Crédito: Instagram Coalizão Negra por Direitos

Centenas de ativistas do movimento negro se reuniram nessa segunda-feira, 6 de junho, na Ocupação 9 de julho, no centro de São Paulo, para prestigiar o lançamento da iniciativa “Quilombo nos Parlamentos” promovida pela Coalizão Negra por Direitos. O projeto tem o objetivo de apoiar e fortalecer as pré-candidaturas de pessoas negras que irão disputar vagas no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas nas eleições deste ano. 

Com a participação de candidatos e candidatas filiados a diversos partidos de esquerda como PT, PSOL e PCdoB, e diversas lideranças do movimento negro que atuam em todo o território nacional, o evento sinalizou o apoio da Coalizão Negra ao ex-presidente Lula (PT), em chapa conjunta com Geraldo Alckmin (PSB). 

Lula não pôde participar presencialmente do lançamento da iniciativa, pois foi diagnosticado com covid-19 e cumpre quarentena, mas fez uma aparição online e discursou para o grupo. “Eu fico feliz como a pessoa que tem vocês lado a lado na tentativa de reconquistar a democracia nesse país, para que as pessoas voltem a sorrir, para que as pessoas voltem a ter direitos, para que as pessoas voltem a sonhar e para que todo mundo diga em alto e bom som ‘não ao racismo’”, afirmou o pré-candidato. 

A trajetória da Coalizão Negra na política

A Coalizão Negra por Direitos é uma organização social do movimento negro do Brasil. Formada por mais de 200 ONGs, associações e movimentos sociais de luta antirracista no território nacional, a coalizão é vista atualmente como o maior coletivo negro em atividade no país. Durante o momento mais crítico da pandemia da covid-19, nos anos de 2020 e 2021, a coalizão negra, em parceria com a Oxfam Brasil, realizou a campanha “Tem Gente Com Fome”, que doou toneladas de alimentos e mais de 54 mil cartões de alimentação para pessoas em situação de vulnerabilidade social por todo o país.

A trajetória política da organização teve como marco inicial o lançamento do manifesto “Enquanto Houver Racismo Não Haverá Democracia”, publicado em 2020. Desde então, a Coalizão Negra por Direitos tem promovido atividades de formação, de capacitação técnica e de busca por recursos financeiros para dar suporte a diversas iniciativas, além de criar plataformas que ajudam a ampliar relações entre os diferentes grupos e movimentos sociais. 

O projeto Quilombo nos Parlamentos nasceu como forma efetiva de consolidar mais de 100 candidaturas negras para ocupar espaços políticos, fortalecendo as respectivas campanhas eleitorais em 2022. Para isso, a coalizão criou um site onde os nomes dos candidatos e candidatas serão expostos e atualizados, a fim de tornar as candidaturas mais visíveis e acessíveis. Outra iniciativa criada é a “Comitês Antirracistas”, que reúne dicas e materiais de apoio para impulsionar as campanhas eleitorais. 

Participação de Lula no evento de lançamento do projeto “Quilombo nos Parlamentos”. Crédito: Reprodução/YouTbe

Protagonismo das mulheres negras: sementes de Marielle

A pernambucana e integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, Mônica Oliveira, é uma das lideranças da Coalizão Negra por Direitos e durante o seu discurso no evento “Quilombo nos Parlamentos” enfatizou a longa história de luta do movimento negro em todo o Brasil e o seu legado na política. 

“O que a gente está fazendo hoje aqui é continuidade de um processo longo, histórico e político do movimento negro nesse país. […] Nós do movimento negro sempre pertencemos a esse campo chamado esquerda, nós construímos essa esquerda, nós mulheres negras, como bem diz Vilma Reis e várias outras lideranças como Sueli Carneiro, nós empurramos a esquerda para a esquerda”, afirmou Mônica. 

Além de Mônica Oliveira, as pernambucanas Ingrid Farias, da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas, e as pré-candidatas Dani Portela (PSOL), Robeyoncé Lima (PSOL), Elaine Cristina (PSOL) e Débora Aguiar (Rede) estavam presentes no evento. Todas fizeram questão de mencionar a tragédia causada pelas chuvas em Pernambuco, que até esta terça-feira, 7 de junho, resultou na morte de 129 pessoas e deixou outras 9.134 desabrigadas, e enquadraram o caso como racismo ambiental. “É um cenário de guerra, pessoas que perderam tudo, inclusive a própria vida”, afirmou Dani Portela. 

O protagonismo das mulheres era nítido durante todo o evento, com discursos marcados por falas que destacavam a vivência das mulheres negras, mães e periféricas. Além de disputar as narrativas impostas pelo racismo ficou nítido que as integrantes do movimento negro querem disputar os mandatos, como defendeu Robeyoncé Lima: “É preciso que a gente aquilombe a política com lideranças negras dentro de espaços de poder e de tomada de decisão, a gente não vai mais admitir uma política feita sem os nossos corpos e sem o nosso protagonismo. […] Travestis negras no comando da nação”. 

“A gente precisa ter a caneta na mão e não só a caneta que cria as leis no parlamento, mas a caneta no executivo. Eu quero que esse quilombo dos parlamentos um dia chegue ao congresso nacional e que o Brasil seja governado por uma mãe, mulher, preta. É esse o país que eu quero”, reforçou Dani Portela.

Identidade visual da iniciativa da Coalizão Negra por Direitos

A vereadora do Recife e pré-candidata a deputada estadual também fez questão de relembrar as ameaças que vem sofrendo e que a fizeram solicitar uma proteção policial e questionou: “quantos e quantas dos nossos e das nossas estão neste momento ameaçados por ousarem ocupar o lugar que é nosso por direito?”. 

O discurso de Dani Portela corroborou com as menções a Marielle Franco, citada por diversas candidatas como uma inspiração para a consolidação do movimento negro na política e para a ascensão de mulheres negras nos parlamentos. 

Em seu discurso, Anielle Franco, irmã da vereadora do Rio de Janeiro assassinada no dia 14 de março de 2018, e presidenta do Instituto Marielle Franco, também reforçou a importância de cuidar e garantir a segurança das mulheres negras envolvidas na política. “Eu espero que a gente hoje se fortaleça nesse evento, eu espero que a gente se cuide, eu espero não só eleger, não basta elegermos todos que falaram aqui, a gente precisa cuidar. Eu falei isso em 2020 e perguntei “quem cuida das mulheres negras eleitas?”, eu cheguei pra ver minha irmã com cinco tiros na cabeça, 13 no carro, não desejo isso a ninguém. […] Eu quero celebrar as mulheres negras enquanto elas estão vivas!”, declarou a educadora. 

Passos que vêm de longe

Personalidades que foram fundamentais para o avanço da ocupação de espaços públicos por pessoas negras estavam presentes no evento que reverenciou a ancestralidade como causa maior da revolução. Entre os discursos mais esperados da noite estava o de Milton Barbosa, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado, uma das organizações pioneiras na luta antirracista no Brasil, criada em 1978. 

“Nós vamos derrotar a extrema direita. Nós progressistas, nós negros revolucionários que queremos a transformação, queremos dar norte para este país, vamos dar norte para este país, para as Américas e para o mundo. […] Esse momento mostra que estamos fortes e vamos efetivamente ocupar espaços de fundamental importância no parlamento”, declarou o ativista. 

A filósofa e escritora Sueli Carneiro, também discursou enfatizando a importância histórica do lançamento do projeto Quilombo nos Parlamentos. “Vivenciamos um fato inédito e histórico: o lançamento de um conjunto de candidaturas negras de dimensões nacionais que tem a potencialidade de, pela primeira vez, eleger uma bancada negra significativa construída pela nossa ação política coletiva sob a liderança da Coalizão Negra por Direitos. É também inédito e histórico que esse quilombo parlamentar seja prestigiado pelo candidato a presidência do país que é líder das intenções de voto e depositário das esperanças das forças progressistas de que o ambiente democrático, embora de baixa intensidade de sempre, seja restabelecido de forma a que as disputas indispensáveis para o avanço das nossas agendas possa acontecer, sem isso nós não temos nenhuma chance”.

Esta reportagem foi produzida com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.

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