Era o glorioso ano de 1982, eu tinha 12 anos, meu irmão, Tonho, tinha 13. Antes da Copa da Espanha começar, os amigos se juntaram para pintar a rua e contar nos dedos os dias para o primeiro jogo do Brasil, no Monte Castelo, bairro de classe média de Fortaleza.
Foi tudo lindo. A cada jogo, Zico, Sócrates, Éder, e uma constelação de craques embalavam o nosso sonho de ganhar o tetra. Eles pareciam bailar, em campo.
No final do jogo, era correr para a calçada e ficar rindo da vida, com o sambinha maroto feito pelo jogador Júnior, que meu pai detestava: “Voa, canarinho voa/mostra para a Espanha que és um rei\Voa Canarinho voa\ mostra na Espanha o que já sei.”
Até que veio o jogo contra a Itália, quando o miserável Paolo Rossi, o finado Paolo Rossi, acabou com a gente, fazendo os três da vitória. Que Deus o tenha.
Foi a minha primeira grande dor futebolística. Minha e do Tonho.
Fomos para a calçada e começamos a chorar.
Depois de um certo tempo, meu pai percebeu nosso penar, e começou a falar dos jogadores, que ganhavam milhões, e não estavam nem aí, uma coisa tão sem sentido, que pensei em mandar meu pai tomar naquele lugar. Se tivesse feito isso, teria levado uma pisa acompanhada do castigo de ficar uma hora em pé, num canto da sala.
Chorei muito, porque eles eram os melhores, e nos encantavam a cada jogo.
De repente, o fim.
Ontem, no jogo horroroso contra a Noruega, na casa de Boy, no Poço da Panela tinha umas 25 pessoas, entre crianças, adolescentes e adultos. Churrasco e cerveja era boia (perdão pelo trocadilho).
A cada vacilo dos jogadores brasileiros, que pareciam ter medo da bola, mais insultos e impaciência. Escutei o famoso e pernambucaníssimo “vai, miséria!” umas trinta vezes.
Ao final do jogo, não vi nenhuma criança ou adolescente chorando. Havia um descontentamento com a falta de raça, vontade, ousadia, destemor, vontade de vencer.
A imagem de Neymar, um ídolo decadente, discutindo com o goleiro adversário, após fazer um gol que de nada valia, me lembrou das avaliações do meu pai, de 1982.
Eles não estão mais nesta vibe de entregar tudo em campo, em busca da vitória – ou de uma derrota digna.
Este papel coube ao apaixonante escrete de Cabo Verde, que deu um sufoco tremendo até na poderosa Argentina.
Eles foram a minha alegria, nesta Copa.
Samarone Lima, jornalista e escritor, publicou livros-reportagens e de poesia, entre eles "O aquário desenterrado" (2013), Prêmio Alphonsus de Guimarães da Fundação Biblioteca Nacional e da Bienal do Livro de Brasília, em 2014. Em 2023, seu primeiro livro, "Zé", foi adaptado para o cinema.