Crédito: Camila Roque/MMOB

Na madrugada desta terça-feira, 8 de março, integrantes do Movimento de Mulheres Olga Benário ocuparam uma casa localizada na avenida Conselheiro Rosa e Silva, no bairro do Espinheiro, Zona Norte do Recife. O objetivo é fazer do local uma casa de acolhimento para mulheres vítimas de violência. Esta organização é ligada ao Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), com forte participação na luta por moradia na Região Metropolitana do Recife.

“Resolvemos fazer a ocupação devido ao crescimento do número de casos de violência contra a mulher e feminicídio aqui em Pernambuco. Diante disso, nós sentimos a necessidade de construir uma casa de referência para receber e acolher essas mulheres vítimas de violência”, explicou Camila Roque, coordenadora estadual do Movimento Olga Benário. De acordo com a coordenadora, o imóvel ocupado estava abandonado há três anos. “Antes, morava uma senhora nessa casa, sozinha. Ela faleceu e não deixou herdeiros. Logo, a casa passou a pertencer ao município”, declara Camila. 

A ocupação, nomeada como Centro de Referência Soledad Barret, foi realizada por cerca de 50 mulheres. Atuante no Brasil há 10 anos, o Movimento Olga Benário já foi responsável pela formação de dez casas de acolhimento para vítimas de violência com sedes em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, entre outras cidades. A ocupação Soledad Barret é a primeira do estado de Pernambuco. 

“O nosso trabalho está focado na organização das mulheres em prol da sua libertação e também da transformação do sistema capitalista, pois entendemos que todas as mazelas da sociedade e a base da opressão e da exploração das mulheres vem através do sistema”, explicou Camila Roque.

Nascida no Paraguai e criada no Brasil, Soledad Barrett foi uma militante comunista da Vanguarda Popular Revolucionária durante a ditadura militar brasileira. Em 1973, no Recife, Soledad foi entregue às forças de repressão pelo seu namorado, José Anselmo dos Santos, ex-marinheiro que ficou conhecido como Cabo Anselmo, um agente infiltrado da ditadura militar que se fazia passar por militante de esquerda. Soledad foi assassinada com mais cinco militantes na zona rural de Abreu e Lima, no Massacre da Granja de São Bento, em Abreu e Lima, Região Metropolitana do Recife, narrado em livro-reportagem publicado pela Companhia Editora de Pernambuco.

O que diz a Prefeitura

A Marco Zero procurou a PCR para saber o posicionamento da gestão sobre a ocupação. Por nota, a prefeitura afirmou que: “está agendada para esta quarta-feira (9), a partir das 11h, uma rodada de conversa com um grupo de mulheres ligadas ao Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) para tratar da ocupação do imóvel de número 720 na Avenida Conselheiro Rosa e Silva, no bairro do Aflitos. O terreno ocupado é de propriedade do município – trata-se de Imóvel Especial de Preservação (IEP) – e foi doado para ser destinado à construção de um centro de atendimento voltado para a pessoa idosa da cidade. A proposta conta com o apoio do Conselho Municipal da Pessoa Idosa do Recife e visa ampliar a oferta de serviços públicos para essa população na capital pernambucana”.

Camila Roque confirmou que a reunião será realizada e fez questão de reforçar que “a gente [integrantes do movimento] pretende continuar na casa e manter a ocupação”.

Doações para a ocupação

Sem água encanada e sem móveis, a ocupação precisa de doações para se manter. As ocupantes solicitam materiais de limpeza, alimentos, água, móveis, itens e donativos diversos.

As doações podem ser feitas através do pix: movimentomulheresolgabenario@gmail.com , ou podem ser deixadas diretamente no local, na avenida Conselheiro Rosa e Silva, 720, Espinheiro. Outra opção para entregar donativos é a sede da União dos Estudantes de Pernambuco (Uespe), na rua do Sossego, 342, Boa Vista.

Centro de Referência Soledad Barret, localizado na avenida Rosa e Silva. Crédito: Camila Roque/MMOB

Esta reportagem foi produzida com apoio do Report for the World, uma iniciativa do The GroundTruth Project.

Seja mais que um leitor da Marco Zero…

A Marco Zero acredita que compartilhar informações de qualidade tem o poder de transformar a vida das pessoas. Por isso, produzimos um conteúdo jornalístico de interesse público e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Tudo feito de forma independente.

E para manter a nossa independência editorial, não recebemos dinheiro de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, dependemos de você, leitor e leitora, para continuar o nosso trabalho e torná-lo sustentável.

Ao contribuir com a Marco Zero, além de nos ajudar a produzir mais reportagens de qualidade, você estará possibilitando que outras pessoas tenham acesso gratuito ao nosso conteúdo.

Em uma época de tanta desinformação e ataques aos direitos humanos, nunca foi tão importante apoiar o jornalismo independente.

É hora de assinar a Marco Zero