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Agroecologia cria raízes em Itapipoca

Entre a resistência das famílias agricultoras e o avanço das grandes empresas agrícolas, município cearense é um território disputado por dois modelos diferentes de produção

Crédito: Inês Campelo/Marco Zero

Todas as quartas-feiras, ainda de madrugada, grupos de agricultores deixam suas propriedades espalhadas pela extensa zona rural de Itapipoca (CE) em direção à Praça Manoel Alves de Freitas, no centro da cidade. Antes mesmo do nascer do sol, montam as barracas de toldo verde que dão forma à Feira Agroecológica e Solidária, espaço que há duas décadas ajuda famílias agricultoras a escoar sua produção e garantir uma fonte direta de renda.

Mas a feira representa mais do que uma oportunidade de comercialização. Ela é o resultado de anos de organização comunitária, políticas públicas voltadas para o campo e do uso de tecnologias de convivência com o Semiárido. Por trás de cada produto exposto nas barracas estão histórias que ajudam a compreender como redes agroecológicas enfrentam o avanço da monocultura do coco, dos grandes empreendimentos turísticos e da expansão de projetos de energia eólica sobre seus territórios.

No dia em que a Marco Zero visitou a feira, 17 famílias participavam da atividade. São os próprios agricultores que organizam o funcionamento do espaço por meio de uma associação, contando com o apoio do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra), organização que atua no fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia no Ceará. A autogestão é parte importante do processo de fortalecimento coletivo da feira e da autonomia dos próprios agricultores.

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Localizado no noroeste do Ceará e conhecida como “terra dos três climas”, por integrar litoral, serra e sertão, Itapipoca ocupa uma área de 1.600,3 km² e é o 7º município cearense mais populoso. Segundo o Censo 2022, tem 131.041 habitantes, com 54.433 pessoas vivendo no campo (41,5% da população total) a maior população rural em números absolutos no estado.

Itapipoca reúne 6.629 estabelecimentos agropecuários, dos quais 82% são da agricultura familiar, evidenciando a centralidade desse segmento na economia local. O território abriga ainda povos e comunidades tradicionais, como o povo indígena Tremembé da Barra do Mundaú e comunidades quilombolas na região serrana.

Maria de Fátima Pinto da Silva, moradora da comunidade de Jenipapo Barrento, é um exemplo dessa trajetória. Ela participa da feira desde sua criação, há vinte anos. Sua aproximação com a agroecologia começou após participar de um curso de Agente Multiplicador de Agroecologia, que durou dois anos. “A gente fazia agroecologia e não sabia. Já tinha cuidado com a terra. Mas só descobri isso com o curso”.

Crédito: Inês Campelo/Marco Zero

Hoje, Maria de Fátima divide seu tempo entre a barraca onde comercializa seus produtos e as atividades de coordenação da Feira Agroecológica de Itapipoca e da Rede de Feiras Agroecológicas do Ceará. Ela lembra que, no início, a feira acontecia a cada quinze dias. Com o passar dos anos, cresceu, se estruturou e passou a funcionar semanalmente.

O acesso a políticas públicas e programas voltados para a agroecologia costuma ser a principal porta de entrada para muitos agricultores que hoje participam da feira. O casal José Arildo e Leny, moradores do distrito de Calugi, é um exemplo disso.

A mudança começou com a chegada do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC). Com maior oferta e regularidade no acesso à água, passaram a produzir hortaliças, coco e frutas. Também criam bodes e galinhas. “A cisterna mudou tudo, porque possibilitou que a gente plantasse durante o verão”, explica José Arildo.

Desde 2024, o casal participa da feira comercializando produtos cultivados no quintal, além de bolos, doces, tapiocas e café. Quando não estão na praça, vendem na própria casa ou em eventos, jogos e cavalgadas da região. A renda da família também é complementada pelo trabalho artesanal de Leny, que produz peças de crochê. “Temos que ser guerreiros. Fazer um pouquinho aqui, um pouquinho ali”, resume.

O que é e o que faz o CETRA em Itapipoca

O CETRA (Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora) é uma organização da sociedade civil criada nos anos 1980, no Ceará, com atuação voltada para a agricultura familiar, a agroecologia, os direitos humanos e a convivência com o semiárido. Em Itapipoca, o CETRA atua há mais de quatro décadas. A organização teve papel importante na formação política de comunidades rurais e na luta pela terra, contribuindo para a criação de assentamentos da reforma agrária e oferecendo assessoria jurídica em conflitos fundiários, especialmente na defesa do povo Tremembé da Barra do Mundaú.

A partir dos anos 2000, o trabalho se consolidou na promoção da agroecologia. O CETRA apoiou a criação da Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca, articulou a Rede de Agricultores/as Agroecológicos/as dos Vales do Curu e Aracatiaçu e desenvolveu ações de formação, assessoria técnica, quintais produtivos, sistemas agroflorestais e beneficiamento de alimentos. A organização também impulsionou tecnologias sociais de convivência com o semiárido, como cisternas e casas de sementes, além de fortalecer a participação de mulheres e juventudes rurais em processos de geração de renda, cultura alimentar e comunicação. Atualmente, o CETRA segue atuando na articulação de políticas públicas, na defesa dos territórios e na consolidação da agroecologia como estratégia de desenvolvimento sustentável no município

Farmácia agroecológica

Crédito: Inês Campelo/Marco Zero

Maria Dalva Nascimento tem 73 anos e mora na comunidade de Lagoa do Juá, na zona rural de Itapipoca, a cerca de 30 quilômetros da sede do município. Como a maioria dos agricultores que participam da feira, ela chega ao centro da cidade em caminhões pau-de-arara.

Conhecida como Dalvinha, mantém uma das barracas mais procuradas da Feira Agroecológica e Solidária. O espaço funciona como uma espécie de farmácia natural, onde comercializa folhas, sementes, pomadas, garrafadas e outros preparados produzidos a partir de plantas cultivadas em seu próprio quintal. “Tudo que a gente traz, a gente vende, graças a Deus”, diz.

Os produtos são resultado de conhecimentos acumulados ao longo da vida e aprofundados durante sua participação na Pastoral da Criança, onde aprendeu sobre as propriedades terapêuticas de diversas espécies medicinais. “Meus remédios são todos tirados daqui”, afirma, apontando para as plantas que cultiva em casa. Há cerca de oito anos na feira, Dalvinha diz que o trabalho vai muito além da renda complementar. “É uma terapia para mim.”

Bula popular

Malva-santa – tosse e gripe

Aranto – gastrite

Semente de moringa – diabetes

Mastruz – expectorante

Pomada de aroeira – dores musculares e inflamações

Farinha de caroço de abacate – anti-inflamatório e diurético

Lambedor de jenipapo – tosse e gripe persistente

Agrião – auxilia na digestão

Garrafada medicinal – utilizada tradicionalmente contra infecções

Óleo de coco – cuidados com a pele e os cabelos

Aprendizado e inovação

Crédito: Inês Campelo/Marco Zero

Há dez anos, Inácia Patrícia do Nascimento participa da feira, onde comercializa bolos, lanches e outros alimentos produzidos por ela mesma. Agricultora familiar, encontrou na venda direta uma forma de agregar valor à produção e ampliar a renda da família.

Um dos diferenciais de seus produtos está na forma de embalagem. Em vez de utilizar filme plástico, Inácia recorre às folhas de bananeira. “Além de reduzir os custos, contribui para o meio ambiente e ainda fica mais bonito”, afirma.

Toda a produção é preparada em um fogão agroecológico recebido recentemente por meio de um projeto de apoio à agricultura familiar. Segundo ela, o equipamento trouxe uma economia significativa. “O botijão de gás durava quinze dias. Hoje dura um mês.”

Além da atividade produtiva, Inácia participa do sindicato e da associação comunitária. Para ela, o fortalecimento da agricultura familiar depende da combinação entre organização social e acesso às políticas públicas.

Ao longo dos anos, conseguiu participar de diferentes programas de apoio aos agricultores. Em 2012, ingressou no Brasil Sem Miséria, atualmente denominado Fomento Mulher, e utilizou os recursos para investir na criação de galinhas. Dois anos depois, passou a integrar o projeto Florestação, por meio do qual recebeu equipamentos para a produção de cajuína.

Sua trajetória é marcada pela busca constante por novos conhecimentos. “Ninguém sabe tudo. Estamos sempre aprendendo.” Para ela, a inovação faz parte da própria experiência agrícola. “Agricultor é um inovador. Fica sempre inventando coisas.”

Antes de ingressar na feira, Inácia já produzia em sua propriedade, mas não encontrava canais de comercialização. Começou vendendo galinhas e tapioca. Com o tempo, ampliou a variedade dos produtos e passou a investir em alimentos processados, como bolos e lanches, aumentando o valor agregado da produção.

Durante a pandemia de Covid-19, adaptou-se às novas formas de venda e passou a comercializar seus produtos também pela internet. A experiência permanece até hoje. “Quem não sabia mexer no celular teve que aprender”.

Tudo integrado

Entrar na propriedade de José Oliveira da Costa, o Zezão, de 53 anos, e de Francisca Maria da Silva Oliveira, na comunidade de Lagoinha, é uma imersão na arte e na ciência de conviver com a escassez de água no Semiárido.

Em uma área de apenas quatro hectares, dos quais cerca de 40% são mantidos como reserva, praticamente tudo remete a alguma estratégia de aproveitamento dos recursos naturais ou a tecnologias sociais voltadas para a convivência com o clima da região.

A propriedade funciona segundo princípios agroecológicos e reúne uma série de iniciativas que se complementam. Há cisternas destinadas ao consumo humano e à produção agrícola, instaladas por meio do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). A família também utiliza sistemas de reaproveitamento de águas cinzas e a tecnologia Bioágua, que permite reutilizar água doméstica na irrigação.

A gestão cuidadosa da água é uma das bases que sustentam toda a produção. Durante o período chuvoso, concentrado nos primeiros meses do ano, Zezão evita utilizar a água armazenada nas cisternas. O objetivo é preservar as reservas para o período de estiagem. Com segurança hídrica, a família consegue diversificar a produção e reduzir sua vulnerabilidade às oscilações climáticas.

Com mais água e os recursos de um programa de fomento acessado há cerca de um ano, Zezão implantou uma área de hortaliças e já planeja ampliar o cultivo. Atualmente produz cheiro-verde, pimenta-de-cheiro, pimentão, tomate, feijão e plantas medicinais, além de manter um pomar com diversas espécies frutíferas.

A lógica da agroecologia aparece em cada detalhe do manejo. As folhas recolhidas na área de reserva são utilizadas para proteger o solo e conservar a umidade. Restos orgânicos ganham nova função como adubo e fertilizante. As mudanças ficaram evidentes especialmente no pomar. “As laranjeiras nunca tinham segurado os frutos”, conta Zezão. “Depois que ensinaram a colocar cinza, borra de café e casca de ovo como fertilizante, as coisas mudaram. É um NPK natural.”

Além da agricultura, a família complementa a renda com outras atividades. Zezão produz carvão vegetal, recolhe esterco para adubação nas proximidades do açude e também pesca para consumo e venda. A produção atual atende às necessidades da casa e ajuda a abastecer os três filhos, que vivem nas proximidades. “Cada um na sua casa”.

A propriedade funciona como um sistema integrado. Hortaliças, pomar, plantas medicinais, flores ornamentais, área de floresta, roçado, viveiro de mudas e criação de animais compõem subsistemas conectados entre si. Resíduos tornam-se insumos, a água é aproveitada ao máximo e cada atividade fortalece as demais.

O resultado é um modelo produtivo baseado na diversidade, na autonomia e no uso eficiente dos recursos disponíveis, uma lógica bastante diferente daquela adotada pelos sistemas agrícolas de monocultura predominantes em outras áreas do município.

Caminho inverso

A história da família também ajuda a compreender as transformações vividas pelo Semiárido nas últimas décadas. Em 2014, após anos vivendo em Fortaleza, Zezão e Francisca decidiram retornar para o campo. “Gostei demais da mudança. Não me arrependo”, afirma. “Tinha a agricultura no sangue.”

Segundo ele, o retorno só foi possível graças ao acesso à água proporcionado pelas tecnologias de convivência com o Semiárido. “Não faz mais sentido voltar para a cidade grande. Vou visitar meu filho e já fico com vontade de voltar.”

A decisão ganha ainda mais significado quando comparada à trajetória de seu pai, que deixou a região em 1978 fugindo da seca. Décadas depois, a família percorreu o caminho inverso: retornou ao campo atraída justamente pelas condições que hoje permitem produzir, gerar renda e viver no Semiárido.

Crédito: Inês Campelo/Marco Zero

Para Maria do Socorro Ferreira Lima, a Socorrinho, coordenadora do P1+2 no território e integrante do Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra), o sucesso de experiências como a da família Oliveira não se explica apenas pela instalação de equipamentos. “Os projetos chegam não apenas para construir cisternas. Chegam para formação. Os agricultores também estão inseridos nas comunidades. São lideranças”, afirma.

A atuação comunitária faz parte da rotina de Zezão. Ele participa do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e coordena uma casa de sementes, espaço coletivo dedicado à preservação, multiplicação e troca de variedades adaptadas às condições locais.

Na avaliação de Socorrinho, esse componente organizativo é tão importante quanto as tecnologias implantadas. “Quando a água chega acompanhada de formação, organização comunitária e troca de conhecimentos, ela produz muito mais do que alimentos. Produz autonomia.”

Além do coco

A experiência de Zezão e Francisca está longe de ser um caso isolado. Em maior ou menor grau, a lógica da agroecologia se espalha por diferentes comunidades rurais de Itapipoca, adaptando-se às características de cada território.

No Assentamento Maceió, no Sítio do Coqueiro, o quintal de Darliene e de sua mãe, Maria das Dores dos Santos, demonstra como pequenas áreas podem concentrar uma impressionante diversidade de produção.

Desde 2024, a família participa do projeto Quintal das Margaridas, iniciativa baseada nos princípios dos sistemas agroflorestais, que combina produção de alimentos, conservação ambiental e geração de renda.

Em uma caminhada pelos cerca de dois hectares da propriedade é possível encontrar abacaxi, limão, seriguela, goiaba, batata-doce, maxixe, abóbora, milho e coqueiros. A diversidade é resultado de um processo gradual de transformação da área. “Já existiam os coqueiros. Agora estamos tentando dar vida ao quintal plantando outras coisas”, explica Darliene. A mudança só foi possível graças ao acesso à irrigação, que ampliou as possibilidades de cultivo e permitiu a introdução de novas espécies.

A propriedade também incorpora tecnologias voltadas para o aproveitamento de recursos e a redução de custos. Um dos destaques é o biodigestor, instalado por meio de um projeto da Rede de Feiras Agroecológicas. O equipamento utiliza resíduos vegetais e dejetos dos animais criados na propriedade para produzir biogás. “Para a gente ser agricultor, tem que criar animais”, diz Darliene. Segundo ela, a tecnologia teve impacto direto no orçamento doméstico. “Desde que o biodigestor chegou, não compro mais gás.”

Outro equipamento presente no quintal é o minhocário, utilizado na produção de húmus, fertilizante orgânico empregado no cultivo das diversas espécies plantadas na área.

Além de abastecer a própria família, parte da produção é comercializada na Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca. Outra parte circula por meio de trocas com vizinhos e agricultores da comunidade.

Os cocos colhidos na propriedade também geram renda. Parte deles é destinada à produção artesanal de óleo. Mas essa já é outra história.

Balanço do Coqueiro

Bem perto do quintal de Darliene funciona uma iniciativa que reúne cultura, trabalho coletivo e geração de renda. O som que antes marcava o ritmo dos tambores e das apresentações culturais hoje também acompanha o funcionamento de prensas, raspadores e liquidificadores industriais. Foi desse encontro entre tradição e reinvenção que nasceu o Balanço do Coqueiro, grupo de mulheres que transformou o coco em fonte de renda e fortalecimento comunitário.

Crédito: Inês Campelo/Marco Zero

A história começou em 2010, quando o Balanço do Coqueiro surgiu como um grupo de percussão, arte e cultura. Formado por jovens, mulheres e crianças da comunidade, o coletivo tinha como objetivo fortalecer vínculos sociais e valorizar as expressões culturais locais. “Eu sou uma das mais antigas. Entrei no começo e estou até hoje”, conta Rojane Alves do Nascimento, atualmente presidente da Associação de Moradores do Sítio Coqueiro.

O beneficiamento do coco veio alguns anos depois. Em 2017, a partir de projetos de apoio e capacitação, surgiu a ideia de transformar uma matéria-prima abundante na região em produtos com maior valor agregado. “Primeiro veio o grupo cultural. Depois vieram os projetos que permitiram transformar o coco em produto”, explica Rojane.

No início, tudo era feito de forma improvisada. Como não havia recursos para comprar matéria-prima, as integrantes utilizavam cocos retirados de suas próprias propriedades. Com o tempo, o grupo passou a adquirir o produto de agricultoras da comunidade, estabelecendo uma relação comercial que fortalece a economia local. Atualmente, paga R$ 1 por coco descascado, valor superior ao oferecido por atravessadores, que costumam pagar entre R$ 0,30 e R$ 0,50 pela unidade.

Hoje, o Balanço do Coqueiro produz óleo de coco, farinha e sabonetes artesanais. O principal produto é o óleo extraído por prensagem a frio, técnica que preserva melhor as propriedades nutricionais quando comparada ao método tradicional de cozimento.

Versátil, o óleo é utilizado tanto na alimentação quanto nos cuidados com a pele e os cabelos, dialogando com conhecimentos tradicionais presentes há gerações na comunidade.

A produção exige escala e organização. Cada litro de óleo demanda cerca de 16 cocos secos e maduros. Vendidos in natura, esses cocos renderiam aproximadamente R$ 16. Transformados em óleo, porém, ganham valor agregado: uma garrafa de 300 mililitros é comercializada atualmente por R$ 25.

A rotina de trabalho é intensa e coletiva. Quatro mulheres formam o núcleo permanente da produção, mas outras pessoas da comunidade colaboram em etapas como limpeza, transporte e comercialização.

Não há divisão rígida de funções. “Todo mundo faz de tudo”, resume Rojane. As integrantes ralham, prensam, embalam e vendem os produtos. Ao final do processo, as despesas são descontadas e o lucro é dividido igualmente. Dependendo da demanda e da disponibilidade de matéria-prima, a produção pode chegar a dez litros de óleo por dia.

Se no começo o trabalho acontecia no alpendre da casa de uma das integrantes, hoje o grupo conta com uma unidade própria de beneficiamento, inaugurada em 2021. O espaço foi viabilizado por iniciativas como o projeto Ecoforte, em parceria com o Banco do Brasil, além do apoio do Cetra e do Projeto São José, do Governo do Ceará. A estrutura reúne prensa, raspadores elétricos, liquidificador industrial, balança e seladora, permitindo ampliar a produção e melhorar as condições de trabalho.

O reconhecimento já ultrapassou os limites da comunidade. Em 2023, o grupo recebeu um prêmio na categoria Sustentabilidade durante a Naturaltech, uma das principais feiras do setor no país. Também levou seus produtos para eventos em estados como São Paulo, Pernambuco e Pará, além de Brasília.

A comercialização ocorre em diferentes espaços: na própria comunidade, em feiras locais e regionais e em uma feira mensal realizada em Fortaleza. O grupo também organiza sua própria feira no assentamento, fortalecendo redes de economia solidária e o intercâmbio entre produtores.

Apesar dos avanços, os desafios permanecem. Atualmente, o grupo busca adequar a unidade às exigências sanitárias necessárias para ampliar a comercialização. A obtenção das certificações permitiria acessar novos mercados, incluindo supermercados e vendas para outras regiões do país. A formalização da atividade por meio de um CNPJ também está em discussão.

Onde a luta virou escola

Crédito: Inês Campelo/Marco Zero

Enquanto um grupo de crianças usando adereços indígenas desfruta alegremente a merenda escolar, Ezequiel Tremembé mostra orgulhoso a irrigação que alimenta o sistema agroflorestal da Escola Indígena Brolhos da Terra, em Itapipoca, no litoral oeste do Ceará. As fruteiras e hortaliças crescem graças à água reaproveitada da própria escola, transformada em fonte de produção de alimentos que, mais tarde, vão parar nos pratos dos alunos.

Para quem chega hoje ao território Tremembé da Barra do Mundaú, a cena pode até parecer corriqueira. Mas ela é resultado de uma luta que atravessou mais de duas décadas e opôs um povo indígena a um dos maiores empreendimentos turísticos já projetados para o litoral brasileiro. “Somos uma geração que estudou debaixo do cajueiro e hoje é professor”, resume Ezequiel, de 31 anos. Quando era criança, caminhava longas distâncias para estudar em espaços improvisados. Hoje, coordena o projeto Ensino Vivo na escola onde a agroecologia faz parte do currículo e da alimentação dos estudantes.

A escola consome alimentos produzidos no próprio território e também recebe produtos cultivados por agricultores indígenas por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Macaxeira, frutas, ovos e galinha caipira ajudam a compor a merenda e fortalecem a economia local. A relação entre educação, produção de alimentos e defesa do território não surgiu por acaso. Ela foi construída em meio a um dos conflitos fundiários mais emblemáticos do Ceará.

No início dos anos 2000, um consórcio internacional anunciou a implantação do projeto Nova Atlântida, um megacomplexo turístico que prometia transformar a região na chamada “Cancún brasileira”. Resorts de luxo, campos de golfe e grandes estruturas de lazer ocupariam uma área sobreposta ao território tradicional Tremembé. A proposta veio acompanhada da promessa de desenvolvimento e empregos. Mas, para os indígenas, significava a perda da terra e do modo de vida construído ao longo de gerações.

Foi nesse contexto que os mais velhos da comunidade tomaram uma decisão que mudaria a história do território. Reunidos sob um cajueiro, escolheram mulheres para liderar a resistência. “Se os homens fossem para a linha de frente, poderia haver confronto e mortes”, lembra Cleideane Tremembé, hoje professora e coordenadora da escola. A estratégia funcionou. Em vez de uma estrutura concentrada em um cacique, a comunidade fortaleceu uma liderança coletiva, protagonizada por mulheres.

Durante anos, elas enfrentaram pressões políticas, ameaças e tentativas de convencimento para que o empreendimento fosse aceito. A resistência contou com o apoio de organizações parceiras, do movimento indígena e de instituições públicas. Em 2015, o território recebeu a portaria declaratória do Ministério da Justiça. O reconhecimento definitivo viria anos depois, com a homologação da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, com 3.580 hectares.

A conquista, no entanto, não encerrou a disputa. A região continua pressionada pela especulação imobiliária, pelo turismo irregular e por projetos de infraestrutura que avançam sobre a zona costeira. A própria comunidade observa com preocupação os impactos provocados por grandes empreendimentos em áreas vizinhas. Para as lideranças, a experiência reforça a necessidade de construir alternativas próprias de desenvolvimento. É nesse ponto que a agroecologia ganha centralidade.

No território, ela aparece nos quintais produtivos, nos sistemas agroflorestais, no aproveitamento da água da chuva, na produção de alimentos para a escola e na valorização dos conhecimentos tradicionais. Também se manifesta em iniciativas de geração de renda, como a produção artesanal do óleo de bateputá e os projetos conduzidos por jovens agricultores. Durante a pandemia, quando a aldeia precisou restringir a circulação de pessoas, a busca por autonomia alimentar tornou-se ainda mais urgente. A produção local passou a ser vista não apenas como fonte de renda, mas como garantia de permanência no território.

Na escola, essa visão é ensinada desde cedo. As crianças aprendem a plantar, colher, cuidar das plantas medicinais e conhecer os lugares sagrados do povo Tremembé. O território inteiro é parte do processo educativo. Mais do que preservar tradições, a comunidade busca formar novas gerações capazes de defender a terra conquistada e enfrentar os desafios que continuam surgindo.


Crédito: Inês Campelo/Marco Zero

Entrevista | Adriana Tremembé: “Governador passa. Empresa passa. Mas o povo Tremembé permanece”

Há 25 anos na luta pela demarcação da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, Adriana Tremembé tornou-se uma das principais referências da resistência indígena no litoral oeste do Ceará. Aos 54 anos, ela integra a geração de mulheres que assumiu a linha de frente do enfrentamento ao megaprojeto turístico Nova Atlântida e ajudou a conduzir a comunidade até a homologação do território, em 2023. Nesta entrevista, Adriana fala sobre as conquistas da luta, a defesa do território e os desafios que permanecem.

Qual foi a maior conquista do povo Tremembé nos últimos anos?

A maior conquista foi a homologação da nossa terra. Hoje ela está homologada, registrada e estamos avançando no processo de desintrusão. Isso significa que o Estado reconheceu oficialmente que esse território pertence aos povos indígenas que vivem aqui. É uma conquista construída por muitas mãos e por pessoas que já nem estão mais entre nós, mas que abriram esse caminho.

Por que a luta pela terra era tão importante?

Porque sem território não existe nada. A gente pode ter escola, saúde e outros direitos, mas, se não tiver a terra garantida, tudo fica ameaçado. O território é onde está nossa história, nossa espiritualidade, nossos alimentos e nossa cultura. É ele que sustenta tudo.

O conflito com o empreendimento Nova Atlântida mudou a comunidade?

Mudou muito. Foi um período muito difícil. Havia muita pressão e muita violência. Eles queriam implantar um grande projeto turístico aqui dentro e não consideravam nossa existência. Foi nesse momento que as mulheres assumiram a linha de frente da luta. Entendemos que, se colocássemos os homens para enfrentar diretamente aquele conflito, poderia haver mortes. Então as mulheres seguiram à frente e o território inteiro se organizou para resistir.

O território continua ameaçado?

Sim. A especulação imobiliária continua existindo. Existem pressões ligadas ao turismo, a grandes empreendimentos e a outros interesses econômicos. Nossa terra está numa área muito cobiçada da zona costeira. Por isso a luta não terminou com a homologação.

Qual é o papel da escola nesse processo?

A escola é fundamental porque ela ajuda a manter viva nossa história. Não ensinamos apenas português ou matemática. Ensinamos também nossa cultura, nossa espiritualidade, o Torém, os conhecimentos tradicionais e a importância de defender o território. É assim que garantimos que os jovens continuem essa luta.

Depois de tantos anos de mobilização, o que mantém vocês firmes?

A certeza de que estamos defendendo algo que pertence às futuras gerações. Governador passa. Empresa passa. Mas o povo Tremembé permanece. Essa é a força que nos faz continuar.


Do fruto da mata ao sustento da aldeia

Quem vê aquela pequena fruta amarela espalhada pela mata da Barra do Mundaú talvez não imagine seu potencial. Do Bateputá, planta nativa e tradicional do território Tremembé, famílias indígenas produzem artesanalmente um óleo utilizado tanto na alimentação quanto como remédio caseiro para inflamações, dores e problemas de garganta.

Crédito: Inês Campelo/Marco Zero

Nascido e criado entre os pés de Bateputá, Samuel Nascimento de Castro aprendeu desde cedo os saberes tradicionais ligados à terra encontrou na agricultura uma forma de construir seu futuro sem precisar deixar a comunidade. Hoje, sua propriedade reúne uma diversidade de cultivos e criações, que variam de acordo com a época do ano, além da produção do óleo de Bateputá, comercializado no próprio território, em festas e feiras da região.

Ao perceber a necessidade de ampliar a produção de alimentos, Samuel tomou uma decisão arriscada. Vendeu as 40 galinhas poedeiras que criava para investir na implantação de uma mandala produtiva com criação de tilápias. A iniciativa surgiu após conhecer experiências semelhantes e identificar o potencial de integrar diferentes sistemas de produção.

O risco foi compensado algum tempo depois, quando ele foi contemplado pelo programa São José Jovem, política pública do Governo do Ceará voltada para jovens empreendedores rurais. Com os recursos recebidos, conseguiu reconstruir sua estrutura de criação de galinhas e fortalecer a produção familiar.

Mas a trajetória de Samuel não se limita à própria propriedade. Primeiro jovem a presidir o conselho indígena do território, ele ajudou a aproximar a comunidade de editais e políticas públicas voltadas para a agricultura familiar e a segurança alimentar.

Durante a pandemia de Covid-19, quando a aldeia permaneceu fechada por cerca de oito meses, a necessidade de produzir o próprio alimento tornou-se ainda mais evidente. A partir dessa experiência, foram fortalecidos projetos voltados à cultura alimentar, com incentivo a quintais produtivos, áreas coletivas de cultivo e outras iniciativas de autonomia produtiva.

Entre essas políticas está o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) Indígena, iniciativa do governo federal que compra alimentos produzidos pelas comunidades indígenas para distribuição a famílias em situação de vulnerabilidade e instituições públicas. Samuel também comercializa parte de sua produção por meio do programa.

“O PAA Indígena é um trabalho de fortalecimento da nossa cultura”, afirma. Para ele, a alimentação vai muito além da nutrição. “Quando você come bem, além de se alimentar, você se cura.” Segundo Samuel, valorizar os alimentos produzidos no território significa também fortalecer a identidade indígena. “É um resgate da nossa ancestralidade através da alimentação. Fortalece nossa luta e nossa identidade.”

Esta reportagem foi produzida em parceria com a Rede Ater Nordeste.

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AUTORES
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Inês Campelo

Jornalista e cofundadora da Marco Zero. Apaixonada por imagens e manualidades.

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Sérgio Miguel Buarque

Sérgio Miguel Buarque é jornalista, cofundador e coordenador executivo da Marco Zero Conteúdo.