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	<title>Sérgio Miguel Buarque, Autor em Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Wed, 31 Dec 2025 13:52:19 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Sérgio Miguel Buarque, Autor em Marco Zero Conteúdo</title>
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	<item>
		<title>O ano da Marco Zero: fechando uma década de desafios e conquistas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 Dec 2025 13:52:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Institucional]]></category>
		<category><![CDATA[prestação de contas]]></category>
		<category><![CDATA[Reconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Retrospectiva2025]]></category>
		<category><![CDATA[transparência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 2025, a Marco Zero completou 10 anos com muitos motivos para comemorar. Ao longo dessa trajetória, publicamos reportagens de interesse público que trouxeram à luz temas relevantes e, muitas vezes, invisibilizados pela mídia tradicional. Foram 3.690 reportagens publicadas em nosso site, acessadas por mais de 5 milhões de pessoas. Também ampliamos significativamente nosso alcance [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/o-ano-da-marco-zero-fechando-uma-decada-de-desafios-e-conquistas/">O ano da Marco Zero: fechando uma década de desafios e conquistas</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 2025, a Marco Zero completou 10 anos com muitos motivos para comemorar. Ao longo dessa trajetória, publicamos reportagens de interesse público que trouxeram à luz temas relevantes e, muitas vezes, invisibilizados pela mídia tradicional. Foram 3.690 reportagens publicadas em nosso site, acessadas por mais de 5 milhões de pessoas. Também ampliamos significativamente nosso alcance nas redes sociais, onde já somamos mais de 150 mil seguidores. Com trabalho consistente e compromisso com a qualidade e a ética jornalística, nos consolidamos como uma referência no jornalismo independente brasileiro, ocupando espaços relevantes e conquistando importantes reconhecimentos ao longo do caminho.</p>



<p>Para garantir sustentabilidade financeira e independência editorial, construímos, ao longo desse período, um modelo de negócio próprio, transparente e, até aqui, exitoso frente aos desafios que marcam o setor. Mesmo fora do eixo Rio de Janeiro–São Paulo, conseguimos captar, em dez anos, R$ 8.079.811,28 &#8211; recursos que permitiram manter uma equipe de dez pessoas, toda a estrutura necessária para a produção das reportagens e, ainda, contribuir para o fortalecimento de uma rede de jornalismo independente no Nordeste. Não está sendo fácil, mas estamos muito orgulhosos do que construímos até aqui.</p>



<p>Essa base foi fundamental para enfrentar um dos anos mais desafiadores da nossa história recente. Pela primeira vez desde que adquirimos nossa independência financeira, em 2025 captamos bem menos recursos do que no ano anterior. Em comparação com 2024, a queda foi de 52%. O corte pela metade do orçamento se deu com o fim da parceria com o Fundo Internacional para Mídia de Interesse Público (IFPIM). Com isso, nossas receitas se concentraram, basicamente, no grant da Fundação OAK.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Ao todo, foram R$ 532.591,34 captados em 2025:</p>



<p>* OAK – R$ 459.718,08</p>



<p>* AS-PTA – R$ 38.207,25</p>



<p>* Un Verteilen – R$ 19.055,68</p>



<p>* Doações individuais – R$ 15.610,33</p>
</blockquote>



<p>Aqui cabe uma observação importante. Em 2025, conseguimos bater o recorde de doações individuais — aquelas em que, espontaneamente, nossos leitores contribuem com pequenas quantias. Esse resultado reforça a importância da nossa comunidade de leitores e aponta um caminho estratégico: em 2026, vamos investir em campanhas e estrutura para ampliar essa fonte de recursos.</p>



<p>As restrições financeiras de 2025 tiveram impactos diretos sobre nossa capacidade produtiva e, consequentemente, sobre o alcance do conteúdo publicado. Com menos recursos, priorizamos a manutenção da qualidade e do volume da produção jornalística, mesmo tendo que abrir mão, por enquanto, do programa de fortalecimento da rede de jornalismo independente no Nordeste. Ainda assim, não foi necessário demitir ninguém da equipe &#8211; perdemos uma repórter que, para nosso orgulho, foi iniciar um doutorado na Bahia, e não conseguimos repor a vaga. Para garantir essa estabilidade mínima, utilizamos parte do nosso fundo de reserva, por uma causa que consideramos justa.</p>



<p>Esse cenário se refletiu nos números. Em 2025, publicamos 312 reportagens, contra 456 no ano anterior, e registramos queda nos indicadores de audiência do site:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>* Usuários ativos: 662 mil (–39,4%)</p>



<p>* Visualizações: 971 mil (–39,7%)</p>



<p>* Contagem de eventos: 5,6 milhões (–40,1%)</p>
</blockquote>



<p>Ainda assim, mantivemos a qualidade e a relevância editorial do conteúdo publicado, como demonstram os temas que mobilizaram nossa audiência ao longo do ano e o reconhecimento profissional recebido.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><strong>As reportagens mais acessadas do ano ajudam a compreender os assuntos que despertaram maior interesse do público e refletem a diversidade de pautas acompanhadas pela Marco Zero:</strong></p>
<p>1. <a href="https://marcozero.org/como-um-shopping-center-se-tornou-o-lugar-mais-quente-do-recife/" target="_blank" rel="noopener">Como um shopping center se tornou o lugar mais quente do Recife</a> – 61.877 visualizações</p>
<p>2. <a href="https://marcozero.org/evangelicos-promovem-cercos-a-terreiros-para-intimidar-candomble/" target="_blank" rel="noopener">Evangélicos promovem “cercos” a terreiros para intimidar candomblé</a> – 48.107 visualizações</p>
<p>3. <a href="https://marcozero.org/aerogerador-desaba-em-parque-eolico-que-voltou-a-operar-apos-liminar-da-justica/" target="_blank" rel="noopener">Aerogerador desaba em parque eólico que voltou a operar após liminar da Justiça</a> – 38.407 visualizações</p>
<p>4. <a href="https://marcozero.org/ossos-humanos-loucas-e-ceramicas-sao-encontrados-em-reforma-do-mosteiro-de-sao-bento-em-olinda/" target="_blank" rel="noopener">Ossos humanos, louças e cerâmicas são encontrados em reforma do Mosteiro de São Bento, em Olinda</a> – 28.737 visualizações</p>
<p>5. <a href="https://marcozero.org/silencio-da-prefeitura-sobre-ponte-casa-forte-cordeiro-gera-medo-na-comunidade-santana/" target="_blank" rel="noopener">Silêncio da prefeitura sobre ponte Casa Forte–Cordeiro gera medo na comunidade Santana</a> – 28.195 visualizações</p>
<p>6. <a href="https://marcozero.org/fechamento-da-faculdade-damas-expoe-crise-do-ensino-superior-privado/" target="_blank" rel="noopener">Fechamento da Faculdade Damas expõe crise do ensino superior privado</a> – 21.631 visualizações</p>
<p>7. <a href="https://marcozero.org/assembleia-de-deus-quer-ganhar-terreno-publico-onde-deveria-ser-uma-praca-em-olinda/" target="_blank" rel="noopener">Assembleia de Deus quer ganhar terreno público onde deveria ser uma praça, em Olinda</a> – 29.511 visualizações</p>
<p>8. <a href="https://marcozero.org/do-lazer-ao-consumo-o-que-muda-nos-parques-do-recife-com-a-privatizacao/" target="_blank" rel="noopener">Do lazer ao consumo: o que muda nos parques do Recife com a privatização</a> – 18.977 visualizações</p>
<p>9. <a href="https://marcozero.org/distrito-guararapes-vai-ter-873-kitnets-com-metro-quadrado-mais-caro-que-a-media-do-recife/" target="_blank" rel="noopener">Distrito Guararapes vai ter 873 kitnets com metro quadrado mais caro que a média do Recife</a> – 18.612 visualizações</p>
<p>10. <a href="https://marcozero.org/prefeitura-do-recife-quer-acabar-com-a-lei-dos-12-bairros-denunciam-urbanistas/" target="_blank" rel="noopener">Prefeitura do Recife quer acabar com a Lei dos 12 Bairros, denunciam urbanistas</a> – 17.489 visualizações</p>
	</div>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-11-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-11-1024x683.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-11-1024x683.jpg" alt="Francisca da Silva dos Santos, Santinha. Artesã de palha de carnaúba" class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Foto finalista do Prêmio Sebrae 2025</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Apesar das limitações impostas pelo cenário financeiro, 2025 também foi um ano de fortalecimento do diálogo com o público, reconhecimento profissional e ampliação de parcerias.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Redes sociais em alta</h2>



<p>Aumentamos significativamente nossa presença digital. No Instagram, nosso principal canal de interação com o público, alcançamos 7.786.206 interações &#8211; um crescimento de 22% em relação ao ano anterior. Nos comentários, um importante indicador da relação com os leitores, o crescimento foi de 122%, passando de 17.836 para 39.649. Também ampliamos substancialmente o número de seguidores, chegando à marca de 91.163 (+44%).</p>



<h2 class="wp-block-heading">Prêmios importantes</h2>



<p>Em 2025, conquistamos três prêmios relevantes de jornalismo.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Prêmio Cristina Tavares</h3>



<p>A reportagem <a href="https://marcozero.org/os-desertos-do-sertao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Os desertos do sertão</a>, do editor Inácio França, da repórter Giovanna Carneiro, com fotos de Arnaldo Sete, recebeu o Prêmio Cristina Tavares na categoria Texto, concedido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Prêmio Jornalista Inaldo Sampaio</h3>



<p>A reportagem <a href="Haut: a ascensão e queda da construtora que prometia luxo e civilidade no Recife," target="_blank" rel="noreferrer noopener">Haut: a ascensão e queda da construtora que prometia luxo e civilidade no Recife,</a> escrita por Maria Carolina Santos, ficou em primeiro lugar na categoria Webjornalismo ou Jornalismo Impresso do Prêmio Jornalista Inaldo Sampaio, organizado pelo Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE).</p>



<h3 class="wp-block-heading">Prêmio Sebrae de Jornalismo</h3>



<p>A reportagem<a href="https://marcozero.org/tecendo-o-futuro-com-as-proprias-maos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Tecendo o futuro com as próprias mãos</a>, de Inês Campelo e Sérgio Miguel Buarque, conquistou o primeiro lugar na categoria Jornalismo em Texto na etapa estadual do Prêmio Sebrae de Jornalismo. Na mesma premiação, o repórter fotográfico Arnaldo Sete ficou em segundo lugar na categoria Fotojornalismo com imagens da reportagem “Gado com asas”: abelhas aumentam a renda dos sertanejos e ajudam a proteger a caatinga, e Inês Campelo obteve o terceiro lugar com a foto da reportagem Tecendo o futuro com as próprias mãos.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/abelha-5-flor-abre.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/abelha-5-flor-abre.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/abelha-5-flor-abre.jpg" alt="A imagem retrata uma cena da natureza, focando em uma abelha em voo se aproximando de um agrupamento de flores roxas em uma planta verde. O fundo está desfocado, destacando a nitidez da abelha e das flores." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Foto finalista do Prêmio Sebrae em 2025</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Parcerias estratégicas</h2>



<p>Ao longo do ano, mantivemos e ampliamos parcerias com organizações de mídia independente de diversas regiões do país, reafirmando uma prática que acompanha a Marco Zero desde sua fundação. Duas iniciativas merecem destaque. Durante a COP30, em Belém (PA), republicamos conteúdos produzidos por uma aliança de 21 veículos que integram a Casa do Jornalismo Socioambiental. Os leitores também puderam acessar conteúdos especiais dos sites parceiros Amazônia Vox e Amazônia Real.</p>



<p>Em novembro, publicamos doze entrevistas em parceria com o projeto de extensão Cartografias do Frevo, desenvolvido por professores e estudantes do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A iniciativa busca mapear a contemporaneidade do frevo a partir de entrevistas com mestres, músicos, passistas e artistas que reinventam o ritmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Presença ativa no ecossistema de mídia independente</h2>



<p>Em 2025, o trabalho da Marco Zero ganhou destaque em espaços centrais do jornalismo investigativo brasileiro. O especial <a href="https://marcozero.org/a-reinvencao-do-nordeste/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A reinvenção do Nordeste </a>&#8211; série de 11 reportagens produzidas em parceria com a Rede de Assistência Técnica e Extensão Rural de Agroecologia (Rede Ater NE), a partir de uma extensa apuração no sertão da Bahia, Ceará e Paraíba &#8211; foi um dos nove trabalhos selecionados, entre 135 inscritos de todo o país, para apresentação no 20º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. A série foi o único trabalho de um veículo nordestino entre os escolhidos e foi apresentada pela repórter Maria Carolina Santos.</p>



<p>A atuação da Marco Zero também se fortaleceu no campo da articulação institucional, da cooperação internacional e da defesa do jornalismo de interesse público. Inês Campelo e Sérgio Miguel Buarque participaram do evento Conexión Latam: O Impacto da Mídia Latino-Americana, voltado à troca de experiências e à construção de sinergias entre iniciativas jornalísticas da região. A repórter Jennifer Oliveira representou a Marco Zero no FALA! – Festival de Comunicação, Culturas e Jornalismo de Causas, realizado em Brasília, enquanto o editor Inácio França participou do <a href="https://rededeprotecao.org.br/4o-encontro-nacional/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">4º Encontro Nacional da Rede de Proteção de Jornalistas e Comunicadores</a>, em Salvador, espaço dedicado ao fortalecimento de estratégias de proteção a comunicadores em risco e à definição das diretrizes da Rede até 2026.</p>



<p>Mesmo diante de um ano marcado por restrições orçamentárias e escolhas difíceis, a Marco Zero não recuou de seus princípios editoriais nem do compromisso com o jornalismo de interesse público. Ao completar uma década de existência, seguimos convencidos de que produzir informação qualificada, crítica e independente a partir do Nordeste é não apenas necessário, mas urgente. A continuidade desse trabalho depende diretamente do apoio de quem nos lê: seja por meio de doações, que ajudam a sustentar a independência editorial, seja pelo compartilhamento do nosso conteúdo, que amplia o alcance das reportagens e fortalece o direito à informação. Entramos em 2026 com desafios evidentes, mas também com uma base sólida e a convicção de que o jornalismo que fazemos só se mantém vivo com a participação ativa da nossa comunidade de leitores.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</title>
		<link>https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Dec 2025 18:15:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
		<category><![CDATA[segurança alimentar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando a lei que amplia de 30% para 45% o percentual mínimo dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) destinados à compra direta de alimentos da agricultura familiar entrar em vigor, em 1º de janeiro de 2026, muitas cidades brasileiras terão de se desdobrar para cumprir a nova exigência. Valente (BA), porém, não [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando a <a href="https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/lei-amplia-compra-da-agricultura-familiar-para-o-pnae" target="_blank" rel="noreferrer noopener">lei</a> que amplia de 30% para 45% o percentual mínimo dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) destinados à compra direta de alimentos da agricultura familiar entrar em vigor, em 1º de janeiro de 2026, muitas cidades brasileiras terão de se desdobrar para cumprir a nova exigência. Valente (BA), porém, não deve enfrentar esse desafio. O município, localizado a 260 quilômetros de Salvador, já superou esse percentual em 2024 e tende a ampliar o desempenho em 2025, segundo dados ainda em consolidação. No ano passado, Valente recebeu R$ 943.668,00 do PNAE, dos quais R$ 454.493,83 foram destinados à compra de produtos da agricultura familiar &#8211; o equivalente a 48,16% do repasse anual.</p>



<p>Por trás desse investimento está um contexto que vai além do cumprimento da lei. Em Valente, assim como em outras partes do país, há sinais de redução no consumo de alimentos saudáveis e aumento da presença de produtos industrializados na dieta da população, além de mudanças nos canais de comercialização, com perda de espaço do autoconsumo e dos circuitos curtos. Diante desse cenário, fortalecer a merenda escolar como política pública de abastecimento local surge como uma das principais oportunidades para ampliar o acesso à comida de verdade e consolidar a segurança alimentar no município.</p>



<p>Outro fator decisivo para que o desempenho de Valente na alimentação escolar não seja fruto do acaso é o processo histórico de organização da agricultura familiar e de fortalecimento das políticas públicas locais. Ao longo das últimas décadas, agricultores e agricultoras se estruturaram em associações, cooperativas e grupos produtivos, muitos deles impulsionados por entidades da sociedade civil, o que garantiu diversidade, regularidade e capacidade de fornecimento ao mercado institucional. “Aqui, a política pública não funciona sozinha. Se não tivesse uma sociedade civil organizada, esses resultados não existiriam”, afirma a secretária municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer, Maura da Silva Miranda.</p>



<p>Além da base social e produtiva, o município investiu na qualificação da gestão da alimentação escolar, tratando a merenda como eixo estruturante da política de segurança alimentar. Valente ampliou a equipe de nutricionistas, incluiu a produção local no planejamento dos cardápios e estruturou um sistema próprio de armazenamento e distribuição, com câmara fria, carro refrigerado e controle rigoroso da entrega dos alimentos. “A gente precisava ter domínio sobre o que chega à escola, na quantidade certa, com qualidade e segurança alimentar”, explica Maura. Segundo ela, essa estrutura é decisiva para viabilizar a compra de produtos da agricultura familiar, especialmente alimentos <em>in natura</em>. “Quando você organiza a logística e garante armazenamento adequado, você reduz desperdício e dá segurança tanto para quem produz quanto para quem consome”, completa.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Localizado no Território do Sisal, no semiárido da Bahia, o <a href="https://cidades.ibge.gov.br/ranking-resumido/download.html?cod=2933000" target="_blank" rel="noopener">município de Valente</a> ocupa uma área de aproximadamente 395 km². Inserido no bioma Caatinga, o território é marcado por vegetação adaptada à escassez de água, como jurema-preta, licuri, caroá e cactáceas, fundamentais para o equilíbrio ambiental da região. O clima é quente e semiárido, com chuvas irregulares que variam entre 600 e 700 milímetros por ano e temperaturas que podem oscilar de 17 °C a 35 °C. Os solos, geralmente rasos, pedregosos e pobres em nutrientes, somados à presença de águas subterrâneas salobras, impõem desafios à produção agrícola e exigem práticas de manejo adequadas para evitar degradação e desertificação. Segundo o Censo de 2022, Valente tem 24.362 habitantes, com pouco mais de um terço da população vivendo na zona rural, mantendo modos de vida fortemente ligados à agricultura familiar e à convivência com o semiárido.</p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">A história que ajuda a explicar o presente</h2>



<p>Para entender como Valente desenvolveu uma sociedade civil tão forte, é preciso voltar um pouco no tempo e conhecer a história da comunidade rural de Papagaio. Distante 10 quilômetros da sede do município, Papagaio ocupa lugar estratégico na trajetória de organização social de Valente. Foi ali que, em 1972, a construção da Casa de Areia Branca se tornou um espaço de encontros, formações e articulação política promovidos pelo Movimento de Evangelização Rural (MER), contribuindo diretamente para o fortalecimento do movimento sindical e para a chamada “Tomada do Sindicato”, em 1975, quando agricultores assumiram o comando do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Décadas depois, Papagaio continuou a se destacar como território de inovação social e produtiva, com experiências como casas de farinha, grupos de beneficiamento de alimentos e iniciativas lideradas por mulheres que articulam economia solidária, agroecologia e políticas públicas como o PNAE.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Associacao-de-Mulheres-de-Papagaio-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Associacao-de-Mulheres-de-Papagaio-1024x684.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Associacao-de-Mulheres-de-Papagaio-1024x684.jpg" alt="Seis mulheres que fazem parte da Associação de Mulheres abores da Terra pousando para foto. Elas seguram pequenos potes com os produtos produzidos por elas. Na parede atrás delas a logomarca da associação pintada em tons terrosos." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">A Sabores da Terra mudou a realidade de mais de 30 famílias na comunidade de Papagaio, zona rural de Valente, BA.</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Atualmente, são dois grupos de beneficiamento de alimentos: o Sabores da Terra e o Delícias da Mandioca, ambos compostos por mulheres vinculadas à Associação Comunitária de Papagaio. O objetivo era aproveitar o excedente de frutas como umbu, acerola, tamarindo, manga e caju e, ao mesmo tempo, gerar trabalho e renda para as famílias. Hoje, os dois empreendimentos beneficiam diretamente doze mulheres e 30 famílias da comunidade.</p>



<p>Eliete Oliveira, presidente da Associação e também do Conselho de Segurança Alimentar de Valente, lembra que, em 2007, quando surgiu o Sabores da Terra com apoio da APAEB (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira), a situação das mulheres da comunidade era bem mais complicada. “As mães de família viviam com o Bolsa Família, passando necessidade, e não tinham condições de sair para trabalhar em outra comunidade porque não tinham transporte. Algumas mulheres não podiam sair porque os maridos não deixavam.” Hoje, elas vendem sua produção para a prefeitura de Valente, por meio do PNAE, para mercados locais e lojas em outras cidades.</p>



<p>Josielma Lima é uma dessas integrantes do grupo que teve sua vida transformada pelo projeto. Entrou em 2009, ainda adolescente. Hoje, com 32 anos, é mãe de três filhos e dedica parte do seu tempo à cozinha industrial montada na sede do Sabores da Terra, produzindo polpa de frutas congelada, sequilhos e uma diversidade de alimentos feitos com produtos da agricultura familiar. Além do reforço na renda familiar e do sentimento de empoderamento que compartilha com as outras mulheres do grupo, Josielma sente orgulho de ajudar a produzir alimentos de qualidade que seus filhos estão comendo na escola.</p>



<p>Ela conta que a filha mais velha, Laís, de 16 anos, já no ensino médio na Escola Wilson Lins, é tão fã da comida do Sabores da Terra que busca “informações privilegiadas” em casa. “Ela chega perguntando: ‘mãe, que dia vai ser aquele bolinho?’”, conta Josielma, referindo-se ao cupcake vendido para o PNAE e que se tornou o carro-chefe do cardápio entregue nas escolas do município.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Fundação APAEB e Rede ATER em Valente</span>

		<p>A Fundação APAEB (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira) e as organizações que integram a Rede ATER Nordeste têm desempenhado papel central na construção de políticas e estratégias voltadas à segurança alimentar e ao fortalecimento da agricultura familiar em Valente. No município, essa atuação se materializa por meio do projeto Cultivando Futuros – Transição agroecológica justa em sistemas alimentares do Semiárido brasileiro, que busca promover a agroecologia, fortalecer a soberania alimentar e ampliar a incidência das organizações da sociedade civil sobre as políticas públicas locais.</p>
<p>Executado em parceria com a AS-PTA e com apoio da organização alemã Brot für die Welt, o projeto integra uma rede de 12 organizações da Rede ATER Nordeste que atuam em 20 municípios do Semiárido. Em Valente, a iniciativa tem contribuído para criar espaços de diálogo entre agricultores familiares, poder público e sociedade civil, como oficinas temáticas, fóruns multiatores e a própria audiência pública sobre segurança alimentar e nutricional realizada no município.</p>
<p>A atuação da Fundação APAEB e da Rede ATER também se concentra na análise da efetividade das políticas públicas existentes, como o PNAE, o PAA, o acesso à água por meio de cisternas e mecanismos de proteção à renda, a exemplo do Garantia-Safra. O objetivo é identificar avanços, limites e oportunidades para ampliar o acesso a alimentos saudáveis, fortalecer os mercados institucionais e valorizar a produção agroecológica local.</p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading">Do quintal de casa para a escola</h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Renilton-de-Araujo-e-familia-300x200.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Renilton-de-Araujo-e-familia-1024x683.jpg" alt="Família de agricultores, pai, mãe, dois filhos e dois netos, pousa para foto em um curral de cabras. Eles estão embaixo de um árvore." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Reury Araújo, de 12 anos, com a família na propriedade em que criam cabras. Produção vai parar na sua alimentação escolar</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Quem também come na escola o que vê sendo produzido em casa é Reury Araújo, de 12 anos, estudante do Centro Educacional Santa Rita de Cássia. Ele adora o iogurte de leite de cabra. “Quando tem, eu caio matando. Não sobra nada. Se pudesse, repetia”, conta, com orgulho. “Eu sempre falo para os meus amigos que o leite é lá de casa.” Ele não pode garantir, já que outros produtores locais também fornecem o produto, mas imagina que pode estar tomando leite de seu próprio animal de estimação. “Eu tenho uma cabra que se chama Estrelinha.”</p>



<p>Mas, para essa garrafinha de iogurte chegar à escola de Reury e de seus colegas de classe, há muito trabalho e política pública envolvidos. Tudo começa na pequena propriedade que o pai dele, Renilton Araújo, divide com a família para criar pouco mais de 30 cabeças de cabra, de onde tira uma média de 60 litros de leite por dia.</p>



<p>Na propriedade de Renilton existe um resfriador de leite com capacidade para armazenar mil litros. O equipamento, instalado pela <a href="https://www.dacabra.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Associação Comunitária Caprinocultura Solidária – Laticínio DaCabra,</a> é compartilhado com o irmão, Ricael, e com outros seis produtores vizinhos que trabalham de forma cooperada. Dia sim, dia não, uma equipe do Laticínio DaCabra recolhe a produção e leva para o beneficiamento, onde o leite é pasteurizado e transformado em queijos, doces e, claro, no iogurte que Reury tanto gosta.</p>



<p>O Laticínio DaCabra, criado nos anos 2000 pela APAEB, tem transformado a vida dos pequenos produtores locais. Além de comprar o leite cru, promove capacitações sobre manejo adequado dos animais, oferece assistência técnica às famílias, disponibiliza atendimento veterinário aos rebanhos e facilita a compra de ração, reduzindo os custos com insumos. A associação também paga um valor acima do mercado: Renilton vende o litro por R$ 3,51, enquanto atravessadores costumam pagar cerca de R$ 2,00. “Se não fosse a cooperativa, o preço do litro estaria a uns R$ 0,50”, calcula.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-1024x684.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-1024x684.jpg" alt="Na imagem um homem jovem, de boné e camisa de botão, segura um deposito de leite de cabra que ele ordenhou. Do lado direito da imagem a cabra ainda no loca de ordenha." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Ricael vende o leite de cabra para produção de iogurte, queijos e doces</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A família de Reury também acessa outras políticas públicas voltadas ao pequeno agricultor. Recentemente, conseguiu liberar um financiamento do programa de Fomento às Atividades Produtivas Rurais, do governo da Bahia. São duas parcelas, de R$ 2.600,00 e R$ 2.000,00, sem necessidade de ressarcimento. Com esse recurso, os irmãos pretendem ampliar a sala de ordenha, murar e aumentar a área coberta onde as cabras circulam. Agora, aguardam apenas o dinheiro cair na conta.</p>



<p>Tanto Renilton quanto Ricael aprenderam a criar cabras com o pai, Salvador Araújo, e a mãe, dona Eleonice, que estão no ramo há mais de 20 anos. Seu Salvador lembra do tempo em que colocava o leite em uma moto e saía para vender a produção — antes da cooperativa. Eram tempos mais difíceis. Tanto que outros dois filhos do casal foram tentar a vida em São Paulo, onde permanecem até hoje, repetindo um caminho comum a muitos jovens da região.</p>



<p>Agora, com as coisas melhorando, Reury já sonha em seguir na agricultura familiar e se prepara para entrar na Escola Família Agrícola Avani de Lima Cunha (EFA Valente). Na escola, que funciona em regime de semi-internato, ele passaria 15 dias na instituição e 15 dias em casa. Sairia de lá como técnico agrícola, preparado para ampliar os negócios da família e, no futuro, quem sabe, produzir seu próprio iogurte.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ-1024x683.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ-1024x683.jpg" alt="Rebanho de cabras brancas em curral. Ao fundo uma plantação de agave. O céu etá nublado." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Leia também:</h2>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/" class="titulo">Um escudo contra as mudanças climáticas</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/articulacao-entre-ong-e-prefeitura-eliminou-ultraprocessados-da-merenda-escolar-em-cumaru/" class="titulo">Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-peleja-da-agricultura-familiar-contra-os-salgadinhos-e-sucos-de-caixinha/" class="titulo">A peleja da agricultura familiar contra os salgadinhos e sucos de caixinha</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		<p>O post <a href="https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/">Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Um escudo contra as mudanças climáticas</title>
		<link>https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Dec 2025 14:34:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quem chega a Pé de Serra pela BA-233, principal via de acesso à cidade, é logo impactado pela beleza natural do local. Da janela do carro, dois maciços de rocha se impõem à paisagem, não deixando dúvidas sobre a origem do nome do município baiano. Mas a paisagem extremamente árida também traz, de imediato, outra [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quem chega a Pé de Serra pela BA-233, principal via de acesso à cidade, é logo impactado pela beleza natural do local. Da janela do carro, dois maciços de rocha se impõem à paisagem, não deixando dúvidas sobre a origem do nome do município baiano. Mas a paisagem extremamente árida também traz, de imediato, outra constatação: o município do centro-norte da Bahia, a aproximadamente 220 quilômetros de Salvador, enfrenta uma grande seca. Tanto é assim que, em 9 de setembro, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil publicou uma portaria colocando o município em situação de emergência devido ao longo período de estiagem.</p>



<p>A situação é grave, principalmente para a população da zona rural. Segundo Jorge Irineu, diretor de Meio Ambiente do município, algumas comunidades estão sendo abastecidas com carros-pipa desde outubro de 2024, portanto, há mais de um ano. Na quarta-feira (17), quando conversou com a reportagem, Jorge afirmou que, das 28 aguadas (mananciais que abastecem a zona rural), apenas duas ainda tinham água.<br></p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><a href="https://cidades.ibge.gov.br/ranking-resumido/download.html?cod=2924058" target="_blank" rel="noopener">Pé de Serra</a> está localizado no Território de Identidade da Bacia do Jacuípe, no centro-norte da Bahia, fazendo divisa com os municípios de Riachão do Jacuípe, Ipirá, Capela do Alto Alegre e Nova Fátima. O município, com 13.243 habitantes, tem 596,7 km² de extensão territorial, situando-se integralmente no bioma Caatinga, característica que condiciona fortemente sua paisagem, uso do solo e formas de ocupação humana.</p>
        </div>
    </div>



<p>Os impactos da seca afetam principalmente as famílias de agricultores. E a situação poderia ser muito mais grave se não fossem uma série de ações e tecnologias de convivência com o semiárido implementadas com o apoio da sociedade civil organizada, muitas delas transformadas em políticas públicas. “Se não fossem essas políticas…”, suspira Jorge Irineu.</p>



<p>A família de Pascoal Pinto de Jesus, que tem uma pequena propriedade de dois hectares no povoado de Lagoa do Curral, uma das áreas mais afetadas pela estiagem no município, tem se desdobrado para manter a produção de caprinos com tão pouca água. Hoje, Pascoal e a esposa Maria de Lurdes, com quem está casado há 34 anos, criam 23 cabras e algumas galinhas. Já desistiu de plantar feijão e milho há, pelo menos, cinco anos. Cansou de perder a colheita. Para ele, a situação tem se agravado com o tempo. “Antigamente, a gente perdia uma colheita a cada dez. Hoje se perde dez para ganhar uma.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Pascoal-e-Maria-de-Lurdes-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Pascoal-e-Maria-de-Lurdes-1024x683.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Pascoal-e-Maria-de-Lurdes-1024x683.jpg" alt="Duas pessoas - uma mulher e um homem - estão em pé sobre um terreno seco e irregular, com sulcos profundos e pouca vegetação. O solo parece árido, com algumas árvores verdes ao fundo e o céu parcialmente nublado. Ambas estão vestidas de forma simples, apropriadas para clima quente, e uma delas segura um bastão de caminhada. A paisagem sugere uma área rural afetada por erosão ou seca." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Pascoal Pinto de Jesus e Maria de Lurdes, agricultores de Pé de Serra 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Pascoal adora criar bode. Segundo ele, “é dinheiro na mão”, já que tem mais clientes para comprar a carne do que ele pode oferecer. É a famosa lei da oferta e da procura. “Mas quando chega a seca, o produtor já perde. Tem que gastar mais para produzir menos. A criação não evolui. É, praticamente, manter o rebanho e esperar que um dia vai melhorar.”</p>



<p>Enquanto espera as coisas melhorarem, ele segue trabalhando com capricho. “Bode tem que ter cuidado, tem que ter zelo. Tem que limpar o local onde eles dormem, colocar água sanitária, cal, para evitar vermes.” Pascoal, que mora em uma casa a poucos quilômetros da propriedade, instalou internet e câmeras de segurança para vigiar o rebanho quando está longe.</p>



<p>Em meio a mais de um ano sem chuva, Pascoal vai sobrevivendo com seu esforço e também acessando políticas públicas e tecnologias de convivência com o semiárido. Há 12 anos, por exemplo, ele foi beneficiado com a construção de um barreiro para armazenar água em sua propriedade, por meio de um programa coordenado pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). O barreiro, com capacidade para 600 mil litros, quando cheio, garantiria água por dois anos. Mas não enche há quatro anos. Pascoal também recebe assistência técnica do Movimento de Organização Comunitária (MOC), por meio do programa Ater Biomas da Bahia.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">MOC e Rede ATER: políticas públicas que viraram resultados em Pé de Serra</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p>A presença continuada do Movimento de Organização Comunitária (MOC), articulado à Rede ATER Nordeste de Agroecologia, foi decisiva para transformar políticas públicas em resultados concretos no município de Pé de Serra, no Semiárido baiano. Desde os anos 2000, a assessoria técnica e o trabalho de organização social contribuíram para ampliar o acesso à água, com a implantação de centenas de cisternas para consumo humano e produção, reduzindo a vulnerabilidade das famílias rurais à seca e criando condições para a retomada da produção de alimentos.</p>
<p>Esse apoio técnico também impulsionou a diversificação produtiva e o fortalecimento da agricultura familiar, com estímulo a quintais produtivos, criação animal, manejo da palma forrageira e adoção de práticas agroecológicas. Ao mesmo tempo, agricultores e agricultoras passaram a acessar de forma mais consistente mercados institucionais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), além de feiras locais, garantindo renda e escoamento da produção. O fortalecimento de cooperativas, grupos produtivos e espaços de participação social consolidou a atuação do MOC e da Rede ATER como um dos principais pilares do desenvolvimento rural e da convivência com o Semiárido em Pé de Serra.</p>
	</div>



<p>Apesar do esforço de Pascoal, o terreno onde ele cria seus animais possui pouquíssima vegetação, sem praticamente nenhum vestígio de que ali já foi uma área coberta por caatinga. Antes de avançar na reportagem, é preciso entender o que aconteceu em Pé de Serra do ponto de vista econômico e social.</p>



<p>Por conta do solo raso, pedregoso e de fertilidade limitada, ao longo do tempo a população foi derrubando áreas de vegetação nativa para a formação de roçados, pastagens e atividades extrativistas, em um contexto de baixa disponibilidade hídrica e alta vulnerabilidade climática.</p>



<p>A conversão de áreas de caatinga em pastagens, devido à expansão da pecuária, ocorreu de forma contínua ao longo das últimas décadas, com o uso de máquinas agrícolas e a substituição de sistemas produtivos diversificados por áreas abertas permanentes.</p>



<p>Além da pecuária, o desmatamento também esteve historicamente ligado a atividades extrativas, como a produção de carvão vegetal e a exploração de madeira nativa, bem como à mineração de pedra presente no município. Essas atividades provocaram impactos diretos sobre a vegetação e o solo, frequentemente associadas à ausência de fiscalização ambiental adequada e a condições precárias de trabalho, ampliando os passivos socioambientais no território.</p>



<p>Outro fator relevante foi a introdução e expansão do sisal, que romperam com práticas tradicionais de manejo e favoreceram a simplificação dos agroecossistemas. A substituição da vegetação nativa por cultivos homogêneos reduziu a biodiversidade local e aumentou a exposição do solo à erosão, especialmente em anos de seca prolongada.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O exemplo de Dona Dadá</h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Maria-do-Carmo-e-familia-no-sitio-1024x683.jpg" alt="Quatro pessoas estão em pé em uma área de cultivo ao ar livre, sob um céu parcialmente nublado. São três adultos e uma criança, todos segurando chapéus de palha. Um dos adultos também segura um pequeno ramo de plantas verdes. A pessoa ao centro veste uma camiseta com os dizeres “Feira da Economia Solidária”, indicando participação em uma atividade comunitária ligada à agricultura sustentável. Ao fundo, há plantas cultivadas e uma estrutura com tela, possivelmente usada para proteção ou sombreamento." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Maria do Carmo de Carvalho Silva, dona Dadá, e sua família
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Em meio a uma paisagem seca e degradada, uma pequena área verde chama a atenção. Em aproximadamente cinco hectares, Maria do Carmo de Carvalho Silva, junto com sua família de agricultores, construiu uma espécie de oásis na zona rural de Pé de Serra. Pelo nome de batismo, pouca gente a conhece, mas, ao falar de Dona Dadá, todo mundo da redondeza sabe exatamente quem é. Aos 63 anos, Dadá mora na propriedade desde os anos 1980.</p>



<p>De lá para cá, conseguiu montar um sistema de produção bastante diversificado, com horta, criação de abelhas, vacas (20 cabeças), cabras (oito cabeças) e galinhas. A horta, orgulho de Dona Dadá, tem de tudo um pouco durante o ano inteiro. No período de chuva, ela planta uma roça com feijão, milho, batata-doce, maxixe, abóbora e mais o que consegue. Ainda tem a plantação de palma, que serve de alimento para o gado, e uma área de reserva, onde mantém a caatinga preservada.</p>



<p>Para manter tudo isso, além da assistência técnica do MOC, acessa vários programas e políticas públicas, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), participa da feira agroecológica todos os sábados e tem uma cisterna calçadão onde coleta e armazena água. Recentemente, comprou umas cabras com financiamento do Banco do Nordeste. “Depois que comecei no banco, agora eu nado na terra seca”.</p>



<p>Maria da Paz, filha mais velha de Dadá, segue os passos da mãe e do pai, Gervásio da Silva, na paixão pela agricultura. Para Maria, a grande dificuldade é a falta d’água. “Porque força de vontade, carinho e conhecimento a gente tem para plantar”, complementa. Segundo ela, apesar de a cisterna ser importante, não é suficiente para dar conta da demanda de água, principalmente em períodos de estiagem como os que a população de Pé de Serra tem enfrentado.</p>



<p>Para complementar a cisterna, eles têm comprado cerca de quatro caminhões-pipa de dez mil litros cada por mês. “Pagamos R$ 100 por caminhão porque somos clientes antigos. O preço normal é R$ 250.” Para cobrir os custos, ela faz um cálculo rápido. “Uma semana de trabalho na roça paga um mês de caminhão-pipa. As outras três semanas de trabalho são para tirar todo o resto.”</p>



<p>Mateus Jonnei, coordenador de projetos do MOC, explica que está havendo um desequilíbrio de chuvas dentro do próprio município. Já começou a chover em algumas partes e em outras não. “Antes não era assim”, relembra. Talvez Dona Dadá tenha a explicação para esse fenômeno recente. “Quando eu era criança, isso tudo aqui era mato. O homem veio e desmatou tudo. Depois de velha, ter que ver uma estiagem dessa.”</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Agrofloresta como projeto de vida</strong></h2>



<p>A pouco mais de 50 quilômetros de Pé de Serra, no distrito de Barreiras, no município vizinho de Riachão do Jacuípe, está um exemplo importante de como enfrentar as mudanças climáticas. Em uma pequena propriedade, Eduardo Emídio e sua esposa, Cristina Queiroz, transformaram a terra árida e degradada em uma vibrante e lucrativa agrofloresta. Uma história de relação com a terra que começou a ser construída há mais de duas décadas a partir de uma ruptura. No início dos anos 2000, ele e Cristina deixaram o emprego na cidade e retornaram à propriedade herdada da família, movidos pela ideia de preservar o pouco de caatinga que ainda existia na área. “No começo era pensamento, era ideia”, resume.</p>



<p>A ruptura não foi apenas do ponto de vista profissional. Era romper também com a maneira como o pai, o avô e os tios entendiam a relação com a terra. Era fazer tudo de outro jeito. “A diferença era que a gente vinha de uma cultura do desmatamento para produção de alimentos, para a criação de animais. E a gente passou a ver que, em toda seca, morria metade dos animais. Toda seca as famílias passavam fome e necessidade por conta de não ter segurança alimentar. Então a gente passou a entender que áreas que eram muito produtivas, com o tempo deixavam de ser. Foi aí que passamos a ter o entendimento de que a caatinga era importante para manter a fertilidade do solo e a produção.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Vista-aerea-do-terreno-de-Eduardo-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Vista-aerea-do-terreno-de-Eduardo-1024x576.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Vista-aerea-do-terreno-de-Eduardo-1024x576.jpg" alt="A imagem mostra uma vista aérea de uma propriedade rural cercada por vegetação densa. No centro, há uma casa com telhado de cerâmica vermelha e painéis solares instalados. Ao lado da casa, vê-se uma estrutura circular com cobertura vermelha, parecida com um quiosque, e uma espécie de trampolim ao redor. Há também um pequeno galpão com telhado de telha e um reservatório de água redondo. Uma estrada de terra passa na parte inferior da imagem, onde está estacionado um carro. A área ao redor combina vegetação nativa com partes cultivadas, delimitadas por cercas." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Eduardo Emídio recaatingou seu terreno e hoje lida de forma mais tranquila com a estiagem.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A decisão de viver da terra, no entanto, não foi imediata. Até 2005, Eduardo ainda conciliou o trabalho na indústria cerâmica com o manejo da propriedade. A virada veio com o acesso ao Pronaf, em 2005. Com um financiamento de R$ 8.500, eles investiram em um galpão para armazenar capim seco, uma máquina forrageira, o plantio de palma e a compra de caprinos e ovinos &#8211; escolhas consideradas “loucuras” à época. “Galpão era visto como casa para morar, não para guardar capim”, lembra. Do recurso ainda sobrou dinheiro para a compra de uma vaca, que acabou se tornando central na sustentabilidade financeira do projeto: ao longo dos anos, a venda de bezerros e do leite permitiu quitar integralmente o financiamento. Ao final, a vaca foi vendida para pagar a última prestação, e o restante da estrutura permaneceu.</p>



<p>A partir de 2010, o sistema produtivo já estava consolidado em bases agroflorestais e de sustentabilidade, atraindo visitas de entidades e organizações interessadas em conhecer a experiência. Foi também nesse período que surgiram conflitos. Eduardo relata perseguições políticas e tentativas de interferência no projeto, incluindo disputas envolvendo despejo de resíduos de esgoto e interesses ligados à indústria cerâmica. “A ameaça não era a gente, era o que a gente indicava: que dava para manter a caatinga de pé”, afirma. A disputa se estendeu por oito anos e só foi resolvida em 2018, quando a família obteve segurança jurídica para seguir com o trabalho.</p>



<p>Durante esse período, a relação com a comunidade também exigiu estratégias de diálogo. Eduardo conta que levou escolas e crianças para dentro da propriedade, apostando na educação ambiental como forma de reduzir resistências. “A criança voltava para casa contando o que viu: o peixe, a galinha, o cabrito, o passarinho. Isso ajudou os pais a entenderem que não éramos uma ameaça”, diz.</p>



<p>Hoje, a propriedade funciona com base na convivência com o semiárido. Não há poços artesianos nem rios permanentes, mas o sistema de captação de água da chuva garante abastecimento durante todo o ano. São quatro cisternas, dois barreiros subterrâneos, três barreiros convencionais e uma mandala produtiva. Mesmo após longos períodos de estiagem, Eduardo afirma não enfrentar falta de água nem perda de animais. “A gente não compra alimento, não perde animal e consegue manter a produção”.</p>



<p>A caatinga deixou de ser vista como obstáculo e passou a ser tratada como ativo produtivo. Em uma área de 24 hectares, quase 95% permanecem cobertos por vegetação nativa, com 40% de reserva legal. A propriedade abriga aproximadamente 40 bovinos, 90 caprinos, além de galinhas, peixes e abelhas. Segundo Eduardo, a recuperação ambiental atraiu a fauna silvestre: um levantamento recente identificou cerca de 130 espécies de animais vivendo na área. Em alguns pontos da propriedade, a temperatura chega a ficar 8 graus abaixo da média local.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Eduardo-Emidio-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Eduardo-Emidio-1024x683.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Eduardo-Emidio-1024x683.jpg" alt="Eduardo Emídio está em pé em uma área de mata verde, sob um céu azul claro. Ele veste uma camisa verde de mangas compridas com um emblema circular no peito e usa um chapéu de palha de aba larga. Ao redor, há capim alto e árvores finas com poucas folhas, indicando um ambiente natural, possivelmente reflorestado. A luz do sol é suave, sugerindo que a foto foi tirada pela manhã ou no fim da tarde." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Ao tirar o sustento da caatinga em pé, Eduardo chegou a ser visto como ameaça
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A diversificação produtiva levou à criação de uma queijaria certificada, hoje a única da Bahia a industrializar laticínios a partir de produtos da caatinga. A produção inclui queijos, iogurtes, manteigas e doces feitos com frutas nativas como umbu, mandacaru, palma, licuri e maracujá-do-mato (diferente daquele que geralmente encontramos nos supermercados). Parte significativa da renda vem desses produtos, vendidos principalmente na loja da própria propriedade e em feiras agroecológicas da região.</p>



<p>Além de Eduardo e Cristina, mais duas pessoas trabalham na propriedade. O filho do casal, Fábio Queiroz, de 22 anos, cada vez mais tem assumido os negócios da família. Eles também contam com a ajuda de um profissional que cuida do curral. Atualmente, são produzidos 200 litros de leite por dia, que são transformados integralmente em queijo e iogurte.</p>



<p>Eduardo destaca que a lógica do projeto sempre foi de longo prazo. Planejado em 2000 para ser concluído em 2020, o processo de “recatingamento” só terminou em 2021. Para ele, o diferencial não está em ensinar técnicas, mas em promover entendimento. “Não é aprendizado, é entendimento. Entender que armazenar água da chuva é melhor do que furar poço; que a caatinga é produtiva; que o sistema define o animal, e não o contrário.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Terrenos-de-Eduardo-e-Pascoal-300x83.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Terrenos-de-Eduardo-e-Pascoal-1024x284.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Terrenos-de-Eduardo-e-Pascoal-1024x284.jpg" alt="A imagem apresenta duas paisagens aéreas lado a lado, formando um contraste marcante. À esquerda, vê-se uma floresta densa e verde, com árvores variadas e vegetação abundante, transmitindo a ideia de um ecossistema saudável e preservado. À direita, o cenário é seco e árido, com pouca vegetação, um pequeno reservatório de água e uma estrada de terra sinuosa cortando o terreno. A diferença entre os dois lados evidencia os impactos da degradação ambiental, como desmatamento ou uso inadequado do solo, em oposição à conservação da natureza. Essa comparação visual destaca a importância da proteção dos ambientes naturais para manter o equilíbrio ecológico." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Duas propriedades, uma com agrofloresta preservada outra degradada. Mais de 8 graus de diferença na temperatura entre uma e outra.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Leia também:</h2>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/" class="titulo">Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/articulacao-entre-ong-e-prefeitura-eliminou-ultraprocessados-da-merenda-escolar-em-cumaru/" class="titulo">Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-peleja-da-agricultura-familiar-contra-os-salgadinhos-e-sucos-de-caixinha/" class="titulo">A peleja da agricultura familiar contra os salgadinhos e sucos de caixinha</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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			        </div>
	            </div>
        </div>

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			</item>
		<item>
		<title>“Tecendo o futuro com as próprias mãos”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Jun 2025 22:35:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[artesanato]]></category>
		<category><![CDATA[Casa de Maria]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento]]></category>
		<category><![CDATA[empreendedorismo]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
		<category><![CDATA[palha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O que tem em comum entre uma bolsa de palha de carnaúba trançada em Cabreiro de Cima, distrito de Aracati (CE), e uma bolsa de crochê produzida na Casa de Maria, em Jaboatão dos Guararapes (PE)? Além de belíssimas, as duas peças são exemplos de como o trabalho manual, aliado a uma boa dose de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O que tem em comum entre uma bolsa de palha de carnaúba trançada em Cabreiro de Cima, distrito de Aracati (CE), e uma bolsa de crochê produzida na Casa de Maria, em Jaboatão dos Guararapes (PE)? Além de belíssimas, as duas peças são exemplos de como o trabalho manual, aliado a uma boa dose de empreendedorismo, vem gerando renda e empoderando dezenas de mulheres brasileiras.</p>



<p>São duas realidades bem diferentes uma da outra, mas, ao serem mostradas e colocadas lado a lado, elas se somam e ajudam a pintar um quadro mais completo da potência transformadora do artesanato no Brasil. Estamos falando de Aracati e seu entorno e da Casa de Maria, mas poderia ser de qualquer outro lugar do país.</p>



<p>Vamos começar a história por Cabreiro de Cima, ou melhor, por Natália Sena Costa. Nat, como é mais conhecida, tem trinta anos e trabalha com palha há sete, incentivada pela tia Socorro Saboia, 62 anos, que, por sua vez, aprendeu o ofício com a mãe. Como muitas das meninas da região, começou fazendo descanso de panela e depois passou para bolsas e cestos que são peças mais elaboradas. Tudo feito com palha de carnaúba, palmeira-símbolo do Ceará e principal matéria-prima para o artesanato da região.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Nat, a sócia Vanessa e tia Socorro. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O que diferencia Nat da maioria das mulheres que fazem trabalho com palha é a visão empreendedora. Antes do artesanato, ela já era ativa no Instagram, com uma conta sobre autoaceitação de pessoas com deficiência. Aqui cabe uma explicação: Natália nasceu com uma malformação na coluna vertebral chamada de escoliose. Em 2018, ela levou a experiência digital para o artesanato e abriu uma loja virtual. “Pesquiso tudo no Instagram. Sou muito curiosa. Aprendi sobre tráfego pago e estou usando. As vendas cresceram muito.”</p>



<p>Nat é uma influenciadora do bem. Somando seu perfil pessoal (<a href="https://www.instagram.com/costa_natt/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">@costa_natt</a>) e o profissional (<a href="https://www.instagram.com/natartartesanato/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><a href="https://www.instagram.com/natartartesanato/#">natartartesanato</a></a>) já está batendo os 100 mil seguidores. Mas ela não ficou apenas no “virtual”. “Com a paixão pelo artesanato e a vontade de empreender, decidi reunir as mulheres artesãs da minha família e criar a empresa Nat Art Artesanato em novembro de 2018. Minha primeira venda em atacado foi no mês seguinte”.</p>



<p>Natália começou seu negócio muito mais na intuição. “Comecei sem plano nenhum e ao longo dos meses as vendas foram aumentando”. Mas ela viu que só intuição, talento e boa vontade não seriam suficientes. Foi aí que resolveu investir em formação profissional. Fez vários cursos, entre eles o Empretec, uma metodologia criada pela ONU, oferecida pelo Sebrae no Brasil, com o objetivo de desenvolver o comportamento empreendedor e identificar novas oportunidades de negócio. Deu certo. “Já vendi para todos os estados do Brasil”.</p>



<p>Tudo isso fez de Nat um exemplo. “Meu trabalho incentiva outras mulheres com deficiência. Mas ainda há preconceito: por ser do interior, por ser deficiente. Sempre me perguntam se tenho capacidade de entregar.”</p>



<p>Vanessa da Silva Barbosa, 18 anos, é parceira de Nat nas vendas e produção. Desde os 12, trabalha com customização de palha. As duas formam uma dupla inseparável. Vanessa vê no artesanato uma forma de garantir renda e manter os laços com sua história.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Laços de palha e amizade</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Retrato das tardes de trançar palha e bater papo na casa de Santinha. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Natália é o que se pode chamar de “caso de sucesso”. Mas, como ela, existem milhares de mulheres que são responsáveis pela região do baixo Jaguaribe ser reconhecida pela excelência do artesanato feito com palha de carnaúba, técnica passada de geração em geração, com beleza, saber e resistência.</p>



<p>Na comunidade de Tabuleiro do Luna, em Itaiçaba (CE), por exemplo, a força da tradição se entrelaça com os fios da amizade. Francisca da Silva dos Santos, 75 anos, é uma referência pela qualidade do seu trabalho, bom humor e espírito agregador. Junto com outras nove mulheres, Santinha, como é conhecida, forma um grupo que produz de maneira compartilhada: cada uma é especialista em um ponto ou etapa. “Somos amigas desde os anos 1970.” Estão no grupo Rita Araújo (81), Ocirema Rodrigues (60), Maria de Lurdes (65) e seu marido Aluísio de Lima (74, que costura as esteiras), e Maria do Carmo Araújo (57), filha de dona Rita.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><em>O litoral leste do Ceará e o Baixo Jaguaribe — que inclui municípios como Aracati, Itaiçaba, Palhano, entre outros — é marcado por paisagens de carnaubais, mangues e dunas, com comunidades rurais e pesqueiras espalhadas entre vilarejos e zonas urbanas. Nessas áreas, o artesanato com palha de carnaúba é uma prática tradicional, especialmente entre as mulheres, unindo saberes transmitidos por gerações ao uso sustentável dos recursos naturais, e representando uma importante fonte de identidade e renda para a população local.</em></p>
        </div>
    </div>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Santinha e as tranças de carnaúba. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
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<p>Santinha aprendeu a arte com a mãe e a avó. “As coisas que elas faziam eram mais simples&#8230; chapéus grosseiros. A inovação chegou e melhoramos o trabalho.” Ela nunca trabalhou em uma empresa. Construiu sua casa e criou os 12 filhos com a renda da palha. “Só um ainda trabalha com isso, cortando palha.” E lamenta: está cada vez mais difícil conseguir matéria-prima.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Da pintura ao banquinho de bode</strong></h2>



<p>Para que a bolsa, aquela que falamos no início da reportagem, faça sucesso no Instagram e nas lojas especializadas, existe antes uma cadeia de produção.</p>




	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Como a palha vira ouro</span>

		<p><strong>Matéria-prima:</strong></p>
<ul>
<li>Utiliza-se a folha da carnaúba, conhecida como “olho da carnaúba”.</li>
</ul>
<p><strong>Secagem:</strong></p>
<ul>
<li>A folha é colhida e passa por um processo de secagem ao sol que dura até 4 dias.</li>
</ul>
<p><strong>Riscagem:</strong></p>
<ul>
<li>Após a secagem, a artesã usa uma pequena faca para “riscar” o olho da carnaúba.</li>
<li>Nesse processo, separa-se o “lombo” da palha, parte que dá volume e estrutura à peça.</li>
</ul>
<p><strong>Armazenamento:</strong></p>
<ul>
<li>A palha é guardada em local arejado.</li>
</ul>
<p><strong>Preparação para uso:</strong></p>
<ul>
<li>Antes de ser trabalhada, a palha é umedecida com um pano para ficar mais maleável.</li>
</ul>
<p><strong>Confecção da peça:</strong></p>
<ul>
<li>A artesã inicia a criação usando pontos abertos e fechados.</li>
<li>Quando necessário, utiliza-se uma forma de madeira como molde para garantir o formato desejado.</li>
</ul>
	</div>



<p>Outro trabalho importante é a pintura das palhas. Em Itaiçaba, apenas três mulheres fazem esse trabalho de forma mais sistemática. Uma delas é Maria Lúcia Barbosa, 66 anos, que aprendeu a pintar palha observando a vizinha pela cerca no seu quintal. “O pacote de corante custa R$ 7 e pinta 75 olhos de palha. Preto e verde musgo são os que mais saem.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-6-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-6-1024x768.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-6-1024x768.jpg" alt="Maria Lúcia Barbosa artesã" class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Maria Lúcia tingiu a palha para que a reportagem conhecesse o processo. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Ela vende cada olho de palha pintado por R$ 3. O preço fica por R$ 2,50, se a palha for da cliente. Pinta cerca de 150 olhos por mês. “Trabalho quieta, mas firme. Tenho um casal de filhos.”</p>



<p>Já Iracema Maria de Lima, 51 anos, brinca dizendo que trabalha com palha desde “dentro da barriga da mãe”. Começou com camisa de litro, peça que veste as garrafas decorando-as, passou 15 anos em Petrópolis (RJ), mas voltou para casa. Hoje, faz roupas de palha e banquinhos em forma de bode e jumento. Peças únicas. Mora com a mãe, o marido e o filho de 14 anos. “É difícil fazer e nem sempre as pessoas dão valor.” Venceu três vezes o tradicional concurso de artesanato da festa da Pescaria da cidade, no Sete de Setembro.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Iracema e sua mãe, artesãs. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Esvaziamento de uma tradição</strong></h2>



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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Viveiro de camarão no distrito de Cabreiro de Cima, Aracati. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>A palha de carnaúba não é só matéria-prima. É símbolo de pertencimento e sobrevivência. Seu ciclo envolve cuidado com a natureza, técnica apurada e um olhar coletivo. É uma economia de afeto, saber e resistência, exatamente o oposto da carcinicultura, atividade econômica que se expande velozmente na região. Neste contexto, o aumento de áreas para criação de camarões tem provocado impactos negativos cada vez maiores na cadeia produtiva do artesanato local.</p>



<p>A principal preocupação, a mais visível e mensurável também, é a destruição de áreas naturais onde crescem as carnaubeiras, convertidas em fazendas de camarão. Como essas plantações exigem grandes extensões de terra e água, há uma redução nas áreas disponíveis para o cultivo e coleta da palha, essencial para a produção artesanal. Além disso, alterações ambientais provocadas pela atividade, como a poluição da água e perda de biodiversidade, também comprometem a qualidade da matéria-prima.</p>



<p>Outro efeito significativo da carcinicultura é a mudança na dinâmica econômica local. Com a promessa de empregos e lucros rápidos, a criação de camarões atrai investimentos e mão de obra que antes estavam ligados ao artesanato. Isso provoca um esvaziamento do setor artesanal, reduzindo a produção de peças em palha de carnaúba e enfraquecendo a cultura local. A longo prazo, esses impactos colocam em risco tanto o sustento de artesãos quanto a preservação desse saber tradicional.</p>



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	                                        <p class="m-0">Cerzina mostrando o trançado das bolsas de carnaúba. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Cerzina Ferreira da Silva, presidente da <a href="https://www.instagram.com/arti.itaicaba/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Associação das Mulheres Artesãs</a>, que já teve mais de 200 integrantes, hoje conta com apenas cerca de 60 participantes ativos, fala das dificuldades que se acumulam: a redução das áreas de carnaubeira, a perda de qualidade da água e o desinteresse da juventude.</p>



<p>“De janeiro até maio, junho, por conta das chuvas, as famílias artesãs sofrem muito. As palhas mofam e o valor cai”, explica Cerzina. “É mais fácil um jovem ser vigia de um viveiro de camarão do que ir trabalhar com artesanato.” Além dos desafios materiais, há um sistema de exclusão mais profundo. “O sistema que está por trás disso tudo não deixa a gente crescer”.</p>



<p>“Aqui era cheio de carnaubeira. No caminho para Aracati era tudo carnaúba. Agora é só viveiro de camarão. Esculhambou o rio, esculhambou as carnaúbas, esculhambou tudo”, resume Dona Raimunda Ferreira, mãe de Cerzina.</p>



<p>O ex-secretário de agricultura Raimundo Nonato, 56 anos, conhece de perto esse cenário. Ele pagou os estudos com a renda do artesanato feito com a mãe. Formado em contabilidade e administração, teme que o saber que moldou sua trajetória desapareça. “Daqui uns dez anos, tenho medo que o artesanato com palha de Itaiçaba se acabe.”</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>OURO FEMININO</strong></h2>



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	                                        <p class="m-0">Aula de macramê na Casa de Maria. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
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<p>Lembra a história de Santinha e suas amigas criando juntas peças de palha de carnaúba lá em Itaiçaba? Pois bem, em Pernambuco, mais especificamente em Jaboatão dos Guararapes, a lógica é a mesma. Aqui os nós do empreendedorismo já foram desatados, e, como nos pontos de macramê e de crochê, a <a href="https://www.instagram.com/projetocasademaria/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Casa de Maria</a> junta sempre o criar e empreender na mesma peça. A frase na entrada da sede do projeto resume o espírito do lugar: “Tecendo o futuro com as próprias mãos”.</p>



<p>Primeiro, é preciso entender o que é o projeto. A <a href="https://www.instagram.com/projetocasademaria/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Casa de Maria</a> nasceu, em 2017, a partir do compartilhamento de conhecimento de crochê entre as mães que aguardavam seus filhos atendidos pelo <a href="https://www.instagram.com/projetoariasocial/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ária Social</a>. A ideia foi reconhecida e abraçada por Cecília Brennand, presidenta do Ária, que de imediato promoveu a profissionalização de artesãs, gerando renda através do empreendedorismo social. O nome vem da junção do “M” de mãe com o “aria” do projeto inicial, resultando em Maria.</p>



<p>Atualmente são atendidas 140 mulheres, divididas em cinco oficinas: macramê, crochê, amigurumi, tecelagem de jornal e costura. E não é só isso. A busca pela excelência é constante, está presente em todas as etapas da formação e na produção das peças para as coleções que são comercializadas nas <a href="https://projetocasademaria.com/?fbclid=PAZXh0bgNhZW0CMTEAAafHNqTd2Ch3UlFQhQHqoDckcd3Rxjh0uAAjQ0B8Lt9u5Jksr47QKANbo2Ts-Q_aem_ks9GBHl6CTvHEQf6I3vqrg" target="_blank" rel="noreferrer noopener">lojas do projeto</a>. Já passaram pela Casa designers renomados como Sérgio Matos e Luly Vianna, criando coleções com várias técnicas.</p>



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	                                        <p class="m-0">Inês fazendo o protótipo de uma bolsa. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
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<p>Maria Inês Costa Silva, é uma das responsáveis pela produção de bolsas em material sintético na Casa de Maria. “Eu tenho a responsabilidade de criar ou de tirar do desenho as peças, a gente recebe visitas de designers, pessoas que criam peças em desenhos, e eu sou responsável por tirar esse desenho do papel”, explica.</p>



<p>Ela participa do projeto desde 2016, quando acompanhava uma prima. “Eu aprendi a fazer crochê e passei a ensinar o que eu aprendi. Depois, Sérgio Matos chegou e trouxe também uma outra técnica, que a gente batizou de Sérgio Matos, porque a gente não sabe exatamente o nome”.</p>



<p>Inês afirma, com convicção, que a entrada no projeto transformou sua vida. “Mudou muito. Antes eu trabalhava como operadora de telemarketing. Gosto de estar aqui por conta da variedade de coisas que a gente consegue fazer. Não fico presa apenas a uma coisa. O tempo todo chega gente com ideias novas, com produtos novos.”</p>



<p>Gilliane da Silva Torres Lins, que está no projeto há sete anos, desde que sua filha começou a fazer aulas de balé, violão e dança contemporânea. “Comecei na Casa de Maria fazendo os cursos. Já fiz de tecelagem. Depois, fiz de macramê. E, agora, faço parte da equipe de produção de macramê da Casa. Faço a bolsa Freda que é toda em macramê com fio sintético. É uma bolsa que leva uns quinze dias para ficar pronta”, diz orgulhosa.</p>



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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0"> Gilliane e a bolsa Freda. Na Casa de Maria o nome de todas as peças homenageiam mulheres. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Sempre tem novidade. “É muito bom o que acontece aqui, porque assim, além da gente aprender sempre uma coisa diferente, tem a socialização com as outras mães, a gente conversa bastante, aí uma vai ensinando pra outra, é um momento de descontração, de aprendizado, é um convívio muito bom”, complementa.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Tatiana mostra suas ferramentas de trabalho. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>A transformação é profunda e, na maioria das vezes, rápida. Se Gilliane está há sete anos, Tatiana Lúcia da Silva, por exemplo, entrou no ano passado. “Minha filha tem 10 anos, faz balé, teatro e toca flauta. E, eu aprendi crochê do zero. Nunca peguei em uma agulha e hoje faço vários modelos de Amigurumi. Faço as peças da Casa de Maria e ainda faço peças para vender na lojinha que eu tenho em casa. Depois que eu vim pra cá, tudo melhorou muito”, comemora.</p>



<p>A história de Jaísas Lima reflete o caminho que a maioria das mães podem percorrer dentro do Ária. Entrou como aluna e hoje é professora.“Minha vida mudou depois que eu entrei aqui. Passei a ser reconhecida. A gente aprende coisas novas todo dia. Conseguimos chegar onde a gente quer, no nosso objetivo. Sempre digo isso para minhas alunas: não quero ouvir a frase, eu não posso. Ah, eu não consigo. Quando a gente quer, a gente pode e a gente consegue”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-artesanal-na-Casa-de-Maria_-11-1024x683.jpg" alt="Mesa redonda de aula de crochê na Casa de Maria" class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O espírito de criação conjunta é registrado na aula de crochê de Jaísas. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<h6 class="wp-block-heading">A reportagem decidiu publicar foto de cada uma das mulheres que dedicou parte do seu dia contando um pouco da sua história.</h6>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/tecendo-o-futuro-com-as-proprias-maos/">“Tecendo o futuro com as próprias mãos”</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Potiguaras concluem limpeza do Rio do Aterro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Feb 2025 19:23:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agrofloresta]]></category>
		<category><![CDATA[Água Potiguaras]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foi na manhã de um sábado de janeiro que eu, Inês Campelo e, Sérgio Miguel Buarque, repórteres da Marco Zero, estivemos mais uma vez nas terras da aldeia Alto do Tambá, Baía da Traição, na Paraíba. Um retorno motivado pelo trabalho dos indígenas Potiguaras, que, há quatro anos, iniciaram a abertura do rio do Aterro [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Foi na manhã de um sábado de janeiro que eu, Inês Campelo e, Sérgio Miguel Buarque, repórteres da Marco Zero, estivemos mais uma vez nas terras da aldeia Alto do Tambá, Baía da Traição, na Paraíba. Um retorno motivado pelo trabalho dos indígenas Potiguaras, que, há quatro anos, iniciaram a abertura do rio do Aterro com as próprias mãos e a concluíram por esses dias de janeiro de 2025.</p>



<p>Se você, leitor, chegou aqui nesse texto e ainda não está entendendo ou não recorda muita coisa, os indígenas criaram o projeto Águas Potiguara, que tem como objetivo limpar os rios do território, discutir políticas para os povos indígenas e reconstruir a mata ciliar. O trabalho iniciou pelo rio do Aterro, afluente do rio Sinimbu, que corta as duas aldeias, Alto do Tambá e Forte. Pra quem quiser ler ou recordar aqui está nossa primeira reportagem <a href="https://marcozero.org/um-rio-aberto-com-as-proprias-maos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Um rio aberto com as próprias mãos</a>.</p>



<p>Começo a história já me explicando! Dessa vez, não conseguimos chegar pertinho da água. Meu zero preparo físico para uma trilha pesou. Além de uma longa descida em um caminho estreito, por dentro da mata, mas com bastante pedras e um calor excruciante, já deixou trêmula as pernas e dolorido os pés, que calçavam um chinelo inadequado para o local. Tendo como outra opção, pior, uma bota de borracha sete léguas, carregada por Sérgio. Não bastasse o desgaste pessoal, sobre o corpo, que já não é tão leve, carregava os equipamentos de imagem.</p>



<p>Ao meio do caminho, uma parada na cozinha improvisada para respirar cinco minutos do ar puro de uma reserva indígena. Era a hora de calçar “as belas” sete léguas para a travessia de um trecho de mais ou menos um quilômetro em um paul &#8211; que vem a ser um terreno semelhante a um pântano. A cada pisada afundava 20, 30, 40 centímetros e tremia igual uma vara verde com medo de afundar completamente e molhar todo equipamento. Um décimo do percurso e resolvi voltar. Por sorte carregava um drone.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Caminho pelo paul. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>O espírito de coletividade continua sendo o norte do Águas. Ficamos na cozinha improvisada, que nada mais é que um frondoso cajueiro, com uns poucos assentos em sua sombra, uma mesa, água gelada, frutas frescas, um empilhado de tijolos criando um fogão a lenha com um caldeirão de peixada fervendo e perfumando. Foi de lá que subi o drone para sobrevoar Jessé e sua filha, que estava pela primeira vez acompanhando o pai, até o ponto de trabalho do dia.</p>



<p>Integrante do Águas Potiguara desde o início e também um dos entrevistados na nossa primeira reportagem, Jessé Viana da Silva, conversou com a gente e contou um pouco sobre sua experiência.</p>



<p>“Foi um trabalho muito difícil. A verdade é essa! Mas também foi uma emoção muito grande quando conseguimos abrir quase cinco quilômetros do rio, então foi gratificante. E a tendência agora é a gente permanecer fazendo a manutenção, pois as raízes das aningas crescem muito rápido”. Além de trazer vida novamente ao rio, a comunidade resgata costumes ancestrais com uso social do rio. “Nos finais de semana sempre estamos lá. Passando o dia. Tomando banho. Brincando. E, hoje você já consegue até pegar alguns peixinhos”, comemora.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Crédito: Ju Potiguara/Águas Potiguara
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p></p>



<p>Para o futuro a ideia é de reflorestar as margens do rio. “Planejamos fazer uma agrofloresta. Plantar diversos tipos de árvores. Garantir a nossa agricultura familiar com a roça. Mantendo o rio com seu fluxo normal podemos aproveitar principalmente quando os pauis – sim, esse é o plural de paul &#8211; baixarem”, explicou Jessé.</p>



<p>Aproveitamos nossa volta e tiramos algumas dúvidas que nossos leitores e seguidores das redes sociais levantaram quando postamos a primeira matéria. </p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p>A pergunta mais feita foi: por que não usaram uma máquina? “A gente está todos os finais de semana no rio. Limpando, cortando. Até correndo perigo de ser mordido por alguns animais, especialmente cobras. Tentamos parceria com a secretaria do Meio Ambiente do Estado. Infelizmente nos prometeram uma máquina para o trecho mais estreito do rio do Aterro. Já que o Sinibu é muito largo. E para lá tem que ser uma dragagem de fato. Prometeram dar uma resposta. Até hoje a gente espera”, explica Jessé.</p>
<p>Outro questionamento constante foi sobre a identidade indígena do povo potiguara. Para Jessé o desrespeito começa pela maneira pejorativa a qual algumas pessoas se referem aos povos indígenas. “O termo correto é indígena. A gente tenta reeducar as pessoas. Outra coisa, por exemplo que nos questionam muito é por que índio tem celular? Índio tem relógio? Índio tem carro? Índio tem casa de tijolo? O indígena tem tudo isso. O indígena é um cidadão como qualquer outro e que chegou aqui bem antes dos invasores. O povo Potiguara foi guerreiro para poder resistir até hoje. Não é uma questão de aparência. É questão de sangue. De história”, ressalta.</p>
<p>Para não alongar, uma última pergunta: será que vocês estão ‘enxugando gelo’? “Não necessariamente. Porque em parte do rio o problema não é o assoreamento. O que fechou o rio na verdade foi a própria vegetação natural dele. A aninga cresceu de uma forma que ela atravessou totalmente o caminho do fluxo normal do rio”. O reflorestamento das margens será fundamental para manutenção do rio aberto. “Fizemos uma ação em busca de sementes nativas de sucupira, pau-ferro, maçaranduba para fazer mudas e sair plantando, distribuindo no nosso território já com essa mentalidade de proteger também aquelas margens”, concluiu.</p>
	</div>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>E assim terminamos a manhã do sábado, 25 de janeiro de 2025. Como ainda precisávamos percorrer outros pontos do rio, não ficamos para almoçar a peixada que é feita coletivamente pelas mulheres indígenas e saboreada após a manhã de ação que integra, valoriza, resgata e une o povo potiguara.</p>
</blockquote>
</blockquote>



<div class="wp-block-columns are-vertically-aligned-bottom is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex">
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</div>
</div></div>
</div>
</div>
</div>
</div>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><strong>Uma questão importante!</strong></p>



<p><em>Se você chegou até aqui, já deve saber que colocar em prática um projeto jornalístico ousado custa caro. Precisamos do apoio das nossas leitoras e leitores para realizar tudo que planejamos com um mínimo de tranquilidade. Doe para a Marco Zero. É muito fácil. Você pode acessar nossa </em><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>página de doaçã</strong></a><strong><a href="https://marcozero.org/assine/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o</a></strong><em> ou, se preferir, usar nosso</em><strong> PIX (CNPJ: 28.660.021/0001-52)</strong><em>.</em></p>



<p><strong>Apoie o jornalismo que está do seu lado</strong></p>
</blockquote>
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			</item>
		<item>
		<title>O ano da Marco Zero: equilíbrio entre audiência e qualidade editorial</title>
		<link>https://marcozero.org/o-ano-da-marco-zero-equilibrio-entre-audiencia-e-qualidade-editorial/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 Dec 2024 20:51:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo independente]]></category>
		<category><![CDATA[Retrospectiva 2024]]></category>
		<category><![CDATA[transparência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 2024, a Marco Zero teve um substancial aumento da audiência do site. Desde janeiro, foram mais de 1,1 milhão de usuários ativos. Esse número corresponde a um crescimento de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior. As visualizações, neste mesmo recorte, passaram de 1,6 milhão (mais 24%). Já a contagem de eventos [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 2024, a <strong>Marco Zero</strong> teve um substancial aumento da audiência do site. Desde janeiro, foram mais de 1,1 milhão de usuários ativos. Esse número corresponde a um crescimento de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior. As visualizações, neste mesmo recorte, passaram de 1,6 milhão (mais 24%). Já a <a href="https://support.google.com/analytics/answer/9322688?hl=pt-BR#zippy=%2Crelat%C3%B3rio-de-tempo-real%2Crelat%C3%B3rio-do-debugview">contagem de eventos</a> superou os 9,4 milhões (mais 53%). Estes números foram atingidos graças à estratégia criada para atrair mais leitores para o site e aumentar o engajamento nas redes sociais. Tudo isso com o objetivo de aumentar o impacto de nossos conteúdos e ter uma presença mais relevante no debate público, em um esforço para combater a desinformação.</p>



<p>Para isso, foram realizadas uma série de ações ao longo do ano. Um ponto de destaque foi, ainda em fevereiro, a colocação de um novo site no ar. O site foi redesenhado para, com um novo layout, ter uma navegação mais amigável e uma otimização dos mecanismos de busca (SEO). Também buscamos simplificar e aprimorar o processo de doação dos leitores.</p>



<p>Junto com o novo site, implementamos mudanças editoriais com a criação de quatro eixos de conteúdos: Direitos Humanos, Direito à Cidade, Socioambiental e Diversidade. Isso trouxe dois resultados diretos. Primeiro, essa atualização ajudou a organizar e agilizar os processos internos de definição de pautas e produção de conteúdos. Segundo, contribuiu para apresentar e categorizar com mais eficiência os conteúdos jornalísticos dentro do site, facilitando a navegação dos leitores e melhorando a indexação pelos mecanismos de busca.</p>



<p>Paralelo a isso, em 2024, também aumentamos nossa produção de conteúdo. Foram 456 reportagens colocadas no ar, nosso recorde. Chegamos agora a 3.383 conteúdos publicados nestes nove anos e meio de existência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<h3 class="wp-block-heading">As dez matérias mais acessadas de 2024:</h3>



<p>1) <a href="http://O doce pernambucano que nem os pernambucanos conhecem - Marco Zero Conteúdo">O doce pernambucano que nem os pernambucanos conhecem</a> – 121.876 visualizações</p>



<p>2) <a href="http://Muro Alto e Cupe: uma amostra da privatização das praias - Marco Zero Conteúdo">Muro Alto e Cupe: uma amostra da privatização das praias</a> – 107.168 visualizações</p>



<p>3) <a href="http://Seu Vital não tem zap, nem wifi, nem pix, mas o Poço da Panela gira em torno dele - Marco Zero Conteúdo">Seu Vital não tem zap, nem wifi, nem pix, mas o Poço da Panela gira em torno dele</a> – 84.104 visualizações</p>



<p>4) <a href="http://Código &quot;homossexual&quot; para seguranças do Shopping Tacaruna gera denúncia por homofobia - Marco Zero Conteúdo">Código &#8220;homossexual&#8221; para seguranças do Shopping Tacaruna gera denúncia por homofobia</a> – 43.282 visualizações</p>



<p>5) <a href="http://Com pressa e sem aviso, Prefeitura do Recife derruba casas e despeja idosa na Vila Esperança - Marco Zero Conteúdo">Com pressa e sem aviso, Prefeitura do Recife derruba casas e despeja idosa na Vila Esperança</a> – 42.415 visualizações</p>



<p>6) <a href="http://Conheça as mulheres cearenses que se uniram para reinventar o crochê - Marco Zero Conteúdo">Conheça as mulheres cearenses que se uniram para reinventar o crochê</a> – 40.223 visualizações</p>



<p>7) <a href="http://Mães reagem com críticas à postagem de João Campos sobre educação inclusiva - Marco Zero Conteúdo">Mães reagem com críticas à postagem de João Campos sobre educação inclusiva</a> – 39.505 visualizações</p>



<p>8)<a href="http://Convênio para monitorar surucucu está travado na CPRH - Marco Zero Conteúdo"> Convênio para monitorar surucucu está travado na CPRH</a> – 37.009 visualizações</p>



<p>9) <a href="http://Saiba quem é a condenada por estelionato gestora de cinco creches no Recife - Marco Zero Conteúdo">Saiba quem é a condenada por estelionato gestora de cinco creches no Recife </a>– 31.563 visualizações</p>



<p>10) <a href="http://Para &quot;requalificar o entorno&quot;, empresa espanhola corta 27 árvores na calçada do aeroporto - Marco Zero Conteúdo">Para &#8220;requalificar o entorno&#8221;, empresa espanhola corta 27 árvores na calçada do aeroporto</a> – 28.576 visualizações</p>
</blockquote>



<p>A lista de reportagens mais acessadas ilustra, de maneira geral, uma tendência que tem impactado positivamente a nossa audiência: ser indexada no <a href="http://O que é o Google Discover e como funciona - Canaltech">Google Discover</a>. O número de indexação cresceu bastante depois que colocamos o novo site no ar, mais eficiente do ponto de vista de SEO. São esses tipos de reportagens que aumentam o alcance, engajamento e atraem novos leitores.</p>



<p>Já do ponto de vista de impacto social e relevância, destaque para a série de reportagens <a href="https://marcozero.org/a-reinvencao-do-nordeste/">A reinvenção do Nordeste</a>, uma parceria com a Rede Ater Nordeste para mostrar como a sociedade civil se organizou para construir soluções de convivência com o clima e, ao mesmo tempo, gerar renda, produzir alimentos e conservar o meio ambiente. Foram publicadas nove reportagens no nosso site. Se a audiência não foi muito grande, a repercussão entre o público formador de opinião e/ou vinculado ao tema foi significativa.</p>



<p>Foram vários comentários e republicações. Destaque para a coluna do jornalista Xico Sá, <a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/xico-sa/a-reinvencao-do-nordeste-para-o-apocalipse-do-clima-1.3527088?utm_source=twitter">no Diário do Nordeste (CE)</a> e para o <a href="https://portal.ufrrj.br/reportagem-do-marco-zero-conteudo-destaca-estudo-da-ufrrj-sobre-comunidades-do-sertao-da-bahia/">site da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro</a> (UFRRJ). Essas reportagens dão credibilidade e consistência a Marco Zero.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>O desafio é encontrar um ponto de equilíbrio na publicação de reportagens menos relevantes/com mais audiência e matérias com grande relevância / com menos audiência.</p>
        </div>
    </div>



<p>Em uma outra parceria com a Rede Ater Nordeste, a Marco Zero voltou ao semiárido nordestino. Desta vez, nossas equipes de repórteres foram à Paraíba e ao Rio Grande Norte conhecer iniciativas postas em práticas por parcerias entre o poder público municipal e organizações sociais que estão melhorando as condições de vida na região. Às vésperas das eleições municipais de outubro, essas experiências eram exemplos de como prefeituras podem adotar projetos que nascem na esfera não governamental e ampliar tanto seus resultados quanto seu impacto na vida das pessoas. A parceria resultou em três reportagens:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><a href="https://marcozero.org/sementes-crioulas-como-as-prefeituras-podem-ajudar-os-agricultores-a-produzirem-alimentos-saudaveis/">Sementes crioulas: como as prefeituras podem ajudar os agricultores a produzirem alimentos saudáveis</a></li>



<li> <a href="https://marcozero.org/cirandas-da-borborema-o-que-prefeitos-podem-fazer-para-incentivar-jovens-a-permanecerem-no-campo/">Cirandas da Borborema: o que prefeitos podem fazer para incentivar jovens a permanecerem no campo</a></li>



<li> <a href="https://marcozero.org/hortas-e-cozinhas-comunitarias-mulheres-do-sertao-potiguar-buscam-a-independencia/">Hortas e cozinhas comunitárias: mulheres do sertão potiguar buscam a independência</a></li>
</ul>



<p></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/12/53603156257_431f09ece2_c-300x169.jpg">
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	                                        <p class="m-0">Dentro do eixo editorial Socioambiental, uma das novidades de 2024, foram produzidas 107 reportagens relacionadas a essa temática. Entre elas, Gilbués, o deserto vermelho e produtivo do Piauí, com o apoio do projeto Report For The World e da Fundação Henrich Böll. Crédito: Arnaldo Sete/ Marco Zero</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/ Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>História, jornalismo e tecnologia para revisitar o passado</strong></h2>



<p>Na reta final do ano, colocamos no ar o projeto <a href="https://marcozero.org/pecados-abaixo-do-equador-uma-nova-narrativa-sobre-os-24-anos-de-ocupacao-holandesa-no-brasil/">Pecados Abaixo do Equador: uma nova narrativa sobre a Ocupação Holandesa no Brasil</a>. O projeto foi realizado em parceria pela <strong>Marco Zero Conteúdo</strong>, pela plataforma Placecloud e pelo espaço de exposição holandês Nest, com apoio da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).</p>



<p>Mais do que recontar os 24 anos de ocupação holandesa no Brasil (1630-1654), tem como principal objetivo desconstruir mitos profundamente enraizados no imaginário pernambucano e brasileiro. Entre eles, o “mito do bom colonizador holandês”, que apresenta Maurício de Nassau como um governante humanista e visionário, ou a ideia romantizada da “união das três raças” para expulsar os holandeses na chamada Restauração Pernambucana, entre 1644 e 1654. A verdade é que Nassau, como qualquer outro colonizador, defendia interesses meramente econômicos, neste caso os da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, promovendo a exploração de riquezas, o tráfico de pessoas escravizadas e a violência estrutural comum a qualquer regime colonial.</p>



<p>Pecados Abaixo do Equador é uma iniciativa que une jornalismo, história e tecnologia para lançar luz sobre um capítulo muitas vezes suavizado ou romantizado pela historiografia. O projeto apresenta 100 histórias curtas, que podem ser acessadas tanto em texto quanto em áudio, disponíveis em português, inglês e holandês. Todo o conteúdo esta acessível no site oficial e na plataforma Placecloud, que utiliza as tecnologias de geolocalização e Google Street View. Isso significa que, ao estar fisicamente em locais específicos, o usuário poderá acessar os áudios diretamente em seu celular, ouvindo as histórias enquanto caminha por esses espaços.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Boas notícias que engajam</strong></h2>



<p>A<strong> Marco Zero</strong> aumentou sua presença nas redes, atingindo a meta de 65.000 seguidores no Instagram. O bom resultado advém em partes de conteúdos de jornalismo de solução. Isso mostra possíveis caminhos para fortalecer o crescimento nos próximos anos.<br><br>Também inauguramos a presença no LinkedIn, Threads e BlueSky. As novas redes têm números ainda incipientes, mas BlueSky aponta uma boa capacidade de crescimento orgânico.<br><br>O TikTok segue apresentando bons resultados, especialmente a partir de vídeos virais.<br><br>O Twitter, por outro lado, deixou de ser interessante para a organização, tanto pelos aspectos políticos com os quais a plataforma está envolvida, quanto pelo funcionamento prático, que agora significa ter conteúdo veiculado junto a conteúdos potencialmente antidemocráticos e fascistas.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Métricas de mídia social:</h3>



<p><strong>Instagram: </strong>Seguidores: 66.600 (+25%), Total de impressões: 4.980.581 (+34%), Alcance : 6.216.150 (+56%) <strong>Facebook</strong>: Curtidas na página: 20.825 (-0,5%), Alcance da página: 91.103 (-46%)<br><strong>TikTok</strong>: Seguidores: 4.836 (+136%), Visualizações de vídeo: 2.762.075 (+987%), Curtidas: 47.000 (+55,7%)<br><strong>Twitter</strong>: Seguidores: 20.5384 (-1%), Total de impressões: 672.472 (-44%)</p>



<p><strong><a href="https://www.instagram.com/p/DELfiT8SWIA/?igsh=OGtkNmQ5cDN0NTZ4&amp;img_index=1">Veja aqui as publicações do ano com mais alcance no Instagram</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sigam o dinheiro</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Em 2024 captamos, ao todo,<strong> R$ 1.115.786,94</strong>. Nossas receitas detalhadas:<br><br><strong>Oak </strong>&#8211; R$ 545.698,19<br><strong>IFPIM </strong>&#8211; R$ 325.086,90<br><strong>Stichting Nest Foundation</strong> &#8211; R$ 94.862,50<br><strong>AS-PTA</strong> &#8211; R$ 67.065<br><strong>Fundo Socioambiental Casa</strong> &#8211; R$ 45.000<br><strong>Report For the World</strong> &#8211; R$ 25.810,75<br><strong>Doações individuais </strong>&#8211; R$ 11.968,60</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Redação Nordeste</strong></h2>
</blockquote>



<p>Em 2024, realizamos a segunda parte do projeto “Jornalismo Independente no NE: desafios e soluções/Redação NE 2”. Este ano, decidimos centrar os workshops/mentorias voltados para a angariação de fundos, com ênfase em experiências específicas diretamente relacionadas com a atividade jornalística. Também priorizamos organizações que já participaram e se destacaram em sessões de mentoria anteriores (foram 16 em 2023), dando uma sensação de continuidade ao projeto e potencializando o conhecimento já adquirido.</p>



<p>Foram selecionadas as seguintes organizações, de cinco estados nordestinos:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Alagoas – <a href="http://midiacaete.com.br">Mídia Caeté</a> e <a href="http://Home - Olhos Jornalismo">Olhos Jornalismo</a> </li>



<li>Pernambuco – <a href="http://coletivoacaua.com.br">Coletivo Acauã</a></li>



<li>Sergipe – <a href="http://Mangue Jornalismo - Jornalismo independente em Sergipe">Mangue Jornalismo</a></li>



<li>Piauí &#8211; <a href="http://ocorrediario.com">O Corre Diário</a> </li>



<li>Bahia – <a href="http://conquistareporter.com.br">Conquista Repórter</a></li>
</ul>



<p>Ao todo, foram 12 horas de mentoria, divididas em 10 encontros e envolvendo seis organizações de mídia independente do Nordeste.</p>



<p>Com isso, todas as etapas de um edital de captação de recursos foram contempladas e mentoradas, colaborando para que as redações estejam ainda mais capacitadas a concorrer em novos editais. Além disso, as organizações participantes produziram e publicaram conteúdos jornalísticos de interesse público, contribuindo para aumentar a relevância e a audiência de seus sites.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Leia as reportagens do projeto:</h3>



<p>Cegos em Caruaru: uma cidade que não vê a acessibilidade</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/cegos-em-caruaru-uma-cidade-que-nao-ve-a-acessibilidade/" class="titulo">Cegos em Caruaru: uma cidade que não vê a acessibilidade</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/mobilidade/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Mobilidade</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Direito de ir e vir não é para todos em Aracaju</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/direito-de-ir-e-vir-nao-e-para-todos-em-aracaju/" class="titulo">Direito de ir e vir não é para todos em Aracaju</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/mobilidade/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Mobilidade</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Estradas precárias dificultam acesso da população quilombola a direitos básicos</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-conquista-rep-rter wp-block-embed-conquista-rep-rter"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="f7VuN0ei97"><a href="https://conquistareporter.com.br/acesso-negado/">Quando as políticas de mobilidade não chegam em áreas rurais e periféricas</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;Quando as políticas de mobilidade não chegam em áreas rurais e periféricas&#8221; &#8212; Conquista Repórter" src="https://conquistareporter.com.br/acesso-negado/embed/#?secret=F9v7WjGkgb#?secret=f7VuN0ei97" data-secret="f7VuN0ei97" width="500" height="282" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
</div></figure>



<p>Como mercado imobiliário, trade turístico e Braskem determinam as decisões sobre o território Maceió</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-olhos-jornalismo wp-block-embed-olhos-jornalismo"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="F7MWO49oOI"><a href="https://olhosjornalismo.com.br/como-mercado-imobiliario-trade-turistico-e-braskem-determinam-as-decisoes-sobre-o-territorio-maceio/">Como mercado imobiliário, trade turístico e Braskem determinam as decisões sobre o território Maceió</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;Como mercado imobiliário, trade turístico e Braskem determinam as decisões sobre o território Maceió&#8221; &#8212; Olhos Jornalismo" src="https://olhosjornalismo.com.br/como-mercado-imobiliario-trade-turistico-e-braskem-determinam-as-decisoes-sobre-o-territorio-maceio/embed/#?secret=BoBKcHnNaO#?secret=F7MWO49oOI" data-secret="F7MWO49oOI" width="500" height="282" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
</div></figure>



<p>723 Circular: 10 anos de crise no transporte coletivo de Teresina</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-ocorre-di-rio wp-block-embed-ocorre-di-rio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="SmmfSZOpl4"><a href="https://ocorrediario.org/723-circular-10-anos-de-crise-no-transporte-coletivo-de-teresina/">723 Circular: 10 anos de crise no transporte coletivo de Teresina</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;723 Circular: 10 anos de crise no transporte coletivo de Teresina&#8221; &#8212; Ocorre Diário" src="https://ocorrediario.org/723-circular-10-anos-de-crise-no-transporte-coletivo-de-teresina/embed/#?secret=OE9XxSOBLm#?secret=SmmfSZOpl4" data-secret="SmmfSZOpl4" width="500" height="282" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
</div></figure>



<p>Em 2024, a Marco Zero também apoiou tecnicamente e financeiramente o processo de formalização de três organizações: <a href="http://Eficientes - Eficientes">Eficientes</a>, <a href="http://Coletivo Sargento Perifa – União dos moradores da comunidade Córrego do Sargento">Sargento Perifa</a> e <a href="https://coletivoforcatururu.blogspot.com/">Coletivo Força Tururu</a>. Ainda apoiamos e financiamos a construção do site do <a href="https://coletivoacaua.com.br/">Coletivo Acauã</a>.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/o-ano-da-marco-zero-equilibrio-entre-audiencia-e-qualidade-editorial/">O ano da Marco Zero: equilíbrio entre audiência e qualidade editorial</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Em Cruz da Menina, o autorreconhecimento começa na primeira infância</title>
		<link>https://marcozero.org/em-cruz-da-menina-o-autorreconhecimento-comeca-na-primeira-infancia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Dec 2024 20:45:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[comunidades quilombolas]]></category>
		<category><![CDATA[Dona Inês]]></category>
		<category><![CDATA[Primeira Infância]]></category>
		<category><![CDATA[Programa Criança Feliz]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Toda quinta-feira, as irmãs Rebeca e Radassah têm um compromisso que aguardam com ansiedade a semana toda. É nesse dia que as duas meninas da comunidade quilombola de Cruz da Menina encontram Raquel Oliveira, visitadora do Programa Criança Feliz no município de Dona Inês (PB). Radassah e Rebeca, que têm um e dois anos respectivamente, [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/em-cruz-da-menina-o-autorreconhecimento-comeca-na-primeira-infancia/">Em Cruz da Menina, o autorreconhecimento começa na primeira infância</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Toda quinta-feira, as irmãs Rebeca e Radassah têm um compromisso que aguardam com ansiedade a semana toda. É nesse dia que as duas meninas da comunidade quilombola de Cruz da Menina encontram Raquel Oliveira, visitadora do Programa Criança Feliz no município de Dona Inês (PB). Radassah e Rebeca, que têm um e dois anos respectivamente, estão entre as 15 crianças da comunidade atendidas pelo programa do Governo Federal voltado para a primeira infância. “Elas mandam áudio perguntando se vou. Muitas vezes ficam esperando na janela. Quando eu chego, elas correm dizendo: ‘Kel chegou, Kel chegou’.”</p>



<p>Esse vínculo afetivo criado entre as meninas e a visitadora, construído ao longo de meses de contatos, é fundamental para o sucesso do programa. A alegria das meninas também vem do fato de que, durante os encontros que duram, em média, 40 minutos, mãe e filhas aprendem de forma lúdica, fazendo tudo parecer uma grande brincadeira. “A visitadora vem uma vez na semana acompanhar as meninas e traz várias atividades. Sempre utiliza coisas domésticas: tampinha de garrafa, pregadores de roupa&#8230; é um acompanhamento muito bom no desenvolvimento da coordenação motora da criança. Para mim, é um excelente trabalho”, define Eliete Pereira Frazão, mãe de Rebeca e Radassah.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><b>Criança Feliz</b> é um programa do governo federal, com ações realizadas pelos municípios de forma articulada com os serviços socioassistenciais, via Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e com as demais políticas públicas setoriais. Por meio de visitas domiciliares às famílias participantes do Cadastro Único, as equipes do Criança Feliz fazem o acompanhamento e dão orientações importantes para fortalecer os vínculos familiares e comunitários, além de estimular o desenvolvimento infantil.</p>
<p>Quem pode participar:</p>
<p>• Gestantes, crianças de até três anos e suas famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família;<br />
• Crianças de até seis anos beneficiárias do Benefício de Prestação Continuada e suas famílias;<br />
• Crianças de até seis anos afastadas do convívio familiar em razão da aplicação de medida de proteção prevista no art. 101 da Lei nº 8.609, de 13 de julho de 1990, e suas famílias.</p>
        </div>
    </div>



<p>O Criança Feliz, que funciona desde 2017 em Dona Inês, tem sido uma ferramenta importante para que a cidade apresente bons indicadores relacionados à primeira infância, culminando com o recebimento, em 2024, do<a href="https://www.selounicef.org.br/"> Selo Unicef</a>. Mas em Cruz da Menina, o programa vai além. Durante os encontros, enquanto repassam todo conteúdo comum, as visitadoras também buscam fortalecer os vínculos das crianças com a comunidade a partir de um trabalho de valorização da história local, desenvolvendo um sentimento de pertencimento com o lugar onde moram.</p>



<p>Para isso, as visitadoras recebem formação, direcionamento e capacitação específica para o atendimento à comunidade quilombola. “Elas são preparadas para respeitar, acima de qualquer coisa, a história da própria comunidade. O olhar precisa e deve ser diante da realidade do chão do território”, explica Maria Rejane da Silva Araújo, coordenadora do Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) do município.</p>



<p>A formação para os trabalhadores que atuam diretamente na comunidade está dentro do plano de ação da assistência social do município. Em 2024, duas visitadoras dividiram o atendimento em Cruz da Menina. Além de Raquel, que atende a três famílias semanalmente, Paula Clementina da Silva atende a outras seis.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Desenvolvimento mais rápido</strong></h2>



<p>Eliete tem outras duas filhas mais velhas, Rúbia (10 anos) e Raíssa (6 anos). Por conta da idade, elas não tiveram oportunidade de entrar no programa. “Quando eu fui lá no CRAS atualizar meu Cadastro Único me falaram sobre esse programa. Aí eu me cadastrei ainda grávida de Rebeca. Eu achei muito bom esse acompanhamento” lembra Eliete.</p>



<p>Assim, comparando as situações distintas vividas na criação das filhas, a mãe pôde perceber a vantagem do acompanhamento semanal feito pelo programa. “O desenvolvimento é mais rápido. Porque quando a pessoa é mãe, é uma correria, né? No dia a dia, você não tem muito tempo para fazer isso ou aquilo. E essa visita, uma vez na semana, ajuda bastante o desenvolvimento delas”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Eliete Pereira Frazão e suas filhas. Elas estão sendo acompanhadas pelo Programa Criança Feliz. Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><b>P</b><b>rimeira infância </b>é o período que abrange os primeiros seis anos completos ou 72 meses de vida da criança. São nos primeiros anos de vida que ocorrem o amadurecimento do cérebro, a aquisição dos movimentos, o desenvolvimento da capacidade de aprendizado, além da iniciação social e afetiva.</p>
        </div>
    </div>



<p>Já Rafaela Henrique dos Santos, que tem 32 anos e mora na comunidade desde que nasceu, entrou no programa apenas em 2024, antes de ter a primeira filha. Quando conversou com a reportagem, estava com nove meses de gestação, só esperando a hora de ir para a maternidade. “Eu conheci o Criança Feliz através da minha irmã, que tinha colocado a minha sobrinha no programa. Aí, quando eu descobri que estava grávida, quis entrar logo. A visitadora está me visitando até hoje. E vai me visitar por muito tempo”.</p>



<p>Ela conta que durante as visitas aprendeu muito sobre a gestação. Nos últimos meses também participou de palestras com a enfermeira, que orientou sobre os primeiros cuidados com o bebê. “E teve com a nutricionista, que falou da importância dos alimentos. De como se alimentar bem ajuda no bom crescimento do feto e na boa gestação como um todo”.</p>



<p>Atenta ao trabalho feito pelas visitadoras com as crianças da comunidade, Rafaela aponta outra questão importante do programa. “Às vezes, a mãe não percebe que o filho tem alguma deficiência. Mas as visitadoras percebem logo e já encaminham as crianças para serem acompanhadas por especialistas”.</p>



<p>Rafaela demonstrou estar muito satisfeita com o atendimento que ela, e também a sobrinha, vem recebendo do programa. Em tom de brincadeira, fez apenas uma reclamação: “São só três anos. Era para ser mais tempo&#8230;”</p>



<h2 class="wp-block-heading">“<strong>C</strong><strong>omo estou linda”</strong></h2>



<p>Quem entra na Escola Municipal Educador Paulo Freire, em Cruz da Menina, tem sua imagem refletida em um espelho fixado de frente para a entrada principal da instituição, que faz parte da rede de ensino municipal. Mais do que uma questão estética, o espelho foi colocado ali com o objetivo de despertar, por meio da aceitação da cor da pele e do cabelo, o sentimento de pertencimento e vínculo com a história de luta da comunidade.</p>



<p>“Uma das coisas que a gente trabalha muito forte aqui dentro da comunidade é a escola. Então, a gente pensou em colocar um espelho na entrada para que todas as vezes que as crianças chegassem, elas se vissem”, explica Bianca Quilombola, presidente da associação local. Bianca, que tem 41 anos, lembra que faz parte de uma geração que tinha dificuldade de se aceitar como negra e, muito por conta de sua história de vida, reconhece a importância do sentimento de pertencimento na conquista de direitos por parte da comunidade.</p>



<p>Por isso, ela fica feliz com a postura das crianças diante do espelho da escola. “Todas elas dizem: ‘como estou linda, estou bonita, sou linda’. Todas com cabelo solto, <em>black</em>, cabelo trançado, que muitas de nós não usávamos. Hoje nós podemos dizer que nossas crianças têm já esse sentimento de pertencimento, aceitação, esse sentimento que muitos dos nossos mais velhos não têm”.</p>



<p>Fernanda de Araújo Oliveira, no artigo <em>Bianca Cristina e o Quilombo Cruz da Menina: Trajetória e Resistência Comunitária em Dona Inês/PB (1994-2016)</em> observou que o autorreconhecimento é um processo difícil e doloroso, “pois envolve diretamente assumir uma identidade negra que foi posta historicamente na marginalização”.</p>



<p>Rafaela Santos, que além de participar do Criança Feliz ocupa a vice-presidência da associação de moradores, também teve um processo difícil de aceitação. “Eu sempre queria alisar o cabelo. Pagava caro e, no outro dia, caia. O cabelo não aguentava a química, aí eu desisti de fazer isso. Deixei meu cabelo natural, acho que faz mais de 10 anos que eu alisei meu cabelo pela última vez. E ele está natural e eu acho ele lindo assim, do jeito que ele é”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Rafaela Henrique dos Santos participa do Programa Criança Feliz, que acompanha gestantes e posteriormente criança até os três anos. Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Experiência parecida foi vivida por Bianca Quilombola. “Eu mesma vim me libertar da progressiva, que é a questão de alisar cabelo para agradar os outros, em 2017. Então, de 2017 para cá, eu não sei o que é colocar um alisante no cabelo, não sei o que é colocar uma escova a mais”.</p>



<p>Para Bianca, as coisas estão mudando para melhor. “Hoje, se você chegar na comunidade, você vai ver a diferença das crianças. Agora, as nossas crianças se aceitam como são. Você chega na casa, elas estão com o cabelo cacheadão, cabelo solto, esvoaçado”.</p>



<p>Rafaela lembra que a mudança também se materializa na forma das crianças se comportarem e se relacionarem. “Existiam algumas brincadeiras que hoje a gente não pode deixar existir mais. Na época, a gente não sabia, só que agora a gente tem o conhecimento. A gente sabe e repassa para as outras crianças que estão vindo, as criancinhas pequenininhas, para que elas não reproduzam e não sofram aqueles <em>bullying</em> que a gente sofria, mas não entendia”.</p>



<p>Um ponto de inflexão na forma como a comunidade passou a se aceitar e desenvolver um sentimento de pertencimento com o território onde vivem foi quando recebeu a certidão de autodefinição como comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, em de 12 de março de 2008.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>História de geração para geração</strong></h2>



<p>A comunidade de Cruz da Menina nasce de um processo territorial singular, que é contado de geração para geração, tendo muitas versões sobre os fatos que começaram a ocorrer em 1877. O curioso é que tem origem em um episódio de nítida violação de direitos da primeira infância, quando um fazendeiro poderoso negou água e comida para uma garotinha que fugia, com os pais, da grande seca que castigava a região. Conheça a história no vídeo abaixo:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe loading="lazy" title="CRUZ DA MENINA" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/h28UhHo4ADs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>O <b>município de Dona Inês </b>está localizado no brejo paraibano (a 153 km de João Pessoa), com uma população de 10.380 pessoas (Censo 2022). A comunidade quilombola de Cruz da Menina está na Zona Rural do município, a aproximadamente dois quilômetros do centro da cidade. Atualmente, 110 famílias moram no território quilombola.</p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Infância antes e hoje</strong></h2>



<p>As mudanças que acontecem em Cruz da Menina também têm impactado positivamente na primeira infância. Na comunidade, todas as crianças com idade escolar frequentam as aulas e estão com a carteira de vacinação em dia. “Você vê muita diferença. A minha infância foi cuidar das minhas irmãs. Aos quatro anos, minha mãe saía para trabalhar na roça e me deixava em casa cuidando das minhas outras duas irmãs. A gente tinha aquela obrigação de ter que pegar lenha, pegar água. A gente não teve infância livre, porque a gente tinha que, de alguma forma, ajudar”, compara Bicanca Quilombola.</p>



<p>Mas a melhora da qualidade de vida também se torna visível nas questões materiais. “Minha mãe, minha avó, minha bisavó, lá atrás, não tinham uma casa decente. Eram casas cobertas só com palha e só o chão batido. O fogo era a lenha e não existia luz elétrica. Luz elétrica aqui foi só a partir dos anos 1990”, lembra Bianca.</p>



<p>Para ela, hoje a vida das pessoas da comunidade melhorou bastante, o que se reflete diretamente no desenvolvimento das crianças pequenas. A gente tem luz, bujão de gás, geladeira, ventilador, micro-ondas. A gente tem internet e uma escola dentro da comunidade. A gente tem a casa decente, as famílias, todas elas têm suas casas de alvenaria, cobertinha de telha, tem seu banheiro decente. E isso, para nós, é muita evolução, comparado com o que nós não tínhamos lá atrás”.</p>



<p>Claro que a comunidade ainda enfrenta muitos problemas, parte deles na área da saúde e que afetam diretamente a primeira infância. “Nós até temos posto de saúde, porém, não dentro do território. Fica um pouquinho distante e não atende só Cruz da Menina. A gente recebe atendimento, mas um atendimento junto com outros setores. Não é um posto de saúde direcionado para o quilombo”, lamenta Bianca.</p>



<p>Segundo ela, o ideal seria ter um acompanhamento direcionado para as famílias quilombolas. “Porque a gente tem problemas específicos. Temos, por exemplo, muita questão de hipertensão dentro da comunidade. Para a gente ter um atendimento, a gente tem que sair entre 3h e 4h da manhã para pegar uma ficha. Aí, se não pegar, vai ter que ir outro dia”.</p>



<p>Mesmo assim, as mudanças conquistadas fazem Rafaela pensar em um futuro muito melhor para a filha. “Vai ser diferente, né? Porque a realidade é totalmente diferente de quando eu nasci. Vou tentar passar um pouco para ela do que a minha mãe ensinou. Mostrar para ela o que é certo e o que é errado”.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><em>Este conteúdo faz parte de uma parceria da Alma Preta com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.</em></p>
    </div>
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		<title>&#8220;Gado com asas&#8221;: abelhas aumentam a renda dos sertanejos e ajudam a proteger a caatinga</title>
		<link>https://marcozero.org/gado-com-asas-abelhas-aumentam-a-renda-dos-sertanejos-e-ajudam-a-proteger-a-caatinga/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Jul 2024 18:51:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[apicultura]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Semiárido]]></category>
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<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:16% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="341" height="341" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/06/selo-2-1.png" alt="" class="wp-image-63500 size-full"/></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>“Abelha é sinônimo de ganho maior e proteção do meio ambiente”. O autor dessa definição é um rapaz de 25 anos que passa boa parte do seu tempo convivendo com vizinhos e vizinhas bem mais velhos que ele nas atividades da associação de pequenos produtores, pessoas na casa dos 70 anos que enfrentaram tanto as grandes secas da segunda metade do século passado, quanto a prosperidade trazida pelas cisternas e pelos programas governamentais a partir dos anos 2000.</p>
</div></div>



<p>Na infância, Jair Cardoso de Matos pensava que seu destino seria viver da criação de caprinos, o trabalho mais comum entre os homens de Uauá, um município baiano de pouco menos de 25 mil habitantes, a 425 quilômetros de Salvador. Na convivência com os idosos, não demorou para ele perceber que os bodes e cabras tinham se tornado um “negócio sem futuro” para os sertanejos.</p>



<p>A explicação para a pouca viabilidade econômica da caprinocultura está na própria caprinocultura. Jair sabe explicar melhor: “A caatinga está degradada por causa do sobrepastoreio, são tantos bodes e cabras comendo que eles tem de andar mais para encontrar o que comer, aí demoram a pegar peso. Por isso, os criadores têm de vender os bichos ainda magros, aí vendem barato”.</p>



<p>Essa é um dos motivos que levou o rapaz a criar abelhas. Mas não qualquer abelha.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/abelha-8-Jair.jpg" alt="Foto de Jair Cardoso de Matos. Jovem negro, de fartos cabelos encaracolados. Na foto, ele está sorrindo, com a mão esquerda tocando seus cabelos e usando uma camisa ou blusão azul escuro." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Jair desistiu de criar bodes e optou pelas abelhas sem ferrão
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Ainda estou começando, mas optei pelas abelhas sem ferrão nativas da caatinga, as meloponíferas”.</p>



<p>Essa escolha ajuda a entender o segundo motivo de Jair para abraçar a apicultura: a luta pela preservação da caatinga, bioma que tem 13% de sua extensão ameaçado pela desertificação. Além de contribuir para reduzir o risco de extinção de espécies de abelhas ameaçadas, a presença desses insetos na caatinga multiplica a velocidade de polinização da vegetação.</p>



<p>“Para ganhar dinheiro com a apicultura não é preciso desmatar. Pelo contrário, quanto mais caatinga, melhor. É o contrário da pecuária”, explica Jair Matos, que pretende fazer faculdade de Agroecologia ou Educação no Campo enquanto ganha a vida com as abelhas.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>As abelhas meloponíferas são aquelas que perderam o ferrão ao longo do processo evolutivo. Ao contrário das abelhas com ferrão, as melíferas, que se dividem em apenas oito espécies de um único gênero (Apis), as meloponíferas possuem dezenas de gêneros e pouco mais de 250 espécies somente no Brasil. No semiárido, as mais comuns são a mandaçaia (<em>Melipona mandacaia</em>), a jandaíra (<em>Melipona subnitida</em>), a jataí (<em>Tetragonisca angustula</em>) a moça-branca (<em>Frieseomelitta doederleini</em>) e a mosquito (<em>Plebeia flavocincta</em>).</p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Mel caro e delicado</h2>



<p>Quando o apiário de Jair estiver produzindo normalmente, o que deve acontecer ainda este ano, cada enxame poderá produzir até dois litros de mel a cada florada. Parece pouco, mas cada litro de mel de jandaíra ou manassaia pode custar de R$ 120 a R$ 200, mesmo quando comprado diretamente ao produtor. No mercado, o preço é bem mais alto, podendo chegar a R$ 600.</p>



<p>A maior parte da produção é escoada com apoio da Coopercuc, a sigla pela qual os agricultores da região chamam a Cooperativa da Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá.</p>



<p>Mais experiente, o técnico agrícola Tamilo de Souza Costa, de 34 anos, vende o mel de mandassaia que produz junto com seu pai, Nestor Rodrigues Costa, de 66, no quintal do sítio da família no Frade, povoado de Curaçá, município vizinho a Uauá. Uma garrafinha de 50 ml custa R$ 10 – nessa região da Bahia, os apicultores costumam usar litro para medir volume do mel e não o quilo, medida mais comum em outras regiões do Nordeste, como se verá mais adiante nesta reportagem.</p>



<p>Integrante da equipe de assistência técnica do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada, o IRPAA, organização não governamental criada em 1990, Tamilo acredita que a valorização se explica tanto pela raridade das abelhas sem ferrão, quanto pela imagem positiva do produto. Além de ser usado como antibiótico e antiinflamatório natural, o mel das meloponíferas ganhou fama como ingrediente da alta gastronomia internacional, principalmente depois que o midiático <a href="http://domrestaurante.com.br/pt-br/sabor.html">chef Alex Atala, proprietário do DOM</a>, um dos restaurantes mais caros do Brasil, passou a divulgar que costuma usar em suas receitas.</p>



<p>As colmeias usadas pelos apicultores para abrigar os enxames das meloponíferas são bem menores das colmeias das abelhas africanizadas. Pouco maiores do que uma caixa de sapato, parecem mais uma casa de bonecas e dão ideia de como as abelhas nativas são mais simples de criar do que suas agressivas primas com ferrão. “Não precisa deixar as caixas longe, no meio da mata. A gente só fez uma coberta no quintal para proteger as colmeias, então, quando precisa ir fazer o manejo elas estão aqui pertinho, não precisa nem colocar os trajes de segurança para tirar o mel”, explica Tamilo. Seu apiário está a menos de 50 metros da casa onde vivem seus pais, Nestor e Tereza.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/abelha-7-mandassaia.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/abelha-7-mandassaia.jpg" alt="A imagem mostra um close das mãos de uma pessoa trabalhando em uma colmeia de abelhas. A pessoa está vestindo uma camisa amarela e calças jeans, e está usando uma ferramenta para interagir com os quadros da colmeia. Os quadros da colmeia são visíveis, com inúmeras abelhas rastejando sobre eles. Algumas abelhas estão voando próximas à colmeia. O fundo está desfocado, mas sugere um ambiente natural ao ar livre com vegetação." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">O manejo das manassaias não requer maiores cuidados nem trajes de proteção
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>De vez em quando, Tamilo e seu Nestor vistoriam caixa por caixa para afugentar as abelhas africanizadas, invasoras que tentam retirar própolis alheio para revestir suas próprias colmeias.</p>



<p>Se criar as abelhas sem ferrão é mais fácil, deixar o mel em condições de comercialização é mais complicado. “Assim que a gente retira da colmeia, o mel da mandassaia é muito ácido. É preciso deixar ele descansando um tempo para apurar e ficar no ponto ideal”, detalha o técnico do IRPAA. Aí é que está mais um detalhe que encarece ainda mais o produto: são necessários seis meses apurando para o mel ficar pronto para o consumo. Seu Nestor explica que o transporte desse tipo de mel também requer atenção, pois, às vezes, se maturação ainda não chegou ao final, há acúmulo de gases nas garrafas, o que pode provocar derramamento.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Venda garantida no oeste baiano</h2>



<p>Anselmo Ferreira de Sousa tem 29 anos, mora na comunidade tradicional de Paixão dos Bois, em Campo Alegre de Lourdes (BA), e é um dos coordenadores do grupo de agricultoras e agricultores que assinaram contrato para fornecer alimentos ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). No seu quintal, planta macaxeira, abóbora, limão e hortaliças, variando o tipo de cultura de acordo com a época. Mas um grande diferencial para aumentar a renda da família é o mel. Ao todo, ele tem trinta colmeias. “Em um ano bom chego a produzir mais de mil quilos de mel”.</p>



<p>Desde que começou a vender para o PNAE, Anselmo viu a lucratividade do seu negócio aumentar bastante. No programa, ele consegue entregar seu produto com um preço justo, compatível com o de mercado. “Esse ano a prefeitura colocou na chamada pública a proposta de compra de dois mil quilos de mel em sachê ao preço de R$ 53,56 o quilo. Só pra vocês terem uma ideia, eu tenho registros aqui de pessoas que venderam parte da sua produção para atravessadores a R$ 8,00, R$ 9,00 o quilo”, explica Francisco José da Silva, conhecido por todos com Franzé, que é assessor técnico do<a href="http://sasop.org.br/">Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP)</a>.</p>



<p>Anselmo e os demais apicultores que entregam mel ao PNAE beneficiam o produto na Cooperativa de Apicultores de Campo Alegre de Lourdes (Coapical). Para colocar no sachê, que é uma exigência da chamada pública, eles pagam atualmente R$ 11 por quilo à cooperativa. Mesmo com o custo do beneficiamento, o agricultor consegue um preço até cinco vezes maior do que o que receberia do atravessador. Ou seja, um excelente negócio.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/abelha-9-anselmo.jpg" alt="Foto de Anselmo Ferreira de Sousa. Ele é um homem negro, de pele clara, cabelos curtos, bigode e cavanhaque ralos, com um chapéu de couro sobre a cabeça e usando uma camiseta branca com estampa simulando uma xilogravura colorida. Ele está sorrinfo e olhando para a câmera, em frente a barracas de feira cobertas por lona verde." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Anselmo viu lucros aumentarem com venda de mel
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Talvez por isso, a apicultura esteja crescendo tanto em Campo Alegre e até atraindo jovens para o negócio. Um exemplo é Manoel José dos Santos Passos. Ele tem 20 anos e desde o ano passado começou a criar abelhas. “Eu comecei faz pouco tempo. Quem tinha a experiência era o pai e meu irmão. Comecei a estudar na escola de Sobradinho (BA), a fazer curso técnico, e fui ganhando experiência. Comecei a produzir mais esse ano”. Manoel tem quatro colmeias e, mais outras nove que mantém em parceria com um tio, vende 31 quilos anualmente para o PNAE.</p>



<p>O irmão do meio de Manuel, Hércules Pereira dos Passos, também cria abelhas. Atualmente ele tem 13 colmeias e produziu cerca de 80 quilos no ano de 2023. A exemplo do irmão caçula, entrega 31 quilos ao PNAE. Somando com as dos pais, a família tem 45 colmeias que produziu mais de 120 quilos em 2023. Juntos, entregarão 93 quilos ao PNAE garantindo uma renda de quase R$ 5 mil. Uma renda que, somada a conseguida com a comercialização dos outros produtos, contribui para que Manoel e Hércules permanecessem em Campo Alegre, não seguindo o caminho do irmão mais velho que deixou a cidade natal para tentar a vida em São Paulo.</p>



<p>Segundo a publicação de 2019 do Projeto Bahia Produtiva, do governo do estado da Bahia, mencionada por Denis Monteiro em sua tese doutorado <em>Gente é pra brilhar:</em> <em>Interpretação do desenvolvimento de comunidades camponesas do Sertão do São Francisco</em>, o estado é o terceiro maior produtor de mel do Brasil e o primeiro do Nordeste. Informou também que Campo Alegre de Lourdes é o município com maior número de apicultores da Bahia (3 mil), com uma produção que chega a 600 toneladas por ano, e que a Coapical tem 408 cooperados e comercializou 54 toneladas de mel na safra 2017/2018. A Coapical, portanto, comercializou neste período cerca de 9% do mel produzido no município.</p>



<p></p>





<h2 class="wp-block-heading">As &#8220;africanizadas&#8221; de Nova Russas</h2>



<p>Em Novas Russas, no Ceará, a centenas de quilômetros do sertão do São Francisco, o papel das abelhas na vida econômica dos agricultores cearenses é bem parecida. Há nove anos, Francisco Neurimar Marques morava no Rio de Janeiro. Assim como tantos moradores de Irapuá, comunidade de Nova Russas, no sertão do Ceará, havia migrado em busca de trabalho. Foram sete anos no Rio de Janeiro, mas já sentia que era hora de voltar. Mas como se manter no sertão? Umas conversas em Irapuá, pouco antes de ele ir para o Rio, ficavam martelando na cabeça dele. “Tinha um apicultor que passava vendendo mel. Ele falava da criação de abelhas e aí o pessoal daqui foi se interessando. Fiquei com vontade de criar abelhas também, mas acabei indo para o Rio”, lembra.</p>



<p>Quando voltou para o sertão, em 2015, decidiu que iria tentar ser apicultor. Hoje tem 102 colmeias de abelhas italianas africanizadas. Cada colmeia produtiva rende uma média de 20 quilos de mel por ano, que é vendido entre R$ 9,50 a R$ 15, o quilo. Ainda que o valor não seja tão bom quanto o que os apicultores que vendem para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) conseguem, Neurimar diz que tem dado certo para ele porque a compra de todo o mel que ele produz é garantida.</p>



<p>A produção dos apicultores de Irapuá é vendida pela Associação dos Produtores na Agricultura Familiar de Irapuá para empresas que exportam o produto. “A empresa que paga mais compra tudo. Vem no galpão da associação e pega o mel, o que facilita bastante pra gente, que não tem nenhum trabalho nem custo com envasamento, transporte, embalagem”, detalha Neurimar. “Conciliando com outros serviços, com outras atividades, a gente vai conseguindo viver no sertão”, completa.</p>



<p>A associação de Irapuá conta com uma pequena fábrica de beneficiamento do mel, que foi doada por meio do Projeto Dom Hélder Câmara, da ong Esplar. Com as máquinas da associação, os apicultores podem tirar rapidamente o mel das colmeias.</p>



<p>“Quando você vai colher o mel, você tira as melgueiras, que são compartimentos de madeira em que o mel fica armazenado”, explica o técnico agrícola e apicultor Francisco Luciélio de Carvalho, que também é o atual presidente da Associação dos Produtores na Agricultura Familiar de Irapuá. “Dizemos que a melgueira está operculada quando os favos estão maduros. As próprias abelhas é que sabem quando estão maduras, que é quando a umidade que tem no mel chega a 18%. Aí quando está fechada, com o mel no ponto certo, a gente traz aqui no galpão e faz a desoperculação, que é a abertura”, explica Luciélio.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="ratio ratio-16x9"><iframe loading="lazy" title="Abelhas: o gado com asas #shorts" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/eexz_i6Yi7g?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>



<p>Ele destaca que a apicultura é uma forma eficaz de fixar os jovens do semiárido no campo. “A cultura aqui era fazer 18 anos e procurar o centro ou ir para o Rio de Janeiro. A produção de mel tem uma importância gigantesca em manter os mais jovens aqui, porque é uma atividade que não é tão pesada como a agricultura. E também é mais lucrativa. Quando o preço está bom você consegue tirar uma boa renda”, afirma Luciélio.</p>



<p>Em Irapuá, as abelhas que os apicultores criam são as africanizadas. Há desvantagens, como o ferrão, o que faz com que se necessite de EPIs para trabalhar com elas, e vantagens, como a alta produtividade do mel dessas abelhas.</p>



<p>Neurimar destaca que a intervenção na natureza é mínima com a apicultura. Em Irapuá, as colmeias ficam dentro das matas da caatinga, longe do barulho das estradas, das pessoas e dos animais. É também por uma questão de segurança: as abelhas africanizadas são mais defensivas do que as abelhas nativas e as abelhas europeias. Com o manejo correto, contudo, podem dar de duas a três vezes mais mel do que outras espécies de abelhas existentes no Brasil.</p>



<p>A associação de Irapuá vende entre 2 mil e 5 mil litros de mel por ano, dependendo das floradas – melhor em anos de chuva, pior em anos de seca. As abelhas usam o néctar das flores nativas da caatinga: tem a florada da maniçoba, do mofumbo, do angico, do marmeleiro e das flores rasteiras. Um dos projetos futuros de Neurimar é de também vender propólis. “Vi que estão fazendo um estudo sobre o própolis da florada da jurema preta, que é uma árvore muito comum aqui na região. Parece que as abelhas tiram um própolis verde muito rico dessa florada, com propriedade medicinal. E isso, claro, vai ter um valor econômico também muito bom para nós apicultores”, diz.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Toda uma sociedade em uma colmeia</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p>Tem uma frase que Neurimar ouviu há muito tempo e que gosta de repetir para explicar como funciona uma colmeia de abelhas. “São vários sistemas convivendo. Tem a monarquia, tem o socialismo e tem o capitalismo”, diz. “A monarquia é porque tem a abelha-rainha, que comanda tudo. O socialismo porque quem decide quem é a rainha e até quando ela vai governar são as abelhas operárias. E o capitalismo é porque elas produzem muito mais do que podem consumir”, completa.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>Até os três dias de vida, todas as larvas de abelhas recebem um mesmo alimento, a geleia real, que é produzido por uma glândula das abelhas e é bastante rico em nutrientes. Após esse tempo, as abelhas operárias escolhem apenas algumas abelhas para continuar recebendo este alimento. Essas poucas abelhas depois disputam uma batalha mortal, onde apenas uma sobrevive e vira a abelha-rainha da colmeia.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p>“A abelha-rainha é a mãe de todas as outras, já que só ela tem os órgãos reprodutores desenvolvidos, justamente por conta da alimentação especial que recebe durante toda a vida”, diz. Uma abelha-rainha pode viver até sete anos, enquanto que as operárias vivem em média 45 dias e os zangões, os machos, por mais ou menos 80 dias. Saber os detalhes do funcionamento de uma colmeia é essencial para o manejo das abelhas e a eficiência da produção do mel. Em Irapuá, os agricultores contam com um grupo de apicultores dentro da Associação, onde se reúnem para trocar experiências e informações sobre as abelhas.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<ul class="wp-block-list">
<li>L<strong>eia todas as reportagens da série <em>A invenção do Nordeste</em></strong>:</li>
</ul>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-reinvencao-do-nordeste/" class="titulo">A reinvenção do Nordeste</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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			</item>
		<item>
		<title>Em se plantando, tudo vende</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Jul 2024 12:28:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[Campo Alegre de Lourdes]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[sertão baiano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Campo Alegre de Lourdes (BA) &#8211; Nelita Pereira dos Passos, agricultora da Comunidade Carolino, em Campo Alegre de Lourdes (BA), tem planos ousados para os próximos meses. Ela pretende investir na ampliação da área do seu quintal produtivo para atender ao crescimento da clientela. A ideia é ocupar um terreno, ainda sem irrigação, contínuo ao [&#8230;]</p>
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<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:15% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="341" height="341" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/06/image.png" alt="" class="wp-image-63685 size-full"/></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Campo Alegre de Lourdes (BA) &#8211;</strong> Nelita Pereira dos Passos, agricultora da Comunidade Carolino, em Campo Alegre de Lourdes (BA), tem planos ousados para os próximos meses. Ela pretende investir na ampliação da área do seu quintal produtivo para atender ao crescimento da clientela. </p>
</div></div>



<p>A ideia é ocupar um terreno, ainda sem irrigação, contínuo ao que já produz hortaliças e algumas frutas. “Nós queremos ampliar para poder plantar mais, fazer os canteiros para produzir mais coentro e tomates, que já estou com uns ali no ponto de mudança e não tenho espaço.” Mais espaço plantado significa mais produtos para vender e, claro, mais renda para família.</p>



<p>A alguns poucos quilômetros dali, no Sítio Tanque, Cármen Lúcia e o marido Antônio Damaceno esperavam sorridentes a equipe da Marco Zero para o café da manhã. No cardápio, uma reforçada panela de mocotó com bucho de bode que, além de garantir energia para o dia de trabalho puxado, era uma espécie de símbolo de fartura, garantida pela boa produtividade do quintal por trás da casa. No terreno de cerca de um hectare, dividido em uma área irrigada e uma área de sequeiro, o casal planta de tudo um pouco (são cerca de 40 produtos diferentes) além de criar cabras e galinhas.</p>



<p>Nas duas casas não havia sinal de ostentação, longe disso. Mas em ambas, alguns detalhes mostravam que a vida estava melhorando e, como vocês poderão constatar ao longo da reportagem, não se tratava de casos isolados. Em uma rápida olhada pelas duas cozinhas, por exemplo, era possível ver todo tipo de eletrodoméstico, do liquidificador ao <em>air fryer</em>. “Só não tenho cafeteira porque gosto do café passado na hora”, brinca Lúcia com um sorriso de satisfação como que comemorando os “pequenos luxos” que conquistou.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Campo Alegre de Lourdes fica no extremo norte da Bahia, divisa com o Piauí. O censo demográfico de 2022 informa uma população de 30.671 pessoas. Segundo o Censo Agropecuário de 2017, existem no município 4.693 estabelecimentos agropecuários caracterizados como agricultura familiar, o que corresponde a 89% do total (5.260). Deste total, 83% possuem cisternas.</p>
        </div>
    </div>



<p>Mas nem sempre foi assim. Há menos de três anos, Nelita, o marido Manuel e o restante da família viviam apenas com os recursos dos programas sociais do governo e com o que conseguiam colher da lavoura de subsistência plantada no período de chuva. “Até então, a gente não mexia com nada disso. Vivíamos do que conseguíamos. A gente só produzia mesmo para o consumo de casa, que era o milho, o feijão e umas galinhas”.</p>



<p>De certa forma, era o mesmo com Lúcia e Damaceno. Há uns quatro anos, o casal não tinha renda fixa e nem um quintal tão diverso e produtivo. Com isso, a economia doméstica dependia dos programas governamentais, da “boa vontade” das chuvas e do incerto comércio “na rua”. “Era muito ruim você plantar sem ter a garantia de que iria conseguir vender”, lembra Damaceno.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-1-Nelita.jpg" alt="Foto colorida da família de Nelita Pereira Passos, que foi fotograda sentada em uma cadeira de plástico branco. Seu marido e os dois filhos estão em pé por trás dela. O marido é um homem moreno, de pele bronzeada, usando uma camisa roxa de mangas compridas (provavelmente uma antiUV) e bermuda jeans. O filho mais novo é um adolescente magro, de pele clara bronzeada e cabelos escuros e curtos, usando camiseta azul escura. Ele está com as mãos sobre os ombros de Nelita. O filho que aparenta ser mais velho está à esquerda, usando camisa branca com mangas e gola amarelas, com um calção azul. Ele também tem cabelos curtos, mas tem bigode e um cavanhaque ralo. A família foi fotograda dentro de casa, com uma a televisão instalada num painel de madeira escura ao fundo, uma janela fechada na parede à esquerda, modem instalado e na parede e telhado com telhas e caibros de madeira à mostra." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Não há luxo na casa de Nelita, mas ela tem equipamentos que seriam impensáveis há alguns anos
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Os fatores da mudança</h2>



<p>A transformação na vida das duas famílias &#8211; e na de dezenas de outras do município &#8211; foi a conjunção de, pelo menos, dois fatores estruturantes. Ambos resultado de muita articulação, mobilização e luta a partir da organização das agricultoras e agricultores com o apoio da sociedade civil.</p>



<p>O primeiro fator transformador, surgido bem antes de Nelita ou Lúcia pensarem em ter seus próprios quintais produtivos, foi a consolidação do conceito de “Convivência com o Semiárido”, muito em consequência da mobilização feita pela <a href="https://www.asabrasil.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Articulação Semiárido Brasileiro (ASA)</a> a partir do final da década de 1990 e que orientou diversas políticas públicas abrangentes. Você pode acompanhar muitos aspectos dessa revolução silenciosa que acontece no semiárido nordestino lendo as outras reportagens já publicadas da série <a href="https://marcozero.org/a-reinvencao-do-nordeste/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A Reinvenção do Nordeste</a>. </p>



<p>Para se ter ideia de como as estratégias de convivência com o semiárido causaram impactos tanto econômico quanto social basta ver o levantamento feito por Denis Monteiro na sua tese de doutorado em Ciência, Tecnologia e Inovação em Agropecuária na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRJ): <a href="https://rima.ufrrj.br/jspui/handle/20.500.14407/9858"><em>Gente é pra brilhar: Interpretação do desenvolvimento de comunidades camponesas do Sertão do São Francisco</em>.</a> </p>



<p>De acordo com o estudo feito por Denis, em 1991, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do município de Campo Alegre de Lourdes era 0,273, passando a 0,365 em 2000, e chegando a 0,557 em 2010 (o último disponível). “Apesar de ainda baixo, sua nítida evolução indica ter havido mudanças positivas muito significativas desde o início dos anos 1990”, concluiu.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que mudou</span>

		<p>A grande seca que ocorreu no semiárido brasileiro entre 1979 e 1983 deixou marcas profundas em Campo Alegre de Lourdes. O teólogo Roberto Malvezzi, assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), morou na cidade nesse período. “Vi o flagelo que ficou retratado na música de Luiz Gonzaga, nos romances da Raquel de Queiroz, de Graciliano, na poesia de João Cabral de Melo Neto ou na pintura de Portinari. Todos aqueles fenômenos de fome, de sede, de migração intensa, mortalidade infantil e depois o saque”.</p>
<p>Campo Alegre está a 120 quilômetros das margens do São Francisco. “Como não tem rios ou nascentes, ou você tinha a água da chuva ou não tinha nada. Isso naquele tempo, hoje tem uma adutora”, lembra Malvezzi.</p>
<p>A última grande seca na região aconteceu entre 2012 e 2017. A carta do IX Encontro Nacional da Articulação do Semiárido (ASA), de novembro de 2016, afirmou que: “Vivemos hoje o quinto ano de uma estiagem ainda mais severa e nenhum ser humano teve sua vida ceifada pelos efeitos da seca”.</p>
<p>O que mudou? Segundo Denis Monteiro, “as inovações no manejo dos agroecossistemas, as políticas sociais e as rendas de pluriatividade conferiram aos agroecossistemas maior capacidade de resistir aos efeitos da grande seca entre 2012 e 2017. A seca foi também um alerta às famílias sobre a importância de seguir investindo na estocagem de forragem e água. Muitas infraestruturas foram construídas justamente nos anos mais secos, com as políticas públicas em execução. As inovações permitiram uma rápida recuperação após os bons invernos a partir de 2018”.</p>
	</div>



<p>O segundo fator, pelo menos em Campo Alegre de Lourdes, é bem mais recente. A maior apropriação da riqueza produzida a partir das tecnologias sociais de convivência com o semiárido foi possível pela inserção das famílias em iniciativas de venda direta aos consumidores, associada ao apoio técnico qualificado, ao engajamento em associações e cooperativas que comercializam a produção das comunidades e a integração a eventos onde a produção é vendida e onde se forma clientela como, por exemplo, as feiras agroecológicas.</p>



<p>Lá, especificamente, os mercados institucionais começam a ganhar mais força a partir de 2021, quando aconteceu a primeira tentativa de acessar, de forma articulada e coletiva, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).</p>



<p>“Isso aconteceu de forma gradativa. Em 2021, o valor foi muito pequeno, mesmo assim, as famílias não desanimaram. Em 2022, a gente já foi para um valor bem mais interessante, passando para quase R$ 600 mil. Agora, em 2024, a gente já tem contratos firmados de quase um milhão de reais”, explica Francisco José da Silva, conhecido por todos com Franzé, que é assessor técnico do<a href="http://sasop.org.br"> Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP)</a> nos territórios de três municípios da região: Remanso, Campo Alegre de Lurdes e Pilão Arcado.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Criado pela Lei nº 11.947, de 16/6/2009, o <strong>Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)</strong> consiste no repasse de recursos financeiros federais para o atendimento de estudantes matriculados em todas as etapas e modalidades da educação básica nas redes municipal, distrital, estadual e federal e nas entidades qualificadas como filantrópicas ou por elas mantidas, nas escolas confessionais mantidas por entidade sem fins lucrativos e nas escolas comunitárias conveniadas com os estados, o Distrito Federal e os municípios, com o objetivo de contribuir para o crescimento e o desenvolvimento biopsicossocial, a aprendizagem, o rendimento escolar e a formação de hábitos alimentares saudáveis dos alunos, por meio de ações de educação alimentar e nutricional e da oferta de refeições que cubram as suas necessidades nutricionais durante o período letivo.</p>
<p>Fundamentado pela diretriz de emprego da alimentação saudável e adequada e o apoio ao desenvolvimento sustentável, com valorização dos gêneros alimentícios produzidos em âmbito local, a lei estabelece que, no mínimo, 30% do valor dos recursos federais do PNAE repassados pelo FNDE deve ser investido na compra direta de produtos da agricultura familiar, medida que estimula o desenvolvimento econômico e sustentável das comunidades.</p>
<p>O mesmo dispositivo estabelece, ainda, que sejam priorizados os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas, as comunidades quilombolas e os grupos formais e informais de mulheres.</p>
<p>A novidade, trazida pela Lei nº 14.660, em 24 de agosto de 2023, é de que a aquisição dos gêneros, quando comprados de família rural individual, deverá ser feita no nome da mulher, em no mínimo, 50% (cinquenta por cento) do valor adquirido.</p>
        </div>
    </div>



<p>O programa ganhou força, passando a ter mais relevância e impacto na vida das pessoas, quando o poder público (a prefeitura de Campo Alegre de Lurdes, no caso), passou a destinar 100%, do que é repassado pelo FNDE, para a compra de produtos da agricultura familiar, indo muito além dos 30% determinado por lei. Além disso, a prefeitura tem trabalhado em parceria com a sociedade civil organizada no mapeamento e definição de um preço justo para o que é produzido no município. O resultado desse esforço subsidia a elaboração da chamada pública, instrumento legal que define todos os parâmetros para a elaboração dos contratos.</p>



<p>Para ver como isso tem sido um diferencial importante, é só fazer um contraponto com o município vizinho de Pilão Arcado. Segundo Franzé, por lá o processo está muito mais difícil. “Saiu a chamada pública com produtos que não são de produção da região, totalmente fora de contexto e com preços abaixo do mercado. Ou seja, foi uma chamada pública elaborada sem fazer aqueles primeiros processos: mapeamento e cotação de preço. Então, só pra ter uma ideia, lá eles querem batata-inglesa, um produto que não é de nossa região. E tá lá. Quem vai fornecer? Vão ter que pegar de um atravessador…”</p>



<p>Para Franzé, o que acontece em Pilão Arcado e em outros municípios que sequer cumprem a cota de 30% de compra para o PNAE na agricultura familiar, não é desconhecimento técnico ou da legislação. “Eles têm o conhecimento de que a chamada pública para a compra de produtos da agricultura familiar tem que ser regionalizada. Na verdade, é falta de vontade política”.</p>



<p>Falta vontade política e falta visão administrativa, para dizer o mínimo. “Quando eles (os prefeitos) derem a importância devida a essa política dentro do seu município, eles vão abraçar essa ideia e nunca mais vão largar. Porque isso é fazer com que o recurso gire dentro do próprio município. Se ele paga para o agricultor, o agricultor compra no seu comércio”, explica Franzé.</p>



<p>O fato é que a entrada no PNAE transformou a vida de muita gente. Atualmente, são 68 famílias que participam do programa no âmbito municipal. O contrato assinado para 2024 prevê o valor anual de R$ 982.874,16 para compras na agricultura familiar. Isso dá um valor médio próximo dos 15 mil reais para cada família participante. São quase R$ 1.250 por mês. “É mais de um salário-mínimo por mês e é melhor do que o Bolsa Família”, calcula Damaceno que, junto com Lúcia, fornece para o PNAE  desde 2022.</p>



<p>Cármen Lúcia fala de outro motivo de satisfação que não tem relação direta com ganhos materiais: “Nossos filhos passam a ter alimentos saudáveis na escola. Às vezes, minha filha Vitória [de oito anos] diz: ‘mamãe’, vi os mamões que você levou lá na escola”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-2-damaceno.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-2-damaceno.jpg" alt="A cena retrata um casal de pessoas de meia-idade juntas, com os rostos colados. À esquerda, o homem tem cabelos brancos e usa uma camisa de listas verdes e brancas. À direita, a mulher de cabelos castanhos e curtos, usa óculos, brincos grandes e dourados, e está vestida com uma blusa ou vestido verde escuro. Elas estão ao ar livre, cercadas por altos pés de mamão que se estendem em direção a um céu azul claro. As folhas dos mamoeiros são exuberantes e verdes, e uma das árvores tem um cacho de mamões pendurados acima. O sol brilha intensamente através das folhas, criando um efeito de luz difusa ao redor da cena." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Antônio Damaceno e Cármen Lúcia fornecem alimentos para as escolas estaduais
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Lúcia e Damaceno também fazem parte do grupo reduzido de famílias que vendem para o PNAE do governo estadual da Bahia. Por questões burocráticas, são apenas três pessoas formalmente inscritas que representam algumas outras de suas respectivas comunidades. Elas recebem algo em torno de R$ 11 mil por ano. Leandro Nonato de Lacerda, que mora na comunidade tradicional de Fundo de Pasto Lagoa do Gato, fornece desde 2021 para o PNAE, tanto o municipal quanto para o estadual, é um dos coordenadores do programa. Segundo ele, os benefícios do PNAE vão além das famílias que assinaram contrato. “Acaba beneficiando cerca de 300 famílias indiretamente. Isso porque, quando não temos o produto solicitado para entregar, pedimos aos outros da comunidade”.</p>



<p>Leandro, que é um dos coordenadores do programa, explica que são nove grupos de agricultoras e agricultores, cada um com um representante, que se articulam através do WhatsApp. “A nutricionista (que define o cardápio das escolas municipais) pede o que precisa, geralmente, na sexta-feira, e os representantes organizam a divisão entre os produtores para a entrega nas segundas-feiras”.</p>



<p>Para ele, a vantagem de participar do PNAE é muito grande. Além de oferecer produtos naturais para as escolas, aumenta nossa renda”. Melhorou muito nossa vida. Hoje é a principal fonte de renda de muitas famílias”.</p>



<p><em>“Nossos filhos passam a ter alimentos saudáveis na escola. Às vezes, minha filha Vitória (de oito anos) diz: ‘papai’, vi os mamões que você levou lá na escola”.</em></p>



<p><em>Cármen Lúcia, Sítio Tanque</em></p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Bom para todos</span>

		<p>A importância do PNAE vai além da questão da garantia de renda para as famílias agricultoras ou o incremento da economia local. É possível elencar uma série de benefícios que essa política pública traz, não só para as pessoas envolvidas diretamente no processo como para a sociedade como um todo:</p>
<ul>
<li>Convivência sustentável com o meio ambiente;</li>
<li>Empoderamento das mulheres que passam a receber os recursos em suas próprias contas bancárias;</li>
<li>Envolvimento da juventude, com aumento de renda e sentimento de pertencimento;</li>
<li>Transparência no processo de compra dos produtos e diminuição da corrupção;</li>
<li>Segurança alimentar das crianças que passam a ter uma alimentação de qualidade na escola.</li>
</ul>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">“Todo dia aprendo algo”</h3>



<p>Conseguir assinar o contrato com a prefeitura e o Governo do Estado para vender a produção para o PNAE foi uma vitória. Mas entregar os produtos na quantidade, qualidade e prazos acordados, tão fundamental para a continuidade do programa, não é uma tarefa fácil para as famílias agricultoras. É aí que entra o apoio técnico.</p>



<p>O SASOP, onde Franzé trabalha, faz parte da Rede de Assistência Técnica e Extensão Rural Nordeste (Rede Ater NE), e tem um papel importante nesse processo. Atualmente, o SASOP atua em quatro municípios do Sertão do São Francisco: Campo Alegre de Lourdes, Remanso, Casa Nova e Pilão Arcado, acompanhando famílias de agricultores/as, pescadoras artesanais e as comunidades tradicionais de Fundo de Pasto. A atuação em Campo Alegre começou ainda no início da década de 2010, com foco na apicultura, e foi se expandindo e diversificando para a caprinocultura, quintais agroecológicos, beneficiamento de frutas e acesso a mercados.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-3-mamao.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-3-mamao.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-3-mamao.jpg" alt="A imagem mostra um grupo de mamões verdes pendurados em uma árvore. As folhas da árvore são largas, com bordas lobadas, e o céu ao fundo está claro e azul. O sol brilha intensamente através das folhas, criando um efeito de lente." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Dos quintais e roças, as frutas seguem direto para a merenda escolar
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>“Não existiria a participação no PNAE sem o apoio da assessoria técnica. Como a gente iria acessar o programa?”, questiona Antônio Damaceno. Para ele, a assessoria técnica resultou no aumento da produtividade e, o mais importante, na qualidade dos produtos. “A gente vai aprendendo todo dia. Sempre tem algo para melhorar. Na semana passada, por exemplo, aprendi a usar água oxigenada para combater um fungo que dá na laranjeira”.</p>



<p>O sentimento de Nelita é semelhante ao de Damaceno. “Mudou, mudou bastante, porque a gente pegou experiência. Antes, a gente não sabia nem para onde ir. Agora, o pessoal do SASOP está sempre apoiando, ensinando o manejo de tudo”. Desde que começou a receber o apoio, ela conta que passou a aproveitar mais a área do quintal e, assim, pôde ter mais produtos para vender: &#8220;na verdade, o bom é ter a renda, que antes só produzíamos para comer.”</p>



<h3 class="wp-block-heading">Sábado é dia de feira</h3>



<p>Há cerca de 30 anos que as comunidades vendem seus produtos na feira da cidade. Só que isso era feito de forma individual, misturado com os demais comerciantes. De forma organizada, dentro do espaço agroecológico, faz apenas uns cinco meses. Desde o ano passado, essa forma de venda direta ao consumidor tem melhorado para um bom número de famílias agricultoras. </p>



<p>Desde o ano passado, uma média de 35 famílias (na época de chuva na região, entre dezembro a março, são cerca de 40 famílias), representando cerca de 25 comunidades, passaram a ocupar uma área específica e padronizada no galpão onde a feira funciona aos sábados.</p>



<p>O grupo começa a chegar das comunidades por volta das 5h30 e ficam até meio dia. As famílias que não podem ir, mandam seus produtos pelos vizinhos. Lá vendem de tudo um pouco, sendo mais uma oportunidade de escoar a produção excedente dos seus quintais produtivos. Outros, como a família de Leandro Lacerda, perceberam que podem aumentar os lucros agregando valor aos seus produtos.</p>



<p>“Minha família foca na alimentação. Bolos, doces, galinha caipira, beiju, cafezinho… Tudo feito em fogão agroecológico, que consome menos lenha, faz menos fumaça e foi construído através do Programa <a href="https://www.car.ba.gov.br/projetos/pro-semiarido#:~:text=O%20Projeto%20Pr%C3%B3-Semi%C3%A1rido%20%C3%A9%20parte%20integrante%20de%20um,Agr%C3%ADcola%20%28FIDA%29%2C%20da%20Organiza%C3%A7%C3%A3o%20das%20Na%C3%A7%C3%B5es%20Unidas%20%28ONU%29." target="_blank" rel="noreferrer noopener">Pró-Semiárido </a>do Governo da Bahia, há cerca de dois anos.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-4-Leandro.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/CampoAlegredeLourdes-4-Leandro.jpg" alt="A foto retrata uma cena de mercado com várias pessoas e diversos itens à venda. Na frente, há uma homem negro, maduro, vestindo uma camiseta branca com o texto “Semiarido” e uma ilustração de um cacto e um sol. Ele está com o braço esquerdo esticado, segurando a haste de um barraca de feira. Sua outra mão está apoiada sobre uma mesa repleta de produtos alimentícios em recipientes de plástico. À esquerda, sua esposa, morena, de meia-idade, cabelos presos por trás da cabeça, e usando uma blusa preta. Há duas crianças, um menino negro pequeno e uma menina morena de cabelos lisos e blusa vermelha, estão à esquerda. Ao fundo, mais barracas de mercado podem ser vistas, e outra pessoa vestida de verde está parcialmente visível." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Leandro Lacerda vende produtos com valor agregado na feira de Campo Alegre de Lourdes
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Leia todas as reportagens da série <em>A reinvenção do Nordeste</em></strong>:</li>
</ul>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-reinvencao-do-nordeste/" class="titulo">A reinvenção do Nordeste</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		<p>O post <a href="https://marcozero.org/em-se-plantando-tudo-vende/">Em se plantando, tudo vende</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
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		<title>Um rio aberto com as próprias mãos</title>
		<link>https://marcozero.org/um-rio-aberto-com-as-proprias-maos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 20 Jan 2024 15:50:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Água Potiguaras]]></category>
		<category><![CDATA[Baía da Traição]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Paraíba]]></category>
		<category><![CDATA[Rio do Aterro]]></category>
		<category><![CDATA[socioambiental]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O sábado amanheceu chovendo forte. Mesmo assim, por volta das 6h30min, os organizadores do projeto Águas Potiguara já estavam no ponto de encontro combinado na aldeia do Alto Tambá, na Baía da Traição/PB, para cumprir uma rotina que começou há exatos três anos. Desde 21 de janeiro de 2021, um grupo cada vez maior de indígenas da etnia potiguara se reúne aos sábados para trabalhar na revitalização do Rio do Aterro.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>O Águas Potiguara é um projeto localizado nas aldeias Forte e Alto do Tambá, na Baía da Traição (PB) e tem como objetivo limpar os rios do Território Indígena Potiguara. O projeto começou pelo rio do Aterro, afluente do rio Sinimbu e que corta as duas aldeias.</em></p>
</blockquote>



<p>Aos poucos, a chuva foi diminuindo e os voluntários chegando ao ponto do rio onde a limpeza havia parado na semana anterior. Por volta das 9h, com o sol já forte, 12 pessoas estavam com as ferramentas na mão, iniciando o duro trabalho de revitalização. Com facões, enxadas e cavadeiras retas, os voluntários precisam de força para cortar, arrancar e remover blocos formados por uma mistura de raízes de aningas (planta que cresce às margens de rios, em solos cobertos com água), terra e matéria orgânica que se entranharam no leito ao longo do tempo.</p>



<p>A cada sábado, a limpeza do rio avança um pouco. No dia em que a equipe da<strong> Marco Zero</strong> visitou o projeto, ainda em 2023, foram pouco mais de sete metros conquistados. Parece pouco, mas é que o grupo chegou na parte mais difícil de trabalhar, onde os sedimentos estão mais consolidados e a vegetação mais densa. Mesmo assim, ao completar três anos, já foram recuperados mais de 3,5 quilômetros, faltando cerca de um quilômetro para liberar todo o rio.</p>



<p>Apesar da dureza do trabalho, o ambiente durante a limpeza é leve, divertido e, como eles fazem questão de dizer, familiar. A conversa rola solta e as risadas podem ser ouvidas de longe. “A maioria trabalha durante a semana. Às vezes tem até uma jornada dupla. Trabalha, faz universidade, faz outra coisa, mas o sábado é sagrado”, lembra Ivson Antônio Souza e Silva, um dos participantes mais assíduos. “Eu costumo dizer que o Águas, hoje, é uma família. É uma família que a gente já colocou no dia a dia como uma rotina”, complementa Cristina Potiguara, que participa do projeto desde o início.</p>



<p>Cristina contribui com uma parte muito importante da rotina dos sábados pela manhã. “Enquanto os meninos estão lá trabalhando, a gente fica preparando a comida. Esse trabalho aqui, a gente sabe, que é um trabalho que requer bastante energia, esforço e, principalmente, força vontade”. O almoço, feito com ingredientes doados pelas famílias dos próprios voluntários, é servido no final da manhã, quando o sol forte determina o fim dos trabalhos. Além de repor as energias, a refeição feita ali mesmo, em uma sombra próxima ao rio, é um momento de troca de brincadeiras e afetos. É quando o sentido de “família” do Águas Potiguara fica mais evidente.</p>



<p>Essa ideia de construção coletiva, com cada uma contribuindo como pode, norteia todo o projeto. “Para gente, cada sábado é um desafio. A gente consegue ter apoio de alguns parceiros que disponibilizam alimentação, ferramentas&#8230; Mas é um desafio no sentido de dizer assim: &#8216;olha, hoje eu vou contribuir com mais alguns metros de abertura do rio&#8217;. Quando estou lá me sinto bem. É gratificante estar ali, com todos reunidos num pensamento só”, explica Gessé Viana da Silva, que é pedagogo com especialização em educação indígena.</p>



<p>A ideia de limpar o rio do Aterro nasceu em um momento muito difícil para a comunidade. “Durante a pandemia de covid-19, a gente se fechou para o mundo. A gente começou a discutir muito a questão ambiental, a gestão territorial. Vimos que a gente precisava cuidar do nosso rio”, lembra Poran Potiguara, uma das lideranças do projeto e que hoje trabalha na ONG <a href="https://www.tnc.org.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">The Nature Conservancy</a>, em Belém (PA).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>“O rio é o território. É o responsável pela existência e pela fertilidade do território.”</em></p>



<p><em><strong>Gessé Viana da Silva</strong></em></p>
</blockquote>



<p>Na hora de tirar a ideia do papel, o grupo foi procurar o apoio das autoridades municipais. “Na conversa com alguns candidatos a vereador, a prefeito, perguntávamos qual era a proposta deles para o rio da comunidade”, conta Poran. Mas aí a gente se deu conta de que não tínhamos que esperar por ninguém. Que a gente tinha que fazer o negócio acontecer. Então, decidimos abrir o rio no ano seguinte. Combinamos isso novembro, dezembro. Em 21 de janeiro de 2021 fizemos a primeira ação de limpeza”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>De pai para filho</strong></h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/01/Poran-Cristina-Ivson-Ailton-e-a-neta-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/01/Poran-Cristina-Ivson-Ailton-e-a-neta-1024x683.jpg">
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            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Poran, Cristina, Ivson e Seu Aílton, ao lado da neta: o conhecimento ancestral é uma das bases do projeto. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O projeto nasce a partir de uma perspectiva ambiental e territorial, mas também do resgate de uma memória coletiva, alimentada pelas histórias contadas e recontadas pelos mais velhos. &#8220;É um projeto genuinamente indígena, nascido dentro do território potiguara e totalmente voluntário&#8221;, conta com orgulho Aílton Silva Lima, pai de Poran, tio de Cristina e que, aos 57 anos, é um dos mais experientes do grupo. Essa experiência é muito respeitada pela turma mais nova. A contribuição dos “anciões”, o conhecimento ancestral, é um dos pilares do Águas Potiguara. “O projeto nasce inspirado no pessoal que já fazia a limpeza. Eles limpavam uns duzentos, trezentos metros, temporariamente, a cada dois anos, três anos. Mantinham o rio aberto para não alagar o local onde plantam até hoje”, conta Poran.</p>



<p>Para Cristina, devolver a vida por completo ao rio passou a ser uma missão de sua geração. “É a nossa devolutiva enquanto juventude. Nós que estamos saindo da universidade, que estamos na universidade, a gente pode até ter a teoria. Mas a prática está com os anciões. São eles que guiam toda essa juventude na abertura do rio. Nada estaria acontecendo se não fosse a presença deles. Por isso é tão importante esse diálogo e essa comunicação que existe entre nós jovens e os anciãos.”</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Como um rio morre?</strong></h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/01/Ailton-Silva-Lima-1-1024x684.jpg" alt="" class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Trecho do rio do Aterro, coberto por aningas, antes de ser recuperado pelo Águas Potiguara. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A morte do rio do Aterro foi lenta e gradual, fruto de um processo de urbanização desordenado e de mudanças culturais que afastaram as pessoas do curso d’água que cortava a comunidade. Difícil saber exatamente quando a destruição começou, mas os relatos dos moradores mais antigos sugerem que o processo de assoreamento se acentuou, há cerca de três décadas, após uma dragagem que não respeitou a sinuosidade do rio e praticamente destruiu a mata ciliar.</p>



<p>O certo é que, aos poucos, as pessoas foram se afastando do rio. Um dos fatores desse afastamento, que parece ser consenso entre os moradores mais antigos, foi a chegada da água encanada, por volta do final dos anos 1990. “Água encanada facilita a vida do morador e, então, a gente esquece um pouco o rio e foca nas coisas que tem que fazer no quintal mesmo”, explica Aílton que, na infância tinha a casa abastecida por latas d’água trazidas do Aterro.</p>



<p>Poran é um dos que concordam que a dragagem teve um papel fundamental, mas acrescenta outros fatores que interferiram no processo. &#8220;Um rio que era sinuoso, que tinha seus meandros, ele passou a ser reto. Junto com isso, o povo foi deixando de plantar na margem. Então, foi deixando de cuidar também, porque o plantar na margem do rio gerava um cuidado, principalmente, o cuidado com as enchentes. As chuvas torrenciais poderiam fazer você perder toda a sua plantação. Você tinha que manter o canal aberto para a água descer. Você deixou de plantar, deixou de fazer o uso social do banho, de pegar frutas, de pegar água, de lavar roupa&#8230; Aí o rio começou a ser esquecido&#8221;.</p>



<p>Com o tempo e o abandono, as aningas começaram a crescer descontroladamente formando blocos de lama e raízes emaranhadas. Aos poucos, o rio do Aterro estava literalmente aterrado.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A dimensão ambiental</strong></h3>



<p>Não basta apenas abrir o caminho para a água. Para o rio continuar vivo é preciso restabelecer o equilíbrio da natureza em seu entorno. Por isso, o pessoal do Águas Potiguara iniciou um projeto para recuperar a mata ciliar. “No momento, estamos construindo o nosso viveiro de mudas. Estamos com várias mudas de jenipapo, ipê, copaíba, pau-brasil e entre outras. Iremos realizar o plantio assim que o período de chuvas começar”, conta Fernanda Soraggi que, entre outras coisas, foi responsável pela comunicação do projeto até mudar-se para Belém (PA) no final do ano passado.</p>



<p>O viveiro fica na sede do projeto, na principal rua da aldeia Alto do Tambá. Como tudo no Águas Potiguara, a sede foi instalada em uma casa recuperada com o trabalho coletivo e voluntário. Hoje, além do viveiro de mudas, o local é usado para eventos culturais, reuniões e apoio. Segundo Poran, que é engenheiro florestal, a ideia é fazer uma casa de sementes e um viveiro com capacidade de 5 mil mudas a cada seis meses, 10 mil mudas anuais. “Então, nosso grupo agora também tem essa missão. A gente sabe que essa é a segunda parte da recuperação do rio, reflorestar a mata ciliar. É um processo que leva anos, décadas. Porque a mata praticamente não existe”.</p>



<p>Mesmo sem ter sido concluído e ainda sem a mata ciliar, o projeto já começa a ter impacto no meio ambiente. “A medida que a gente foi abrindo, que a gente voltava no ano seguinte, a gente começou a ver espécies de peixes que a gente não tinha visto antes, que mesmo na infância a gente já achava difícil encontrar”, comemora Poran.</p>



<p>Os mais jovens do projeto têm um exemplo e uma inspiração quando o assunto é ecologia. Francisco Balbino Neto, mas conhecido como seu Cedinha, tem 64 anos e trabalha com agricultura familiar em uma propriedade de cerca de oito hectares cortada pelo rio do Aterro, em um trecho que já foi aberto logo no início do projeto. A forma equilibra como a família se relaciona com a terra, o rio e a natureza acabou se tornando uma espécie de modelo de convivência com o meio ambiente.</p>



<p>A propriedade é dividida, basicamente, em três partes. Uma delas é o paul, uma área mais próxima do rio que fica alagada durante o período de inverno. Quando seca, no verão, é usada para a agricultura. A outra, que eles chamam de “arisco”, é o terreno que fica seco o ano todo e que vira roça durante o inverno. A terceira parte, orgulho de seu Cedinha, é a área em que a mata nativa, cada vez mais rara, foi recuperada e preservada pela família.</p>



<p>Fernando Duarte Balbino é filho de Seu Cedinha e parceiro do pai na lida com a terra. Para ele, o que é feito na propriedade da família é um exemplo de que se pode plantar e preservar ao mesmo tempo. “Estamos deixando um legado para nossos filhos e para toda a comunidade”. Fernando conta que sempre esteve ligado à natureza mas que seu Cedinha não. “Pai era de caçar, pescar… Com o tempo e a experiência foi criando consciência. Hoje ele é mais do que eu”.</p>



<p>Tanto seu Cedinha quanto Fernando estão entre os mais atuantes no projeto de limpeza do Rio do Aterro. No dia em que a equipe da <strong>Marco Zero </strong>visitou o projeto, os dois passaram a manhã dentro d’água. Fernando, com um facão, cortando as raízes de aningasentrelaçadas com lama e o pai ajudando a colocar o material cortado para fora do leito do rio.</p>



<p>Seu Cedinha não falta a um sábado de limpeza. Ele sonha em voltar a ver o rio do Aterro como era no seu tempo de criança. Todo mundo tomando banho, todo mundo pulando dentro do rio. A água não era suja nem nada e a gente bebia água do rio mesmo. Fomos criados com água do rio. E agora nem pode nem tomar água do rio. Ninguém sabe nem onde é o rio”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A dimensão social</strong></h3>



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	                                        <p class="m-0">Para Cristina, o projeto precisa mostrar às famílias como elas podem produzir a partir dos recursos oferecidos pela natureza. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
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<p>O rio do Aterro era parte importante na dinâmica das comunidades que nasceram em seu entorno. “Precisamos devolver o uso coletivo do rio. Mostrar para as famílias como elas podem produzir a agricultura familiar, tirando sua subsistência a partir desses recursos que são oferecidos pela própria natureza”, explica Cristina que é mestra em antropologia social. Segundo ela, o projeto pretende trabalhar com roçados coletivos e com agrofloresta, mostrando a importância do uso social e familiar tanto dos rios quanto dos espaços de produção.</p>



<p>A agricultura pode ser o primeiro passo para resgatar o papel central que o rio tinha nas aldeias. Aílton lembra que antigamente o rio tinha divisões. “Tinha os horários do banho, tinha a parte das mulheres, tinha o lugar de lavar roupa, tinha um local onde se podia pegar água. Então era, assim, cheio de regras distribuídas ao longo do rio”.</p>



<p>Mas o rio também tinha outra importante função social: o lazer. Gerações, inclusive a dos idealizadores do Águas Potiguara, tomaram muito banho, pescaram e brincaram por lá. “A gente percebeu que as crianças de hoje não sabem sequer como era a infância no nosso tempo. Isso gerou um incômodo e a gente viu que precisava fazer alguma coisa”, relembra Cristina. “Queria ver meus filhos pulando dentro da água, todos felizes”, resume seu Cedinha, ao falar de sua preocupação com a limpeza do rio do Aterro.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A dimensão do sagrado</strong></h3>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo
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<p>Um marco no projeto foi o dia em que apareceu uma jararaca durante a limpeza do rio. Na época, por volta de setembro de 2022, o projeto ainda era uma coisa muito fechada no grupo interno. “A gente não se preocupava muito em ter rede social, íamos sem EPI (Equipamento de Proteção Individual)”, lembra Poran.</p>



<p>Foi quando Fernando, que estava na função de cortar as raízes, partiu acidentalmente a cobra no meio. “Ficou todo mundo assustado. Se uma jararaca picasse alguém? Poderia atrofiar músculos ou até mesmo matar. Naquele dia, a gente decidiu que iríamos fazer uma campanha na rede social para comprar EPIs. A gente decidiu que iria criar um Instagram e que precisava de um nome para o projeto”. Foi aí que surgiu o Águas Potiguara.</p>



<p>Segundo Poran, essa campanha de comprar EPIS levou o projeto a outro patamar. “Tornou o nosso projeto muito reconhecido. Na mídia local mesmo saiu reportagem na televisão, entrevista para rádio e todo mundo começou a disseminar o projeto”.</p>



<p>O curioso é que o episódio da jararaca também despertou o grupo para a dimensão do “sagrado espiritual” que o Águas Potiguara carregava. “Consultamos um pajé nosso para tentar entender o porquê da cobra. E aí a gente descobriu que a cobra foi um presente do sagrado e do rio. A dona do rio, que para nós é a mãe d&#8217;água, a sereia, ela nos deu o presente que foi a cobra. A gente foi entender que a cobra ali foi só o simbólico. Descobrimos que a cobra significa mudança. E de fato mudamos&#8221;, lembra Poran.</p>



<p>Desde então, as pessoas que tocam o projeto passaram a ter o entendimento de que, à medida que o rio estava fechado, assoreado, ele estava morrendo e o sagrado estava ficando enfraquecido também. Gessé, por exemplo, entende que trabalhar com o rio não é só abrir o canal, não é só replantar, mas é também fortalecer o sagrado. “Que é um sagrado cultural, muito lógico e parte da nossa realidade”.</p>



<p>Seu Aílton manda um recado para os céticos: “Pouca gente vai acessar porque, talvez, não acredite. Tem muitas pessoas céticas. Mas quem minimamente enxerga o mundo espiritual, verá que é um mundo que existe”.</p>



<p>“Nem todo mundo vai conseguir sentir, nem todo mundo vai conseguir entender, mas existe na minha concepção, naquilo que eu vivo e naquilo que eu tenho procurado entender de cada dimensão”, complementa Gessé.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O resgate da identidade</strong></h3>



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	                                        <p class="m-0">No resgate da identidade potiguara, Gessé passou a usar o cocar característico feito de palha de carnaúba. Crédito: Inês Campelo/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>O trabalho de revitalização do rio, da forma como vem sendo feito, acaba sendo também o resgate da história e da identidade potiguara. Um resgate que se manifesta no sentimento de pertencimento que começa a crescer entre os jovens, na redescoberta de símbolos ancestrais, das pinturas, do artesanato, da forma de ver o mundo, tanto o material quanto o sagrado.</p>



<p>Em três anos, o Águas Potiguara tomou uma dimensão maior do que qualquer um dos fundadores poderia imaginar naqueles dias de pandemia. Agora, eles já pensam em voos maiores no futuro. Futuro que Seu Ailton fala com brilho nos olhos. “Não é só essa parte aqui no Rio do Aterro. É fazer em todo território potiguara. Mas, para isso, temos que ter também condições. É um trabalho árduo. A gente precisa de parceria, precisa de ajuda. Eu tenho certeza que é um projeto de larga a escala. Pode-se dizer que não é um projeto só pra hoje. É um projeto duradouro, um projeto que visa o futuro das próximas gerações. Para que eles possam cuidar também e ser multiplicadores como Águas Potiguara está sendo hoje”.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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