Crédito: SES-PE

Apresentadas em peças de marketing como solução rápida de acesso à saúde pública, as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), tornaram-se, na pandemia de coronavírus, depósito de vítimas fatais da covid-19. Pelo menos 1.019 pessoas diagnosticadas com a doença morreram nas 15 UPAs estaduais à espera de um leito hospitalar e, portanto, de um espaço terapêutico com mais chances de cura.

Os dados obtidos pela Marco Zero Conteúdo via Lei de Acesso à Informação mostram que o número pode ser ainda maior se considerados os pacientes que estão com os exames ainda em análise ou tiveram os resultados inconclusivos. “Há também subnotificação causada pelo registro das unidades que, muitas vezes, optam por escolher como causa da morte a parada cardíaca, por exemplo, e não a covid-19 que provocou o quadro”, afirma um profissional de saúde, servidor da Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE), sob sigilo.

O levantamento da Ouvidoria da SES-PE se refere ao período de abril de 2020 até o dia 15 de junho deste ano. Dentro desse recorte temporal, maio do ano passado foi o mês com o maior número de infectados pelo coronavírus que vieram a óbito, com 403 registros. Neste ano, março é o mês que puxa a curva para cima com 70 pacientes mortos.

As UPAs com os maiores registros de falecidos por complicações da covid-19 foram a Geraldo Pinho Alves, em Paulista, que perdeu 86 pacientes em 2020. Neste ano, a UPA Doutor Emanuel Alírio Brandão, em Petrolina, no sertão, lidera o triste ranking com 73 óbitos confirmados.

A médica sanitarista e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Bernadete Perez, avalia como “altíssimo” o número de mortes nas UPAs e que o dado mostra a inversão na estratégia de saúde pública estabelecida em Pernambuco, desde 2010. Segundo ela, o gasto com esse tipo de equipamento foi escolhido em detrimento do investimento na Atenção Primária à Saúde (APS), causando uma distorção no sistema já fragilizado.

“A promessa era de atendimento e exames rápidos, tudo fake news. A UPA é, na verdade, uma instituição burocrática de distribuição de senhas gerida por OSs [Organizações Sociais] que não trabalham integradas com a rede. É um modelo centralizado no Estado e desagregador que não favorece o diálogo com os municípios nem entre as próprias cidades. O resultado são unidades com baixa resolutividade que contribuem com o aumento da vulnerabilidade dos pacientes”, afirmou Perez, que também é professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Entre os pacientes e a estrutura saturada com lacunas ainda mais expostas pela pandemia estão os profissionais de saúde. Perez lembra o desgaste físico e emocional que as equipes vivenciam diariamente tentando prestar um bom atendimento, apesar das condições oferecidas pelo governo.

“Não temos dúvidas de que os locais que ocorreram mais contaminações de profissionais de saúde pelo coronavírus foram as UPAs. Espaços superlotados onde pessoas com covid-19 ficavam juntas com outros doentes e os profissionais fazendo procedimentos como intubação sem a menor estrutura”, explicou.

Maioria dos mortos são negros e pardos

Ao olhar para os dados de mortos nas UPAs estaduais a partir do recorte de gênero e raça é possível traçar o perfil predominante das principais vítimas da covid-19 nesses espaços. A maioria entre os óbitos com diagnóstico para coronavírus já confirmados, eram homens pretos ou pardos (318 pessoas), em seguida, estão 252 mulheres pretas ou pardas.

“Outro dado que chama muita atenção nesse levantamento, embora já tenhamos essa percepção no dia a dia, é esse de que a população mais atingida por essa política equivocada são as pessoas negras e que estão na parcela mais pobre da população. Fica evidente o racismo estrutural”, destaca Perez.

O que diz o secretário

Na terça-feira (6), em pronunciamento pela internet para responder perguntas enviadas pela imprensa, o secretário de saúde de Pernambuco, André Longo, confirmou o aumento da mortalidade no atendimento pré-hospitalar, mas minimizou dizendo ser um problema ocorrido em todo o mundo. Contudo, para o gestor, o número alto de mortes se deve ao estágio avançado da infecção pelo vírus em algumas pessoas.

“A gente teve efetivamente uma ocorrência maior de óbitos em Unidades de Pronto Atendimento no ano de 2020 quando a gente estava montando nossa rede de terapia intensiva. A doença traz por vezes um quadro [grave] muito rápido, [mas] Pernambuco tem uma grande rede de UPAs, isso faz com que essa atenção pré-hospitalar seja qualificada. Mesmo quando o doente fica um tempo de permanência maior do que 24 horas, ele tem toda uma segurança do ponto de vista de assistência”, disse.

Longo alegou que, como o estado tem a maior rede de terapia intensiva do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, “certamente” a taxa de mortalidade é uma das menores observadas no país. O gestor acrescentou que um levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo até o início do ano que mostraria que, em relação à mortalidade fora de UTI, “Pernambuco seguramente estaria entre os dez estados com menor mortalidade”.

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