação de informações porque a extrema-direita aprendeu a lidar com a internet. Por isso, “o centro da luta política é ideológico, é a luta pelas ideias”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O MST nas cidades</strong></h3>



<p>Logo no início da entrevista, Stédile foi questionado se as ações solidárias do MST nas comunidades pobres das grandes cidades eram temporárias, impulsionadas apenas pela crise da covid-19 ou se o movimento estará mais presentes nas capitais a partir de agora.</p>



<figure class="wp-block-embed-wordpress aligncenter wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-marco-zero-conteudo"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="5oZOpcdQBl"><a href="https://marcozero.org/pandemia-levou-o-mst-para-mais-perto-das-cidades/">Pandemia levou o MST para mais perto das cidades</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;Pandemia levou o MST para mais perto das cidades&#8221; &#8212; Marco Zero Conteúdo" src="https://marcozero.org/pandemia-levou-o-mst-para-mais-perto-das-cidades/embed/#?secret=QU1C7itQHG#?secret=5oZOpcdQBl" data-secret="5oZOpcdQBl" width="500" height="282" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
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<p>Em resposta, no minuto 10:03, ele revelou planos surpreendentes, como o de defender a desapropriação de terras próximas aos grandes centros urbanos. Essas terras seriam destinadas à produção de alimentos saudáveis para a população das cidades. “Em 200 hectares é possível gerar emprego e renda para mais de 500 pessoas, que podem continuar vivendo onde estão”.</p>



<p>Uma das estratégias de longo prazo do MST é impulsionar a agroecologia para a produção de alimentos diversificados para o mercado interno. O foco do agronegócio são as exportações de poucos tipos de produtos.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Financiamento criativo</strong></h3>



<p>Lutar por mais recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para os assentamentos já não faz parte da agenda do MST. Segundo ele, o Pronaf, mais antiga política de crédito rural do país, endivida o agricultor e gera lucros para as empresas que fornecem maquinário, adubos e agrotóxicos.</p>



<p>Aos 19:02 min do vídeo, o líder do movimento explica como funciona o fundo de financiamento para produção de alimentos, criado com ajuda do empresário e investidor <a href="https://edumoreira.com.br/">Eduardo Moreira</a>. O fundo, conhecido como Finapop, marcou a estreia do MST como captador de capitais no mercado financeiro. Stédile revelou que que um novo fundo de investimento está prestes a ser lançado pelo movimento.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Partidos de e<strong>squerda não dão exemplo</strong></h3>



<p>Mesmo em tom moderado, a partir do minuto 46:37 ele faz críticas ao “método de trabalho” dos partidos de esquerda, que estariam mais preocupados com eleições e com a manutenção dos mandatos dos seus parlamentares do que com a organização do povo e a presença nas comunidades. O raciocínio dele é mais ou menos este: a quantidade de pessoas mobilizadas vale mais que o número de deputados da bancada.</p>



<p>Mais à frente (50:03 min), Stédile cita dom Pedro Casaldáliga, que vivia em uma modesta casa de camponês e usava sandálias de dedo. A humildade do recém falecido bispo de São Félix do Araguaia seria um exemplo de referência para o povo. Como contraponto dessa “pedagogia do exemplo”, estaria o estilo de vida dos políticos, incluindo os de esquerda: “Veja como vivem os deputados”.</p>
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		<title>Projetos de lei tentam censurar danças nas escolas em vários estados do país</title>
		<link>https://marcozero.org/projetos-de-lei-tentam-proibir-dancas-nas-escolas-por-todo-o-pais/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Mariama Correia]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Sep 2019 14:40:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[bancada evangélica]]></category>
		<category><![CDATA[conservadorismo]]></category>
		<category><![CDATA[danças]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No país do samba, do axé, do frevo, do maracatu e de tantas expressões culturais exuberantes, parece incoerente proibir danças nas escolas. No entanto, em pelo menos cinco estados brasileiros projetos de lei (PL) que visam esse tipo de censura estão em tramitação nas Assembleias Legislativas. As propostas têm objetivos e justificativas iguais. Pretendem proibir [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[No país do samba, do axé, do frevo, do maracatu e de tantas expressões culturais exuberantes, parece incoerente proibir danças nas escolas. No entanto, em pelo menos cinco estados brasileiros projetos de lei (PL) que visam esse tipo de censura estão em tramitação nas Assembleias Legislativas.

As propostas têm objetivos e justificativas iguais. Pretendem proibir danças que “aludam à sexualização” no ambiente escolar e que promoveriam, na avaliação dos seus autores, a “erotização precoce de crianças e adolescentes”.

No dia 28 de agosto, a integrante da bancada evangélica da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), deputada Clarissa Tércio (PSC), apresentou o <a href="http://www.alepe.pe.gov.br/proposicao-texto-completo/?docid=4966&amp;tipoprop=p">PL 494/2019.</a> Ela postou vídeos em suas redes sociais para divulgar a iniciativa. Em um deles, gravado ao lado de um pastor, a parlamentar afirma: “uma criança dançando na escola, balançando o bumbum, não é cultura”. Na sequência, mostra uma gravação onde jovens estão dançando o passinho, um tipo de coreografia oriunda das periferias do Recife.

O passinho pernambucano, que é diferente do carioca, tem sido o principal alvo das críticas de Clarissa Tércio. Embora não seja citado diretamente no PL, foi com essa espécie de cruzada contra a coreografia, um estrondoso sucesso entre os jovens, que ela conseguiu espaço na mídia. E isso com o projeto estando apenas no início da tramitação. Inclusive, a OAB do Estado já alertou que o <a href="http://marcozero.org/projeto-que-proibe-passinho-nas-escolas-e-inconstitucional-alerta-presidente-da-oab/">projeto é inconstitucional</a>, ou seja, não deve ser aprovado.

Mesmo assim, a deputada fez escola. Dançado ao som do brega-funk, o passinho pernambucano ainda não chegou a São Paulo. Mas, em 11 de setembro, o deputado paulista Douglas Garcia, do PSL, apresentou um projeto&nbsp; quase idêntico ao que está em tramitação na Alepe. Declaradamente inspirado na iniciativa da deputada, o texto se diferencia apenas pela supressão de um artigo onde a aplicabilidade da norma para qualquer dança pernambucana fica estabelecida.

Como que em um movimento orquestrado, outras proposições semelhantes apareceram em vários estados. Também do PSL do presidente Jair Bolsonaro, o deputado estadual Capitão Contar apresentou, em 10 de setembro, um <a href="http://sgpl.consulta.al.ms.gov.br/sgpl-publico/#/linha-tempo?idProposicao=85871">PL equivalente</a> no Mato Grosso do Sul. Quase que uma cópia perfeita do projeto de lei de Clarissa, o texto menciona que debates sobre o mesmo tema estão em curso nas Assembleias Legislativas de Pernambuco e do Rio de Janeiro. No Rio, onde se dança passinho ao som do funk, contudo, o <a href="http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/scpro1923.nsf/18c1dd68f96be3e7832566ec0018d833/e310f1746e9644ce8325846b00543144?OpenDocument">projeto apresentado pelo membro da bancada evangélica</a>, Márcio Canella (MDB), não estabelece proibição a danças, apenas medidas educativas de conscientização à erotização infantil.
<h4><b>Ctrl C+Ctrl V</b></h4>
Não são apenas os textos dos projetos se assemelham, como também seus autores. Todos são integrantes de bancadas evangélicas e/ou ligados à partidos políticos que defendem pautas conservadoras. Também do PSL do presidente Jair Bolsonaro, o deputado Paulo Trabalho é o autor de uma <a href="https://portal.al.go.leg.br/deputado/processos/id/2124">proposta que versa sobre a mesma temática </a>em Goiás, em tramitação desde 2 de setembro.

Do Patriotas, o delegado Wallber Virgolino, levou o mesmo debate para a Assembleia Legislativa da Paraíba, quando apresentou, no dia 6 de setembro, o<a href="http://www.al.pb.leg.br/wp-content/uploads/2019/09/DPL-13.09.20192.pdf">&nbsp;PL 920/2019</a>, que mira na proibição de “coreografias obscenas” nas escolas. Membro da bancada evangélica da Assembleia Legislativa da Bahia, o pastor Isidório Filho, do Avante, foi além. No dia 4 de setembro, apresentou um <a href="https://www.al.ba.gov.br/atividade-legislativa/proposicao/PL.-23.501-2019">projeto de lei </a>que estende a proibição de ‘danças eróticas’ a programas de TV e em qualquer ambiente público.

Pesquisador das relações entre religião e política, o professor Joanildo Burity, da Fundação Joaquim Nabuco e da UFPE, considera que há um avanço de pautas conservadoras de maneira coordenada nacionalmente. Ele acredita que esse fenômeno ganhou força após a eleição de Bolsonaro, mas não necessariamente parte de um comando central. &#8220;Na verdade é o contrário. São grupos organizados, presentes no país inteiro, que constituíram representatividade ao longo dos anos nos ambientes de poder&#8221;, considerou. Contudo, Burity vê um esforço coordenado do campo evangélico conservador na defesa de pautas morais no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras Municipais.

<a href="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/01/MARCO_ZERO_HORA_DE_ASSINAR_BANNER.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-13037 size-full" src="http://marcozero.org/wp-content/uploads/2019/01/MARCO_ZERO_HORA_DE_ASSINAR_BANNER.jpg" alt="MARCO_ZERO_HORA_DE_ASSINAR_BANNER" width="730" height="95"></a>

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De um lado, o pesquisador avalia que esses movimentos&nbsp;são representativos, considerando o grande contingente de evangélicos na população. Eles trazem&nbsp; pautas que têm ressonância nas igrejas, sobretudo nas pentecostais, que representam mais de 60% do campo evangélico no país. Por outro lado, os movimentos mais conservadores não representam a totalidade dos evangélicos brasileiros,&nbsp;na análise de Burity, mas &#8220;uma visão muito particular de uma fé que tenta ser imposta por uma minoria&#8221;. É o tipo de imposição que acontece no caso dos projetos de lei defendidos por bancadas evangélicas para proibir danças.&nbsp;&#8220;Não custa lembrar&nbsp;que o&nbsp;Brasil constitucionalmente não reconhece nenhuma religião como representante do Estado&#8221;, ressaltou o pesquisador.
<h4><strong>É proibido proibir</strong></h4>
Psicóloga e mestra em antropologia, Daniela Sales reflete que, quando se trata do público jovem, o proibicionismo quase nunca tem eficácia. Para ela, os projetos que censuram danças tidas como estimuladoras da erotização precoce são dicotômicos. &#8220;A indústria de cosméticos também promove a erotização das crianças. Por que não é um alvo?&#8221;, questionou.

Ao cercear a liberdade de expressão através da dança nas escolas, a psicóloga acredita que o&nbsp;debate sobre a sexualidade fica negligenciado. &#8220;A partir de manifestações como o passinho, pode se iniciar discussões sobre o corpo, os direitos reprodutivos e a objetificação da mulher, por exemplo. Trazer o jovem para uma posição de protagonismo&#8221;, avaliou.&nbsp;Ela chamou atenção para o fato de que o discurso muitas vezes adotado pelos parlamentares é&nbsp;o da defesa da família e da moral, &#8220;mas uma família heterossexual, branca e de classe média&#8221;. &#8220;No fundo é um ataque à questões de gênero, raça e classe&#8221;, opinou Daniela.

A dinâmica conservadora do momento atual do Brasil aciona pautas que tentam impor o controle sobre o corpo e sobre a moral, sintetizou o pesquisador e professor da UFPE Thiago Soares. Ele ressaltou o fato de que pautas semelhantes estão em voga em outros contextos, dentro e fora das Casas Legislativas. E questionou: &#8220;o que é legislar sobre o corpo no Brasil?&#8221;

&#8220;Somos um país&nbsp;cuja relação com o corpo é particular. A dança evoca uma relação com a alegria.&nbsp;Há uma confusão entre alegria e sexualização. O passinho pernambucano, por exemplo, é uma dança negra, periférica, que vem atrelada com movimentos pélvicos. Numa leitura moralista do passinho, se lê sexualização. Numa leitura ampla e progressista do passinho, se lê alegria&#8221;, considerou.

A proibição de danças nas escolas pode comprometer o próprio aprendizado dos jovens, na percepção de Soares. &#8220;A escola já é um espaço de vigilância. Pensar em fiscalizar ainda mais o pátio da escola é tirar alegria do ambiente de ensino. Tem que haver prazer no aprendizado, na construção do conhecimento, não pode ser um espaço apenas de regulação. O&nbsp;passinho e outras danças são um sopro de prazer na experiência de educação&#8221;.

A Assessoria de Imprensa da deputada Clarissa Tércio foi questionada sobre uma possível ação articulada de parlamentares para proibir danças nas escolas, mas ainda não respondeu. Não conseguimos contato com os demais parlamentares até a publicação desta matéria.

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<h4><strong>Leia mais:&nbsp;</strong></h4>
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&nbsp;</blockquote><p>O post <a href="https://marcozero.org/projetos-de-lei-tentam-proibir-dancas-nas-escolas-por-todo-o-pais/">Projetos de lei tentam censurar danças nas escolas em vários estados do país</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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