O julgamento de Lula e o aniversário de Naná

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Calhou de o julgamento do ex-presidente Lula acontecer no mesmo dia em que o gordinho Naná, personagem-símbolo da comunidade ribeirinha que vive no Poço da Panela, completava 51 anos.

A comemoração, obviamente, aconteceu na venda de Seu Vital, homem com seus setenta e tantos anos, nascido em Bezerros, no Agreste de Pernambuco, mas que lembra mais a figura de um sertanejo. Está à frente de seu comércio há quase 50 anos, homem conhecido pelas poucas palavras, geralmente certeiras, curtas, e sem arrodeios. Anualmente, ao lado de sua esposa Severina, segue em excursão a Juazeiro do Norte, para renovar as bênçãos com o Padre Cícero.

É na “Venda de Vital” que grande parte da vida boêmia e criativa do Poço circula. Foi na mesma esquina, em janeiro de 2003, que um grupo de amigos se reuniu para tomar umas cervejas e fazer um churrasco, para acompanhar, na TV de Seu Vital, a posse do recém-eleito presidente Lula.

Naná, frasista de primeira, não resistiu quando tomou o primeiro gole de cerveja:

Rapaz, Lula nem assumiu, e a cerveja já está saindo gelada!”

As gargalhadas e brindes entraram pela tarde. Uma parte dos amigos estava em Brasília, numa viagem lendária, sob a batuta do sanfoneiro Chiló e sua trupe.

Para seu aniversário, Naná chegou todo arrumado, dirigindo a lendária Kombi, trazendo umas carnes e uma churrasqueira. Arrumou as mesas e, como sempre, os amigos começaram a chegar, cada um trazendo uma comida ou bebida – ou os dois.

Galinha guisada da capoeira (feita por Dona Severina), caldo verde e charqueada começaram a ocupar a mesa. O churrasco passou a ser apenas um detalhe. Paulinho tocava a mula bebendo o “Remédio” de Seu Vital, composto que envolve cachaça e uma série de ervas que não se sabe o nome, e que deixa o sujeito pronto com quatro ou cinco doses. Na mesa tinha cerveja, whisky, Campari, Vodka, cachaça da boa. Quando chegou uma cachaça mineira, Naná cutucou Iramaraí e disse em segredo: “Essa aqui, a gente guarda para tomar depois”.

Em meio à festa, o julgamento pairava. Naná, logo ao chegar, foi direto ao assunto:

E Lula, como é que está?”

Tá 2 x1”.

Dizem que o Voto de Minerva é da galega. Se ela disser sim…”

A mesa entrou na conversa.

Esse pessoal, pra votar, fala pra cacete. É duas horas de arrodeio”.

Chega alguém com o celular e mostra a lista dos juízes do Supremo, e a tendência de voto.

Essa Rosa Weber é incerta”.

Pergunto a Naná:

Bicho tu acha que o velho Lula vai ser pre…”

Não, vai não. Não vai porra nenhuma, tu tás doido?”, responde ele, sem me deixar completar a pergunta.

Alguém relembra do porre tomado no dia da posse.

Rapaz, já se foram 15 anos…”

E os tempos dos buffets, heim Naná”.

Naná rememora os tempos áureos do Governo Lula, quando trabalhava para um Buffet em Casa Forte, madrugada adentro, em sua Kombi.

Era muita festa. Tinha final de semana que era três festas, uma atrás da outra. Essa Kombi não parava”.

Depois de tomar uma dose do “Remédio”, lembrou da comunidade.

Aqui no Poço não faltava trabalho. Agora tá todo mundo quebrado”.

Entro no salão da venda, onde corre a Liga de Dominó. Seu Minnie vai fazendo dupla com Gugu, já marcando dois a zero na dupla adversária. Pego uma cerveja e pergunto:

E aí, Seu Minnie, vão prender o homem?”

A corja precisa prender ele. A corja”.

Vou ao balcão abrir a cerveja. Seu vital toma uma dose nas intocas.

Seu Vital, o senhor acha que vão prender…”

Não! Ôxe, pode não. Se prender, o país pega fogo”.

Faz seu tradicional silêncio e prossegue.

Quem matou a fome, nesse país, foi Lula. E ainda tem miserável que vem aqui querendo falar mal dele”.

Volto à mesa, a conversa segue sobre o julgamento. Agora, 3 x 1 contra Lula.

Porra, deixa o cara em paz. Foi um grande presidente, admirado no mundo todo, agora querem foder o cara”.

Sento ao lado de Naná.

Visse as faixas que botaram no Rio? Se Lula for preso, o morro vai descer”.

Nana3

Lembrei de alguns meses atrás, quando estava no auge a ação do juiz Sérgio Moro contra Lula, a mídia pegando pesado. Naná tinha chegado de algum trabalho, seus intermináveis bicos. Estava cansado, tinha tomado já seus remédios e lavava com uma cerveja.

Estava triste. Começamos a conversar, ele me interrompeu e desabafou.

Bicho, eu vou te dizer. Essa comunidade do Poço nunca viveu tão bem como no governo de Lula. O que subiu de casa aqui, o que gente comprou colchão bom, geladeira, televisão. Pois eu estou pensando é em mandar fazer um adesivo e colar no vidro traseiro da minha Kombi escrito assim: foi Lula quem me deu”.

Ontem, depois do bolo e do parabéns, me despedi da turma e voltei pra casa.

Só mais tarde fiquei sabendo da votação final: 6 x 5 contra Lula.

Lembrei de Naná e Seu Vital. E de milhões de outros brasileiros que não conheço.

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Sobre o autor

Samarone Lima, 46 anos, jornalista e escritor. Nascido no Crato (CE), mora no Recife desde 1987, com breve estadia em São Paulo (1994 a 2000). Sua escola de jornalismo foi a redação do glorioso "Diário Popular", na editoria de Polícia. Já publicou alguns livros, mas gosta mesmo é de poesia. Só em 2012 teve coragem de publicar "A praça azul & Tempo de vidro", repetindo a dose em 2013, com "O aquário desenterrado". Dizem que é um taurino turrão, o que pode ser bom para quem acredita na teimosia do jornalismo.

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