Pelas cofundadoras do Meu Voto Será Feminsta (Bia Paes, Carol Vergolino, Daiane Dultra e Juliana Romão)

Neste domingo encerramos o ciclo das eleições municipais. Uma eleição complexa e peculiar por acontecer durante uma pandemia mundial e sob novos regramentos legais, como a proibição de coligação partidária nos cargos proporcionais e a estreia da distribuição do Fundo Eleitoral contabilizando além do gênero a proporcionalidade racial das pessoas em disputa.

Ante tantos desafios inéditos, foi visível e merece destaque a forma criativa e inovadora com que as candidaturas atuaram para superar as encruzilhadas que o momento impôs.

Diferentemente dos outros anos eleitorais, houve um maior engajamento nas redes sociais e a utilização de instrumentos digitais que contribuísse para a aproximação entre as candidaturas e o eleitorado. Igualmente, nunca se promoveu tanta formação de candidaturas, preparando-as com conteúdos teóricos e práticos sobre a ocupação da política institucional. Várias iniciativas investiram em sistematizar os aprendizados de eleições anteriores e compartilhar com as novas candidaturas estreantes. Todas ganharam. As veteranas, oxigenaram seus métodos, as iniciantes, não partiram zeradas e reduziram a quantidade natural de erros de quem está começando. Uma soma de forças.

O número de candidaturas coletivas no Brasil passou de 3 para 257. Apesar de não reconhecido pelo TSE, o formato se consolidou como uma inovação política do campo progressista de esquerda, e que nesse ano se multiplicou também com candidaturas na direita. Estima-se que pelo menos 17 mandatos coletivos foram eleitos nessas eleições. Cinco deles estavam inscritos em nossa plataforma.

Pesquisa da Update e do Datafolha sobre o comportamento do eleitorado nas eleições de 2020 evidenciou uma maior disposição das eleitoras e dos eleitores para votar em mulheres e pessoas negras, sub-representados na política. E o movimento caminha em sinergia com o aumento de candidaturas desses segmentos. Esse ano foi marcado pela eleição em que o número de autodeclarados pardos e pretos superou, pela primeira vez, as candidaturas de pessoas brancas. Em nosso mosaico, a tendência se confirmou, 57% das candidaturas inscritas foram de mulheres negras. Sobre a participação das mulheres, o aumento de candidatas consolidou o percentual de 33,1% do total, segundo o TSE.

E os feitos inéditos não param por aí. A eleição de 2020 realmente foi histórica. Nunca conseguimos eleger tantas feministas. A plataforma Meu Voto Será Feminista elegeu 32 das 288 candidaturas que compuseram o mosaico. Na pauta LGBTI, de acordo com a ANTRA, houve um aumento de 212% de pessoas trans no Brasil. Em 2016 eram 8 eleitas e eleitos, hoje são 25. Duda Salabert foi a mulher eleita mais votada da história em Belo Horizonte (MG), além de serem as mais votadas de Aracaju (SE) com Linda Brasil, Niterói (RJ) com Benny Briolli e em São Paulo (SP) a Érika Hilton. E não apenas por serem Trans. O corpo político Trans é o mesmo corpo político competente para criar leis, fiscalizar a gestão da cidade. Duda Salabert, professora de história, numa entrevista depois de saber da vitória nas urnas, disse que a cidade optou por eleger uma professora, pois entende que a educação é o caminho para transformar o mundo e as pessoas. Essa é a maior das inclusões.

Os resultados são muito simbólicos na jornada de enfrentamento à máquina bolsonarista. As candidaturas progressistas estiveram em primeiro lugar em diversos municípios. Chegamos como as mais votadas em Recife (PE) com Dani Portela, Vivi Reis em Belém (PA), Iza Vicente em Macaé (RJ), Maiara Felício em Nova Friburgo (RJ), Dandara Tonantzin em Uberlândia, todas mulheres negras. Se o aumento numérico não foi expressivo, a qualificação e a chegada inédita em muitas cidades onde nunca uma mulher negra havia sido eleita para a câmara municipal são estrondosas mudanças qualitativas, imagéticas, políticas.

É sábio celebrar os avanços!

A mudança está em curso, sempre em tensão. Partidos de direita também cresceram e olhando para frente vemos alguns desafios como a presença do bolsonarismo cada vez mais nas cidades menores, a violência política contra as mulheres, a judicialização contra candidaturas coletivas, a ocupação do executivo e a relação com os partidos.

Quando a campanha Meu Voto Será Feminista foi criada em 2017, tínhamos como diagnóstico a pouca adesão da sociedade ao voto feminista e a falta de apoio as candidaturas. O sentimento é que estamos na rota certa, o engajamento do eleitorado tanto para o voto feminista quanto para apoiar as candidaturas aumentou significativamente, as mulheres eleitas demonstram competência e eficiência na liderança e estamos avançando na incidência política por mais legislações e políticas que nos conduza a paridade. A pauta da reforma do sistema político nunca ficou tão presente e urgente. Juntas, as candidaturas da nossa plataforma conquistaram 2.124.861 votos feministas.

Essas eleições de 2020 evidenciaram que não estamos estagnadas, estamos em movimento, avançando, trilhando pequenas revoluções. Cada mulher feminista, cada pessoa negra, LGBTI, quilombola, indigena, com deficiência, que se candidatou nessas eleições, ainda que não eleitas, fazem parte dessa revolução. Que em percentuais parecem avanços tímidos, mas para a luta, para a defesa da democracia, é um passo gigante.

Nosso sorriso festeja a consistência dos avanços, nossas cabeças sonham com dias melhores e nossos pés estão firmes, para que cada passo seja sempre em frente. A segunda fase do nosso círculo-mandala, que não se encerra, é justamente acolher e manter pulsantes os desejos e as potências políticas das mulheres que não se elegeram mas que, sim, nos representam; dar continuidade ao debate sobre o voto permanente, como política que se realiza todos os dias, em tudo o que fazemos; fortalecer as candidaturas feministas eleitas; ampliar as frentes de luta com os TREs, setoriais de mulheres dos partidos, movimentos sociais, academia e as cidadãs não organizadas. São incidências que nos levarão novamente ao próximo ciclo eleitoral com a estruturação de candidaturas feministas ainda mais diversas, numerosas, competitivas e vitoriosas, tanto nas urnas quanto politicamente.

2021 já prenuncia melhoras, e estaremos juntas para celebrar as transformações e ecoar a potência feminista na ocupação do poder em 21 casas legislativas e em duas prefeituras. Isso para falar apenas das que tivemos o privilégio de acompanhar pelo Meu Voto Será Feminista. Votar feminista é um caminho sem volta e teremos o prazer de colocar abaixo todas, uma a uma, as barreiras que nos mantiveram distante do poder por tanto tempo.

E a vitória de uma é a vitória de todas nós!

* A plataforma Meu voto será feminista divulga e dá suporte para candidaturas de mulheres feministas