Da esquerda para a direita: Luiza Carolina (PSOL); Dani Portela (PSOL); Vinicius Castello (PT); Suzineide Rodrigues (PT); Elaine Cristina (PSOL); Ailce Moreira (PSOL); (Kátia Cunha – Juntas (PSOL); Débora Aguiar (Rede); Robeyoncé Lima (PSOL). Crédito: Marlon Diego.

Por Myrella Santana

Nesses últimos quinze dias antes da eleição, uma das coisas que mais ouvi nas redes sociais foi: seu voto tem que ser útil. Eu sou parte do grupo que defende que não há espaço para terceira via na majoritária nacional. Não podemos arriscar ir para o segundo turno e Ciro Gomes (PDT), ao insistir na sua candidatura, só reafirma o seu não compromisso com um processo político que impacta diretamente na vida das mulheres, da população negra, indígena, LGBTQIA+ e da favela. No mínimo, isso mostra que ele não viveu o Brasil real nos últimos 4 anos, em que mais de 1,5 milhão de pessoas morreram de covid, de bala ou de fome.

Eleger Lula no primeiro turno tem que ser prioridade, isso é um compromisso que temos que ter com todas as vidas perdidas por negligência do governo Bolsonaro e se quisermos derrotar o fascismo e o autoritarismo. Entretanto, me preocupa quando eu vejo esse discurso de voto útil ser trazido para Pernambuco, principalmente, para as chapas proporcionais. Esse tem sido um argumento recorrente para justificar o voto em pessoas que flertam com a direita fundamentalista, que apoiaram o golpe de 2016, racistas e que não têm compromisso nenhum com a garantia de direitos.

Um dos estados mais negros do Brasil, nunca teve uma mulher negra governadora e que tem uma das casas legislativas mais brancas do país: esse é Pernambuco. No meu último texto, há quinze dias, eu falei sobre estética política. É importante que a gente entenda que, antes de qualquer coisa, esse também é um processo cognitivo e psicológico que coloca no imaginário subconsciente das pessoas que só pode ganhar quem é, ou, no mínimo se parece, com um homem velho, branco, hétero e cis. E essa é a fotografia que se repete nas urnas, no site do TSE ao anunciar os eleitos e no dia da posse.

Desde o meu primeiro texto defendo o voto em mulheres negras abertamente. O antirracismo ele tem que ser uma prática cotidiana para além dos discursos bonitos, é sabido. Por isso, também tenho me dedicado diariamente a fazer campanha para mulheres negras, e quando chego na minha periferia para apresentar as candidaturas que escolhi, a primeira coisa que escuto é: ela tem chance de ganhar? Eu não vou tá perdendo meu voto não? E já discutimos bastante anteriormente, essas candidaturas enfrentam muito mais dificuldades.

Nunca foi e nunca será por competência ou qualquer coisa do tipo, mas por serem candidaturas que menos recebem recursos dos partidos, ou simplesmente não recebem. É uma realidade muito mais objetiva do que imaginamos. E por isso afirmo: não adianta ser um dos partidos que mais tem mulheres negras candidatas se essas candidaturas são as que menos recebem recursos. Apesar disso, ousamos cada vez mais.

Em 2018, tivemos Dani Portela candidata ao Governo do Estado com uma votação expressiva, junto à eleição das Juntas na Alepe. Em 2020, tivemos Dani Portela como a vereadora mais votada da cidade do Recife, Vinicius Castello eleito em Olinda e Flávia Hellen em Paulista. Meus colegas de curso consideram isso um fenômeno a parte e que não tem relevância prática para ser estudado. Eu afirmo que isso não é mais sonho, é uma realidade que será cada vez mais recorrente e que deixará de ser exceção, para ser regra.

A esquerda brasileira, de forma pragmática, é branca e racista. Pragmática porque estamos falando de quem tá nas presidências nacionais e estaduais decidindo quanto cada um vai ganhar, que tem visibilidade, é lido, escutado e referenciado. Que é a mesma esquerda que tá defendendo o voto em pessoas brancas porque, com exceção da majoritária, não tem segundo turno. Que repete e afirma cotidianamente quem tem mais ou menos chances de ganhar, e são exatamente as pessoas responsáveis por dar essas condições. Voto útil não é apenas sobre quem ganha ou quem perde, mas sobre mudar a vida das pessoas.

Pernambuco tá cada vez mais tendo a possibilidade de tornar realidade o sonho de ter uma governadora negra. De ter mulheres negras representando o estado no Congresso Nacional e uma Assembleia Legislativa com mais da metade das cadeiras composta por pessoas negras. Queremos bancadas do movimento negro em todas as casas legislativas deste país. O que alguns defendem ser um sonho distante, para mim, é tudo pra ontem, se ousarmos e formos antirracistas na prática. Dani Portela, as Juntas Codeputadas, Vinicius Castello e Flávia Hellen são a prova de que é possível sonhar com um projeto político radical para Pernambuco.

Não podemos mais achar que é estratégia política não falar sobre a descriminalização do aborto, quando todo dia mulheres negras morrem por conta do aborto clandestino, e tão pouco votar em candidaturas que não entende que isso é uma questão de saúde pública e não da igreja. Não podemos votar em candidaturas que não falam sobre descriminalização das drogas, quando a juventude negra está morrendo e sendo encarcerada por conta da guerra às drogas que sempre teve como alvo as periferias, ou que não fale abertamente que o Pacto pela Vida é um programa falido e racista. Não podemos votar em candidaturas que não falam em combate a LGBTQIA+fobia quando Pernambuco é um dos estados mais violentos pra pessoas trans e travestis viverem.

Não podemos mais aceitar que candidaturas se constranjam em falar de coisas que todo dia matam por ser desconfortável pra igreja. Por muito tempo estivemos alimentando o discurso que a alternativa era votar no menos pior, mas em 2022, se quisermos realmente fazer do nosso voto útil, temos que votar no melhor, dentre as opções apresentadas.

Estamos na última semana de campanha, nos últimos dias, e a maioria expressiva da população só decide em quem votar nas 48 horas que antecedem as eleições e por indicação de alguém que confia. Precisamos revisitar nossos contatos de WhatsApp, nosso círculo de amigos, família, vizinhos e pedir o voto dessas pessoas. É exatamente no miudinho, no voto a voto, no um a um, que poderemos ter a maior bancada negra em e por Pernambuco. Pra isso, não vote (em) branco, vote em mulheres negras!

Myrella Santana é graduanda em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco. Integra a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e a Articulação Negra de Pernambuco. É Diretora Operacional e pesquisadora na Rede Internacional de Jovens LBTQIA+.

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