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	<title>Sérgio Miguel Buarque, Autor em Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
	<lastBuildDate>Wed, 15 Jul 2026 19:41:03 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Sérgio Miguel Buarque, Autor em Marco Zero Conteúdo</title>
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	<item>
		<title>O futuro plantado no passado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jul 2026 19:41:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>No dia marcado para a entrevista, uma chuva fina caía sobre a zona rural de Areial, no Agreste da Paraíba. Mesmo assim, José Nivaldo dos Santos estava no roçado, à beira da estrada de barro que leva até sua casa, quando avistou o carro da reportagem. Seu Niva não gosta de perder tempo. Enquanto esperava nossa chegada, aproveitava para preparar a terra onde, dali a alguns dias, plantaria mais uma safra de batata.</p>



<p>Aos olhos de quem passa pela estrada, Seu Niva parece apenas mais um agricultor aproveitando a chuva para preparar a terra. Mas, há anos, ele faz muito mais do que plantar. Em sua propriedade, conhecimentos herdados do pai e do avô convivem com experiências desenvolvidas ao lado de pesquisadores, técnicos e outros agricultores do Polo da Borborema. Graças a essa combinação, ele se tornou um dos responsáveis pela recuperação de variedades tradicionais de batata e pela retomada do cultivo do algodão agroecológico na região.</p>



<p>A história de Seu Niva, porém, está longe de ser um caso isolado. Nas últimas três décadas, agricultores, sindicatos, organizações sociais, pesquisadores e gestores públicos transformaram o Polo da Borborema em uma das principais referências brasileiras em agroecologia e convivência com o Semiárido. O caminho passou pela valorização dos saberes das famílias agricultoras, pela organização comunitária e pelo acesso a políticas públicas capazes de transformar conhecimento em renda, autonomia e segurança alimentar.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><!-- wp:heading {"level":3} --></p>
<p><em>Localizado no Agreste da Paraíba, o </em><strong><em>Polo da Borborema</em></strong><em> reúne organizações da agricultura familiar de </em><strong><em>21 municípios</em></strong><em> que, há mais de 30 anos, atuam de forma articulada para fortalecer a convivência com o Semiárido, a agroecologia e a segurança alimentar.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>A iniciativa nasceu em meados da década de 1990, a partir da articulação de sindicatos de trabalhadores rurais que enfrentavam problemas comuns, como a dependência dos atravessadores, o uso intensivo de agrotóxicos e a dificuldade de acesso a políticas públicas. Com o tempo, a rede passou a envolver associações comunitárias, cooperativas, grupos de mulheres e jovens, bancos comunitários de sementes, feiras agroecológicas e organizações de assessoria técnica.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Hoje, o Polo é reconhecido nacionalmente como uma das principais experiências brasileiras de desenvolvimento territorial baseado na agricultura familiar. Além de estimular a produção agroecológica, contribuiu para a implantação de programas como o PAA, o PNAE, o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) e os bancos comunitários de sementes.</em></p>
        </div>
    </div>



<p>Seu Niva não fala da lavoura como se fosse uma profissão escolhida na vida adulta. Para ele, trabalhar na roça sempre foi parte da infância. “Naquela época a gente começava com oito anos de idade. A primeira aula que a gente tinha era no roçado”, lembra. Filho de agricultores, nasceu e cresceu na mesma propriedade onde vive até hoje. Foi ali que aprendeu com o pai as primeiras lições sobre o tempo de plantar, as variedades de feijão, o manejo da terra e os cuidados com as sementes.</p>



<p>Mas pouca coisa permaneceu igual desde então. Seu Niva diz que basta olhar para trás para perceber o tamanho das mudanças. “Não tem nem comparação”. Quando era criança, todo o trabalho era feito manualmente. Não havia tratores, matracas para plantar nem qualquer tipo de apoio ao agricultor. Hoje, além da mecanização, ele destaca a importância da assistência técnica, das organizações locais e das políticas públicas para tornar o trabalho menos pesado e ampliar as possibilidades de produção.</p>



<p>Em pouco mais de sete hectares, a família de Seu Niva cultiva uma diversidade de alimentos. Planta seis variedades de feijão, diferentes tipos de fava, macaxeira, batata-doce e cria animais. A mandioca foi sendo deixada de lado, conta, porque as casas de farinha da região desapareceram. Já a batata seguiu o caminho inverso e voltou a ocupar espaço na propriedade depois de um trabalho iniciado em 2011 para recuperar uma cultura que marcou a história de Areial.</p>



<p>&#8220;Essa aqui era a terra da batatinha, nas antigas. No tempo dos meus avôs e dos meus pais&#8221;, recorda. Apesar da tradição, plantar batata era privilégio de poucos. O custo da produção era alto, exigia financiamento bancário e grande quantidade de agrotóxicos. &#8220;Só plantava quem era rico&#8221;, resume.</p>



<p>A oportunidade de retomar esse cultivo surgiu com um projeto desenvolvido em parceria com a AS-PTA e outros agricultores da região. Seu Niva admite que não sabe explicar todos os detalhes técnicos da iniciativa, mas sabe exatamente o que ela mudou em sua vida. “Só veio melhorar”. Primeiro vieram as reuniões, depois os intercâmbios e, por fim, a recuperação das variedades tradicionais de batata adaptadas às condições da região.</p>



<p>A recuperação da batata trouxe um desafio que os agricultores já conheciam bem. Produzir era apenas parte do trabalho. Era preciso garantir sementes para o plantio seguinte. Seu Niva faz as contas quase de cabeça. No ano passado ele plantou 14 caixas de batata e colheu cerca de cinco toneladas. Parte da produção foi vendida para programas públicos. Outra parte ficou reservada para um destino diferente. “Eu armazenei 34 caixas só para não perder. Agora a gente vai tirar para plantar de novo”, conta.</p>



<p>Essas batatas não irão para a mesa de ninguém. São sementes. Cada caixa guarda cerca de 25 quilos de batata cuidadosamente selecionada para dar origem à próxima safra. “Não serve mais para consumo. É só para plantar”, explica.</p>



<p>O armazenamento acontece em um espaço conhecido pelos agricultores como Banco Mãe. Instalado pela cooperativa, o local abriga um contêiner refrigerado onde as sementes permanecem conservadas até a chegada do período mais frio do ano, quando começa um novo ciclo de plantio. Ali, cada agricultor guarda as suas caixas identificadas e, quando chega a época certa, retira apenas o que será necessário para a próxima safra.</p>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
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<p>Seu Niva conhece bem o valor desse cuidado. Quando o pai cultivava batata, não existia câmara fria. As sementes eram guardadas em balaios de cipó, empilhados sobre pequenas paredes de alvenaria dentro de casa. “Naquele tempo não existia caixa. Era tudo em balaio”, recorda.</p>



<p>A tecnologia mudou, mas os cuidados, não. Até hoje, escolher uma batata para virar semente exige paciência e conhecimento. O agricultor também aprendeu que uma batata mal escolhida compromete toda a safra seguinte. Ela precisa ter bom tamanho, não pode apresentar machucados nem sinais de doença. “As melhores vão para semente. As outras ficam para comer’, resume.</p>



<p>O armazenamento também é parte importante do processo. Por isso, depois da colheita, elas não podem pegar chuva, nem ser lavadas. Precisam ficar em ambiente fresco, ventilado e protegido da umidade. “Quem não souber lidar com ela, não lida”, diz, sorrindo.</p>



<p>Mas Seu Niva faz questão de lembrar que esse conhecimento não ficou parado no tempo. Ao lado dos ensinamentos herdados do pai, vieram também novas experiências. Hoje ele utiliza biofertilizantes produzidos a partir do biodigestor instalado na propriedade, experimenta pó de rocha para recuperar o solo e participa de testes realizados em parceria com pesquisadores. “Tudo que o povo me ensinar, eu estou fazendo”, afirma, com a curiosidade de quem ainda se considera um aprendiz.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Há três décadas, a AS-PTA ajuda a cultivar soluções junto com os agricultores</span>

		<p><!-- wp:heading --></p>
<p><em>A </em><strong><em>AS-PTA – Agricultura Familiar e Agroecologia</em></strong><em> atua no Polo da Borborema desde 1993. Diferentemente dos modelos tradicionais de assistência técnica, seu trabalho parte da valorização dos conhecimentos das próprias famílias agricultoras e da construção coletiva de soluções para os desafios do Semiárido.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Ao longo dessas três décadas, a organização apoiou iniciativas como a criação de bancos comunitários de sementes, a recuperação de variedades crioulas, a implantação de sistemas agroecológicos de produção, a formação de agricultores experimentadores, a organização de feiras agroecológicas e o fortalecimento das políticas públicas voltadas para a agricultura familiar.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>A entidade também contribuiu para aproximar agricultores, pesquisadores, universidades e gestores públicos, ajudando a transformar experiências locais em referências para programas estaduais e federais, como o PAA Sementes.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Hoje, a AS-PTA continua atuando como articuladora de redes territoriais, apoiando processos de formação, intercâmbio entre agricultores, organização comunitária e incidência em políticas públicas, sempre com foco na construção de sistemas agrícolas mais resilientes às mudanças climáticas e capazes de garantir renda, conservação da agrobiodiversidade e segurança alimentar.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<h3 class="wp-block-heading"><strong>Entrevista // Nelson Anacleto Pereira</strong></h3>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
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                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>“A pergunta era simples: que agricultura nós queríamos construir?”</strong></h2>
</blockquote>



<p>Quando Nelson Anacleto Pereira assumiu a presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lagoa Seca, em 1992, a agricultura familiar da região enfrentava problemas que iam da dificuldade para comercializar a produção ao uso intensivo de agrotóxicos. Ao longo das décadas seguintes, ele participou da criação do Polo da Borborema, da aproximação com a AS-PTA e da construção de políticas públicas que ajudaram a transformar o território em uma referência nacional em agroecologia. Nesta entrevista, ele relembra essa trajetória e explica por que considera que a maior conquista do Polo não foi uma tecnologia, mas a valorização do conhecimento produzido pelas próprias famílias agricultoras.</p>



<p><strong>Como surgiu o Polo da Borborema?</strong></p>



<p>Quando assumimos o sindicato, em 1992, a gente começou a perceber que os problemas de Lagoa Seca eram praticamente os mesmos dos municípios vizinhos. Primeiro veio a luta pela comercialização. O agricultor produzia, mas chegava à Ceasa e encontrava tudo dominado pelos atravessadores. Depois vieram as dificuldades com a Previdência Rural. Os sindicatos começaram a atuar juntos e perceberam que fazia mais sentido construir respostas coletivas do que cada um enfrentar esses desafios isoladamente. Foi desse processo que nasceu o Polo da Borborema.</p>



<p><strong>Em que momento vocês perceberam que era preciso mudar o modelo de agricultura?</strong></p>



<p>A grande pergunta que fazíamos era muito simples: que agricultura nós queríamos construir? Eu também plantava batata, repolho, hortaliças. Também usava agrotóxicos. Era o modelo que existia. Mas começamos a perceber que ele trazia muitos problemas. Não fazia sentido continuar produzindo alimentos colocando em risco a saúde das pessoas e degradando o ambiente. A partir daí começamos a buscar outro caminho.</p>



<p><strong>Qual foi o papel da AS-PTA nesse processo?</strong></p>



<p>A parceria começou em meados da década de 1990. Primeiro fizemos um diagnóstico da agricultura do município. Depois vieram estudos específicos, principalmente sobre o uso de agrotóxicos. Mas a maior contribuição não foi trazer respostas prontas. Foi ajudar a construir um processo em que agricultores, pesquisadores e técnicos passassem a aprender juntos.</p>



<p><strong>O senhor costuma dizer que os agricultores também produzem conhecimento. O que isso significa?</strong></p>



<p>Durante muito tempo predominou a ideia de que só a universidade ou os órgãos públicos tinham conhecimento. O técnico chegava com uma receita pronta e o agricultor apenas executava. Nós começamos a questionar isso. O agricultor também experimenta, observa, testa, aprende. Quando esse conhecimento passou a dialogar com universidades e pesquisadores surgiram soluções que nenhum dos dois construiria sozinho. Esse talvez tenha sido o maior aprendizado de todo esse processo.</p>



<p><strong>Qual foi a importância das políticas públicas nessa transformação?</strong></p>



<p>Elas foram fundamentais. Mas nenhuma surgiu por acaso. O Programa Um Milhão de Cisternas, o PAA, o PNAE, o PAA Sementes&#8230; tudo isso é resultado de muitos anos de organização social. As políticas públicas fortalecem a agricultura familiar, mas só existem porque houve agricultores organizados para lutar por elas.</p>
</div></div>



<p><strong>Quais são hoje os maiores desafios?</strong></p>



<p>Hoje os desafios são diferentes. Vivemos um período de desmontes de várias políticas públicas e isso mostrou que nenhuma conquista é definitiva. Além disso, as mudanças climáticas e a desinformação trazem novos problemas para as comunidades.</p>



<p>Por isso continuo acreditando que o principal desafio é fortalecer as organizações locais. São elas que garantem a continuidade desse trabalho.</p>



<p><strong>Depois de mais de trinta anos, qual considera a maior conquista do Polo da Borborema?</strong></p>



<p>As políticas públicas são importantes. As tecnologias sociais também. Mas acho que a maior conquista foi outra. Foi construir uma consciência coletiva. Hoje o agricultor não é visto apenas como alguém que recebe orientação. Ele sabe que também produz conhecimento, ensina, aprende e participa da construção das soluções para os problemas do território. Essa, para mim, é a maior conquista de todas.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quando a colheita vira solidariedade</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
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<p>Se no sítio de Seu Niva a preocupação é produzir alimentos e guardar sementes para a próxima safra, a cerca de 20 quilômetros dali outra rede se organiza para garantir que esse tipo de produção chegue a quem mais precisa. No Assentamento Cícero Romana I, em São Sebastião de Lagoa de Roça (PB), funciona a cozinha solidária “A Ordem é Ninguém Passar Fome”. Coordenada por Adenilda Batista Pereira e Maria Lindinalva da Horta, ela nasceu há cerca de dois anos a partir de um trabalho comunitário realizado pelas duas.</p>



<p>“Primeiro a gente fazia sopa, fazia lanche, reunia as famílias para conversar”, lembra Adenilda. Elas percorriam a comunidade de casa em casa, convidando moradores para um café, oficinas de crochê, pintura e outras atividades. O objetivo era criar vínculos e acolher pessoas que viviam em situação de vulnerabilidade. “A gente ia buscar as famílias. Às vezes chegava cansada, mas dizia: &#8216;vamos em tal lugar&#8217;. A gente sentava, tomava um café, conhecia a necessidade de cada um.”</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>“<em>A gente não entrega só comida. Entrega um pouco de atenção também.”</em><br><em>Adenilda Pereira</em></p></blockquote></figure>



<p>Foi dessa convivência que nasceu a cozinha solidária. Quando o grupo passou a integrar o programa federal, veio um desafio ainda maior: produzir duas mil refeições por mês para famílias cadastradas. O entusiasmo, porém, esbarrou na realidade. A cozinha não tinha panelas industriais, nem fogão adequado, e o recurso só era repassado depois que todas as refeições fossem entregues e a prestação de contas aprovada. “A gente tinha que dar a comida primeiro para depois receber o dinheiro”, resume Adenilda.</p>



<p>Para conseguir manter o trabalho, as duas recorreram a empréstimos, doações e à solidariedade de amigos e vizinhos. “Meu salário entrava e já saía para comprar comida. A gente foi dando um jeitinho e conseguiu.”</p>



<p>O valor destinado pelo programa também exige criatividade. Cada refeição é financiada com R$ 2,40, montante que precisa cobrir alimentos, embalagem, gás e demais despesas da cozinha. Para fazer o dinheiro render, Adenilda acompanha promoções, compra em atacado e conta com uma extensa rede de parcerias.</p>



<p>Grande parte dos alimentos preparados ali vem da agricultura familiar da própria Borborema, adquiridos por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Hortaliças, macaxeira, frutas, banana, feijão e outros produtos cultivados por agricultores da região chegam à cozinha por meio das cooperativas e associações locais. Assim, a produção iniciada em propriedades como a de Seu Niva completa um ciclo virtuoso: sai do roçado, passa pelas políticas públicas e termina na mesa de centenas de famílias que enfrentam a insegurança alimentar.</p>



<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Quando a agroecologia movimenta a economia</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Durante décadas, um dos maiores problemas enfrentados pelos agricultores da Borborema não era produzir alimentos, mas encontrar quem pagasse um preço justo por eles. Dependentes dos atravessadores, muitos vendiam a produção por valores que mal cobriam os custos da lavoura.</p>



<p>Na avaliação de Robson Pereira de Oliveira, secretário de Agricultura de São Sebastião de Lagoa de Roça, esse cenário começou a mudar quando políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) passaram a dialogar com a organização construída no território.</p>



<p>Hoje, o município opera três modalidades diferentes do programa: federal, estadual e municipal , além de fornecer alimentos para a merenda escolar por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). “O agricultor deixou de depender exclusivamente do atravessador”, resume.</p>



<p>Segundo ele, um estudo realizado no município mostrou que, apenas entre 2012 e 2022, mais de R$ 10 milhões circularam na economia local por meio das compras públicas da agricultura familiar. O impacto aparece também no preço pago ao produtor. Enquanto um saco de batata-doce pode ser vendido ao atravessador por cerca de R$ 80 durante a safra, programas como o PAA chegam a pagar aproximadamente R$ 250 pelo mesmo produto. Situação semelhante ocorre com o milho verde.</p>



<p>Para Robson, porém, o maior resultado vai além da renda. “As compras públicas fortalecem cooperativas, associações e ajudam os agricultores a permanecer no campo”, afirma. Segundo ele, o próximo desafio é ampliar a agroindustrialização da produção e criar novas oportunidades para que os jovens encontrem perspectivas de trabalho sem precisar deixar a comunidade.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/plante-e-lute-como-uma-mulher-de-juazeirinho/" class="titulo">Plante e lute como uma mulher de Juazeirinho</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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			        </div>
	            </div>
        </div>

		


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                <a href="https://marcozero.org/agroecologia-cria-raizes-em-itapipoca/" class="titulo">Agroecologia cria raízes em Itapipoca</a>
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        </div>

		


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        </div>

		


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                <a href="https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/" class="titulo">Um escudo contra as mudanças climáticas</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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        </div>

		


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	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
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	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
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			</item>
		<item>
		<title>Plante e lute como uma mulher de Juazeirinho</title>
		<link>https://marcozero.org/plante-e-lute-como-uma-mulher-de-juazeirinho/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 21:49:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Maria de Fátima Santos foi logo avisando: “minha história dá um livro”. Nascida em uma família de pequenos agricultores, na comunidade Pedra d’Água, em Juazeirinho (PB), ela passou boa parte da vida carregando água na cabeça. Criou cinco filhos, enfrentou o machismo dentro de casa e viveu anos sem ter dinheiro para comprar uma roupa [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Maria de Fátima Santos foi logo avisando: “minha história dá um livro”. Nascida em uma família de pequenos agricultores, na comunidade Pedra d’Água, em Juazeirinho (PB), ela passou boa parte da vida carregando água na cabeça. Criou cinco filhos, enfrentou o machismo dentro de casa e viveu anos sem ter dinheiro para comprar uma roupa para si mesma. “Antes eu era cega e não me via”, costuma dizer. Hoje, aos 65 anos, é presidente da associação da comunidade onde mora, participa de conselhos, fornece bolos para a merenda escolar e, com orgulho, afirma: “Hoje eu sou mais eu”.</p>



<p>A poucos quilômetros dali, Sandra Moraes começou uma pequena revolução com uma única galinha emprestada pela sogra. Em dois anos, transformou o quintal em uma criação de galinhas de capoeira, conquistou clientes pela região e se tornou uma espécie de central de vendas da família. “Graças a Deus, hoje o problema não é vender. É produzir mais”, resume.</p>



<p>Já Petrúcia Oliveira, 31 anos, cresceu acompanhando os pais e os avós em reuniões comunitárias, intercâmbios e mutirões. Formada dentro das organizações da agricultura familiar, jamais imaginou ocupar um cargo público. No fim de 2024, recebeu um telefonema inesperado da prefeita de Juazeirinho e aceitou o desafio de comandar a Secretaria de Agricultura do município. “Se tivesse alguém lá dentro para provocar, já seria alguma coisa”, pensava.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><em>Localizado no Cariri paraibano, às margens da BR-230, Juazeirinho tem cerca de 17 mil habitantes, dos quais 45% vivem na zona rural. O município abriga 47 comunidades rurais e aproximadamente 1,4 mil estabelecimentos agropecuários, sendo 73% pertencentes à agricultura familiar. Predominam pequenas propriedades: quase sete em cada dez têm até 10 hectares. Inserido no Semiárido, Juazeirinho enfrenta chuvas irregulares e longos períodos de estiagem, condições que impulsionaram a adoção de estratégias de convivência com o clima, como cisternas, bancos comunitários de sementes e sistemas produtivos agroecológicos. Hoje, a forte organização comunitária e a agricultura familiar são marcas da identidade e da economia do município.</em></p>
        </div>
    </div>



<p>As três histórias são fortes e especiais, mas estão longe de serem únicas. Como as protagonistas dessa reportagem, outras famílias foram beneficiadas por projetos da sociedade civil organizada e por diversas políticas públicas. Ao longo de mais de duas décadas, cisternas, bancos comunitários de sementes, quintais produtivos, assistência técnica, mercados institucionais e organização comunitária ajudaram a transformar a vida de centenas de famílias agricultoras.</p>



<p>Ao contar as histórias de Maria de Fátima, Sandra e Petrucia, também estamos falando de uma população organizada em uma ampla rede de associações comunitárias, sindicatos, grupos de mulheres, cooperativas e outras organizações da sociedade civil, que desempenham papel central na promoção da agroecologia, na implementação de políticas públicas e no fortalecimento da agricultura familiar.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">A atuação do PATAC em Juazeirinho</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>O PATAC (Programa de Aplicação de Tecnologias Apropriadas às Comunidades) atua em Juazeirinho há mais de duas décadas, assessorando agricultores e agricultoras familiares na construção de alternativas de convivência com o Semiárido. Em parceria com organizações locais, o trabalho contribuiu para fortalecer a Comissão Municipal da Agricultura Familiar, implantar cisternas para consumo e produção, criar bancos comunitários de sementes, fundos rotativos solidários, feiras agroecológicas e unidades de beneficiamento de alimentos. A entidade também apoia a formação de mulheres e jovens, a assessoria técnica agroecológica e a incidência em políticas públicas, ajudando a transformar a organização comunitária em um dos principais pilares do desenvolvimento rural do município.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Maria de Fátima : “Hoje eu sou mais eu”</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A primeira coisa que chama a atenção na propriedade de Maria de Fátima é o jardim bem cuidado rodeando o terraço arejado onde ela recebe as visitas. De lá, é possível ver várias fruteiras, a cisterna que garante água nos momentos de seca e, um pouco mais afastada, a casa onde elas e as vizinhas produzem e armazenam as polpas de frutas que fornecem para as escolas do município. As coisas andam bem no quintal produtivo, que funciona segundo princípios agroecológicos, e também na sua vida pessoal. Mas nem sempre foi assim.</p>



<p>Maria de Fátima tem uma expressão que resume a própria vida. “Antes eu era cega e não me via.” Perto de completar 66 anos, ela fala da antiga Maria de Fátima como se estivesse descrevendo outra pessoa. Aquela mulher que saía de casa apenas para trabalhar no roçado, cuidava dos cinco filhos e passava os dias entre a cozinha e os afazeres domésticos não existe mais. “Meu trabalho era do roçado para casa e de casa para o roçado. Eu não me enxergava.”</p>



<p>Filha de agricultores, nascida e criada na comunidade Pedra d&#8217;Água, em Juazeirinho, no Cariri paraibano, Dona Fátima estudou apenas até a quarta série. Casou, criou os filhos e acreditou durante muito tempo que aquela era a vida que lhe cabia.</p>



<p>Tudo começou a mudar em 2006, quando um primo, então presidente da associação comunitária, insistiu para que ela participasse de uma reunião sobre a construção das primeiras cisternas para armazenamento de água de consumo. “Meu marido não queria que eu fosse. Naquele tempo as mulheres eram muito submissas. Mas, no terceiro convite, eu disse: agora eu vou.”</p>



<p>Foi nessa reunião que conheceu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e, depois, o PATAC. Vieram as reuniões, os intercâmbios, as viagens e os encontros com outras mulheres. “Foi aí que eu abri os olhos.”</p>



<p>Existe um outro ponto de ruptura que separa a antiga da nova Maria de Fátima. Durante décadas, ela acreditou que seus anos de escola haviam ficado para trás. O sonho de continuar estudando foi interrompido ainda na infância. O pai, frustrado por não ter conseguido fazer do filho mais velho o estudante que desejava, acabou não incentivando os demais. Já casada e com as crianças crescidas, ela decidiu recuperar o tempo perdido. Voltou para a sala de aula, estudando à noite, e concluiu os estudos em 2012. “Meu sonho era ser enfermeira”, conta. “Meu marido não queria muito, mas eu dizia: eu vou estudar. E fui.”</p>



<p>A chegada das cisternas, de primeira e segunda água, instaladas por meio do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), representou muito mais do que água perto de casa. Antes delas, Dona Fátima percorria mais de três quilômetros carregando latas na cabeça. Depois, os tanques de pedra foram recuperados. O quintal ganhou árvores frutíferas, caixas d&#8217;água e sistemas de armazenamento. Hoje, onde antes predominava a algaroba, crescem pés de acerola, pitanga, pinha, graviola, seriguela e araticum. “O povo diz que o Cariri não dá nada. Mas dá. Dá, sim.”</p>



<p>Com as frutas vieram as polpas, a participação na feira agroecológica e o fornecimento para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Mais recentemente, os bolos produzidos por ela passaram a integrar a merenda das escolas do município.</p>



<p>Foi com o dinheiro desse trabalho que comprou uma vaca. Depois, uma máquina de lavar roupas. Em seguida, um armário e uma cristaleira. “Não tem preço você entrar numa loja e comprar uma roupa com o dinheiro do seu trabalho.”</p>



<p>A independência financeira veio acompanhada de outra conquista. “Antes eu tinha que esperar. Hoje não. Hoje eu compro minhas roupas, meus sapatos, o que eu quiser. Tudo fruto do meu trabalho.”</p>



<p>Ao longo da vida, Dona Fátima enfrentou dores que ainda a emocionam. Perdeu dois filhos e passou anos em um casamento marcado pelo machismo e pela dependência econômica. “Meu marido nunca levantou a mão para mim. Mas mulher não sofre só quando apanha.” Ela conta que muitas vezes engoliu o sofrimento para criar os filhos. “Eu pensava: se eu deixar esse homem, como vou criar meus meninos?”</p>



<p>Foi trabalhando fora, fazendo feira e contando com a ajuda do sogro que conseguiu garantir o sustento da família. “Ele nunca comprou uma caneta para um filho. Tudo foi fruto do meu trabalho.”</p>



<p>Hoje, vê com orgulho as filhas seguindo caminhos diferentes. E gosta de perceber que as mudanças alcançaram também as novas gerações. “Minha filha diz que se espelha em mim. E eu digo que guerreira é ela.”</p>



<p>Presidente da associação da comunidade, integrante da Comissão Municipal e participante de conselhos e atividades da igreja, Dona Fátima continua com a rotina intensa. Acorda às três da manhã, faz as orações, reza o rosário e, antes das seis, já está em atividade. “No dia em que eu parar, acho que me dá um troço.”</p>



<p>Quando lembra daquela mulher de antes de 2006, quando decidiu aceitar o terceiro convite para uma reunião, os olhos brilham. “Hoje eu sou mais eu.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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</p>
	                
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                    </figure>

	

	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><em><strong>Foto legenda:</strong></em></p>
<p><em>Conhecido na região como “o tanque do milagre”, o reservatório natural localizado na propriedade de Maria de Fátima nunca secou, mesmo nos períodos mais severos de estiagem. Em tempos difíceis, a água armazenada entre as pedras chegou a abastecer cinco famílias da comunidade Pedra d&#8217;Água. “Você tira água de manhã e, quando volta mais tarde, ele já está cheio de novo. Esse mistério só Deus sabe explicar”, diz a agricultora.</em></p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sandra</strong>: &#8220;Hoje o problema não é vender. É produzir mais.”</h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Na primeira vez que participou de uma reunião do programa ATER Mulheres, Sandra da Silva Araújo Moraes ouviu falar sobre direitos, projetos e oportunidades para mulheres agricultoras. Mas quando voltou para casa, na comunidade Ilha Grande, em Juazeirinho (PB), estava frustrada por não ter os requisitos mínimos para acessar o programa de fomento rural. Ela não tinha o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), não tinha praticamente nenhuma produção e tampouco recursos para investir no sonho que carregava desde criança: criar galinhas. “Meu problema era começar. Eu tinha vontade, mas não tinha dinheiro.”</p>



<p>Foi então que aconteceu algo inusitado. Uma galinha da sogra, que morava na casa ao lado, resolveu por ovos no quintal de Sandra. “Eu disse: &#8216;Vou amarrar essa galinha para mim&#8217;. E ela respondeu: &#8216;Pode amarrar&#8217;.” A ave chocou 13 ovos e nasceram 12 fêmeas. E assim, quase por acaso, começou a pequena criação que hoje garante uma renda extra para a agricultora.</p>



<p>Filha de agricultores, Sandra nasceu em Poçinhos (PB). O pai era vaqueiro e a família vivia mudando de fazenda em fazenda. Quando tinha cerca de oito anos, chegou a Juazeirinho e nunca mais saiu. “Cresci na agricultura. Desde que me entendo por gente vivo disso.”</p>



<p>Mas, apesar da ligação com o campo, durante muitos anos ela esteve distante das reuniões, das formações e dos espaços de organização. “Eu não participava de nada. Nem acreditava que um dia fosse receber alguma coisa do governo.”</p>



<p>A primeira mudança veio através do programa ATER Mulheres, iniciativa voltada para a assistência técnica e para a autonomia econômica das agricultoras. Foi ali que Sandra começou a entender a importância da documentação e dos programas voltados para a agricultura familiar. “Até para fazer a CAF é difícil. Muitas vezes, a pessoa recebe um não e desiste. Foi nessas reuniões que comecei a entender meus direitos.”</p>



<p>Embora não tenha sido contemplada naquele primeiro momento, pouco tempo depois conseguiu ingressar no projeto Quintal das Margaridas, desenvolvido no território com apoio das organizações da agricultura familiar. Recebeu R$ 4,5 mil em fomento produtivo, além de assistência técnica e acompanhamento. “Pode parecer pouco. Mas, para uma mulher que nunca tinha recebido nada diretamente, foi uma conquista muito grande.’</p>



<p>Mais importante do que o dinheiro, diz ela, foram os encontros com outras mulheres. “A gente ria, se emocionava, desabafava. Era uma convivência muito boa.” Com o apoio do projeto e a experiência acumulada desde criança, Sandra começou a ampliar a criação.</p>



<p>Hoje tem cerca de cinquenta galinhas de capoeira e alguns perus. Os ovos e as aves abatidas abastecem consumidores de Juazeirinho, Campina Grande, João Pessoa e pessoas ligadas às redes de organizações da agricultura familiar. “Graças a Deus, hoje o problema não é vender. É produzir mais.”</p>



<p>Sandra faz questão de trabalhar apenas com galinhas de capoeira. “Não adianta enganar o cliente.” Ela explica que muitos compradores procuram os ovos por recomendação médica ou por buscar uma alimentação mais saudável. “Quem compra da gente quer a galinha verdadeira. Se descobrir que você misturou, nunca mais volta.”</p>



<p>Os conhecimentos adquiridos nas formações e na prática transformaram a agricultora em uma espécie de especialista em raças nativas. “Até pelo cheiro eu sei se é galinha de capoeira. É só abrir a panela.”</p>



<p>Mas criar os animais é apenas uma parte do trabalho. A outra é vender. E é justamente essa a parte de que ela mais gosta. Pelos status do WhatsApp, comercializa ovos, galinhas, leite, maxixe, coentro e cebolinha. Quando as irmãs não conseguem vender a produção, recorrem a ela. O mesmo acontece com o pai e a sogra. “Eu vendo tudo.”</p>



<p>O pai, que não usa redes sociais, faz as entregas. “Ele diz: &#8216;Você vende, que eu entrego&#8217;.” Com orgulho, Sandra conta que os clientes já entram nos status do WhatsApp para saber o que há disponível naquele dia. “Graças a Deus, tudo o que eu posto eu vendo.”</p>



<p>Em casa, a filha Isadora, de sete anos, parece seguir os passos da mãe. “Ela ama as galinhas. Vive dentro do galinheiro.” Já José Isaac, de 12 anos, prefere manter distância. “Ele morre de medo”, conta, entre risos.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><em>Sandra tem um forno agroecológico que tem um peso importante no orçamento doméstico ao ajudar na economia do gás de cozinha. O fogão foi construído com recursos de um fundo rotativo, que ela é a atual tesoureira, mantido por vinte pessoas da comunidade que, desde 2006, contribuem com R$ 5 todo mês</em></p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Petrucia: “Alguém precisava estar lá dentro”</h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Nos últimos dois anos, a vida de Petrucia Nunes de Oliveira mudou quase por completo. Foi morar em uma casa nova, teve o primeiro filho e começou um trabalho que nunca imaginou exercer. E não foi um emprego qualquer.</p>



<p>No fim de dezembro de 2024, a agricultora e articuladora social de Juazeirinho recebeu um telefonema da prefeita Ana Virgínia convidando-a para assumir a Secretaria Municipal de Agricultura. Filha e neta de agricultores da comunidade Sussuarana, Petrucia jamais havia ocupado um cargo público. Na família, ninguém tinha tradição política. “Passei o fim de semana inteiro em crise”, lembra.</p>



<p>A decisão não era simples. Além de deixar o trabalho que desenvolvia junto às organizações da agricultura familiar, ela assumiria uma secretaria historicamente marcada por uma visão tradicional do campo, em um ambiente predominantemente masculino. Poucos meses depois, já no cargo, precisou interromper a rotina para o nascimento do filho. Em abril entrou em licença-maternidade. Retornou em agosto com um desafio ainda maior: aprender a equilibrar os cuidados com o bebê e a responsabilidade de conduzir uma das principais políticas públicas do município.</p>



<p>Mas a história de Petrucia com a agricultura começou muito antes daquele telefonema. Filha e neta de agricultores, cresceu acompanhando os pais e os avós em reuniões do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, intercâmbios promovidos pelo PATAC e atividades do Coletivo Regional. Enquanto outras crianças brincavam, ela ouvia conversas sobre bancos comunitários de sementes, cisternas, convivência com o Semiárido e organização comunitária. “Meu avô foi um dos primeiros a participar dos intercâmbios. Foi ele quem despertou em nós esse amor pela agricultura.”</p>



<p>Nascida em 1994, ela pertence à geração que já encontrou um território transformado pelas organizações da agricultura familiar. Participou da Comissão de Sementes, ajudou a criar a Comissão de Juventude do Coletivo e passou a integrar diferentes espaços de formação e articulação política. “Nossa preocupação nunca foi ocupar cargos. A gente queria que esse trabalho fosse reconhecido.”</p>



<p>Foi nesse período que as organizações decidiram estreitar o diálogo com a prefeita Ana Virgínia. Primeiro apresentaram o conjunto de experiências desenvolvidas no município. Depois a convidaram para conhecer, de perto, os quintais produtivos, os bancos de sementes, as tecnologias de acesso à água e as famílias agricultoras. “O olhar dela sobre a agricultura era muito ligado ao corte de terra e à limpeza de barreiros. Nós mostramos que existia outro lado da agricultura. Um lado capaz de proporcionar uma vida melhor para as famílias.”</p>



<p>O diálogo ganhou força durante o projeto Cultivando Futuros. Ao lado de agricultores, lideranças e organizações, Petrucia participou da reconstrução da história da agricultura familiar de Juazeirinho. O grupo revisitou a trajetória das políticas públicas no município, identificou os principais desafios e elaborou uma carta de propostas para orientar a atuação da gestão municipal. “Foi um momento muito bonito. A gente revisitou a história dos nossos pais e dos nossos avós.”</p>



<p>Petrucia jamais imaginou que, poucos meses depois, estaria do outro lado da mesa. “Eu ajudava a construir aquela carta construída durante o projeto Cultivando Futuros enquanto estava na sociedade civil. De repente, me vi do outro lado, tentando colocá-la em prática.”</p>



<p>Assim, estabeleceu como prioridades estão a implantação do Sistema de Inspeção Municipal, o fortalecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), a ampliação da participação da agricultura familiar na Juacapri, os campos de multiplicação de palma e a adaptação das chamadas públicas para facilitar o acesso dos agricultores.</p>



<p>São mudanças discretas, mas que dialogam diretamente com as reivindicações construídas pelas organizações ao longo de mais de duas décadas. Ser mulher e jovem em um ambiente tradicionalmente ocupado por homens também trouxe desafios. “Às vezes as pessoas perguntam: &#8216;A secretária é você?’”</p>



<p>Enquanto esteve do lado de fora da prefeitura, seu papel era provocar. Agora, acredita que sua missão é abrir caminho para que a agricultura familiar deixe de ser uma pauta periférica e passe a ocupar um lugar permanente nas decisões do município. “Não quero ficar aqui para sempre. Mas, enquanto estiver, quero contribuir para fortalecer esse trabalho.”</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h3 class="wp-block-heading">Leia também:</h3>



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                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
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			</item>
		<item>
		<title>Agroecologia cria raízes em Itapipoca</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Jun 2026 15:23:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todas as quartas-feiras, ainda de madrugada, grupos de agricultores deixam suas propriedades espalhadas pela extensa zona rural de Itapipoca (CE) em direção à Praça Manoel Alves de Freitas, no centro da cidade. Antes mesmo do nascer do sol, montam as barracas de toldo verde que dão forma à Feira Agroecológica e Solidária, espaço que há [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Todas as quartas-feiras, ainda de madrugada, grupos de agricultores deixam suas propriedades espalhadas pela extensa zona rural de Itapipoca (CE) em direção à Praça Manoel Alves de Freitas, no centro da cidade. Antes mesmo do nascer do sol, montam as barracas de toldo verde que dão forma à Feira Agroecológica e Solidária, espaço que há duas décadas ajuda famílias agricultoras a escoar sua produção e garantir uma fonte direta de renda.</p>



<p>Mas a feira representa mais do que uma oportunidade de comercialização. Ela é o resultado de anos de organização comunitária, políticas públicas voltadas para o campo e do uso de tecnologias de convivência com o Semiárido. Por trás de cada produto exposto nas barracas estão histórias que ajudam a compreender como redes agroecológicas enfrentam o avanço da monocultura do coco, dos grandes empreendimentos turísticos e da expansão de projetos de energia eólica sobre seus territórios.</p>



<p>No dia em que a Marco Zero visitou a feira, 17 famílias participavam da atividade. São os próprios agricultores que organizam o funcionamento do espaço por meio de uma associação, contando com o apoio do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra), organização que atua no fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia no Ceará. A autogestão é parte importante do processo de fortalecimento coletivo da feira e da autonomia dos próprios agricultores.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>Localizado no noroeste do Ceará e conhecida como “terra dos três climas”, por integrar litoral, serra e sertão, Itapipoca ocupa uma área de 1.600,3 km² e é o 7º município cearense mais populoso. Segundo o Censo 2022, tem 131.041 habitantes, com 54.433 pessoas vivendo no campo (41,5% da população total) a maior população rural em números absolutos no estado.</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>Itapipoca reúne 6.629 estabelecimentos agropecuários, dos quais 82% são da agricultura familiar, evidenciando a centralidade desse segmento na economia local. O território abriga ainda povos e comunidades tradicionais, como o povo indígena Tremembé da Barra do Mundaú e comunidades quilombolas na região serrana.</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
        </div>
    </div>



<p>Maria de Fátima Pinto da Silva, moradora da comunidade de Jenipapo Barrento, é um exemplo dessa trajetória. Ela participa da feira desde sua criação, há vinte anos. Sua aproximação com a agroecologia começou após participar de um curso de Agente Multiplicador de Agroecologia, que durou dois anos. “A gente fazia agroecologia e não sabia. Já tinha cuidado com a terra. Mas só descobri isso com o curso”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Hoje, Maria de Fátima divide seu tempo entre a barraca onde comercializa seus produtos e as atividades de coordenação da Feira Agroecológica de Itapipoca e da Rede de Feiras Agroecológicas do Ceará. Ela lembra que, no início, a feira acontecia a cada quinze dias. Com o passar dos anos, cresceu, se estruturou e passou a funcionar semanalmente.</p>



<p>O acesso a políticas públicas e programas voltados para a agroecologia costuma ser a principal porta de entrada para muitos agricultores que hoje participam da feira. O casal José Arildo e Leny, moradores do distrito de Calugi, é um exemplo disso.</p>



<p>A mudança começou com a chegada do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC). Com maior oferta e regularidade no acesso à água, passaram a produzir hortaliças, coco e frutas. Também criam bodes e galinhas. “A cisterna mudou tudo, porque possibilitou que a gente plantasse durante o verão”, explica José Arildo.</p>



<p>Desde 2024, o casal participa da feira comercializando produtos cultivados no quintal, além de bolos, doces, tapiocas e café. Quando não estão na praça, vendem na própria casa ou em eventos, jogos e cavalgadas da região. A renda da família também é complementada pelo trabalho artesanal de Leny, que produz peças de crochê. “Temos que ser guerreiros. Fazer um pouquinho aqui, um pouquinho ali”, resume.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">O que é e o que faz o CETRA em Itapipoca</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>O CETRA (Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora) é uma organização da sociedade civil criada nos anos 1980, no Ceará, com atuação voltada para a agricultura familiar, a agroecologia, os direitos humanos e a convivência com o semiárido. Em Itapipoca, o CETRA atua há mais de quatro décadas. A organização teve papel importante na formação política de comunidades rurais e na luta pela terra, contribuindo para a criação de assentamentos da reforma agrária e oferecendo assessoria jurídica em conflitos fundiários, especialmente na defesa do povo Tremembé da Barra do Mundaú.</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong><em>A partir dos anos 2000, o trabalho se consolidou na promoção da agroecologia. O CETRA apoiou a criação da Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca, articulou a Rede de Agricultores/as Agroecológicos/as dos Vales do Curu e Aracatiaçu e desenvolveu ações de formação, assessoria técnica, quintais produtivos, sistemas agroflorestais e beneficiamento de alimentos. A organização também impulsionou tecnologias sociais de convivência com o semiárido, como cisternas e casas de sementes, além de fortalecer a participação de mulheres e juventudes rurais em processos de geração de renda, cultura alimentar e comunicação. Atualmente, o CETRA segue atuando na articulação de políticas públicas, na defesa dos territórios e na consolidação da agroecologia como estratégia de desenvolvimento sustentável no município</em></strong></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Farmácia agroecológica</h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Maria Dalva Nascimento tem 73 anos e mora na comunidade de Lagoa do Juá, na zona rural de Itapipoca, a cerca de 30 quilômetros da sede do município. Como a maioria dos agricultores que participam da feira, ela chega ao centro da cidade em caminhões pau-de-arara.</p>



<p>Conhecida como Dalvinha, mantém uma das barracas mais procuradas da Feira Agroecológica e Solidária. O espaço funciona como uma espécie de farmácia natural, onde comercializa folhas, sementes, pomadas, garrafadas e outros preparados produzidos a partir de plantas cultivadas em seu próprio quintal. “Tudo que a gente traz, a gente vende, graças a Deus”, diz.</p>



<p>Os produtos são resultado de conhecimentos acumulados ao longo da vida e aprofundados durante sua participação na Pastoral da Criança, onde aprendeu sobre as propriedades terapêuticas de diversas espécies medicinais. “Meus remédios são todos tirados daqui”, afirma, apontando para as plantas que cultiva em casa. Há cerca de oito anos na feira, Dalvinha diz que o trabalho vai muito além da renda complementar. “É uma terapia para mim.”</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Bula popular</span>

		<p><!-- wp:heading {"level":3} --></p>
<p><strong>Malva-santa</strong> – tosse e gripe</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Aranto</strong> – gastrite</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Semente de moringa</strong> – diabetes</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Mastruz</strong> – expectorante</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Pomada de aroeira</strong> – dores musculares e inflamações</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Farinha de caroço de abacate</strong> – anti-inflamatório e diurético</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Lambedor de jenipapo</strong> – tosse e gripe persistente</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Agrião</strong> – auxilia na digestão</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Garrafada medicinal</strong> – utilizada tradicionalmente contra infecções</p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Óleo de coco</strong> – cuidados com a pele e os cabelos</p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Aprendizado e inovação</h3>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/06/Inacia-Patricia-do-Nascimento-1-300x200.jpg">
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	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Há dez anos, Inácia Patrícia do Nascimento participa da feira, onde comercializa bolos, lanches e outros alimentos produzidos por ela mesma. Agricultora familiar, encontrou na venda direta uma forma de agregar valor à produção e ampliar a renda da família.</p>



<p>Um dos diferenciais de seus produtos está na forma de embalagem. Em vez de utilizar filme plástico, Inácia recorre às folhas de bananeira. “Além de reduzir os custos, contribui para o meio ambiente e ainda fica mais bonito”, afirma.</p>



<p>Toda a produção é preparada em um fogão agroecológico recebido recentemente por meio de um projeto de apoio à agricultura familiar. Segundo ela, o equipamento trouxe uma economia significativa. “O botijão de gás durava quinze dias. Hoje dura um mês.”</p>



<p>Além da atividade produtiva, Inácia participa do sindicato e da associação comunitária. Para ela, o fortalecimento da agricultura familiar depende da combinação entre organização social e acesso às políticas públicas.</p>



<p>Ao longo dos anos, conseguiu participar de diferentes programas de apoio aos agricultores. Em 2012, ingressou no Brasil Sem Miséria, atualmente denominado Fomento Mulher, e utilizou os recursos para investir na criação de galinhas. Dois anos depois, passou a integrar o projeto Florestação, por meio do qual recebeu equipamentos para a produção de cajuína.</p>



<p>Sua trajetória é marcada pela busca constante por novos conhecimentos. “Ninguém sabe tudo. Estamos sempre aprendendo.” Para ela, a inovação faz parte da própria experiência agrícola. “Agricultor é um inovador. Fica sempre inventando coisas.”</p>



<p>Antes de ingressar na feira, Inácia já produzia em sua propriedade, mas não encontrava canais de comercialização. Começou vendendo galinhas e tapioca. Com o tempo, ampliou a variedade dos produtos e passou a investir em alimentos processados, como bolos e lanches, aumentando o valor agregado da produção.</p>



<p>Durante a pandemia de Covid-19, adaptou-se às novas formas de venda e passou a comercializar seus produtos também pela internet. A experiência permanece até hoje. “Quem não sabia mexer no celular teve que aprender”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Tudo integrado</h3>



<p>Entrar na propriedade de José Oliveira da Costa, o Zezão, de 53 anos, e de Francisca Maria da Silva Oliveira, na comunidade de Lagoinha, é uma imersão na arte e na ciência de conviver com a escassez de água no Semiárido.</p>



<p>Em uma área de apenas quatro hectares, dos quais cerca de 40% são mantidos como reserva, praticamente tudo remete a alguma estratégia de aproveitamento dos recursos naturais ou a tecnologias sociais voltadas para a convivência com o clima da região.</p>



<p>A propriedade funciona segundo princípios agroecológicos e reúne uma série de iniciativas que se complementam. Há cisternas destinadas ao consumo humano e à produção agrícola, instaladas por meio do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). A família também utiliza sistemas de reaproveitamento de águas cinzas e a tecnologia Bioágua, que permite reutilizar água doméstica na irrigação.</p>



<p>A gestão cuidadosa da água é uma das bases que sustentam toda a produção. Durante o período chuvoso, concentrado nos primeiros meses do ano, Zezão evita utilizar a água armazenada nas cisternas. O objetivo é preservar as reservas para o período de estiagem. Com segurança hídrica, a família consegue diversificar a produção e reduzir sua vulnerabilidade às oscilações climáticas.</p>



<p>Com mais água e os recursos de um programa de fomento acessado há cerca de um ano, Zezão implantou uma área de hortaliças e já planeja ampliar o cultivo. Atualmente produz cheiro-verde, pimenta-de-cheiro, pimentão, tomate, feijão e plantas medicinais, além de manter um pomar com diversas espécies frutíferas.</p>



<p>A lógica da agroecologia aparece em cada detalhe do manejo. As folhas recolhidas na área de reserva são utilizadas para proteger o solo e conservar a umidade. Restos orgânicos ganham nova função como adubo e fertilizante. As mudanças ficaram evidentes especialmente no pomar. “As laranjeiras nunca tinham segurado os frutos”, conta Zezão. “Depois que ensinaram a colocar cinza, borra de café e casca de ovo como fertilizante, as coisas mudaram. É um NPK natural.”</p>



<p>Além da agricultura, a família complementa a renda com outras atividades. Zezão produz carvão vegetal, recolhe esterco para adubação nas proximidades do açude e também pesca para consumo e venda. A produção atual atende às necessidades da casa e ajuda a abastecer os três filhos, que vivem nas proximidades. “Cada um na sua casa”.</p>



<p>A propriedade funciona como um sistema integrado. Hortaliças, pomar, plantas medicinais, flores ornamentais, área de floresta, roçado, viveiro de mudas e criação de animais compõem subsistemas conectados entre si. Resíduos tornam-se insumos, a água é aproveitada ao máximo e cada atividade fortalece as demais.</p>



<p>O resultado é um modelo produtivo baseado na diversidade, na autonomia e no uso eficiente dos recursos disponíveis, uma lógica bastante diferente daquela adotada pelos sistemas agrícolas de monocultura predominantes em outras áreas do município.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Caminho inverso</span>

		<p><em>A história da família também ajuda a compreender as transformações vividas pelo Semiárido nas últimas décadas. Em 2014, após anos vivendo em Fortaleza, Zezão e Francisca decidiram retornar para o campo. “Gostei demais da mudança. Não me arrependo”, afirma. “Tinha a agricultura no sangue.”</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>Segundo ele, o retorno só foi possível graças ao acesso à água proporcionado pelas tecnologias de convivência com o Semiárido. “Não faz mais sentido voltar para a cidade grande. Vou visitar meu filho e já fico com vontade de voltar.”</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --> <!-- wp:paragraph --></p>
<p><em>A decisão ganha ainda mais significado quando comparada à trajetória de seu pai, que deixou a região em 1978 fugindo da seca. Décadas depois, a família percorreu o caminho inverso: retornou ao campo atraída justamente pelas condições que hoje permitem produzir, gerar renda e viver no Semiárido.</em></p>
<p><!-- /wp:paragraph --></p>
	</div>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Para Maria do Socorro Ferreira Lima, a Socorrinho, coordenadora do P1+2 no território e integrante do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra), o sucesso de experiências como a da família Oliveira não se explica apenas pela instalação de equipamentos. “Os projetos chegam não apenas para construir cisternas. Chegam para formação. Os agricultores também estão inseridos nas comunidades. São lideranças”, afirma.</p>



<p>A atuação comunitária faz parte da rotina de Zezão. Ele participa do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e coordena uma casa de sementes, espaço coletivo dedicado à preservação, multiplicação e troca de variedades adaptadas às condições locais.</p>



<p>Na avaliação de Socorrinho, esse componente organizativo é tão importante quanto as tecnologias implantadas. “Quando a água chega acompanhada de formação, organização comunitária e troca de conhecimentos, ela produz muito mais do que alimentos. Produz autonomia.”</p>



<h2 class="wp-block-heading">Além do coco</h2>



<p>A experiência de Zezão e Francisca está longe de ser um caso isolado. Em maior ou menor grau, a lógica da agroecologia se espalha por diferentes comunidades rurais de Itapipoca, adaptando-se às características de cada território.</p>



<p>No Assentamento Maceió, no Sítio do Coqueiro, o quintal de Darliene e de sua mãe, Maria das Dores dos Santos, demonstra como pequenas áreas podem concentrar uma impressionante diversidade de produção.</p>



<p>Desde 2024, a família participa do projeto Quintal das Margaridas, iniciativa baseada nos princípios dos sistemas agroflorestais, que combina produção de alimentos, conservação ambiental e geração de renda.</p>



<p>Em uma caminhada pelos cerca de dois hectares da propriedade é possível encontrar abacaxi, limão, seriguela, goiaba, batata-doce, maxixe, abóbora, milho e coqueiros. A diversidade é resultado de um processo gradual de transformação da área. “Já existiam os coqueiros. Agora estamos tentando dar vida ao quintal plantando outras coisas”, explica Darliene. A mudança só foi possível graças ao acesso à irrigação, que ampliou as possibilidades de cultivo e permitiu a introdução de novas espécies.</p>



<p>A propriedade também incorpora tecnologias voltadas para o aproveitamento de recursos e a redução de custos. Um dos destaques é o biodigestor, instalado por meio de um projeto da Rede de Feiras Agroecológicas. O equipamento utiliza resíduos vegetais e dejetos dos animais criados na propriedade para produzir biogás. “Para a gente ser agricultor, tem que criar animais”, diz Darliene. Segundo ela, a tecnologia teve impacto direto no orçamento doméstico. “Desde que o biodigestor chegou, não compro mais gás.”</p>



<p>Outro equipamento presente no quintal é o minhocário, utilizado na produção de húmus, fertilizante orgânico empregado no cultivo das diversas espécies plantadas na área.</p>



<p>Além de abastecer a própria família, parte da produção é comercializada na Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca. Outra parte circula por meio de trocas com vizinhos e agricultores da comunidade.</p>



<p>Os cocos colhidos na propriedade também geram renda. Parte deles é destinada à produção artesanal de óleo. Mas essa já é outra história.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Balanço do Coqueiro</h3>



<p>Bem perto do quintal de Darliene funciona uma iniciativa que reúne cultura, trabalho coletivo e geração de renda. O som que antes marcava o ritmo dos tambores e das apresentações culturais hoje também acompanha o funcionamento de prensas, raspadores e liquidificadores industriais. Foi desse encontro entre tradição e reinvenção que nasceu o Balanço do Coqueiro, grupo de mulheres que transformou o coco em fonte de renda e fortalecimento comunitário.</p>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>A história começou em 2010, quando o Balanço do Coqueiro surgiu como um grupo de percussão, arte e cultura. Formado por jovens, mulheres e crianças da comunidade, o coletivo tinha como objetivo fortalecer vínculos sociais e valorizar as expressões culturais locais. “Eu sou uma das mais antigas. Entrei no começo e estou até hoje”, conta Rojane Alves do Nascimento, atualmente presidente da Associação de Moradores do Sítio Coqueiro.</p>



<p>O beneficiamento do coco veio alguns anos depois. Em 2017, a partir de projetos de apoio e capacitação, surgiu a ideia de transformar uma matéria-prima abundante na região em produtos com maior valor agregado. “Primeiro veio o grupo cultural. Depois vieram os projetos que permitiram transformar o coco em produto”, explica Rojane.</p>



<p>No início, tudo era feito de forma improvisada. Como não havia recursos para comprar matéria-prima, as integrantes utilizavam cocos retirados de suas próprias propriedades. Com o tempo, o grupo passou a adquirir o produto de agricultoras da comunidade, estabelecendo uma relação comercial que fortalece a economia local. Atualmente, paga R$ 1 por coco descascado, valor superior ao oferecido por atravessadores, que costumam pagar entre R$ 0,30 e R$ 0,50 pela unidade.</p>



<p>Hoje, o Balanço do Coqueiro produz óleo de coco, farinha e sabonetes artesanais. O principal produto é o óleo extraído por prensagem a frio, técnica que preserva melhor as propriedades nutricionais quando comparada ao método tradicional de cozimento.</p>



<p>Versátil, o óleo é utilizado tanto na alimentação quanto nos cuidados com a pele e os cabelos, dialogando com conhecimentos tradicionais presentes há gerações na comunidade.</p>



<p>A produção exige escala e organização. Cada litro de óleo demanda cerca de 16 cocos secos e maduros. Vendidos in natura, esses cocos renderiam aproximadamente R$ 16. Transformados em óleo, porém, ganham valor agregado: uma garrafa de 300 mililitros é comercializada atualmente por R$ 25.</p>



<p>A rotina de trabalho é intensa e coletiva. Quatro mulheres formam o núcleo permanente da produção, mas outras pessoas da comunidade colaboram em etapas como limpeza, transporte e comercialização.</p>



<p>Não há divisão rígida de funções. “Todo mundo faz de tudo”, resume Rojane. As integrantes ralham, prensam, embalam e vendem os produtos. Ao final do processo, as despesas são descontadas e o lucro é dividido igualmente. Dependendo da demanda e da disponibilidade de matéria-prima, a produção pode chegar a dez litros de óleo por dia.</p>



<p>Se no começo o trabalho acontecia no alpendre da casa de uma das integrantes, hoje o grupo conta com uma unidade própria de beneficiamento, inaugurada em 2021. O espaço foi viabilizado por iniciativas como o projeto Ecoforte, em parceria com o Banco do Brasil, além do apoio do Cetra e do Projeto São José, do Governo do Ceará. A estrutura reúne prensa, raspadores elétricos, liquidificador industrial, balança e seladora, permitindo ampliar a produção e melhorar as condições de trabalho.</p>



<p>O reconhecimento já ultrapassou os limites da comunidade. Em 2023, o grupo recebeu um prêmio na categoria Sustentabilidade durante a Naturaltech, uma das principais feiras do setor no país. Também levou seus produtos para eventos em estados como São Paulo, Pernambuco e Pará, além de Brasília.</p>



<p>A comercialização ocorre em diferentes espaços: na própria comunidade, em feiras locais e regionais e em uma feira mensal realizada em Fortaleza. O grupo também organiza sua própria feira no assentamento, fortalecendo redes de economia solidária e o intercâmbio entre produtores.</p>



<p>Apesar dos avanços, os desafios permanecem. Atualmente, o grupo busca adequar a unidade às exigências sanitárias necessárias para ampliar a comercialização. A obtenção das certificações permitiria acessar novos mercados, incluindo supermercados e vendas para outras regiões do país. A formalização da atividade por meio de um CNPJ também está em discussão.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Onde a luta virou escola</strong></h2>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Enquanto um grupo de crianças usando adereços indígenas desfruta alegremente a merenda escolar, Ezequiel Tremembé mostra orgulhoso a irrigação que alimenta o sistema agroflorestal da Escola Indígena Brolhos da Terra, em Itapipoca, no litoral oeste do Ceará. As fruteiras e hortaliças crescem graças à água reaproveitada da própria escola, transformada em fonte de produção de alimentos que, mais tarde, vão parar nos pratos dos alunos.</p>



<p>Para quem chega hoje ao território Tremembé da Barra do Mundaú, a cena pode até parecer corriqueira. Mas ela é resultado de uma luta que atravessou mais de duas décadas e opôs um povo indígena a um dos maiores empreendimentos turísticos já projetados para o litoral brasileiro. “Somos uma geração que estudou debaixo do cajueiro e hoje é professor”, resume Ezequiel, de 31 anos. Quando era criança, caminhava longas distâncias para estudar em espaços improvisados. Hoje, coordena o projeto Ensino Vivo na escola onde a agroecologia faz parte do currículo e da alimentação dos estudantes.</p>



<p>A escola consome alimentos produzidos no próprio território e também recebe produtos cultivados por agricultores indígenas por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Macaxeira, frutas, ovos e galinha caipira ajudam a compor a merenda e fortalecem a economia local. A relação entre educação, produção de alimentos e defesa do território não surgiu por acaso. Ela foi construída em meio a um dos conflitos fundiários mais emblemáticos do Ceará.</p>



<p>No início dos anos 2000, um consórcio internacional anunciou a implantação do projeto Nova Atlântida, um megacomplexo turístico que prometia transformar a região na chamada “Cancún brasileira”. Resorts de luxo, campos de golfe e grandes estruturas de lazer ocupariam uma área sobreposta ao território tradicional Tremembé. A proposta veio acompanhada da promessa de desenvolvimento e empregos. Mas, para os indígenas, significava a perda da terra e do modo de vida construído ao longo de gerações.</p>



<p>Foi nesse contexto que os mais velhos da comunidade tomaram uma decisão que mudaria a história do território. Reunidos sob um cajueiro, escolheram mulheres para liderar a resistência. “Se os homens fossem para a linha de frente, poderia haver confronto e mortes”, lembra Cleideane Tremembé, hoje professora e coordenadora da escola. A estratégia funcionou. Em vez de uma estrutura concentrada em um cacique, a comunidade fortaleceu uma liderança coletiva, protagonizada por mulheres.</p>



<p>Durante anos, elas enfrentaram pressões políticas, ameaças e tentativas de convencimento para que o empreendimento fosse aceito. A resistência contou com o apoio de organizações parceiras, do movimento indígena e de instituições públicas. Em 2015, o território recebeu a portaria declaratória do Ministério da Justiça. O reconhecimento definitivo viria anos depois, com a homologação da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, com 3.580 hectares.</p>



<p>A conquista, no entanto, não encerrou a disputa. A região continua pressionada pela especulação imobiliária, pelo turismo irregular e por projetos de infraestrutura que avançam sobre a zona costeira. A própria comunidade observa com preocupação os impactos provocados por grandes empreendimentos em áreas vizinhas. Para as lideranças, a experiência reforça a necessidade de construir alternativas próprias de desenvolvimento. É nesse ponto que a agroecologia ganha centralidade.</p>



<p>No território, ela aparece nos quintais produtivos, nos sistemas agroflorestais, no aproveitamento da água da chuva, na produção de alimentos para a escola e na valorização dos conhecimentos tradicionais. Também se manifesta em iniciativas de geração de renda, como a produção artesanal do óleo de bateputá e os projetos conduzidos por jovens agricultores. Durante a pandemia, quando a aldeia precisou restringir a circulação de pessoas, a busca por autonomia alimentar tornou-se ainda mais urgente. A produção local passou a ser vista não apenas como fonte de renda, mas como garantia de permanência no território.</p>



<p>Na escola, essa visão é ensinada desde cedo. As crianças aprendem a plantar, colher, cuidar das plantas medicinais e conhecer os lugares sagrados do povo Tremembé. O território inteiro é parte do processo educativo. Mais do que preservar tradições, a comunidade busca formar novas gerações capazes de defender a terra conquistada e enfrentar os desafios que continuam surgindo.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>Entrevista | Adriana Tremembé:</strong> <em>“Governador passa. Empresa passa. Mas o povo Tremembé permanece”</em></h3>



<p>Há 25 anos na luta pela demarcação da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, Adriana Tremembé tornou-se uma das principais referências da resistência indígena no litoral oeste do Ceará. Aos 54 anos, ela integra a geração de mulheres que assumiu a linha de frente do enfrentamento ao megaprojeto turístico Nova Atlântida e ajudou a conduzir a comunidade até a homologação do território, em 2023. Nesta entrevista, Adriana fala sobre as conquistas da luta, a defesa do território e os desafios que permanecem.</p>



<p><strong>Qual foi a maior conquista do povo Tremembé nos últimos anos?</strong></p>



<p>A maior conquista foi a homologação da nossa terra. Hoje ela está homologada, registrada e estamos avançando no processo de desintrusão. Isso significa que o Estado reconheceu oficialmente que esse território pertence aos povos indígenas que vivem aqui. É uma conquista construída por muitas mãos e por pessoas que já nem estão mais entre nós, mas que abriram esse caminho.</p>



<p><strong>Por que a luta pela terra era tão importante?</strong></p>



<p>Porque sem território não existe nada. A gente pode ter escola, saúde e outros direitos, mas, se não tiver a terra garantida, tudo fica ameaçado. O território é onde está nossa história, nossa espiritualidade, nossos alimentos e nossa cultura. É ele que sustenta tudo.</p>



<p><strong>O conflito com o empreendimento Nova Atlântida mudou a comunidade?</strong></p>



<p>Mudou muito. Foi um período muito difícil. Havia muita pressão e muita violência. Eles queriam implantar um grande projeto turístico aqui dentro e não consideravam nossa existência. Foi nesse momento que as mulheres assumiram a linha de frente da luta. Entendemos que, se colocássemos os homens para enfrentar diretamente aquele conflito, poderia haver mortes. Então as mulheres seguiram à frente e o território inteiro se organizou para resistir.</p>



<p><strong>O território continua ameaçado?</strong></p>



<p>Sim. A especulação imobiliária continua existindo. Existem pressões ligadas ao turismo, a grandes empreendimentos e a outros interesses econômicos. Nossa terra está numa área muito cobiçada da zona costeira. Por isso a luta não terminou com a homologação.</p>



<p><strong>Qual é o papel da escola nesse processo?</strong></p>



<p>A escola é fundamental porque ela ajuda a manter viva nossa história. Não ensinamos apenas português ou matemática. Ensinamos também nossa cultura, nossa espiritualidade, o Torém, os conhecimentos tradicionais e a importância de defender o território. É assim que garantimos que os jovens continuem essa luta.</p>



<p><strong>Depois de tantos anos de mobilização, o que mantém vocês firmes?</strong></p>



<p>A certeza de que estamos defendendo algo que pertence às futuras gerações. Governador passa. Empresa passa. Mas o povo Tremembé permanece. Essa é a força que nos faz continuar.</p>
</blockquote>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Do fruto da mata ao sustento da aldeia</strong></h3>



<p>Quem vê aquela pequena fruta amarela espalhada pela mata da Barra do Mundaú talvez não imagine seu potencial. Do Bateputá, planta nativa e tradicional do território Tremembé, famílias indígenas produzem artesanalmente um óleo utilizado tanto na alimentação quanto como remédio caseiro para inflamações, dores e problemas de garganta.</p>



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                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Nascido e criado entre os pés de Bateputá, Samuel Nascimento de Castro aprendeu desde cedo os saberes tradicionais ligados à terra encontrou na agricultura uma forma de construir seu futuro sem precisar deixar a comunidade. Hoje, sua propriedade reúne uma diversidade de cultivos e criações, que variam de acordo com a época do ano, além da produção do óleo de Bateputá, comercializado no próprio território, em festas e feiras da região.</p>



<p>Ao perceber a necessidade de ampliar a produção de alimentos, Samuel tomou uma decisão arriscada. Vendeu as 40 galinhas poedeiras que criava para investir na implantação de uma mandala produtiva com criação de tilápias. A iniciativa surgiu após conhecer experiências semelhantes e identificar o potencial de integrar diferentes sistemas de produção.</p>



<p>O risco foi compensado algum tempo depois, quando ele foi contemplado pelo programa São José Jovem, política pública do Governo do Ceará voltada para jovens empreendedores rurais. Com os recursos recebidos, conseguiu reconstruir sua estrutura de criação de galinhas e fortalecer a produção familiar.</p>



<p>Mas a trajetória de Samuel não se limita à própria propriedade. Primeiro jovem a presidir o conselho indígena do território, ele ajudou a aproximar a comunidade de editais e políticas públicas voltadas para a agricultura familiar e a segurança alimentar.</p>



<p>Durante a pandemia de Covid-19, quando a aldeia permaneceu fechada por cerca de oito meses, a necessidade de produzir o próprio alimento tornou-se ainda mais evidente. A partir dessa experiência, foram fortalecidos projetos voltados à cultura alimentar, com incentivo a quintais produtivos, áreas coletivas de cultivo e outras iniciativas de autonomia produtiva.</p>



<p>Entre essas políticas está o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) Indígena, iniciativa do governo federal que compra alimentos produzidos pelas comunidades indígenas para distribuição a famílias em situação de vulnerabilidade e instituições públicas. Samuel também comercializa parte de sua produção por meio do programa.</p>



<p>“O PAA Indígena é um trabalho de fortalecimento da nossa cultura”, afirma. Para ele, a alimentação vai muito além da nutrição. “Quando você come bem, além de se alimentar, você se cura.” Segundo Samuel, valorizar os alimentos produzidos no território significa também fortalecer a identidade indígena. “É um resgate da nossa ancestralidade através da alimentação. Fortalece nossa luta e nossa identidade.”</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Leia também:</h2>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/" class="titulo">Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/" class="titulo">Um escudo contra as mudanças climáticas</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
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	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/articulacao-entre-ong-e-prefeitura-eliminou-ultraprocessados-da-merenda-escolar-em-cumaru/" class="titulo">Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</a>
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                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
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        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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                <a href="https://marcozero.org/a-peleja-da-agricultura-familiar-contra-os-salgadinhos-e-sucos-de-caixinha/" class="titulo">A peleja da agricultura familiar contra os salgadinhos e sucos de caixinha</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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			</item>
		<item>
		<title>O ano da Marco Zero: fechando uma década de desafios e conquistas</title>
		<link>https://marcozero.org/o-ano-da-marco-zero-fechando-uma-decada-de-desafios-e-conquistas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 Dec 2025 13:52:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Institucional]]></category>
		<category><![CDATA[prestação de contas]]></category>
		<category><![CDATA[Reconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Retrospectiva2025]]></category>
		<category><![CDATA[transparência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 2025, a Marco Zero completou 10 anos com muitos motivos para comemorar. Ao longo dessa trajetória, publicamos reportagens de interesse público que trouxeram à luz temas relevantes e, muitas vezes, invisibilizados pela mídia tradicional. Foram 3.690 reportagens publicadas em nosso site, acessadas por mais de 5 milhões de pessoas. Também ampliamos significativamente nosso alcance [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 2025, a Marco Zero completou 10 anos com muitos motivos para comemorar. Ao longo dessa trajetória, publicamos reportagens de interesse público que trouxeram à luz temas relevantes e, muitas vezes, invisibilizados pela mídia tradicional. Foram 3.690 reportagens publicadas em nosso site, acessadas por mais de 5 milhões de pessoas. Também ampliamos significativamente nosso alcance nas redes sociais, onde já somamos mais de 150 mil seguidores. Com trabalho consistente e compromisso com a qualidade e a ética jornalística, nos consolidamos como uma referência no jornalismo independente brasileiro, ocupando espaços relevantes e conquistando importantes reconhecimentos ao longo do caminho.</p>



<p>Para garantir sustentabilidade financeira e independência editorial, construímos, ao longo desse período, um modelo de negócio próprio, transparente e, até aqui, exitoso frente aos desafios que marcam o setor. Mesmo fora do eixo Rio de Janeiro–São Paulo, conseguimos captar, em dez anos, R$ 8.079.811,28 &#8211; recursos que permitiram manter uma equipe de dez pessoas, toda a estrutura necessária para a produção das reportagens e, ainda, contribuir para o fortalecimento de uma rede de jornalismo independente no Nordeste. Não está sendo fácil, mas estamos muito orgulhosos do que construímos até aqui.</p>



<p>Essa base foi fundamental para enfrentar um dos anos mais desafiadores da nossa história recente. Pela primeira vez desde que adquirimos nossa independência financeira, em 2025 captamos bem menos recursos do que no ano anterior. Em comparação com 2024, a queda foi de 52%. O corte pela metade do orçamento se deu com o fim da parceria com o Fundo Internacional para Mídia de Interesse Público (IFPIM). Com isso, nossas receitas se concentraram, basicamente, no grant da Fundação OAK.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Ao todo, foram R$ 532.591,34 captados em 2025:</p>



<p>* OAK – R$ 459.718,08</p>



<p>* AS-PTA – R$ 38.207,25</p>



<p>* Un Verteilen – R$ 19.055,68</p>



<p>* Doações individuais – R$ 15.610,33</p>
</blockquote>



<p>Aqui cabe uma observação importante. Em 2025, conseguimos bater o recorde de doações individuais — aquelas em que, espontaneamente, nossos leitores contribuem com pequenas quantias. Esse resultado reforça a importância da nossa comunidade de leitores e aponta um caminho estratégico: em 2026, vamos investir em campanhas e estrutura para ampliar essa fonte de recursos.</p>



<p>As restrições financeiras de 2025 tiveram impactos diretos sobre nossa capacidade produtiva e, consequentemente, sobre o alcance do conteúdo publicado. Com menos recursos, priorizamos a manutenção da qualidade e do volume da produção jornalística, mesmo tendo que abrir mão, por enquanto, do programa de fortalecimento da rede de jornalismo independente no Nordeste. Ainda assim, não foi necessário demitir ninguém da equipe &#8211; perdemos uma repórter que, para nosso orgulho, foi iniciar um doutorado na Bahia, e não conseguimos repor a vaga. Para garantir essa estabilidade mínima, utilizamos parte do nosso fundo de reserva, por uma causa que consideramos justa.</p>



<p>Esse cenário se refletiu nos números. Em 2025, publicamos 312 reportagens, contra 456 no ano anterior, e registramos queda nos indicadores de audiência do site:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>* Usuários ativos: 662 mil (–39,4%)</p>



<p>* Visualizações: 971 mil (–39,7%)</p>



<p>* Contagem de eventos: 5,6 milhões (–40,1%)</p>
</blockquote>



<p>Ainda assim, mantivemos a qualidade e a relevância editorial do conteúdo publicado, como demonstram os temas que mobilizaram nossa audiência ao longo do ano e o reconhecimento profissional recebido.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><strong>As reportagens mais acessadas do ano ajudam a compreender os assuntos que despertaram maior interesse do público e refletem a diversidade de pautas acompanhadas pela Marco Zero:</strong></p>
<p>1. <a href="https://marcozero.org/como-um-shopping-center-se-tornou-o-lugar-mais-quente-do-recife/" target="_blank" rel="noopener">Como um shopping center se tornou o lugar mais quente do Recife</a> – 61.877 visualizações</p>
<p>2. <a href="https://marcozero.org/evangelicos-promovem-cercos-a-terreiros-para-intimidar-candomble/" target="_blank" rel="noopener">Evangélicos promovem “cercos” a terreiros para intimidar candomblé</a> – 48.107 visualizações</p>
<p>3. <a href="https://marcozero.org/aerogerador-desaba-em-parque-eolico-que-voltou-a-operar-apos-liminar-da-justica/" target="_blank" rel="noopener">Aerogerador desaba em parque eólico que voltou a operar após liminar da Justiça</a> – 38.407 visualizações</p>
<p>4. <a href="https://marcozero.org/ossos-humanos-loucas-e-ceramicas-sao-encontrados-em-reforma-do-mosteiro-de-sao-bento-em-olinda/" target="_blank" rel="noopener">Ossos humanos, louças e cerâmicas são encontrados em reforma do Mosteiro de São Bento, em Olinda</a> – 28.737 visualizações</p>
<p>5. <a href="https://marcozero.org/silencio-da-prefeitura-sobre-ponte-casa-forte-cordeiro-gera-medo-na-comunidade-santana/" target="_blank" rel="noopener">Silêncio da prefeitura sobre ponte Casa Forte–Cordeiro gera medo na comunidade Santana</a> – 28.195 visualizações</p>
<p>6. <a href="https://marcozero.org/fechamento-da-faculdade-damas-expoe-crise-do-ensino-superior-privado/" target="_blank" rel="noopener">Fechamento da Faculdade Damas expõe crise do ensino superior privado</a> – 21.631 visualizações</p>
<p>7. <a href="https://marcozero.org/assembleia-de-deus-quer-ganhar-terreno-publico-onde-deveria-ser-uma-praca-em-olinda/" target="_blank" rel="noopener">Assembleia de Deus quer ganhar terreno público onde deveria ser uma praça, em Olinda</a> – 29.511 visualizações</p>
<p>8. <a href="https://marcozero.org/do-lazer-ao-consumo-o-que-muda-nos-parques-do-recife-com-a-privatizacao/" target="_blank" rel="noopener">Do lazer ao consumo: o que muda nos parques do Recife com a privatização</a> – 18.977 visualizações</p>
<p>9. <a href="https://marcozero.org/distrito-guararapes-vai-ter-873-kitnets-com-metro-quadrado-mais-caro-que-a-media-do-recife/" target="_blank" rel="noopener">Distrito Guararapes vai ter 873 kitnets com metro quadrado mais caro que a média do Recife</a> – 18.612 visualizações</p>
<p>10. <a href="https://marcozero.org/prefeitura-do-recife-quer-acabar-com-a-lei-dos-12-bairros-denunciam-urbanistas/" target="_blank" rel="noopener">Prefeitura do Recife quer acabar com a Lei dos 12 Bairros, denunciam urbanistas</a> – 17.489 visualizações</p>
	</div>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-11-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-11-1024x683.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-11-1024x683.jpg" alt="Francisca da Silva dos Santos, Santinha. Artesã de palha de carnaúba" class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Foto finalista do Prêmio Sebrae 2025</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Apesar das limitações impostas pelo cenário financeiro, 2025 também foi um ano de fortalecimento do diálogo com o público, reconhecimento profissional e ampliação de parcerias.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Redes sociais em alta</h2>



<p>Aumentamos significativamente nossa presença digital. No Instagram, nosso principal canal de interação com o público, alcançamos 7.786.206 interações &#8211; um crescimento de 22% em relação ao ano anterior. Nos comentários, um importante indicador da relação com os leitores, o crescimento foi de 122%, passando de 17.836 para 39.649. Também ampliamos substancialmente o número de seguidores, chegando à marca de 91.163 (+44%).</p>



<h2 class="wp-block-heading">Prêmios importantes</h2>



<p>Em 2025, conquistamos três prêmios relevantes de jornalismo.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Prêmio Cristina Tavares</h3>



<p>A reportagem <a href="https://marcozero.org/os-desertos-do-sertao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Os desertos do sertão</a>, do editor Inácio França, da repórter Giovanna Carneiro, com fotos de Arnaldo Sete, recebeu o Prêmio Cristina Tavares na categoria Texto, concedido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Prêmio Jornalista Inaldo Sampaio</h3>



<p>A reportagem <a href="Haut: a ascensão e queda da construtora que prometia luxo e civilidade no Recife," target="_blank" rel="noreferrer noopener">Haut: a ascensão e queda da construtora que prometia luxo e civilidade no Recife,</a> escrita por Maria Carolina Santos, ficou em primeiro lugar na categoria Webjornalismo ou Jornalismo Impresso do Prêmio Jornalista Inaldo Sampaio, organizado pelo Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE).</p>



<h3 class="wp-block-heading">Prêmio Sebrae de Jornalismo</h3>



<p>A reportagem<a href="https://marcozero.org/tecendo-o-futuro-com-as-proprias-maos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> Tecendo o futuro com as próprias mãos</a>, de Inês Campelo e Sérgio Miguel Buarque, conquistou o primeiro lugar na categoria Jornalismo em Texto na etapa estadual do Prêmio Sebrae de Jornalismo. Na mesma premiação, o repórter fotográfico Arnaldo Sete ficou em segundo lugar na categoria Fotojornalismo com imagens da reportagem “Gado com asas”: abelhas aumentam a renda dos sertanejos e ajudam a proteger a caatinga, e Inês Campelo obteve o terceiro lugar com a foto da reportagem Tecendo o futuro com as próprias mãos.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/abelha-5-flor-abre.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/abelha-5-flor-abre.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/07/abelha-5-flor-abre.jpg" alt="A imagem retrata uma cena da natureza, focando em uma abelha em voo se aproximando de um agrupamento de flores roxas em uma planta verde. O fundo está desfocado, destacando a nitidez da abelha e das flores." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Foto finalista do Prêmio Sebrae em 2025</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Parcerias estratégicas</h2>



<p>Ao longo do ano, mantivemos e ampliamos parcerias com organizações de mídia independente de diversas regiões do país, reafirmando uma prática que acompanha a Marco Zero desde sua fundação. Duas iniciativas merecem destaque. Durante a COP30, em Belém (PA), republicamos conteúdos produzidos por uma aliança de 21 veículos que integram a Casa do Jornalismo Socioambiental. Os leitores também puderam acessar conteúdos especiais dos sites parceiros Amazônia Vox e Amazônia Real.</p>



<p>Em novembro, publicamos doze entrevistas em parceria com o projeto de extensão Cartografias do Frevo, desenvolvido por professores e estudantes do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A iniciativa busca mapear a contemporaneidade do frevo a partir de entrevistas com mestres, músicos, passistas e artistas que reinventam o ritmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Presença ativa no ecossistema de mídia independente</h2>



<p>Em 2025, o trabalho da Marco Zero ganhou destaque em espaços centrais do jornalismo investigativo brasileiro. O especial <a href="https://marcozero.org/a-reinvencao-do-nordeste/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A reinvenção do Nordeste </a>&#8211; série de 11 reportagens produzidas em parceria com a Rede de Assistência Técnica e Extensão Rural de Agroecologia (Rede Ater NE), a partir de uma extensa apuração no sertão da Bahia, Ceará e Paraíba &#8211; foi um dos nove trabalhos selecionados, entre 135 inscritos de todo o país, para apresentação no 20º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. A série foi o único trabalho de um veículo nordestino entre os escolhidos e foi apresentada pela repórter Maria Carolina Santos.</p>



<p>A atuação da Marco Zero também se fortaleceu no campo da articulação institucional, da cooperação internacional e da defesa do jornalismo de interesse público. Inês Campelo e Sérgio Miguel Buarque participaram do evento Conexión Latam: O Impacto da Mídia Latino-Americana, voltado à troca de experiências e à construção de sinergias entre iniciativas jornalísticas da região. A repórter Jennifer Oliveira representou a Marco Zero no FALA! – Festival de Comunicação, Culturas e Jornalismo de Causas, realizado em Brasília, enquanto o editor Inácio França participou do <a href="https://rededeprotecao.org.br/4o-encontro-nacional/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">4º Encontro Nacional da Rede de Proteção de Jornalistas e Comunicadores</a>, em Salvador, espaço dedicado ao fortalecimento de estratégias de proteção a comunicadores em risco e à definição das diretrizes da Rede até 2026.</p>



<p>Mesmo diante de um ano marcado por restrições orçamentárias e escolhas difíceis, a Marco Zero não recuou de seus princípios editoriais nem do compromisso com o jornalismo de interesse público. Ao completar uma década de existência, seguimos convencidos de que produzir informação qualificada, crítica e independente a partir do Nordeste é não apenas necessário, mas urgente. A continuidade desse trabalho depende diretamente do apoio de quem nos lê: seja por meio de doações, que ajudam a sustentar a independência editorial, seja pelo compartilhamento do nosso conteúdo, que amplia o alcance das reportagens e fortalece o direito à informação. Entramos em 2026 com desafios evidentes, mas também com uma base sólida e a convicção de que o jornalismo que fazemos só se mantém vivo com a participação ativa da nossa comunidade de leitores.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 29 Dec 2025 18:15:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
		<category><![CDATA[segurança alimentar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando a lei que amplia de 30% para 45% o percentual mínimo dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) destinados à compra direta de alimentos da agricultura familiar entrar em vigor, em 1º de janeiro de 2026, muitas cidades brasileiras terão de se desdobrar para cumprir a nova exigência. Valente (BA), porém, não [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando a <a href="https://www.gov.br/mec/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/lei-amplia-compra-da-agricultura-familiar-para-o-pnae" target="_blank" rel="noreferrer noopener">lei</a> que amplia de 30% para 45% o percentual mínimo dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) destinados à compra direta de alimentos da agricultura familiar entrar em vigor, em 1º de janeiro de 2026, muitas cidades brasileiras terão de se desdobrar para cumprir a nova exigência. Valente (BA), porém, não deve enfrentar esse desafio. O município, localizado a 260 quilômetros de Salvador, já superou esse percentual em 2024 e tende a ampliar o desempenho em 2025, segundo dados ainda em consolidação. No ano passado, Valente recebeu R$ 943.668,00 do PNAE, dos quais R$ 454.493,83 foram destinados à compra de produtos da agricultura familiar &#8211; o equivalente a 48,16% do repasse anual.</p>



<p>Por trás desse investimento está um contexto que vai além do cumprimento da lei. Em Valente, assim como em outras partes do país, há sinais de redução no consumo de alimentos saudáveis e aumento da presença de produtos industrializados na dieta da população, além de mudanças nos canais de comercialização, com perda de espaço do autoconsumo e dos circuitos curtos. Diante desse cenário, fortalecer a merenda escolar como política pública de abastecimento local surge como uma das principais oportunidades para ampliar o acesso à comida de verdade e consolidar a segurança alimentar no município.</p>



<p>Outro fator decisivo para que o desempenho de Valente na alimentação escolar não seja fruto do acaso é o processo histórico de organização da agricultura familiar e de fortalecimento das políticas públicas locais. Ao longo das últimas décadas, agricultores e agricultoras se estruturaram em associações, cooperativas e grupos produtivos, muitos deles impulsionados por entidades da sociedade civil, o que garantiu diversidade, regularidade e capacidade de fornecimento ao mercado institucional. “Aqui, a política pública não funciona sozinha. Se não tivesse uma sociedade civil organizada, esses resultados não existiriam”, afirma a secretária municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer, Maura da Silva Miranda.</p>



<p>Além da base social e produtiva, o município investiu na qualificação da gestão da alimentação escolar, tratando a merenda como eixo estruturante da política de segurança alimentar. Valente ampliou a equipe de nutricionistas, incluiu a produção local no planejamento dos cardápios e estruturou um sistema próprio de armazenamento e distribuição, com câmara fria, carro refrigerado e controle rigoroso da entrega dos alimentos. “A gente precisava ter domínio sobre o que chega à escola, na quantidade certa, com qualidade e segurança alimentar”, explica Maura. Segundo ela, essa estrutura é decisiva para viabilizar a compra de produtos da agricultura familiar, especialmente alimentos <em>in natura</em>. “Quando você organiza a logística e garante armazenamento adequado, você reduz desperdício e dá segurança tanto para quem produz quanto para quem consome”, completa.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Localizado no Território do Sisal, no semiárido da Bahia, o <a href="https://cidades.ibge.gov.br/ranking-resumido/download.html?cod=2933000" target="_blank" rel="noopener">município de Valente</a> ocupa uma área de aproximadamente 395 km². Inserido no bioma Caatinga, o território é marcado por vegetação adaptada à escassez de água, como jurema-preta, licuri, caroá e cactáceas, fundamentais para o equilíbrio ambiental da região. O clima é quente e semiárido, com chuvas irregulares que variam entre 600 e 700 milímetros por ano e temperaturas que podem oscilar de 17 °C a 35 °C. Os solos, geralmente rasos, pedregosos e pobres em nutrientes, somados à presença de águas subterrâneas salobras, impõem desafios à produção agrícola e exigem práticas de manejo adequadas para evitar degradação e desertificação. Segundo o Censo de 2022, Valente tem 24.362 habitantes, com pouco mais de um terço da população vivendo na zona rural, mantendo modos de vida fortemente ligados à agricultura familiar e à convivência com o semiárido.</p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">A história que ajuda a explicar o presente</h2>



<p>Para entender como Valente desenvolveu uma sociedade civil tão forte, é preciso voltar um pouco no tempo e conhecer a história da comunidade rural de Papagaio. Distante 10 quilômetros da sede do município, Papagaio ocupa lugar estratégico na trajetória de organização social de Valente. Foi ali que, em 1972, a construção da Casa de Areia Branca se tornou um espaço de encontros, formações e articulação política promovidos pelo Movimento de Evangelização Rural (MER), contribuindo diretamente para o fortalecimento do movimento sindical e para a chamada “Tomada do Sindicato”, em 1975, quando agricultores assumiram o comando do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Décadas depois, Papagaio continuou a se destacar como território de inovação social e produtiva, com experiências como casas de farinha, grupos de beneficiamento de alimentos e iniciativas lideradas por mulheres que articulam economia solidária, agroecologia e políticas públicas como o PNAE.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Associacao-de-Mulheres-de-Papagaio-1024x684.jpg" alt="Seis mulheres que fazem parte da Associação de Mulheres abores da Terra pousando para foto. Elas seguram pequenos potes com os produtos produzidos por elas. Na parede atrás delas a logomarca da associação pintada em tons terrosos." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">A Sabores da Terra mudou a realidade de mais de 30 famílias na comunidade de Papagaio, zona rural de Valente, BA.</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Atualmente, são dois grupos de beneficiamento de alimentos: o Sabores da Terra e o Delícias da Mandioca, ambos compostos por mulheres vinculadas à Associação Comunitária de Papagaio. O objetivo era aproveitar o excedente de frutas como umbu, acerola, tamarindo, manga e caju e, ao mesmo tempo, gerar trabalho e renda para as famílias. Hoje, os dois empreendimentos beneficiam diretamente doze mulheres e 30 famílias da comunidade.</p>



<p>Eliete Oliveira, presidente da Associação e também do Conselho de Segurança Alimentar de Valente, lembra que, em 2007, quando surgiu o Sabores da Terra com apoio da APAEB (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira), a situação das mulheres da comunidade era bem mais complicada. “As mães de família viviam com o Bolsa Família, passando necessidade, e não tinham condições de sair para trabalhar em outra comunidade porque não tinham transporte. Algumas mulheres não podiam sair porque os maridos não deixavam.” Hoje, elas vendem sua produção para a prefeitura de Valente, por meio do PNAE, para mercados locais e lojas em outras cidades.</p>



<p>Josielma Lima é uma dessas integrantes do grupo que teve sua vida transformada pelo projeto. Entrou em 2009, ainda adolescente. Hoje, com 32 anos, é mãe de três filhos e dedica parte do seu tempo à cozinha industrial montada na sede do Sabores da Terra, produzindo polpa de frutas congelada, sequilhos e uma diversidade de alimentos feitos com produtos da agricultura familiar. Além do reforço na renda familiar e do sentimento de empoderamento que compartilha com as outras mulheres do grupo, Josielma sente orgulho de ajudar a produzir alimentos de qualidade que seus filhos estão comendo na escola.</p>



<p>Ela conta que a filha mais velha, Laís, de 16 anos, já no ensino médio na Escola Wilson Lins, é tão fã da comida do Sabores da Terra que busca “informações privilegiadas” em casa. “Ela chega perguntando: ‘mãe, que dia vai ser aquele bolinho?’”, conta Josielma, referindo-se ao cupcake vendido para o PNAE e que se tornou o carro-chefe do cardápio entregue nas escolas do município.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Fundação APAEB e Rede ATER em Valente</span>

		<p>A Fundação APAEB (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira) e as organizações que integram a Rede ATER Nordeste têm desempenhado papel central na construção de políticas e estratégias voltadas à segurança alimentar e ao fortalecimento da agricultura familiar em Valente. No município, essa atuação se materializa por meio do projeto Cultivando Futuros – Transição agroecológica justa em sistemas alimentares do Semiárido brasileiro, que busca promover a agroecologia, fortalecer a soberania alimentar e ampliar a incidência das organizações da sociedade civil sobre as políticas públicas locais.</p>
<p>Executado em parceria com a AS-PTA e com apoio da organização alemã Brot für die Welt, o projeto integra uma rede de 12 organizações da Rede ATER Nordeste que atuam em 20 municípios do Semiárido. Em Valente, a iniciativa tem contribuído para criar espaços de diálogo entre agricultores familiares, poder público e sociedade civil, como oficinas temáticas, fóruns multiatores e a própria audiência pública sobre segurança alimentar e nutricional realizada no município.</p>
<p>A atuação da Fundação APAEB e da Rede ATER também se concentra na análise da efetividade das políticas públicas existentes, como o PNAE, o PAA, o acesso à água por meio de cisternas e mecanismos de proteção à renda, a exemplo do Garantia-Safra. O objetivo é identificar avanços, limites e oportunidades para ampliar o acesso a alimentos saudáveis, fortalecer os mercados institucionais e valorizar a produção agroecológica local.</p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading">Do quintal de casa para a escola</h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Renilton-de-Araujo-e-familia-300x200.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Renilton-de-Araujo-e-familia-1024x683.jpg" alt="Família de agricultores, pai, mãe, dois filhos e dois netos, pousa para foto em um curral de cabras. Eles estão embaixo de um árvore." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Reury Araújo, de 12 anos, com a família na propriedade em que criam cabras. Produção vai parar na sua alimentação escolar</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Quem também come na escola o que vê sendo produzido em casa é Reury Araújo, de 12 anos, estudante do Centro Educacional Santa Rita de Cássia. Ele adora o iogurte de leite de cabra. “Quando tem, eu caio matando. Não sobra nada. Se pudesse, repetia”, conta, com orgulho. “Eu sempre falo para os meus amigos que o leite é lá de casa.” Ele não pode garantir, já que outros produtores locais também fornecem o produto, mas imagina que pode estar tomando leite de seu próprio animal de estimação. “Eu tenho uma cabra que se chama Estrelinha.”</p>



<p>Mas, para essa garrafinha de iogurte chegar à escola de Reury e de seus colegas de classe, há muito trabalho e política pública envolvidos. Tudo começa na pequena propriedade que o pai dele, Renilton Araújo, divide com a família para criar pouco mais de 30 cabeças de cabra, de onde tira uma média de 60 litros de leite por dia.</p>



<p>Na propriedade de Renilton existe um resfriador de leite com capacidade para armazenar mil litros. O equipamento, instalado pela <a href="https://www.dacabra.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Associação Comunitária Caprinocultura Solidária – Laticínio DaCabra,</a> é compartilhado com o irmão, Ricael, e com outros seis produtores vizinhos que trabalham de forma cooperada. Dia sim, dia não, uma equipe do Laticínio DaCabra recolhe a produção e leva para o beneficiamento, onde o leite é pasteurizado e transformado em queijos, doces e, claro, no iogurte que Reury tanto gosta.</p>



<p>O Laticínio DaCabra, criado nos anos 2000 pela APAEB, tem transformado a vida dos pequenos produtores locais. Além de comprar o leite cru, promove capacitações sobre manejo adequado dos animais, oferece assistência técnica às famílias, disponibiliza atendimento veterinário aos rebanhos e facilita a compra de ração, reduzindo os custos com insumos. A associação também paga um valor acima do mercado: Renilton vende o litro por R$ 3,51, enquanto atravessadores costumam pagar cerca de R$ 2,00. “Se não fosse a cooperativa, o preço do litro estaria a uns R$ 0,50”, calcula.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-1024x684.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-68PQ-1024x684.jpg" alt="Na imagem um homem jovem, de boné e camisa de botão, segura um deposito de leite de cabra que ele ordenhou. Do lado direito da imagem a cabra ainda no loca de ordenha." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Ricael vende o leite de cabra para produção de iogurte, queijos e doces</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A família de Reury também acessa outras políticas públicas voltadas ao pequeno agricultor. Recentemente, conseguiu liberar um financiamento do programa de Fomento às Atividades Produtivas Rurais, do governo da Bahia. São duas parcelas, de R$ 2.600,00 e R$ 2.000,00, sem necessidade de ressarcimento. Com esse recurso, os irmãos pretendem ampliar a sala de ordenha, murar e aumentar a área coberta onde as cabras circulam. Agora, aguardam apenas o dinheiro cair na conta.</p>



<p>Tanto Renilton quanto Ricael aprenderam a criar cabras com o pai, Salvador Araújo, e a mãe, dona Eleonice, que estão no ramo há mais de 20 anos. Seu Salvador lembra do tempo em que colocava o leite em uma moto e saía para vender a produção — antes da cooperativa. Eram tempos mais difíceis. Tanto que outros dois filhos do casal foram tentar a vida em São Paulo, onde permanecem até hoje, repetindo um caminho comum a muitos jovens da região.</p>



<p>Agora, com as coisas melhorando, Reury já sonha em seguir na agricultura familiar e se prepara para entrar na Escola Família Agrícola Avani de Lima Cunha (EFA Valente). Na escola, que funciona em regime de semi-internato, ele passaria 15 dias na instituição e 15 dias em casa. Sairia de lá como técnico agrícola, preparado para ampliar os negócios da família e, no futuro, quem sabe, produzir seu próprio iogurte.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
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                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ-1024x683.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Os-irmaos-Renilton-e-Ricael-trabalham-em-familia-com-criacao-de-cabras_-55PQ-1024x683.jpg" alt="Rebanho de cabras brancas em curral. Ao fundo uma plantação de agave. O céu etá nublado." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Leia também:</h2>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/" class="titulo">Um escudo contra as mudanças climáticas</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/articulacao-entre-ong-e-prefeitura-eliminou-ultraprocessados-da-merenda-escolar-em-cumaru/" class="titulo">Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-peleja-da-agricultura-familiar-contra-os-salgadinhos-e-sucos-de-caixinha/" class="titulo">A peleja da agricultura familiar contra os salgadinhos e sucos de caixinha</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

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			</item>
		<item>
		<title>Um escudo contra as mudanças climáticas</title>
		<link>https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/</link>
					<comments>https://marcozero.org/um-escudo-contra-as-mudancas-climaticas/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 26 Dec 2025 14:34:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Agricultura Familiar]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Rede Ater]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quem chega a Pé de Serra pela BA-233, principal via de acesso à cidade, é logo impactado pela beleza natural do local. Da janela do carro, dois maciços de rocha se impõem à paisagem, não deixando dúvidas sobre a origem do nome do município baiano. Mas a paisagem extremamente árida também traz, de imediato, outra [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quem chega a Pé de Serra pela BA-233, principal via de acesso à cidade, é logo impactado pela beleza natural do local. Da janela do carro, dois maciços de rocha se impõem à paisagem, não deixando dúvidas sobre a origem do nome do município baiano. Mas a paisagem extremamente árida também traz, de imediato, outra constatação: o município do centro-norte da Bahia, a aproximadamente 220 quilômetros de Salvador, enfrenta uma grande seca. Tanto é assim que, em 9 de setembro, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil publicou uma portaria colocando o município em situação de emergência devido ao longo período de estiagem.</p>



<p>A situação é grave, principalmente para a população da zona rural. Segundo Jorge Irineu, diretor de Meio Ambiente do município, algumas comunidades estão sendo abastecidas com carros-pipa desde outubro de 2024, portanto, há mais de um ano. Na quarta-feira (17), quando conversou com a reportagem, Jorge afirmou que, das 28 aguadas (mananciais que abastecem a zona rural), apenas duas ainda tinham água.<br></p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><a href="https://cidades.ibge.gov.br/ranking-resumido/download.html?cod=2924058" target="_blank" rel="noopener">Pé de Serra</a> está localizado no Território de Identidade da Bacia do Jacuípe, no centro-norte da Bahia, fazendo divisa com os municípios de Riachão do Jacuípe, Ipirá, Capela do Alto Alegre e Nova Fátima. O município, com 13.243 habitantes, tem 596,7 km² de extensão territorial, situando-se integralmente no bioma Caatinga, característica que condiciona fortemente sua paisagem, uso do solo e formas de ocupação humana.</p>
        </div>
    </div>



<p>Os impactos da seca afetam principalmente as famílias de agricultores. E a situação poderia ser muito mais grave se não fossem uma série de ações e tecnologias de convivência com o semiárido implementadas com o apoio da sociedade civil organizada, muitas delas transformadas em políticas públicas. “Se não fossem essas políticas…”, suspira Jorge Irineu.</p>



<p>A família de Pascoal Pinto de Jesus, que tem uma pequena propriedade de dois hectares no povoado de Lagoa do Curral, uma das áreas mais afetadas pela estiagem no município, tem se desdobrado para manter a produção de caprinos com tão pouca água. Hoje, Pascoal e a esposa Maria de Lurdes, com quem está casado há 34 anos, criam 23 cabras e algumas galinhas. Já desistiu de plantar feijão e milho há, pelo menos, cinco anos. Cansou de perder a colheita. Para ele, a situação tem se agravado com o tempo. “Antigamente, a gente perdia uma colheita a cada dez. Hoje se perde dez para ganhar uma.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Pascoal-e-Maria-de-Lurdes-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Pascoal-e-Maria-de-Lurdes-1024x683.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Pascoal-e-Maria-de-Lurdes-1024x683.jpg" alt="Duas pessoas - uma mulher e um homem - estão em pé sobre um terreno seco e irregular, com sulcos profundos e pouca vegetação. O solo parece árido, com algumas árvores verdes ao fundo e o céu parcialmente nublado. Ambas estão vestidas de forma simples, apropriadas para clima quente, e uma delas segura um bastão de caminhada. A paisagem sugere uma área rural afetada por erosão ou seca." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Pascoal Pinto de Jesus e Maria de Lurdes, agricultores de Pé de Serra 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Pascoal adora criar bode. Segundo ele, “é dinheiro na mão”, já que tem mais clientes para comprar a carne do que ele pode oferecer. É a famosa lei da oferta e da procura. “Mas quando chega a seca, o produtor já perde. Tem que gastar mais para produzir menos. A criação não evolui. É, praticamente, manter o rebanho e esperar que um dia vai melhorar.”</p>



<p>Enquanto espera as coisas melhorarem, ele segue trabalhando com capricho. “Bode tem que ter cuidado, tem que ter zelo. Tem que limpar o local onde eles dormem, colocar água sanitária, cal, para evitar vermes.” Pascoal, que mora em uma casa a poucos quilômetros da propriedade, instalou internet e câmeras de segurança para vigiar o rebanho quando está longe.</p>



<p>Em meio a mais de um ano sem chuva, Pascoal vai sobrevivendo com seu esforço e também acessando políticas públicas e tecnologias de convivência com o semiárido. Há 12 anos, por exemplo, ele foi beneficiado com a construção de um barreiro para armazenar água em sua propriedade, por meio de um programa coordenado pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). O barreiro, com capacidade para 600 mil litros, quando cheio, garantiria água por dois anos. Mas não enche há quatro anos. Pascoal também recebe assistência técnica do Movimento de Organização Comunitária (MOC), por meio do programa Ater Biomas da Bahia.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">MOC e Rede ATER: políticas públicas que viraram resultados em Pé de Serra</span>

		<p><!-- wp:paragraph --></p>
<p>A presença continuada do Movimento de Organização Comunitária (MOC), articulado à Rede ATER Nordeste de Agroecologia, foi decisiva para transformar políticas públicas em resultados concretos no município de Pé de Serra, no Semiárido baiano. Desde os anos 2000, a assessoria técnica e o trabalho de organização social contribuíram para ampliar o acesso à água, com a implantação de centenas de cisternas para consumo humano e produção, reduzindo a vulnerabilidade das famílias rurais à seca e criando condições para a retomada da produção de alimentos.</p>
<p>Esse apoio técnico também impulsionou a diversificação produtiva e o fortalecimento da agricultura familiar, com estímulo a quintais produtivos, criação animal, manejo da palma forrageira e adoção de práticas agroecológicas. Ao mesmo tempo, agricultores e agricultoras passaram a acessar de forma mais consistente mercados institucionais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), além de feiras locais, garantindo renda e escoamento da produção. O fortalecimento de cooperativas, grupos produtivos e espaços de participação social consolidou a atuação do MOC e da Rede ATER como um dos principais pilares do desenvolvimento rural e da convivência com o Semiárido em Pé de Serra.</p>
	</div>



<p>Apesar do esforço de Pascoal, o terreno onde ele cria seus animais possui pouquíssima vegetação, sem praticamente nenhum vestígio de que ali já foi uma área coberta por caatinga. Antes de avançar na reportagem, é preciso entender o que aconteceu em Pé de Serra do ponto de vista econômico e social.</p>



<p>Por conta do solo raso, pedregoso e de fertilidade limitada, ao longo do tempo a população foi derrubando áreas de vegetação nativa para a formação de roçados, pastagens e atividades extrativistas, em um contexto de baixa disponibilidade hídrica e alta vulnerabilidade climática.</p>



<p>A conversão de áreas de caatinga em pastagens, devido à expansão da pecuária, ocorreu de forma contínua ao longo das últimas décadas, com o uso de máquinas agrícolas e a substituição de sistemas produtivos diversificados por áreas abertas permanentes.</p>



<p>Além da pecuária, o desmatamento também esteve historicamente ligado a atividades extrativas, como a produção de carvão vegetal e a exploração de madeira nativa, bem como à mineração de pedra presente no município. Essas atividades provocaram impactos diretos sobre a vegetação e o solo, frequentemente associadas à ausência de fiscalização ambiental adequada e a condições precárias de trabalho, ampliando os passivos socioambientais no território.</p>



<p>Outro fator relevante foi a introdução e expansão do sisal, que romperam com práticas tradicionais de manejo e favoreceram a simplificação dos agroecossistemas. A substituição da vegetação nativa por cultivos homogêneos reduziu a biodiversidade local e aumentou a exposição do solo à erosão, especialmente em anos de seca prolongada.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O exemplo de Dona Dadá</h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Maria-do-Carmo-e-familia-no-sitio-300x200.jpg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Maria-do-Carmo-e-familia-no-sitio-1024x683.jpg" alt="Quatro pessoas estão em pé em uma área de cultivo ao ar livre, sob um céu parcialmente nublado. São três adultos e uma criança, todos segurando chapéus de palha. Um dos adultos também segura um pequeno ramo de plantas verdes. A pessoa ao centro veste uma camiseta com os dizeres “Feira da Economia Solidária”, indicando participação em uma atividade comunitária ligada à agricultura sustentável. Ao fundo, há plantas cultivadas e uma estrutura com tela, possivelmente usada para proteção ou sombreamento." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Maria do Carmo de Carvalho Silva, dona Dadá, e sua família
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Em meio a uma paisagem seca e degradada, uma pequena área verde chama a atenção. Em aproximadamente cinco hectares, Maria do Carmo de Carvalho Silva, junto com sua família de agricultores, construiu uma espécie de oásis na zona rural de Pé de Serra. Pelo nome de batismo, pouca gente a conhece, mas, ao falar de Dona Dadá, todo mundo da redondeza sabe exatamente quem é. Aos 63 anos, Dadá mora na propriedade desde os anos 1980.</p>



<p>De lá para cá, conseguiu montar um sistema de produção bastante diversificado, com horta, criação de abelhas, vacas (20 cabeças), cabras (oito cabeças) e galinhas. A horta, orgulho de Dona Dadá, tem de tudo um pouco durante o ano inteiro. No período de chuva, ela planta uma roça com feijão, milho, batata-doce, maxixe, abóbora e mais o que consegue. Ainda tem a plantação de palma, que serve de alimento para o gado, e uma área de reserva, onde mantém a caatinga preservada.</p>



<p>Para manter tudo isso, além da assistência técnica do MOC, acessa vários programas e políticas públicas, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), participa da feira agroecológica todos os sábados e tem uma cisterna calçadão onde coleta e armazena água. Recentemente, comprou umas cabras com financiamento do Banco do Nordeste. “Depois que comecei no banco, agora eu nado na terra seca”.</p>



<p>Maria da Paz, filha mais velha de Dadá, segue os passos da mãe e do pai, Gervásio da Silva, na paixão pela agricultura. Para Maria, a grande dificuldade é a falta d’água. “Porque força de vontade, carinho e conhecimento a gente tem para plantar”, complementa. Segundo ela, apesar de a cisterna ser importante, não é suficiente para dar conta da demanda de água, principalmente em períodos de estiagem como os que a população de Pé de Serra tem enfrentado.</p>



<p>Para complementar a cisterna, eles têm comprado cerca de quatro caminhões-pipa de dez mil litros cada por mês. “Pagamos R$ 100 por caminhão porque somos clientes antigos. O preço normal é R$ 250.” Para cobrir os custos, ela faz um cálculo rápido. “Uma semana de trabalho na roça paga um mês de caminhão-pipa. As outras três semanas de trabalho são para tirar todo o resto.”</p>



<p>Mateus Jonnei, coordenador de projetos do MOC, explica que está havendo um desequilíbrio de chuvas dentro do próprio município. Já começou a chover em algumas partes e em outras não. “Antes não era assim”, relembra. Talvez Dona Dadá tenha a explicação para esse fenômeno recente. “Quando eu era criança, isso tudo aqui era mato. O homem veio e desmatou tudo. Depois de velha, ter que ver uma estiagem dessa.”</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Agrofloresta como projeto de vida</strong></h2>



<p>A pouco mais de 50 quilômetros de Pé de Serra, no distrito de Barreiras, no município vizinho de Riachão do Jacuípe, está um exemplo importante de como enfrentar as mudanças climáticas. Em uma pequena propriedade, Eduardo Emídio e sua esposa, Cristina Queiroz, transformaram a terra árida e degradada em uma vibrante e lucrativa agrofloresta. Uma história de relação com a terra que começou a ser construída há mais de duas décadas a partir de uma ruptura. No início dos anos 2000, ele e Cristina deixaram o emprego na cidade e retornaram à propriedade herdada da família, movidos pela ideia de preservar o pouco de caatinga que ainda existia na área. “No começo era pensamento, era ideia”, resume.</p>



<p>A ruptura não foi apenas do ponto de vista profissional. Era romper também com a maneira como o pai, o avô e os tios entendiam a relação com a terra. Era fazer tudo de outro jeito. “A diferença era que a gente vinha de uma cultura do desmatamento para produção de alimentos, para a criação de animais. E a gente passou a ver que, em toda seca, morria metade dos animais. Toda seca as famílias passavam fome e necessidade por conta de não ter segurança alimentar. Então a gente passou a entender que áreas que eram muito produtivas, com o tempo deixavam de ser. Foi aí que passamos a ter o entendimento de que a caatinga era importante para manter a fertilidade do solo e a produção.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Vista-aerea-do-terreno-de-Eduardo-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Vista-aerea-do-terreno-de-Eduardo-1024x576.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Vista-aerea-do-terreno-de-Eduardo-1024x576.jpg" alt="A imagem mostra uma vista aérea de uma propriedade rural cercada por vegetação densa. No centro, há uma casa com telhado de cerâmica vermelha e painéis solares instalados. Ao lado da casa, vê-se uma estrutura circular com cobertura vermelha, parecida com um quiosque, e uma espécie de trampolim ao redor. Há também um pequeno galpão com telhado de telha e um reservatório de água redondo. Uma estrada de terra passa na parte inferior da imagem, onde está estacionado um carro. A área ao redor combina vegetação nativa com partes cultivadas, delimitadas por cercas." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Eduardo Emídio recaatingou seu terreno e hoje lida de forma mais tranquila com a estiagem.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A decisão de viver da terra, no entanto, não foi imediata. Até 2005, Eduardo ainda conciliou o trabalho na indústria cerâmica com o manejo da propriedade. A virada veio com o acesso ao Pronaf, em 2005. Com um financiamento de R$ 8.500, eles investiram em um galpão para armazenar capim seco, uma máquina forrageira, o plantio de palma e a compra de caprinos e ovinos &#8211; escolhas consideradas “loucuras” à época. “Galpão era visto como casa para morar, não para guardar capim”, lembra. Do recurso ainda sobrou dinheiro para a compra de uma vaca, que acabou se tornando central na sustentabilidade financeira do projeto: ao longo dos anos, a venda de bezerros e do leite permitiu quitar integralmente o financiamento. Ao final, a vaca foi vendida para pagar a última prestação, e o restante da estrutura permaneceu.</p>



<p>A partir de 2010, o sistema produtivo já estava consolidado em bases agroflorestais e de sustentabilidade, atraindo visitas de entidades e organizações interessadas em conhecer a experiência. Foi também nesse período que surgiram conflitos. Eduardo relata perseguições políticas e tentativas de interferência no projeto, incluindo disputas envolvendo despejo de resíduos de esgoto e interesses ligados à indústria cerâmica. “A ameaça não era a gente, era o que a gente indicava: que dava para manter a caatinga de pé”, afirma. A disputa se estendeu por oito anos e só foi resolvida em 2018, quando a família obteve segurança jurídica para seguir com o trabalho.</p>



<p>Durante esse período, a relação com a comunidade também exigiu estratégias de diálogo. Eduardo conta que levou escolas e crianças para dentro da propriedade, apostando na educação ambiental como forma de reduzir resistências. “A criança voltava para casa contando o que viu: o peixe, a galinha, o cabrito, o passarinho. Isso ajudou os pais a entenderem que não éramos uma ameaça”, diz.</p>



<p>Hoje, a propriedade funciona com base na convivência com o semiárido. Não há poços artesianos nem rios permanentes, mas o sistema de captação de água da chuva garante abastecimento durante todo o ano. São quatro cisternas, dois barreiros subterrâneos, três barreiros convencionais e uma mandala produtiva. Mesmo após longos períodos de estiagem, Eduardo afirma não enfrentar falta de água nem perda de animais. “A gente não compra alimento, não perde animal e consegue manter a produção”.</p>



<p>A caatinga deixou de ser vista como obstáculo e passou a ser tratada como ativo produtivo. Em uma área de 24 hectares, quase 95% permanecem cobertos por vegetação nativa, com 40% de reserva legal. A propriedade abriga aproximadamente 40 bovinos, 90 caprinos, além de galinhas, peixes e abelhas. Segundo Eduardo, a recuperação ambiental atraiu a fauna silvestre: um levantamento recente identificou cerca de 130 espécies de animais vivendo na área. Em alguns pontos da propriedade, a temperatura chega a ficar 8 graus abaixo da média local.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Eduardo-Emidio-1024x683.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Eduardo-Emidio-1024x683.jpg" alt="Eduardo Emídio está em pé em uma área de mata verde, sob um céu azul claro. Ele veste uma camisa verde de mangas compridas com um emblema circular no peito e usa um chapéu de palha de aba larga. Ao redor, há capim alto e árvores finas com poucas folhas, indicando um ambiente natural, possivelmente reflorestado. A luz do sol é suave, sugerindo que a foto foi tirada pela manhã ou no fim da tarde." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Ao tirar o sustento da caatinga em pé, Eduardo chegou a ser visto como ameaça
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A diversificação produtiva levou à criação de uma queijaria certificada, hoje a única da Bahia a industrializar laticínios a partir de produtos da caatinga. A produção inclui queijos, iogurtes, manteigas e doces feitos com frutas nativas como umbu, mandacaru, palma, licuri e maracujá-do-mato (diferente daquele que geralmente encontramos nos supermercados). Parte significativa da renda vem desses produtos, vendidos principalmente na loja da própria propriedade e em feiras agroecológicas da região.</p>



<p>Além de Eduardo e Cristina, mais duas pessoas trabalham na propriedade. O filho do casal, Fábio Queiroz, de 22 anos, cada vez mais tem assumido os negócios da família. Eles também contam com a ajuda de um profissional que cuida do curral. Atualmente, são produzidos 200 litros de leite por dia, que são transformados integralmente em queijo e iogurte.</p>



<p>Eduardo destaca que a lógica do projeto sempre foi de longo prazo. Planejado em 2000 para ser concluído em 2020, o processo de “recatingamento” só terminou em 2021. Para ele, o diferencial não está em ensinar técnicas, mas em promover entendimento. “Não é aprendizado, é entendimento. Entender que armazenar água da chuva é melhor do que furar poço; que a caatinga é produtiva; que o sistema define o animal, e não o contrário.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Terrenos-de-Eduardo-e-Pascoal-300x83.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Terrenos-de-Eduardo-e-Pascoal-1024x284.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/12/Terrenos-de-Eduardo-e-Pascoal-1024x284.jpg" alt="A imagem apresenta duas paisagens aéreas lado a lado, formando um contraste marcante. À esquerda, vê-se uma floresta densa e verde, com árvores variadas e vegetação abundante, transmitindo a ideia de um ecossistema saudável e preservado. À direita, o cenário é seco e árido, com pouca vegetação, um pequeno reservatório de água e uma estrada de terra sinuosa cortando o terreno. A diferença entre os dois lados evidencia os impactos da degradação ambiental, como desmatamento ou uso inadequado do solo, em oposição à conservação da natureza. Essa comparação visual destaca a importância da proteção dos ambientes naturais para manter o equilíbrio ecológico." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Duas propriedades, uma com agrofloresta preservada outra degradada. Mais de 8 graus de diferença na temperatura entre uma e outra.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	

    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p>Esta reportagem foi produzida em parceria com a <a href="https://redeaterne.org.br/">Rede Ater Nordeste</a>.</p>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">Leia também:</h2>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/em-valente-ba-a-seguranca-alimentar-comeca-na-escola/" class="titulo">Em Valente (BA), a segurança alimentar começa na escola</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/semiarido/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Semiárido</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/articulacao-entre-ong-e-prefeitura-eliminou-ultraprocessados-da-merenda-escolar-em-cumaru/" class="titulo">Articulação entre ONG e prefeitura eliminou ultraprocessados da merenda escolar em Cumaru</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/a-peleja-da-agricultura-familiar-contra-os-salgadinhos-e-sucos-de-caixinha/" class="titulo">A peleja da agricultura familiar contra os salgadinhos e sucos de caixinha</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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	            </div>
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		<title>“Tecendo o futuro com as próprias mãos”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Jun 2025 22:35:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[artesanato]]></category>
		<category><![CDATA[Casa de Maria]]></category>
		<category><![CDATA[empoderamento]]></category>
		<category><![CDATA[empreendedorismo]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O que tem em comum entre uma bolsa de palha de carnaúba trançada em Cabreiro de Cima, distrito de Aracati (CE), e uma bolsa de crochê produzida na Casa de Maria, em Jaboatão dos Guararapes (PE)? Além de belíssimas, as duas peças são exemplos de como o trabalho manual, aliado a uma boa dose de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O que tem em comum entre uma bolsa de palha de carnaúba trançada em Cabreiro de Cima, distrito de Aracati (CE), e uma bolsa de crochê produzida na Casa de Maria, em Jaboatão dos Guararapes (PE)? Além de belíssimas, as duas peças são exemplos de como o trabalho manual, aliado a uma boa dose de empreendedorismo, vem gerando renda e empoderando dezenas de mulheres brasileiras.</p>



<p>São duas realidades bem diferentes uma da outra, mas, ao serem mostradas e colocadas lado a lado, elas se somam e ajudam a pintar um quadro mais completo da potência transformadora do artesanato no Brasil. Estamos falando de Aracati e seu entorno e da Casa de Maria, mas poderia ser de qualquer outro lugar do país.</p>



<p>Vamos começar a história por Cabreiro de Cima, ou melhor, por Natália Sena Costa. Nat, como é mais conhecida, tem trinta anos e trabalha com palha há sete, incentivada pela tia Socorro Saboia, 62 anos, que, por sua vez, aprendeu o ofício com a mãe. Como muitas das meninas da região, começou fazendo descanso de panela e depois passou para bolsas e cestos que são peças mais elaboradas. Tudo feito com palha de carnaúba, palmeira-símbolo do Ceará e principal matéria-prima para o artesanato da região.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Nat, a sócia Vanessa e tia Socorro. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O que diferencia Nat da maioria das mulheres que fazem trabalho com palha é a visão empreendedora. Antes do artesanato, ela já era ativa no Instagram, com uma conta sobre autoaceitação de pessoas com deficiência. Aqui cabe uma explicação: Natália nasceu com uma malformação na coluna vertebral chamada de escoliose. Em 2018, ela levou a experiência digital para o artesanato e abriu uma loja virtual. “Pesquiso tudo no Instagram. Sou muito curiosa. Aprendi sobre tráfego pago e estou usando. As vendas cresceram muito.”</p>



<p>Nat é uma influenciadora do bem. Somando seu perfil pessoal (<a href="https://www.instagram.com/costa_natt/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">@costa_natt</a>) e o profissional (<a href="https://www.instagram.com/natartartesanato/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><a href="https://www.instagram.com/natartartesanato/#">natartartesanato</a></a>) já está batendo os 100 mil seguidores. Mas ela não ficou apenas no “virtual”. “Com a paixão pelo artesanato e a vontade de empreender, decidi reunir as mulheres artesãs da minha família e criar a empresa Nat Art Artesanato em novembro de 2018. Minha primeira venda em atacado foi no mês seguinte”.</p>



<p>Natália começou seu negócio muito mais na intuição. “Comecei sem plano nenhum e ao longo dos meses as vendas foram aumentando”. Mas ela viu que só intuição, talento e boa vontade não seriam suficientes. Foi aí que resolveu investir em formação profissional. Fez vários cursos, entre eles o Empretec, uma metodologia criada pela ONU, oferecida pelo Sebrae no Brasil, com o objetivo de desenvolver o comportamento empreendedor e identificar novas oportunidades de negócio. Deu certo. “Já vendi para todos os estados do Brasil”.</p>



<p>Tudo isso fez de Nat um exemplo. “Meu trabalho incentiva outras mulheres com deficiência. Mas ainda há preconceito: por ser do interior, por ser deficiente. Sempre me perguntam se tenho capacidade de entregar.”</p>



<p>Vanessa da Silva Barbosa, 18 anos, é parceira de Nat nas vendas e produção. Desde os 12, trabalha com customização de palha. As duas formam uma dupla inseparável. Vanessa vê no artesanato uma forma de garantir renda e manter os laços com sua história.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Laços de palha e amizade</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Retrato das tardes de trançar palha e bater papo na casa de Santinha. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Natália é o que se pode chamar de “caso de sucesso”. Mas, como ela, existem milhares de mulheres que são responsáveis pela região do baixo Jaguaribe ser reconhecida pela excelência do artesanato feito com palha de carnaúba, técnica passada de geração em geração, com beleza, saber e resistência.</p>



<p>Na comunidade de Tabuleiro do Luna, em Itaiçaba (CE), por exemplo, a força da tradição se entrelaça com os fios da amizade. Francisca da Silva dos Santos, 75 anos, é uma referência pela qualidade do seu trabalho, bom humor e espírito agregador. Junto com outras nove mulheres, Santinha, como é conhecida, forma um grupo que produz de maneira compartilhada: cada uma é especialista em um ponto ou etapa. “Somos amigas desde os anos 1970.” Estão no grupo Rita Araújo (81), Ocirema Rodrigues (60), Maria de Lurdes (65) e seu marido Aluísio de Lima (74, que costura as esteiras), e Maria do Carmo Araújo (57), filha de dona Rita.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><em>O litoral leste do Ceará e o Baixo Jaguaribe — que inclui municípios como Aracati, Itaiçaba, Palhano, entre outros — é marcado por paisagens de carnaubais, mangues e dunas, com comunidades rurais e pesqueiras espalhadas entre vilarejos e zonas urbanas. Nessas áreas, o artesanato com palha de carnaúba é uma prática tradicional, especialmente entre as mulheres, unindo saberes transmitidos por gerações ao uso sustentável dos recursos naturais, e representando uma importante fonte de identidade e renda para a população local.</em></p>
        </div>
    </div>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Santinha e as tranças de carnaúba. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/MZ</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Santinha aprendeu a arte com a mãe e a avó. “As coisas que elas faziam eram mais simples&#8230; chapéus grosseiros. A inovação chegou e melhoramos o trabalho.” Ela nunca trabalhou em uma empresa. Construiu sua casa e criou os 12 filhos com a renda da palha. “Só um ainda trabalha com isso, cortando palha.” E lamenta: está cada vez mais difícil conseguir matéria-prima.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Da pintura ao banquinho de bode</strong></h2>



<p>Para que a bolsa, aquela que falamos no início da reportagem, faça sucesso no Instagram e nas lojas especializadas, existe antes uma cadeia de produção.</p>




	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Como a palha vira ouro</span>

		<p><strong>Matéria-prima:</strong></p>
<ul>
<li>Utiliza-se a folha da carnaúba, conhecida como “olho da carnaúba”.</li>
</ul>
<p><strong>Secagem:</strong></p>
<ul>
<li>A folha é colhida e passa por um processo de secagem ao sol que dura até 4 dias.</li>
</ul>
<p><strong>Riscagem:</strong></p>
<ul>
<li>Após a secagem, a artesã usa uma pequena faca para “riscar” o olho da carnaúba.</li>
<li>Nesse processo, separa-se o “lombo” da palha, parte que dá volume e estrutura à peça.</li>
</ul>
<p><strong>Armazenamento:</strong></p>
<ul>
<li>A palha é guardada em local arejado.</li>
</ul>
<p><strong>Preparação para uso:</strong></p>
<ul>
<li>Antes de ser trabalhada, a palha é umedecida com um pano para ficar mais maleável.</li>
</ul>
<p><strong>Confecção da peça:</strong></p>
<ul>
<li>A artesã inicia a criação usando pontos abertos e fechados.</li>
<li>Quando necessário, utiliza-se uma forma de madeira como molde para garantir o formato desejado.</li>
</ul>
	</div>



<p>Outro trabalho importante é a pintura das palhas. Em Itaiçaba, apenas três mulheres fazem esse trabalho de forma mais sistemática. Uma delas é Maria Lúcia Barbosa, 66 anos, que aprendeu a pintar palha observando a vizinha pela cerca no seu quintal. “O pacote de corante custa R$ 7 e pinta 75 olhos de palha. Preto e verde musgo são os que mais saem.”</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-6-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-6-1024x768.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-6-1024x768.jpg" alt="Maria Lúcia Barbosa artesã" class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Maria Lúcia tingiu a palha para que a reportagem conhecesse o processo. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Ela vende cada olho de palha pintado por R$ 3. O preço fica por R$ 2,50, se a palha for da cliente. Pinta cerca de 150 olhos por mês. “Trabalho quieta, mas firme. Tenho um casal de filhos.”</p>



<p>Já Iracema Maria de Lima, 51 anos, brinca dizendo que trabalha com palha desde “dentro da barriga da mãe”. Começou com camisa de litro, peça que veste as garrafas decorando-as, passou 15 anos em Petrópolis (RJ), mas voltou para casa. Hoje, faz roupas de palha e banquinhos em forma de bode e jumento. Peças únicas. Mora com a mãe, o marido e o filho de 14 anos. “É difícil fazer e nem sempre as pessoas dão valor.” Venceu três vezes o tradicional concurso de artesanato da festa da Pescaria da cidade, no Sete de Setembro.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-7-300x225.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-7-1024x768.jpg">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Iracema e sua mãe, artesãs. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Esvaziamento de uma tradição</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/No-rastro-da-palha_Carnauba_0014___-300x225.jpg">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Viveiro de camarão no distrito de Cabreiro de Cima, Aracati. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A palha de carnaúba não é só matéria-prima. É símbolo de pertencimento e sobrevivência. Seu ciclo envolve cuidado com a natureza, técnica apurada e um olhar coletivo. É uma economia de afeto, saber e resistência, exatamente o oposto da carcinicultura, atividade econômica que se expande velozmente na região. Neste contexto, o aumento de áreas para criação de camarões tem provocado impactos negativos cada vez maiores na cadeia produtiva do artesanato local.</p>



<p>A principal preocupação, a mais visível e mensurável também, é a destruição de áreas naturais onde crescem as carnaubeiras, convertidas em fazendas de camarão. Como essas plantações exigem grandes extensões de terra e água, há uma redução nas áreas disponíveis para o cultivo e coleta da palha, essencial para a produção artesanal. Além disso, alterações ambientais provocadas pela atividade, como a poluição da água e perda de biodiversidade, também comprometem a qualidade da matéria-prima.</p>



<p>Outro efeito significativo da carcinicultura é a mudança na dinâmica econômica local. Com a promessa de empregos e lucros rápidos, a criação de camarões atrai investimentos e mão de obra que antes estavam ligados ao artesanato. Isso provoca um esvaziamento do setor artesanal, reduzindo a produção de peças em palha de carnaúba e enfraquecendo a cultura local. A longo prazo, esses impactos colocam em risco tanto o sustento de artesãos quanto a preservação desse saber tradicional.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/Trabalho-com-palha-de-Carnauba-no-Ceara_-8-300x200.jpg">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Cerzina mostrando o trançado das bolsas de carnaúba. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Cerzina Ferreira da Silva, presidente da <a href="https://www.instagram.com/arti.itaicaba/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Associação das Mulheres Artesãs</a>, que já teve mais de 200 integrantes, hoje conta com apenas cerca de 60 participantes ativos, fala das dificuldades que se acumulam: a redução das áreas de carnaubeira, a perda de qualidade da água e o desinteresse da juventude.</p>



<p>“De janeiro até maio, junho, por conta das chuvas, as famílias artesãs sofrem muito. As palhas mofam e o valor cai”, explica Cerzina. “É mais fácil um jovem ser vigia de um viveiro de camarão do que ir trabalhar com artesanato.” Além dos desafios materiais, há um sistema de exclusão mais profundo. “O sistema que está por trás disso tudo não deixa a gente crescer”.</p>



<p>“Aqui era cheio de carnaubeira. No caminho para Aracati era tudo carnaúba. Agora é só viveiro de camarão. Esculhambou o rio, esculhambou as carnaúbas, esculhambou tudo”, resume Dona Raimunda Ferreira, mãe de Cerzina.</p>



<p>O ex-secretário de agricultura Raimundo Nonato, 56 anos, conhece de perto esse cenário. Ele pagou os estudos com a renda do artesanato feito com a mãe. Formado em contabilidade e administração, teme que o saber que moldou sua trajetória desapareça. “Daqui uns dez anos, tenho medo que o artesanato com palha de Itaiçaba se acabe.”</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>OURO FEMININO</strong></h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2025/06/CasaDeMaria_0007____-300x169.jpg">
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	                                        <p class="m-0">Aula de macramê na Casa de Maria. Crédito: Inês Campelo/MZ
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<p>Lembra a história de Santinha e suas amigas criando juntas peças de palha de carnaúba lá em Itaiçaba? Pois bem, em Pernambuco, mais especificamente em Jaboatão dos Guararapes, a lógica é a mesma. Aqui os nós do empreendedorismo já foram desatados, e, como nos pontos de macramê e de crochê, a <a href="https://www.instagram.com/projetocasademaria/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Casa de Maria</a> junta sempre o criar e empreender na mesma peça. A frase na entrada da sede do projeto resume o espírito do lugar: “Tecendo o futuro com as próprias mãos”.</p>



<p>Primeiro, é preciso entender o que é o projeto. A <a href="https://www.instagram.com/projetocasademaria/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Casa de Maria</a> nasceu, em 2017, a partir do compartilhamento de conhecimento de crochê entre as mães que aguardavam seus filhos atendidos pelo <a href="https://www.instagram.com/projetoariasocial/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ária Social</a>. A ideia foi reconhecida e abraçada por Cecília Brennand, presidenta do Ária, que de imediato promoveu a profissionalização de artesãs, gerando renda através do empreendedorismo social. O nome vem da junção do “M” de mãe com o “aria” do projeto inicial, resultando em Maria.</p>



<p>Atualmente são atendidas 140 mulheres, divididas em cinco oficinas: macramê, crochê, amigurumi, tecelagem de jornal e costura. E não é só isso. A busca pela excelência é constante, está presente em todas as etapas da formação e na produção das peças para as coleções que são comercializadas nas <a href="https://projetocasademaria.com/?fbclid=PAZXh0bgNhZW0CMTEAAafHNqTd2Ch3UlFQhQHqoDckcd3Rxjh0uAAjQ0B8Lt9u5Jksr47QKANbo2Ts-Q_aem_ks9GBHl6CTvHEQf6I3vqrg" target="_blank" rel="noreferrer noopener">lojas do projeto</a>. Já passaram pela Casa designers renomados como Sérgio Matos e Luly Vianna, criando coleções com várias técnicas.</p>



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	                                        <p class="m-0">Inês fazendo o protótipo de uma bolsa. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
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<p>Maria Inês Costa Silva, é uma das responsáveis pela produção de bolsas em material sintético na Casa de Maria. “Eu tenho a responsabilidade de criar ou de tirar do desenho as peças, a gente recebe visitas de designers, pessoas que criam peças em desenhos, e eu sou responsável por tirar esse desenho do papel”, explica.</p>



<p>Ela participa do projeto desde 2016, quando acompanhava uma prima. “Eu aprendi a fazer crochê e passei a ensinar o que eu aprendi. Depois, Sérgio Matos chegou e trouxe também uma outra técnica, que a gente batizou de Sérgio Matos, porque a gente não sabe exatamente o nome”.</p>



<p>Inês afirma, com convicção, que a entrada no projeto transformou sua vida. “Mudou muito. Antes eu trabalhava como operadora de telemarketing. Gosto de estar aqui por conta da variedade de coisas que a gente consegue fazer. Não fico presa apenas a uma coisa. O tempo todo chega gente com ideias novas, com produtos novos.”</p>



<p>Gilliane da Silva Torres Lins, que está no projeto há sete anos, desde que sua filha começou a fazer aulas de balé, violão e dança contemporânea. “Comecei na Casa de Maria fazendo os cursos. Já fiz de tecelagem. Depois, fiz de macramê. E, agora, faço parte da equipe de produção de macramê da Casa. Faço a bolsa Freda que é toda em macramê com fio sintético. É uma bolsa que leva uns quinze dias para ficar pronta”, diz orgulhosa.</p>



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	                                        <p class="m-0"> Gilliane e a bolsa Freda. Na Casa de Maria o nome de todas as peças homenageiam mulheres. Crédito: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
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<p>Sempre tem novidade. “É muito bom o que acontece aqui, porque assim, além da gente aprender sempre uma coisa diferente, tem a socialização com as outras mães, a gente conversa bastante, aí uma vai ensinando pra outra, é um momento de descontração, de aprendizado, é um convívio muito bom”, complementa.</p>



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	                                        <p class="m-0">Tatiana mostra suas ferramentas de trabalho. Foto: Inês Campelo/MZ
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<p>A transformação é profunda e, na maioria das vezes, rápida. Se Gilliane está há sete anos, Tatiana Lúcia da Silva, por exemplo, entrou no ano passado. “Minha filha tem 10 anos, faz balé, teatro e toca flauta. E, eu aprendi crochê do zero. Nunca peguei em uma agulha e hoje faço vários modelos de Amigurumi. Faço as peças da Casa de Maria e ainda faço peças para vender na lojinha que eu tenho em casa. Depois que eu vim pra cá, tudo melhorou muito”, comemora.</p>



<p>A história de Jaísas Lima reflete o caminho que a maioria das mães podem percorrer dentro do Ária. Entrou como aluna e hoje é professora.“Minha vida mudou depois que eu entrei aqui. Passei a ser reconhecida. A gente aprende coisas novas todo dia. Conseguimos chegar onde a gente quer, no nosso objetivo. Sempre digo isso para minhas alunas: não quero ouvir a frase, eu não posso. Ah, eu não consigo. Quando a gente quer, a gente pode e a gente consegue”.</p>



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	                                        <p class="m-0">O espírito de criação conjunta é registrado na aula de crochê de Jaísas. Foto: Inês Campelo/MZ
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<h6 class="wp-block-heading">A reportagem decidiu publicar foto de cada uma das mulheres que dedicou parte do seu dia contando um pouco da sua história.</h6>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/tecendo-o-futuro-com-as-proprias-maos/">“Tecendo o futuro com as próprias mãos”</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Potiguaras concluem limpeza do Rio do Aterro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 17 Feb 2025 19:23:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[Agrofloresta]]></category>
		<category><![CDATA[Água Potiguaras]]></category>
		<category><![CDATA[Meio Ambiente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foi na manhã de um sábado de janeiro que eu, Inês Campelo e, Sérgio Miguel Buarque, repórteres da Marco Zero, estivemos mais uma vez nas terras da aldeia Alto do Tambá, Baía da Traição, na Paraíba. Um retorno motivado pelo trabalho dos indígenas Potiguaras, que, há quatro anos, iniciaram a abertura do rio do Aterro [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Foi na manhã de um sábado de janeiro que eu, Inês Campelo e, Sérgio Miguel Buarque, repórteres da Marco Zero, estivemos mais uma vez nas terras da aldeia Alto do Tambá, Baía da Traição, na Paraíba. Um retorno motivado pelo trabalho dos indígenas Potiguaras, que, há quatro anos, iniciaram a abertura do rio do Aterro com as próprias mãos e a concluíram por esses dias de janeiro de 2025.</p>



<p>Se você, leitor, chegou aqui nesse texto e ainda não está entendendo ou não recorda muita coisa, os indígenas criaram o projeto Águas Potiguara, que tem como objetivo limpar os rios do território, discutir políticas para os povos indígenas e reconstruir a mata ciliar. O trabalho iniciou pelo rio do Aterro, afluente do rio Sinimbu, que corta as duas aldeias, Alto do Tambá e Forte. Pra quem quiser ler ou recordar aqui está nossa primeira reportagem <a href="https://marcozero.org/um-rio-aberto-com-as-proprias-maos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Um rio aberto com as próprias mãos</a>.</p>



<p>Começo a história já me explicando! Dessa vez, não conseguimos chegar pertinho da água. Meu zero preparo físico para uma trilha pesou. Além de uma longa descida em um caminho estreito, por dentro da mata, mas com bastante pedras e um calor excruciante, já deixou trêmula as pernas e dolorido os pés, que calçavam um chinelo inadequado para o local. Tendo como outra opção, pior, uma bota de borracha sete léguas, carregada por Sérgio. Não bastasse o desgaste pessoal, sobre o corpo, que já não é tão leve, carregava os equipamentos de imagem.</p>



<p>Ao meio do caminho, uma parada na cozinha improvisada para respirar cinco minutos do ar puro de uma reserva indígena. Era a hora de calçar “as belas” sete léguas para a travessia de um trecho de mais ou menos um quilômetro em um paul &#8211; que vem a ser um terreno semelhante a um pântano. A cada pisada afundava 20, 30, 40 centímetros e tremia igual uma vara verde com medo de afundar completamente e molhar todo equipamento. Um décimo do percurso e resolvi voltar. Por sorte carregava um drone.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Caminho pelo paul. Crédito: Inês Campelo/MZ
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<p>O espírito de coletividade continua sendo o norte do Águas. Ficamos na cozinha improvisada, que nada mais é que um frondoso cajueiro, com uns poucos assentos em sua sombra, uma mesa, água gelada, frutas frescas, um empilhado de tijolos criando um fogão a lenha com um caldeirão de peixada fervendo e perfumando. Foi de lá que subi o drone para sobrevoar Jessé e sua filha, que estava pela primeira vez acompanhando o pai, até o ponto de trabalho do dia.</p>



<p>Integrante do Águas Potiguara desde o início e também um dos entrevistados na nossa primeira reportagem, Jessé Viana da Silva, conversou com a gente e contou um pouco sobre sua experiência.</p>



<p>“Foi um trabalho muito difícil. A verdade é essa! Mas também foi uma emoção muito grande quando conseguimos abrir quase cinco quilômetros do rio, então foi gratificante. E a tendência agora é a gente permanecer fazendo a manutenção, pois as raízes das aningas crescem muito rápido”. Além de trazer vida novamente ao rio, a comunidade resgata costumes ancestrais com uso social do rio. “Nos finais de semana sempre estamos lá. Passando o dia. Tomando banho. Brincando. E, hoje você já consegue até pegar alguns peixinhos”, comemora.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Crédito: Ju Potiguara/Águas Potiguara
</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p></p>



<p>Para o futuro a ideia é de reflorestar as margens do rio. “Planejamos fazer uma agrofloresta. Plantar diversos tipos de árvores. Garantir a nossa agricultura familiar com a roça. Mantendo o rio com seu fluxo normal podemos aproveitar principalmente quando os pauis – sim, esse é o plural de paul &#8211; baixarem”, explicou Jessé.</p>



<p>Aproveitamos nossa volta e tiramos algumas dúvidas que nossos leitores e seguidores das redes sociais levantaram quando postamos a primeira matéria. </p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p>A pergunta mais feita foi: por que não usaram uma máquina? “A gente está todos os finais de semana no rio. Limpando, cortando. Até correndo perigo de ser mordido por alguns animais, especialmente cobras. Tentamos parceria com a secretaria do Meio Ambiente do Estado. Infelizmente nos prometeram uma máquina para o trecho mais estreito do rio do Aterro. Já que o Sinibu é muito largo. E para lá tem que ser uma dragagem de fato. Prometeram dar uma resposta. Até hoje a gente espera”, explica Jessé.</p>
<p>Outro questionamento constante foi sobre a identidade indígena do povo potiguara. Para Jessé o desrespeito começa pela maneira pejorativa a qual algumas pessoas se referem aos povos indígenas. “O termo correto é indígena. A gente tenta reeducar as pessoas. Outra coisa, por exemplo que nos questionam muito é por que índio tem celular? Índio tem relógio? Índio tem carro? Índio tem casa de tijolo? O indígena tem tudo isso. O indígena é um cidadão como qualquer outro e que chegou aqui bem antes dos invasores. O povo Potiguara foi guerreiro para poder resistir até hoje. Não é uma questão de aparência. É questão de sangue. De história”, ressalta.</p>
<p>Para não alongar, uma última pergunta: será que vocês estão ‘enxugando gelo’? “Não necessariamente. Porque em parte do rio o problema não é o assoreamento. O que fechou o rio na verdade foi a própria vegetação natural dele. A aninga cresceu de uma forma que ela atravessou totalmente o caminho do fluxo normal do rio”. O reflorestamento das margens será fundamental para manutenção do rio aberto. “Fizemos uma ação em busca de sementes nativas de sucupira, pau-ferro, maçaranduba para fazer mudas e sair plantando, distribuindo no nosso território já com essa mentalidade de proteger também aquelas margens”, concluiu.</p>
	</div>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>E assim terminamos a manhã do sábado, 25 de janeiro de 2025. Como ainda precisávamos percorrer outros pontos do rio, não ficamos para almoçar a peixada que é feita coletivamente pelas mulheres indígenas e saboreada após a manhã de ação que integra, valoriza, resgata e une o povo potiguara.</p>
</blockquote>
</blockquote>



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</div></div>
</div>
</div>
</div>
</div>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><strong>Uma questão importante!</strong></p>



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</blockquote>
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			</item>
		<item>
		<title>O ano da Marco Zero: equilíbrio entre audiência e qualidade editorial</title>
		<link>https://marcozero.org/o-ano-da-marco-zero-equilibrio-entre-audiencia-e-qualidade-editorial/</link>
					<comments>https://marcozero.org/o-ano-da-marco-zero-equilibrio-entre-audiencia-e-qualidade-editorial/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 31 Dec 2024 20:51:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[jornalismo independente]]></category>
		<category><![CDATA[Retrospectiva 2024]]></category>
		<category><![CDATA[transparência]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://marcozero.org/?p=68324</guid>

					<description><![CDATA[<p>Em 2024, a Marco Zero teve um substancial aumento da audiência do site. Desde janeiro, foram mais de 1,1 milhão de usuários ativos. Esse número corresponde a um crescimento de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior. As visualizações, neste mesmo recorte, passaram de 1,6 milhão (mais 24%). Já a contagem de eventos [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 2024, a <strong>Marco Zero</strong> teve um substancial aumento da audiência do site. Desde janeiro, foram mais de 1,1 milhão de usuários ativos. Esse número corresponde a um crescimento de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior. As visualizações, neste mesmo recorte, passaram de 1,6 milhão (mais 24%). Já a <a href="https://support.google.com/analytics/answer/9322688?hl=pt-BR#zippy=%2Crelat%C3%B3rio-de-tempo-real%2Crelat%C3%B3rio-do-debugview">contagem de eventos</a> superou os 9,4 milhões (mais 53%). Estes números foram atingidos graças à estratégia criada para atrair mais leitores para o site e aumentar o engajamento nas redes sociais. Tudo isso com o objetivo de aumentar o impacto de nossos conteúdos e ter uma presença mais relevante no debate público, em um esforço para combater a desinformação.</p>



<p>Para isso, foram realizadas uma série de ações ao longo do ano. Um ponto de destaque foi, ainda em fevereiro, a colocação de um novo site no ar. O site foi redesenhado para, com um novo layout, ter uma navegação mais amigável e uma otimização dos mecanismos de busca (SEO). Também buscamos simplificar e aprimorar o processo de doação dos leitores.</p>



<p>Junto com o novo site, implementamos mudanças editoriais com a criação de quatro eixos de conteúdos: Direitos Humanos, Direito à Cidade, Socioambiental e Diversidade. Isso trouxe dois resultados diretos. Primeiro, essa atualização ajudou a organizar e agilizar os processos internos de definição de pautas e produção de conteúdos. Segundo, contribuiu para apresentar e categorizar com mais eficiência os conteúdos jornalísticos dentro do site, facilitando a navegação dos leitores e melhorando a indexação pelos mecanismos de busca.</p>



<p>Paralelo a isso, em 2024, também aumentamos nossa produção de conteúdo. Foram 456 reportagens colocadas no ar, nosso recorde. Chegamos agora a 3.383 conteúdos publicados nestes nove anos e meio de existência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<h3 class="wp-block-heading">As dez matérias mais acessadas de 2024:</h3>



<p>1) <a href="http://O doce pernambucano que nem os pernambucanos conhecem - Marco Zero Conteúdo">O doce pernambucano que nem os pernambucanos conhecem</a> – 121.876 visualizações</p>



<p>2) <a href="http://Muro Alto e Cupe: uma amostra da privatização das praias - Marco Zero Conteúdo">Muro Alto e Cupe: uma amostra da privatização das praias</a> – 107.168 visualizações</p>



<p>3) <a href="http://Seu Vital não tem zap, nem wifi, nem pix, mas o Poço da Panela gira em torno dele - Marco Zero Conteúdo">Seu Vital não tem zap, nem wifi, nem pix, mas o Poço da Panela gira em torno dele</a> – 84.104 visualizações</p>



<p>4) <a href="http://Código &quot;homossexual&quot; para seguranças do Shopping Tacaruna gera denúncia por homofobia - Marco Zero Conteúdo">Código &#8220;homossexual&#8221; para seguranças do Shopping Tacaruna gera denúncia por homofobia</a> – 43.282 visualizações</p>



<p>5) <a href="http://Com pressa e sem aviso, Prefeitura do Recife derruba casas e despeja idosa na Vila Esperança - Marco Zero Conteúdo">Com pressa e sem aviso, Prefeitura do Recife derruba casas e despeja idosa na Vila Esperança</a> – 42.415 visualizações</p>



<p>6) <a href="http://Conheça as mulheres cearenses que se uniram para reinventar o crochê - Marco Zero Conteúdo">Conheça as mulheres cearenses que se uniram para reinventar o crochê</a> – 40.223 visualizações</p>



<p>7) <a href="http://Mães reagem com críticas à postagem de João Campos sobre educação inclusiva - Marco Zero Conteúdo">Mães reagem com críticas à postagem de João Campos sobre educação inclusiva</a> – 39.505 visualizações</p>



<p>8)<a href="http://Convênio para monitorar surucucu está travado na CPRH - Marco Zero Conteúdo"> Convênio para monitorar surucucu está travado na CPRH</a> – 37.009 visualizações</p>



<p>9) <a href="http://Saiba quem é a condenada por estelionato gestora de cinco creches no Recife - Marco Zero Conteúdo">Saiba quem é a condenada por estelionato gestora de cinco creches no Recife </a>– 31.563 visualizações</p>



<p>10) <a href="http://Para &quot;requalificar o entorno&quot;, empresa espanhola corta 27 árvores na calçada do aeroporto - Marco Zero Conteúdo">Para &#8220;requalificar o entorno&#8221;, empresa espanhola corta 27 árvores na calçada do aeroporto</a> – 28.576 visualizações</p>
</blockquote>



<p>A lista de reportagens mais acessadas ilustra, de maneira geral, uma tendência que tem impactado positivamente a nossa audiência: ser indexada no <a href="http://O que é o Google Discover e como funciona - Canaltech">Google Discover</a>. O número de indexação cresceu bastante depois que colocamos o novo site no ar, mais eficiente do ponto de vista de SEO. São esses tipos de reportagens que aumentam o alcance, engajamento e atraem novos leitores.</p>



<p>Já do ponto de vista de impacto social e relevância, destaque para a série de reportagens <a href="https://marcozero.org/a-reinvencao-do-nordeste/">A reinvenção do Nordeste</a>, uma parceria com a Rede Ater Nordeste para mostrar como a sociedade civil se organizou para construir soluções de convivência com o clima e, ao mesmo tempo, gerar renda, produzir alimentos e conservar o meio ambiente. Foram publicadas nove reportagens no nosso site. Se a audiência não foi muito grande, a repercussão entre o público formador de opinião e/ou vinculado ao tema foi significativa.</p>



<p>Foram vários comentários e republicações. Destaque para a coluna do jornalista Xico Sá, <a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/xico-sa/a-reinvencao-do-nordeste-para-o-apocalipse-do-clima-1.3527088?utm_source=twitter">no Diário do Nordeste (CE)</a> e para o <a href="https://portal.ufrrj.br/reportagem-do-marco-zero-conteudo-destaca-estudo-da-ufrrj-sobre-comunidades-do-sertao-da-bahia/">site da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro</a> (UFRRJ). Essas reportagens dão credibilidade e consistência a Marco Zero.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>O desafio é encontrar um ponto de equilíbrio na publicação de reportagens menos relevantes/com mais audiência e matérias com grande relevância / com menos audiência.</p>
        </div>
    </div>



<p>Em uma outra parceria com a Rede Ater Nordeste, a Marco Zero voltou ao semiárido nordestino. Desta vez, nossas equipes de repórteres foram à Paraíba e ao Rio Grande Norte conhecer iniciativas postas em práticas por parcerias entre o poder público municipal e organizações sociais que estão melhorando as condições de vida na região. Às vésperas das eleições municipais de outubro, essas experiências eram exemplos de como prefeituras podem adotar projetos que nascem na esfera não governamental e ampliar tanto seus resultados quanto seu impacto na vida das pessoas. A parceria resultou em três reportagens:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><a href="https://marcozero.org/sementes-crioulas-como-as-prefeituras-podem-ajudar-os-agricultores-a-produzirem-alimentos-saudaveis/">Sementes crioulas: como as prefeituras podem ajudar os agricultores a produzirem alimentos saudáveis</a></li>



<li> <a href="https://marcozero.org/cirandas-da-borborema-o-que-prefeitos-podem-fazer-para-incentivar-jovens-a-permanecerem-no-campo/">Cirandas da Borborema: o que prefeitos podem fazer para incentivar jovens a permanecerem no campo</a></li>



<li> <a href="https://marcozero.org/hortas-e-cozinhas-comunitarias-mulheres-do-sertao-potiguar-buscam-a-independencia/">Hortas e cozinhas comunitárias: mulheres do sertão potiguar buscam a independência</a></li>
</ul>



<p></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2024/12/53603156257_431f09ece2_c-300x169.jpg">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Dentro do eixo editorial Socioambiental, uma das novidades de 2024, foram produzidas 107 reportagens relacionadas a essa temática. Entre elas, Gilbués, o deserto vermelho e produtivo do Piauí, com o apoio do projeto Report For The World e da Fundação Henrich Böll. Crédito: Arnaldo Sete/ Marco Zero</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/ Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>História, jornalismo e tecnologia para revisitar o passado</strong></h2>



<p>Na reta final do ano, colocamos no ar o projeto <a href="https://marcozero.org/pecados-abaixo-do-equador-uma-nova-narrativa-sobre-os-24-anos-de-ocupacao-holandesa-no-brasil/">Pecados Abaixo do Equador: uma nova narrativa sobre a Ocupação Holandesa no Brasil</a>. O projeto foi realizado em parceria pela <strong>Marco Zero Conteúdo</strong>, pela plataforma Placecloud e pelo espaço de exposição holandês Nest, com apoio da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).</p>



<p>Mais do que recontar os 24 anos de ocupação holandesa no Brasil (1630-1654), tem como principal objetivo desconstruir mitos profundamente enraizados no imaginário pernambucano e brasileiro. Entre eles, o “mito do bom colonizador holandês”, que apresenta Maurício de Nassau como um governante humanista e visionário, ou a ideia romantizada da “união das três raças” para expulsar os holandeses na chamada Restauração Pernambucana, entre 1644 e 1654. A verdade é que Nassau, como qualquer outro colonizador, defendia interesses meramente econômicos, neste caso os da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, promovendo a exploração de riquezas, o tráfico de pessoas escravizadas e a violência estrutural comum a qualquer regime colonial.</p>



<p>Pecados Abaixo do Equador é uma iniciativa que une jornalismo, história e tecnologia para lançar luz sobre um capítulo muitas vezes suavizado ou romantizado pela historiografia. O projeto apresenta 100 histórias curtas, que podem ser acessadas tanto em texto quanto em áudio, disponíveis em português, inglês e holandês. Todo o conteúdo esta acessível no site oficial e na plataforma Placecloud, que utiliza as tecnologias de geolocalização e Google Street View. Isso significa que, ao estar fisicamente em locais específicos, o usuário poderá acessar os áudios diretamente em seu celular, ouvindo as histórias enquanto caminha por esses espaços.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading"><strong>Boas notícias que engajam</strong></h2>



<p>A<strong> Marco Zero</strong> aumentou sua presença nas redes, atingindo a meta de 65.000 seguidores no Instagram. O bom resultado advém em partes de conteúdos de jornalismo de solução. Isso mostra possíveis caminhos para fortalecer o crescimento nos próximos anos.<br><br>Também inauguramos a presença no LinkedIn, Threads e BlueSky. As novas redes têm números ainda incipientes, mas BlueSky aponta uma boa capacidade de crescimento orgânico.<br><br>O TikTok segue apresentando bons resultados, especialmente a partir de vídeos virais.<br><br>O Twitter, por outro lado, deixou de ser interessante para a organização, tanto pelos aspectos políticos com os quais a plataforma está envolvida, quanto pelo funcionamento prático, que agora significa ter conteúdo veiculado junto a conteúdos potencialmente antidemocráticos e fascistas.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Métricas de mídia social:</h3>



<p><strong>Instagram: </strong>Seguidores: 66.600 (+25%), Total de impressões: 4.980.581 (+34%), Alcance : 6.216.150 (+56%) <strong>Facebook</strong>: Curtidas na página: 20.825 (-0,5%), Alcance da página: 91.103 (-46%)<br><strong>TikTok</strong>: Seguidores: 4.836 (+136%), Visualizações de vídeo: 2.762.075 (+987%), Curtidas: 47.000 (+55,7%)<br><strong>Twitter</strong>: Seguidores: 20.5384 (-1%), Total de impressões: 672.472 (-44%)</p>



<p><strong><a href="https://www.instagram.com/p/DELfiT8SWIA/?igsh=OGtkNmQ5cDN0NTZ4&amp;img_index=1">Veja aqui as publicações do ano com mais alcance no Instagram</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Sigam o dinheiro</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Em 2024 captamos, ao todo,<strong> R$ 1.115.786,94</strong>. Nossas receitas detalhadas:<br><br><strong>Oak </strong>&#8211; R$ 545.698,19<br><strong>IFPIM </strong>&#8211; R$ 325.086,90<br><strong>Stichting Nest Foundation</strong> &#8211; R$ 94.862,50<br><strong>AS-PTA</strong> &#8211; R$ 67.065<br><strong>Fundo Socioambiental Casa</strong> &#8211; R$ 45.000<br><strong>Report For the World</strong> &#8211; R$ 25.810,75<br><strong>Doações individuais </strong>&#8211; R$ 11.968,60</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Redação Nordeste</strong></h2>
</blockquote>



<p>Em 2024, realizamos a segunda parte do projeto “Jornalismo Independente no NE: desafios e soluções/Redação NE 2”. Este ano, decidimos centrar os workshops/mentorias voltados para a angariação de fundos, com ênfase em experiências específicas diretamente relacionadas com a atividade jornalística. Também priorizamos organizações que já participaram e se destacaram em sessões de mentoria anteriores (foram 16 em 2023), dando uma sensação de continuidade ao projeto e potencializando o conhecimento já adquirido.</p>



<p>Foram selecionadas as seguintes organizações, de cinco estados nordestinos:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Alagoas – <a href="http://midiacaete.com.br">Mídia Caeté</a> e <a href="http://Home - Olhos Jornalismo">Olhos Jornalismo</a> </li>



<li>Pernambuco – <a href="http://coletivoacaua.com.br">Coletivo Acauã</a></li>



<li>Sergipe – <a href="http://Mangue Jornalismo - Jornalismo independente em Sergipe">Mangue Jornalismo</a></li>



<li>Piauí &#8211; <a href="http://ocorrediario.com">O Corre Diário</a> </li>



<li>Bahia – <a href="http://conquistareporter.com.br">Conquista Repórter</a></li>
</ul>



<p>Ao todo, foram 12 horas de mentoria, divididas em 10 encontros e envolvendo seis organizações de mídia independente do Nordeste.</p>



<p>Com isso, todas as etapas de um edital de captação de recursos foram contempladas e mentoradas, colaborando para que as redações estejam ainda mais capacitadas a concorrer em novos editais. Além disso, as organizações participantes produziram e publicaram conteúdos jornalísticos de interesse público, contribuindo para aumentar a relevância e a audiência de seus sites.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Leia as reportagens do projeto:</h3>



<p>Cegos em Caruaru: uma cidade que não vê a acessibilidade</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/cegos-em-caruaru-uma-cidade-que-nao-ve-a-acessibilidade/" class="titulo">Cegos em Caruaru: uma cidade que não vê a acessibilidade</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/mobilidade/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Mobilidade</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Direito de ir e vir não é para todos em Aracaju</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/direito-de-ir-e-vir-nao-e-para-todos-em-aracaju/" class="titulo">Direito de ir e vir não é para todos em Aracaju</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/mobilidade/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Mobilidade</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Estradas precárias dificultam acesso da população quilombola a direitos básicos</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-conquista-rep-rter wp-block-embed-conquista-rep-rter"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="f7VuN0ei97"><a href="https://conquistareporter.com.br/acesso-negado/">Quando as políticas de mobilidade não chegam em áreas rurais e periféricas</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;Quando as políticas de mobilidade não chegam em áreas rurais e periféricas&#8221; &#8212; Conquista Repórter" src="https://conquistareporter.com.br/acesso-negado/embed/#?secret=F9v7WjGkgb#?secret=f7VuN0ei97" data-secret="f7VuN0ei97" width="500" height="282" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
</div></figure>



<p>Como mercado imobiliário, trade turístico e Braskem determinam as decisões sobre o território Maceió</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-olhos-jornalismo wp-block-embed-olhos-jornalismo"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="F7MWO49oOI"><a href="https://olhosjornalismo.com.br/como-mercado-imobiliario-trade-turistico-e-braskem-determinam-as-decisoes-sobre-o-territorio-maceio/">Como mercado imobiliário, trade turístico e Braskem determinam as decisões sobre o território Maceió</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;Como mercado imobiliário, trade turístico e Braskem determinam as decisões sobre o território Maceió&#8221; &#8212; Olhos Jornalismo" src="https://olhosjornalismo.com.br/como-mercado-imobiliario-trade-turistico-e-braskem-determinam-as-decisoes-sobre-o-territorio-maceio/embed/#?secret=BoBKcHnNaO#?secret=F7MWO49oOI" data-secret="F7MWO49oOI" width="500" height="282" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
</div></figure>



<p>723 Circular: 10 anos de crise no transporte coletivo de Teresina</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-ocorre-di-rio wp-block-embed-ocorre-di-rio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="SmmfSZOpl4"><a href="https://ocorrediario.org/723-circular-10-anos-de-crise-no-transporte-coletivo-de-teresina/">723 Circular: 10 anos de crise no transporte coletivo de Teresina</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;723 Circular: 10 anos de crise no transporte coletivo de Teresina&#8221; &#8212; Ocorre Diário" src="https://ocorrediario.org/723-circular-10-anos-de-crise-no-transporte-coletivo-de-teresina/embed/#?secret=OE9XxSOBLm#?secret=SmmfSZOpl4" data-secret="SmmfSZOpl4" width="500" height="282" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
</div></figure>



<p>Em 2024, a Marco Zero também apoiou tecnicamente e financeiramente o processo de formalização de três organizações: <a href="http://Eficientes - Eficientes">Eficientes</a>, <a href="http://Coletivo Sargento Perifa – União dos moradores da comunidade Córrego do Sargento">Sargento Perifa</a> e <a href="https://coletivoforcatururu.blogspot.com/">Coletivo Força Tururu</a>. Ainda apoiamos e financiamos a construção do site do <a href="https://coletivoacaua.com.br/">Coletivo Acauã</a>.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/o-ano-da-marco-zero-equilibrio-entre-audiencia-e-qualidade-editorial/">O ano da Marco Zero: equilíbrio entre audiência e qualidade editorial</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/o-ano-da-marco-zero-equilibrio-entre-audiencia-e-qualidade-editorial/feed/</wfw:commentRss>
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			</item>
		<item>
		<title>Em Cruz da Menina, o autorreconhecimento começa na primeira infância</title>
		<link>https://marcozero.org/em-cruz-da-menina-o-autorreconhecimento-comeca-na-primeira-infancia/</link>
					<comments>https://marcozero.org/em-cruz-da-menina-o-autorreconhecimento-comeca-na-primeira-infancia/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sérgio Miguel Buarque]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Dec 2024 20:45:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[comunidades quilombolas]]></category>
		<category><![CDATA[Dona Inês]]></category>
		<category><![CDATA[Primeira Infância]]></category>
		<category><![CDATA[Programa Criança Feliz]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Toda quinta-feira, as irmãs Rebeca e Radassah têm um compromisso que aguardam com ansiedade a semana toda. É nesse dia que as duas meninas da comunidade quilombola de Cruz da Menina encontram Raquel Oliveira, visitadora do Programa Criança Feliz no município de Dona Inês (PB). Radassah e Rebeca, que têm um e dois anos respectivamente, [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/em-cruz-da-menina-o-autorreconhecimento-comeca-na-primeira-infancia/">Em Cruz da Menina, o autorreconhecimento começa na primeira infância</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Toda quinta-feira, as irmãs Rebeca e Radassah têm um compromisso que aguardam com ansiedade a semana toda. É nesse dia que as duas meninas da comunidade quilombola de Cruz da Menina encontram Raquel Oliveira, visitadora do Programa Criança Feliz no município de Dona Inês (PB). Radassah e Rebeca, que têm um e dois anos respectivamente, estão entre as 15 crianças da comunidade atendidas pelo programa do Governo Federal voltado para a primeira infância. “Elas mandam áudio perguntando se vou. Muitas vezes ficam esperando na janela. Quando eu chego, elas correm dizendo: ‘Kel chegou, Kel chegou’.”</p>



<p>Esse vínculo afetivo criado entre as meninas e a visitadora, construído ao longo de meses de contatos, é fundamental para o sucesso do programa. A alegria das meninas também vem do fato de que, durante os encontros que duram, em média, 40 minutos, mãe e filhas aprendem de forma lúdica, fazendo tudo parecer uma grande brincadeira. “A visitadora vem uma vez na semana acompanhar as meninas e traz várias atividades. Sempre utiliza coisas domésticas: tampinha de garrafa, pregadores de roupa&#8230; é um acompanhamento muito bom no desenvolvimento da coordenação motora da criança. Para mim, é um excelente trabalho”, define Eliete Pereira Frazão, mãe de Rebeca e Radassah.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><b>Criança Feliz</b> é um programa do governo federal, com ações realizadas pelos municípios de forma articulada com os serviços socioassistenciais, via Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e com as demais políticas públicas setoriais. Por meio de visitas domiciliares às famílias participantes do Cadastro Único, as equipes do Criança Feliz fazem o acompanhamento e dão orientações importantes para fortalecer os vínculos familiares e comunitários, além de estimular o desenvolvimento infantil.</p>
<p>Quem pode participar:</p>
<p>• Gestantes, crianças de até três anos e suas famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família;<br />
• Crianças de até seis anos beneficiárias do Benefício de Prestação Continuada e suas famílias;<br />
• Crianças de até seis anos afastadas do convívio familiar em razão da aplicação de medida de proteção prevista no art. 101 da Lei nº 8.609, de 13 de julho de 1990, e suas famílias.</p>
        </div>
    </div>



<p>O Criança Feliz, que funciona desde 2017 em Dona Inês, tem sido uma ferramenta importante para que a cidade apresente bons indicadores relacionados à primeira infância, culminando com o recebimento, em 2024, do<a href="https://www.selounicef.org.br/"> Selo Unicef</a>. Mas em Cruz da Menina, o programa vai além. Durante os encontros, enquanto repassam todo conteúdo comum, as visitadoras também buscam fortalecer os vínculos das crianças com a comunidade a partir de um trabalho de valorização da história local, desenvolvendo um sentimento de pertencimento com o lugar onde moram.</p>



<p>Para isso, as visitadoras recebem formação, direcionamento e capacitação específica para o atendimento à comunidade quilombola. “Elas são preparadas para respeitar, acima de qualquer coisa, a história da própria comunidade. O olhar precisa e deve ser diante da realidade do chão do território”, explica Maria Rejane da Silva Araújo, coordenadora do Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) do município.</p>



<p>A formação para os trabalhadores que atuam diretamente na comunidade está dentro do plano de ação da assistência social do município. Em 2024, duas visitadoras dividiram o atendimento em Cruz da Menina. Além de Raquel, que atende a três famílias semanalmente, Paula Clementina da Silva atende a outras seis.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Desenvolvimento mais rápido</strong></h2>



<p>Eliete tem outras duas filhas mais velhas, Rúbia (10 anos) e Raíssa (6 anos). Por conta da idade, elas não tiveram oportunidade de entrar no programa. “Quando eu fui lá no CRAS atualizar meu Cadastro Único me falaram sobre esse programa. Aí eu me cadastrei ainda grávida de Rebeca. Eu achei muito bom esse acompanhamento” lembra Eliete.</p>



<p>Assim, comparando as situações distintas vividas na criação das filhas, a mãe pôde perceber a vantagem do acompanhamento semanal feito pelo programa. “O desenvolvimento é mais rápido. Porque quando a pessoa é mãe, é uma correria, né? No dia a dia, você não tem muito tempo para fazer isso ou aquilo. E essa visita, uma vez na semana, ajuda bastante o desenvolvimento delas”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Eliete Pereira Frazão e suas filhas. Elas estão sendo acompanhadas pelo Programa Criança Feliz. Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p><b>P</b><b>rimeira infância </b>é o período que abrange os primeiros seis anos completos ou 72 meses de vida da criança. São nos primeiros anos de vida que ocorrem o amadurecimento do cérebro, a aquisição dos movimentos, o desenvolvimento da capacidade de aprendizado, além da iniciação social e afetiva.</p>
        </div>
    </div>



<p>Já Rafaela Henrique dos Santos, que tem 32 anos e mora na comunidade desde que nasceu, entrou no programa apenas em 2024, antes de ter a primeira filha. Quando conversou com a reportagem, estava com nove meses de gestação, só esperando a hora de ir para a maternidade. “Eu conheci o Criança Feliz através da minha irmã, que tinha colocado a minha sobrinha no programa. Aí, quando eu descobri que estava grávida, quis entrar logo. A visitadora está me visitando até hoje. E vai me visitar por muito tempo”.</p>



<p>Ela conta que durante as visitas aprendeu muito sobre a gestação. Nos últimos meses também participou de palestras com a enfermeira, que orientou sobre os primeiros cuidados com o bebê. “E teve com a nutricionista, que falou da importância dos alimentos. De como se alimentar bem ajuda no bom crescimento do feto e na boa gestação como um todo”.</p>



<p>Atenta ao trabalho feito pelas visitadoras com as crianças da comunidade, Rafaela aponta outra questão importante do programa. “Às vezes, a mãe não percebe que o filho tem alguma deficiência. Mas as visitadoras percebem logo e já encaminham as crianças para serem acompanhadas por especialistas”.</p>



<p>Rafaela demonstrou estar muito satisfeita com o atendimento que ela, e também a sobrinha, vem recebendo do programa. Em tom de brincadeira, fez apenas uma reclamação: “São só três anos. Era para ser mais tempo&#8230;”</p>



<h2 class="wp-block-heading">“<strong>C</strong><strong>omo estou linda”</strong></h2>



<p>Quem entra na Escola Municipal Educador Paulo Freire, em Cruz da Menina, tem sua imagem refletida em um espelho fixado de frente para a entrada principal da instituição, que faz parte da rede de ensino municipal. Mais do que uma questão estética, o espelho foi colocado ali com o objetivo de despertar, por meio da aceitação da cor da pele e do cabelo, o sentimento de pertencimento e vínculo com a história de luta da comunidade.</p>



<p>“Uma das coisas que a gente trabalha muito forte aqui dentro da comunidade é a escola. Então, a gente pensou em colocar um espelho na entrada para que todas as vezes que as crianças chegassem, elas se vissem”, explica Bianca Quilombola, presidente da associação local. Bianca, que tem 41 anos, lembra que faz parte de uma geração que tinha dificuldade de se aceitar como negra e, muito por conta de sua história de vida, reconhece a importância do sentimento de pertencimento na conquista de direitos por parte da comunidade.</p>



<p>Por isso, ela fica feliz com a postura das crianças diante do espelho da escola. “Todas elas dizem: ‘como estou linda, estou bonita, sou linda’. Todas com cabelo solto, <em>black</em>, cabelo trançado, que muitas de nós não usávamos. Hoje nós podemos dizer que nossas crianças têm já esse sentimento de pertencimento, aceitação, esse sentimento que muitos dos nossos mais velhos não têm”.</p>



<p>Fernanda de Araújo Oliveira, no artigo <em>Bianca Cristina e o Quilombo Cruz da Menina: Trajetória e Resistência Comunitária em Dona Inês/PB (1994-2016)</em> observou que o autorreconhecimento é um processo difícil e doloroso, “pois envolve diretamente assumir uma identidade negra que foi posta historicamente na marginalização”.</p>



<p>Rafaela Santos, que além de participar do Criança Feliz ocupa a vice-presidência da associação de moradores, também teve um processo difícil de aceitação. “Eu sempre queria alisar o cabelo. Pagava caro e, no outro dia, caia. O cabelo não aguentava a química, aí eu desisti de fazer isso. Deixei meu cabelo natural, acho que faz mais de 10 anos que eu alisei meu cabelo pela última vez. E ele está natural e eu acho ele lindo assim, do jeito que ele é”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Rafaela Henrique dos Santos participa do Programa Criança Feliz, que acompanha gestantes e posteriormente criança até os três anos. Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</p>
	                
                                            <span>Crédito: Inês Campelo/Marco Zero</span>
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<p>Experiência parecida foi vivida por Bianca Quilombola. “Eu mesma vim me libertar da progressiva, que é a questão de alisar cabelo para agradar os outros, em 2017. Então, de 2017 para cá, eu não sei o que é colocar um alisante no cabelo, não sei o que é colocar uma escova a mais”.</p>



<p>Para Bianca, as coisas estão mudando para melhor. “Hoje, se você chegar na comunidade, você vai ver a diferença das crianças. Agora, as nossas crianças se aceitam como são. Você chega na casa, elas estão com o cabelo cacheadão, cabelo solto, esvoaçado”.</p>



<p>Rafaela lembra que a mudança também se materializa na forma das crianças se comportarem e se relacionarem. “Existiam algumas brincadeiras que hoje a gente não pode deixar existir mais. Na época, a gente não sabia, só que agora a gente tem o conhecimento. A gente sabe e repassa para as outras crianças que estão vindo, as criancinhas pequenininhas, para que elas não reproduzam e não sofram aqueles <em>bullying</em> que a gente sofria, mas não entendia”.</p>



<p>Um ponto de inflexão na forma como a comunidade passou a se aceitar e desenvolver um sentimento de pertencimento com o território onde vivem foi quando recebeu a certidão de autodefinição como comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, em de 12 de março de 2008.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>História de geração para geração</strong></h2>



<p>A comunidade de Cruz da Menina nasce de um processo territorial singular, que é contado de geração para geração, tendo muitas versões sobre os fatos que começaram a ocorrer em 1877. O curioso é que tem origem em um episódio de nítida violação de direitos da primeira infância, quando um fazendeiro poderoso negou água e comida para uma garotinha que fugia, com os pais, da grande seca que castigava a região. Conheça a história no vídeo abaixo:</p>



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<div class="ratio ratio-16x9"><iframe loading="lazy" title="CRUZ DA MENINA" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/h28UhHo4ADs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>O <b>município de Dona Inês </b>está localizado no brejo paraibano (a 153 km de João Pessoa), com uma população de 10.380 pessoas (Censo 2022). A comunidade quilombola de Cruz da Menina está na Zona Rural do município, a aproximadamente dois quilômetros do centro da cidade. Atualmente, 110 famílias moram no território quilombola.</p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Infância antes e hoje</strong></h2>



<p>As mudanças que acontecem em Cruz da Menina também têm impactado positivamente na primeira infância. Na comunidade, todas as crianças com idade escolar frequentam as aulas e estão com a carteira de vacinação em dia. “Você vê muita diferença. A minha infância foi cuidar das minhas irmãs. Aos quatro anos, minha mãe saía para trabalhar na roça e me deixava em casa cuidando das minhas outras duas irmãs. A gente tinha aquela obrigação de ter que pegar lenha, pegar água. A gente não teve infância livre, porque a gente tinha que, de alguma forma, ajudar”, compara Bicanca Quilombola.</p>



<p>Mas a melhora da qualidade de vida também se torna visível nas questões materiais. “Minha mãe, minha avó, minha bisavó, lá atrás, não tinham uma casa decente. Eram casas cobertas só com palha e só o chão batido. O fogo era a lenha e não existia luz elétrica. Luz elétrica aqui foi só a partir dos anos 1990”, lembra Bianca.</p>



<p>Para ela, hoje a vida das pessoas da comunidade melhorou bastante, o que se reflete diretamente no desenvolvimento das crianças pequenas. A gente tem luz, bujão de gás, geladeira, ventilador, micro-ondas. A gente tem internet e uma escola dentro da comunidade. A gente tem a casa decente, as famílias, todas elas têm suas casas de alvenaria, cobertinha de telha, tem seu banheiro decente. E isso, para nós, é muita evolução, comparado com o que nós não tínhamos lá atrás”.</p>



<p>Claro que a comunidade ainda enfrenta muitos problemas, parte deles na área da saúde e que afetam diretamente a primeira infância. “Nós até temos posto de saúde, porém, não dentro do território. Fica um pouquinho distante e não atende só Cruz da Menina. A gente recebe atendimento, mas um atendimento junto com outros setores. Não é um posto de saúde direcionado para o quilombo”, lamenta Bianca.</p>



<p>Segundo ela, o ideal seria ter um acompanhamento direcionado para as famílias quilombolas. “Porque a gente tem problemas específicos. Temos, por exemplo, muita questão de hipertensão dentro da comunidade. Para a gente ter um atendimento, a gente tem que sair entre 3h e 4h da manhã para pegar uma ficha. Aí, se não pegar, vai ter que ir outro dia”.</p>



<p>Mesmo assim, as mudanças conquistadas fazem Rafaela pensar em um futuro muito melhor para a filha. “Vai ser diferente, né? Porque a realidade é totalmente diferente de quando eu nasci. Vou tentar passar um pouco para ela do que a minha mãe ensinou. Mostrar para ela o que é certo e o que é errado”.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block"></span>

	    <p><em>Este conteúdo faz parte de uma parceria da Alma Preta com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.</em></p>
    </div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/em-cruz-da-menina-o-autorreconhecimento-comeca-na-primeira-infancia/">Em Cruz da Menina, o autorreconhecimento começa na primeira infância</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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