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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Clarissa Tércio perde pedido de direito de resposta contra o Macumba Ordinária</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Sep 2026 19:14:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[aborto legal]]></category>
		<category><![CDATA[Clarissa Tércio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A candidata a deputada federal Clarissa Tércio (PP) perdeu no Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE), nesta segunda-feira (14), o direito de resposta por uma publicação feita em 19 de agosto no perfil Macumba Ordinária no Instagram. A publicação afirmava que a parlamentar e o então deputado estadual Joel da Harpa chamaram de &#8220;assassina&#8221; uma [&#8230;]</p>
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<p>A candidata a deputada federal Clarissa Tércio (PP) perdeu no Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE), nesta segunda-feira (14), o direito de resposta por uma publicação feita em 19 de agosto no perfil <a href="https://www.instagram.com/macumbaordinaria/">Macumba Ordinária</a> no Instagram. A publicação afirmava que a parlamentar e o então deputado estadual Joel da Harpa chamaram de &#8220;assassina&#8221; uma criança de 10 anos, vítima de estupro, que veio do Espírito Santo ao Recife para realizar um aborto legal”.</p>



<p>À época, eles se juntaram a outros fundamentalistas religiosos na porta do Centro Universitário Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam/UPE) para impedir que o procedimento fosse realizado. Mesmo em meio a tumulto, gritaria e orações nas porta do hospital, o procedimento foi realizado com sucesso.</p>



<p>Na mesma semana em que a postagem foi realizada, o desembargador Luiz Gustavo Mendonça de Araújo, solicitou a retirada do conteúdo em caráter de urgência. No entanto, após a análise das provas apresentadas por Renato Fonseca, administrador da página, o magistrado argumentou que compreendeu a necessidade de ponderar elementos apresentados pela defesa. </p>



<p>O desembargador foi relator do caso na 44ª Sessão Ordinária do tribunal, que negou o pedido feito pela parlamentar e foi acompanhado por quatro, dos cinco desembargadores que estavam presentes. Entre as argumentações, o relator utilizou das provas apresentadas a partir de produções jornalísticas para afirmar que não havia dúvidas sobre a ocorrência dos fatos.</p>



<p>Para ele, a publicação seria uma síntese crítica sobre um episódio real em que a candidata estava inequivocamente envolvida. Portanto, não haveria falsidade que justificasse direito de resposta. Ao trazer trechos do parecer emitido pela Procuradoria Regional Eleitoral que também julgou o pedido improcedente, o relator também apontou:</p>



<p>“A atuação da justiça eleitoral em debate democrático guia-se pelo princípio da intervenção mínima do debate político, particularmente em redes sociais. E ainda diz, a requerente ataca a publicação sustentando que veicula fato mentiroso, porquanto não haveria prova de ela própria haver conferido a expressão injuriosa ‘assassina’. Porém, documentalmente, fatos que amparam sua publicação como matéria jornalística de veículos respeitados e arremata que inexiste falsidade na premissa de que a criança de 10 anos foi chamada de assassina por integrantes do protesto liderado e integrado pela candidata. Não subsistindo no caso, fato sabidamente inverídico, requisito autorizatório da concessão do direito de resposta”.</p>



<p>A decisão não foi unânime. Durante o julgamento, o desembargador Breno Duarte de Oliveira levantou dúvida sobre a atribuição direta da fala à candidata. Ele reconheceu que houve manifestação hostil, mas questionou se havia elementos probatórios suficientes para afirmar que Clarissa Tércio pessoalmente chamou a criança de assassina. Para ele, seria necessário prova mais palpável, como uma imagem ou registro direto, e não apenas reportagens que falam do grupo em geral.</p>



<p>Contudo, o relator rebateu e relembrou que o movimento foi liderado pela recorrente e outros deputados, e que os jornalistas presentes registraram o coro chamando a criança e a equipe médica de assassinos. Ele argumenta ainda que, estando a candidata inserida e liderando o ato, não seria possível dissociá-la do contexto coletivo. Mesmo que não haja prova individualizada da fala, a participação ativa no movimento já vincula a candidata ao episódio.</p>



<p>Além dos materiais de imprensa utilizados pela relatoria, em 18 de agosto, a parlamentar publicou um vídeo em seu canal do youtube em que afirmava: “tem uma assassinato de um bebê de 22 semanas de gestação […] a gente não quer permitir isso, a menina tá vindo lá do Espírito Santo. Pernambuco, vai compartilhando, vai avisando para todo mundo. Um bebê vai ser morto aqui”.</p>



<p>Apesar das objeções do desembargador Breno Duarte de Oliveira, os desembargadores Marcelo Labanca, Washington Amorim, Paulo Cordeiro e Roberta Viana Jardim, acompanharam o voto do relator que negou o recurso interposto. </p>



<p>A advogada de Clarissa Tércio (PP) também esteve na sessão para apresentar as argumentações da defesa. Já a equipe jurídica do perfil Macumba Ordinária está atuando para reaver a publicação suspensa pela Meta.  </p>



<h2 class="wp-block-heading">Relembre o caso </h2>



<p>Em agosto de 2020, chegava ao recife uma criança de 10 anos vinda do Espírito Santo para realizar o procedimento de aborto legal no Cisam, após ser estuprada pelo tio. A família só descobriu os crimes quando a criança se queixou de dores e foi levada ao hospital, onde já se encontrava com mais de 20 semanas de gravidez.</p>



<p>A justiça do Espírito Santo negou o procedimento e ela foi acolhida no hospital recifense que é referência em aborto legal. Entretanto, o que já era um pesadelo para criança ficou ainda pior quando <a href="https://marcozero.org/parlamentares-evangelicos-atacam-clinica-para-impedir-aborto-legal-e-expoem-crianca-de-10-anos-vitima-de-violencia/" data-type="link" data-id="https://marcozero.org/parlamentares-evangelicos-atacam-clinica-para-impedir-aborto-legal-e-expoem-crianca-de-10-anos-vitima-de-violencia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">parlamentares evangélicos e um grupo de fundamentalistas religiosos tentaram impedir a realização do procedimento em frente ao hospital. </a><br><br>Quem encabeçou o cerco à maternidade foi a própria Clarissa Tércio (PSC), na época deputada estadual. Ao lado dela, estavam os deputados Joel da Harpa (PP), Clayton Collins (PP) e a vereadora do Recife Michele Collins (PP). <br><br>Gritos, brigas, orações e embates com o movimento feminista que também foi ao local para impedir a investida fundamentalista, não foram suficientes para barrar o aborto. O procedimento foi realizado pelo então diretor médico do Cisam, Olímpio Moraes.</p>



<p>“Nós trabalhamos atendendo a população pernambucana e nordestina há mais de 20 anos e nunca presenciei isso. Eu acho que o ódio, a intolerância estão sendo impulsionadas nesse momento que estamos vivendo de negacionismo, de fundamentalismo religioso”, afirmou o médico à época, em entrevista a MZ. </p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Bancada evangélica tenta impedir aborto em criança de 10 anos" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/NHLGmK9j8Z4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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		<title>Quando tudo circula ao mesmo tempo: por que checar fatos já não basta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Sep 2026 15:58:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[checagem de fatos]]></category>
		<category><![CDATA[desinformação]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Estopim]]></category>
		<category><![CDATA[fake news]]></category>
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		<category><![CDATA[jornalismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Ruthy Costa* No início de setembro de 2026, um vídeo que parecia mostrar o presidente argentino Javier Milei segurando uma motosserra e falando em português circulou nas redes sociais. Na gravação, ele atacava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e declarava apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. O conteúdo havia sido produzido com [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Ruthy Costa*</strong></p>



<p>No início de setembro de 2026, um vídeo que parecia mostrar o presidente argentino <a href="https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2026/09/02/desinformacao-ia-falso-video-milei-portugues-apoio-flavio-critica-lula.ghtm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Javier Milei segurando uma motosserra e falando em português circulou nas redes sociais</a>. Na gravação, ele atacava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e declarava apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. O conteúdo havia sido produzido com inteligência artificial a partir de uma fotografia publicada pela revista Forbes Argentina em 2024. Quando foi verificado pelo UOL Confere, acumulava mais de 263 mil curtidas no Instagram.</p>



<p>Poucos meses antes, outro vídeo fabricado por inteligência artificial atribuía ao ministro Luiz Fux a falsa informação de que Jair Bolsonaro seria solto e poderia disputar as eleições de 2026. As publicações haviam sido visualizadas mais de 50 mil vezes. Em agosto, vídeos manipulados fizeram Tancredo Neves e Ulysses Guimarães pronunciarem críticas a Bolsonaro que nunca foram ditas por eles. Os exemplos envolvem personagens e interesses políticos diferentes, mas compartilham a mesma facilidade de produção, adaptação e circulação.</p>



<p>Cada um desses conteúdos pode ser submetido a uma checagem. Jornalistas podem localizar o registro original, comparar imagens, consultar documentos, ouvir especialistas e demonstrar que determinada fala ou cena foi fabricada. Esse trabalho é indispensável. Permite corrigir informações, oferecer evidências ao público e responsabilizar quem utiliza falsificações para interferir no debate político.</p>



<p>O problema é que a checagem começa depois que alguma coisa foi dita, publicada ou compartilhada. Enquanto uma equipe investiga um vídeo, novos áudios, imagens, textos e montagens continuam aparecendo. Alguns repetem alegações antigas com pequenas alterações. Outros combinam dados verdadeiros com conclusões enganosas, retiram falas de contexto ou apresentam opiniões como se fossem informações comprovadas. A desinformação não chega às redações em uma fila organizada. Ela circula simultaneamente por redes abertas, aplicativos de mensagens, transmissões ao vivo, canais de vídeo e perfis que podem desaparecer logo após uma publicação.</p>



<p>Por isso, o desafio contemporâneo não se restringe a determinar se uma afirmação é verdadeira ou falsa. Antes de verificar, alguém precisa decidir o que merece ser verificado. Essa escolha envolve avaliar alcance, dano potencial, relevância pública, possibilidade de comprovação, autoridade de quem fez a declaração e presença daquela narrativa em diferentes espaços. Depois da checagem, ainda é necessário decidir como apresentar o resultado, como fazê-lo alcançar as pessoas expostas ao conteúdo original e como acompanhar suas reformulações.</p>



<p>Dizer que checar não basta, portanto, não significa diminuir a importância do <em>fact-checking</em>. <a href="https://mediawell.ssrc.org/citations/fact-checking-a-meta-analysis-of-what-works-and-for-whom/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Uma metanálise de 30 estudos, com mais de 20 mil participantes, concluiu que a checagem produz um efeito positivo sobre a correção de crenças políticas</a>. A questão está nas condições em que esse resultado é produzido e distribuído. Uma verificação pode ser metodologicamente rigorosa e, mesmo assim, alcançar apenas uma parcela pequena do público que recebeu a informação falsa.</p>



<p>Um <a href="https://arxiv.org/abs/2412.13280" target="_blank" rel="noreferrer noopener">estudo de Morgan Wack, Kayla Duskin e Damian Hodel sobre as eleições legislativas de 2022 nos Estados Unidos</a> comparou a circulação de narrativas eleitorais enganosas com as checagens correspondentes. A pesquisa constatou que menos da metade das principais narrativas analisadas foi verificada. Entre as que receberam checagem, o tempo mediano entre o surgimento da alegação e a publicação da resposta foi de quatro dias. As verificações representaram menos de 1,2% das conversações relacionadas a essas narrativas e circularam principalmente dentro das mesmas comunidades políticas, com pouca passagem entre grupos partidários.</p>



<p>Os dados se referem ao contexto norte-americano e não devem ser automaticamente transferidos para o Brasil. Ainda assim, ajudam a compreender uma limitação estrutural. A desinformação opera com custos de produção menores, pode ser repetida por diferentes perfis e não precisa demonstrar como chegou a uma conclusão. O jornalismo trabalha com procedimentos mais demorados, porque precisa reunir documentos, consultar fontes, verificar a procedência dos materiais e tornar público o caminho da apuração.</p>



<p>A diferença de velocidade não pode ser resolvida com a simples exigência de que jornalistas chequem tudo mais rapidamente. A pressa pode comprometer a análise, produzir classificações equivocadas e reduzir a explicação necessária para que o público compreenda o problema. Também não é possível responder a todas as alegações. Equipes possuem tempo e recursos limitados, enquanto o fluxo de conteúdos é contínuo.</p>



<p>Além disso, nem toda falsidade deve receber a mesma atenção. Uma publicação com circulação restrita pode ganhar visibilidade justamente porque uma organização jornalística decidiu desmenti-la. A repetição de uma alegação, mesmo para corrigi-la, também pode reforçar os termos escolhidos por quem a produziu. Em outros casos, o silêncio permite que uma narrativa prejudicial cresça sem contestação. Decidir entre verificar imediatamente, monitorar, contextualizar ou não ampliar um conteúdo é uma escolha editorial que não pode ser orientada apenas pelo número de visualizações.</p>



<p>É nesse ponto que a curadoria jornalística se torna relevante. Curar informação não consiste somente em reunir links ou resumir conteúdos publicados por terceiros. Trata-se de selecionar, hierarquizar, relacionar e contextualizar informações de acordo com critérios jornalísticos e com as necessidades de um público. Diante da desinformação, a curadoria ajuda a identificar quais alegações fazem parte de uma narrativa mais ampla, quais grupos estão sendo atingidos, quais temas exigem resposta urgente e quais conteúdos podem ser acompanhados sem receber exposição adicional.</p>



<p>Esse trabalho também permite deslocar a cobertura de falsidades isoladas para os processos que lhes dão sustentação. Dez publicações diferentes podem repetir a mesma narrativa com palavras, imagens e personagens distintos. Se cada peça for tratada como um caso independente, a redação produzirá dez respostas semelhantes e continuará reagindo ao ritmo definido por quem desinforma. Quando os conteúdos são agrupados e analisados em conjunto, torna-se possível investigar quem os produz, quais interesses mobilizam, que canais utilizam e como se adaptam depois de uma checagem.</p>



<p>A curadoria também deve ser aplicada às informações verdadeiras. Em períodos eleitorais, a atenção pública pode ser ocupada por declarações falsas, conflitos fabricados e controvérsias de curta duração, enquanto propostas de governo, execução orçamentária, políticas públicas e relações entre candidatos e grupos econômicos recebem menos espaço. Se a imprensa utilizar apenas a viralidade para selecionar o que será verificado e noticiado, as estratégias de desinformação passam a influenciar a própria agenda jornalística.</p>



<p>Selecionar com base no interesse público significa considerar o que produz consequências para a vida coletiva, mesmo quando o assunto não aparece entre os conteúdos mais compartilhados. Para um veículo independente ou regional, esse critério inclui observar como narrativas nacionais chegam aos territórios, quais grupos locais são utilizados na sua circulação e que questões específicas ficam encobertas pelo volume da disputa política nas redes.</p>



<p>A inteligência artificial pode auxiliar nesse processo, principalmente em tarefas que envolvem grande quantidade de dados. Sistemas computacionais conseguem acompanhar discursos, transcrever entrevistas e transmissões, localizar afirmações verificáveis, agrupar conteúdos semelhantes e comparar novas declarações com checagens já publicadas. Também podem ajudar a reconhecer a repetição de uma narrativa em diferentes plataformas e indicar mudanças na forma como ela está sendo apresentada.</p>



<p>A organização britânica <a href="https://fullfact.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Full Fact</a> utiliza aprendizado de máquina desde 2016 para apoiar o monitoramento do debate público. <a href="https://www.poder360.com.br/nieman/com-meios-proprios-full-fact-combate-conteudos-eleitorais-feitos-com-ia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Suas ferramentas processam textos, áudios e vídeos</a>, separam frases que contêm alegações verificáveis e procuram correspondências com afirmações analisadas anteriormente. O objetivo é reduzir um conjunto muito amplo de informações a uma quantidade que possa ser examinada por profissionais. A decisão sobre o que investigar e a verificação das evidências permanecem sob responsabilidade humana.</p>



<p>Essa distinção é necessária. Um sistema pode localizar uma frase que contém números, mas não determina sozinho se ela possui relevância pública. Pode encontrar semelhanças entre duas declarações, mas não compreende necessariamente as diferenças de contexto. Pode indicar uma provável falsidade e, ainda assim, utilizar dados desatualizados, fontes inadequadas ou associações estatísticas que não constituem prova. A automação contribui para organizar o fluxo, mas não elimina a apuração.</p>



<p>Há também escolhas anteriores ao funcionamento da tecnologia. Alguém define quais fontes serão monitoradas, quais temas receberão prioridade, que palavras serão usadas nas buscas e que nível de circulação será considerado relevante. Se um sistema acompanha apenas perfis nacionais de grande audiência, pode ignorar desinformação dirigida a comunidades locais. Se foi treinado principalmente em outro idioma ou contexto político, pode ter dificuldade para reconhecer expressões regionais, ironias e referências compartilhadas por determinados grupos.</p>



<p>Por isso, a incorporação da inteligência artificial ao jornalismo precisa ser transparente e submetida a critérios editoriais. As redações devem saber que tarefas foram automatizadas, quais bases orientam os resultados, onde estão as possibilidades de erro e quem responde pela decisão final. A tecnologia pode ampliar a capacidade de observação, mas não deve assumir a função de definir sozinha o que é verdadeiro, relevante ou publicável. A seleção sem verificação pode organizar conteúdos pouco confiáveis. A checagem sem curadoria tende a atuar de forma reativa e fragmentada. A automação sem supervisão pode reproduzir erros em maior escala.</p>



<p>Na prática, uma atuação articulada começaria pelo monitoramento de temas de interesse público, não apenas de conteúdos virais. Ferramentas poderiam auxiliar na identificação e no agrupamento de alegações, enquanto jornalistas definiriam prioridades considerando danos, alcance, recorrência e impacto social. A verificação reuniria documentos, dados, fontes e registros originais. Depois da publicação, o acompanhamento permitiria observar se a narrativa reapareceu, mudou de formato ou passou a circular entre outros públicos.</p>



<p>O resultado da checagem também precisa circular em formatos compatíveis com os lugares em que a desinformação foi encontrada. Uma reportagem detalhada no site preserva a metodologia e as evidências, mas pode ser acompanhada por vídeos, cards, áudios ou mensagens que apresentem a conclusão sem eliminar o contexto. Isso não significa adaptar o jornalismo a qualquer lógica das plataformas. Significa reconhecer que a correção precisa alcançar o debate público e que diferentes formatos podem conduzir o leitor à apuração completa.</p>



<p>Essa abordagem exige investimento em formação, protocolos e cooperação. Veículos independentes não precisam desenvolver isoladamente sistemas complexos de inteligência artificial. Podem compartilhar bancos de checagens, estabelecer parcerias com universidades, acompanhar bases públicas e formar redes de monitoramento com outras organizações jornalísticas. A colaboração reduz a repetição de tarefas e permite que cada equipe concentre recursos nas dimensões locais e investigativas que conhece melhor.</p>



<p>Também é necessário preservar a autonomia das redações diante das plataformas e dos fornecedores de tecnologia. Se as ferramentas usadas para identificar tendências pertencem às mesmas empresas que organizam a visibilidade e lucram com a circulação dos conteúdos, seus critérios não podem ser aceitos sem questionamento. Dados de engajamento ajudam a perceber o alcance de uma narrativa, mas não substituem a avaliação sobre relevância, dano e interesse público.</p>



<p>Em 2026, o <em>Digital News Report</em> registrou que <a href="https://veja.abril.com.br/coluna/planeta-ia/redes-sociais-ultrapassam-imprensa-como-principal-fonte-de-informacao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">47% dos brasileiros evitam notícias algumas vezes ou com frequência e que a confiança geral no noticiário caiu para 36%</a>. Mais da metade da população utiliza redes sociais para se informar semanalmente. Esses dados não resultam apenas da desinformação ou do excesso de notícias, mas mostram um ambiente em que ampliar continuamente o volume de publicações não garante melhor informação.</p>



<p>Nesse contexto, a contribuição específica do jornalismo está menos na capacidade de acompanhar cada postagem e mais na oferta de critérios, evidências e relações que ajudem o público a compreender o que importa. Checar fatos permanece essencial, mas precisa integrar um processo mais amplo, capaz de escolher com responsabilidade, verificar com rigor, contextualizar e acompanhar a circulação das narrativas. A inteligência artificial pode ajudar a lidar com a escala desse trabalho. A definição das prioridades e a responsabilidade pelas conclusões continuam pertencendo aos jornalistas.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><span style="font-weight: 400;">*Graduada em Jornalismo e Relações Públicas, é professora efetiva do curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), mestra em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Integra o Estopim, Laboratório de Tecnopolítica, Comunicação e Subjetividade, do PPGCOM/UFPE, o Núcleo de Pesquisas em Mídia, História e Tecnologias e o Grupo de Pesquisa Jornalismo e Convergência Midiática, ambos da UFPI.</span></p>
    </div>



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		<title>&#8220;Fiquei com mais medo do odor&#8221;. Fala de Medina sobre protesto de mulheres negras gera nova denúncia de racismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 22:24:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonarista]]></category>
		<category><![CDATA[Câmara Municipal do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[Jô Cavalcanti]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Eu fiquei com mais medo do odor de quando eu cheguei do que com as falas que estavam sendo proferidas ali”. A frase é do vereador de extrema direita do Recife Thiago Medina (PL), candidato a deputado federal, durante sessão plenária desta terça-feira, 1º de setembro. Ele se refere ao protesto que aconteceu, pela manhã, [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/fiquei-com-mais-medo-do-odor-fala-de-medina-sobre-protesto-de-mulheres-negras-gera-nova-denuncia-de-racismo/">&#8220;Fiquei com mais medo do odor&#8221;. Fala de Medina sobre protesto de mulheres negras gera nova denúncia de racismo</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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<p>“Eu fiquei com mais medo do odor de quando eu cheguei do que com as falas que estavam sendo proferidas ali”. A frase é do vereador de extrema direita do Recife Thiago Medina (PL), candidato a deputado federal, durante sessão plenária desta terça-feira, 1º de setembro. Ele se refere ao protesto que aconteceu, pela manhã, na entrada da Câmara do Recife, em defesa da vereadora Jô Cavalcanti (PSOL).</p>



<p>Um grupo de aproximadamente 30 pessoas, com presença majoritária de organizações sociais e coletivos de mulheres negras, esteve em ato para denunciar episódios de racismo e misoginia contra Jô. Única parlamentar negra da atual legislatura, ela, que também é candidata a deputada estadual, vem, há meses, acusando Medina de perseguição.</p>



<p>“Thiago Medina subiu à tribuna para dizer que mulheres negras fedem. Essas mulheres estavam aqui em ato de solidariedade ao nosso mandato, que está sofrendo perseguição política na Casa”, disse a vereadora, em pronunciamento, nas redes sociais, logo após o ocorrido.</p>



<p>“Isso vem sendo uma ação coordenada da extrema-direita para perseguir as populações mais vulneráveis, LGBTQIAPN+ e de religiosidades. Eles estão tentando legitimar cada vez mais esse discurso para se tornar comum”, afirmou ela, à tarde.</p>



<p>Interrupções, gritos, zombarias, dedo em riste, intimidação e constrangimento público passaram a integrar a rotina da atual legislatura da Câmara Municipal. Vereadoras relatam um ambiente sistemático de violência política de gênero e apontam parlamentares da extrema-direita, com destaque para Medina, como responsáveis pelos ataques.</p>



<p>O plenário virou um espaço de tensão permanente, como mostrou a <strong>Marco Zero</strong> em <a href="https://marcozero.org/entre-mimimi-e-silenciamento-camara-do-recife-vira-palco-de-violencia-contra-mulheres/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">reportagem</a> publicada em junho. As denúncias de Jô agora vão além. Além de misoginia, ela acusa Medina de racismo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A escalada</h2>



<p>A situação escalou, há pouco menos de 15 dias, após o parlamentar classificar o Projeto de Lei nº 147/2026, de autoria da vereadora, que propunha instituir o Dia Municipal da Mestra Ritinha, como “uma porcaria” e chamar a entidade espiritual da Jurema Sagrada de “mestra dos cabarés”. O projeto acabou sendo rejeitado em plenário por 12 votos a sete.</p>



<p>Após o acúmulo de episódios de violência e meses de denúncias sem que Medina tenha levado, até o momento, nenhuma advertência da Câmara do Recife — presidida pelo PSB, assim como a Comissão de Ética da Casa —, Jô terminou chamando-o de “racistinha de merda” e de “fascistinha” durante a sessão, em 17 de agosto.O episódio levou o vereador a entrar com uma representação, na Comissão de Ética, contra ela.</p>



<p>Alguns dias depois, em 20 de agosto, a subcomissão de Ética da Câmara aplicou uma medida de censura verbal contra a vereadora por palavras proferidas na tribuna em 3 de novembro de 2025, durante um debate sobre letalidade policial e direitos humanos após uma operação de grande repercussão no Rio de Janeiro.</p>



<p>Durante a reunião da subcomissão, a defesa da parlamentar demonstrou que a denúncia se baseou em uma leitura recortada e descontextualizada do episódio, ignorando o vídeo completo, as sucessivas interrupções sofridas por ela e a celebração que ocorria, por parte da bancada bolsonarista, das execuções da tragédia. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/54808211028_9449e83c16_c.jpg" alt="A imagem mostra a vereadora do Recife, Jô Cavalcanti, em ambiente interno, provavelmente durante uma sessão ou reunião. Ela veste uma blusa clara e usa óculos de armação escura. Seu rosto é arredondado, com pele morena, sobrancelhas grossas e bem definidas, nariz levemente largo e lábios cheios. O cabelo é escuro, liso e está solto, emoldurando o rosto. Sua expressão transmite atenção e seriedade, reforçando o contexto institucional da cena." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Única parlamentar negra da legislatura, Jô acusa Medina de racismo e misoginia
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Dias depois da notícia da censura verbal, nesta terça (1º), ao comentar o ato organizado em defesa da parlamentar, o vereador zombou da situação: “Desde a semana retrasada, quando a vereadora perdeu (a votação do Dia Municipal da Mestra Ritinha), ela se coloca como vítima. ‘Eu sou alvo de intolerância, eu sou alvo de racismo, ai eu perdi o Projeto de Lei, quem votou contra é racista’”, discursou em tom de deboche, com a voz em falsete.</p>



<p>“Ontem [segunda, 31] eu fiquei sabendo que hoje haveria uma manifestação contra a minha pessoa, contra o vereador Thiago Medina, por racismo religioso, intolerância religiosa, misoginia e todos os mimimi da esquerda”, falou também ao microfone. “Se eu gostasse de mimimi, eu comprava um gato gago, mas, como não gosto, estou aqui discursando”, debochou.</p>



<p>Em resposta aos ataques que vem denunciando, o mandato de Jô, além de protocolar projetos contra a violência de gênero e de raça na Câmara do Recife, entrou com uma representação contra Medina na Comissão de Ética da Casa e também no Ministério Público de Pernambuco por racismo e LGBTfobia.</p>



<p>“E nós representaremos novamente hoje contra esse parlamentar nas duas instâncias por reiteração da prática delitiva”, anunciou a vereadora.</p>



<p>“A Casa José Mariano é uma casa abolicionista, onde não pode acontecer o que vem acontecendo da última semana para cá. O Legislativo não pode tolerar, de forma alguma, esse tipo de postura de violência aos direitos fundamentais das pessoas. Por entender que nenhum vereador está acima de qualquer lei e sabendo que racismo é crime, estamos esperando que o Ministério Público tome as medidas cabíveis”, disse Jô ao falar com a <strong>MZ</strong>.</p>



<p>A reportagem procurou a assessoria de imprensa do vereador Medina, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.</p>



<p>Também questionou a Câmara do Recife se alguma medida será tomada após o ocorrido desta terça (1º). Segue resposta na íntegra, assinada pelo presidente Romerinho Jatobá (PSB):</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p>&#8220;A Câmara Municipal do Recife vem a público reafirmar o seu compromisso com a garantia de direitos para todas as pessoas, conforme pressupõe a democracia que defendemos. Ao longo da sua história, a Casa de José Mariano sempre foi um espaço para as mais diversas manifestações populares que refletem a diversidade do povo recifense e de seus representantes. Por tudo isso, o respeito às diferenças deve nortear todos os pronunciamentos das vereadoras e dos vereadores&#8221;.</p>
	</div>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Herdeiros do mesmo trono (parte 2): Orfeu e Sísifo</title>
		<link>https://marcozero.org/herdeiros-do-mesmo-trono-parte-2-orfeu-e-sisifo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 20:10:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Governo de Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[João Campos]]></category>
		<category><![CDATA[Raquel Lyra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Tiago Paraíba* e Michel Chaves** Tebas serviu de arquétipo para a disputa entre herdeiros em Pernambuco. Etéocles e Polinices nos deram a estrutura: dois filhos da mesma casa, disputando o mesmo trono, dentro dos mesmos muros que os formaram. Essa imagem explica quem disputa e por que a disputa é, no fundo, uma questão [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Tiago Paraíba* e Michel Chaves</strong>**</p>



<p>Tebas serviu de arquétipo para a disputa entre herdeiros em Pernambuco. Etéocles e Polinices nos deram a estrutura: dois filhos da mesma casa, disputando o mesmo trono, dentro dos mesmos muros que os formaram. Essa imagem explica <em>quem</em> disputa e <em>por que</em> a disputa é, no fundo, uma questão de sucessão, e não de guerra entre mundos opostos. Mas a cidade dos sete portões não basta para explicar <em>como</em> cada um disputa — o gesto, a retórica, o método com que cada herdeiro tenta convencer Pernambuco de que é ele quem rompe o ciclo. Para isso, é preciso outro par de espelhos: Orfeu e Sísifo, dois mitos que não pertencem ao ciclo tebano, mas que emprestam a Tebas o que lhe falta — a psicologia da disputa. Se Etéocles e Polinices dizem o que está em jogo, Orfeu e Sísifo dizem como cada herdeiro joga. É nesse par contraditório que João Campos e Raquel Lyra se inscrevem. Ambos, contudo, evitam a pergunta que o estado deveria formular: o que resta além da sucessão do trono?</p>



<p>Essa disputa não nasce no vazio. Ela é herdeira de um processo concreto: entre 2007 e 2022, o PSB governou Pernambuco por quatro mandatos consecutivos, construindo uma engenharia partidária com alcance real no território.</p>



<p>A morte de Eduardo Campos não encerrou essa estrutura — ela abriu uma disputa interna sobre direção e herança, que a vitória de Paulo Câmara em 2018 ainda conteve dentro de casa. Foi a ruptura de 2022, com a derrota do grupo indicado pelos Campos e a vitória de Raquel Lyra, que rachou publicamente o que antes era administrado internamente. Hoje, dois polos disputam o comando dessa reorganização: de um lado, os Campos tentando recuperar o governo estadual; do outro, Raquel tentando consolidar uma nova hegemonia. Lula funciona como ativo central nessa disputa, mas — como já demonstrado na Parte 1 — apoio não é identidade: é tração eleitoral emprestada, não sangue da casa. É esse terreno fático, e não a mitologia em si, que autoriza a leitura simbólica que segue.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/herdeiros-do-mesmo-trono-por-que-raquel-nao-e-bolsonaro-e-joao-nao-e-lula/" class="titulo">Herdeiros do mesmo trono: por que Raquel não é Bolsonaro e João não é Lula</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/opiniao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Opinião</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/democracia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Democracia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>João Campos: o Orfeu que caminha para diante com o corpo virado para trás</strong></p>



<p>Orfeu obtém dos deuses a graça de resgatar Eurídice sob uma única interdição: não voltar ou olhar para trás até a superfície. João Campos opera em regime invertido. Seu discurso invoca futuro, inovação e modernização, mas sua legitimidade política repousa numa arqueologia permanente — um movimento que Walter Benjamin chamaria de escovar a história a contrapelo, com o objetivo de reivindicar glórias seletivas.</p>



<p>Eduardo Campos é o pai simbólico, herança imediata; Miguel Arraes, o bisavô mítico, que amplia a espessura temporal da linhagem; Lula, o fiador nacional, que ancora o projeto no presente do governo federal. Trata-se de engenharia eleitoral precisa: o passado fornece identidade, Lula oferece capilaridade, e o discurso da modernização tenta transformar essa matéria arcaica em promessa de futuro.</p>



<p>Mas a contradição é interna e cresce com o próprio recurso ao arquivo familiar. Quanto mais João evoca os seus antepassados para definir-se, menos responde ao que efetivamente pretende ser. E há um silêncio significativo nessa genealogia política: Paulo Câmara, seu antigo chefe de gabinete, é sistematicamente omitido. Não se trata de lapso, mas de operação calculada: exclui-se o elo que aproximaria o herdeiro do desgaste do ciclo PSB de dezesseis anos, preservam-se os ícones imunes à corrosão do tempo.</p>



<p>João é, assim, Orfeu que caminha para diante com o corpo virado para trás. Sua novidade não reside no conteúdo do projeto, mas na seleção dos mortos que o autorizam a falar em nome da vida futura.</p>



<p><strong>Raquel Lyra: Sísifo e a pedra da ruptura que não cessa de recomeçar</strong></p>



<p>Raquel Lyra constrói sua narrativa por outra via. Em 2022, sua vitória interrompeu a hegemonia do PSB, apresentando-se como antítese à velha ordem. A imagem de renovação tornou-se seu ativo central.</p>



<p>Sísifo, porém, adverte: condenado a rolar um bloco de mármore montanha acima, vê o esforço desfeito no instante em que o topo parece próximo e recomeça, eternamente, o mesmo gesto inútil. A pergunta que o mito impõe à governadora é incômoda: a ruptura de 2022 rompeu efetivamente as estruturas de poder ou apenas transferiu a mão que empurra a mesma pedra?</p>



<p>Sua trajetória não é externa ao universo que ela diz superar. Formada no PSB, forjada em suas redes, Raquel encarna menos uma cesura do que uma recomposição oriunda das elites — o que Maquiavel chamaria de novo príncipe com velhas clientelas. A pedra mudou de empunhadura, mas permanece a mesma: a concentração de poder, a dependência do Estado como mecanismo de reprodução de grupos, a baixa capilaridade das decisões econômicas. Renovação, nesse quadro, não pode se reduzir a troca de atores, estética ou alianças conjunturais. Exige alteração de prioridades, de matriz de desenvolvimento, de relação com as desigualdades estruturais — algo que o mito de Sísifo, justamente, nega ao condenar seu herói à repetição infinita do mesmo.</p>



<p><strong>O que a disputa oculta — e por que isso importa</strong></p>



<p>Os três registros míticos, lidos juntos, convergem. Tebas é o tabuleiro de herdeiros em disputa — a estrutura que Etéocles e Polinices desenham. Orfeu é João, que fala em porvir, mas retroalimenta-se de fantasmas. Sísifo é Raquel, que promete ruptura mas reproduz o ciclo. Ambos disputam o trono com gramáticas opostas — um reivindica a memória dos antepassados; a outra, a negação deles. Mas ambos operam dentro do mesmo horizonte: a sucessão, e silenciam sobre o que viria depois dela — exatamente como Etéocles e Polinices, cuja disputa termina em fratricídio nos portões da cidade, sem que nada realmente mude, e o poder simplesmente passa a Creonte por decreto.</p>



<p>O que está em jogo, portanto, não é a qualidade da herança, mas a própria herança como categoria política. Hegel, na Fenomenologia do Espírito, mostrou que o senhor só é senhor porque o escravo o reconhece como tal; o trono só existe enquanto os súditos aceitarem sua necessidade. A pergunta incômoda que nenhum dos dois candidatos formula é: por que Pernambuco precisa de um trono? Por que o futuro deve ser eternamente apresentado como escolha entre pretendentes de uma mesma linhagem, ainda que com roupagens diferentes?</p>



<p>Na falta de um projeto substantivo para o estado, a disputa simbólica torna-se o campo decisivo. João escava Arraes e Eduardo; Raquel escava a própria vitória de 2022 como fetiche de novidade. É uma eleição em que os candidatos competem menos pelo futuro de Pernambuco do que pela autoridade para interpretar o passado que lhes daria direito a ocupá-lo.</p>



<p>Essa é uma armadilha de época, em que o historicismo empático com os vencedores transforma a tradição em mercadoria de legitimação. Pernambuco não precisa saber quem é o mais legítimo herdeiro de Eduardo, o mais fiel a Arraes, o mais próximo de Lula ou o mais rompido com o PSB. Precisa saber qual projeto enfrenta a fome, o subemprego, a concentração fundiária, a precarização do serviço público — variáveis que nenhuma genealogia resolve.</p>



<p><strong>Recusar a tragédia tebana</strong></p>



<p>É nesse ponto que a esquerda, em particular, deve escapar do papel de coro auxiliar de um dos irmãos em contenda. Não lhe cabe escolher entre Orfeu e Sísifo, entre o nostálgico e o reiterativo — nem torcer, como o coro de Tebas, para ver qual herdeiro cai primeiro nos portões da cidade.</p>



<p>A tarefa é outra, mais espinosana: distinguir entre <em>potentia</em> (capacidade de agir coletivamente) e <em>potestas</em> (poder constituído sobre os corpos). O trono é <em>potestas</em> pura — concentração que se perpetua. A política que interessa é a que não quer ocupar o trono, mas dissolver sua própria necessidade; que não pergunta qual dos dois será o próximo faraó, mas por que ainda há faraós.</p>



<p>Essa recusa, porém, não pode ficar apenas no plano simbólico — sob risco de repetir, em chave filosófica, o mesmo silêncio que se cobra dos herdeiros. Dissolver a necessidade do trono significa, concretamente, perguntar o que nenhum dos dois candidatos pergunta: quais propostas enfrentam o déficit habitacional, o saneamento básico e a precarização do trabalho? Que caminhos para a segurança pública não se limitam ao repertório da punição como substituto de política? Como garantir desenvolvimento do interior para além de obras dissociadas de sustentação econômica e participação social? Como tratar a concentração econômica e a desigualdade racial como problema estrutural, e não como promessa episódica de governo? É nessas perguntas, e não na genealogia de quem tem o sangue mais legítimo, que se mede a diferença entre potentia e potestas.</p>



<p>João olha para trás para forjar o amanhã. Raquel empurra a pedra da renovação em direção ao mesmo cume. Ambos disputam Tebas. Mas Pernambuco talvez precise de uma política que não deseje apenas herdar o reino, e sim tornar o reino irrelevante.</p>



<p>Essa, sim, seria a verdadeira ruptura. Não escolher entre Orfeu e Sísifo.</p>



<p>É sair de Tebas.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong> Tiago Paraíba integra a executiva nacional do PSOL e militante da Ação Negra.</p>
<p><strong>**</strong>Michel Chaves é historiador e economista.</p>
    </div>
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			</item>
		<item>
		<title>Dinheiro, fé e antifeminismo: como a direita disputa o voto das mulheres cristãs em 2026</title>
		<link>https://marcozero.org/dinheiro-fe-e-antifeminismo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Aug 2026 16:04:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo e política]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo e religião]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres cristãs]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A disputa pelo voto feminino entrou em uma nova fase. Se, nas eleições de 2022, a corrida parecia mais concentrada no segmento evangélico, com a direita mobilizando fortemente a &#8220;pauta de costumes&#8221; em torno de temas como aborto, &#8220;ideologia de gênero&#8221;, &#8220;kit gay&#8221; e &#8220;mamadeira de piroca&#8221;, para 2026 esse repertório foi ampliado. Assuntos como [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A disputa pelo voto feminino entrou em uma nova fase. Se, nas eleições de 2022, a corrida parecia mais concentrada no segmento evangélico, com a direita mobilizando fortemente a &#8220;pauta de costumes&#8221; em torno de temas como aborto, &#8220;ideologia de gênero&#8221;, &#8220;kit gay&#8221; e &#8220;mamadeira de piroca&#8221;, para 2026 esse repertório foi ampliado.</p>



<p>Assuntos como violência contra a mulher, maternidade, cuidado, família, autonomia financeira e empreendedorismo também passaram a integrar o discurso de setores conservadores, ao mesmo tempo em que ganha força um ativismo cristão antifeminista, que inclusive disputa a própria definição do que significa ser mulher.</p>



<p>Para falar sobre esses e outros temas em torno do voto feminino cristão nestas eleições, a <strong>Marco Zero</strong> conversou com a socióloga da religião e doutoranda em Sociologia na Universidade de São Paulo (USP) Tabata Tesser, pesquisadora associada do Instituto de Estudos da Religião (Iser).</p>



<p>Socióloga, ela tem estágio doutoral na Universidade de Barcelona (UB) e é mestre em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). No ISER, integra a pesquisa <em>Cristianismos e Aborto: disputas nas instituições públicas brasileiras (2010-2025)</em>. Também faz parte do Laboratório de Antropologia da Religião (LAR-Unicamp) e do grupo de estudos de Investigações em Sociologia da Religião (Isor), da Universidade Autônoma de Barcelona.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/voto-Tabata-1-1024x726.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/voto-Tabata-1-1024x726.jpg" alt="A foto mostra Tabata Tesser sentada confortavelmente em uma poltrona de madeira clara com laterais de palhinha trançada. Ela tem cabelos longos e castanhos, usa um macacão azul escuro sem mangas e está sorrindo de forma serena. Seu braço esquerdo repousa sobre o encosto, enquanto o direito apoia a cabeça num gesto descontraído. Usa pulseiras douradas, anel e esmalte vermelho, e há uma almofada verde ao seu lado. O ambiente é elegante e acolhedor, com parede neutra e persiana ao fundo, transmitindo uma sensação de tranquilidade e confiança." class="" loading="lazy" width="666">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Marco Zero — <strong>Nas eleições de 2022, a pauta de costumes parecia mais concentrada no segmento evangélico. Em 2026, vemos novas personagens, como <a href="https://religiaoepoder.org.br/artigo/quem-e-a-catolica-que-emerge-como-um-dos-principais-rostos-femininos-da-campanha-de-flavio-bolsonaro" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Daniella Marques</a>, num movimento que une identidade católica, tradicionalismo, perfil de elite e discurso sobre mulheres e família. O que mudou na forma como a direita está tentando falar com essas mulheres? O que essa mudança revela sobre o eleitorado feminino cristão no Brasil?</strong></p>



<p><strong>Tabata Tesser —</strong> Acho que a primeira mudança importante é que estamos começando a perceber que falar de mulheres cristãs não é falar apenas de mulheres evangélicas. Existe uma espécie de miopia na cobertura eleitoral brasileira que transforma o eleitorado evangélico em sinônimo de eleitorado cristão, quando, na verdade, o cristianismo brasileiro tem um rosto fortemente feminino e o maior contingente de mulheres cristãs é católico.</p>



<p>O Censo de 2022 mostra que as mulheres são 55,4% dos evangélicos e 51% dos católicos. Quando olhamos para esse conjunto, estamos falando de dezenas de milhões de mulheres. São mulheres que não apenas frequentam igrejas, mas sustentam boa parte da vida cotidiana dessas instituições por meio do trabalho voluntário, da catequese, da assistência e do cuidado.</p>



<p>A emergência de uma figura como Daniella Marques é interessante justamente porque ela permite à direita fazer uma operação diferente daquela que vimos em 2022. Ela combina uma identidade católica explicitamente assumida, credenciais técnicas, pertencimento às elites econômicas e um discurso sobre mulheres, família, empreendedorismo e autonomia financeira. É uma tentativa de construir uma interlocutora feminina que não seja apenas a mulher religiosa tradicional, mas uma mulher profissional, economicamente bem-sucedida, empreendedora e, ao mesmo tempo, conservadora nos valores.</p>



<p>Isso é importante porque revela que a direita percebeu que não basta falar de aborto, ideologia de gênero ou sexualidade para disputar as mulheres cristãs. É preciso falar também de dinheiro, trabalho, cuidado, maternidade, violência e família, temas que já fazem parte do cotidiano dessas mulheres.</p>



<p>Ao mesmo tempo, eu teria cuidado para não interpretar isso como se essas mulheres estivessem simplesmente migrando para uma nova liderança. O voto cristão não é um voto que se entrega por atacado. A pesquisa do Iser com mulheres evangélicas mostra justamente isso: elas escutam pastores e familiares, mas fazem suas próprias escolhas, pesquisam e interpretam a política a partir de suas experiências.</p>



<p>Então, mais do que perguntar quem vai “ficar” com as mulheres cristãs, eu acho que precisamos perguntar o que essas mulheres estão dizendo sobre política. E, quando fazemos isso, encontramos um eleitorado muito mais complexo do que os rótulos permitem enxergar.</p>



<p>Marco Zero — <strong>Janja Lula da Silva e Michelle Bolsonaro são mulheres muito diferentes e que também representam maneiras muito diferentes de construir politicamente a imagem da mulher. Até que ponto elas conseguem produzir uma identificação para além das já eleitoras de seus respectivos campos políticos?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>— </strong>Eu acho que existe um limite importante na própria ideia de primeira-dama como representante das mulheres. Janja e Michelle constroem imagens femininas muito diferentes, mas ambas estão inseridas em projetos políticos bastante identificados com seus respectivos campos.</p>



<p>Michelle Bolsonaro conseguiu construir uma identificação muito forte especialmente entre mulheres evangélicas e setores conservadores, mobilizando uma linguagem de fé, família, maternidade e testemunho cristão. Janja, por outro lado, constrói uma imagem pública que dialoga com outras formas de participação feminina, com pautas sociais, direitos e uma linguagem mais próxima de setores progressistas.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;As mulheres cristãs, por exemplo, não são homogêneas. Classe, raça, geração, território, família, experiência religiosa e cotidiano produzem diferenças enormes&#8221;.</p>
</div>


<p>E há uma questão que considero particularmente importante: a tentativa de “recuperar” ou “entregar” as mulheres cristãs por meio de primeiras-damas ou lideranças religiosas acaba dizendo mais sobre a estratégia dos partidos do que sobre essas mulheres. Elas não são um eleitorado que necessariamente acompanha uma mulher porque ela é mulher ou porque ela é cristã.</p>



<p>A identificação política acontece quando a mulher reconhece sua própria vida naquela agenda. E aí chegamos a temas muito concretos: o preço do supermercado, a consulta médica, a segurança dos filhos, a violência dentro de casa, o trabalho, a renda e a possibilidade de cuidar de quem depende dela.</p>



<p>Por isso, acho que tanto Janja quanto Michelle podem produzir identificação para além de seus campos, mas isso não acontece automaticamente pela imagem feminina ou pela religião. Depende da capacidade de falar com mulheres que não necessariamente se reconhecem integralmente em nenhum dos dois projetos.</p>



<p>Marco Zero — <strong>Como você já colocou</strong>, <strong>as mulheres evangélicas não formam um bloco homogêneo. Suas posições políticas são atravessadas por questões de classe, raça, geração, território, família e cotidiano. Que peso a pauta de costumes ainda tem como caminho para conquistar essas eleitoras? Ou temas como endividamento, cuidado, violência, trabalho, renda, saúde e segurança podem ser mais decisivos nas eleições de 2026?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>—</strong> Eu diria que a chamada pauta de costumes continua sendo importante, mas talvez ela seja superestimada quando tentamos explicar o voto das mulheres cristãs.</p>



<p>A pesquisa <a href="https://iser.org.br/publicacao/mulheres-evangelicas-politica-e-cotidiano-2024/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Mulheres evangélicas, política e cotidiano</em></a>, do Iser, é muito interessante nesse sentido porque mostra mulheres de diferentes regiões, majoritariamente negras e das classes C e D, falando sobre política a partir da própria vida. E o que aparece no centro não é necessariamente aborto ou ideologia de gênero. Aparecem cuidado, infância, maternidade, família, saúde, segurança, violência contra a mulher, preço dos alimentos e políticas públicas.</p>



<p>Existe uma frase que resume muito bem isso, essas mulheres conhecem a política pelo lado de quem espera o salário, a consulta médica e a condução.</p>



<p>Isso não significa que elas não tenham posições sobre aborto, sexualidade ou educação. Elas têm. Mas essas posições convivem com experiências concretas. Uma mulher pode, por exemplo, ter uma visão bastante conservadora sobre família e, ao mesmo tempo, defender educação sexual nas escolas porque viveu uma experiência de violência na infância. Isso mostra como é inadequado transformar essas mulheres em caricaturas.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/voto.webp" alt="A foto mostra um auditório cheio de pessoas sentadas, voltadas para um palco com cortinas vermelhas abertas e uma grande tela de projeção ao centro. Na tela, lê-se em letras grandes e coloridas “Mulher Potência Empreendedora”, indicando um evento da Prefeitura do Rio de Janeiro voltado ao tema do empreendedorismo feminino. O ambiente é de expectativa e atenção, com luzes baixas e foco na tela, sugerindo o início ou andamento de uma apresentação sobre o poder e a iniciativa das mulheres." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Empreendedorismo feminismo faz parte da pauta das mulheres de direita
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil</span>
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<p>Então, para 2026, eu acho que quem quiser compreender esse eleitorado precisa olhar menos para a pergunta “qual é a posição dela sobre a pauta de costumes?” e mais para “como ela está vivendo?”. Ela está endividada? Consegue cuidar dos filhos? Tem acesso à saúde? Sente-se segura? Tem renda? Quem cuida dela quando ela precisa cuidar de alguém?</p>



<p>E existe uma dimensão religiosa muito importante aí: a igreja muitas vezes funciona como rede de apoio justamente porque o Estado não chega de maneira suficiente. Por isso, políticas públicas também são questões religiosas para essas mulheres, porque atravessam diretamente suas vidas e suas comunidades.</p>



<p>A pauta de costumes não desapareceu. O que muda é que ela precisa ser compreendida dentro de uma vida cotidiana muito mais complexa.</p>



<p>Marco Zero — <strong>A direita nunca falou tanto das mulheres. De 2022 para cá, setores conservadores passaram a disputar temas tradicionalmente associados à esquerda e ao feminismo, como violência contra a mulher, cuidado, autonomia financeira e maternidade. Mas o que vemos é um ativismo cristão antifeminista ganhando força. Como você avalia esse movimento?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>—</strong> Eu acho que esse é um dos movimentos mais interessantes — e também mais importantes — para entendermos o conservadorismo atual.</p>



<p>Durante muito tempo, determinados temas foram identificados quase exclusivamente com a esquerda e com os feminismos. Agora, setores conservadores perceberam que não precisam abandonar seus valores para falar sobre mulheres. Eles podem disputar a própria definição do que significa proteger uma mulher, cuidar, falar de violência, defender autonomia econômica ou valorizar a maternidade. No fim, o que está em disputa é a pergunta “o que é ser uma mulher?”.</p>



<p>É aí que entra o ativismo cristão antifeminista. Ele não significa simplesmente ausência de uma agenda para mulheres. Pelo contrário: existe uma disputa ativa pela categoria “mulher” virtuosa e pelo significado de conceitos como autonomia, liberdade, cuidado, família e violência.</p>



<p>O caso da Daniella Marques é interessante porque mostra uma dessas formulações. A autonomia feminina aparece associada sobretudo à capacidade de gerar renda, empreender, acessar crédito e adquirir educação financeira. É uma agenda que pode produzir efeitos concretos, mas parte de uma concepção muito específica de desigualdade: a ideia de que a inclusão econômica individual seria um dos principais caminhos para a emancipação.</p>



<p>Isso é diferente de uma perspectiva feminista que olha para as estruturas sociais, econômicas, culturais e políticas que produzem a desigualdade entre homens e mulheres.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;Aí está a novidade: elas estão disputando o feminismo e, em alguns casos, disputando a própria linguagem feminista&#8221;.</p>
</div>


<p>E acho que os feminismos precisam prestar atenção nisso. Porque feministas e antifeministas estão, muitas vezes, falando sobre problemas semelhantes, violência, maternidade, cuidado, dinheiro, saúde, mas a partir de diagnósticos, linguagens e repertórios políticos completamente diferentes e chegando em concluíres distintas sobre a categoria mulher e gênero.</p>



<p>É uma disputa não apenas pelo voto das mulheres, mas pela definição do que é uma mulher, do que ela precisa e de quem deve protegê-la. E isso está acontecendo tanto no campo progressista como na direita. No campo progressista, vide o crescimento de discursos antigênero e antitrans buscando justamente responder a pergunta “o que é ser mulher?”.</p>



<p>Marco Zero — <strong>Projetos sobre misoginia, violência contra a mulher, educação, família e infância têm mobilizado a direita na Câmara e no Senado, para além de temas como aborto, diversidade, “ideologia de gênero” e “mamadeira de piroca”. A pauta de costumes mudou no Congresso Nacional?</strong></p>



<p><strong>Tabata</strong> <strong>—</strong> Sim, e eu acho que a principal mudança é justamente essa ampliação do repertório. A pauta de costumes não desapareceu. Aborto, diversidade, sexualidade e gênero continuam sendo temas fundamentais para a direita religiosa. Mas eles passaram a conviver com uma agenda muito mais ampla sobre família, infância, adoção, doulagem, educação, violência contra a mulher, misoginia, maternidade e cuidado.</p>



<p>Isso acontece porque esses temas são capazes de produzir uma conexão muito mais direta com a experiência cotidiana das mulheres. E a direita percebeu que pode disputar esses assuntos sem necessariamente adotar o diagnóstico feminista sobre eles.</p>



<p>Por exemplo, falar de violência contra a mulher não significa necessariamente reconhecer as mesmas estruturas de gênero que os feminismos reconhecem. Falar de maternidade não significa necessariamente defender políticas de autonomia reprodutiva e múltiplas capacidades reprodutivas. Falar de cuidado não significa necessariamente reivindicar sua socialização pelo Estado.</p>



<p>É justamente aí que a disputa fica mais sofisticada. Vide a direita que defende armar mulheres para combater a violência doméstica.</p>



<p>Acho que estamos vendo uma passagem de uma pauta de costumes mais caricatural e episódica, aquela dos grandes pânicos morais, como “ideologia de gênero” e “mamadeira de piroca”, para uma disputa mais cotidiana sobre quem define família, infância, educação, proteção, violência e a própria categoria mulher.</p>



<p>Isso não torna a pauta menos conservadora. Ao contrário, torna o conservadorismo potencialmente mais capilarizado, porque ele passa a ocupar temas que fazem parte da vida concreta das pessoas para além de fantasmagorias.</p>



<p>E há uma consequência importante para quem pesquisa ou cobre eleições: não podemos mais procurar o conservadorismo apenas quando ele fala de aborto ou sexualidade. Ele também pode aparecer quando fala de cuidado, empreendedorismo feminino, maternidade, proteção da infância, liberdade educacional ou combate à violência.</p>



<p>Por isso, eu diria que a pauta de costumes mudou menos porque abandonou seus temas tradicionais e mais porque ampliou seu território de disputa. E as mulheres estão no centro dessa disputa. E outra questão: mulheres conservadoras/virtuosas não precisam mais de interlocutoras. Estão online e roteando o antifeminismo cristão numa desconfortável, mas importante contradição: são feministas conservadoras na prática.</p>
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		<title>Como a IA reconfigura a ação política e por que é preciso definir regras rigorosas na disputa eleitoral</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Aug 2026 17:24:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Estopim]]></category>
		<category><![CDATA[IA]]></category>
		<category><![CDATA[Inteligência Artificial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Paulo Faltay*Em Pernambuco, a memória de Eduardo Campos faz campanha. Cerca de um mês separa duas publicações produzidas por IA que “reviveram” o ex-governador, ambas publicadas nas redes do filho, candidato ao governo em 2026. Em 28 de maio, com a legenda anunciando que “o legado vai continuar”, o ex-governador aparece em um vídeo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Paulo Faltay*</strong><br><br>Em Pernambuco, a memória de Eduardo Campos faz campanha. Cerca de um mês separa duas publicações produzidas por IA que “reviveram” o ex-governador, ambas publicadas nas redes do filho, candidato ao governo em 2026. Em 28 de maio, com a legenda anunciando que “o legado vai continuar”, o ex-governador aparece em um vídeo cedendo ao filho o lugar no tradicional “caixote” usado em suas campanhas. Já em 27 de julho, outro vídeo mostra Eduardo empunhando uma bandeira do estado e a passando para João Campos. “A Missa do Vaqueiro é tradição passada de geração em geração”, narra a postagem.</p>



<p>A rememoração é um recurso até batido em campanhas políticas: mobilizar o passado, lembrar de onde viemos para produzir sentido sobre o que podemos ser. Uma fotografia de Eduardo Campos pode evocar sua trajetória, um registro antigo pode relembrar as realizações dos seus governos. Sua imagem pode funcionar como uma espécie de atalho para uma memória política compartilhada. Aliás, tem sido assim há cinco eleições desde a sua morte. Há, porém, uma diferença fundamental entre o gesto de lembrar uma figura política e fazê-la voltar a agir.</p>



<p>A inteligência artificial vai além do arquivo. Ela traz à presença a figura política ausente. É uma tecnonecromancia eleitoral. Uma liderança pode continuar aparecendo, falando e mobilizando apoiadores mesmo quando seu corpo já não está disponível para participar da disputa.</p>



<p>A tecnologia reconstrói a imagem, a fala e os gestos de alguém para produzir momentos que nunca aconteceram. A crescente indistinção entre verdadeiro e falso, entre invencionice e fato é um problema grave, ainda mais em contextos sensíveis como o eleitoral. Mas não quero discutir a capacidade da IA produzir imagens mais ou menos convincentes. A inquietação com os vídeos de Eduardo Campos produzidos por IA me parece ser de outra ordem. É preciso discutir quais são as consequências políticas quando uma figura política ausente não é simplesmente rememorada e passa a ter a capacidade de intervir diretamente no presente. Duas questões são centrais aqui: como a tecnologia está reconfigurando a presença e a ação política e como o domínio desigual dessas ferramentas pode aprofundar assimetrias na própria disputa democrática.</p>



<p>O primeiro aspecto nos convoca a pensar coletivamente novas formas de equacionar e regular plataformas digitais, modelos generativos, campanhas eleitorais, normas jurídicas e práticas de circulação de comunicação política. O segundo aspecto, decorrente do primeiro, carrega a preocupação de como o uso dessas ferramentas pode aprofundar desequilíbrios no próprio jogo democrático. Afinal, grupos políticos com maior capacidade de compreender o funcionamento dessas tecnologias, de mobilizar recursos técnicos especializados e de investir financeiramente na produção e na disseminação desses conteúdos passam a dispor de possibilidades de intervenção, circulação e persuasão que não estão igualmente disponíveis aos demais atores políticos.</p>



<p>Tomemos o exemplo do que aconteceu na convenção do PL que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Em um vídeo também produzido com IA, uma representação de Jair Bolsonaro aparece dizendo que escolheu o filho para substituí-lo e pede aos apoiadores que o recebam de braços abertos. A tecnologia não foi utilizada apenas para recordar Bolsonaro. Ela foi mobilizada para fazer com que ele continuasse a falar, para que pudesse demonstrar uma escolha e para legitimar politicamente seu sucessor.</p>



<p>A controvérsia jurídica que se desenrolou após a exibição do vídeo explicita meu ponto. A inteligência artificial altera as próprias condições de presença dos atores políticos. Neste sentido, importa menos se as representações de IA são autênticas, ou se o vídeo em questão poderia ser enquadrado enquanto uma <em>deepfake</em>. O desafio é compreender como os sistemas de IA transformam o próprio significado de representação e participação política. Proibido de se manifestar publicamente, Bolsonaro continuou a participar do debate público com o vídeo. Ou seja, quando a tecnologia permite que uma pessoa continue falando depois que seu corpo perde as condições biológicas ou jurídicas de se manifestar, estamos diante de uma mudança nas próprias condições de ação política.</p>



<p>A política moderna sempre esteve profundamente associada à presença corporal. Discursos, comícios, entrevistas e debates pressupõem um corpo presente, capaz de falar, de se tornar visível e de mobilizar afetos e eleitoras. Este corpo político também se coloca na posição de ser observado, interrompido, confrontado e responsabilizado por suas declarações. A presença física sempre implicou uma forma de exposição às contingências da interação democrática. A inteligência artificial rompe parcialmente essa associação ao dissociar duas dimensões que historicamente caminhavam juntas: a presença política e a vulnerabilidade política. Os avatares preservam a capacidade de estar presente no debate público, mas reduzem a exposição às formas convencionais de contestação.</p>



<p>A ação política passa a ser produzida por uma infraestrutura sociotécnica que permite sua disponibilidade contínua sem submetê-la às mesmas condições de confronto, imprevisibilidade e responsabilização que caracterizam a atuação de um agente político vivo. Nesse sentido, o uso de IA, mais do que uma estratégia de comunicação política, deve ser entendida como a transformação das condições materiais sob as quais esta presença é exercida, deslocando sua dependência do corpo para uma rede composta por modelos computacionais, arquivos digitais, sistemas de recomendação das plataformas, algoritmos e estratégias de campanha.</p>



<p>É bem verdade que a IA não inaugura a distribuição da pessoa política. Nas campanhas digitais, a presença da figura política depende da ação compartilhada de apoiadores e dos algoritmos das plataformas. Mas nem todos os candidatos, partidos e grupos conseguem fazer uma mensagem circular com a mesma intensidade. Capacidade financeira para impulsionar conteúdos, domínio técnico das ferramentas de segmentação e produção, organização de redes de apoiadores, maior adequação às lógicas de funcionamento e mesmo o alinhamento ideológico às políticas das big techs vêm se convertendo em vantagens concretas na disputa pela atenção pública.</p>



<p>As plataformas, portanto, já aprofundaram assimetrias nas condições de visibilidade na disputa política. Com a IA generativa, esse fenômeno passa a depender também de modelos capazes de produzir novas enunciações em nome dessa liderança. A agência deixa de ser apenas distribuída e passa a ser computacionalmente reencenada, permitindo que determinadas capacidades políticas continuem operando mesmo na ausência do corpo biológico. Esse deslocamento transforma a presença política, que permanece disponível para agir, mas em condições profundamente diferentes daquelas que caracterizam a participação democrática tradicional.</p>



<p>Mais do que simples representação mimética da pessoa, os avatares sintéticos passam a funcionar como atualizações parciais da capacidade de agir politicamente. Ou seja, ao invés de reproduzir integralmente o indivíduo, os avatares reativam capacidades específicas, como endossar candidatos, mobilizar afetos e conferir legitimidade, contribuindo para a manutenção de uma figura política que continua produzindo efeitos mesmo na impossibilidade biológica ou jurídica da presença.</p>



<p>Passamos assim para o segundo ponto da inquietação. A democracia depende de uma determinada distribuição e equalização das capacidades de agir. Candidatos podem falar, adversários podem responder, jornalistas podem questionar, eleitores podem avaliar e instituições podem responsabilizar. Em outras palavras, a democracia organiza a participação no debate público, estipulando quem pode agir sobre quem. Quando uma campanha mobiliza um avatar póstumo ou de alguém proibido juridicamente de se manifestar, essa paridade é parcialmente rompida. Enquanto os candidatos vivos e presentes continuam submetidos às regras ordinárias da disputa, podendo ser criticados, responder a acusações, cometer erros, rever posições e prestar contas de suas declarações, o avatar permanece sobretudo como uma fonte estabilizada de autoridade. Ele não improvisa, não pode ser colocado em contradição por novas circunstâncias, não responde a críticas e não está sujeito às formas habituais de responsabilização política. Ainda assim, continua produzindo efeitos no presente ao participar do debate público. A inteligência artificial, nesse sentido, redistribui as condições sob as quais a autoridade pode ser exercida e, sobretudo, contestada na democracia. Os avatares de IA consistem em agentes eleitorais que reúnem capacidades políticas antes incompatíveis. Sua participação é seletiva: preserva a capacidade de influenciar, mas elimina parte das vulnerabilidades inerentes à participação democrática.</p>



<p>A inteligência artificial pode aprofundar as condições de visibilidade desiguais &#8211; já presente nas campanhas plataformizadas &#8211; ao ampliar ainda mais a capacidade daqueles que já dispõem de recursos financeiros, técnicos e organizacionais para produzir conteúdos em escala, testar formatos, ocupar diferentes espaços de circulação e manter determinadas figuras e narrativas permanentemente disponíveis. O risco do uso de IA nas eleições, portanto, reside na concentração desigual da capacidade de produzir presença, visibilidade e influência política.</p>



<p>O problema colocado pela IA nas eleições não pode se restringir à checagem do que é verdadeiro ou falso. Se a plataformização da política já transformou poder econômico, conhecimento técnico e capacidade de mobilização digital em vantagens assimétricas, a expansão das tecnologias generativas pode tornar essas diferenças ainda mais determinantes. Grupos com mais dinheiro podem adquirir maior capacidade de produzir, experimentar, segmentar, distribuir e fazer circular ações políticas. Quando essas capacidades se distribuem de maneira profundamente desigual, o que está em jogo é a própria busca por paridade das condições da disputa eleitoral.</p>



<p>O desafio que se coloca, portanto, é coletivo. Cabe às instituições eleitorais, às instâncias reguladoras, aos agentes políticos, à imprensa e à sociedade discutir quais usos da inteligência artificial devem ser permitidos ou proibidos. Ainda, e mais importante, devemos deliberar sobre quais condições materiais e tecnológicas devem ser estabelecidas para que eleições possam ser disputas paritárias. Preservar a democracia diante das transformações tecnológicas significa enfrentar as desigualdades na capacidade de produzir visibilidade e influência política. Uma eleição democrática não depende apenas de garantir que diferentes atores possam falar, mas de impedir que a capacidade financeira e tecnológica de alguns torne a voz dos demais progressivamente inaudível.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong>Paulo Faltay é professor de Comunicação no campus do agreste da UFPE, coordenador do Estopim -Laboratório de Tecnopolítica, Comunicação e Subjetividade, do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPE.</p>
    </div>
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		<title>Herdeiros do mesmo trono: por que Raquel não é Bolsonaro e João não é Lula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Aug 2026 18:10:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[eleição 2026]]></category>
		<category><![CDATA[João Campos]]></category>
		<category><![CDATA[PSOL]]></category>
		<category><![CDATA[PT]]></category>
		<category><![CDATA[Raquel Lyra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Tiago Paraíba* e Pedro Alcântara** Há um mito grego que Pernambuco parece reencenar sem saber. Depois da queda de Édipo, seus dois filhos, Etéocles e Polinices, herdam juntos o trono de Tebas e combinam governar em anos alternados. Chegada a vez de Polinices, Etéocles se recusa a ceder o poder. O irmão preterido marcha [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/herdeiros-do-mesmo-trono-por-que-raquel-nao-e-bolsonaro-e-joao-nao-e-lula/">Herdeiros do mesmo trono: por que Raquel não é Bolsonaro e João não é Lula</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Tiago Paraíba* e Pedro Alcântara**</strong></p>



<p>Há um mito grego que Pernambuco parece reencenar sem saber. Depois da queda de Édipo, seus dois filhos, Etéocles e Polinices, herdam juntos o trono de Tebas e combinam governar em anos alternados. Chegada a vez de Polinices, Etéocles se recusa a ceder o poder. O irmão preterido marcha contra a própria cidade natal à frente de um exército estrangeiro — os Sete Contra Tebas — não como um invasor de fora, mas como herdeiro reclamando o que considera seu por direito de sangue. Os dois se matam nos portões da cidade, filhos da mesma maldição, disputando o mesmo trono, dentro do mesmo palácio que os formou.</p>



<p>A eleição pernambucana vem sendo empurrada para uma falsa polarização: como se a disputa entre Raquel Lyra e João Campos fosse a mera expressão local de uma briga nacional entre bolsonarismo e lulismo. Para parte do debate público, Raquel funcionaria como polo &#8220;mais à direita&#8221;; João, como polo &#8220;ligado a Lula&#8221;. Esse espelhamento ajuda na propaganda, mas erra o gênero da história que está sendo contada. Não é uma guerra entre mundos opostos — é uma disputa de sucessão, tebana em sua estrutura, ainda que pernambucana em seu cenário.</p>



<p>Raquel Lyra não é bolsonarista, e João Campos tampouco é, no sentido político e ideológico, um &#8220;lulista&#8221; por natureza. O conflito que estrutura o calendário eleitoral pernambucano é outro: a disputa pelo controle do centro político estadual, pela condução das engrenagens do Estado e pela capacidade de reorganizar alianças e lideranças em um momento em que a antiga hegemonia do PSB entrou em crise e em redefinição — sua própria &#8220;morte de Édipo&#8221;, o ponto em que a autoridade que unificava os herdeiros se esvazia e o trono fica em aberto.</p>



<p>Por que &#8220;herdeiros do mesmo trono&#8221;? Não se trata de afirmar que Raquel e João sejam iguais, nem de reduzir seus projetos a um mesmo programa. Trata-se de reconhecer que ambos são produtos de uma mesma lógica de poder: famílias tradicionais, partido como instrumento de hegemonia, ocupação institucional e pragmatismo eleitoral. Como Etéocles e Polinices, adversários — mas competindo a partir de trajetórias que compartilham a base cultural e organizativa do mesmo ecossistema político, a mesma genealogia, a mesma casa.</p>



<p>No caso de Raquel, a tentativa de associação ao bolsonarismo decorre muito mais de composições eleitorais e do clima de 2022 do que de uma origem política que se confunda com o bolsonarismo. Há uma diferença crucial entre disputar votos em determinados setores da direita e ser, efetivamente, parte de um campo ideológico. O erro recorrente é tratar &#8220;conservadorismo eleitoral&#8221; como &#8220;identidade bolsonarista&#8221;.</p>



<p>Juntar Raquel no palanque de Flávio é um mau cálculo político — é como se Etéocles, já sentado no trono, decidisse chamar um exército estrangeiro para desfilar ao seu lado sem perceber que está emprestando força a quem tem menos. A tática parte da ideia de &#8220;aproveitar a audiência&#8221;, mas ignora o efeito real da colagem: quando há desnível de intenção de voto, quem costuma ganhar é o candidato com menor tração, enquanto quem já lidera corre mais risco de ser puxado para baixo. Com Raquel em torno de 43% e Flávio em 21% no estado, essa estratégia tende a ajudar Flávio, pois na prática vincula intensamente o bolsonarismo a um palanque forte que não o reivindica centralmente, dando vigor a um campo que em Pernambuco não conseguiu sequer articular uma candidatura orgânica ao Palácio do Campo das Princesas. Além disso, Lula já tem três palanques em Pernambuco, o que amplia base e capilaridade sem exigir que Raquel carregue um desgaste que, no fim, não reverte a favor dela, mas funciona como alavanca para a candidatura de Flávio.</p>



<p>Dois elementos ajudam a reorientar a leitura. Primeiro, a trajetória política: Raquel iniciou sua vida pública dentro do PSB. Em Pernambuco, isso não é um detalhe biográfico irrelevante. É parte da explicação de sua formação, da rede que a projetou e do ambiente político em que aprendeu a disputar poder — ela não chega como Polinices, do exílio, mas como quem sempre esteve dentro dos muros da cidade.</p>



<p>Segundo, a ruptura em 2022: Raquel venceu e interrompeu a sequência do bloco que comandava o governo estadual. Mas o sentido do que ocorreu foi, principalmente, uma reconfiguração do campo: uma parcela do velho grupo rompeu, construiu uma nova coalizão e passou a disputar a liderança do estado como concorrente. Foi menos &#8220;chegada de fora&#8221; e mais redistribuição de comando dentro de um mesmo universo de elites políticas — a disputa pelo trono que já estava, de algum modo, em família.</p>



<p>No fundo, o que muda é a posição na hierarquia do poder — não a gramática da política tradicional pernambucana.</p>



<p>Já no caso de João Campos e Lula, há proximidade eleitoral e não fusão política. A relação de João Campos com Lula tem peso, sim. Apoio presidencial pode significar tração eleitoral, capital simbólico e ampliação de alianças — é o &#8220;exército de Argos&#8221; que Polinices busca não porque tenha deixado de pertencer a Tebas, mas porque precisa de força para vencer a disputa interna. Mas o uso desse dado para transformar João em sinônimo local do lulismo não é suficiente para explicar o fenômeno.</p>



<p>João não nasceu dentro de uma trajetória petista típica, moldada por militância histórica ou por movimentos sociais que se tornaram identidade orgânica. Ele é herdeiro de uma linhagem que estruturou poder em Pernambuco: filho de Eduardo Campos e bisneto de Miguel Arraes.</p>



<p>Porém, mesmo dentro de seu próprio nicho hereditário, ele representa um afastamento da esquerda. O PSB de Arraes fazia parte de uma esquerda mais próxima do que hoje é o lulismo, defendia reformas sociais e a identificação com as lutas populares. Eduardo Campos já representou uma inflexão ao centro, incorporando uma aliança com a direita da “União por Pernambuco” e tocando um programa moderado om grandes acenos ao setor privado. João Campos, por sua vez, leva o PSB de vez para o campo do liberalismo de mercado, com discurso típico do neoliberalismo tecnocrático e um novo grupo de jovens políticos acionistas financeiros que enxergam a política como um campo profissional. Já não há mais quase nenhum resquício da real “Frente Popular”, do velho Arraes. A identidade com o lulismo e mesmo com o arraesismo, no caso do ex prefeito, repousa apenas na longínqua lembrança e prestígio de suas origens, esquentadas a cada nova eleição.</p>



<p>Trata-se, portanto, de uma aliança — e alianças, no mundo real, não uniformizam projetos até o ponto de apagar diferenças de origem e interesses. Lula é necessário para João ampliar base e alcance nacional; João oferece a Lula uma rota de liderança local e capacidade de mobilização no Estado. Mas isso não transforma o PSB em extensão automática do PT.</p>



<p>Se o PSB não opera em chave de subordinação automática ao PT, isso aparece inclusive em episódios decisivos da política nacional. Basta lembrar o apoio de setores do PSB ao impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e o comportamento político que, em diferentes momentos, recorreu a ataques ao PT como adversário a ser enfraquecido. Não se trata de reduzir tudo ao julgamento moral, nem de afirmar que todo PSB atua do mesmo modo em todas as conjunturas. Trata-se de constatar um padrão: PT e PSB não funcionam apenas como mesma identidade. Funcionam como forças que negociam, disputam espaço e preservam interesses partidários. Em Pernambuco essa disputa vem se dando em desfavor do PT, sempre preterido pelo PSB, vide a negativa para a vice do Recife em 2024, ou a violenta ofensiva antipetista da campanha de João Campos em 2020. Quando precisa, o PSB defende com unhas e dentes seu protagonismo no campo progressista contra o PT no Recife e em Pernambuco.</p>



<p>Assim, apoio de Lula não prova identidade lulista. Prova convergência tática — o exército emprestado, não o sangue da casa.</p>



<p>A eleição pernambucana não pode ser compreendida apenas como reflexo da polarização nacional. Há um conflito mais estrutural em curso: a reorganização do centro político estadual após o desgaste da antiga hegemonia do PSB.</p>



<p>Por anos, o PSB construiu uma escola de poder em Pernambuco com enorme capacidade de formar coalizões municipais, ocupar espaços estratégicos e comandar a máquina estadual. Entre 2007 e 2022, governou por quatro mandatos consecutivos e sustentou uma engenharia partidária com alcance real no território. Com a morte de Eduardo Campos, a estrutura partidária não desapareceu; ela passou a viver uma disputa interna sobre direção e herança — o pacto entre irmãos que, mais cedo ou mais tarde, precisaria ser renegociado ou rompido.</p>



<p>As vitórias de Paulo Câmara e a sucessão em 2018 mostraram a força do arranjo já existente. A ruptura de 2022, com a derrota do grupo indicado na época e a vitória de Raquel, abriu uma nova fase: dois polos passaram a disputar quem controla a reorganização do campo. De um lado, a tentativa dos Campos de recuperar o governo estadual e redefinir o comando. Do outro, Raquel buscando consolidar uma nova hegemonia e estruturar coalizão com capacidade de sustentar poder por ciclos completos.</p>



<p>É nesse ponto que a &#8220;ponte&#8221; entre Raquel e João deixa de ser teórica. Lula funciona como ativo central na disputa — mas não porque ambos compartilhem a mesma identidade. Funciona porque, em Pernambuco, o centro político disputa também quem consegue atrair e organizar apoios nacionais e quem tem maior capacidade de costurar frentes amplas. Cada um busca seu Argos particular, sem deixar de ser, no fundo, filho da mesma Tebas.</p>



<p>Quando a propaganda muda, não quer dizer que o conteúdo mudou. João Campos e Raquel Lyra exploram imagens associadas à renovação, mas é preciso tratar esse recurso com cuidado. A modernização da comunicação e da gestão pode ser uma mudança real de método, mas também pode ser apenas mudança de linguagem. Programas podem sofrer ajuste de tom sem alterar a forma como o poder é concentrado e administrado. Trocar de armadura não significa deixar de lutar pelo mesmo trono.</p>



<p>Em outras palavras: não basta perguntar &#8220;quem parece novo&#8221;. É necessário perguntar &#8220;o que muda na prática&#8221;.</p>



<p><strong>A pergunta certa: projeto de desenvolvimento ou disputa de herdeiros?</strong></p>



<p>A esquerda não pode entrar na armadilha de escolher primeiro um lado e só depois discutir projeto — não pode se tornar mais um exército convocado para os portões de Tebas, torcendo por qual irmão vai cair primeiro. Se o debate se resume a &#8220;quem é mais lulista&#8221; ou &#8220;quem está mais contra Bolsonaro&#8221;, perde-se a dimensão decisiva para o eleitorado que busca transformação real.</p>



<p>A pergunta orientadora deveria ser outra: quais propostas enfrentarão desigualdades estruturais? Quem tem resposta consistente para déficit habitacional, saneamento e precarização do trabalho? Quais caminhos para segurança pública que não se limitem ao repertório de punição como substituto de política? Como garantir desenvolvimento do interior para além de obras dissociadas de sustentação econômica e de participação social? Como enfrentar concentração econômica e desigualdade racial como problema estrutural, não como promessa episódica de governo?</p>



<p>Porque Pernambuco não precisa apenas trocar quem administra as contradições pelos próximos quatro anos. Precisa, sobretudo, construir outro projeto de poder — capaz de alterar prioridades, distribuir melhor os frutos do crescimento e fazer a vida da maioria deixar de ser variável dependente da arquitetura das elites.</p>



<p><strong>A tarefa: construir alternativa sem cair na eleição-amostra</strong></p>



<p>Nem Raquel é Bolsonaro por &#8220;ter alianças conservadoras&#8221;. Nem João é Lula por &#8220;estar ao lado de Lula&#8221;. O argumento central é simples: aliança eleitoral não é identidade política, e rótulos importados não substituem análise do campo de disputa.</p>



<p>Raquel e João são adversários, com projetos e trajetórias distintas. Ainda assim, operam dentro do mesmo ninho: estruturas tradicionais, famílias e partidos como máquinas de poder, capacidade de ocupar instituições e produzir alianças. A disputa real, portanto, é pelo comando desse ecossistema — e não pela simples troca de &#8220;lado&#8221; ideológico.</p>



<p>Em Tebas, o mito termina em fratricídio: os dois irmãos se destroem mutuamente nos portões da cidade, e o poder passa a Creonte por decreto, fechando o ciclo trágico sem que nada na cidade realmente mude. É essa repetição que Pernambuco precisa recusar. A esquerda precisa recusar o papel de escolhedora de herdeiro. Precisa disputar o sentido da eleição e construir autonomia suficiente para dialogar com os eleitores que se mobilizam hoje por Lula, com firmeza contra o bolsonarismo quando necessário, e com um programa claro de transformação social em Pernambuco.</p>



<p>Essa é a diferença entre participar do jogo da tradição, torcendo para ver qual herdeiro cai primeiro nos portões da cidade, e preparar a ruptura com o modelo que reproduz desigualdade sob novas embalagens — a diferença entre esperar o próximo Creonte e recusar que o trono continue sendo o único prêmio em disputa.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*</strong>membro da Executiva Nacional do PSOL e militante da Ação Negra</p>
<p>**professor e vice presidente do PT Pernambuco</p>
    </div>
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		<title>&#8220;A gente não vai recuar&#8221;, garante Rosane Borges</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jeniffer Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Jul 2026 09:05:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[antirrascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
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<p>Pensar na construção de uma coletividade que atenda de maneira justa às demandas da sociedade, é pensar na participação direta de todos os grupos que estão sendo impactados com as decisões do Estado. Em uma passagem recente pelo Recife, a professora e pesquisadora Rosane Borges, lançou seu novo livro <em>Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível</em>, e trouxe reflexões importantes para projetar um futuro em que grupos ditos minoritários estejam no centro do debate.</p>



<p>Acompanhada pelas jornalistas Kauana Portugal e Catarina de Angola, e pela ativista Ingrid Farias, o debate de lançamento apresentou perspectivas que envolvem política, comunicação, território e transformação social. Com a presença de ativistas, coletivos e organizações da sociedade civil, o encontro fez parte da programação do Julho das Pretas, organizada pelo Observatório Feminista do Nordeste.  </p>



<p>Neste dia internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25), a Marco Zero traz as reflexões da professora para a construção de um novo mundo onde a participação das mulheres negras tecem um futuro de bem-viver para a coletividade. Pessoas negras, pessoas indígenas, pessoas LGBTQIAPN+, corpos dissidentes, brancos, pessoas rurais e pessoas da área urbana trabalhando para que seja um mundo possível para todos. &#8220;É escandaloso ter apenas um grupo que pensa e decide o que é o país, o que é o comum desse país&#8221;, analisa Borges.</p>



<p>A data é comemorada em homenagem ao primeiro Encontro de Mulheres Afrolatinoamericanas e Afrocaribenhas ocorrido em 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana. O encontro marcou a história da luta de mulheres afrodescendentes ao reunir centenas de mulheres de mais de 32 países para discutir e encontrar estratégias para combater o racismo e o sexismo. Trinta e quatro anos depois, essas mesmas mulheres continuam na luta para garantir que os direitos conquistados não sejam retirados e que novas formas de viver sejam pensadas em uma dinâmica de justiça social e racial.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:45% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="683" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-683x1024.jpg" alt="" class="wp-image-76246 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-683x1024.jpg 683w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-200x300.jpg 200w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-768x1152.jpg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-1024x1536.jpg 1024w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-1365x2048.jpg 1365w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-150x225.jpg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/IMG_9951DSC04256-scaled.jpg 1707w" sizes="(max-width: 683px) 100vw, 683px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Rosane Borges é referência para os estudos sobre comunicação, raça, gênero e cultura. Jornalista, escritora e professora, é doutora em Ciências da Comunicação pela USP, professora convidada do Diversitas (FFLCH-USP), coordenadora da Escola Online Longa e docente da PUC-SP. Além do livro lançado em julho, ela é autora de diversos livros, entre eles: <em>Fragmentos do tempo presente </em>(2021), <em>Esboços de um tempo presente</em> (2016), <em>Mídia e Racismo</em> (2012) e <em>Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro</em> (2004).</p>



<p></p>
</div></div>



<p>Marco Zero &#8211;<strong>No livro, você parte dos modelos sociais atuais. Então, de uma forma geral, como é que você tem avaliado esses modelos da contemporaneidade?</strong></p>



<p><strong>Rosane &#8211;</strong> São modelos em colapso. Por isso que eu começo falando no meu livro que é a queda de céu, a queda de tudo, na trilha do Davi Kopenawa, porque é um modelo que já se esgotou. Tanto do ponto de vista da política institucionalizada, quando a gente vê o Donald Trump, quando a gente vê Netanyahu, quando a gente vê Milei, quando a gente vê o bolsonarismo, a gente diz que isso se esgotou, porque isso não é política, é antipolítica, é o politicismo.</p>



<p>Do ponto de vista das relações sociais, há o esgarçamento das relações sociais, dos afetos palavra que a gente tá usando muito que tá até desgastada, mas é preciso a gente pensar o que que a gente tá chamando de afeto. Então, tem o esgarçamento dos afetos, tem o esgarçamento da sociabilidade. A pandemia brutalizou a gente no espaço público, acho que tem uma brutalidade. Tem um rebaixamento da inteligência coletiva, eu acho que as redes sociais elas jogam um papel fundamental nesse rebaixamento da inteligência coletiva.</p>



<p>A gente tem uma predação ambiental. A pergunta que até coloco no livro que a gente tem que fazer é: aonde que a gente vai com as nossas trouxas de roupas? Porque os lugares, os territórios estão cada vez mais sendo destruídos e devastados. E não é pela natureza, é pela ação do homem. Então, acho que o que a gente tem hoje no contexto das relações vigentes é a degradação, é o colapso, é um capitalismo de crise que avança para dentro das nossas subjetividades, colonizando as nossas subjetividades. Para além de avançar para fora esse capitalismo que não viu fronteiras, que o dinheiro não tem fronteiras, só as pessoas que são interditadas, a política migratória interdita pessoas, mas não interdita o capital.</p>



<p>Então, esse é um contexto nefasto e ao mesmo tempo contraditório, porque nós chegamos do ponto de vista da performatividade técnica a uma alta performatividade, inteligência artificial, às tecnologias da inteligência em geral, para além da inteligência artificial. A gente tem um contexto de um poder maquínico das máquinas, ou seja, a gente tem uma performatividade técnica elevada, mas que, contraditoriamente, a gente tem um rebaixamento do que a gente chamou de civilização no passado, de pacto civilizatório, de sociedade, de humanidade, de bem-estar, de direito.</p>



<p>Então, eu acho que esse é o contexto que o livro traz no primeiro momento. E aí é preciso, nesse contexto ruim, difícil, que é inviável para a gente, inclusive para a gente cogitar uma vida digna, é um contexto inviável para uma vida digna, a gente cogitar possibilidade de outra forma de existência, que já, inclusive, estão em pleno exercício das matrizes indígenas às matrizes africanas.</p>



<p><strong>Pensando um pouco nesse contexto de transformação da sociedade, quais as principais contribuições das mulheres negras e dos grupos ditos minoritários para o debate sobre democracia, sobre justiça social, sobre a erradicação das desigualdades?</strong></p>



<p>O nosso papel é um papel importante, porque sempre é aquele que faz um movimento antecedente. Ou seja, para além de a gente dizer que a gente precisa participar da vida coletiva dentro de um desenho federativo, qual o nosso passo antecedente? A gente, inclusive, questiona o desenho federativo. A gente não só está pedindo e reivindicando por políticas públicas. E parte das políticas públicas do Brasil só existem graças à reivindicação histórica dos grupos historicamente discriminados, mas ao mesmo tempo que a gente pede por políticas públicas, a gente questiona as normas da institucionalidade.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;a gente reivindica acesso ao mundo, mas também a gente postula transformação desse mundo&#8221;.</p>
</div>


<p>A gente aponta os limites da democracia e a gente diz que não cabe, não vale apenas a gente ter representação num contexto de um mundo do que precisa ser reestruturado. Então, eu acho que nosso papel é bifronte, importante, porque a gente reivindica acesso ao mundo como ele é, a gente precisa reivindicar acesso ao mundo, participar da vida coletiva como ela é, capitalista, excludente, etc., mas também a gente postula transformação desse mundo. Ou seja, eu acho que a nossa grande contribuição é acesso ao mundo como ele é, na mesma medida que também a gente tenta transformar esse mundo, tenta questionar as normas que atribuem reconhecimento diferenciado, como já diria Judith Butler.</p>



<p>Tenta dizer que esse modelo de Estado tem que ser repensado. É por isso que o nosso olhar é sempre um olhar muito utópico. É um olhar que a gente diz, &#8216;tá bom, como é que a gente faz não só para participar da vida, para jogar o jogo, mas para a gente mudar as regras desse jogo&#8217;. E dizer, inclusive, que não é nem mudar as regras do jogo, o jogo tem que ser outro, não são só as regras.</p>



<p><strong>Como é que a gente pode pensar no fim desse mundo e na construção de um mundo possível, pensando também na contribuição da comunicação para essa construção?</strong></p>



<p>O que nos conforta é que pensar um outro mundo, pensar os futuros possíveis, não nos leva a pensar na lógica do grau zero, da tábula rasa: &#8216;ah, vamos reiniciar da página em branco&#8217;. O que nos conforta é que quando a gente diz que a gente precisa pensar esse outro mundo, mundo, já existem experiências, laboratórios desse mundo. Eu digo que nós estamos no metaverso desde o 14 de maio, não é? Então a gente tem mundos paralelos, eu acho que o que nos conforta é que esses mundos paralelos de resistência, de reinvenção, de criação, de produção, eles precisam ser projetados como matriz coletiva de uma outra experiência de vida.</p>



<p>E a comunicação é fundamental nesses tópicos, porque também a gente não parte da comunicação como veículo, como a tecnologia, o instrumento. Não é o celular, não é a rede social. Mas a comunicação é uma troca, é um sistema de vínculo que nos proporciona criar a possibilidade de conexão com o outro, sem que esse outro fique no lugar do outro. Contudo, que esse outro projete, também, todos os eus. Então, no momento de alterofobia, na morte do outro, é preciso que a gente reposicione também o debate de comunicação, pois não pode ser reduzido ao debate das <em>big techs</em>. Passa por elas, porque a gente precisa destituir o capitalismo algorítmico, mas é preciso também compreender que a comunicação hoje não deve passar apenas pela lógica algorítmica que orienta perfis, comoditiza as vidas, porque você faz uma curadoria de si.</p>



<p>Pensar comunicação nesse sentido é fundamental, porque ela deixa de ser apenas uma estratégia para determinado fim, mas ela passa a ser também um princípio que acompanha estratégias de produção de vínculo, de construção de subjetividades, de instituição de outras plataformas e etc.</p>



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	                                        <p class="m-0">Rosane Borges, Kauana Portugal, Catarina de Angola e Ingrid Farias debatem os futuros possíveis
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Mariana Lira</span>
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<p><strong>Qual a importância de mulheres negras e periféricas na construção do imaginário de um futuro possível, justo e menos difícil?</strong></p>



<p>Eu acho que a importância é exatamente no sentido que a gente olha. Se a gente pensar hoje o contexto das eleições, a gente vive, em termos de enunciado, um imaginário empobrecido, porque do ponto de vista social, a gente tem uma narrativa empobrecida sobre o que é política, sobre o que é política pública e etc. Então, qual o nosso papel enquanto mulheres negras? Quando eu digo no livro que é preciso que a gente geste o impossível, que a gente amplia os horizontes do possível. O nosso papel é trazer narrativas que sejam mais ousadas. </p>



<p>Veja, a gente está na narrativa que a gente não quer que a extrema-direita venha, a gente não quer que ditadura venha. Então, a gente está numa narrativa, inclusive, reativa. A gente deixou de ter uma narrativa propositiva. Quando a gente fala em imaginário, a gente está propondo, a gente não está só reagindo. A gente não está só combatendo a regressão. A gente está dizendo também como é que pode vir a emancipação. </p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;é preciso que a gente amplie os horizontes do possível. O nosso papel é trazer narrativas que sejam mais ousadas&#8221;. </p>
</div>


<p>O nosso grande papel, quando a gente fala de imaginários na política, a gente está falando também de possibilidades, de sonhar, de emancipar, de criar uma narrativa em que as pessoas possam dizer: essa narrativa coletiva, é uma narrativa do sonho, da esperança, da transformação. E não apenas da manutenção, da contenção da crise, da defesa. Porque é isso, a gente está no contexto da defesa ao monstro que continua arriscando não só o Brasil, mas o mundo e a América Latina. Se a gente pensar o que são as eleições desse ano, a América Latina é um horror.</p>



<p><strong>No lançamento do livro, o Observatório Feminista do Nordeste fez a provocação de quem tem sido reconhecido como capaz de imaginar o futuro do Brasil. </strong><strong>Então, queria perguntar a você: quem tem sido reconhecido por imaginar o futuro do Brasil?</strong></p>



<p>Homens brancos, urbanos, de preferência sudestino, que a eles é atribuído o discurso competente de pensar a coisa pública e os destinos de uma coletividade. Isso é tão terrível e, ao mesmo tempo, tão cristalino tão real, porque é um país que segue dando a homens brancos o poder de definir os destinos de uma coletividade, é um país que coloca em risco a sua própria democracia.</p>



<p>Se a gente pensar a origem da democracia grega, tem um pensador que eu gosto muito, o Jacques Rancière, que ele vai dizer que a democracia grega começa com o vício de origem. E é a democracia grega que vai inspirar a democracia ocidental liberal. Ele vai dizer qual é o vício de origem que a democracia grega nasce, ela carrega. Na democracia grega nem todo mundo podia falar, as mulheres não podiam falar, a criança não tinha o direito à fala. O artesão estava ocupado com o trabalho manual, então ele não falava no espaço público.</p>



<p>Aí ele dizia o seguinte, quem falava na democracia grega? Homens adultos que definiam os destinos de uma coletividade, definiam o comum. O comum é isso, é a economia, é a política, é o vestimento, é a cultura, são as regras que ordenam uma comunidade. Se a gente pensar o Brasil, a gente também carrega esse vício da democracia grega com um acréscimo terrível, a exclusão de mulheres, de indígenas e de pessoas negras, de mulheres negras, da população LGBTQIAPN +.</p>



<p>Por que a gente fica um dia assim e outro também, que nós temos que ter uma mulher no Supremo Tribunal Federal (STF)? Max Weber dizia que as três instâncias do poder, eram direitos (social), economia e política. Se a gente pensar que esse é o tripé que sustenta o poder de uma sociedade, a gente está ausente. Quando a gente olha para o STF, a nossa instância máxima, nós não estamos. Quando a gente olha os acordos econômicos, seja a economia privada, os financistas, também nós não estamos. É até bom que a gente não esteja mesmo, porque aquilo ali é o terror. Mas quando a gente pensa em economia pública, nós não estamos.</p>



<p>Quando a gente pensa política, nós estamos chegando com muita luta com as mandatas, a vereança e etc. Mas nós também não somos ministras para além dos lugares que eles acham que a gente deve estar. Pensar os destinos de uma coletividade é ter uma corporeidade que não seja apenas a corporeidade branca. A gente não tá querendo excluir as pessoas brancas a gente quer dizer &#8216;é o seguinte, para pensar os destinos de uma coletividade, você tem que ter pessoas negras, mulheres negras, pessoas indígenas, pessoas LGBTQIAPN +, corpos dissidentes, brancos, pessoas rurais e pessoas da área urbana&#8217;. Não se trata apenas do cálculo da representatividade, trata-se de você pensar o poder e a corporeidade do poder. É escandaloso ter apenas um grupo que pensa e decide o que é o país, o que é o comum desse país.</p>



<p>Você ter o ministro da economia, ele está definindo os destinos de todo mundo. E normalmente, hora a hora, é só o homem branco que define os destinos de uma coletividade. E a gente veio para dizer o seguinte, na linha da Érica: não toleraremos mais. A gente não quer só ser destinatário de políticas públicas. A gente não quer só ser exibida pelos governos, mesmo progressistas, que dizem &#8216;olha, o que eu fiz por vocês&#8217;. Não. A gente reconhece que tem que ter política mesmo para quem está na base. A gente não está querendo dizer que não tem que ter.</p>



<p>Além de sermos pessoas faltantes pela tragédia da escravidão, pela manutenção disso no capitalismo, nós também somos pessoas de inteligência, de tática, que pensam, que articulam. Que entendem de economia, de política, de jurisprudência, de lei, de cultura, de artes, de educação, de matemática e de inteligência artificial. A gente também está querendo ser reconhecida nesse lugar. Para além do lugar que é real, ninguém está negando isso, das sujeitas assaltantes a quem o Estado precisa prover com políticas públicas em escala.</p>



<p><strong>Nesses lugares de representação, que estratégia a gente precisa adotar enquanto sociedade para aumentar essa representação de mulheres negras nesse espaço de poder?</strong></p>



<p>Primeiro é a luta, o que a gente aprendeu com quem veio antes. É ter o campo da denúncia, da luta. De não transigir de alguns princípios, de saber aquilo que a gente negocia e aquilo que a gente não negocia e ter estratégias de formação das nossas meninas e mulheres para dizer o que cabe a cada uma de nós.</p>



<p>Há quem quer estar na universidade, há quem quer estar na política institucional, há quem quer estar na mídia, na imprensa, há quem quer estar nos territórios, nas organizações não governamentais. Então, acho que a gente precisa ter estratégia de essa coisa de ninguém largar a mão de ninguém, se ela tem uma verdade, é a verdade do ponto de vista da estratégia de dizer quem nós somos, de onde a gente veio e para onde a gente quer ir.</p>



<p>E é pensar isso coletivamente, pensar isso de maneira estratégica. E dizer que a gente não vai recuar. De onde a gente veio até onde a gente chegou não há possibilidade mais de recuo, nem do ponto de vista discursivo, nem do ponto de vista da prática.</p>



<p></p>
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		<title>Podcast de debate eleitoral (ainda) não é Cazé TV</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Inácio França]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2026 21:21:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Eduardo Moura]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[Fala Ordinário Podcast]]></category>
		<category><![CDATA[Jones Manoel]]></category>
		<category><![CDATA[Recife Ordinário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para começar, um elogio sincero: é muito louvável que um perfil com as características do Recife Ordinário, que em outros tempos seria classificado nas categorias &#8220;humor&#8221; ou &#8220;variedades&#8221;, promova uma discussão eleitoral em seu podcast. Há a possibilidade de que este escriba esteja sendo ingênuo, mas também é preciso ressaltar a digna postura do apresentador [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Para começar, um elogio sincero: é muito louvável que um perfil com as características do <a href="https://www.youtube.com/watch?v=NTuh1Ba3d0A">Recife Ordinário</a>, que em outros tempos seria classificado nas categorias &#8220;humor&#8221; ou &#8220;variedades&#8221;, promova uma discussão eleitoral em seu podcast. Há a possibilidade de que este escriba esteja sendo ingênuo, mas também é preciso ressaltar a digna postura do apresentador Gabriel Oliveira em seu esforço para garantir um mínimo de seriedade na troca de &#8220;ideias&#8221; entre os dois candidatos a deputado federal, o comunista Jones Manoel e um vereador de extrema-direita cujo nome não será publicado neste texto de opinião por questões de higiene.</p>



<p>Por melhores que tenham sido as intenções e motivações de quase todos os envolvidos — à exceção do histérico extremista de direita —, o fato de o debate ter sido transmitido no YouTube não quer dizer que tenha sido um conteúdo de YouTube. Ao contrário, o resultado foi um produto muito semelhante aos aborrecidos e intermináveis debates veiculados desde a redemocratização, em meados dos anos 1980, pela televisão brasileira.</p>



<p>O formato não ajudou. A produção e as assessorias dos debatedores não foram além da batidíssima divisão em blocos temáticos, enormes por sinal, com um candidato perguntando para o outro. E cada um respondendo o que bem entende. Faltou agilidade, mas não só.</p>



<p>Faltou jornalismo. Explico: senti falta de jornalistas profissionais com postura independente e crítica, capazes de tirar Jones e seu oponente das respectivas zonas de conforto. Por exemplo, questionar o comunista como a tal &#8220;esquerda radical&#8221; pode conduzir mudanças políticas sem obter sucesso nas urnas e sem mobilização social; ou perguntar ao direitista por que, em meio a toda sua verborragia, não citou nenhuma vez o nome de Flávio Bolsonaro.</p>



<p>Sem o elemento crítico, o que se viu foram dois monólogos. Ok, talvez seja impossível manter um mínimo de diálogo com aquele vereador direitista. Aliás, cabe parênteses: é provável que, se fosse tal indivíduo uma mulher, logo estaria sendo chamado pelos demais políticos de &#8220;louca&#8221;, &#8220;histérica&#8221;, &#8220;desequilibrada&#8221; e &#8220;tresloucada&#8221;. Como é homem, branco, que bate nas costas dos colegas nos corredores da Câmara Municipal, conta com a complacência até mesmo da bancada (masculina) do PSB, partido de João Campos, seu alvo nº 2 (o número 1 são as vereadoras mulheres, conforme se lê <a href="https://marcozero.org/entre-mimimi-e-silenciamento-camara-do-recife-vira-palco-de-violencia-contra-mulheres/">nessa reportagem da Marco Zero</a>).</p>



<p>Até os cacoetes de candidatos e candidatas de tempos analógicos foram repetidos por Jones e pelo outro. O comunista abusou de iniciar suas réplicas com o surrado &#8220;mais uma vez ele não respondeu&#8221;. Repetitivo e previsível.</p>



<p>Já o extremista de direita espalhava pegadinhas e cascas de bananas irrelevantes, coisas como &#8220;você sabe quanto custa um pneu de ônibus?&#8221; ou &#8220;quantas unidades de saúde têm no estado?&#8221;. Personagens do passado, dinossauros da política, viviam repetindo esse tipo de bobagem surrada. O sindicalista Luiz Antônio de Medeiros, só pra citar um exemplo que lembro de cabeça, fez isso com mais brilho e humor ao perguntar à grã-fina Marta Suplicy se ela sabia onde ficava o bairro de Sapopemba, durante uma disputa para prefeitura de São Paulo em 1996.</p>



<p>Mesmo cansativo e arrastado para quem suportou até o final, o debate foi ótimo para os envolvido. Os debatedores tiveram a oportunidade de se posicionarem como antagonistas na disputa para as vagas na Câmara dos Deputados. Formando quase um núcleo coadjuvante, correndo paralelo à trama principal da novela protagonizada por Raquel Lyra e João Campos.</p>



<p>Se o vereador pôde discursar e fazer jogo de cena para seu público da machosfera radicalizada, Jones Manoel teve competência em se apresentar como um político mais maduro, capaz de transitar por temas diversos, indo além do perfil de revolucionário e capaz de agradar ao chamado &#8220;voto de opinião&#8221; da esquerda. E isso, historicamente em Pernambuco, tem um potencial nada desprezível.</p>



<p>E, finalmente, para o Recife Ordinário, foi pra lá de excelente. Até então o episódio de maior audiência de seu podcast não tinha passado de 63 mil visualizações. No momento em que este texto foi publicado, o debate já caminhava para 270 mil visualizações, sem contar a repercussão nacional. E isso sem que os produtores tenham encontrado um formato e uma linguagem tão intensa, ágil, descontraída e adaptada à internet como as transmissões esportivas da Cazé TV.</p>



<p></p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Recife Ordinário revela: vereador simulou atraso com ajuda da assessoria</span>

		<p class="western" align="left"><!-- wp:paragraph --></p>
<p>Há meses o debate estava anunciado para começar às 19h, mas só teve início às 19h27min porque o vereador extremista chegou atrasado.</p>
<p>Perto do final da <em>live</em>, o clima esquentou quando ele acusou o apresentador e a produção do Recife Ordinário de estarem favorecendo Jones Manoel. Nesse momento, Gabriel Oliveira surpreendeu a todos ao dizer que “não era palhaço” e que o parlamentar estava sendo “escroto e safado”.</p>
<p class="western" align="left"><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>O que o atraso tem a ver com o desabafo do moderador?</p>
<p class="western" align="left"><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>Hoje, a equipe do Recife Ordinário <a href="https://www.youtube.com/live/Xv7Ket4JvfM?si=mcuv-ZRfsswZ-D9t">fez uma nova live revelando o que aconteceu nos bastidores</a>, revelando a ligação entre os dois momentos.</p>
<p class="western" align="left"><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>“Ele e a equipe dele se organizaram para nos enganar, para atrapalhar nosso trabalho. E eu não sei por que ele fez isso com a gente”.</p>
<p class="western" align="left"><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>Estava combinado que os debatedores teriam de chegar meia hora antes para que tudo fosse testado com antecedência. Na live, os produtores revelaram que os assessores do vereador presentes ao estúdio se mostravam surpresos com o atraso, não sabiam explicar a razão, falando muito por cima que seu chefe estaria com um problema familiar. Em seguida, foi dito que ele só poderia participar online em razão de um imprevisto com sua mãe, e que ele precisava dar suporte a ela.</p>
<p class="western" align="left"><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>“Já estavam me enganando”, desabafou Gabriel. Eram 19h20min. Dois minutos antes, o vereador havia mandando uma mensagem para o whatsapp do apresentador com o seguinte texto: “Meu irmão, deu ruim. Tô com minha mãe. Imprevisto. Faz com ele. Sem bronca”.</p>
<p class="western" align="left"><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>Era tudo mentira.</p>
<p class="western" align="left"><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>Entre a mensagem por zap e a chegada do vereador foram apenas 10 minutos de intervalo, revelou uma das produtoras.</p>
<p class="western" align="left"><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>As câmeras de segurança do estúdio e de outros estabelecimentos na rua mostraram o vereador passando várias vezes de carro em frente ao local bem antes das 19h. “Ele desceu, ficou esperando começar, poderia ter entrado antes para que o debate começasse na hora certa, mas preferiu irromper, chegar de maneira errada, sem me deixar falar, desrespeitando todas as regras”, contou Oliveira. O extremista acabou sentando na poltrona que estava reservada para o apresentador, mais próxima da câmera, ou seja, ficando mais em evidência no vídeo durante a <em>live</em>.</p>
<p class="western" align="left"><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>“Aturamos tudo isso, fizemos acontecer, mas ele tentou construiu a narrativa para o público dele, que é um público agressivo, que ataca as pessoas, que a gente estava favorecendo Jones. Por isso eu precisava trazer isso, pra mostrar quem é esse cara”, queixou-se.</p>
<p class="western" align="left"><!-- /wp:paragraph --></p>
<p>&nbsp;</p>
	</div>
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		<title>Por que nunca é só futebol</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Samarone Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jul 2026 23:05:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Argentina 2 x 1 Inglaterra]]></category>
		<category><![CDATA[Argentina x Espanha]]></category>
		<category><![CDATA[Copa 2026]]></category>
		<category><![CDATA[final da Copa do Mundo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Sebas Miquel* (com introdução de Samarone Lima) Depois da eliminação vergonhosa do Brasil, fiquei com raiva. De fato, a seleção perdeu a alma, e quando a alma vai embora, nada resta. Só corpos inúteis, errando pelo mundo. E me veio a Argentina, para mostrar o que é a identidade de um povo. Pedi ao [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>por Sebas Miquel* (com introdução de Samarone Lima)</strong></p>



<p><strong>Depois da eliminação vergonhosa do Brasil, fiquei com raiva. De fato, a seleção perdeu a alma, e quando a alma vai embora, nada resta. Só corpos inúteis, errando pelo mundo. E me veio a Argentina, para mostrar o que é a identidade de um povo. Pedi ao velho amigo e grande fotógrafo argentino, <a href="https://www.instagram.com/sebasmiquel/">Sebas Miquel</a> um texto sobre a a vitória de ontem, contra a Inglaterra. Ele respondeu rápido, no calor da vitória.</strong></p>



<p><strong>***</strong></p>



<p>&#8220;É só futebol&#8221;, expressou Scaloni antes da partida, o mesmo diziam Maradona e Carlos Bilardo em 1986. Mas todos sabemos que nunca é só futebol. Colonialismo, subdesenvolvimento, história, patriotismo, guerra, ditadura, Milei ou neoliberalismo (é a mesma coisa), tudo se entremeia em uma partida, tudo faz parte.</p>



<p>O orgulho argentino vem desde a colônia; por volta de 1800, os ingleses tentaram invadir Buenos Aires e nós os expulsamos com óleo quente e guerra de guerrilhas. As Malvinas depois foram controladas e habitadas pelos ingleses até hoje, com guerra incluída. Então, nunca é só futebol.</p>



<p>O futebol é a nossa última esperança, é o nosso orgulho, a nossa alegria, é pela única coisa pela qual fazemos um país parar. Não voa nem uma mosca, não há uma única alma enquanto joga a seleção, o país para. Talvez a nossa última fronteira de representação, talvez o nosso último vislumbre de identidade em um país devastado pelo imperialismo, onde os que traem estão dentro e fora. É a nossa história.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><strong>*Fotógrafo e professor de Filosofia Política na Universidade de Buenos Aires e na Universidade Nacional de La Matanza e de Jornalismo Gráfico na jornalismo gráfico na Universidade Nacional de La Plata. Venceu diversos prêmios internacionais de fotojornalismo.</strong></p>
    </div>
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