Ato contra trasnfobia no Recife
Crédito: Yane Mendes

Uma semana depois do protesto contra o transfeminicídio e a transfobia, que marcou o Dia do Orgulho LGBTQIA+ em Pernambuco, o Estado registra outro possível caso de assassinato contra uma travesti. A vítima foi Crismilly Pérola Bombom, conhecida como Piu Piu, 37 anos, mulher negra, da Várzea, zona oeste do Recife, onde era bastante conhecida. 

Ela foi encontrada já morta, em via pública, com a marca de ao menos um tiro e sinais de espancamento, na Comunidade Beira Rio, perto da ponte da Caxangá. Crismilly já havia sido vítima de violência há aproximadamente um mês, quando precisou ser socorrida.

A Polícia Civil de Pernambuco informou que está investigando o homicídio. Um inquérito policial foi instaurado para apurar o caso, sob o comando do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), e identificar a autoria e motivação do crime.

No país onde mais se mata pessoas trans e travestis no mundo, Pernambuco é o sétimo Estado mais perigoso para essa população. Os movimentos sociais ainda estão no luto e na luta pelos casos de Roberta Silva, travesti queimada por um adolescente e que teve os dois braços amputados, e de Kalyndra Nogueira da Hora, também travesti, recentemente assassinada por asfixia pelo próprio companheiro. 

O quadro de saúde de Roberta, aliás, teve um agravamento nesta segunda-feira (dia 5 de julho) à tarde. Ela voltou a ser intubada e internada na UTI do Hospital da Restauração.

A cada caso que ganha repercussão na imprensa e nas redes sociais, há dezenas de outros que seguem silenciados. Como forma de reivindicar uma política pública que ultrapasse os atendimentos emergenciais e as condolências públicas, o movimento social das pessoas trans e travestis está pressionando o governador Paulo Câmara (PSB) para dialogar. A comunidade vem construindo exigências e propostas, mas até agora só foi recebida por secretários.

“Mais uma vez, uma brutalidade contra os nossos corpos”, lamenta a codeputada estadual pela Juntas (PSOL) Robeyoncé Lima, primeira advogada travesti preta do Norte e Nordeste. “Não são casos isolados, é uma necessidade de política pública efetiva para toda a população, porque a discriminação e o preconceito estão enraizados”, protesta. 

“Claro que é preciso atendimento emergencial, mas é preciso construir políticas de longo prazo, dialogando com o movimento. Não queremos políticas só quando a violência chega, quando já estamos na porta do hospital. Qual o caráter preventivo que o Estado está tomando?”, provoca Robeyoncé. 

Um dos seis projetos de lei aprovados pela Juntas sobre direitos da população LGBTQIA+ em Pernambuco determina que os estabelecimentos de saúde, sejam eles públicos ou privados, tenha, nos formulários, a opção do(a) paciente autoidentificar seu gênero e sua orientação sexual (Lei 17.292). Iniciativas desse tipo são importantes porque sem dados não se constroem políticas públicas. 

Atendendo ao pedido da Marco Zero, o Governo de Pernambuco emitiu uma nota oficial sobre mais esse crime, mas não mencionou a possibilidade de um encontro entre o governador Paulo Câmara (PSB) e representantes da comunidade trans e travesti:

O Governo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude (SDSCJ) vem trabalhando junto à Prefeitura do Recife para prestar assistência e apoio à família da vítima Crismilly Perola.

Por meio do Centro de Referência em Cidadania LGBT, da Prefeitura do Recife, a família está sendo acolhida por uma equipe multidisciplinar com advogado, assistente social e psicóloga, que acompanha diretamente o caso.

O Governo de Pernambuco reforça que não tolera nenhum ato de violência LGBTfóbica. Além disso, vem atuando incessantemente na política de prevenção, junto às secretarias e aos municípios, para garantir a seguridade do direito à vida à população LGBTQIA+. A Coordenadoria LGBT reforça que LGBTfobia é crime previsto na Lei 7.716/1989.

Para avaliar e acompanhar os casos de violência semelhantes no Estado, foi criado o Comitê de Prevenção e Enfrentamento às Violências LGBTfóbica. Participam as secretarias estaduais da Mulher, de Desenvolvimento Social Criança e Juventude, de Defesa Social, de Direitos Humanos, de Saúde e de Educação.