barreira sanitária pankararu
Barreira sanitária na aldeia Baixa do Lero, Entre Serras Pankararu, em Pernambuco

O avanço do novo coronavírus sobre as cidades do interior de Pernambuco, ainda no ano passado, acendeu o alerta das autoridades para a proteção dos que vivem nos municípios menores e mais carentes de recursos quando comparados ao Recife. Esse cuidado, no entanto, não se estendeu aos povos indígenas, que mais uma vez tiveram que mostrar a força de sua organização para não sucumbirem à covid-19.

Barreiras sanitárias, rede de aquisição e doação de equipamentos de proteção individual (EPIs) e o isolamento social – mais antiga estratégia indígena contra novas doenças – foram as medidas tomadas pelos quase 45 mil indígenas de 11 povos. Ainda assim, 73,7% sentiram o impacto da pandemia na renda, outros 39% perceberam o aumento na discriminação e mais de um terço ficaram sem ter o que comer.

As situações mais críticas são das comunidades Pankará Serrote dos Campos e Tuxá Campos, ambas em Itacuruba, e da Pankararu Brejinho da Serra, em Petrolândia. As três, além de localizadas no sertão, aguardam regularização do território, não contam com serviço de saúde nem saneamento básico e acesso à água. Cenário que, segundo os próprios indígenas, dificultam o combate à pandemia.

Os dados são do relatório “Estratégias de enfrentamento ao novo coronavírus entre os povos indígenas em Pernambuco” lançado nesta segunda-feira (8). O documento da Rede de Monitoramento dos Direitos Indígenas de Pernambuco (Remdipe) foi feito a partir dos dados coletados pelos próprios indígenas durante o segundo semestre de 2020, por meio de formulários eletrônicos.


Dos pontos positivos apontados pelo relatório, a Remdipe destaca o fortalecimento dos saberes populares para tratamento, diagnóstico e cura de enfermidades conduzidos pelos pajés. A rede também identificou que a maioria dos agentes de saúde indígenas, 54% dos entrevistados, avaliou como positivo o apoio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

“É um documento importante para os apoiadores da causa indígena, mas também para os gestores, já que o relatório traz uma racionalidade indígena que pode ajudar e muito nas políticas públicas de saúde para essa população”, afirmou o professor Renato Athias, do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

O relatório da Remdipe reforça ainda que há “uma realidade de preocupante invisibilidade para os casos dos indígenas que vivem nos centros urbanos e nas periferias das grandes cidades, que não estão sendo computados e, por isso, constituem parte significativa das subnotificações nas estatísticas sobre os povos indígenas no Brasil”. Dados da Secretaria Estadual de Saúde apontam que até domingo (7), 837 indígenas haviam sido infectados pelo coronavírus e 16 morreram.



“Os indígenas que moram nas cidades até hoje estão fora do sistema de saúde. O relatório mostra que é urgente o enfrentamento da pandemia, assim como foi na primeira fase, com o que chamamos de comunicação intercultural, onde as populações participam das estratégias”, salientou Athias, que também coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade (Nepe) da UFPE.

Indígenas têm suas próprias estratégias para combater coronavírus

Esta reportagem é uma produção do Programa de Diversidade nas Redações, realizado pela Énois – Laboratório de Jornalismo Representativo, com o apoio do Google News Initiative”.

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