Entrevista | Simone Fontana (PSTU): “Defendemos jornada de 36h com manutenção dos salários”

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adalgisasaberturaEla já foi candidata a vereadora, a deputada, a senadora por duas vezes, a prefeita por outras duas vezes. Desde a fundação PSTU, em 1994, a professora Simone Fontana é uma militante participativa, mas nunca passou dos seis mil votos. Já foi também, por quatro vezes, presidente do Sindicato Municipal dos Professores do Recife, o Simpere. Hoje é aposentada da rede estadual e dá aulas para o ensino fundamental da Escola Municipal do Leão, em Boa Viagem.

Como candidata experiente em Pernambuco, diz que esta eleição, em que disputa pela primeira vez o cargo de governadora, está diferente. “Há uma descrença muito grande da população”. Simone também vê que as ideias revolucionárias do PSTU estão atraindo mais a periferia. “Estamos tendo um bom diálogo nas ruas.  Fizemos muitas reuniões este ano, reuniões grandes”.

Confira aqui o programa de governo de Simone Fontana (O PSTU faz um programa único para todo o país)

Para a verba de campanha, o PSTU em Pernambuco conta metade com doações e metade com o Fundo Eleitoral. A fatia nacional para o partido foi de R$ 980.691,10, o valor mínimo. O diretório estadual ficou com apenas R$ 29,4 mil dessa verba e as candidaturas do partido (10, com paridade de gênero) devem custar cerca de R$ 50 mil – o que falta deve vir das doações. Todo o dinheiro do diretório foi para a candidatura de Simone, segundo dados do TSE. “Mas está sendo usado para todos os candidatos”, diz. Alguns panfletos e santinhos são com mais de um ou com todos os candidatos do PSTU. Na propaganda gratuita eleitoral, Simone conta com 7 segundos no guia e 30 segundos nas inserções.

A sede do partido fica há cinco anos no térreo de um prédio caixão na Rua do Sossego, na Boa Vista, onde funciona também o comitê das candidaturas. Foi lá que Simone Fontana concedeu esta entrevista a Marco Zero Conteúdo, onde fala com a mesma calma e simpatia sobre ofertar mais creches na rede pública e a defesa do porte de armas pelos cidadãos.

O projeto Adalgisas, da Marco Zero Conteúdo, entrevistou as três mulheres candidatas ao Governo do Estado.
Confira as propostas delas:
Ana Patrícia Alves (PCO)
Dani Portela (Psol)
Simone Fontana (PSTU)

A importância das eleições

Cada vez mais se comprova que a eleição não muda nada. Há quantos anos se faz eleição e o que a gente vê de mudanças realmente? Pouca coisa, praticamente nada. Mudam só os gerentes do capital, uns puxando para um lado, outros para outro. Mas o voto é importante para fortalecer o projeto que a gente tem: temos um tempo muito restrito na TV, quase não vamos para debates e o espaço maior que temos são entrevistas para divulgar nosso projeto de sociedade, que é uma sociedade do conjunto das classes. O PSTU não tem deputados, temos um vereador. E os eleitos pelo PSTU recebem não o salário do cargo, mas um salário compatível com a profissão que ele desempenhava. O restante do dinheiro vai para as causas do partido.

Engajamento e revolução

Com a crise do próprio capital, a perspectiva é de mais ataque às classes trabalhadoras, o aumento do desemprego, as reformas que visam tirar direitos do trabalhadores. A perspectiva de reformas piora a vida do trabalhador, vai aumentar ainda mais a precarização com a questão do teto para os gastos públicos, vai piorar as questões da saúde. Com a concentração de riqueza na mão de poucas pessoas, o grande empresariado exige mais do estado, que tira da classe trabalhadora. O mecanismo do pagamento da dívida pública leva metade do orçamento do Brasil. Oitenta porcento do PIB é para pagamento de juros e amortização das dívidas (Não é bem assim: http://marcozero.org/simone-interpreta-errado-dados-da-divida-publica/). Como a população está muito descrente das instituições, da política e do judiciário, temos visto grandes levantes. Em 2013 a população foi para as ruas de maneira espontânea, denunciando os gatos com a Copa do Mundo, com as arenas. Ano passado teve uma grande greve geral, esse ano os caminhoneiros foram à luta – não foi lockout, conversamos com os caminhoneiros na BR. É possível construir mais greves gerais… O Rio de Janeiro está uma confusão, funcionários sem receber. Em vários países a transformação veio pela revolução.

Economia

Não deveria haver nenhum tipo de incentivo fiscal, as empresas já são muito ricas. Você vê uma empresa como a Fiat. Conseguiu benesses do estado e paga aos seus funcionários um dos piores salários do mundo. E o lucro da fábrica vai para o exterior. E não há nenhuma contrapartida para o estado: é só dar dinheiro. Quanto à dívida pública, nossa proposta é suspender imediatamente todos os pagamentos e fazer uma auditoria. A gente tem um governo estadual que tem uma dívida de R$ 15 bilhões. Não sabemos quanto se paga mensalmente dessa dívida. A nível nacional, o pagamento da dívida pública afeta estados e municípios. É um mecanismo cruel de desvio de dinheiro para os bancos. Hoje temos seis bilionários controlando o Brasil todo.

Geração de empregos

Defendemos hoje que o desemprego é um dos pontos mais difíceis, isso aumenta a violência. Nossa proposta é diminuir a jornada de trabalho e quase dobrar o número de empregos. Defendemos 36 horas semanais e o mesmo salário. É possível fazer isso: os patrões hoje fazem banco de hora, o trabalhador quem sai perdendo. Outra proposta é a criação de uma empresa estatal para a construção de obras públicas. Construir creches, hospitais. Nada de parcerias com empresas privadas. As empresas públicas deveriam ser controladas pelos trabalhadores com chefias eleitas pelos trabalhadores, prestação de contas abertas, transparência. Mas hoje o que acontece é que quem assume as empresas públicas assume por indicação política.

Educação

É necessário uma revolução. Precisa de incentivo da creche até a universidade. Educação é para elevar os níveis científico, cultural e humano, e hoje não acontece nada disso. Temos em Pernambuco 100 mil jovens de 15 a 17 anos fora das salas de aulas. Temos salas superlotadas, quentes. O governo não faz mais concurso público, não respeita a lei do piso. Está há 10 meses sem atualizar os salários. E quando paga o piso, o piso é muito baixo. O professor tem que trabalhar em 2 ou 3 empregos, não dá conta. Não tem quadra nem laboratório nas escolas. Nossa luta agora é contra a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) que vai restringir o acesso do aluno ao conhecimento, diminuindo o número de disciplinas. E a batalha para não ser aprovada a Escola sem partido. Falar de política também é educar. A gente vê o capitalismo fazendo propaganda o tempo todo, em livros didáticas, por exemplo. Paulo Câmara fala em ProUni estadual. Isso é um absurdo. Não tem verba nem para a Universidade de Pernambuco (UPE) e ele quer socorrer as universidades privadas. Tem é que investir e abrir vagas na UPE, e não em parceria pública privada.

Saúde

Os médicos já estão fazendo greve contra as OS (organizações sociais, que administram hospitais). Os terceirizados em Pernambuco estão com os salários atrasados. Paulo Câmara manda R$ 728 milhões para as OS e a própria secretaria de Saúde tem R$ 282 milhões, segundo dados do Tribunal de Contas do Estado. Ter a saúde como mercadoria é assistir a cenas de guerra, com corredores lotados de pacientes. E é preciso investir em saneamento básico, para evitar doenças como a dengue, chicungunha, zika. Dar atenção à saúde do trabalhador: o estresse no trabalho, doenças ocupacionais, acidentes de trânsito. Muito disso pode ser diminuído com a jornada reduzida. O desemprego também adoece as pessoas.

Porte de armas

Acreditamos no direito à auto-defesa, de defender sua própria vida. Somos contra o desarmamento. Hoje quem tem acesso às armas é a polícia, o estado e a burguesia – há várias empresas privadas de vigilância para proteger os bancos e as propriedades privadas. Grande parte dos mortos pela polícia são jovens negros da periferia. Defendemos a criação de comitês de auto defesa. Outo dia vi uma fala de uma travesti  dizendo que só se sentia segura para sair de casa com uma faca na bolsa. Como dizer para ela que ela não pode se defender? As mulheres da periferia que voltam para casa de noite têm o direito da auto-defesa.

Cultura

Temos uma proposta de cultura para engrandecer o ser humano. O que a gente vê hoje são mega eventos, atrações nacionais na mídia enquanto os artistas locais ficam renegados com cachês atrasados. É preciso estimular a cultura, o teatro, o cinema. Retomar a construção e reforma de teatros – como o do Parque, que mesmo sendo da prefeitura, o estado tem que ajudar. A interiorização dos cinemas também é importante.

Direitos humanos

A nossa proposta são conselhos populares que vão governar, como no começo da União Soviética. Isso sim que é democracia. Depois houve uma queda da democracia com Stalin e um grande enfrentamento (à democracia) com o imperialismo. Mas houve avanços, como a erradicação do analfabetismo e até hoje a Rússia quase não tem desemprego é muito pouco (cerca de 5%, mas com uma das produtividades mais baixas da Europa). Somos a favor da legalização do aborto, da liberação da maconha e de todas as drogas. A maconha é um absurdo proibir, é uma planta. Quanto às outras, o estado assumiria a venda e o tratamento para quem é dependente, fazendo campanhas educacionais para alertar sobre o uso. Quanto à questão da moradia, defendemos a desapropriação de imóveis sem uso e terrenos baldios.  Pernambuco tem hoje um déficit habitacional de 320 mil moradias e há vários prédios desocupados usados para a exploração imobiliária, sem função social.

 

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