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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>&#8220;O campo progressista precisa ter respeito com a gramática da fé&#8221;, alerta pastor Henrique Vieira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 May 2023 15:59:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[CPMI]]></category>
		<category><![CDATA[evangélicos]]></category>
		<category><![CDATA[neopentecostalismo]]></category>
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		<category><![CDATA[religião e política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na contramão dos parlamentares evangélicos ultraconservadores que compõem o Congresso Nacional, o pastor Henrique Vieira, &#8211; eleito deputado federal pelo PSOL no Rio de Janeiro com 53.933 votos -, se apresenta como um defensor do Estado laico, dos direitos humanos, de pautas identitárias e antiproibicionistas.  Henrique Vieira é conhecido nacionalmente devido tanto às suas atividades [&#8230;]</p>
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<p>Na contramão dos parlamentares evangélicos ultraconservadores que compõem o Congresso Nacional, o pastor Henrique Vieira, &#8211; eleito deputado federal pelo PSOL no Rio de Janeiro com 53.933 votos -, se apresenta como um defensor do Estado laico, dos direitos humanos, de pautas identitárias e antiproibicionistas. </p>



<p>Henrique Vieira é conhecido nacionalmente devido tanto às suas atividades como professor &#8211; formado em História, Sociologia e Teologia -, escritor, militante, quanto pelas suas participações no filme “Marighella”, de Wagner Moura, e no disco AmarElo, do rapper Emicida. Aos 36 anos, exerce seu segundo cargo eletivo. Antes, de 2013 a 2016, o pastor foi vereador do município de Niterói, no Rio de Janeiro, sua cidade natal.</p>



<p>Durante as eleições de 2022, o líder da Igreja Batista do Caminho foi responsável pela campanha “Derrotar Bolsonaro é um ato de amor”, movimento que teve o objetivo mobilizar os cristãos contra a reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro.Henrique Vieira se recusou a compor a Frente Parlamentar Evangélica, &#8211; composta majoritariamente por deputados e deputadas bolsonaristas e que apresenta um histórico de defesa do conservadorismo e contra pautas identitárias que envolvem, por exemplo, a legalização do aborto e o direito de pessoas LGBTQIA+ &#8211; e afirmou que não fará um mandato em prol dos interesses da igreja.</p>



<p>Em visita ao Recife, onde cumpriu uma agenda de encontros com lideranças políticas e religiosas, &#8211; como as deputadas estaduais Dani Portela (PSOL), Rosa Amorim (PT) e o babalorixá Pai Ivo de Xambá &#8211; , e participou de um evento do Movimento Negro Evangélico, Henrique Vieira conversou com a Marco Zero Conteúdo sobre as expectativas para o seu mandato, a luta em combate ao fundamentalismo religioso e a sua participação na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPMI) que vai investigar os atos golpistas do 8 de janeiro, prevista para ser instalada na próxima quinta-feira, 25 de maio.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>***</strong></p>



<p>Marco Zero Conteúdo<strong> &#8211; Durante esses poucos meses de atuação, quais são os pontos positivos e negativos de sua experiência no Congresso Nacional? </strong></p>



<p><strong>Henrique Vieira</strong> &#8211; O ponto positivo é que o mandato está conseguindo encaixar pautas importantes. Nós estamos como um dos vice-líderes do governo Lula na Câmara, estamos como representantes do governo na comissão de Segurança Pública enfrentando a indústria armamentista e o bolsonarismo raiz, estamos conseguindo ter uma articulação ampla dentro do campo democrático, dentro do campo progressista. Vamos participar da CPMI do dia 8 de janeiro como um dos nomes indicados pelo PSOL. Estamos com a iniciativa de duas frentes parlamentares, uma em defesa do Estado laico, outra em defesa das comunidades quilombolas. Já estamos em articulação com muitos movimentos, desde MTST e MST, passando por uma articulação nacional do movimento Hip Hop. Estamos também acompanhando a pauta do combate ao trabalho análogo a escravidão, a pauta da saúde mental e o enfrentamento a lógica manicomial das comunidades terapêuticas. Então, eu acredito que é um mandato que está com pautas relevantes, com articulações importantes dentro da Câmara e com isso vem ganhando algum nível de destaque e de visibilidade.</p>



<p>O ponto negativo é, de fato, o tamanho da extrema direita na Câmara. A extrema direita foi derrotada nas urnas mas ainda não foi derrotada no horizonte da história, ela tem força institucional e capilaridade popular. A extrema-direita coloca uma gramática muito tóxica e muito violenta no parlamento, é a vitória da mediocridade, é o rebaixamento da capacidade de divergir com inteligência. A extrema-direita é um problema do nosso tempo, tenho visto isso no cotidiano do parlamento. Outro ponto negativo, que eu tenho observado, é a dificuldade do governo Lula em produzir maioria. Se você soma a extrema-direita, o centrão e a influência do Arthur Lira, é um governo que tem dificuldade de avançar nas pautas via Congresso.</p>



<p><strong>Nesse contexto, de um Congresso ainda tomado pelo bolsonarismo e pela extrema-direita, é possível estabelecer diálogo com os políticos evangélicos mais conservadores?</strong></p>



<p>É muito difícil. Eu consigo algum diálogo com poucos, mas somos expressões muito diferentes do que é o evangelho, do que é ser discípulo de Jesus e do que é a política. Eu já encontrei alguns bolsonaristas que tem disposição ao diálogo, mas é um recorte minoritário. A maioria usa a gramática da beligerância, da lacração, das frases de efeito, da ameaça, da intimidação, da personalização do debate, por isso eu não consigo encontrar espaço para o diálogo. Nisso eu me refiro à extrema direita, porém, eu já vi eleitores e deputados próximos ao Bolsonaro com quem eu consigo dar uma distensionada e produzir ali algum diálogo, alguma reflexão, mesmo que na divergência.</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default"><blockquote><p>&#8220;A extrema-direita coloca uma gramática muito tóxica e muito violenta no parlamento, é a vitória da mediocridade, é o rebaixamento da capacidade de divergir com inteligência&#8221;. </p></blockquote></figure>



<p><strong>Ainda antes de ser eleito, você defendia que política e religião podem sim se misturar, apesar da participação de pastores evangélicos na política brasileira ter produzido um cenário de ascensão do discurso fundamentalista no Brasil. Agora, atuando na Câmara dos Deputados, essa percepção entre política e religião mudou de alguma forma?</strong></p>



<p>Eu acredito que religião e política necessariamente se misturam. O que não tem relação com religião é se apropriar do Estado, isso eu sou contra. A questão é que nós não vamos conseguir colocar a religião num confinamento privado, que não tenha nenhuma relevância pública, eu nem defendo isso. Acho que a religião pode ser útil para a sociedade na promoção do bem comum, da justiça social, de uma cultura de paz. A questão não é se a religião se relaciona com a política, eu parto da constatação de que se relaciona sim, por isso, já que necessariamente existe uma relação qual é a qualidade dessa relação e o objetivo dela? Quando essa relação se dá por um projeto de poder isso é antidemocrático, anti-laico, autoritário e perigoso. Você pega uma moral religiosa e tenta impor à sociedade por meio do Estado, é isso que o fundamentalismo procura fazer. Agora, quando a religiosidade inspira uma ação pública em prol do bem comum eu vejo isso com alegria. A importância dos terreiros para uma vida mais comunitária e democrática, a soberania alimentar, a importância das tradições da espiritualidade indígena, tudo isso é muito importante.</p>



<p>A religião pode ser útil, ela não tem que se transformar num projeto de poder que se sobrepõe à constituição e que usa o Estado para fazer proselitismo religioso. A minha percepção continua a mesma. A religião pode servir a sociedade numa perspectiva de pluralismo, de diálogo, de convívio nas diferenças em prol do bem comum.</p>



<p><strong>Após o grande número de votos que Bolsonaro recebeu dos evangélicos, e que foi decisivo na eleição que garantiu a vitória dele em 2018, o diálogo com esse público virou uma pauta política importante para a formulação da extrema direita no país. Com isso, como podemos dialogar com os evangélicos e criar estratégias para que nas próximas eleições não tenhamos que enfrentar uma forte projeção política da extrema direita?</strong></p>



<p>Existe uma coisa que é estratégia de governo e existe uma outra coisa que é a estratégia como sociedade civil, e eu diferencio isso.</p>



<p>O governo, na minha opinião, deve criar um espaço para que as religiões, no plural, possam contribuir com uma agenda de país com valores da democracia, do estado laico, dos direitos humanos, da justiça social, do combate a fome, ou seja, eu não defendo que o governo deve ter uma linha prioritária de diálogo com os evangélicos.<strong> </strong>Eu não considero isso estratégia de governo dentro de um Estado que é laico, e que a gente precisa proteger e garantir essa laicidade. Eu defendo que o governo valorize o fenômeno religioso porque faz parte da vida, do cotidiano, da cultura, da perspectiva laica e plurireligiosa. Isso pra mim é estratégia de governo: criar um espaço institucional, um conselho, uma secretaria, um departamento, para que as diversas experiências religiosas possam contribuir com uma agenda de país.</p>



<p>Agora, o PSOL como partido, como movimento social, sem estar dentro da esfera do Estado, pode ter uma estratégia de diálogo mais específico com o campo evangélico, porque se entende que é um campo que cresce, que se entende e que daqui a pouco vai ser a maior religião do Brasil, e vai ter um forte caráter preto, popular, periférico, composto majoritariamente por mulheres. É uma parcela da classe trabalhadora, por isso, me parece interessante ter uma estratégia de diálogo com esse campo para contribuir com uma perspectiva de democracia.</p>



<p>São muitos caminhos e, como diz o poeta, o caminho se faz ao caminhar, ou seja, não tem resposta pronta, tem que te fazer experiência. Eu acredito muito ainda na leitura popular e comunitária da Bíblia, ou seja, disputar a memória e interpretação da Bíblia, tirar a lente do fundamentalismo e resgatar o sentido mais generoso, amoroso, social e político da escritura, da vida de Jesus. A leitura e a interpretação da Bíblia, na minha opinião, são chaves de disputa e de produção de símbolos e comportamentos, mas não só isso, eu acho que tem que ir na mística, na espiritualidade, na liturgia, no canto, no culto. A gente precisa entender que as pessoas pensam o mundo também pelos seus afetos, por suas emoções.</p>



<p>A mística é um elemento de consolo, de estender a mão, de aliviar o coração diante das dores da vida e isso não pode ser visto necessariamente como um processo de alienação. Eu acredito que o campo progressista precisa ter respeito com a gramática da fé e estabelecer, a partir desse respeito, uma conexão, e assim, com a leitura popular da bíblia e da mística cristã, pensar um projeto de país.</p>



<p><strong>Você foi escolhido pela federação PSOL-Rede para compor a Comissão Parlamentar de Inquérito que vai investigar os atos golpistas de 8 de janeiro. Quais são as expectativas para a CPMI e qual vai ser seu principal objetivo nessa atuação?</strong></p>



<p>A CPMI é uma oportunidade histórica de derreter a extrema direita no Brasil a fim de não permitir o apagamento da memória sobre o que o governo Bolsonaro fez e também de responsabilizar pessoas por atitudes irresponsáveis, ilegais e criminosas, ou seja, de impedir uma anistia.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Eu quero colocar uma lupa na CPMI sobre essa relação entre fanatismo religioso, extrema direita, golpismo e autoritarismo no Brasil, inclusive, indo aos nomes dos gestores desse caos em nome da religião.</p></blockquote></figure>



<p>O Brasil vem produzindo e perpetuando violências pela falta de memória. Eu não estou falando de vingança, não estou falando de linchamento, nada disso habita meu coração. Não é revanchismo, mas é produção de memória. Talvez porque não tenhamos dado nome ao holocausto que foi a escravidão o racismo esteja tão presente até hoje. Talvez porque não tenhamos responsabilizado de fato os gestores da ditadura civil militar que  Bolsonaro tenha sido eleito em 2018. Se você não dá nome e não gera memória e responsabilidade, é mais fácil a atrocidade se atualizar no tempo, e continuar voltando. Por isso, eu acredito que a CPMI cumpre um papel necessário, urgente e pedagógico.</p>



<p>Com as devidas e corretas investigações e o direito de defesa e presunção de inocência dos acusados, nós queremos ir às últimas consequências sobre a tentativa de golpe e o significado do bolsonarismo e da extrema-direita no Brasil. Por isso, a nossa estratégia é chegar aos financiadores, aos idealizadores e aos operadores da tentativa de golpe. No meu caso, com uma lupa específica sobre a participação de religiosos nesse processo.</p>



<p>Estou muito interessado em entender se houve uma participação mais direta de determinadas lideranças religiosas na arquitetura do golpe. Que existe relação simbólica e política, disso não tenho a menor dúvida. Silas Malafaia fazia vídeos abertamente chamando Bolsonaro a defender a democracia, ou seja, a dar um golpe de Estado e não respeitar o resultado eleitoral, isso está dito. Mas eu quero saber se, nos bastidores, tem mais do que isso, eu quero colocar uma lupa na CPMI sobre essa relação entre fanatismo religioso, extrema direita, golpismo e autoritarismo no Brasil, inclusive, indo aos nomes dos gestores desse caos em nome da religião.</p>



<p><strong>Em uma de suas falas na atuação do filme “Marighella”, seu personagem afirmou que Jesus era negro e muita gente discordou e contestou essa fala. Recentemente você também lançou o livro <em>O Jesus Negr</em>o: <em>O grito antirracista da bíblia</em>. Por que é importante reforçar a imagem e a história do Jesus negro e por que essa perspectiva incomoda? </strong></p>



<p>Incomoda porque o racismo é estrutural e ele é estrutural inclusive dentro da teologia cristã hegemônica. A relação do cristianismo hegemônico com a escravidão, com a colonização, com o embranquecimento ideológico da figura de Jesus, cumpre uma função histórica de acomodar opressões, por isso um Cristo negro incomoda tanto. Porque o Jesus branco parece natural, já o Jesus negro soa forçação de barra, pois o racismo produz a naturalização e a universalização daquilo que é branco e o negro é o exótico, é o estranho, é o forçado.</p>



<p>Eu acredito que falar do Jesus negro é denunciar esse racismo estrutural, não só da sociedade como um todo, mas da própria teologia cristã e hegemônica. É resgatar o contexto histórico do evangelho de Jesus. Ora, Deus se fez gente em Jesus, mas onde e em que circunstância? Como parte de um povo oprimido e explorado. James Cone [James Hal Cone], teólogo que defende uma teologia negra, fala sobre isso: se Jesus foi um judeu na Palestina do primeiro século, então ele é negro nos Estados Unidos de agora. E, eu diria, ele também é negro no Brasil, porque Deus escolheu o rosto do oprimido para ser o seu semblante na história.</p>



<p>Esse não é um critério circunstancial ou casuístico, é um critério histórico que permanece. Eu vou continuar discernindo o corpo de Cristo no corpo daquele que sofre, e nessa terra há a produção crônica de um sofrimento sobre o corpo negro. Então, eu me sinto autorizado pelo testemunho bíblico de dizer ‘olha o rosto de Cristo no Brasil tem a marca da pele preta, tem a marca da experiência negra, mais do que a epiderme, é a experiência política, histórica e existencial negra’. Isso não deveria incomodar, o próprio incômodo já gera ou já denuncia o racismo. O Jesus branco você passa para a próxima página, o Jesus negro tem que fazer um livro pra explicar.</p>



<p>Se o povo branco tivesse sido escravizado por quatro século, se houvesse uma abolição inconclusa da escravidão sobre o povo branco, se a cada 28 minutos um jovem branco fosse executado, se eu ligasse a TV e visse uma sub-representação dos brancos nos espaços de privilégio, então, Jesus seria branco. Não é uma questão ontológica, existencial, é uma questão histórica relacional, Jesus pra mim vai sempre aparecer prioritariamente no rosto daquele que sofre.</p>



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<p><strong>Você ganhou uma grande notoriedade e atualmente é uma referência para o movimento evangélico progressista. Você acredita que é possível que outros líderes religiosos progressistas ganhem força política diante de um contexto onde os evangélicos conservadores parecem ter protagonismo?</strong></p>



<p>Eu não sou o primeiro, não sou o último, nem o único. Eu sou parte de uma tradição, e não vou nem dizer só evangélica, mas cristã, e o cristianismo tem disputas e fissuras dentro dele. Tinham os escravocratas, mas tinham as pessoas que, a partir da fé em Jesus, lutavam contra a escravidão. O cristianismo na sua história também tem Tereza d&#8217;Ávila, São Francisco de Assis, Frei Tito, Martin Luther King e comunidades, para além de nomes cristãos, que atuaram na história em favor da emancipação humana, dos direitos humanos, da justiça social, da luta contra as diversas formas de opressão e violência.</p>



<p>Eu me sinto parte dessas pegadas, dessa espiritualidade cristã à margem do poder, à margem das grandes estruturas religiosas, mas eu não quero só me colocar como uma exceção ou uma pessoa excêntrica, uma novidade do momento, um pastor da hora, tem pegadas atrás de mim e irmãos ao meu lado. Eu caminho ao lado de Felipe dos Anjos, Ronilson Pacheco, Nancy Cardoso, pastor Wellington e tantos outros nomes que amam Jesus, que amam o evangelho, que têm um ímpeto generoso dentro do coração, que fazem diálogo inter-religioso, que produzem teologia negra, teologia feminista, que estão pensando direitos humanos, justiça social, combate a fome, que estão fazendo um trabalho de base na periferia, no campo, na cidade. Eu sou parte desse campo espiritual, histórico e político, inclusive na arena da política institucional e não ocupo esse lugar para fazer proselitismo religioso, nem para defender interesse de igreja, mas para dar um testemunho. Para poder dizer: ‘olha, tenho fé em Jesus e estou aqui defendendo o Estado laico, a democracia, a escola pública, o posto de saúde. Estou aqui defendendo reforma agrária, o direito de culto dos povos tradicionais das religiões de matriz africana. Estou aqui defendendo a dignidade e cidadania para LGBTs. Estou aqui defendendo a Amazônia, a Mata Atlântica, as comunidades quilombolas e a demarcação de terras indígenas’.</p>



<p>Eu quero que mais pessoas possam dizer que a fé não precisa ter como consequência a barbárie, que é o que a extrema direita faz, um fanatismo religioso que atualiza o espírito das fogueiras da inquisição em pleno século 21, e isso mata. Então, eu quero que mais gente se contraponha a isso e que tenham essa disposição no coração, para essas pessoas eu quero dizer: ‘você não está sozinho’.</p>



<p>Tem um monte de gente com essa inquietude no coração, sentido vergonha das principais representações evangélicas nos espaços de poder. É gente que discorda de Edir Macedo, Silas Malafaia, Valdemiro, R.R. Soares. E eu quero dizer que esses caras não têm o controle e o monopólio sobre o cristianismo e sobre Jesus.</p>



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		<title>A cruzada religiosa do segundo turno</title>
		<link>https://marcozero.org/a-cruzada-religiosa-do-segundo-turno/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Oct 2022 18:48:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonaro]]></category>
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<p><strong>Por Bia Pankararu</strong></p>



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<p>Estamos a pouco mais de uma semana do segundo turno das eleições e, numa sociedade cada vez mais fundamentalista, os noticiários e campanhas mais parecem uma cruzada cristã e religiosa para ver quem realmente tem o Todo Poderoso Deus escalado em seu time de governo. Trazer religião e política tão emaranhadas, onde a gente não consegue ver quando começa uma e termina a outra, sempre foi um anúncio certo de retrocesso democrático.</p>



<p>Bolsonaro vem numa investida feroz e descontrolada tentando vincular toda e qualquer manifestação religiosa como palco de campanha eleitoral. Ele esteve no último dia 8 no Círio de Nazaré, a maior festa religiosa do mundo, no estado do Pará, onde participou da romaria fluvial e em nenhum momento chegou perto da imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Sua presença causou muito incômodo, tanto aos fiéis, à classe política e à própria Igreja Católica. A Arquidiocese de Belém (PA) lançou nota alegando que não permitiria qualquer utilização de caráter político ou partidário junto às atividades da celebração, nem convidou qualquer autoridade política para os festejos, sejam políticos de esferas municipais, estaduais ou federal.</p>



<p>Dito católico, mas atuante junto aos evangélicos, Bolsonaro seguiu usando festas tradicionais como agenda de campanha. Sua passagem pela cidade de Aparecida no dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, causou mais que incômodo, causou um verdadeiro tumulto, um show de horrores e ataques à imprensa e ao arcebispo Dom Orlando que, em sua pregação, disse que deveríamos ter uma “pátria amada, e não armada”. O que se viu em seguida, tanto em Aparecida, quanto em várias igrejas pelo país, foram ameaças, xingamentos, ofensas, missas interrompidas por apoiadores de Bolsonaro que entendem como “discurso de esquerda” quando os padres trazem temas como fome, caridade, justiça, verdade, amor e paz. Ataques em missas e nas redes sociais nos últimos dias estão intensos. O sentimento lunático, absurdo e descabido dos bolsonaristas já chegou ao nível de termos o Cardeal Dom Odilo tendo de explicar que o vermelho do traje que ele usa não tem a ver com o comunismo, mas é a cor tradicional das vestimentas dos cardeais.</p>



<p>A onda de violência nas igrejas não está apenas nas católicas. Chegam à mídia inúmeros relatos de intimidação e perseguição nas igrejas evangélicas, onde pastores pregam em nome de Deus e do “Messias”. Aqueles que se manifestam contrários são coagidos, ameaçados e têm até de deixar de frequentar a mesma igreja. Pastores julgando quem seriam os bons os maus cristãos a depender de em quem votariam para presidente nada mais é que o cabresto pela bíblia. Mas não podemos colocar todos os pastores e igrejas no mesmo balaio. Uma onda de revolta entre os fiéis se intensificou nos últimos dias. A adoração a Bolsonaro, cega e inquestionável, escancarou um sistema cruel de domínio pela fé e crença das pessoas e esse viés segue forte na corrida eleitoral, inclusive, também na campanha de Lula.</p>



<p>Foram diversas <em>fake news</em> da campanha bolsonarista alegando que, se eleito, Lula fecharia igrejas, perseguiria cristãos, implantaria banheiros unissex nas escolas, ideologia de gênero e todos os delírios possíveis, mas a resposta veio com um “recordar é viver”: em 2003, Lula sancionou a lei de liberdade religiosa; instituiu o Dia Nacional da Marcha para Jesus em 2009; em 2010 sancionou outra lei criando o Dia Nacional do Evangélico. Ou seja, não existe nenhum fundamento para alegar que os evangélicos e cristãos correm algum tipo de perigo, nem hoje, nem na história do nosso país.</p>



<p>Se olharmos nossa história, um dos primeiros atos da invasão portuguesa foi, justamente, fincar uma cruz em uma terra indígena, celebrar uma missa e assim iniciar o processo de catequização, apagamento e perseguição às culturas e crenças que já existiam aqui. Em 1500, a igreja justificava a escravização, perseguição e execução dos indígenas alegando que não teríamos alma, logo, seríamos como animais aos olhos europeus. A cruzada cristã em 1500 dizimou dezenas de povos e culturas, escravizou e matou milhares de indígenas, violentou, marginalizou e criminalizou nossos modos de vida e essa investida segue até os dias de hoje, de outras formas e com outros nomes, mas a colonização ainda está em curso.</p>



<p>São 522 anos em que o cristianismo chegou nessas terras e, desde então, não houve um momento da história em que a igreja e os preceitos religiosos cristãos não foram dominantes em termos de poder e decisões políticas. Não consigo aceitar a ideia de que exista alguma ameaça à liberdade dos cristãos, pois essa liberdade sempre foi e segue protegida e vigiada de perto pelo Estado. Gente como eu, que vem de tradições religiosas racializadas, sejam indígenas ou afro-brasileiras, sabe desde cedo o que é ter sua religiosidade perseguida e demonizada. A violência contra terreiros de candomblé, centros de umbanda, territórios indígenas e suas tradições, violências que acontecem há séculos, está no DNA da nossa sociedade onde se aceita um Jesus de olho verde e se demoniza Exu e Tupã, o que é um grande equívoco, afinal, o Diabo não existe em nenhuma das religiões de matrizes africanas e indígenas, apenas na cristã.</p>



<p>Não existe qualquer possibilidade de enfraquecimento das instituições religiosas cristãs, mas as instituições democráticas estão enfraquecidas há tempos quando não conseguimos ter, de fato, um Estado laico. Quando temos a bíblia mais consultada do que a Constituição para nortear e fundamentar aspectos políticos que afetam toda população, independente da religião a que pertença, temos um atraso significativo na nossa tão recente democracia. Ter a religião tão enraizada na nossa sociedade dificulta avanços sociais importantes em respeito à igualdade de direitos étnicos, raciais, sexuais, reprodutivos, de gênero e na ciência. Teremos muito caminho pela frente para chegarmos perto de uma classe política menos fundamentalista, ainda mais num país que foi “fundado” em torno de uma cruz.</p>



<p>Seguiremos para o segundo turno no próximo dia 30 com a certeza de que nem Deus e nem o Diabo irão declarar seus apoios políticos. Enquanto isso, vamos ficando do lado da verdade, do amor, do respeito e da coerência. Se formos pautar projeto político com os valores cristãos, sem dúvida, Lula é o candidato que traz o olhar do povo para o povo, a vontade de transformar, de novo, a vida da classe trabalhadora e encher de esperança o coração daqueles que acreditam num país mais justo e que respeite toda e qualquer crença. Seja com Deus, Buda ou Alá, seja com Exu, Malunguinho ou a Jurema, vamos tirar Bolsonaro da presidência e devolver ao Brasil a nossa fé mais genuína, que é a fé na nossa gente de bem, honesta, da gentileza e do acolhimento. Profetizei.</p>



<p>*<strong>Bia Pankararu tem 28 anos, é mulher indígena, sertaneja, mãe de Otto, LGBT+, técnica em enfermagem e produtora cultural e audiovisual. Ativista pelos direitos humanos e ambientais. Comunicadora da rede @povopankararu.</strong></p>



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		<title>A caminhada de irmã Aurieta com Lula, a fé e a esperança</title>
		<link>https://marcozero.org/a-caminhada-de-irma-aurieta-com-lula-a-fe-e-a-esperanca/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Oct 2022 23:08:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Brasília Teimosa]]></category>
		<category><![CDATA[Lula]]></category>
		<category><![CDATA[militância]]></category>
		<category><![CDATA[religião e política]]></category>
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<p>A fé católica e a luta pelos direitos dos mais pobres se fundem todos os dias na vida de Aurieta Duarte Xenofonte desde 13 de maio de 1974, dia em que ela chegou para atuar como missionária e viver na comunidade pesqueira de Brasília Teimosa, zona sul do Recife. E essa fusão resultou em um engajamento político tão intenso que a levou quatro vezes ao encontro de Luiz Inácio Lula da Silva.</p>



<p>Durante a caminhada do candidato a presidente da República pelas avenidas centrais do Recife, na tarde desta sexta-feira, Aurieta voltou a vê-lo e se desmanchou em choro antes mesmo da picape onde Lula estava passar diante do local onde ela estava. “Imagino o peso que esse homem carrega, ele carrega a esperança de todo esse povo, de todos esses jovens. Ele precisa ser muito forte”, explicou, enquanto enxugava as lágrimas com a máscara vermelha, convertida em lenço”, explicou a freira.</p>



<p>Aurieta faz parte do grupo de ativistas do bairro que, há 40 anos, fundou a organização comunitária <a href="http://redesolivida.org/pb/perfil/centro-educacional-profissionalizante-do-flau-turma-do-flau/">Centro Educacional Turma do Flau.</a> Na véspera do evento com Lula, ela e os demais militantes aceitaram minha presença para acompanhá-los ao longo da caminhada. A ideia era contar um pouco da trajetória desse grupo que, em 2003, ajudou a receber <a href="https://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2003-01-10/lula-visita-palafitas-na-favela-brasilia-teimosa">Lula na histórica visita às palafitas</a> de Brasília Teimosa.</p>



<p>Quando me postei junto ao portão principal da Câmara Municipal, a Turma do Flau já estava lá, mas eu não os conhecia. Por quase 30 minutos, aguardei uma mensagem ou uma ligação de José de Arimateia, filiado ao PT e veterano nas lutas políticas do Pina e de Brasília Teimosa. Enquanto esperava, via uma senhora franzina, de boné, máscara e blusa vermelhas, distribuindo panfletos com os números 13 e 77. Algumas vezes torci silenciosamente: “era bom que essa aí fosse a irmã Aurieta”. E era.</p>



<p>As mais de duas horas de espera debaixo do sol parecem ter passado voando para ela. Meninas paravam para fazer selfies ao seu lado, explicando que era o “encontro de gerações”, a cada vez que um paredão de caixas de som estacionado ao lado tocava o refrão “Tá na hora de já ir embora”, a freira cantava e dançava juntos. E não foram poucas as vezes que essa música tocou. Muitas pessoas ela reconhecia, parava, abraçava e me apresentava. Entre elas, o ex-vereador de Olinda Marcelo Santa Cruz, que eu já conhecia, e um diácono permanente, função que eu nem sequer imaginava existir.</p>



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	                                        <p class="m-0">Irmã Aurieta (com a bandeira) e a Turma do Flau. Crédito: Inácio França/MZ Conteúdo</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading">A cada encontro, uma história</h2>



<p>Ainda na concentração em frente a Câmara, uma ex-moradora de Brasília Teimosa que fez parte da Turma do Flau, Emília Marinho, fez uma chamada de vídeo pelo whatsapp para que sua sobrinha na cidade alemã de Münster pudesse ver e falar com irmã Aurieta. “Deixei meu noivo lá na Alenanha e vim pra cá só pra votar e fazer campanha para Lula”, explica Emília, que vive em Bünde, a 80 quilômetros de onde estava a sobrinha.</p>



<p>Quando os locutores do trio elétrico anunciaram a chegada de Lula, Aurieta puxou a fila, levando seus vizinhos e companheiros de militância (eu no meio, lógico) pelo meio da multidão, até chegar na praça em frente ao Hospital do Exército. “Aqui tem espaço para a gente fugir, se a multidão nos empurrar”, explicou, com a experiências de não sei quantas manifestações de rua. Foi ali que ela desabou no choro com a aproximação do carro com Lula. “Estou sentindo uma energia tão boa”, explicou para Juliana, uma jovem morena que ela conheceu ali, no meio de povo, e que estava tão emocionada quanto a religiosa octogenária.</p>



<p>Alguns metros depois, antes da esquina da rua do Hospício com a Riachuelo, duas mulheres de blusas brancas cheias de adesivo, abraçam a freira com carinho. Uma delas se afasta e, surpreso, reconheço Vera Batista de Souza, minha vizinha no bairro da Tamarineira. Assistente social, Vera explica: “Fui criada em Brasília Teimosa. Aurieta foi minha professora de luta”.</p>



<p>Mais 30 metros, outro encontro. Desta vez com um homem de meia idade, óculos, bem vestido, com a camisa ensacada nas calças. Ela me apresenta ao padre Lúcio, que a trata com certa reverência. Trata-se do Pró-reitor Comunitário da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), o jesuíta Lúcio Flávio Cirne.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Teologia da Libertação</h3>



<p>O encontro com o sacerdote me serve para abrir parênteses e contar a história de um raro conflito que a freira teve com a hierarquia de sua ordem religiosa, a <a href="https://mjc.org.br/">Missionária de Jesus Crucificado</a>. </p>



<p>No final dos anos 1970, as madres superiores da congregação não gostaram do fato dela estar dividindo moradia e tarefas com freiras norte-americanas de outras ordens religiosas. Pode parecer bobagem para nós, leigos, mas a situação tinha certa gravidade para as missionárias. O fato que decidiram que ela deveria deixar Brasília Teimosa e ser transferida para outro território. “Na época, nós fazíamos um trabalho de formação de jovens lideranças, de profissionalização das mães, e estávamos avançando muito. Fiz vínculos com a comunidade e não queria sair, então fui pedir ajuda a Dom Hélder Câmara”, recorda.</p>



<p>Inicialmente, o arcebispo de Olinda e Recife hesitou em interferir em questões internas da ordem, mas cedeu e, após conversar com as autoridades provinciais das Missionárias, Aurieta foi autorizada a permanecer no bairro.</p>



<p>“Eu sou da Teologia da Libertação. Sou discípula de Dom Hélder”, sintetiza.</p>



<p>Fecha parênteses. A caminhada continua.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Ela não cansa</h3>



<p>Mais 50 metros, o encontro agora é com o ex-vice-prefeito do Recife, Luciano Siqueira, que, da calçada da rua do Hospício, observa a torrente humana passar ao lado da esposa Luci. “Lógico que conheço Aurieta. Quem não conhece? Ela faz um trabalho importantíssimo em Brasília Teimosa”, esclarece o político do PCdoB, antes de postar para foto ao lado da freira e de José de Arimateia.</p>



<p>Os laços da Turma do Flau (“Flau”, para quem não sabe, é o mesmo que sacolé ou dudu) com o PT se estreitaram nos oito anos de gestão de João Paulo, quando as palafitas à beira-mar deram lugar a uma avenida e seus moradores receberam apartamentos no Cordeiro.</p>



<p>Outra freira, a irmã Graça Cordeiro, lembra que, durante algum tempo, as missionárias permaneceram atuando junto com as famílias que saíram das palafitas, mas os constantes deslocamentos para a zona oeste e as demandas em Brasília Teimosa inviabilizaram a continuidade do trabalho.</p>



<p>Graça, aliás, é a fiel escudeira de Aurieta. Mais reservada e menos falante, ela esteve o tempo todo atenta, preocupada com o ritmo da colega na multidão. “Nós não somos militantes de whatsapp, o sofá não nos conhece. Fazemos trabalho de base 24 horas por dia”, garante. Não é para menos: na ONG Turma do Flau, as missionárias fazem reforço escolar e mantêm oficina de dança e maracatu para as crianças do bairro, cursos profissionalizantes para mães, recebem detentas do presídio do Bom Pastor para atividades de pena alternativa, coordenam a Pastoral Carcerária, integram a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese. A lista é longa.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Uma questão importante!</strong></p><cite><em>Colocar em prática um projeto jornalístico ousado como esse da cobertura das Eleições 2022 é caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa</em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">página de doação</a><em>ou, se preferir, usar nosso</em><strong>PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em><br><br><strong>Nessa eleição, apoie o jornalismo que está do seu lado.</strong></cite></blockquote>
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		<title>Nada neste país se conquistou de graça. Jesus chorou, mas também lutou</title>
		<link>https://marcozero.org/nada-neste-pais-se-conquistou-de-graca-jesus-chorou-mas-tambem-llutou/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Oct 2022 18:09:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2022]]></category>
		<category><![CDATA[favela]]></category>
		<category><![CDATA[fundamentalismo religioso]]></category>
		<category><![CDATA[jesus cristo]]></category>
		<category><![CDATA[periferia]]></category>
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		<category><![CDATA[religião e política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Cadê meu sorriso? Onde tá?Quem roubou?Humanidade é má e até JesuschorouLágrimas, lágrimasJesus chorou” &#8211; Racionais MC Por Myrella Santana Dentro da favela a gente conhece duas versões de Jesus. A primeira, é apresentada na igreja (católica conservadora e evangélica, principalmente, pentecostal). Que é branco, de olhos claros, barbudo, o salvador benevolente que morreu por nós [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>“Cadê meu sorriso? Onde tá?<br>Quem roubou?<br>Humanidade é má e até Jesus<br>chorou<br>Lágrimas, lágrimas<br>Jesus chorou” &#8211; Racionais MC</em></p>



<p><strong>Por Myrella Santana</strong></p>



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<p>Dentro da favela a gente conhece duas versões de Jesus. A primeira, é apresentada na igreja (católica conservadora e evangélica, principalmente, pentecostal). Que é branco, de olhos claros, barbudo, o salvador benevolente que morreu por nós e por isso devemos nossa vida a ele. Aquele que sabe o que faz e devemos deixar tudo no controle dele. Apanhando do marido? Peça a Deus para que toque o coração dele. Foi estuprada? Peça a Deus que te ensine a perdoar. Um modelo de família, um sonho de vida, uma possibilidade de dignidade. Todo jovem preto já sonhou em ser um homem trabalhador e de Deus, aquele que vai ser honrado.</p>



<p>A segunda versão, na verdade, foi a primeira que eu conheci, quando escutei Jesus Chorou, Vida Loka parte 1 e Negro Drama de Racionais MC. Um jovem preto, olhos escuros, distantes e atentos, que já nasceu sabendo o que é pecado, mas raramente sabendo o que é paternidade. O Jesus esquecido, o Cristo que foi crucificado. O que não defende tortura ou violência. O que foi chamado de bandido e foi morto. Que vem da periferia, filho de Maria’s, Vera’s e Ana’s. O Jesus que não é neutro, e como diz o próprio Racionais: “Vigia os ricos, mas ama os que vem do gueto”.</p>



<p>Todo jovem preto favelado conhece essas duas versões. A primeira, através de uma idealização e expectativa de ter uma vida minimamente digna. Eles vendem a ideia de que o problema desse jovem é não ter aceitado Jesus, mas não dizem que aceitar Jesus não vai mudar o racismo, a falta de políticas públicas e a garantia de direitos básicos. Ao longo de toda a história eles utilizaram a religião para controlar e manipular, hoje não é diferente. Dizem que Deus não é político, mas política sempre é sobre Deus. A outra versão é a realidade. É o Brasil real que não dá pra esconder quando a pregação acaba, é a realidade favelada.</p>



<p>Nesses últimos 10 anos, pudemos observar um avanço gradativo do fundamentalismo e do conservadorismo em todo o país. Não há uma favela que você entre e não encontre uma igreja. E eu me pergunto, será que de fato as favelas estão cada vez mais se tornando conservadoras ou elas veem nesses espaços uma esperança de vida digna, como coloquei acima? Desde 2018, a esquerda tem feito um movimento para tentar cada vez mais responder a seguinte pergunta: como chegar nos evangélicos e evangélicas dentro das periferias?</p>



<p>Essas são perguntas que não me arrisco a responder, mas me questiono se o resultado do primeiro turno dessas eleições no estado de Pernambuco não poderiam ter sido diferentes se soubéssemos essas respostas. Os dois mais votados para deputados federais e estaduais são aqueles que hoje carregam a marca do fundamentalismo na sua faceta mais violenta e perversa. André Ferreira (PL), Clarissa Tércio (PP), Junior de Tércio (PP) e Coronel Alberto Feitosa (PL), os dois primeiros para federais e os dois últimos para estaduais, respectivamente.</p>



<p>Falam em nome de Deus, mas defendem tudo o que ele não é. A moral e os bons costumes que sempre silenciou mulheres e passou a mão sobre a cabeça de agressores. A família tradicional, que é construída a partir das mais plurais formas de violência, a mesma que tira foto com arma na mão e a bíblia debaixo do braço. A hipocrisia materializada em nome de um Jesus que nunca existiu. O Jesus real sabe que a família tradicional brasileira foi descrita por Racionais, quando ele falou que:</p>



<p><em>“Daria um filme<br>Uma negra e uma criança nos braços<br>Solitária na floresta de concreto e aço<br>Veja, olha outra vez o rosto na multidão<br>A multidão é um monstro sem rosto e coração<br>Hei, São Paulo, terra de arranha-céu<br>A garoa rasga a carne, é a Torre de Babel<br>Família brasileira, dois contra o mundo<br>Mãe solteira de um promissor vagabundo”</em></p>



<p>A maioria dos lares deste país são chefiados por mulheres. São mães, avós, tias, vizinhas. Essa é a configuração real da maioria das famílias. Que, inclusive, nunca foi representada na política brasileira tradicional. Essas mulheres que sempre estiveram na luta e no front, sendo ponta de lança para qualquer construção ou mudança efetiva em todo o país. Na luta para manter seus filhos vivos, na luta pela dignidade, na luta pela garantia de direito. As mesmas mulheres que vão fazer oposição a essas bancadas fundamentalistas que, apesar de terem se fortalecido, a gente também se fortaleceu. Os mais de 80 mil votos em Robeyoncé Lima é a prova materializada que Pernambuco é muito mais. Dani Portela, Rosa Amorim e Tereza Leitão eleitas deputadas e senadoras também.</p>



<p>O trabalho não começou agora e não tá nem perto de acabar. O primeiro turno das eleições mostrou para a esquerda que rever as estratégias é fundamental, junto ao que de fato estamos priorizando na hora de materializar esse projeto de sociedade que tanto defendemos. Já para o segundo turno, os desafios triplicaram. Eleger Lula presidente e, aqui em Pernambuco, quem tem minimamente coragem de se opor ao atual Governo Federal e subir no mesmo palanque do nosso futuro presidente Lula. Na última semana, movimentos sociais, partidos e figuras políticas importantes têm declarado voto e apoio crítico à candidatura de Marília Arraes. A única candidata disputando o segundo turno que fez e faz campanha para Lula.</p>



<p>A cada pesquisa uma nova esperança na possibilidade do Brasil sair desse buraco sem fundo que ele entrou. Na rua, a luta não é apenas para tentar virar voto para Lula e Marília, mas convencer as pessoas que Jesus é muito mais do que a primeira versão apresentada nesse texto e que Bolsonaro não é messias. O Brasil é um país constitucionalmente laico. Entretanto, o assunto principal dessas eleições tem sido o debate religioso. Nesse último final de semana fui chamada pelos meus irmãos para conversar com um colega deles de 14 anos que era bolsonarista. No primeiro minuto de conversa, ele falou que Lula disse que ia fechar as igrejas, que o Brasil é um país cristão e que Bolsonaro nunca proibiu ninguém de ter outra religião, mas que os brasileiros cristãos deveriam ter privilégios em detrimento dos outros.</p>



<p>Eu, mulher de axé, tenho falado de Jesus e do cristianismo nos últimos 10 dias mais do que os próprios cristãos. Não acredito que o Brasil esteja se tornando majoritariamente conservador, acredito que as pessoas estejam sedentas por alguém que possa salvá-las do Brasil real descrito por Racionais e de todos os males que acreditam ter nos levado para esse buraco. Procuram um herói na mesma medida que procuram alguém para culpar. É o fantasma do comunismo, o PT, Lula, a esquerda, as feministas, o MST. O avanço dos projetos neoliberais é fruto do medo, não de quem se opõe a ele, mas principalmente de quem o defende. </p>



<p>Nada neste país se conquistou de graça. Jesus chorou, mas também lutou. As igrejas lotadas dentro das periferias não são compostas majoritariamente por quem tem dinheiro, mas por quem precisa de uma esperança para se manter vivo. Uma esperança de seus filhos vivos e não encarcerados. Uma esperança de vida digna e não da miséria. Um Brasil nunca visto é um Jesus só conhecido nas periferias. Bolsonaro vai sair e o nosso desafio para além de derrotar a barbárie, é apresentar outras possibilidades de esperança para este país. Olhar a favela e a juventude como principais instrumentos de mudança na configuração atual, entendendo que não se deve voltar para a base pra fazer política, porque toda política já é feita nela.</p>



<p>*<strong>Myrella Santana é graduanda em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco. Integra a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Articulação Negra de Pernambuco. É Diretora Operacional e pesquisadora na Rede Internacional de Jovens LBTQIA+.</strong></p>



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		<title>Esperançar. Seguimos dias de esperança, apesar dos pesares</title>
		<link>https://marcozero.org/esperancar-seguimos-dias-de-esperanca-apesar-dos-pesares/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Oct 2022 23:58:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bancada no Congresso]]></category>
		<category><![CDATA[esperançar]]></category>
		<category><![CDATA[Lula 2022]]></category>
		<category><![CDATA[Marília Arraes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Bia Pankararu* Após a ressaca do primeiro turno das eleições, trago alguns pontos dos resultados para refletir sobre o cenário político atual. De cara, por mais que haja uma expressiva eleição para a bancada bolsonarista, é importante lembrar que a esquerda também teve vitórias significativas e ampliou sua representação política. E antes de qualquer [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Bia Pankararu*</strong></p>



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<p>Após a ressaca do primeiro turno das eleições, trago alguns pontos dos resultados para refletir sobre o cenário político atual. De cara, por mais que haja uma expressiva eleição para a bancada bolsonarista, é importante lembrar que a esquerda também teve vitórias significativas e ampliou sua representação política. E antes de qualquer narrativa de vitória bolsonarista, é preciso deixar claro que está acontecendo o maior esquema de compra de votos de todos os tempos. Bolsonaro teve ao seu lado e na sua mão um orçamento secreto bilionário para compartilhar com seus apoiadores. Mesmo com a máquina pública ao seu dispor, um show de <em>Fake News</em> e o fantasma do comunismo, Bolsonaro ficou atrás de Lula em 6 milhões de votos válidos.</p>



<p>As pesquisas que apontavam uma possível vitória de Lula ainda no primeiro turno, deixaram um gosto de decepção nos mais de 57 milhões de brasileiros que votaram em Lula, e reforçaram os discursos de boicote e sabotagem aos órgãos de pesquisa entoados pelos militantes de Bolsonaro. A verdade é que, mesmo depois de quatro anos de escândalos após escândalos, Bolsonaro recebeu mais de 51 milhões de votos válidos. Foi a eleição com maior participação popular e mais acirrada entre os candidatos à Presidência da República. Mesmo acirrada, nunca antes um candidato à reeleição ficou atrás do seu adversário e, também, nunca antes o segundo colocado conseguiu virar no segundo turno.</p>



<p>O resultado das eleições mostraram como a democracia no Brasil, apesar dos pesares, segue funcionando. Uma participação expressiva nas urnas, mas ainda é preciso olhar para aquela população que entre pagar a multa ao TSE e os custo de deslocamento, deixa de votar por não ter condições financeiras, por não ter com quem deixar os filhos ou por não se sentir parte importante no processo democrático de escolha política. A militância do PT, por muitas vezes, se mostra mais POP que popular. Com apoio em massa de artistas, encontros nos grandes centros e uma militância festiva de boteco e redes sociais, faltou a militância que atua junto das periferias, comunidades rurais e nos interiores onde a política coronelista tende ao bolsonarismo. São esses espaços onde as igrejas ganham domínio de narrativa e conquistam um verdadeiro rebanho de votos através do domínio pela fé.</p>



<p>Essa semana se iniciou com as campanhas para o segundo turno a todo vapor. Onde esperávamos um aprofundamento de debates e a atenção para os apoios e coligações políticas, uma onda religiosa e cristã tomou conta das redes sociais. Um vídeo sensacionalista alegando que, se Lula fosse eleito, ele entregaria o país ao próprio satanás, mexendo assim com o eleitorado evangélico e dito cristão. Em contrapartida, uma enxurrada de respostas de como Lula garantiu o direito de liberdade religiosa, criando leis e mecanismos para o pleno exercício da fé. O que já parecia uma cruzada entre bons e maus fiéis de Deus, ganhou novo capítulo quando Bolsonaro se tornou o principal assunto dos últimos dias ao circular um vídeo dele em um encontro Maçônico. A maçonaria é atribuída por muitos ao anticristo e teorias satânicas, logo, choveu uma montanha-russa de notícias, memes, sátiras e começamos o segundo turno debatendo quem realmente fez um pacto com o demônio, ou satanás, e como em outros momentos da história, Deus e o Diabo foram envolvidos na política interna de um país, até então, laico.</p>



<p>Por hora, nem Deus e nem o Diabo disseram de que lado estão, mas Simone Tebet e Ciro Gomes já sinalizaram apoiar a candidatura de Lula para o pleito presidencial. Simone Tebet fez um posicionamento caloroso e confiante, afirmando ser uma defensora da democracia e que estaria ao lado do povo e de Lula para a eleição. Ciro Gomes se conteve em dizer que seguia o posicionamento do seu partido, o PDT, e sem citar o nome de Lula em nenhum momento, também disse defender a democracia e que essa seria a única opção possível. Em resumo, o pódio da corrida presidencial se une para derrotar Bolsonaro e eleger Lula.</p>



<p>Em Pernambuco, iremos para o segundo turno com Marília Arraes e Raquel Lyra disputando o Palácio do Campo das Princesas, sede do Governo pernambucano. Um cenário já mostrado como possível pelas últimas pesquisas. Nos resta agora esperar um maior entendimento das campanhas, o que vai levar um tempo e tom diferenciado. A morte súbita do marido de Raquel Lyra, o empresário Fernando Lucena, abala profundamente toda a família, amigos e o decorrer da campanha, tanto que a coligação de Raquel pediu o adiamento do horário eleitoral em virtude do seu luto. Marília, que está grávida, vem pegando leve nas agendas, no entanto, irá iniciar sua campanha em programa eleitoral a partir desta sexta-feira (7).</p>



<p>Teremos, pela primeira vez, o estado governado por uma mulher, de sobrenomes conhecidos e um debate aguardado entre as duas candidatas. Marília e Raquel já protagonizam uma disputa histórica. Enquanto o partido de Marília, o Solidariedade, declara apoio a Lula e a campanha enfatiza isso o tempo inteiro como a campanha de Lula, o PSDB de Raquel deixou seus filiados livres para declarar apoio tanto a Lula quanto a Bolsonaro. A verdade é que políticos de partidos como PL, MDB e o também candidato ao Governo Miguel Coelho, agora abertamente apoiador de Bolsonaro, declara apoio à candidatura de Raquel. Vai se desenhando uma narrativa de que Marília seria a candidata de Lula e Raquel de Bolsonaro, apesar de Raquel, nem sua campanha, ter se manifestado sobre o assunto. Fortes emoções nos esperam nos próximos 20 e poucos dias.</p>



<p>Preciso trazer a importância que foi a eleição de pessoas como Rosa Amorim e Dani Portela para a Alepe. A vitória de Sônia Guajajara e Célia Xakriabá na Câmara Federal como guardiãs das pautas climáticas. A eleição de Érika Hilton e Duda Salabert, primeiras mulheres trans na Câmara em Brasília. O MST elegeu dois deputados federais e quatro estaduais. Sigo acreditando que temos mais motivos para seguirmos confiantes de estarmos do lado certo da história e dia 30 não será definitivo. Ainda teremos muita luta pela frente. Independente do presidente que for eleito, teremos ainda um Congresso e um Senado ainda mais conservadores, fundamentalistas e dispostos a entregar o Brasil à barbárie, mas também teremos novas forças, energias e disposição para resistir e transformar a realidade da nossa gente. E a esperança, meus amigos, nunca há de acabar.</p>



<p>*<strong>Bia Pankararu tem 28 anos, é mulher indígena, sertaneja, mãe de Otto, LGBT+, técnica em enfermagem e produtora cultural e audiovisual. Ativista pelos direitos humanos e ambientais. Comunicadora da rede @povopankararu.</strong></p>



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		<title>Cristãos progressistas lançam pré-candidaturas para disputar voto religioso e enfrentar conservadorismo</title>
		<link>https://marcozero.org/cristaos-progressistas-lancam-candidaturas-para-disputar-voto-religioso-e-enfrentar-conservadorismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Jul 2022 00:35:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[católicos]]></category>
		<category><![CDATA[conservadorismo]]></category>
		<category><![CDATA[cristãos progressitas]]></category>
		<category><![CDATA[Evangélicos contra Bolsonaro]]></category>
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<p>Com o slogan “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, &#8211; trecho do evangelho de João -, Jair Messias Bolsonaro fez sua campanha em 2018 dirigida para o público evangélico e garantiu um grande percentual de votos que o colocou na presidência do Brasil. Desde então, líderes de igrejas evangélicas e católicos conservadores seguiram em permanente campanha em apoio ao presidente. Porém, a presença do ex-presidente Lula no embate eleitoral deste ano abalou a popularidade de Bolsonaro entre os cristãos.</p>



<p>De acordo com a última pesquisa Datafolha, divulgada no dia 23 de junho, 42% dos católicos pretendem votar em Lula e 20% em Bolsonaro. Entre os evangélicos, o atual presidente mantém vantagem, com 36% de intenções de votos contra 28% do petista. A pesquisa foi feita com 2.556 eleitores de 181 cidades do Brasil. Se compararmos o cenário atual com o das eleições passadas, é possível notar crescimento da intenção de votos no pré-candidato do PT.</p>



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<p>Em 2018, de acordo com a pesquisa Datafolha sobre o perfil religioso dos eleitores, o candidato Fernando Haddad (PT) só ganhou para Bolsonaro entre as religiões afro-brasileiras e entre as pessoas que se autodeclaram sem religião e entre os ateus e agnósticos (e com uma diferença não muito significativa). Bolsonaro teve maioria dos votos entre evangélicos, católicos e espíritas. A diferença maior foi entre os evangélicos, onde Bolsonaro somou mais de 11 milhões de votos a mais que Haddad.</p>



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<p>Para este ano, as pesquisas mostram que, além de diminuir a diferença de votos entre os evangélicos, o pré-candidato petista deve ter uma boa vantagem entre os católicos, o que pode ser decisivo nas eleições para garantir sua vitória.</p>



<p>No entanto, esse resultado depende do engajamento das igrejas e instituições religiosas nos debates políticos, como afirma o teólogo e biblista Marcelo Barros: “Desde muitas décadas, as igrejas cristãs procuram na sua metodologia de trabalho fornecer subsídios para os fiéis terem critérios de como votar. Não é justo, não é correto o padre ou pastor dizer em quem você deve votar, o voto é livre. Mas as igrejas tem, sim, a missão de ajudar o povo a formar critérios e insistir em pautas como ecologia, defesa da natureza, da água, da terra, a justiça para os povos originários e também exigir que os candidatos se comprometam com essas pautas”.</p>



<p>Membro do Fórum Diálogos pela Diversidade Religiosa e contra a Discriminação do Ministério Público de Pernambuco e da Comissão Teológica da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo, Marcelo Barros defende a comunhão entre política e religião e lamenta o resultado das últimas eleições presidenciais: “a eleição de 2018 era entre democracia e barbárie e houve muitos cristãos, evangélicos e católicos que votaram pela barbárie e que votam contra a democracia até hoje. Isso é certamente um escândalo para o mundo, é um contrassenso para quem busca a fé a partir dos evangelhos, da bíblia e da tradição mais profunda das igrejas cristãs. Se Deus existe ele só pode ser amor e se Deus é amor, não pode ser de direita”.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Negras cristãs decidem</strong></h2>



<p>Mulher e negra. Esse é o perfil dominante das pessoas religiosas no Brasil, segundo a pesquisa Datafolha divulgada em 2020. Entre os evangélicos as mulheres são 58% dos membros. Já entre os católicos a diferença cai e as mulheres são 51%. A maioria dos brasileiros segue a religião católica, sendo 50% do total. Já os evangélicos correspondem a 31% da população.</p>



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<p>Ainda de acordo com a pesquisa, o perfil evangélico é mais negro do que o católico e chega a representar 59% dos fiéis. A maioria dos evangélicos reside na Região Norte do país, onde Bolsonaro teve maioria dos votos válidos nas últimas eleições.</p>



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<p>Apesar da pesquisa ter a pretensão de determinar um perfil dominante entre os religiosos, a pluralidade dos membros das diferentes crenças e religiões é fundamental para tentar entender o contexto social, cultural e econômico que é determinante nas eleições.</p>



<p>Mesmo que a maioria católica e evangélica tenha escolhido votar em Bolsonaro em 2018, isso não significa que o mesmo deve acontecer esse ano. A prova disso seria o crescimento de grupos como o <a href="https://www.instagram.com/cristaoscontraofascismo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Cristãos Contra o Fascismo</a>, <a href="https://www.facebook.com/frentedeevangelicos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito</a>,  <a href="https://www.geledes.org.br/evangelicos-se-unem-em-coalizao-contra-bolsonaro/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coalizão Evangélica contra Bolsonaro</a>, <a href="https://pt-br.facebook.com/mulhereseig/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Evangélicas pela Igualdade de Gênero</a> e <a href="https://evangelicxs.com/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Evangélicxs pela Diversidade</a>, além do aumento do número de pré-candidaturas de pessoas cristãs com ideais políticos progressistas.</p>



<p>“A vinculação da religião cristã ao autoritarismo é, a um só tempo, compreensível e questionável: se é verdade que diversos autoritarismos buscaram justificativas na religião cristã, é igualmente verdade que a religião cristã é morada de potências de liberdade e de subversão”, disse o pastor batista membro da Igreja Batista do Pinheiro, que pertence à <a href="https://www.aliancadebatistas.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Aliança de Batistas do Brasil</a> (ABB), Kinno Cerqueira.</p>



<p>Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil,com validação pela Faculdade Diocesana de Mossoró, Kinno é um dos evangélicos que romperam com as tradicionais igrejas justamente por não aceitar certos posicionamentos políticos e resolveu alinhar sua vivência pastoral à ABB que, segundo ele, é “uma comunhão de igrejas dissidentes dos batistas hegemônicos, um testemunho de comunidades batistas que fizeram uma aliança de viver e lutar pela liberdade de todas as pessoas e do planeta”.</p>



<p>Essa nova ordem cristã, que chega para criar uma nova leitura e interpretação da Bíblia Sagrada e lançar um olhar crítico às atitudes de seu povo, também quer dialogar com a política por acreditar que “a política não é uma opção, é uma imposição existencial contra a qual não se pode lutar. A isenção política, tão bem quista por muitos religiosos, não é uma decisão política? Assim como o ativismo, a indiferença é uma decisão política, e das mais imorais”, como afirmou Kinno.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-eleicao-sera-mais-suja-cristaos-conservadores-recebem-muito-dinheiro-de-fora-afirma-livia-reis/" class="titulo">&#8220;A eleição será muito mais suja, cristãos conservadores recebem muito dinheiro de fora&#8221;, afirma Lívia Reis</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h3 class="wp-block-heading"><strong>Evangélica e antiproibicionista</strong></h3>



<p>É possível ser cristã e ser a favor da legalização das drogas? Maria Tereza dos Santos, conhecida como Dona Tereza, tem convicção que sim. Integrante da Comunidade Cristã Ativa e da Associação de Amigos e Familiares de Pessoas em Privação de Liberdade, Dona Tereza decidiu ser pré-candidata a deputada estadual em Minas Gerais pelo PT nessas eleições para tornar ainda mais público e coletivo aquilo que ela acredita ser o maior propósito de Deus em sua vida: o amor ao próximo.</p>



<p>Mulher negra e com 63 anos de idade, a coragem de Dona Tereza é surpreendente, pois, onde chega faz questão de levantar a bandeira do antiproibicionismo.</p>



<p>“A questão de eu ser antiproibicionista leva algumas pessoas a questionar se eu sou cristã ou não, mas está lá na bíblia, quando Deus proibiu Eva de comer do fruto proibido, ela foi lá comeu e ainda deu a Adão, e isso mostra que o atrativo está justamente naquilo que é proibido, então, nós não devemos proibir e sim orientar e dialogar com as pessoas”, disse Dona Tereza.</p>



<p>“Não existe lógica essa proibição do uso de drogas porque ela desencadeou uma guerra que eles dão o nome de guerra às drogas, mas que nós, enquanto pessoas negras e periféricas, desprovidas de recursos financeiros, sabemos que é uma guerra contra a pobreza, é uma guerra que justifica o genocídio e o encarceramento da juventude periférica e negra desse país”, completou.</p>



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	                                        <p class="m-0">Dona Tereza acredita que é melhor orientar os jovens  do que proibir as drogas. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Para a pré-candidata, a escolha dos cristãos e evangélicos por Bolsonaro é extremamente contraditório pois suas atitudes não condizem com o que está escrito na bíblia: <strong>“</strong>como que o povo cristão consegue olhar na cara de um sujeito desse e achar que ele tem alguma coisa de Deus na vida dele? Ele prega o ódio, a desavença, o racismo, a homofobia. Eu acho que já tá na hora da gente deixar de dizer que é cristão e ser racista, não é? [&#8230;] Bolsonaro é um cara desprovido daquilo que Deus mais pregou: o amor”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Para normalizar relação religião e política</h3>



<p>Em Pernambuco, Ailce Moreira também se coloca como uma alternativa cristã progressista. Integrante da Igreja Batista de Coqueiral, a pré-candidata a deputada estadual pelo PSOL lamenta a generalização causada pelo resultado da última eleição e afirma que nem todos os cristão são conservadores.</p>



<p>“A gente precisa pensar que vivemos em uma sociedade onde as pessoas que frequentam a igreja são as mesmas pessoas que estão no mercado de trabalho, é o povo preto e periférico e também o dono da empresa, então, essas pessoas estão dentro da religião, crescem na igreja, mas também participam da política. A questão que deve ser priorizada agora é como fazer da relação entre política e religião algo que traga benefícios para toda a sociedade e não apenas para uma parcela dela, esse é esse nosso dever enquanto cristãos”, disse Ailce.</p>



<p>Para a pré-candidata o grande desafio das igrejas e dos cristãos progressistas agora é estabelecer um diálogo mais crítico e naturalizar o debate político nas instituições religiosas: “nesse contexto de polarização a gente já tem um juízo de valor e é muito mais fácil assumir que os cristãos são conservadores e por isso não merecem atenção do que se dispor a conversar e ouvir as pessoas”.</p>



<p>“O povo sofre na pele, sofre quando tem a casa invadida pela água, sofre quando ver a vida dos adolescentes serem ceifadas muito precoce, sofre por conta da política de drogas do nosso estado, então, a gente precisa trazer a memória essa vivência e assim construir um conhecimento político para que as pessoas estejam cientes e possam desenvolver suas próprias leituras”, concluiu a pré-candidata.</p>



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	                                        <p class="m-0">Ailce adverte que nem todo evangélico é conservador. Crédito: Acervo pessoal</p>
	                
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<p>Ailce reforçou que a política não se faz apenas no período eleitoral, mas sim em todas as ações que proporcione a comunidade o poder de tomar e por em prática decisões determinantes para o seu convívio social, porque “o povo é capaz de criar seus próprios mecanismos de mobilização para mudar a dura realidade”. Ela cita o exemplo da Igreja Batista Coqueiral, da qual é membro, que, liderada pelo pastor José Marcos, promove ações de solidariedade e educação na Comunidade de Coqueiral, uma área periférica do Recife.</p>



<p>&#8220;A gente tem hoje uma série de cristãos que estão unidos para trazer à tona uma contra narrativa, uma narrativa de vida, de justiça e de combate às desigualdades, é para isso que estamos lançando as nossas pré-candidaturas&#8221;, finalizou Ailce Moreira.</p>



<p>Em diversos estados do Brasil é possível encontrar outros pré-candidatos e pré-candidatas cristãs progressistas, como afirma Ailce. Eis alguns cujas pré-candidaturas foram apresentadas: </p>



<ul class="wp-block-list"><li>Marcolino Poeta (UP-BA)</li><li>Anna Azevedo (PSOL-MG)</li><li>Fillipe Gibran (UP-MG)</li><li>Kenia Vertelo (UP-MG)</li><li>Kawan Lopes (PSOL-RJ)</li><li>Missionária Sabrina (PDT-RJ)</li><li>Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) </li><li>Pastora Mônica Francisco (PSOL-RJ)</li><li>Wesley Teixeira (PSB-RJ)</li><li>Bianca Ramires (PSOL-RS)</li><li>César Souza (PSOL-RS)</li><li>Teólogo Tiago Santos (PSOL-RS)</li><li>Danielle Rabelo (PDT-SP)</li><li>Diana Brasilis (PDT-SP)</li><li>Héber Farias (PSOL-SP)</li><li>Letícia Gabriella (PDT-SP)</li><li>Júlio Yamamoto (PT-SP)</li><li>Reverenda Alexya Salvador (PSOL-SP)</li><li>Zé Nildo (PSOL-SP)</li></ul>



<p><em><strong>Esta reportagem foi produzida com apoio do <a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do <a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project.</a></strong></em></p>



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		<title>Velório do padre Reginaldo Veloso acontece ao lado da igreja do Morro da Conceição, de onde ele foi expulso</title>
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		<pubDate>Fri, 20 May 2022 14:25:25 +0000</pubDate>
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<p>Vítima de um câncer, o ex-padre Reginaldo Veloso faleceu no final da noite de quinta-feira, 19 de maio, aos 84 anos. O velório do religioso, que foi um dos expoentes da teologia da libertação em Pernambuco, está acontecendo na no Morro da Conceição, na Escola Estadual Padre João Barbosa, Morro da Conceição, exatamente por trás da imagem da santa e da igreja de onde ele foi expulso pelo arcebispo dom José Cardoso, em 1889. Veloso deixa um filho, João José, e a esposa, Edileuza Osório Pereira Veloso, com quem era casado desde 1994. O horário e local do sepultamento ainda não foram divulgados.</p>



<p>O local do velório foi alterado de última hora. Inicialmente marcado para ocorrer na sede do Movimento dos Trabalhadores Cristãos, no bairro da Boa Vista, acabou acontecendo na escola do Morro da Conceição em razão da mobilização de lideranças políticas e de setores católicos. Apesar do salão da igreja onde ele foi pároco não ter recebido o velório, as celebrações religiosas estão acontecendo no templo.<br><br>Nascido em São José da Lage, em Alagoas, a vida pública do ex-pároco foi ligada ao Morro da Conceição e aos trabalhos sociais. Desenvolveu por anos trabalhos de base na comunidade, recebendo o apoio e a admiração do então arcebispo de Olinda e Recife dom Hélder Câmara.<br><br>Após estudar em Roma na década de 1950, Reginaldo Veloso voltou ao Brasil sentindo a necessidade de aproximar a igreja das comunidades e ajudar as pessoas de forma mais efetiva, com conscientização política. Em maio de 1973, foi um dos divulgadores do documento &#8220;Eu Ouvi os Clamores do Meu Povo&#8221;, considerado revolucionário na trajetória política da igreja Católica no Brasil ao denunciar o desemprego, a miséria, a falta de liberdade e outras mazelas sociais durante a ditadura militar.</p>





<p><br>Por conta disso, Reginaldo Veloso foi perseguido pela ditadura e chegou a ser preso para interrogatório. &#8220;Me despiram e colocaram numa jaula que tinha um metro e meio quadrado. Era um cubículo. Fui interrogado por três militares que queriam saber quem havia escrito o documento. Na época, coloquei nomes de figurões da extrema-direita como autores do texto&#8221;, contou, no documentário <em>Reginaldo Veloso: O Amor Mais Profund</em>o, curta-metragem de Daniela Kyrillos.</p>



<p>Ao longo do dia, vários personagens que são referências dos movimentos sociais e dos grupos de católicos progressistas, como o monge e teólogo Marcelo Barros e o frade franciscano Aloísio Fragoso, comentaram sobre a importância do papel desempenhado por Veloso nas lutas sociais em Pernambuco. &#8220;Deixou-nos órfãos de uma voz profética, no sentido mais bíblico da palavra, sempre coerente, colocando o Bem do Povo de Deus acima das suas conveniências&#8221;, resumiu frei Aloísio.</p>



<p>Ativista católica, Maria Tereza Braga de Morais é integrante do Comitê Católico de Luta pela Vida, que está colaborando na organização das missa solene em homenagem ao padre. &#8220;Ele sempre esteve ao lado dos mais pobres, dos mais necessitados. Na próxima semana, a oração do terço contra a fome e favor da democracia que fazemos todas as sextas na calçada da igreja de Santo Antônio, no centro do Recife, será em sua homenagem&#8221;, afirmou.</p>



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	                                        <p class="m-0">Velório aconteceu na escola a poucos metros da igreja de onde Veloso foi expulso pelo arcebispo. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading">Expulsão do Morro da Conceição</h2>



<p>Um episódio bastante conhecido da vida do ex-padre ocorreu quando foi expulso da igreja do Morro da Conceição. Em 1985, Dom Helder Câmara renunciou à arquidiocese de Olinda e Recife. No lugar dele assumiu o conservador dom José Cardoso Sobrinho, que perseguiu alguns padres progressistas, entre eles, Reginaldo Veloso.<br><br>Em 1989, o arcebispo destituiu o padre Reginaldo da Paróquia do Morro da Conceição. Também o suspendeu dos exercícios de sacerdócio, alegando insubordinação. A comunidade, porém, se uniu contra a decisão de dom José e ficou ao lado do padre Reginaldo, que se recusou a deixar a igreja.<br><br>A situação chegou a tal ponto que a Polícia Militar foi chamada para retirar o padre da igreja, cumprindo ordem judicial. Há um episódio, quase anedótico, que é contado também no documentário: quando a polícia chegou, os moradores esconderam a chave da igreja em um balão, que soltaram no céu. Retirado à força da paróquia, padre Reginaldo abandonou a igreja e se casou em 1994. Até o fim da vida se manteve ativo nos trabalhos sociais do Morro da Conceição, que permaneceu ao lado do ex-padre.</p>



<p>Curiosamente, o site da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), organismo que representa a hierarquia eclesiástica no país, informou <a href="https://www.cnbb.org.br/faleceu-o-compositor-reginaldo-veloso/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a morte do &#8220;compositor&#8221; Reginaldo Veloso</a> e o apresentou como &#8220;mestre em Teologia e História, escritor, compositor e especialista em liturgia (&#8230;) colaborou com a Igreja no Brasil oferecendo diversas músicas que animaram celebrações e atividades pastorais em todo o Brasil no pós-concilio&#8221;. Nem uma palavra sobre seus vínculos com as lutas do setor progressista da igreja ou o episódio da expulsão da paróquia, um dos mais marcantes de sua vida e na história da igreja Católica em Pernambuco.</p>



<p><em><strong>As imagens desta reportagem foram produzidas com apoio do <a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do <a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project.</a></strong></em></p>



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<p><br></p>
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