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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>A universidade que aprende com o quilombo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Feb 2026 21:58:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Conceição das Crioulas]]></category>
		<category><![CDATA[educação quilo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há pouco menos de um ano, no dia 30 de maio de 2025, a Comunidade Quilombola de Carapotós, em Caruaru, no agreste pernambucano, recebeu a certificação da Fundação Cultural Palmares. O reconhecimento marca um novo momento para os moradores do Sítio Carapotós, o início de uma trajetória ainda mais consolidada do processo de fortalecimento e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block"></span>

		<p><span style="font-weight: 400">A série de reportagens </span><i><span style="font-weight: 400">Ciência dos saberes ancestrais: a força da Educação Quilombola</span></i><span style="font-weight: 400"> parte do pioneirismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ao criar a licenciatura em Educação Escolar Quilombola, baseada na resolução nº 8/2012 do Conselho Nacional de Educação. A iniciativa reconhece a relevância cultural, social e histórica das comunidades quilombolas e reforça que seus modos de ensinar e produzir conhecimento também constituem ciência. A proposta da série é expor a importância da educação quilombola, suas potências pedagógicas, os desafios de implementação e a valorização de tecnologias e saberes tradicionais, contribuindo para ampliar o compromisso de outras instituições de ensino com essa modalidade educacional.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400">Com três reportagens, a série percorre tanto o ambiente acadêmico quanto o próprio território quilo,bola, articulando a formação de docentes na licenciatura da UFPE com a prática educacional desenvolvida nas comunidades. O foco recai especialmente sobre Conceição das Crioulas, em Salgueiro, referência histórica na construção de um projeto educativo próprio, enraizado na coletividade, na cultura e na luta por direitos.</span><span style="font-weight: 400"> A série foi contemplada na “Seleção Petrobras de Jornalismo – Ciência e Diversidade”. </span></p>
	</div>



<p>Há pouco menos de um ano, no dia 30 de maio de 2025, a Comunidade Quilombola de Carapotós, em Caruaru, no agreste pernambucano, recebeu a certificação da Fundação Cultural Palmares. O reconhecimento marca um novo momento para os moradores do Sítio Carapotós, o início de uma trajetória ainda mais consolidada do processo de fortalecimento e resistência da identidade cultural quilombola.</p>



<p>“Nós sempre escutamos muitas histórias das pessoas mais velhas da comunidade e através de uma pesquisa de campo, com ajuda de cientistas, fizemos um estudo e produzimos um relatório para enviar para a Fundação Palmares”, conta o professor e morador da comunidade quilombola, Jonathan Arruda. Formado em licenciatura nos cursos de História e Geografia, Jonathan revela que o fortalecimento da identidade quilombola entre os moradores do sítio ainda é um desafio a ser solucionado e acredita que a educação é o melhor caminho para isso. Foi pensando em ampliar o acesso à educação para a sua comunidade que o professor se tornou um dos primeiros alunos a ingressar no curso de Licenciatura em Educação Escolar Quilombola da Universidade Federal de Pernambuco.</p>



<p>“A gente, como liderança comunitária, tem que sensibilizar o pessoal da comunidade para a questão da política pública, principalmente na política de educação. Por isso, a partir do momento que surgiu a oportunidade da licenciatura, eu comecei a sensibilizar as pessoas da nossa comunidade para que elas fizessem o curso também”, afirma Jonathan Arruda. Além do professor, outros três moradores da Comunidade Quilombola de Carapotós ingressaram na licenciatura.</p>



<p>O curso é uma das iniciativas pioneiras em Educação Escolar Quilombola no Brasil. Anunciado no segundo semestre de 2024, a iniciativa tem o objetivo de garantir a formação docente específica para as populações quilombolas do estado. Além da UFPE, a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e a Universidade Federal de Sergipe (UFS) inauguraram o curso dedicado à população quilombola nos anos de 2024 e 2025, respectivamente.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2021/10/216491985_4422851654421289_2799464916813170336_n-1024x768.jpg" alt="A imagem mostra o prédio principal do campus da UFPE em Caruaru, um prédio moderno de vários andares, com formato simétrico. A parte central tem muitas janelas pequenas organizadas em grade, enquanto as laterais têm estruturas verticais vermelhas com grandes janelas espelhadas. Na frente há uma entrada larga, com escadas e uma rampa. O chão é pavimentado e há apenas um carro prateado estacionado. O céu está nublado e ao redor não há muita vegetação ou construções." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Prédio central do campus da UFPE em Caruaru
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Divulgação/UFPE</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Homenagem a um líder</h2>



<p>Propondo um modelo de educação descentralizada, a Licenciatura em Educação Escolar Quilombola da UFPE teve início em julho de 2025. Além do pioneirismo da formação, o curso e sua base de formação homenageia o intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo.</p>



<p>Filósofo, poeta, escritor, professor e ativista político, Nego Bispo foi uma liderança da comunidade quilombola Saco do Curtume em São João do Piauí e se tornou uma das vozes mais influentes do movimento quilombola no Brasil.</p>



<p>Como escritor, Nêgo Bispo publicou diversos livros e artigos, incluindo obras como <em>Quilombos, modos e significados</em> (2007); <em>Colonização, Quilombos: modos e significados</em> (2015); <em>A Terra dá, a Terra quer</em> (2023), nas quais apresenta seu conceito crítico de contracolonização, que propõe fortalecer culturas e organizações de povos tradicionalmente marginalizados como resposta à imposição colonial. O líder quilombola faleceu em dezembro de 2023, aos 63 anos, mas seu legado e suas obras seguem sendo uma grande referência no Brasil, e têm conquistado cada vez mais espaço nas universidades.</p>



<p>Tomando como referência os saberes de Nego Bispo, a fim de valorizar a cultura e o conhecimento dos povos tradicionais, a licenciatura da UFPE possui uma formação baseada na pedagogia da alternância, como explica o doutor em Antropologia e professor da UFPE, Sandro Guimarães: “a pedagogia da alternância considera uma carga horária na universidade e uma carga horária na comunidade. Isso contribui para uma articulação dos conhecimentos mais acadêmicos, mais compartilhados aqui na universidade, com a vivência nos quilombos, e isso é muito importante para que essa licenciatura seja um curso específico, diferenciado, intercultural, como a gente espera”.</p>



<p>“Nós pensamos também na importância de ter um currículo voltado para os interesses que dialoguem com as pautas das comunidades quilombolas, e que também reconheça uma dívida que a universidade e o Estado têm em relação às suas comunidades, no que diz respeito às epistemologias, esses saberes que por muito tempo não foram considerados. Portanto, tem essa dimensão técnica, porque a gente pretende formar professores, com todas as disciplinas que são importantes na formação de um professor, mas também dimensões outras, como a ética, a humanística, a política, a epistêmica”, conclui o professor que contribuiu no processo de formação da base curricular do curso.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/02/negobispo-1024x406.jpg" alt="Foto de Nego Bispo, um homem idoso, de barba grisalha, está sentado em uma sala iluminada, vestindo camisa listrada colorida. À sua frente, sobre a mesa, há dois livros vermelhos em destaque; o da frente traz o título ‘Colonização, Quilombos: Vozes e Sobrevivências’, com a imagem estilizada de um rosto em vermelho e preto. O ambiente lembra uma biblioteca ou sala de estudo, com janelas grandes e papéis espalhados" class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Antônio Bispo dos Santos é o intelectual quilombola que inspira a Licenciatura em Educação Escolar Quilombola da UFPE
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo pessoal</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O curso, que possui duração de oito semestres, foi estruturado por meio de uma parceria entre o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE), Campus Garanhuns, e o Instituto Federal de Educação do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE), contando ainda com o apoio da Coordenação Estadual de Articulação das Comunidades Quilombolas de Pernambuco. As parcerias possibilitaram uma formação descentralizada, uma vez que as aulas acontecem em quatro cidades de Pernambuco: em Garanhuns, no agreste do estado; e em Santa Maria da Boa Vista, no Sertão do estado; em Caruaru, também Agreste, e na capital, Recife.</p>



<p>A licenciatura tem como foco tanto a formação inicial de professores, oferecendo uma segunda graduação para docentes que já atuam em escolas quilombolas, mas que ainda não possuem a titulação exigida pela resolução nº 8/2012 do Conselho Nacional de Educação (CNE). Os profissionais formados poderão atuar em diferentes modalidades da educação básica, com ênfase nos anos iniciais do ensino fundamental, nas áreas de Pedagogia, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Sociais. Além da docência, a formação também habilita os egressos para funções de gestão escolar e para o desenvolvimento de práticas educativas em contextos escolares e não escolares, fortalecendo iniciativas que contribuam diretamente para o desenvolvimento das comunidades quilombolas.</p>



<p>Atualmente, o curso conta com 100 alunos matriculados e com entrada única, ou seja, só após a conclusão da primeira turma é que haverá a convocação para a próxima, como explica Sandro Guimarães: “O curso Intercultural Indígena criado aqui na UFPE foi utilizado como referência para nós e ele iniciou assim, com uma entrada única, só depois se tornou uma graduação com entrada anual, e é isso que nós esperamos que aconteça com a Licenciatura em Educação Escolar Quilombola”.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Racismo presente na sala de aula</strong></h2>



<p>O acesso de estudantes assentados da reforma agrária e de comunidades quilombolas à universidade pública esteve no centro de uma polêmica recente em Pernambuco. Após o anúncio da criação no país da primeira turma de Medicina vinculada ao Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Campus Caruaru, a iniciativa passou a ser alvo de ataques e da disseminação de desinformação por parte de figuras públicas da extrema direita contrários à proposta.</p>



<p>Entre os argumentos utilizados por críticos da iniciativa estava a alegação de que o curso beneficiaria assentados e quilombolas em detrimento de outros candidatos, como se as vagas estivessem sendo “roubadas” do público geral. A disputa ganhou repercussão jurídica e o caso chegou à Justiça. Apesar das tentativas de barrar a iniciativa, a solenidade de abertura do curso foi realizada em dezembro de 2025.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/por-que-curso-de-medicina-para-assentados-e-quilombolas-virou-alvo-de-ataques-e-fake-news/" class="titulo">Por que curso de Medicina para assentados e quilombolas virou alvo de ataques e fake news</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/educacao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Educação</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>A violência presente na tentativa de barrar o ingresso de pessoas quilombolas acaba por demarcar um lugar de privilégio no acesso às universidades públicas no Brasil. Diante disso, muitas pessoas pertencentes aos grupos tradicionais sentem dificuldade em se sentir parte da academia. O reflexo disso está nos casos de racismo que aconteceram com alunos de Licenciatura em Educação Escolar Quilombola. Apenas no primeiro semestre do curso pelo menos três casos foram registrados pela coordenação, como conta o professor Sandro Guimarães:</p>



<p>“Infelizmente, tivemos algumas denúncias de racismo vindas dos próprios estudantes. Tivemos um caso em Caruaru, um caso em Recife e também em Santa Maria da Boa Vista. E esse tem sido um grande desafio, porque a universidade não foi feita para a diferença, a universidade ainda está aprendendo a lidar com isso. Os professores, os estudantes, eles não estão preparados para isso. Então, é um outro paradigma com o qual a gente ainda está aprendendo a lidar com ele”.</p>



<p>“Os casos que tem provas a gente toma todas as providências possíveis e cabíveis, mas às vezes são insultos que são proferidos e os alunos não conseguem identificar quem fez”, disse Guimarães.</p>



<p>Devido a esse cenário, ainda há resistência de algumas pessoas em querer ocupar a universidade. “Ainda é um trabalho de formiguinha convencer as pessoas da comunidade quilombola que esse espaço é nosso, que nós temos que ocupar ele, até para poder desenvolver mais coisas para o nosso próprio território, mas nós estamos avançando e em um único semestre já fizemos coisas importantes”, diz Jonathan Arruda.</p>



<p>Em uma das disciplinas desse semestre o líder quilombola desenvolveu, junto com os demais moradores do quilombo que também integram o curso, materiais didáticos sobre a Comunidade Quilombola de Carapotós, entre eles um livro sobre a história do território.</p>



<p>Porém, muito antes da formação na Licenciatura em Educação Escolar Quilombola Jonathan Arruda e outros professores já tocavam iniciativas educativas na Escola Municipal Manoel Brajano de Arruda, a fim de fortalecer a identidade quilombola da comunidade. A construção dessa base educacional quilombola foi fundamental para a criação de um curso superior pensado exclusivamente em uma educação quilombola, como veremos na próxima reportagem da série <em>Ciência dos saberes ancestrais: a força da Educação Quilombola.</em></p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/antes-da-universidade-o-quilombo-ja-ensinava/" class="titulo">Antes da universidade, o quilombo já ensinava</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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	            </div>
        </div>

		


<p></p>
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		<item>
		<title>Passarela da São Paulo Fashion Week receberá artesanato das marisqueiras do Quilombo Catucá</title>
		<link>https://marcozero.org/passarela-da-sao-paulo-fashion-week-recebera-artesanato-das-marisqueiras-do-quilombo-catuca/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 May 2023 14:49:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[C&A]]></category>
		<category><![CDATA[Catucá]]></category>
		<category><![CDATA[comunidade quilombola]]></category>
		<category><![CDATA[Issac Silva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O encontro entre o axé da estilista baiana Isaac Silva e a vocação das marisqueiras artesãs da comunidade quilombola Povoação São Lourenço, em Goiana, resultou em uma coleção de roupas e acessórios que será exibida na próxima edição do São Paulo Fashion Week (SPFW 2023), o maior evento de moda do Brasil. A parceria é [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O encontro entre o axé da estilista baiana Isaac Silva e a vocação das marisqueiras artesãs da comunidade quilombola Povoação São Lourenço, em Goiana, resultou em uma coleção de roupas e acessórios que será exibida na próxima edição do São Paulo Fashion Week (SPFW 2023), o maior evento de moda do Brasil.</p>



<p>A parceria é resultado do Entrelinhas, um projeto realizado pelo Instituto C&amp;A que tem o objetivo de promover uma conexão entre marcas de moda para estabelecer processos colaborativos no setor. A idealização e execução da coleção aconteceu em 2022 e, agora, as peças serão expostas no desfile do festival de moda, que acontecerá entre os dias 25 e 28 de maio.</p>



<p>“Estamos muito felizes. Sempre admiramos o trabalho de Isaac e poder realizar algo junto com ela é a realização de um sonho. Poder levar peças da nossa coleção para a São Paulo Fashion Week é ainda mais emocionante”, declarou Cecília Gouveia, artesã e marisqueira responsável pelo coletivo de moda Quilombolas de São Lourenço. </p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Crédito: Reprodução / Instagram Instituto C&amp;A 
</p>
	                
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>As peças desenvolvidas por <a href="https://www.isaacsilva.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Isaac Silva</a>, &#8211; estilista da marca homônima que tem como lema a frase &#8220;Acredite no seu Axé&#8221; e que já vestiu diversas artistas do Brasil, como Elza Soares e Linn da Quebrada &#8211; , em parceria com as Quilombolas de São Lourenço, têm como elementos principais as redes confeccionadas manualmente pelas artesãs e os mariscos, matéria-prima do trabalho das quilombolas. A coleção de roupas e acessórios foi inspirada na ancestralidade das mulheres negras e quilombolas do Nordeste do Brasil.</p>



<p>“<a href="https://www.youtube.com/watch?v=Z_DlROeBSz0" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Eu conheci o trabalho da Isaac em 2019, quando ela apresentou o desfile ‘Acredite no seu Axé’</a> e eu achei incrível cada peça e principalmente a diversidade das pessoas no palco, com o protagonismo de pessoas negras. Quando recebemos o convite do Instituto C&amp;A para fazer a colaboração eu nem acreditei, explodi de felicidade”, disse Cecília Gouveia.</p>



<p>Em 2022, Isaac Silva visitou a Povoação São Lourenço, comunidade remanescente do Quilombo Catucá, no município de Goiana, e pôde conhecer de perto o trabalho das artesãs. Uma visita que emocionou tanto as quilombolas quanto o estilista.</p>



<p><a href="https://institutocea.org.br/dendezeiro-e-isaac-silva-brand-se-conectam-a-marcas-iniciantes-pelo-entrelinhas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Em entrevista ao site do Instituto C&amp;A</a>, Isaac Silva também comentou sobre o encontro com as Quilombolas de São Lourenço. “Acredito muito na força da ancestralidade, algo que tento trazer em todas as minhas criações, e essa parceria ocorre de forma muito alinhada com meus ideais, com o que eu almejo para o mundo da moda: diversidade e autenticidade. Tivemos muitas trocas importantes nos últimos meses e acredito no potencial de nossa força juntas”, afirmou a estilista.</p>



<p>Além das peças do projeto colaborativo, que serão expostas pelo Instituto C&amp;A, os acessórios das Quilombolas de São Lourenço irão compor o desfile próprio de Isaac Silva.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A história das Quilombolas de São Lourenço</strong></h2>



<p>A pesca é a principal atividade econômica da Povoação São Lourenço. Culturalmente, os homens trabalham com a pesca no mar, com embarcações, e as mulheres trabalham catando marisco na área costeira das marés. Uma tradição quilombola que perdura até os dias de hoje na comunidade.</p>



<p>Atualmente, porém, além da pesca, um grupo de mulheres complementa a renda através do trabalho em confecção de acessórios e roupas, produzidos com a mesma matéria-prima de suas atividades pesqueiras: redes e mariscos.</p>



<p>A aptidão das marisqueiras para a moda e o artesanato foi descoberta em 2009, quando o estilista pernambucano Ticiano Arraes, junto com um grupo de designers, ofertou um curso profissionalizante para as mulheres da comunidade.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Crédito: Reprodução / Instagram Instituto C&amp;A
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<p>“Todas as mulheres que participaram da capacitação traziam para o curso algum conhecimento que elas já tinham. Algumas sabiam fazer crochê, outras faziam amarrações, e muitas delas conheciam bem os diferentes tipos de conchas e suas especificidades. Foi então que Ticiano começou a ver um potencial no nosso trabalho”, relembrou a artesã Cecília Gouveia.</p>



<p>Durante o curso profissionalizante, as mulheres confeccionaram diversas peças que foram expostas e vendidas. “No dia que a gente expôs as peças pela primeira vez, nós vendemos um salário mínimo em algumas horas e isso nos surpreendeu, ver que nosso trabalho era realmente rentável e que as pessoas gostavam do que estava sendo feito”, contou Gouveia.</p>



<p>Desde então, as Quilombolas de São Lourenço não pararam mais de produzir e comercializar suas peças. Atualmente, as mulheres se organizam como um coletivo e contam com uma sede na Povoação São Lourenço.</p>



<p>A última coleção própria desenvolvida pelas artesãs se chama “Marisqueiras” e é uma homenagem e também um resgate histórico de suas raízes, afirma Cecília: “A gente resolveu homenagear todas as mulheres que são e foram exemplos de criatividade, de luta, de maternidade, e de empoderamento feminino dentro da nossa comunidade. O propósito era mostrar para as mulheres que a gente sente um orgulho danado delas”.</p>



<p>Ao todo, são 40 peças, entre colares e bolsas, e cada uma delas recebe o nome de uma mulher da comunidade remanescente do quilombo Catucá. As conchas de mariscos utilizadas na confecção são catadas pelas próprias artesãs. Toda a coleção está disponível no Instagram das Quilombolas de São Lourenço.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O reconhecimento contrasta com o trabalho ainda pouco remunerado</strong></h2>



<p>Atualmente, apenas quatro mulheres trabalham de forma fixa no coletivo, mas, dependendo do volume de demanda das encomendas, outras artesãs participam do processo de confecção das peças.</p>



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	                                        <p class="m-0">Crédito: Reprodução / Instagram Instituto C&amp;A
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<p>“Algumas tiveram que migrar para o trabalho formal, para o doméstico, para outras coisas, e foram ficando poucas porque, infelizmente, o dinheiro que chega muitas vezes não é suficiente para sustentar as famílias. A nossa intenção é que esse grupo cresça, mas a gente precisa de uma demanda maior para que esse grupo se sustente 100%”, lamentou Cecília Gouveia.</p>



<p>A chegada até o São Paulo Fashion Week é mais um grande passo para as artesãs, que já protagonizaram outras passarelas. Em 2015, o coletivo foi responsável por realizar em Olinda a abertura da Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte) com o primeiro desfile de acessórios do evento.</p>



<p>“Para nós foi um divisor de águas porque foi a partir desse desfile que nós ganhamos visibilidade e passamos a receber convites para participar de outras feiras pelo Brasil”, relembrou a diretora das Quilombolas de São Lourenço.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Todas as peças confeccionadas pelas artesãs estão<strong><a href="https://www.instagram.com/quilombolasdesaolourencobr/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> disponíveis para compra no Instagram do coletivo</a>.</strong> As artesãs também aceitam encomendas, que podem ser realizadas através do contato pelo Whatsapp, também disponível no Instagram.</p>
</blockquote>



<p></p>



<p></p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/conheca-a-historia-e-a-luta-de-catuca-o-maior-quilombo-de-pernambuco/" class="titulo">Conheça a história e a luta de Catucá, o maior quilombo de Pernambuco</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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			        </div>
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        </div>

		


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<p></p>
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		<title>Conheça a história e a luta de Catucá, o maior quilombo de Pernambuco</title>
		<link>https://marcozero.org/conheca-a-historia-e-a-luta-de-catuca-o-maior-quilombo-de-pernambuco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Giovanna Carneiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Mar 2023 18:35:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Candomblé]]></category>
		<category><![CDATA[catuca]]></category>
		<category><![CDATA[comunidades quilombolas]]></category>
		<category><![CDATA[goiana]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>No século XIX, Pernambuco abrigou um dos quilombos mais importantes da história do Brasil. Espalhados da margem da fronteira agrícola da Zona da Mata Norte até os subúrbios do Recife, os integrantes do Quilombo do Catucá constituíam uma comunidade com grande mobilidade e formada por diversos núcleos dentro das matas da floresta do Catucá,  mata que começava nos limites do que hoje é o oeste da Região Metropolitana do Recife, seguia até os mangues e rios da Ilha de Itamaracá, cortava o povoado de Tejucupapo, em Goiana e chegava até a fronteira com a Paraíba. </p>



<p>Neste texto, a Marco Zero pretende contar um pouco da história do Catucá, sua presença no imaginário e na cultura pernambucana, além das iniciativas de negros e negras para serem reconhecidos como descendentes quilombolas e herdeiros da história do quilombo.</p>



<p>Não é possível mapear precisamente a extensão do Catucá, uma vez que ele foi um quilombo itinerante que ocupou uma vasta extensão da província de Pernambuco. No entanto, de acordo com os estudos historiográficos, o centro do quilombo estava localizado entre as matas dos engenhos Timbó e Monjope, na extensão de Paratibe, em Paulista e no Recife, em um terreno acidentado conhecido como <a href="https://goo.gl/maps/qQXVZ77UVKinu6y87" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Cova da Onça, onde hoje existe o bairro do Curado III</a>. </p>



<p>A data de fundação do quilombo também não é precisa, mas os registros presentes no levantamento feito pelo historiador pernambucano Marcus Joaquim M. de Carvalho, apontam que o Catucá passou a existir às vésperas da independência, durante a Revolução Pernambucana de 1817, quando os escravizados se refugiaram nas matas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A floresta do Catucá era cortada pelas estradas que levavam gado e algodão dos distritos de Bom Jardim, Limoeiro e Nazaré para o Recife, ou para Goiana, importante entreposto comercial na Zona da Mata. Os caminhos do gado abriam grandes clareiras nas florestas e com o tempo transformaram-se em largas estradas de terra batida. Da área canavieira, circundando Goiana, Igarassu e Itamaracá, seguia açúcar para o Recife, principalmente pelo mar. Mas muitas estradas menores ligavam a capital e os povoados da área de maior densidade populacional da província, onde transitava uma população livre bastante diferenciada. As comunicações entre o porto do Recife e o <em>hinterland</em> [termo alemão usado como sinônimo de sertão ou interior] da Zona da Mata seca passavam, portanto, perto do quilombo. A situação era ideal para os ataques dos quilombolas. </p><p><strong>Trecho do artigo <em>O Quilombo de Catucá em Pernambuco</em>, de Marcus Joaquim M. de Carvalho</strong></p></blockquote>



<p></p>



<p>Apesar da constante repressão das autoridades da província, os integrantes do Catucá &#8211; formada em sua maioria por negras e negros escravizados e fugitivos, mas com registros que apontam para integração também de pessoas brancas (que, para o historiador Marcus Joaquim, podem ser pessoas pardas que, a época, se identificavam como brancas) &#8211; não se limitaram a formar uma sociedade alternativa isolada na floresta. “Catucá, portanto, está entre os quilombos do Brasil oitocentista, que tinham por base essas cumplicidade entre escravos de engenho, quilombolas e a população livre e liberta local, mormente os não proprietários dos meios de produção”, destacou Marcus Joaquim. </p>



<p>Os quilombolas promoveram ataques aos engenhos, comerciantes e às casas de moradores que ficavam próximas às matas. As ações violentas ou de rebeldia levaram as autoridades a organizarem expedições punitivas contra os quilombolas que resultaram na morte e na captura de muitos deles. O quilombo de Catucá, e seus diversos núcleos, viveram sob ataques e resistência durante anos. </p>



<p></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>O quilombo renascia sempre que as elites se dividiam, e sofreu seus maiores revezes quando a classe senhorial estava unida. Ele cresceu com as disputas pela independência e a Confederação do Equador, mas foi duramente combatido na segunda metade da década de 1820. Voltou a crescer no final da década, e na primeira metade dos anos 1830, quando várias convulsões agitaram o Recife e o interior, principalmente a <a href="https://www.infoescola.com/historia-do-brasil/cabanada/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Cabanada</a> (1832-1835), no outro lado da província. Terminada a guerra dos cabanos, a repressão voltou-se novamente para a zona da mata seca. O Catucá continuaria existindo como asilo de fugitivos da justiça estatal e senhorial, mas o quilombo, como tentativa de construção de uma sociedade alternativa, foi destruído no final da década de 1830. </p><p><b> Trecho do artigo </b><em style=""><b>O Quilombo de Catucá em Pernambuco</b></em>, <strong>Marcus Joaquim M. de Carvalho</strong></p></blockquote>



<p></p>



<p>Tendo como uma de suas principais características o fato de ser um quilombo móvel, o Catucá era dividido em vários grupos que viviam no meio da floresta e tinham como meio de vida a agricultura de subsistência, além da prática de furtos e assaltos em engenhos e estradas, comércio e contrabando. Tanto a sua instalação nas matas, com a possibilidade maior de fuga e criação de armadilhas, quanto o seu espraiamento por diversos pontos de toda a província pernambucana deu ao quilombo uma maior possibilidade de luta. </p>



<p>O fato da população negra ter sido escravizada e vivido sob um regime de subordinação durante um longo período da colonização e pós-colonização fez com que os negros não tivessem acesso à educação, o que impossibilitou que pudessem escrever a sua própria história. Com isso, como defendeu a escritora Beatriz Nascimento no livro <em>Uma história feita por mãos negras, </em>um dos seus estudos sobre a historiografia negra brasileira: “baseados nos documentos de repressão oficial, os estudos de ‘quilombos’ caem sempre na análise do momento do ataque da ordem social vigente aos estabelecimentos negros”. </p>



<p>Tal fato pode criar uma visão estereotipada dos quilombos onde eles só são analisados a partir da luta armada, desconsiderando, assim, o poder de autonomia racial, social, cultural e econômica gerados pela população negra livre e sua capacidade organizativa. É preciso inferir que o quilombo não é apenas um movimento de contra-ataque e revolta, mas sim um modelo social alternativo pautado na garantia de direitos para a população menos abastada e historicamente violentada.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2023/03/catuca.jpg" alt="Foto aérea de manguezal e mata atlântica cortada pela curva de um rio, sob o céu azul com poucas nuvens." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Catucá se estendia dos mangues de Goiana até os subúrbios do Recife. Crédito: Arnaldo Sete/MZ Conteúdo </p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Malunguinho na mata é rei</strong></h2>



<p>A história reverencia, com razão, Zumbi dos Palmares como a principal liderança quilombola do Brasil. E é inegável a importância de Zumbi para a história de libertação do povo negro escravizado, porém é preciso ressaltar também as demais lideranças que por ele foram inspirados e que pouco são reconhecidos. </p>



<p>Em Pernambuco, o Quilombo de Catucá também é conhecido historicamente como o Quilombo de Malunguinho. Assim como o Quilombo de Palmares, a denominação é uma homenagem ao principal líder quilombola da província pernambucana, o guerreiro Malunguinho.</p>



<p>Curiosamente, apesar de haver inúmeros registros de diligências contra Malunguinho &#8211; com ofertas de recompensas do governo provincial datadas de 1827 pela sua morte &#8211; não há informações concretas sobre a fuga, morte ou captura de nenhum líder com esse nome. Alguns historiadores chamam atenção para o fato da palavra “malungo” significar companheiro e ter sido usada como forma de tratamento entre pessoas escravizadas que vieram ao Brasil no mesmo navio negreiro. </p>



<p>Portanto, até hoje, não se sabe se Malunguinho era uma pessoa ou uma forma de tratamento dos quilombolas ao seu líder. Porém, documentos de uma expedição repressiva que aconteceu em 1829 mencionam o nome de cinco líderes do Catucá, todos tinham nomes próprios e nenhum deles possuía o apelido de Malunguinho. </p>



<p>Caso Malunguinho não tenha sido realmente uma única pessoa e sim uma forma de referência aos líderes do Catucá, o último Malunguinho que se tem registro na história foi João Batista, morto em combate no ano de 1835.</p>



<p>Todo o mistério que envolve a vida de Malunguinho, e sua relevância na história, fez com que ele se tornasse uma entidade sagrada da jurema, religião de matriz negra, indígena e nordestina. A entidade Malunguinho é cultuada como um mensageiro responsável por ser o elo de ligação entre a jurema e os humanos. Ligação que faz sentido quando olhamos para o resgate histórico promovido pelos quilombolas remanescentes do quilombo de Catucá. O líder do quilombo se transformou em divindade e, assim, não só preservou uma história real como a perpetuou de forma cosmológica através de cultos, cânticos e rituais. </p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Catucá</strong> 2023</h2>



<p>Se os registros históricos definem o Quilombo de Catucá como uma organização social alternativa findou no final dos anos 1830, quase 200 anos depois, o processo de reconhecimento de remanescentes quilombolas segue firme. </p>



<p>Devido às diferenças do contexto histórico, com o fim da colonização e da escravidão, é impossível pensarmos em quilombos tradicionais como os do século XIX, afinal, como definiu o escritor Edison Carneiro, eles nasceram “como forma de luta contra a escravidão, como estabelecimento humano, como organização social, como reafirmação de valores das culturas africanas, sob todos esses aspectos, o quilombo revela-se um fato novo, único, peculiar &#8211; uma síntese dialética”. </p>



<p>Porém, o processo de aquilombamento ainda é entendido como um movimento de resistência em uma sociedade que perpetua o racismo e nega a humanização e a valorização histórica, social e cultural da população negra. Portanto, “a importância dos quilombos na atualidade pode ser compreendida pelo fato desse evento histórico fazer parte de um universo simbólico em que seu caráter libertário é considerado um impulsionador ideológico na tentativa de afirmação racial e cultural do grupo”, como defende Beatriz Nascimento. </p>



<p>E foi justamente em um movimento de resgate histórico que Gedália Maria da Silva &#8211; conhecida como Dadá Quilombola &#8211; lutou com sucesso para que a comunidade onde nasceu e foi criada, a Povoação São Lourenço, localizada em Goiana, na Mata Norte, fosse reconhecida como um quilombo remanescente do Catucá. Foi lá que a Marco Zero a encontrou, em frente à igreja do santo que dá nome ao vilarejo.</p>



<p>“Nós demoramos muito a nos reconhecer como quilombolas e isso é devido a desvalorização que a gente sofre. A gente não conhece a nossa própria história”, afirmou Dadá Quilombola, professora aposentada e integrante do Instituto Histórico Arqueológico e Geográfico de Goiana. </p>



<p>Em 2003, a quilombola foi convidada a participar de um encontro de comunidades quilombolas que aconteceu em Salgueiro e a partir daí começou a se aprofundar na história do seu povoado. “Uma representante do quilombo Conceição das Crioulas  me chamou para o encontro e disse ‘venha representar o seu quilombo’, e depois ela me apresentou a historiadores que começaram a me ajudar a entender que éramos parte do quilombo de Catucá”, contou Dadá. </p>



<p>A partir daí, a professora passou a fazer o resgate histórico com os próprios moradores da Povoação São Lourenço, inclusive com seus pais, para entender o processo de formação da comunidade, além de um processo de pesquisa que contou com a ajuda de historiadores e acadêmicos. Com isso, Dadá passou a ser a representante da causa quilombola, participou de reuniões e congressos, e se empenhou para que o lugar fosse reconhecido como remanescente de quilombo. Reconhecimento conquistado em 2005, quando a Fundação Palmares certificou a comunidade como quilombo remanescente do Catucá. </p>



<p>Porém, mesmo após a conquista do título, Dadá ainda luta para que os próprios moradores da povoação se reconheçam enquanto quilombolas. “Infelizmente ainda existe muito preconceito na sociedade e as pessoas têm medo, têm vergonha de dizer que são quilombolas porque associam isso a negritude de uma forma ruim, como se fôssemos pessoas inferiores”, disse a quilombola.</p>



<p>Além disso, a comunidade ainda não conquistou a titulação das terras quilombolas, o que resulta na impossibilidade da desapropriação de terrenos que foram comprados por senhores de engenhos e empresários e na especulação imobiliária. “Nós tínhamos várias construções históricas, como uma Casa Grande de engenho, que ficava na área rural próxima a comunidade, mas ela foi destruída pelos proprietários das usinas e nós perdemos isso, porque a terra ainda não é nossa”, revelou.</p>



<p>Atualmente, a representante do quilombo luta para a restauração e preservação da ruína da Igreja Rosário dos Pretos e também da Escola Basílio Machado, patrimônios históricos da povoação. </p>



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	                                        <p class="m-0">Dadá Quilombola aos pés da ruína da Igreja Rosário dos Pretos do Quilombo Povoação São Lourenço. Crédito: Arnaldo Sete/MZ </p>
	                
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<p>Para Dadá, a melhor forma de promover o reconhecimento quilombola na população a partir da educação. “Quando fomos reconhecidos como remanescentes quilombolas, nossa escola [Escola Municipal Adélia Carneiro Pedrosa] passou a ter um ensino mais voltado para essas questões de raça, para a história do quilombo e isso é muito importante”, concluiu a líder quilombola que também é responsável pela criação de um grupo de coco de roda para crianças e adolescentes da comunidade. Dadá afirmou que o objetivo do grupo é promover uma identificação com a cultura afro-brasileira e nordestina. </p>



<p>Ao conhecer o Quilombo Povoação São Lourenço &#8211; a pouco mais de 30 quilômetros de Goiana com uma população pequena e de modo de vida tradicional, com renda baseada na pesca &#8211; é possível perceber que há uma grande influência das igrejas católica e evangélica na comunidade, o que, de acordo com Dadá, promove uma certa resistência às figuras da história negra, como o próprio Malunguinho. “A gente sente até dificuldade em cultuar outras religiões, de matriz africana, aqui na comunidade”, revelou a quilombola que contou já ter recebido retaliações por parte da comunidade devido a sua religião. </p>



<p>“Existe Malunguinho guerreiro, na história, e existe Malunguinho divindade, eu tenho uma ligação com os dois, mas eu respeito todas as religiões. Minha luta é para que a comunidade conheça a sua história e sinta orgulho em dizer que é quilombola remanescente do Catucá”, finalizou Dadá Quilombola.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma ligação ancestral e divina</strong></h3>



<p>O reconhecimento da história de Dadá e do seu quilombo também passa pela relação da quilombola com a entidade sagrada de Malunguinho. Experiência semelhante a de Elaine Albuquerque, responsável por gerir o Quilombo do Catucá, um centro cultural e de acolhimento localizado em Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife.</p>



<p>“O quilombo de Catucá foi um quilombo itinerante, quilombo esse que hoje os remanescentes reconhecidos vivem lá na Povoação de São Lourenço em Goiana. Mas quando a gente vai para a história, a gente entende que foi um quilombo que permeou exatamente esse espaço onde nós estamos agora, essa localidade, e quando nós fomos fazendo a árvore genealógica da nossa família chegamos à conclusão que também somos descendentes dos quilombolas do Catucá, por isso, hoje, a gente faz questão de afirmar que Catucá está espalhado por todos os lugares e eu acredito que todas as pessoas negras de Pernambuco são remanescentes desse quilombo e dessa história”, afirmou Elaine ao justificar a escolha de nomear sua casa como Quilombo do Catucá.  </p>



<p>Apesar de não ter o reconhecimento oficial, a história de Elaine se conecta a de Dadá através de um conceito de quilombismo defendida pelo escritor Abdias Nascimento, que o define como um movimento de práticas pedagógicas baseadas em saberes ancestrais de matriz africana que tem o objetivo de fortalecer uma humanidade que só é compreendida a partir do senso de coletividade.</p>



<p>Ambas as mulheres negras são protagonistas em criar movimentos de resgate histórico e cultural da população negra através da organização coletiva. Porém, Elaine é fruto da trajetória de sua mãe, a ialorixá Mãe Flávia do Catucá, que faleceu em 2021 e passou o legado para a filha, que faz questão de relembrar suas vivências.</p>



<p>Mãe Flávia foi criada em berço católico, mas desde criança ela “incorporava”. Aos 11 anos de idade foi obrigada a casar com um homem de 21 anos, com quem teve dois filhos, Elaine e seu irmão. Deybson. Para fugir de uma realidade violenta, Mãe Flávia se separou do marido e foi morar em São Paulo deixando os seus filhos sob os cuidados das irmãs. </p>



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	                                        <p class="m-0">Reunião da comunidade no Quilombo do Catucá, em Camaragibe. Crédito: Reprodução / Instagram</p>
	                
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<p>“Foi em São Paulo que ela pôde ser livre e se empoderar. Foi lá que ela ingressou no candomblé e passou a ter uma ligação muito forte com a entidade de Malunguinho”, contou Elaine. Anos depois, ao voltar para Camaragibe, Mãe Flávia fez uma promessa pela saúde do seu filho e a partir disso passou a ofertar doces no dia dos santos Cosme e Damião para as crianças da comunidade. Com isso, ela começou a ser uma figura conhecida e respeitada na comunidade e sua casa virou um verdadeiro centro de acolhimento para crianças, mulheres e jovens. </p>



<p>“A festividade das crianças fez com que as pessoas fossem se aproximando muito da minha mãe, porque a criança estabelece uma relação de proximidade forte entre as pessoas da comunidade, então, ela passou a dar apoio à comunidade o ano inteiro e não só durante o Cosme e Damião. Porque nas festividades das crianças a gente não dá só os doces, a gente distribui lanche, faz sorteio de cestas básicas, distribui alimentos, tudo pensando em suprir a necessidade da população”, revelou a filha de Mãe Flávia. </p>



<p>No final de 2003 &#8211; mesmo ano ano em que começou a luta de Dadá pelo reconhecimento da Povoação São Lourenço -, Mãe Flávia e seus filhos passaram a morar na casa onde hoje funciona o Quilombo de Catucá, que foi construída por eles. Naquele ano, criaram um grupo de coco de roda e Deybson de Oxalá, irmão de Elaine, sugeriu que o grupo fosse denominado de Catucá, em homenagem ao quilombo. Nesse momento, Mãe Flávia revelou sua relação com Malunguinho e a família passou a fazer uma pesquisa sobre suas origens. Com isso, descobriram que também eram remanescentes quilombolas e passaram a atuar de forma mais incisiva na promoção de atividades de valorização cultural, histórica e social da comunidade. </p>



<p>Após a morte de Mãe Flávia, Elaine e Deybson assumiram a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho da ialorixá. Atualmente, o Quilombo de Catucá, em Camaragibe, tem realizado atividades educativas e de letramento para as crianças, roda de diálogos e apoio psicológico para mulheres vítimas de violência e suporte a jovens usuários de drogas. Além de ofertar doações de alimentos e roupas para a comunidade, e realizar, mensalmente, a sambada de coco que promove um momento de festejo, representatividade e reconhecimento cultural. </p>



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	                                        <p class="m-0">Sambada de coco no Quilombo do Catucá. Crédito: Reprodução/Instagram</p>
	                
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<p>“Nessas atividades que a gente vai desenvolvendo a gente vai inserindo a nossa representatividade dentro do aparato religioso também. Hoje, a gente entende que nossa forma de ser e estar no mundo tem muito a ver com a nossa espiritualidade, com as nossas escolhas e com essa nossa ancestralidade, então, a gente sempre tenta trazer isso à tona de formas sucintas”, concluiu Elaine Albuquerque.</p>



<p>Seja na história ou na espiritualidade, a referência ancestral da figura de Malunguinho e de sua história no Quilombo de Catucá permanece viva como um legado de libertação e resistência do povo negro, que seguem afirmando através de cânticos que “Malunguinho na Mata é Rei”.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><em><strong>Esta reportagem foi produzida com apoio do <a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do <a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project.</a></strong></em></li></ul>



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<p>O post <a href="https://marcozero.org/conheca-a-historia-e-a-luta-de-catuca-o-maior-quilombo-de-pernambuco/">Conheça a história e a luta de Catucá, o maior quilombo de Pernambuco</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Homens viajam para arrumar trabalho e mulheres quilombolas ficam pra cuidar da lavoura, da casa e dos filhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Géssica Amorim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Jun 2022 21:02:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Principal]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[comunidades quilombolas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todos os anos, mais da metade dos homens do Quilombo Teixeira que estão na faixa etária considerada como &#8220;economicamente ativa&#8221; viajam para trabalhar com o corte de cana em engenhos dos estados de Alagoas, Bahia e Rio de Janeiro. Esta comunidade quilombola, na zona rural de Betânia, no sertão de Pernambuco, a 349 quilômetros do [&#8230;]</p>
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<p>Todos os anos, mais da metade dos homens do Quilombo Teixeira que estão na faixa etária considerada como &#8220;economicamente ativa&#8221; viajam para trabalhar com o corte de cana em engenhos dos estados de Alagoas, Bahia e Rio de Janeiro. Esta comunidade quilombola, na zona rural de Betânia, no sertão de Pernambuco, a 349 quilômetros do Recife, é formada por pouco mais de 90 famílias.&nbsp;</p>



<p>São seis, sete, até nove meses longe de casa. Entre os homens, praticamente, só permanecem em Teixeira as crianças, os aposentados e quem tem a sorte de possuir um emprego fixo em algum outro lugar do município. As mulheres que são casadas com cortadores de cana também permanecem na comunidade e trabalham sozinhas, cuidando dos filhos, da casa, dos animais e da roça.&nbsp;</p>



<p>São os casos das agricultoras Josefa Eva, de 38 anos, Josielma dos Santos (conhecida como Nelma), 32, e Maria das Graças (conhecida como Pretinha), de 44. Casadas com agricultores que trabalham com o corte de cana e, de segunda a sexta, também precisam se dedicar a uma jornada de trabalho intensa e pesada.&nbsp;</p>



<p>Josefa Eva é agricultora desde criança, sempre trabalhou plantando e colhendo. Quando casou com Josias Manoel, 41, há mais de 20 anos, além de continuar trabalhando na roça, passou a ser responsável por cuidar das três filhas do casal, dos animais que pertencem a eles e da casa. Josias começou a trabalhar cortando cana no final da década de 90 e, de lá para cá, só passou um ano inteiro em casa. O engenho para onde ele costuma viajar fica localizado no estado de Alagoas, no município de Coruripe, a pouco mais de 80 quilômetros de Maceió.</p>



<p>“Vou pra roça de carro de boi, de moto. Antes, ia a pé. O período que ele [Josias] viaja é difícil porque a gente faz tudo sozinha, né? É bastante coisa pra dar conta, é bem complicado. Mas, ele precisa se deslocar para trabalhar. Aqui não tem emprego fixo pra ninguém”, conta Josefa.</p>



<p>Este ano, Josias Manoel deve viajar para passar pelo menos 9 meses longe de casa. Pela segunda vez, em quase duas décadas de casamento, Josefa deve acompanhá-lo. Marta, a filha mais nova, de 10 anos, vai viajar com o casal. As outras duas, Jamile e &nbsp;Josiérica, de 13 e 17, ficarão com as tias, irmãs de Josefa. Os animais também ficarão sob responsabilidade de familiares da agricultora.&nbsp;</p>



<p>Bem perto da casa de Josefa, mora a agricultora Nelma. Ela é casada com Aelson João, 35, há mais de 12 anos. Ele também sempre trabalhou com o corte de cana e deve viajar para Pindorama (outro município de Alagoas) em setembro deste ano e ficar por lá por pelo menos seis meses.&nbsp;</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/06/Teixeira3-1024x659.jpg" alt="Mulher negra, com semblante sério e cabelos curtos, usando blusa rosa, olha fixamente para a câmera. À direita, um menino negro, de cabelos bem curtos e óculos de grau, usa camisa polo verde. Ambos estão sentados num sofá cinza escuro estampado, com uma parede rosa por trás." class="" loading="lazy" width="652">
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	                                        <p class="m-0">Quando o marido está fora, jornada de Nelma começa de madrugada. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>&nbsp;O casal tem dois filhos: Adryan e Andrey, de 11 e cinco anos. Nelma nunca chegou a acompanhar o marido. Durante todo o tempo de casada, permaneceu vivendo e trabalhando no quilombo Teixeira. O seu filho mais novo é autista, foi diagnosticado aos três anos. A agricultora conta que, dentro da sua rotina, precisa se dedicar principalmente ao acompanhamento médico do filho. “Eu nunca fui com ele [Aelson] porque tem muita coisa aqui pra fazer. E o meu filho mais novo é autista. Além de todo o trabalho que tenho na roça, com os bichos e em casa, preciso cuidar dele. Do tratamento dele. Não posso viajar e deixar ele aqui &#8211; coisa que nunca nem pensei”.</p>



<p>Todos os dias, Nelma acorda às cinco da manhã e enfrenta uma jornada bastante cansativa. “Levanto cinco horas. Faço café e solto as cabras no mato. Depois, levo os meninos pra escola e vou pra roça. Mais tarde, volto em casa pra fazer o almoço e buscar eles. Arrumo a casa e, quando precisa, volto pra roça de novo. Quando chego em casa de vez, é hora de recolher as cabras e me preparar pra dormir com os meninos. É uma correria”.</p>



<p>Esse ano a chuva chegou tarde no quilombo Teixeira. A água veio muito tempo depois do plantio. Quem conseguiu colher, colheu pouco. Numa quantidade insuficiente para o consumo até a próxima safra.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;Josefa e Nelma ainda conseguiram tirar da terra um pouco de milho e feijão, mas a agricultora Pretinha não teve a mesma sorte. A sua roça não deu nada esse ano. Em março, antes de viajar para cortar cana em um engenho de São Francisco do Itabapoana (interior do Rio de Janeiro), o seu marido, Carlos Rosa, 47, ainda preparou a terra para o plantio, mas o sol queimou o que estava brotando.&nbsp;</p>



<p>Pretinha e Carlos estão casados há 20 anos e têm dois filhos e uma neta. Josielson, 25, viajou para o Rio de Janeiro para trabalhar com o pai. Com Pretinha, ficaram Jaqueline, 23, e a sua filha Maria Liz, de 3 anos. Como outras agricultoras, Pretinha também precisa cuidar da terra, dos animais, da casa e da neta, quando a sua filha precisa se ausentar.&nbsp;</p>



<p>No quilombo Teixeira, a rotina das mulheres cujos maridos precisam se deslocar para trabalhar com o corte de cana em outras cidades e estados é, praticamente, a mesma. Nitidamente, há um grande acúmulo de funções na vida e no trabalho dessas mulheres. “Por aqui, o agricultor vive no meio do mundo. As mulheres ficam em casa, cuidando de tudo. É difícil quando um filho adoece e a gente tem que cuidar sozinha, além de dar conta de todas as outras coisas. No inverno, nós temos que plantar, capinar e colher. Eles deixam só a terra arada e o resto é a gente quem faz. É muito difícil”, conta Pretinha.&nbsp;</p>



<p>Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2020, as mulheres que trabalham dedicam cerca de 18,5 horas todos os dias para realizar tarefas domésticas e cuidar de pessoas da família, especialmente dos filhos. Já com relação aos homens empregados, a pesquisa mostra uma dedicação de 10,4 horas para essas atividades. A diferença é de mais de oito horas.</p>



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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2022/06/Teixeira4-1-1024x682.jpg" alt="Close de homem negro, aparentando mais de 40 anos, fotografado em ambiente de pouca luz e parede rosa. Ele usa camisa cinza e olha fixamente para a câmera. Ele está com semblante sério e sua esclera (o branco dos olhos) é amarelada." class="" loading="lazy" width="637">
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	                                        <p class="m-0">Josias Manoel deve ficar pelo menos nove meses longe de Teixeira. Crédito: Géssica Amorim/MZ Conteúdo</p>
	                
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		<title>Crianças quilombolas correm risco de ficar fora da fila de prioridade da vacina contra covid-19</title>
		<link>https://marcozero.org/quilombolas-temem-que-filhos-e-filhas-fiquem-de-fora-das-prioridades-da-vacina-infantil-contra-covid-19/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Raíssa Ebrahim]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Jan 2022 00:47:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[quilombolas]]></category>
		<category><![CDATA[quilombolas Pernambuco]]></category>
		<category><![CDATA[vacina covid-19]]></category>
		<category><![CDATA[vacina infantil]]></category>
		<category><![CDATA[vacinação de crianças]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com a chegada da segunda remessa de vacinas infantis contra a covid-19, com mais 60 mil doses, nesta terça-feira (18), Pernambuco autorizou a imunização de todas as crianças, de 5 a 11 anos, com comorbidades, com deficiência e também aquelas pertencentes às Comunidades Tradicionais Quilombolas. Mas há um problema, segundo a Coordenação Nacional de Articulação [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Com a chegada da segunda remessa de vacinas infantis contra a covid-19, com mais 60 mil doses, nesta terça-feira (18), Pernambuco autorizou a imunização de todas as crianças, de 5 a 11 anos, com comorbidades, com deficiência e também aquelas pertencentes às <a href="https://marcozero.org/quilombolas-temem-impacto-do-coronavirus-e-sofrem-com-descaso/">Comunidades Tr</a><a href="https://marcozero.org/quilombolas-temem-impacto-do-coronavirus-e-sofrem-com-descaso/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">adicionais Quilombolas</a>. Mas há um problema, segundo a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).</p>



<p>A Conaq aponta que os dados estaduais, a que a <strong>Marco Zero</strong> teve acesso através da Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE), não condizem com a realidade e que há muito mais meninos e meninas quilombolas do que mostra o levantamento. O temor é que algumas crianças demorem mais que outras a serem vacinadas, dentro do plano de priorização pactuado entre estado e municípios e que segue a diretriz do governo federal. De acordo com a SES-PE, os dados enviados já são de 2022.</p>



<p>No entanto, a Conaq em Pernambuco está fazendo por conta própria um levantamento do número de crianças em cada comunidade do estado, coletando informações junto aos agentes de saúde e às escolas. Ainda com dados preliminares, a coordenação já aponta que há discrepâncias preocupantes.</p>



<p>Por exemplo, em Custódia, o levantamento da secretaria mostra que há 387 crianças quilombolas, enquanto a Conaq diz que há mais de mil. Em Salgueiro, enquanto a SES computa 313 meninos e meninas quilombolas, a coordenação contabiliza 563, sem ter ainda finalizado o levantamento. Outro exemplo é Mirandiba: são 134 crianças, de acordo com o estado, e 144, de acordo com o levantamento dos próprios quilombolas, ainda em andamento. Os três municípios ficam no sertão.</p>



<p>Pernambuco não é o único estado em que pode haver problemas quanto à vacinação de crianças quilombolas dentro dos grupos prioritários. Um levantamento nacional da Conaq, que deve ser finalizado e publicado na próxima semana, mostra que, até agora, diante das doses que estão chegando a conta-gotas, poucos estados incluíram meninos e meninas das comunidades, apesar da diretriz do Ministério da Saúde.</p>



<p>Segundo o presidente da Conaq, Antônio Crioulo, o Governo de Pernambuco havia informado, até então, após ser procurado pela entidade, que não tinha informações sobre o quantitativo de crianças quilombolas. “O que nos deixou mais preocupados ainda, pois é a prova de que o governo estadual não realizou nenhuma política pública que atendeu à população quilombola”, lamentou. Antônio ficou sabendo da tabela da SES-PE pela reportagem.</p>



<p>Em nota, a secretaria informou que “as estimativas populacionais dos públicos da campanha (de vacinação) podem ser revisadas, havendo comprovação/necessidade. Esse trabalho vem sendo realizado desde o início da campanha, sem prejuízo à vacinação dos pernambucanos”, assegurou.</p>



<p>“Desde o início da pandemia que a gente vem sofrendo com esse processo. Quem fez o levantamento dos quilombolas infectados fomos nós, sem apoio, e começamos a fazer boletins”, acrescenta Antônio. De acordo com ele, a população só conseguiu realizar a própria contagem até novembro de 2020, quando já havia mais de 30 quilombolas mortos em Pernambuco em decorrência da covid-19.</p>



<p>“Não é só o Ministério da Saúde que está fragilizado. É toda a estrutura de saúde, não há planejamento de ações para o povo, assim como nas questões ambientais e raciais. Foram colocadas pessoas estratégicas (no governo e nos órgãos federais) para desestruturar direitos”, critica Antônio.</p>



<p>A população quilombola conseguiu ser incluída nos grupos prioritários pelo Governo Federal somente após ir ao Supremo Tribunal Federal (STF). A determinação foi publicada em fevereiro do ano passado. A decisão teve origem numa Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) aberta pela Conaq e <a href="https://marcozero.org/psb-pede-ao-stf-a-inclusao-de-quilombolas-no-plano-nacional-de-vacinacao-mas-gestao-os-deixa-de-fora-em-pernambuco/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">cinco partidos políticos</a> (Rede, PSB, Psol, PT e PCdoB).</p>



<h3 class="wp-block-heading">Crianças de 11 anos serão as primeiras, após prioridades</h3>



<p>Além da autorização para vacinar crianças com comorbidades, com deficiência e também quilombolas, na terça-feira também ficou definida, por orientação do Comitê Técnico Estadual para Acompanhamento da Vacinação e pactuação entre o estado e os gestores municipais, a autorização para iniciar a imunização das crianças por faixa etária, de forma decrescente. Isto é, começando com as de 11 anos, a partir da disponibilidade em cada município das doses da Pfizer/Comirnaty, indicada para o uso pediátrico.</p>



<p>“Em nosso Estado, contamos com uma estimativa de 178.405 na faixa etária dos 11 anos, e neste momento, é primordial a absorção dos grupos elegíveis visando o início de novos esquemas vacinais e a ampliação da oferta da proteção para novos grupos etários. Para a próxima semana, esperamos receber novo quantitativo de doses, o que possibilitará o incremento do grupo formado por crianças com 11 anos de idade”, afirmou a superintendente de Imunizações, Ana Catarina de Melo, em comunicado à imprensa.</p>



<p>Atualizado em 19/1/22, às 11h15</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/inseguranca-alimentar-piora-entre-quilombolas/" class="titulo">Insegurança alimentar piora entre quilombolas</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/saude/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Saúde</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


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		<title>Marisqueiras do litoral norte fazem campanha para garantir sustento na pandemia</title>
		<link>https://marcozero.org/marisqueiras-do-litoral-norte-fazem-campanha-para-garantir-sustento-na-pandemia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marco Zero Conteúdo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 May 2021 18:52:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por Victor Lacerda, da Alma Preta O desemprego e alta nos preços dos alimentos representam preocupações diários para a população de baixa renda do país. Uma realidade que também marca o cotidiano de comunidades tradicionais como o Quilombo de Cuieiras, no litoral norte de Pernambuco. Ao todo, 25 famílias que vivem da mariscagem e da [&#8230;]</p>
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<p><strong>por Victor Lacerda</strong>,<strong> da <a href="https://almapreta.com/sessao/cotidiano/marisqueiras-do-litoral-norte-de-pe-fazem-campanha-para-melhorias-no-sustento-durante-a-pandemia">Alma Preta</a></strong></p>



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<p>O desemprego e alta nos preços dos alimentos representam preocupações diários para a população de baixa renda do país. Uma realidade que também marca o cotidiano de comunidades tradicionais como o Quilombo de Cuieiras, no litoral norte de Pernambuco. Ao todo, 25 famílias que vivem da mariscagem e da pesca há 303 anos, hoje, lutam para manterem as formas o sustento e buscam melhorias nas condições de trabalho junto ao Rio Timbó, fonte de alimento. Para contribuir com a sustentabilidade da comunidade, o Coletivo Casa Iyá Marisqueira lançou uma campanha on-line de arrecadação como forma de ajudar a população a manter sua soberania alimentar.&nbsp;</p>



<p>Intitulada &#8220;O Rio Timbó é das Ìyás Marisqueiras!&#8221;, a campanha &#8211; que segue até o dia 25 deste mês &#8211; tem como meta arrecadaro o valor de R$10.000, mas, até o momento, só arrecadou 882 reais. Para a coordenadora pedagógica do coletivo responsável, Magu, as coordenadoras da área da maré, Elizama e Marinalva, as coordenadores da área da agricultura, Michele, Iracema e Codó, e a secretária geral, Roberta, é de suma importância a arrecadação para a continuidade da auto suficiência quilombola no âmbito alimentar, cultural, educacional e econômico, por isso o apelo.</p>



<p>“Nossa vida enquanto marisqueiras e pescadoras têm sido desvalorizada há décadas e afetada pelo modo de vida ocidental que se concentra nas cidades, engolindo nossas tradições e destruindo as possibilidades de auto sustentação das comunidades. E isso só se agravou com a crise da pandemia do coronavírus” aponta o coletivo em texto vinculado à campanha.&nbsp;</p>



<p>Magu explica o porquê da autonomia ser um dos pilares centrais da vivência matriarcal dentro do quilombo. “Todo o esforço é para nos organizarmos melhor e termos autonomia. Apesar de estarmos precisando de cesta básica, ainda existem alguns parceiros que fazem doações para gente. Já a campanha é voltada para instrumentalizar a gente. Uma possibilidade de desenvolvermos nossa independência, algo que prezamos desde sempre, como produzirmos o nosso próprio alimento. Nossos antigos conseguiam abastecer a nossa comunidade com o que vinha daqui mesmo e o dinheiro gerava aqui dentro. É isso que nós queremos, que é retomar essa condição que tínhamos”, pontua.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Todos os pilares da comunidade</h2>



<p>Outros valores como a irmandade entre as famílias, valorização dos princípios e saberes ancestrais do território, o respeito aos mais velhos, a centralização da mulher na família e a preservação do meio em que se vive também estão ativamente presentes em Cueiras. Todos pilares auxiliam, também,&nbsp; na luta a favor da preservação do Rio Timbó. Desde 2002, a área foi reconhecida como de proteção, mas sofre constantes ameaças pela intervenção de grandes empresas que jogam dejetos no estuário como forma de impedir o acesso da população tradicional aos locais de pesca e mariscagem.</p>



<p>De acordo com Magu, a falta de meio de locomoção da comunidade até o centro de Igarassu fortalece ainda mais o desejo de independência.&nbsp; Ainda segundo a coordenadora pedagógica, tendo em vista as condições atuais, a população local tem de se adequar a um ritmo que não leva em consideração as necessidades emergenciais, como acesso a compra de alimentos. “Aqui, no quilombo, nós não contamos com um supermercado ou mercadinho. Toda a feira, quando não há o que precisamos aqui dentro, precisa ser feita na cidade, como a gente chama. O problema é que fica a dez quilômetros daqui e a gente nunca teve transporte até lá. Só no meio do semestre de 2019 que conseguimos um ônibus para a comunidade, mas ele só está disponível de segunda à sexta para gente em três horários do dia, às sete, meio-dia e cinco horas da tarde, limitando as nossas necessidades”, denuncia.</p>



<p>Entre tantas possibilidades com o apoio financeiro, a campanha também trará oportunidade da construção de uma sede de taipa, exemplo de bioconstrução, para a organização quilombola. Para o Coletivo Casa Ìyá Marisqueira, o teto possibilitará a&nbsp; realização, de forma mais consistente, as produções de beneficiamento dos catados e pescados, e a venda desses produtos, para além de viabilizar reuniões,&nbsp; cursos e oficinas internas, entre outras atividades, sempre aderindo ao protocolo de prevenção a covid-19.</p>



<p>Para maiores informações e saber quanto e como ajudar as Iyás Marisqueiras do litoral norte de Pernambuco, basta acessar o<a href="https://www.vakinha.com.br/vaquinha/o-rio-timbo-das-iyas-marisqueiras" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> link</a>. Na página oficial do coletivo no Instagram, conteúdos sobre a vivência local seguem sendo publicados. Para acompanhar, acesse <a href="https://www.instagram.com/iyamarisqueira/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui</a>.</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Seja mais que um leitor da Marco Zero</strong>…</p><cite>A Marco Zero acredita que compartilhar informações de qualidade tem o poder de transformar a vida das pessoas. Por isso, produzimos um conteúdo jornalístico de interesse público e comprometido com a defesa dos direitos humanos. Tudo feito de forma independente.<br><br>E para manter a nossa independência editorial, não recebemos dinheiro de governos, empresas públicas ou privadas. Por isso, dependemos de você, leitor e leitora, para continuar o nosso trabalho e torná-lo sustentável.<br><br>Ao contribuir com a Marco Zero, além de nos ajudar a produzir mais reportagens de qualidade, você estará possibilitando que outras pessoas tenham acesso gratuito ao nosso conteúdo.<br><br>Em uma época de tanta desinformação e ataques aos direitos humanos, nunca foi tão importante apoiar o jornalismo independente.<br><br>É hora de assinar a Marco Zero <a target="_blank" href="https://marcozero.org/assine/" rel="noreferrer noopener">https://marcozero.org/assine/</a></cite></blockquote>
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		<title>Vereadores quilombolas ocuparão sete câmaras municipais em Pernambuco</title>
		<link>https://marcozero.org/vereadores-quilombolas-ocuparao-sete-camaras-municipais-em-pernambuco/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Kleber Nunes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Nov 2020 18:35:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições 2020]]></category>
		<category><![CDATA[quilombolas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Impulsionado por uma luta de 116 anos, o professor José Moreira de Santana estreou nas eleições 2020 e conquistou uma vaga na câmara municipal de Caetés, no Agreste. O feito inédito para o Quilombo Atoleiro, ter um filho da terra vereador, é também fato marcante para Pernambuco, que é o terceiro estado com o maior [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Impulsionado por uma luta de 116 anos, o professor José Moreira de Santana estreou nas eleições 2020 e conquistou uma vaga na câmara municipal de Caetés, no Agreste. O feito inédito para o Quilombo Atoleiro, ter um filho da terra vereador, é também fato marcante para Pernambuco, que é o terceiro estado com o maior número de quilombolas eleitos no Nordeste &#8211; sete ao todo.</p>



<p>Assim como Moreira do Atoleiro (PP), nome de urna de José Santana, outros três quilombolas receberão o diploma de parlamentar em 2021 pela primeira vez. Outros três ganharam nas urnas o reconhecimento dos eleitores e foram reeleitos para mais quatro anos no cargo legislativo.</p>



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<p>Três dos sete quilombolas vereadores e vereadoras no estado exercerão a próxima legislatura em cidades do Agreste &#8211; Caetés, Brejão e Lagoa dos Gatos. A maioria, no entanto, foi eleita para câmaras municipais sertanejas das cidades de Orocó, Itacuruba, Custódia e Betânia. Nesta última, a mais votada foi Espedita Quilombola, vereadora reeleita.&nbsp;</p>



<p>“Agora é estudar todo regramento da câmara de vereadores para nos apropriarmos do mandato. Assim como a campanha foi participativa, a atuação como vereador também tem que ser. Estarei sempre na rua ouvindo a população e levando as demandas para o plenário da casa”, afirma Moreira do Atoleiro.</p>



<p>Assim como <a rel="noreferrer noopener" href="https://marcozero.org/candidaturas-de-quilombolas-fortalecem-a-luta-dos-povos-tradicionais-em-pernambuco/" target="_blank">a <strong>Marco Zero</strong> mostrou</a> às vésperas do primeiro turno das eleições, as candidaturas de quilombolas foram para a disputa com uma pauta unificada em torno da luta pelo reconhecimento da terra e mais investimentos em educação, cultura e saúde. De acordo com Moreira do Atoleiro, as bandeiras ajudaram a obter os votos necessários para a vitória.</p>



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	                                        <p class="m-0">José Moreira de Santana, Moreira do Atoleiro (de máscara), eleito vereador em Caetés, no Agreste de Pernambuco. Crédito: Divulgação</p>
	                
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<p>“Imagine a dificuldade para um negro, pobre e quilombola entrar em uma disputa eleitoral que, para a elite, só brancos e ricos podem participar e ganhar. A gente tem uma visão diferente da política e demos a cara a tapa sem compra de voto ou troca de favores. A gente vai para lá [câmara municipal] para implantar políticas públicas e fiscalizar a prefeitura”, diz Moreira do Atoleiro.</p>



<p>Para Jacielma da Silva Santos ou Professora Jacielma (PT), como é mais conhecida, além da agenda comum, a trajetória dos quilombolas dentro de cada uma de suas comunidades também foi capital político decisivo nas eleições. Depois de 15 anos trabalhando no levantamento histórico do Quilombo Águas do Velho Chico, em Orocó, e em seguida no reconhecimento do território e na atração de políticas públicas, a educadora chega à câmara municipal da cidade sertaneja.</p>



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	                                        <p class="m-0">Jacielma (de máscara), em roda de conversa com as mulheres durante sua campanha por uma vaga na Câmara Municipal de Orocó.</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>“É uma candidatura coletiva desde que nasceu e será assim na legislatura. Conquistamos mais esse espaço de poder e não vamos ficar sentados, avançamos muito a partir da nossa organização como comunidade quilombola e temos que avançar ainda mais”, conta, emocionada, a futura vereadora.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Resultado aquém do esperado</h3>



<p>Em todo o Brasil, cerca de 500 homens e mulheres quilombolas se candidataram a mandatos nos poderes executivos e legislativos municipais. Segundo a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), 56 foram eleitos, sendo um prefeito e um vice-prefeito.</p>



<p>Pernambuco teve quase o dobro de concorrentes em relação ao pleito de 2016, quando foram eleitos 12 vereadores. A expectativa para a disputa eleitoral deste ano era fazer 17 parlamentares municipais.</p>



<p>“A questão da estrutura financeira foi decisiva para esse resultado [aquém do esperado]. Chegamos a acompanhar visitas de diversos candidatos e as pessoas demonstravam estar fechadas com os quilombolas, mas, do sábado para o domingo, os vereadores com mandato ou maior aquisição financeira ofereceram dinheiro e emprego em troca do voto. Infelizmente [os eleitores] cederam”, diz o coordenador executivo nacional da Conaq, Antônio Crioulo.</p>



<h3 class="wp-block-heading">De olho em 2022</h3>



<p>Olhando o Brasil, Crioulo afirma que a estratégia de fortalecimento do povo quilombola nos espaços de poder e decisão não foi afetada. Segundo ele, a Conaq vai criar um grupo de trabalho com os representantes eleitos para construir planos de atuação com temas alinhados com a pauta nacional quilombola com vistas às eleições de 2022.&nbsp;</p>



<p>“Vamos construir com eles as pautas referentes à educação, à saúde, acesso ao território e ao fortalecimento da identidade quilombola. Mas também lembrando de sub-eixos importantes, como a questão do acesso ao emprego e à renda, à sustentabilidade e à&nbsp;agricultura. Todas essas serão pautas que nós vamos construir com esse povo quilombola eleito”, explica Crioulo.</p>



<p>Para o coordenador, o pleito deste ano foi apenas um termômetro para a próxima disputa eleitoral.  “Nosso objetivo quando apoiamos essas candidaturas foi possibilitar uma estrutura que dialogasse com a pauta nacional quilombola. E também pensando no futuro, para garantir que tenhamos representantes em nível estadual fortalecendo a pauta do movimento”.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>Esta reportagem é uma produção do Programa de Diversidade nas Redações, realizado pela Énois &#8211; Laboratório de Jornalismo Representativo, com o apoio do Google News Initiative&#8221;.</em></p></blockquote>
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