Rafaella assumiu a coordenadoria cultural de Igarassu há 5 meses e tem realizado encontros com servidores e comissionados para discutir temas como acolhimento, tolerância e discriminação. Crédito: Arquivo Pessoal

Raphaella Ribeiro, 29 anos, assumiu há cinco meses a coordenadoria cultural das religiões de matrizes africanas e indígenas, na Prefeitura de Igarassu, região metropolitana do Recife. O que ela não sabia era que ao ser nomeada para o cargo se tornaria alvo de possíveis crimes de racismo, transfobia e intolerância religiosa.

A coordenadora, que atua dentro da estrutura da Secretaria de Turismo, Cultura e Patrimônio Histórico, é uma mulher negra, trans e yaô (filha iniciante no candomblé) de Oxum Opará. Além disso, Raphaella é educadora social na área de dança popular e reconhecida como referência na defesa das pessoas trans e travestis.

Mas para Aijalon Berto, que se apresenta como pastor da igreja protestante Ministério Dúnamis, a cidadã, funcionária pública e ativista dos direitos humanos é “ um feiticeiro” que está promovendo uma “convenção das bruxas” dentro da prefeitura da cidade.

“É uma situação clara de racismo, transfobia e intolerância religiosa, enfim, de violências praticadas por uma pessoa que não é tolerante. Tudo isso que ele está pregando, da forma que está fazendo, tem custado as nossas vidas”, diz Raphaella.

Os ataques virulentos do religioso vêm sendo feitos em lives transmitidas pelo perfil pessoal dele no Instagram, ora se apoiando em uma interpretação pessoal da Constituição Federal (CF) de 1988, ora recorrendo a trechos da Bíblia. Ao longo dos vídeos, à medida que o discurso vai escalando em nível de violência, acompanhado pela voz alterada, Aijalon direciona as acusações à pessoa da coordenadora.

“Analisando principalmente o setor da cultura, que tem no hall da diretoria uma pessoa que é adepta de religião de matriz africana, nós vamos enxergar que estão sendo promovidos encontros e palestras para, de alguma forma, promover a bandeira das religiões de matrizes africanas, o que é inconstitucional”, afirma o homem, em uma das transmissões virtuais, alegando defender a laicidade do estado

“Agora estou falando como pastor, o setor de cultura, que tem um feiticeiro lá dentro, o núcleo LGBT que tem gente de ramificação candomblecista e umbandista estão transformando a Prefeitura de Igarassu em uma convenção de feiticeiros. Só porque ele é catimbozeiro que agora vai promover uma agenda pró-feitiçaria?”, questiona em um segundo vídeo. “Quer fazer despacho, queridão, vai para a encruzilhada mais próxima, vai para o teu terreiro. O estado é laico e eles estão querendo agora transformar a prefeitura em uma convenção das bruxas. Me processa que eu quero ver”, completa Aijalon.

De acordo com Raphaella, os eventos aos quais o pastor se refere fazem parte dos encontros de reflexão coletiva e continuada que a coordenadora está desenvolvendo com os servidores e comissionados da própria prefeitura. Nas reuniões, foram discutidos temas como acolhimento, tolerância e discriminação, assuntos que teriam sido bem aceitos pelos funcionários independentemente da orientação sexual, gênero ou religião.

Já sobre o webinário “O papel dos terreiros”, Raphaella conta que foi convidada para participar como mediadora. “Será que nossos corpos não podem estar presentes em espaços de poder? Eu, como uma pessoa de religião de matriz africana, tento puxar para dentro da pasta o debate da inter-religiosidade, promover a união das religiões por uma causa só, a causa do amor pelo outro, do respeito”, explica.

Os discursos do pastor levaram Raphaella a registrar um boletim de ocorrência na delegacia da cidade por injúria qualificada racial consumada. Por meio de nota, a Polícia Civil informou que “foi instaurado inquérito policial para apurar o caso, que está sob investigação do Departamento da Mulher (DPMUL). As diligências seguirão até a completa elucidação do crime”. O Código Penal prevê pena de 1 a 3 anos de prisão e multa para o crime de injúria racial.

Temendo a onda de violência contra pessoas LGBTQIA+, sobretudo transexuais e travestis, que em menos de 30 dias fez pelo menos três vítimas fatais, a coordenadora também tem buscado apoio de movimentos sociais e de outras áreas do estado. Nesta segunda-feira (12), ela esteve reunida com o secretário de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco, Pedro Eurico, e com representantes da Secretaria Estadual da Mulher.

“Ele começou a expor a nossa imagem deixando a gente ainda mais vulnerável. As populações de religiões de matrizes africanas e LGBTQIA+ já vivem essa vulnerabilidade social, sobretudo agora na pandemia. Está aí o caso de Roberta, queimada viva, perdeu os dois braços e depois veio a óbito. Ele associando que somos bruxos será que não podemos passar pelo o que Roberta passou?”, questiona Raphaella.

Raphaella Riberio (D) esteve na Secretaria da Mulher do Estado, na segunda-feira (12), para relatar os ataques que vem sofrendo nas redes sociais do pastor Aijalon. Crédito: Secretaria da Mulher/Divulgação

Crimes de ódio

Levantamento realizado pela Associação de Travestis e Transexuais (Antra) revela que, entre janeiro e junho deste ano, ocorreram pelo menos 80 assassinatos contra essa população no Brasil, sendo 78 travestis e mulheres trans e dois homens trans/transmasculinos. Segundo a Antra, citando dados da pesquisa anual da Human Rights Campaign, no mesmo período foram registrados 29 casos nos Estados Unidos.

A Associação recebeu nos primeiros meses desse ano 27 denúncias de violações de direitos de pessoas trans. É justamente pela internet que muitas dessas pessoas são agredidas e expostas a situações vexatórias em ataques virtuais e por meio do cyberbullying. “Youtubers, influencers, artistas e páginas anti-trans continuam disseminando pânico, mitos e estigmas contra pessoas trans. É um tipo de comportamento repetido, com intuito de assustar, inferiorizar ou envergonhar as vítimas”, diz o relatório.

A co-deputada estadual das Juntas (Psol) e integrante da Frente Popular pelo Enfrentamento à Transfobia, Robeyonce Lima, chama a atenção para o fato de que o caso de Raphaella não é um episódio isolado, que há situações de violências semelhantes acontecendo, sobretudo, nas cidades do interior. Para a parlamentar, a situação em Igarassu deve desencadear uma sequência de ações coordenadas entre os poderes para combater a discriminação a essa população.

“Nas secretarias foram reuniões bastantes positivas e vamos avançar nesse diálogo com a Assembleia Legislativa, Governo do Estado, mas também com as polícias, com o Ministério Público e o Judiciário. Os poderes não podem se omitir diante de tamanha brutalidade. É preciso cobrar que as leis sejam cumpridas e as políticas públicas executadas”, destaca.

Reincidência

Desde os 15 anos, o pastor Aijalon Berto, 31, atua como pregador, segundo ele, no começo em igrejas evangélicas de denominações conhecidas no estado. A partir de 2018, ele diz que ao perceber o uso dos púlpitos para arregimentar votos resolveu se desligar desses grupos. Em 2019, fundou o Ministério Dúnamis, em Cruz de Rebouças.

Aijalon diz que sua igreja é um serviço à comunidade e tem como uma das atribuições o que define como “profetismo público” que, segundo ele, lhe dá o direito como liderança religiosa e como cidadão de expressar sua opinião com base na Constituição Federal e na Bíblia.

Pelo menos três vezes este ano, ele teve que comparecer à delegacia de Igarassu para prestar esclarecimentos sobre seus discursos.

Em 2 de março, o ator e dançarino Joel Carlos Francisco, 42 anos, prestou queixa de injúria racial contra o pastor, que o chamou de “feiticeiro” nas redes sociais ao comentar um vídeo institucional da prefeitura de Igarassu sobre precaução no período do carnaval, por conta da pandemia. Em um momento do vídeo, Joel saúda o público com o termo “evoé”. Na ocasião, a defensora Juliana Lima disse que iria entrar com ação por danos morais contra Aijalon e acionaria o Ministério Público.

Em conversa com a Marco Zero Conteúdo, o religioso reafirma tudo que disse a respeito de Raphaella, a quem faz questão de tratar no masculino.

“Quero deixar claro que não tem nada a ver com racismo, minha pregação tem a ver com o princípio da laicidade do estado que está sendo quebrado, e à luz da palavra de Deus a feitiçaria é um pecado. A Bíblia também nos fala para amar a todos e por amar pessoas como Raphaella que os conclamo ao arrependimento”, argumenta.

Aijalon destacou que tem acompanhado a escalada da violência contra mulheres trans e travestis em Pernambuco e, embora use um tom mais agressivo em seus vídeos, disse que não quer promover a violência contra essa população, que apenas se expressa de maneira “mais eloquente e enfática, geralmente confundida com agressividade”.

Sobre insistir no tratamento a Raphaella como uma pessoa do gênero masculino, ele diz que, de acordo com a Bíblia, Deus criou o macho e a fêmea e, por isso, não pode chamar um homem de mulher nem uma mulher de homem. “A comunidade LGBT quer implantar uma ditadura sequestrando a língua portuguesa e, ao meu ver, impondo essa forma autoritária de ver o mundo”, afirma.

Procuradas pela reportagem, a Prefeitura de Igarassu e a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco não comentaram o assunto.