Ilustração: Thiko Duarte

Marco Zero integrou monitoramento da violência contra a mulher durante a pandemia em todo o Brasil

Ainda serão necessários pelo menos alguns anos para entender o mundo em 2020 e os “efeitos colaterais” da pandemia da Covid-19, entre eles os fenômenos sociais neste período de isolamento. O comportamento do fenômeno histórico da violência de gênero é um deles mas, enquanto não é possível olhar para o problema com o distanciamento temporal que um bom estudo sociológico ou antropológico necessita, é possível pelo menos contar vítimas e – mais importante ainda – contar histórias. 

A Marco Zero Conteúdo se juntou a outras seis iniciativas de jornalismo independente do Brasil para participar do projeto Um vírus e duas guerras, monitoramento dos números da violência contra a mulher em todo o Brasil. Trabalhamos com Amazônia Real, Agência Eco Nordeste, #Colabora, Portal Catarinas, AzMina e Ponte Jornalismo. Os dados revelam que uma mulher foi morta a cada nove horas na pandemia. Um total de 497 perderam a vida nas mãos de agressores com quem foram obrigadas a conviver dentro de casa.

Neste levantamento, ficamos responsáveis por coletar os dados de feminicídios em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas. As colegas da agência Eco Nordeste completaram o monitoramento nos demais estados do Nordeste, e jornalistas dos demais veículos integrantes do projeto se encarregaram do restante do país.

Neste processo, ouvimos cerca de 20 fontes que atuam com mulheres que sofrem violência na região. Contamos histórias como a de Rosa, que depois de anos de violência e sofrimento, encontrou no isolamento social a gota d’ água para romper o ciclo de violência e sair de casa com a ajuda das profissionais do Instituto Maria da Penha, no Recife. Em plena pandemia, a repórter Joana Suarez também acompanhou uma vítima de violência por cinco horas em uma delegacia especializada e registrou as dificuldades de encontrar acolhimento neste momento de extrema fragilidade. Mas também encontrou em projetos sociais e coletivos feministas a rede de apoio que ampliou os esforços e salvou vidas com ações que foram desde garantir a segurança alimentar das mulheres que deixaram suas casas até grupos de Whatsapp e aplicativos através dos quais as vítimas puderam se conectar e pedir ajuda. 

Na busca pelos dados, encontramos dificuldade em estados como Paraíba e Alagoas para conseguir junto às secretarias de segurança pública números primários sobre a violência contra a mulher, como feminicídios e homicídios gerais de mulheres. Em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, identificamos que as únicas informações disponíveis sobre o perfil das vítimas são raça e idade, enquanto projetos da sociedade civil, como o Justiceiras, faz um levantamento detalhado do seu público de mulheres atendidas, algo que os órgãos estaduais não deram conta.

Em Pernambuco, as ocorrências de violência doméstica reduziram 11% nos meses de maio a agosto, comparado com esse período de 2019. Parece uma boa notícia, mas mais de 12 mil boletins foram registrados nas delegacias do Estado em meio a uma quarentena rigorosa, com maior número de casos em agosto último. E, nesse cenário, os feminicídios caíram de 19 para 14, nesses meses. 

No artigo Pandemia, violência contra as mulheres e a ameaça que vem dos números, a socióloga Wânia Pasinato pondera que “a violência de gênero se adapta muito rapidamente às mais diversas configurações sociais a que vão sendo moldadas. E isso nos preocupa tanto quanto o uso precipitado dos números e a falta de cuidado com seu manuseio”.

Para a estudiosa do tema há décadas, expor números pode ajudar a manter a violência em pauta e transmitir para as mulheres a mensagem de que não estão sozinhas. “Mas o mais importante é usar esses dados para avaliar se os caminhos que estão sendo construídos são os mais adequados”.

É isso que esperamos com este trabalho colaborativo, que pode ser conferido abaixo.

* Colaborou Joana Suarez

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