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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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	<title>Marco Zero Conteúdo - Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</title>
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		<title>Fãs com adesivo de Lula são barrados em show de João Gomes em Petrolina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Oct 2026 20:37:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A professora Katiuscia Maria da Silva estava entrando no show de João Gomes nesta segunda-feira (12), em Petrolina, quando foi abordada por uma segurança do evento, que pediu a garrafa de água que ela segurava, com um adesivo de Lula colado. “Aí eu perguntei: ‘Não pode entrar com água?’. Ela respondeu que era por causa [&#8230;]</p>
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<p>A professora Katiuscia Maria da Silva estava entrando no show de João Gomes nesta segunda-feira (12), em Petrolina, quando foi abordada por uma segurança do evento, que pediu a garrafa de água que ela segurava, com um adesivo de Lula colado. “Aí eu perguntei: ‘Não pode entrar com água?’. Ela respondeu que era por causa do adesivo, ‘que não pode fazer propaganda política aqui dentro’. Aí eu disse: ‘Não vou fazer propaganda política. É apenas um adesivo meu’”, conta Katiuscia. Para conseguir entrar, ela teve de tirar o adesivo da garrafa.</p>



<p>Assim como Katiuscia, dezenas de pessoas relataram o mesmo tratamento para entrar no evento Abrace um Denguinho. Há vídeos, fotos e relatos de pessoas sendo barradas por estarem com adesivos e camisetas de Lula. O PT de Pernambuco afirmou hoje que vai tomar providências. “Vamos encaminhar uma representação ao Tribunal Regional Eelitoral (TRE) sobre o fato, bem como ao juiz eleitoral do município de Petrolina”, afirmou o advogado Cláudio Carraly, da campanha do PT no estado.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>O <strong>Abrace um Denguinho</strong> é um projeto beneficente idealizado por João Gomes e feito em parceria com a Prefeitura de Petrolina no Dia das Crianças, no Parque Municipal Josepha Coelho. A programação era gratuita e contou com a participação de outros artistas, como Ivete Sangalo. A entrada era condicionada à doação de 1 kg de alimento não perecível para o Transforma Petrolina, programa da prefeitura, e o evento também arrecada doações para o Hospital Dom Tomás, organização filantrópica que atende pacientes com câncer. No ano passado, a campanha arrecadou mais de R$ 1 milhão para o hospital e cerca de seis toneladas de alimentos.</p>
        </div>
    </div>



<p>O presidente do PT em Petrolina, Herlon Bezerra, acionou a Justiça Eleitoral ainda no início da noite desta segunda-feira, ao receber relatos de que seguranças da empresa RTX Segur barravam quem usasse adesivo de Lula. Segundo ele, militantes distribuíram material de campanha na rua em frente ao evento e o público colava os adesivos no corpo ou guardava na bolsa antes de entrar. Os seguranças, diz Herlon, não apenas exigiam a retirada dos adesivos como abriam bolsas e jogavam fora o material. Ele relata que várias mulheres denunciaram ter tido as bolsas revistadas e que o partido tem orientado essas pessoas a registrar boletim de ocorrência.</p>



<p>Ainda durante o evento, a juíza Elisama de Sousa Alves, da 145ª Zona Eleitoral, expediu uma decisão para assegurar a entrada de pessoas com adesivos. Na decisão, a juíza afirma que o adesivo é manifestação individual e silenciosa protegida pela Constituição. Diz também que evento apoiado com dinheiro público ou feito em bem de uso comum deve estar aberto a todos em igualdade de condições, e que só a Justiça Eleitoral, e não organizadores ou agentes públicos, pode controlar propaganda eleitoral.</p>



<p>Na decisão, à qual a Marco Zero teve acesso, a juíza determinou aos organizadores do evento que se abstivessem, imediatamente, de proibir, restringir, dificultar ou condicionar o ingresso ou a permanência no evento de qualquer cidadão em razão do porte de “adesivo, broche, vestimenta ou similar alusivo a candidato, partido político, federação ou coligação, inclusive mediante exigência de retirada ou ocultação do material, assegurando-se o livre acesso de todos em condições de igualdade, observados apenas critérios objetivos de capacidade do local e segurança”.</p>



<p>A decisão visava proteger a manifestação individual do eleitor e não autorizou a realização de “atos de campanha, a distribuição de material de propaganda ou a fixação de adesivos em bens públicos no interior do evento, condutas que permanecem regidas pela legislação eleitoral”. A juíza advertiu que o descumprimento poderia configurar crime de desobediência e deu ciência ao Ministério Público Eleitoral, para que tome as providências que entender cabíveis.</p>



<p>Segundo Herlon, o oficial de Justiça foi ao evento antes de o mandado ser formalizado no sistema judicial e entrou em contato com ele por volta das 19h30. Os dois foram juntos à entrada e falaram apenas com a segurança, não com a organização. “A segurança do evento foi muito educada conosco. Disseram que estavam simplesmente cumprindo ordens de não deixar ninguém entrar com nenhuma manifestação política dentro do espaço. Ordem da organização do evento”, relata. Depois disso, as pessoas passaram a entrar com adesivos. “Mas, infelizmente, muita gente já estava voltando para casa. Quando de fato tivemos o direito ao livre trânsito com adesivos assegurado, o show já estava nos momentos finais”, lamentou.</p>



<p>Em nota enviada à Marco Zero, a Prefeitura de Petrolina afirmou que nunca orientou ninguém a impedir a entrada ou exigir a retirada de adesivos, “praguinhas” ou qualquer propaganda eleitoral no Parque Josepha Coelho e que o parque recebe milhares de pessoas por dia sem restrição a camisas ou material partidário. A prefeitura descreveu o Abrace um Denguinho como uma ação solidária integrada pelo cantor João Gomes e pela própria gestão, em parceria pelo segundo ano seguido.</p>



<p>A prefeitura disse que cedeu a área do estacionamento do parque para o festival e que o controle de público ficou a cargo de uma segurança privada. Em nota de esclarecimento publicada nas redes sociais, a organização do Abrace um Denguinho atribuiu o episódio a uma “atitude individual” de um profissional da empresa de segurança contratada, que teria restringido manifestações políticas. Nenhuma das notas informa quem contratou a empresa RTX Segur. A MZ não conseguiu falar com a empresa até o fechamento desta matéria.</p>



<p>O dirigente do PT de Petrolina contesta a versão da prefeitura de que apenas cedeu o estacionamento. Ele relaciona o episódio ao apoio público do prefeito<a href="https://www.instagram.com/p/DeMljjsFlyX/?img_index=1"> Simão Durando, filiado ao União Brasil</a>, a Flávio Bolsonaro (PL) depois do primeiro turno e fala em tentativa de intimidação política. “Houve a tentativa de dizer que a gente quis entrar com bandeiras. Não é verdade, porque nós nem temos mais bandeiras: todas foram embora no primeiro turno. Hoje estamos na cidade só com camisetas e adesivos para carro e para o corpo. Foi uma tentativa de inibir a livre manifestação política”, afirma.</p>



<p>Herlon contou também que alguns seguranças, eleitores de Lula, disseram depois que se sentiram incomodados com a ordem. “Não queremos fazer nada intempestivo nem acusar ninguém, inclusive os companheiros que estavam lá trabalhando como seguranças. Alguns deles vieram depois comentar conosco que estava sendo chato para eles, porque votam no presidente Lula”, afirmou.</p>



<p>Em entrevista à Marco Zero, a advogada eleitoral Júlia Matos afirmou que, pelo que foi divulgado até agora, o episódio parece ter mais ligação com o direito constitucional do que com o eleitoral. “O eleitor tem direito de manifestar sua preferência eleitoral de forma silenciosa e individual, inclusive no dia da eleição. Condicionar a entrada em um evento público à retirada do adesivo seria um problema do direito constitucional e civil, já que a questão central é de liberdade de expressão. Ou seja, seria uma censura”, afirmou.</p>



<p>A advogada também esclarece que quem se sentiu lesado pela organização do evento pode entrar com processo por danos morais e fazer uma denúncia, que pode ser anônima, ao Tribunal Superior Eleitoral, pelo aplicativo Pardal.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Basta clicar aqui para acessar o app <a href="https://www.tse.jus.br/eleicoes/pardal-eleicoes-2026" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Pardal, do TSE</a></strong></li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading">João Gomes é cobrado a se posicionar</h2>



<p>O episódio acontece em um momento em que João Gomes é fortemente cobrado por fãs a declarar posição política. Com mais de 17,5 milhões de seguidores no Instagram, o cantor ganhou no ano passado um Grammy Latino com o projeto Dominguinho, ao lado de Mestrinho e Jota.pê, que já declararam voto em Lula.</p>



<p>“Eu me identifico muito com João Gomes, porque ele conseguiu realizar um sonho saindo de uma família simples. Ele morava no mesmo bairro que eu, e algumas vezes eu o via quando era garoto. Hoje sou fã e vou sempre aos shows. Justamente por ser nordestino, por ter saído de onde saiu e por conhecer a cultura do Nordeste, eu ando muito decepcionada com ele”, comentou a professora Katiúscia.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:40% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="767" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/Joao-Gomes-PT-2-767x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-77009 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/Joao-Gomes-PT-2-767x1024.jpeg 767w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/Joao-Gomes-PT-2-225x300.jpeg 225w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/Joao-Gomes-PT-2-768x1025.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/Joao-Gomes-PT-2-1151x1536.jpeg 1151w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/Joao-Gomes-PT-2-640x853.jpeg 640w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/Joao-Gomes-PT-2-150x200.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/Joao-Gomes-PT-2.jpeg 1199w" sizes="(max-width: 767px) 100vw, 767px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>“Neste momento, pessoas formadoras de opinião como ele, que levou o Nordeste para o mundo, poderiam dar uma palavra pelo Nordeste, que fortalecesse o sentimento de pertencimento. Vejo negativamente esse não posicionamento do João Gomes. Acho que o tempo agora é de as pessoas, principalmente os artistas, se posicionarem”, acrescentou. Em Petrolina, Lula teve 60% dos votos contra 32% de Flávio Bolsonaro.</p>
</div></div>



<p></p>



<p>Em comentário nas redes sociais, a influenciadora Ary Mirelle, esposa de João Gomes, afirmou que o artista não se posicionou nesta eleição por conta do que enfrentou há quatro anos. “João não é uma pessoa ruim (&#8230;). Da última vez que João se posicionou em uma eleição, ele foi extremamente cancelado, tem que ouvir coisas horríveis até hoje, e até hoje também ele toma antidepressivos fortes, porque se não tomar, ele nem consegue levantar para trabalhar. João tem uma depressão e é mais difícil do que vocês imaginam, precisa ser acompanhado. Talvez para muitos isso nem justifique nada. Mas João hoje tem dois filhos. Recebemos mensagens de pessoas ameaçando nossos filhos (dois bebês) todos os dias”, escreveu.</p>



<p>João Gomes está entre os 40 artistas que mais receberam dinheiro público por shows no país. Segundo o relatório Farras, do observatório <a href="https://deolhonosruralistas.com.br/2026/07/01/dossie-farras/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">De Olho nos Ruralistas</a>, que analisou 20 mil contratos públicos, o cantor fechou R$ 74 milhões em contratos com prefeituras e governos estaduais entre janeiro de 2024 e março de 2026, com 147 apresentações.</p>



<p></p>
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		<title>&#8220;É um grande equívoco colocar o cenário eleitoral na conta dos evangélicos&#8221;, diz socióloga</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Oct 2026 14:28:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Para a socióloga Ana Carolina Marsicano, pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política (Laberp), da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), o avanço da extrema direita nas urnas deste domingo não se explica pelo voto evangélico. &#8220;Existe um equívoco muito grande em colocar o cenário eleitoral na conta do campo evangélico&#8221;, afirma. Para ela, o [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Para a socióloga Ana Carolina Marsicano, pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política (Laberp), da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), o avanço da extrema direita nas urnas deste domingo não se explica pelo voto evangélico. &#8220;Existe um equívoco muito grande em colocar o cenário eleitoral na conta do campo evangélico&#8221;, afirma. Para ela, o fenômeno a observar é a aproximação de atores cristãos com a extrema direita, com destaque para a radicalização de lideranças católicas.</p>



<p>Em entrevista à Marco Zero, a pesquisadora, que também é pós-doutoranda na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), fala sobre a complexidade do campo religioso na política brasileira, a ausência de um voto evangélico em bloco, a nova geração de políticos formada nas redes e o que pode mudar até o segundo turno.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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	                                        <p class="m-0">Ana Carolina Marsicano
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Acervo pessoal</span>
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                    </figure>

	


<p>Marco Zero &#8211; <strong>Já dá para saber como foi o voto evangélico nessas eleições?</strong></p>



<p><strong>Ana Carolina Marsicano </strong>&#8211; Ainda não temos muitas pesquisas com estratificação por religião e gênero, mas dá para levantar algumas hipóteses. Na perspectiva da religião, o primeiro ponto a destacar é que existe um equívoco muito grande em colocar o cenário eleitoral na conta do campo evangélico. Produzi recentemente, com a Casa Galileia, um relatório sobre as alianças de católicos e evangélicos em torno da campanha de Flávio Bolsonaro, e percebemos também uma participação intensa de atores católicos em torno da candidatura dele.</p>



<p>A grande questão é que estamos diante de uma forma de fazer política que passa por algumas inflexões e mudanças. Tivemos um percentual muito grande de eleitos para o Legislativo que vêm de uma carreira de influenciadores digitais, políticos cujo capital político foi construído nas redes sociais. Existe uma ruptura, obviamente não total, mas parcial, com uma tradição e uma forma de fazer política.</p>



<p><strong>Os católicos e os evangélicos costumam se unir em pautas religiosas?</strong></p>



<p>Mais ou menos. Os conflitos entre os campos evangélico e católico são históricos. O que observamos desde 2010, principalmente entre 2010 e 2014, foi uma aproximação entre atores dos dois campos em torno de uma aliança programática, de algumas agendas, para impedir o avanço de pautas progressistas e de governos de esquerda. Mas o conflito de interesses entre católicos e evangélicos é anterior a essa aliança.</p>



<p>Acredito que esta eleição deixou claro que existem questões próprias e sensíveis a cada campo. A polêmica envolvendo Nossa Senhora mobilizou conflitos que revelam tensões internas ao catolicismo. De um lado, a posição da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que não apoiou Lula nem falou de Flávio Bolsonaro explicitamente, mas se manifestou a favor de uma agenda contra a desinformação, pelo bem comum e pela soberania nacional. De outro, a polêmica de que Flávio Bolsonaro faria Nossa Senhora deixar de ser a padroeira do Brasil, e depois a alegação de que essa informação teria relação com agentes comunistas infiltrados na CNBB. São conflitos clássicos do campo religioso.</p>



<p>Existem alianças, sim. Mas, para mim, mais fundamental do que pensar as alianças entre evangélicos e católicos é pensar a aproximação de atores do campo cristão, católicos e evangélicos, com a extrema direita. Há atores conservadores dos dois campos que entendem a necessidade de preservar valores democráticos e republicanos. O que observamos nos últimos anos é uma radicalização de atores católicos que se aproximam da extrema direita, uma convergência de atores do campo cristão com interesses da extrema direita.</p>



<p>Não à toa, nestas eleições houve um aumento percentual de votos em Flávio Bolsonaro em municípios com maior percentual de evangélicos, alguns em que ele teve inclusive mais votos que o pai. Em compensação, e esse é um ponto importante para tensionar, Lula teve queda no voto de católicos em regiões onde historicamente foi votado por eles. Então, para onde está indo esse voto? Em quem esses católicos estão votando agora? Se percebemos uma tendência de radicalização no catolicismo, será, e é só uma hipótese, que esses católicos deixaram de votar em Lula para votar em Flávio Bolsonaro porque estão se radicalizando?</p>



<p>Então, o grande ponto é que não podemos colocar esse cenário desolador da eleição para a Câmara e o Senado na conta dos evangélicos. Uma série de parlamentares católicos e de influenciadores conservadores e tradicionalistas apoiou Flávio Bolsonaro, seja explicitamente, seja fomentando um discurso de antipetismo e antilulismo. O campo religioso é mais complexo do que as análises, às vezes, fazem parecer.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/conheca-as-igrejas-evangelicas-em-pernambuco-que-nao-apoiam-a-extrema-direita/" class="titulo">Conheça as igrejas evangélicas em Pernambuco que não apoiam a extrema direita</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/democracia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Democracia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>Lideranças católicas conservadoras, como Frei Gilson, ganharam muita influência nas redes. Qual o peso delas nesse cenário?</strong></p>



<p>Frei Gilson é conservador, tem um número muito grande de seguidores e é representante do que chamamos de apostolado digital. Mas acho mais importante direcionar o olhar para além da hierarquia católica, para outros atores identificados com valores do catolicismo. Por exemplo, Eduarda Campopiano, uma jovem do PL Jovem que foi uma das mais bem votadas no estado de São Paulo como deputada estadual. Ela é católica apostólica romana e defende valores da extrema direita. Fez uma fala recente dizendo que os indígenas são canibais e é contra a pauta LGBTQIAPN+. É extremamente jovem, mas defende a subordinação das mulheres.</p>



<p>Essas lideranças, esses apóstolos digitais, são importantes, mas existe algo que vai além deles no catolicismo. É esse campo que tem se aproximado cada vez mais da extrema direita e criado alianças cada vez mais firmes com ela.</p>



<p><strong>E consegue muitos votos.</strong>..</p>



<p>Muitos votos. Estamos falando de pessoas jovens: do PL Jovem, do PL Mulher, na verdade do PL, que elegeu uma quantidade imensa de candidatos. O ponto importante é entender que o PL se converteu no principal celeiro da extrema direita brasileira. Lucas Pavanato, de São Paulo, e Rafael Satiê, do Rio de Janeiro, foram eleitos vereadores e agora chegam à Câmara dos Deputados, onde já está Nikolas Ferreira.</p>



<p><strong>Aqui, o vereador evangélico e de extrema direita Thiago Medina também foi eleito deputado federal.</strong></p>



<p>Exatamente. E quando falo dessa inflexão na forma de fazer política, é importante também pensar a partir de um lugar um pouco mais otimista, porque está muito difícil: a esquerda também precisa ver nisso uma oportunidade. Digo isso justamente por causa de Jones Manoel. Ele representa um projeto de extrema esquerda, um projeto comunista, realmente comprometido com agendas com as quais muitos atores da esquerda têm pudor de se comprometer, como a descriminalização do aborto.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;é importante também pensar a partir de um lugar um pouco mais otimista: a esquerda também precisa ver nisso uma oportunidade&#8221;.</p>
</div>


<p>E este é o primeiro cargo de Jones Manoel, como deputado federal. Ele é um influenciador digital com mais de 2 milhões de seguidores e a prova viva de que essa inflexão na forma de fazer política pode funcionar para a direita e para a esquerda. Só que a esquerda precisa ver nisso uma oportunidade, e só vai aproveitá-la se entender a importância de fazer alianças. Quando falo em alianças, falo de PT e PSOL.</p>



<p>Existem diferenças internas, é normal. Os partidos têm suas correntes, o PT também. Mas o momento pede um pouco mais de esforço para fazer alianças e construir quadros jovens que ocupem esse espaço na política. O que mais me deixa inconformada é pensar que Lula foi eleito em 2002, estamos em 2026 e não temos um novo quadro. Isso é revoltante. Qual quadro vai suceder Lula? Quais candidatos?</p>



<p>Esta eleição mostrou todas essas questões: muitos candidatos da extrema direita se elegendo, muitos jovens se elegendo, o que indica que a juventude está sendo disputada. A esquerda precisa entender isso e investir mais energia no diálogo com os jovens, estimulando-os a participar da política institucional. Durante anos vivemos uma crise, com o discurso da antipolítica, do antissistêmico. Precisamos voltar a transformar a política em uma utopia, um horizonte de mudança real.</p>



<p><strong>E Jones Manoel representa isso?</strong></p>



<p>Sim. Temos alguns outros jovens: o próprio Renato Freitas, lá no Paraná, que se elegeu deputado federal. Temos figuras muito interessantes eleitas, como Natália Boulos. Erika Hilton se reelegeu, Sâmia Bomfim se reelegeu. São figuras muito importantes, que representam de fato um projeto progressista de defesa de direitos. Mas precisamos ficar atentos também: os novos que estão entrando representam o quê? Que novidade representam?</p>



<p>No Senado, por exemplo, entrando mais na questão de gênero, tivemos numericamente o maior número de senadoras eleitas na história: 12.</p>



<p><strong>O próximo Senado vai ser o com mais mulheres, mas são mulheres que não defendem as mulheres.</strong></p>



<p>Esse é o ponto. Doze mulheres eleitas: quem são essas senadoras? Que projeto político representam? Isso também indica o problema do discurso puro e simples da representatividade. Como mulher de esquerda, progressista, me interessa muito mais uma figura que represente os interesses das mulheres, seja homem ou mulher, do que uma mulher que represente os valores do antifeminismo, das pautas antidireitos, das políticas neoliberais, da precarização das condições de trabalho das mulheres. É preciso ficar atento às ciladas de defender uma representatividade que não tenha convergência com a fidelidade a determinadas agendas.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/doze-mulheres-chegam-ao-senado-por-quais-portas/" class="titulo">Doze mulheres chegam ao Senado. Por quais portas?</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/opiniao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Opinião</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/genero/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Gênero</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><strong>O voto evangélico é um voto em bloco?</strong></p>



<p>Não. É importante destacar que o campo evangélico é extremamente disputado e tensionado. As pesquisas de intenção de voto apontaram o segmento evangélico masculino votando majoritariamente em Flávio e, em contrapartida, o segmento feminino católico votando mais em Lula. Então a análise do voto religioso tem que vir acompanhada de uma análise do voto de gênero, para capturar essa complexidade. Por que os homens evangélicos votam mais em Flávio? Por que as mulheres católicas votam mais em Lula? Qual é o ponto de identificação? Precisamos de análises com mais profundidade, que ainda não temos, relacionando religião, gênero e também território.</p>



<p>Uma questão que me preocupou muito, vendo o percentual dos votos para presidente, foi uma série de estados no Norte do país onde o voto em Flávio Bolsonaro foi altíssimo, entre 65% e 70%. E aí entra o ponto de não colocar isso só na conta do evangélico. A expansão do campo evangélico no Norte é obviamente um dos elementos, mas esse dado, sozinho, não explica tudo.</p>



<p><strong>É correta a visão de que o evangélico tem uma propensão maior a votar em quem é indicado pelo pastor, pela igreja?</strong></p>



<p>As pesquisas recentes têm mostrado que essa lógica do voto conforme a orientação do pastor já não acontece há um bom tempo. Uma <a href="https://iser.org.br/wp-content/uploads/2025/12/Relatorio-2022.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (Iser)</a> sobre mulheres evangélicas e cotidiano mostrou que o que mais importa para elas são questões como o preço dos alimentos e do gás, questões realmente básicas.</p>



<p>Outro ponto importante para entender que não é um voto de rebanho, e sim um voto intensamente disputado: na última eleição, o voto que virou e permitiu a eleição de Lula foi o das mulheres evangélicas. Teve um peso imenso, justamente porque elas levam em consideração questões econômicas. A perspectiva de que o evangélico vota no conservador por causa das pautas morais, além de rasa, é muito ultrapassada. Obviamente as questões morais têm peso e exercem influência, mas não são necessariamente predominantes quando analisamos as mulheres, e os homens também.</p>



<p>O posicionamento no campo evangélico é muito matizado. E hoje a comunicação com os fiéis não acontece mais só no púlpito. Há os grupos de WhatsApp: existe uma construção coletiva do voto dessas comunidades acontecendo também nesses grupos.</p>



<p><strong>E a direita está sabendo se comunicar melhor com esse público? A propaganda de Flávio Bolsonaro é muito isso: está tudo caro, a comida está cara, vamos baratear a comida.</strong></p>



<p>Flávio Bolsonaro parte desse discurso, desse tom, também porque não está na posição governista. É muito mais fácil fazer essa crítica na oposição. Ele vai surfar no discurso da necessidade de manter o Bolsa Família, de melhorar as políticas públicas para as pessoas, mesmo sem dizer como. E mesmo procurando a todo custo evitar a palavra meritocracia, a ideia de criar as condições para a pessoa fazer aquilo por si só, sabemos que o pano de fundo é exatamente esse.</p>



<p>Tanto que quem foi cotada para estar à frente da pauta econômica de Flávio Bolsonaro é Daniella Marques, uma mulher católica, da escola de Paulo Guedes. Apesar de ele falar em baixar o preço dos alimentos, a orientação econômica por trás é neoliberal, de baixíssima preocupação com o trabalhador. É a distância entre o discurso público e o que vem sendo construído como plataforma política.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;o voto que virou e permitiu a eleição de Lula [em 2022] foi o das mulheres evangélicas. Teve um peso imenso, justamente porque elas levam em consideração questões econômicas.&#8221;</p>
</div>


<p><strong>Você acha que Lula ainda tem condições de virar no segundo turno? O que poderia mudar na campanha para atingir tanto as mulheres quanto as pessoas religiosas?</strong></p>



<p>Acho que tem sim condição de virar e de se eleger no segundo turno. Há alguns pontos importantíssimos a trabalhar. O primeiro tem a ver com o nível altíssimo de abstenção e de votos nulos e brancos. É o lugar do diálogo, do olho no olho, dos movimentos sociais e da militância indo às ruas para dialogar principalmente com os eleitores que não queriam votar nem em Lula nem em Flávio Bolsonaro e votaram em um Augusto Cury da vida. Abrir esse flanco de comunicação para tentar angariar o voto de quem não votou em Flávio.</p>



<p>O segundo ponto é convencer quem anulou ou votou em branco a votar. O terceiro é investir numa estratégia de comunicação massiva nos lugares onde se percebeu um percentual muito baixo de voto em Lula. Há um trabalho grande a fazer e o tempo é muito curto, mas acredito que esses são os pontos mais importantes.</p>



<p>Em relação ao segmento religioso propriamente dito, o segundo turno sempre traz um senso de urgência. É outra etapa, com outras estratégias. A primeira coisa é acompanhar se determinadas figuras públicas do campo cristão vão se posicionar. Elas podem não ter se posicionado no primeiro turno, mas vir a se posicionar agora. Uma delas é Frei Gilson, que não chegou a se posicionar no primeiro turno. Será que vai se posicionar agora?</p>



<p>O mesmo vale para outras lideranças religiosas: observar se, nesse contexto mais acirrado, vão se posicionar publicamente e, para quem está engajado no monitoramento das redes desses atores, ver o nível de repercussão. Existem algumas frentes em que cabe investimento, fazendo esse monitoramento passo a passo, porque no segundo turno cada dia conta muito.</p>



<p><strong>Mas Frei Gilson não se posicionaria a favor de Flávio Bolsonaro?</strong></p>



<p>Pode ser que sim, pode ser que não. A política tem uma tendência a nos surpreender. Eles podem se posicionar a favor de Flávio Bolsonaro ou, por exemplo, reforçar a nota que a CNBB publicou. Os católicos não precisam manifestar um apoio explícito para, ainda assim, se posicionarem de uma forma que influencie. É preciso observar também essas delicadezas.</p>



<p>Eu vi um vídeo em que padre Marcelo Rossi falava alguma coisa sobre o voto dele e sinalizou nitidamente com a mão, fazendo um L. Ele apagou esse vídeo depois. Mas é isso: ir acompanhando essas declarações e manifestações que não recaem explicitamente num apoio declarado de voto, mas que têm uma mensagem subliminar. Tudo isso pode acontecer agora, porque segundo turno é senso de urgência. A hora é essa. É uma nova eleição. Acredito que, muito provavelmente, alguns atores dos campos católico e evangélico vão ser interpelados a ter algum tipo de posicionamento mais explícito.</p>



<p></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/voto-evangelico-2026/">&#8220;É um grande equívoco colocar o cenário eleitoral na conta dos evangélicos&#8221;, diz socióloga</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Data centers não têm destaque em programas de candidatos, mas devem impactar o Nordeste</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 19:20:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[data center]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2026]]></category>
		<category><![CDATA[nordeste]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A primeira cena que vemos ao entrar na sede do território indígena Anacé, em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza (CE), é um caminhão-pipa despejando água em uma cisterna. Com cerca de 16 mil litros, o carro-pipa custa R$ 250 e o abastecimento costuma durar seis meses. É nesse cenário de escassez hídrica que, a [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A primeira cena que vemos ao entrar na sede do território indígena Anacé, em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza (CE), é um caminhão-pipa despejando água em uma cisterna. Com cerca de 16 mil litros, o carro-pipa custa R$ 250 e o abastecimento costuma durar seis meses. É nesse cenário de escassez hídrica que, a apenas três quilômetros dali, 70 hectares de vegetação, o equivalente a cerca de 100 campos de futebol, foram devastados para a construção de um data center de inteligência artificial para servir ao TikTok – em um projeto da Casa dos Ventos, empresa de usinas eólicas, e da Omnia, de tecnologia.</p>



<p>A instalação deste data center está sendo ruidosa. O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) questionam na Justiça a legalidade do licenciamento ambiental, que foi feito com um relatório simplificado, modalidade prevista para empreendimentos de baixo impacto, e pedem que o data center só opere após elaboração de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA/Rima). O caso acende um alerta para o que pode acontecer em Pernambuco e em toda a região Nordeste.</p>



<p>No dia 15 de setembro, <a href="https://lula.com.br/lula-assina-lei-que-incentiva-instalacao-de-datacenters-no-brasil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o presidente Lula sancionou a lei do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata)</a>, que abre as portas do Brasil para o mercado dos data centers de IA, com uma série de benefícios fiscais. Para ter acesso às vantagens do Redata, a empresa precisa, entre outras exigências, atender a toda a sua demanda de energia elétrica com contratos de suprimento ou autoprodução a partir de &#8220;fontes renováveis ou de baixa emissão&#8221;.</p>



    <div class="lista mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #EBEB01;">
        <span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Os benefícios fiscais do Redata</span>

                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>1. </span>PIS/Cofins, IPI e Imposto de Importação ficam suspensos na compra de equipamentos de TI listados pelo governo, como servidores e componentes. A suspensão vira alíquota zero quando o equipamento é incorporado ao patrimônio da empresa e ela cumpre as exigências de sustentabilidade, energia, água e pesquisa. Se não cumprir, paga os tributos com juros e multa.</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>2. </span>O governo estima que os equipamentos respondem por até 85% do custo de instalação de um data center. A Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) calcula que o regime alcance até um terço do investimento total, porque obra, sistema elétrico e refrigeração ficaram de fora.</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>3. </span> Com a reforma tributária, PIS/Cofins e IPI só ficam suspensos até 31 de dezembro de 2026. Depois sobra o Imposto de Importação, e só para equipamentos sem produção nacional equivalente.</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>4. </span>Fabricantes nacionais que fornecem equipamentos a data centers habilitados também podem se beneficiar, porque a lei permite que eles sejam coabilitados.</p>
            </div>
            </div>



<p>Sócia-fundadora do Instituto Terramar, que vem dando suporte aos indígenas Anacé, Soraya Vanini Tupinambá diz que o Nordeste vai ser a &#8220;zona sacrificial&#8221; do Brasil para a instalação dessas grandes estruturas de computadores. &#8220;O Nordeste concentra a maior produção eólica do Brasil, com destaque para Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí e Pernambuco. Projetou-se uma produção de energia maior do que a capacidade de transmiti-la para o Sudeste pelas linhas de transmissão e de absorvê-la na própria região&#8221;, conta Soraya.</p>



<p>A ideia anterior era usar essa energia sobressalente na indústria de hidrogênio verde, lembra a ativista. &#8220;Todos os estados criaram marcos legais e assinaram memorandos de entendimento, mas as plantas de hidrogênio verde não avançaram como se esperava. É essa sobreoferta de energia que hoje atrai os data centers, ávidos por água e energia&#8221;, avalia.</p>



<p>O Semiárido do Nordeste, porém, é uma região de escassez hídrica, onde os recursos já são insuficientes para as necessidades das populações locais. &#8220;Atrair um setor que também consome muita água é extremamente desafiador. Nos data centers, há um balanço entre água e energia: se usa muita água, gasta-se menos energia; se usa pouca água, gasta-se muita energia. Os impactos são claros. Mesmo num sistema fechado, há perda de água por evaporação e contaminação pelo uso de fluidos e químicos. Por isso, de tempos em tempos, essa água precisa ser reposta. Não existe sistema fechado sem perdas. Para entender os impactos de um data center, é preciso conhecer a eficiência dele no uso da água e da energia&#8221;, explica Soraya.</p>



<p>O Instituto Terramar acompanhou de perto a luta dos Anacé contra a instalação do data center em Caucaia. Pouco antes de o MPF e a DPU entrarem na Justiça contra o empreendimento, os indígenas Anacé assinaram um acordo com os empresários, para diminuir os impactos na comunidade. O acordo prevê a construção de itens básicos na comunidade, como uma escola e uma horta, e impede os representantes dos Anacé de darem entrevistas criticando o projeto.</p>



<p>Fundador do <a href="https://ip.rec.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">IP.rec </a>&#8211; Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife, o advogado André Lucas Fernandes, doutor em direito com foco em IA, diz que o Redata é um erro por primeiro conceder benefícios fiscais para as empresas antes de estabelecer regras para que essa instalação tenha menos impactos sociais e ambientais. Também não há como as comunidades saberem previamente sobre a instalação de um data center na vizinhança.</p>



<p>&#8220;O Redata não garante essa informação para os moradores. Em Caucaia há uma população indígena no entorno, e o Brasil é signatário da Convenção 169 da OIT, que obriga à consulta livre, prévia e informada. Prévia ela já não foi. E agora houve um acordo com a liderança Anacé para que aceitem o data center em troca de coisas que já eram obrigação do Estado: escola, estrada, água, saúde&#8221;, critica André Fernandes.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/data-center-pipa-300x169.jpeg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/10/data-center-pipa-1024x576.jpeg" alt="Foto de uma área rural com vegetação abundante e céu azul com nuvens brancas. Em primeiro plano, uma pessoa está posicionada atrás de um caminhão-tanque branco estacionado ao lado de uma construção simples de tijolos aparentes. Próximo ao veículo, há uma estrutura circular de concreto com cobertura em formato cônico, sugerindo um reservatório ou sistema de armazenamento de água. Árvores e coqueiros cercam o local, reforçando o ambiente campestre e de infraestrutura hídrica." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Maria Carolina Santos/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">A discussão sobre data centers em Pernambuco</h2>



<p>Há basicamente dois tipos de data centers. Os chamados <em>edge</em> (de borda) são instalações pequenas, espalhadas e próximas dos usuários, muitas vezes dentro de prédios nas cidades. Servem para reduzir o tempo de resposta da internet (a latência), em aplicações como streaming, internet das coisas ou cirurgia remota.<br><br>Os que vêm causando problemas mais sérios são os de hiperescala. São complexos gigantescos, com galpões que podem ocupar áreas equivalentes a dezenas de campos de futebol e consumir centenas de megawatts, como o de Caucaia, projetado para 300 MW. Concentram enorme capacidade de processamento para nuvem e inteligência artificial e, por isso, exigem energia dedicada e muita refrigeração.<br><br>Segundo levantamento do site <a href="https://www.datacentermap.com/brazil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Data Center Map</a>, o Brasil tem 218 data centers em operação. Em Pernambuco, há três em funcionamento, todos no Recife e do tipo <em>edge</em>. Ainda não há nenhum projeto divulgado de data center de hiperescala para o Recife, mas há rumores de um possível projeto no Complexo Eólico Ventos de São Clemente. Nas listas públicas do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o único pedido de conexão de um data center de grande porte em Pernambuco é de um projeto da Eólica Serra das Vacas em Paranatama, no Agreste, que não avançou.<br><br>Com potencial para gerar conflitos no interior do estado, o tema dos data centers está sendo pouco discutido nas campanhas e nos guias eleitorais. Quando aparece, é sob o guarda-chuva do desenvolvimento econômico, sem se problematizar a questão do barulho, da água e da energia.<br>A Marco Zero analisou os programas de governo das três candidaturas que pontuam nas pesquisas para o Governo do Estado e também dos dois principais candidatos à Presidência. Confira o que eles dizem, ou não dizem, sobre data centers.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Os data centers nos programas dos candidatos ao Governo de Pernambuco:</h3>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Raquel Lyra (PSD): </span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Em número de páginas, 106, é o mais longo plano de governo entre os analisados pela Marco Zero. O termo “data center” não aparece nenhuma vez. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao falar de tecnologia de forma ampla, o programa fala genericamente em “promover a atração de empresas globais de tecnologia” e “promover o Sertão do Nordeste como polo estratégico de tecnologias e saberes inovadores para a economia do futuro e a adaptação climática”.</span></p>
<p><a href="https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/NORDESTE/PE/20322002026/170002537227/2026/PE" target="_blank" rel="noopener">Baixe o programa de governo no DivugaCand </a></p>
	</div>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">João Campos (PSB):</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">A proposta sobre data centers aparece no eixo “Ciência, Tecnologia e Inovação” das 30 páginas de propostas do ex-prefeito do Recife. A ideia é ampliar a rede de cabos para atrair data centers para o estado. Não se fala em impactos socioambientais. </span></p>
<p><b>Trecho completo:</b><b><br />
</b><span style="font-weight: 400;">“Implantar o Cinturão da Inteligência, conectando a entrada de cabos submarinos em Suape ao Polo Industrial de Goiana e à expansão da fibra óptica para o interior. A rede ampliará a conectividade de empresas, serviços públicos e comunidades e fortalecerá a atração de data centers e investimentos tecnológicos.”</span></p>
<p><a href="https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/NORDESTE/PE/20322002026/170002537230/2026/PE" target="_blank" rel="noopener">Baixe o programa de governo no DivugaCand </a></p>
	</div>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Ivan Moraes (PSOL):</span>

		<p>O programa do candidato fala das pressões sobre energia e água que a instalação de um data center impõe e é o único dos programas analisados pela Marco Zero a criticar os impactos ambientais que atingem as comunidades locais.</p>
<p>Em 86 páginas, a palavra “data center” aparece duas vezes no documento em um mesmo parágrafo, no eixo Ciência e tecnologia.</p>
<p><strong>Trecho completo:</strong><br />
Nos últimos anos, a região Nordeste tem se tornado alvo da expansão acelerada de infraestruturas que usam intensivamente seus recursos naturais, como grandes data centers e projetos energéticos de larga escala. Embora sejam frequentemente apresentados como símbolos de inovação e desenvolvimento, esses empreendimentos podem gerar forte pressão sobre recursos hídricos, energia elétrica, territórios rurais e ecossistemas locais, especialmente em regiões já afetadas pela escassez hídrica e pelas mudanças climáticas. Além disso, a instalação de data centers costuma ocorrer mediante benefícios fiscais, flexibilização regulatória e reduzida participação popular nos processos decisórios, enquanto os impactos ambientais e territoriais recaem sobre comunidades locais.</p>
<p><a href="https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/NORDESTE/PE/20322002026/170002538097/2026/PE" target="_blank" rel="noopener">Baixe o programa de governo no DivugaCand </a></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Os data centers nos programas dos candidatos à presidência:</h3>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Lula (PT):</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Os datacenters são citados como uma estratégia para a soberania tecnológica do Brasil. O documento fala também “salvaguardas socioambientais obrigatórias” e na utilização progressiva de fontes 100% renováveis, além de contrapartidas de “conteúdo local”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Datacenter” ou “data center” aparece três vezes no programa de 84 páginas, em dois parágrafos encadeados. Trecho completo: </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Para que o Brasil ocupe posição de liderança em áreas estratégicas como inteligência artificial, transformação digital, biotecnologia, fármacos avançados e transição energética, precisamos avançar nos elos da cadeia de valor da transformação digital. No próximo ciclo, vamos fomentar o desenvolvimento do ecossistema nacional de tecnologia digital, desde a cadeia de datacenters até os serviços de nuvem, com destaque para o fortalecimento da inteligência artificial desenvolvida por empresas brasileiras. Mobilizaremos investimentos, inovação, compras governamentais e sinergias entre empresas públicas e privadas, universidades e centros de pesquisa, fortalecendo a capacidade nacional nas cadeias digitais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vamos avançar numa infraestrutura computacional soberana, com supercomputadores desenvolvidos e operados por instituições nacionais. Vamos assegurar que a expansão de data centers e infraestruturas de inteligência artificial seja acompanhada de salvaguardas socioambientais obrigatórias, exigindo eficiência energética, utilização progressiva de fontes 100% renováveis e avaliação de impactos sobre o sistema elétrico, hídrico e populações locais. Além disso, a instalação dos datacenters em solo brasileiro deve prever contrapartidas de conteúdo local e capacidade computacional para o mercado interno.&#8221;</span></p>
<p><a href="https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/arquivos/proposta-pt/@@display-file/file/proposta-pt.pdf" target="_blank" rel="noopener">Confira o programa completo</a></p>
	</div>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Flávio Bolsonaro (PL):</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Os data centers aparecem em quatro temas do programa de 76 páginas. A palavra “Data center” aparece seis vezes. O único aceno ambiental é &#8220;data centers sustentáveis, aproveitando a matriz elétrica renovável&#8221;. Não há menção à água, impactos sociais e locais ou salvaguardas. </span><span style="font-weight: 400;">Trechos completos: </span></p>
<p><b>Energia<br />
</b><span style="font-weight: 400;">“Na energia elétrica, vamos simplificar a conta de luz, racionalizando encargos e subsídios cruzados, e promover a redução gradual da CDE e das fontes incentivadas, mantida a tarifa social. A mesma redução de impostos sobre energia e combustíveis que alivia o orçamento das famílias, detalhada no Brasil Mais Barato, torna o país competitivo para atrair data centers e inteligência artificial, que se instalam onde a energia é barata e confiável. Vamos regular as diversas fontes buscando o menor preço ao consumidor final, implantar um programa de armazenamento de energia, com baterias de grande porte e outras tecnologias, e transformar o país em polo global de data centers sustentáveis, aproveitando a matriz elétrica renovável.”</span></p>
<p><b>Minerais críticos<br />
</b><span style="font-weight: 400;">“Minerais críticos a riqueza do subsolo virando emprego qualificado aqui dentro. Os data centers e a transição energética funcionam sobre minerais que poucos países têm, e o Brasil é um deles. Temos lítio, nióbio, grafite, cobre, níquel, urânio e terras-raras, insumos essenciais para semicondutores, baterias, turbinas eólicas, veículos elétricos, defesa e inteligência artificial. E temos algo que quase ninguém tem junto: o mineral e a energia limpa e competitiva para transformá-lo aqui dentro. Em vez de somente exportar a pedra bruta e comprar de volta o produto acabado, vamos agregar valor no Brasil, conectando nossa riqueza mineral, nossa energia e a demanda dos data centers e das novas tecnologias numa estratégia única.”</span></p>
<p><b>Tecnologia e inovação<br />
</b><span style="font-weight: 400;">“Mais do que usar a inteligência artificial, o Brasil tem tudo para produzi-la. Podemos reunir o que poucos países têm ao mesmo tempo: energia limpa e barata para alimentar os data centers, os minerais críticos que são a matéria prima da tecnologia, e o talento de um povo criativo, que este Plano se compromete a formar. Não seremos apenas consumidores de tecnologia: seremos também seus desenvolvedores e produtores. Esses elementos, hoje tratados como peças soltas, formam uma única estratégia nacional para tornar o Brasil protagonista da economia do século 21.”</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><b>Desenvolvimento regional<br />
</b><span style="font-weight: 400;">“O Nordeste não é só o passado que resistiu, é o futuro que começa. Tem sol e vento de sobra para ser a capital da energia limpa do país, e é essa energia farta e competitiva que vai atrair os data centers e a nova indústria de tecnologia. Tem as terras raras, matéria-prima sem a qual não existe a economia do século 21. O Nordeste tem tudo para oferecer ao nordestino a chance de prosperar na sua própria terra, atraindo investimento, talento e oportunidade.”</span></p>
<p><a href="https://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-2026-content/arquivos/proposta-pl/@@display-file/file/proposta-pl.pdf" target="_blank" rel="noopener">Confira o programa completo</a></p>
<p>&nbsp;</p>
	</div>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>A repórter viajou até Caucaia, no Ceará, em meio ao <em>workshop</em> sobre ciência oceânica para jornalistas promovido pela Earth Journalism Network. </strong></li>
</ul>



<p></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/data-centers-nao-tem-destaque-em-programas-de-candidatos-mas-devem-impactar-o-nordeste/">Data centers não têm destaque em programas de candidatos, mas devem impactar o Nordeste</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>&#8220;Com o El Niño, o oeste do Nordeste vai ser muito castigado pela seca&#8221;, alerta climatologista</title>
		<link>https://marcozero.org/el-nino-seca-nordeste/</link>
					<comments>https://marcozero.org/el-nino-seca-nordeste/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Sep 2026 20:16:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[agronegócio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O El Niño vai trazer seca para o Nordeste, principalmente na parte oeste da região, mas vai trazer principalmente calor, muito calor, com temperaturas acima da média. Em junho, a Marco Zero entrevistou o climatologista Humberto Barbosa, fundador e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/el-nino-seca-nordeste/">&#8220;Com o El Niño, o oeste do Nordeste vai ser muito castigado pela seca&#8221;, alerta climatologista</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O El Niño vai trazer seca para o Nordeste, principalmente na parte oeste da região, mas vai trazer principalmente calor, muito calor, com temperaturas acima da média. Em junho, <a href="https://marcozero.org/o-que-o-nordeste-pode-esperar-do-el-nino-2026-e-como-se-preparar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a Marco Zero entrevistou o climatologista Humberto Barbosa</a>, fundador e coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Naquela época, a certeza era de que haveria um El Niño, mas sua intensidade ainda era objeto de debate. Ouvimos o cientista novamente na segunda semana de setembro: é um El Niño muito intenso e, pior, que ainda não atingiu seu pico.</p>



<p>Apesar de o El Niño estar ofuscado pela campanha eleitoral, Humberto Barbosa reforça que governos já deveriam ter começado a se preparar para enfrentar o fenômeno – que é natural, mas tem se intensificado por conta das mudanças climáticas. Em entrevista para a Marco Zero, o cientista explica o que é o fenômeno e quais são seus impactos diretos e indiretos, a grande influência do oceano no clima e o que já se sabe sobre como serão os próximos meses. Em vários momentos da entrevista usa o verbo “castigar” para falar sobre os efeitos do fenômeno no Brasil.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-3-Humberto-1024x682.jpeg" alt="Humberto Barbosa está sentado à mesa em um ambiente interno, usando óculos, camiseta azul e camisa jeans aberta; tem cabelos curtos e escuros e aparece em posição de conversa, com uma das mãos apoiada sobre a mesa. Ao fundo, há uma parede cinza com formas circulares claras e um banco estofado vermelho, compondo uma cena de entrevista ou reunião." class="" loading="lazy" width="655">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Humberto Barbosa, meteorologista, coordenador do Lapis/UFAL
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Semiárido nordestino</h2>



<p>&#8220;A partir do momento em que é um El Niño intenso, já se sabe que há um padrão clássico: seca no Nordeste e enchentes no Sul. Mas isso vai depender também, no caso do Nordeste, do Atlântico. Onde está muita incerteza é em relação ao leste (a costa do Nordeste) até metade do interior. Até fevereiro, a pré-estação chuvosa pode ser até boa e isso ilude muitas vezes os agricultores. Podemos ter uma boa pré-estação, que é de dezembro a janeiro, criando até uma expectativa no agricultor, mas chega fevereiro, março, e aí entram os veranicos, diminuindo a chuva. Olhando agora, eu consigo fazer uma análise até fevereiro: a costa está normal. Ou seja, aquela variabilidade não está interferindo. O Atlântico e o Pacífico estão quase se cancelando. Pode ser que isso mude daqui a alguns meses, em função mais do Atlântico do que do Pacífico.</p>



<p>O que temos que esperar é o final de outubro. É quando vai nos dar uma clareza maior de como vai ser o resto da estação chuvosa, que é a estação mais crítica do semiárido, que vai de fevereiro a maio.</p>



<p>O problema do Nordeste não é só a questão da chuva. Na verdade, a região semiárida do Nordeste tem até um volume de chuva acima de muitas outras regiões semiáridas. O problema é a evaporação, em função das altas temperaturas. O Nordeste é uma área-piloto. Se eu quiser testar um modelo climático e não funcionar para o Nordeste, ele não funciona para lugar nenhum, porque é uma região onde os oceanos controlam o clima de fevereiro a maio. Se esse modelo não conseguir prever para essa região, jogue-o fora, porque não vai ter outra região do globo em que ele consiga entender o impacto&#8221;.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/na-cop-17-asa-defende-combate-a-desertificacao-que-fortaleca-comunidades-tradicionais/" class="titulo">Na COP 17, ASA defende combate à desertificação que fortaleça comunidades tradicionais</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/clima/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Clima</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<h2 class="wp-block-heading">Costa leste do Nordeste</h2>



<p>&#8220;Na costa leste é um cenário favorável. O litoral do Nordeste foi abaixo da média de chuvas, mas poderia ter sido muito pior. Não foi muito pior porque o Atlântico está aquecido, e aumentou a passagem de frentes frias, principalmente de julho para setembro. Essas frentes frias terminam jogando mais umidade em direção à costa leste. Como as águas do mar estão mais quentes, terminam aumentando a convecção, o que chamamos de cavados, que são sistemas de baixa pressão. Por isso as chuvas foram um pouquinho mais bem distribuídas em Pernambuco.</p>



<p>Mas se olharmos para Alagoas e Sergipe, já indo para a Bahia, é outro cenário, é um cenário mais seco. Esses dois estados estão muito abaixo da média, estão chamando muito a atenção. Você tem uma mancha de redução de chuva nos últimos meses que chama muito a atenção sobre os estados de Alagoas, Sergipe e algumas áreas da Bahia. O Atlântico não salvou, porque as águas estavam mais neutras, mas, como sob forte influência do El Niño, terminaram não trazendo a chuva esperada para essa época do ano, que é a estação chuvosa deles.</p>



<p>Já em Pernambuco até o Rio Grande do Norte, esses últimos meses, considerando que já estamos sob uma influência de El Niño muito forte, até que esse final da estação chuvosa foi bom. Saímos no lucro. O leste já terminou a estação chuvosa, pegou El Niño já na metade da estação chuvosa, e com o Atlântico não foi tão castigada.</p>



<p>Toda a região costeira tem uma tendência de estar mais quente, e mais quente até mesmo do que o Atlântico Norte, e isso nos beneficia, porque, com essas altas temperaturas, se alguns sistemas chegam ali ao meio do Atlântico, os ventos terminam ajudando, trazendo um pouco de alívio para essa região. Até fevereiro, a costa leste está a dizer assim: olha, está normal. Se algum sistema meteorológico chegar aqui, não vai ter nenhuma inibição: vai provocar chuva.</p>



<p>Como o Atlântico Sul está mais quente, é muito provável também que a zona de convergência em algum momento esteja um pouquinho fraca, mas favorável para essas chuvas que ocorrem no Nordeste em fevereiro. As ondas de leste, a partir de março, já começam a aparecer.</p>



<p>Em 2027, a estação chuvosa da costa leste pode ser que tenha um início irregular, ali por abril, mas vai melhorando à medida que vão chegando os meses de junho e julho. Pode ser favorável para alguns estados e outros nem tanto. Mas a parte leste do sul do Nordeste, pegando Alagoas, Sergipe e a Bahia, já vem nos últimos anos com redução de chuva significativa. E isso tudo são pontos que vão começar a ficar mais agudos a partir do final deste ano e do primeiro semestre de 2027&#8243;.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Seca e estiagem deixam 641 municípios em situação de emergência no Brasil</span>

		<p>O Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) divulgou na quarta-feira passada (16) um novo mapa de monitoramento mensal da precipitação, baseado em dados de satélite (foto abaixo). O mapa destaca o volume e a distribuição das chuvas nas regiões brasileiras no período de nove de agosto a 10 de setembro.</p>
<p>De acordo com o Lapis, a distribuição de chuvas se concentrou fortemente na região Sul, além de áreas pontuais da Amazônia e do leste do Nordeste. No Nordeste, o interior consolidou uma seca relâmpago, que é um evento de rápida intensificação da seca, associado às altas temperaturas.</p>
<p>O Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, registrou no dia 16 de setembro um total de 641 municípios brasileiros em situação de emergência por seca e estiagem. São cerca de 5 milhões de pessoas atingidas. O semiárido concentra a maior parte dos municípios afetados pela seca.</p>
	</div>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-1-300x300.jpeg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/seca-el-nino-1.jpeg" alt="Mapa da América do Sul com estimativa de precipitação acumulada por satélite para o período de 9 de agosto a 10 de setembro de 2026, usando cores para indicar volumes de chuva, do marrom e laranja (menor precipitação) ao verde e azul (maior precipitação); uma ampla área destacada sobre o centro-norte e nordeste do Brasil aparece em tons alaranjados e está identificada como “situação de seca meteorológica”, indicando baixos índices de chuva em comparação com outras regiões do continente que apresentam volumes mais elevados de precipitação." class="" loading="lazy" width="592">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Lapis/UFAL</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h2 class="wp-block-heading">Matopiba e oeste do Nordeste</h2>



<p>&#8220;Esse é um período mais seco na Amazônia, mas está ficando ainda mais seco em função do resfriamento ali na costa setentrional. Isso pega um pouco também do Norte e do Nordeste, já ali entre Maranhão, Piauí, e isso já é consequência do resfriamento do Atlântico, que tem uma relação direta com o El Niño. É uma tendência que vai continuar. Olhando do leste indo para o interior do Nordeste, essa chuva começa a diminuir. E essa diminuição se torna mais significativa à medida que se vai para a região oeste do Nordeste, onde está o Matopiba, que é Maranhão, Tocantins, Piauí e o oeste da Bahia. Essa região vai ser muito castigada pela seca. Essa tendência se mantém até pelo menos o início de 2027. Tudo vai estar muito influenciado por essas condições do El Niño. O Atlântico não vai conseguir reverter, porque ele é muito intenso.</p>



<p>A transição entre a Caatinga e o Cerrado é uma região produtora de grãos, uma região de agronegócio que vai ter problemas. O oeste do Nordeste vai entrar agora em outubro já na fase chuvosa. E tudo indica que o início da estação chuvosa do oeste, que é muito próximo ali da Amazônia, também vai estar abaixo da média.</p>



<p>O oeste do Nordeste é muito pouco falado, porque normalmente tem uma distribuição de chuva um pouco mais frequente. Mas neste ano a região vai chamar a atenção por essa variabilidade de impacto do El Niño, de seca mais aguda para essa área do que para qualquer outra região do Nordeste do Brasil&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Amazônia mais seca</h2>



<p>&#8220;A Amazônia entre 2023 e 2024 foi duramente castigada, a ponto de ter os rios em um nível muito baixo, tanto que até mesmo para a entrega de alimentos, distribuições, teve um impacto. Houve morte até de botos, enfim, foi muito impactante. Tudo indica novamente que a Amazônia vai ser castigada, muito impactada. A realidade vai ser um país com uma redução de chuva significativa na Amazônia, muito possivelmente, ou até talvez um pouco pior do que foi entre 2023 e 2024&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Sudeste mais quente</h2>



<p>&#8220;A região Sudeste também vai ser muito castigada, porque nos El Niños anteriores havia mais o aumento das temperaturas, mas pela primeira vez estamos vendo que as secas estão mais agudas nessas regiões. Esse padrão atmosférico do El Niño indica que a região Sudeste vai ser também significativamente afetada por uma redução de chuva. Muito parecido com o que ocorreu na seca de 2015-2016. As usinas hidrelétricas também podem ser impactadas&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Chuvas no Sul do Brasil </h2>



<p>&#8220;Na região Sul, o Atlântico não tem a mesma influência, porque já está numa região quase no fim dos trópicos e extratrópicos, mas ainda assim determina. Tudo indica que o Atlântico vai ficar um pouco mais neutro. Isso só já dá um certo alívio, mas não para tirar a região do extremo Sul do Brasil das chuvas intensas, como já está acontecendo. Então isso vai se estender ainda para o período de janeiro e fevereiro. Poderia até ser pior, mas o Atlântico pode ainda aliviar. Mas esse alívio não é tanto quando comparamos com o Nordeste do Brasil: o papel do Atlântico, porque aqui é uma região tropical, termina sendo mais determinante do que na região do extremo Sul. Essas chuvas que estão ocorrendo no Sul já são consequência do El Niño&#8221;.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;O primeiro impacto do El Niño não é seca, não é enchente, não é onda de calor, não é queimada. São as altas temperaturas&#8221;. </p>
</div>


<h2 class="wp-block-heading">Altas temperaturas</h2>



<p>&#8220;O agravante em relação aos outros El Niños muito intensos são as altas temperaturas. Quase todo o Brasil vai ser impactado. O primeiro impacto do El Niño não é seca, não é enchente, não é onda de calor, não é queimada. São as altas temperaturas. Essa é a ligação direta. Qualquer pessoa pode até discutir se aquela seca é 100% por causa do El Niño. Pode chegar a 80%, 70%. Mas as altas temperaturas são um efeito direto e têm dois componentes que trazem uma complicação.</p>



<p>Primeiro, porque os gases de efeito estufa trazem desequilíbrio térmico ao planeta. Ou seja, a Terra esquenta mais, está guardando mais energia em função não só do vapor d&#8217;água, mas dos gases do efeito estufa que estão presentes na atmosfera. Mas tem um adicional, que é o El Niño. É um impacto direto.</p>



<p>Muito se debate qual é o acréscimo na temperatura. No Brasil como um todo – tirando um pouco o Sul, que vai ter muita nebulosidade – as temperaturas podem ficar em média um a dois graus acima da média histórica.</p>



<p>Devemos passar de 1,5 grau na temperatura global [em relação ao período pré-industrial (1850-1900), a referência usada pelo Acordo de Paris], o que traz imprevisibilidade, porque os eventos extremos estão diretamente relacionados com esse aquecimento. Quanto mais calor tiver na atmosfera, mais umidade vai aumentar nessa atmosfera, e com isso eu vou ter eventos extremos de chuva. Mas o contrário também acontece: quanto menos umidade se tem, quanto mais calor tiver, mais seco vai ficar, e as grandes secas vão ocorrer, os incêndios florestais que já estamos vendo. Isso tudo é um aditivo já do El Niño com a questão do aquecimento global&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Planeta em desequilíbrio</h2>



<p>&#8220;Começamos a entrar num aquecimento do planeta nunca antes registrado. Não sabemos como os sistemas vão se acomodar, porque o planeta busca o equilíbrio, mas, para buscar esse equilíbrio, ele vai jogar todo o excesso de energia em regiões onde vai ter mais chuva, mais seca, para encontrar o equilíbrio termodinâmico. Alguém injetou muito calor nele, ele vai ter que dissipar esse calor. Ele não guarda, ele implode. Então, o planeta tem que distribuir isso com chuvas e com campos de pressão.</p>



<p>É um planeta em desequilíbrio. Desde os anos 1980, está saindo menos energia do que entra, e a Terra está ficando mais quente. Esse aquecimento no Pacífico vai interferir nas temperaturas em todo o globo. E aí ele provoca mais ondas de calor, mais queimadas, tudo em função das altas temperaturas, que estão mexendo nos padrões de precipitação e pressão.</p>



<p>Tipo assim: vou fazer uma fogueirinha. Eu vou controlar aquele fogo. Mas à medida que você começa a colocar mais lenha, mais fogo, você acha que controla o fogo, mas ele começa a tomar uma dimensão sobre a qual você não tem mais controle&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Seca relâmpago</h2>



<p>&#8220;Seco e quente é a pior combinação, porque aí tem uma tipologia de seca. <a href="https://noticias.ufal.br/servidor/noticias/2024/7/estudo-desenvolve-modelo-com-inteligencia-artificial-para-detectar-secas-relampagos-1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Fizemos até um estudo</a>, o primeiro estudo na América do Sul, sobre a combinação das altas temperaturas e da redução de chuva. É o pior cenário, porque isso acontece em poucas semanas. O solo perde muita umidade e a atmosfera está mais seca também. Uma atmosfera mais seca está sugando muito mais rápido essa umidade do solo, que também está recebendo menos carga d&#8217;água. Quando os dois combinam, isso acelera essa seca, que chamamos de seca relâmpago.</p>



<p>E é o primeiro sinal para que as outras secas clássicas, a seca meteorológica, a seca hidrológica e a agrícola, ocorram. Só vemos o impacto delas, não vemos o início. Já a seca relâmpago, sabemos como determinar o início e o fim dela. E o que determina a seca relâmpago? É a umidade do solo. Se essa umidade do solo estiver abaixo de 20%, já posso contar os dias em que a seca já está atuando. E normalmente, para o solo perder essa água, é porque também as temperaturas estão altas. Os açudes secam mais rápido&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Mortes por calor</h2>



<p>&#8220;O calor tem um impacto direto não só na economia, mas na saúde. O calor mata. Aqui na região tropical nos adaptamos. Estamos vendo o que aconteceu no verão da Europa. Os jovens, as crianças e os idosos são os mais vulneráveis. E a nossa infraestrutura, ainda que boa parte do país esteja na região tropical, ainda não está preparada. Se você anda nos centros urbanos, você não vê um bebedouro. Não há água, não há bebedouros, não há pontos de refrescamento públicos. Você fica muito vulnerável em dias de altas temperaturas. Já houve mortes em shows. Vamos ter um carnaval muito quente.</p>



<p>O índice de calor é calculado pela combinação de alta umidade, ou seja, muito vapor d&#8217;água na atmosfera, com altas temperaturas. Quando se tem 33 graus e mais 60% ou 70% de umidade, se entra em zonas perigosas. O nosso corpo humano está adaptado a mais ou menos 36 graus, e não oscila muito: ou eu vou transpirar muito, ou meus vasos sanguíneos vão se contrair quando está frio, para manter esses 36 graus. Mas quando começa a ter muita umidade, muito calor, o cérebro não consegue dar conta da demanda, mesmo que eu esteja hidratando o corpo, num período muito curto. Em poucas horas o cérebro não consegue administrar essa mudança corporal, e aí entra em colapso.</p>



<p>Quando começa a ficar todo verão nessas condições, a sociedade civil também começa a pressionar os gestores e a cobrar investimentos. Não se fala muito sobre isso, mas poderemos precisar de abrigos contra o calor. Os centros de convenções são uma alternativa, já que a maioria tem estrutura de ar-condicionado, principalmente nas capitais. Numa semana de onda de calor, é preciso ter onde abrigar quem está vulnerável, num lugar com a temperatura controlada&#8221;.</p>


    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>Um estudo do Laboratório de Impacto Climático, um consórcio de várias universidades, divulgado nesta quarta-feira (23), estima que <a href="https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/09/23/super-el-nino-pode-causar-450-mil-mortes-por-calor-ate-fevereiro-diz-estudo.ghtm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">451 mil pessoas podem morrer no mundo até fevereiro</a> de 2027 por conta do El Niño. Para o Brasil, a estimativa é de <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2026/09/mais-13-mil-mortes-por-calor-no-brasil-sao-estimadas-devido-ao-el-nino.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">até 13,3 mil mortes.</a></p>
        </div>
    </div>



<h2 class="wp-block-heading">A intensidade do El Niño</h2>



<p>&#8220;Maio e junho foram os meses em que tivemos uma intensidade crescente, até acima do que havia sido previsto. A comunidade científica também esperava um El Niño intenso e forte, mas ele foi ainda um pouco acima do que era esperado. Ele vem numa intensidade muito forte, acima de dois graus e crescente: ainda continua aumentando esse aquecimento no Pacífico.</p>



<p>Já passou dos dois graus, que normalmente a mídia coloca como super El Niño. Mas, para os climatologistas, não há essa classificação de &#8216;super El Niño&#8217;, &#8216;El Niño Godzilla&#8217;. Temos a classificação de fraco, moderado, muito forte e extremo. O atual já está saindo da condição “muito forte” e indo para “extremo”. Tem regiões que já estão em mais de três graus acima da média.</p>



<p>Este El Niño já é caracterizado como o mais intenso registrado, no mínimo, nos últimos 50 anos. E ele continua ainda se desenvolvendo de uma forma crescente. Para nós, climatologistas, que trabalhamos com dados, a partir do momento em que ele chega a 2,5 ou três graus, não necessariamente a atmosfera vai responder linearmente na mesma intensidade. Pode ser até que alguns pontos sejam muito intensos, mas não é tão direta essa relação&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O pico e o fim do El Niño</h2>



<p>&#8220;O pico do El Niño vai ser em novembro. A resposta dele vai chegar em fevereiro, do ponto de vista da atmosfera, porque há um <em>delay</em>. O oceano chega ao seu pico e aí vai diminuindo, mas continua presente. Mas a atmosfera só começa a responder a esse pico entre fevereiro e março. Sempre tem uns dois a três meses de delay para que o sistema oceano-atmosfera vá se ajustando a essas condições.</p>



<p>Pegando os grandes El Niños, os mais conhecidos, 1982-1983, 1997-1998, 2015-2016, sempre chegam ao fim entre março e abril. Há uma expectativa de que este de 2026-2027, entre março e abril, chegue ali próximo de 0,5 grau de aumento na temperatura do Pacífico, o que já estaria fraco, e em maio já estaria neutro. Essa é uma tendência, não uma previsão.</p>



<p>Quando colocamos o fim em abril, pode ser que ele ainda vá um pouquinho mais do que isso, porque não é o El Niño olhando as temperaturas, mas é a atmosfera, o El Niño atmosférico. A intensidade dele de 2 graus já foi embora, o oceano já esqueceu a temperatura mais alta, já está com águas mais frias, mas a atmosfera ainda está ligada com aquela memória de quando o El Niño estava forte. Ele não desaparece assim&#8221;.</p>



<div class="citacao ms-auto my-5">
	<p class="m-0">&#8220;&#8230;nossa infraestrutura ainda não está preparada. Se você anda nos centros urbanos, você não vê um bebedouro. Não há água, não há pontos de refrescamento públicos&#8221;. </p>
</div>


<h2 class="wp-block-heading">El Niño: o que é e como age</h2>



<p>&#8220;O El Niño é natural e recorrente. A cada dois a sete anos, embora já tenha mudado para três a cinco anos, você tem esse fenômeno. Não é algo novo. Não se entendia bem o que era, mas já havia registro desde os anos 1800. Quando eu falo do El Niño, eu estou falando de uma região no Pacífico em que os ventos de leste enfraquecem, e com isso essa água começa a se aquecer ali na costa da América do Sul, no Equador, no Peru. Os peruanos notaram que a água estava mais quente e associaram que havia um fenômeno acontecendo ali. E, como isso acontecia por volta de dezembro, coincidindo com o nascimento de Jesus Cristo, veio o nome El Niño.</p>



<p>Isso acontece porque os ventos alísios de leste ficam mais fracos. São eles que normalmente empurram a água quente da superfície para o oeste do Pacífico, na direção da Indonésia, e é por isso que aquele lado do oceano é o mais quente. Quando os alísios enfraquecem, esse empurrão diminui: a água quente deixa de se deslocar e se espalha pelo centro e pelo leste do Pacífico. É essa mudança que altera toda a circulação, chamada de circulação de Walker, e que interfere em toda a região tropical global.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Cidades brasileiras não estão preparadas para calor extremo
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Quando o El Niño alcança o nível em que ele se encontra agora, muito forte, ele tem uma presença muito marcante na atmosfera. Em função desse aquecimento, através da circulação, afeta toda a distribuição de chuvas e dos campos de pressão. São condições únicas. Nunca tivemos essa experiência no passado. Eu posso comparar até a intensidade dele, mas não como é a resposta desse aquecimento. A atmosfera reage de formas diferentes: é heterogênea, não é tão linear.</p>



<p>Mesmo nos anos de El Niño muito intenso, como foi em 1982-1983, 1997-1998, 2015-2016, 2023-2024, cada um tem sua identidade. Mas alguns sinais são clássicos: muita chuva em uma região, menos chuva na outra.</p>



<p>Essa circulação não é tão linear porque o oceano é mais estável, é água, e a atmosfera é fluida, ela tem outros campos de pressão, tem topografia, tem vegetação, tem os outros oceanos interferindo. Então ela torna esses impactos muito mais complexos. Mas sempre entendendo: quando eu falo de seca relacionada com El Niño, é um impacto indireto, nunca é direto. É um impacto que até nós, climatologistas, sempre associamos diretamente, mas não é. A enchente é indireta, os incêndios florestais são indiretos. Porque dependem da chuva: a redução da chuva vai deixar a folha mais seca, e isso vai fazer acontecer um incêndio. Então nunca é em função da temperatura do oceano. Mas as altas temperaturas, não. Essas são diretas.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A dança dos oceanos</h2>



<p>&#8220;O El Niño está interferindo no Atlântico Norte, no sentido de estar resfriando. Na maioria dos casos, o Pacífico e o Atlântico Norte têm quase o mesmo relógio: quando um esquenta, o outro também esquenta. Este ano estamos tendo o inverso: o Pacífico está muito quente e o Atlântico Norte, principalmente ali próximo da região do Equador, está mais frio do que se espera.</p>



<p>Normalmente se fala muito do Pacífico e não se dá a devida atenção ao Atlântico. Mas, de fato, a nossa atmosfera hoje, a circulação de como essas áreas estão sendo impactadas, é exatamente a dança dos dois. Às vezes os dois estão dançando juntos, às vezes os dois estão dançando separados. Não que seja anormal, isso já aconteceu, mas não é tão frequente: estamos tendo um ano em que eles não estão dançando juntos. E eles têm impactos distintos, que podem ser acumulativos, ou podem atuar juntos para inibir um pouco, ou diminuir esse impacto. E o Nordeste do Brasil agora vai começar também a entrar nessa dança.</p>



<p>Na região tropical, o oceano e a atmosfera estão bem coladinhos mesmo, dançando juntos. Só tem um delay: um está escutando a música, e aí depois o outro, dois minutos, cinco minutos, é que escuta a mesma palavra. O cara falou uma palavra aqui, ele demora três minutos para escutar, mas estão juntinhos dançando. Fora dos trópicos, aí eles já não dançam juntos. Eles são um casal separado. Aí vai depender do nível de separação: tem uns amigáveis, outros não tão amigáveis, mas eles não estão juntos.</p>



<p>Na região tropical, o calor vai se dissipando para as altas latitudes, então eles também estão influenciando nas regiões de altas latitudes. Mas é na região tropical que os efeitos são mais significativos, mais impactantes, porque eles estão juntinhos. Qualquer perturbação no oceano vai, com o tempo, chegar à atmosfera&#8221;.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/el-nino-seca-nordeste/">&#8220;Com o El Niño, o oeste do Nordeste vai ser muito castigado pela seca&#8221;, alerta climatologista</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
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		<title>Por que o sururu está desaparecendo dos rios do Recife</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Sep 2026 20:14:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[bacia do pina]]></category>
		<category><![CDATA[Brasília Teimosa]]></category>
		<category><![CDATA[Capibaribe]]></category>
		<category><![CDATA[Chapéu de Palha]]></category>
		<category><![CDATA[espécie invasora]]></category>
		<category><![CDATA[ilha de deus]]></category>
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		<category><![CDATA[pesca artesanal]]></category>
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		<category><![CDATA[Recife]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Enquanto cata sururu na Ilha de Deus num fim de manhã, Cíntia Alves, 49 anos, conta que estava grávida de nove meses do segundo filho quando passou o dia todo na maré. Chegou em casa, tirou a lama do corpo e foi para a maternidade. Criou sozinha os dois filhos com o dinheiro que conseguia [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/por-que-o-sururu-esta-desaparecendo-dos-rios-do-recife/">Por que o sururu está desaparecendo dos rios do Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Enquanto cata sururu na Ilha de Deus num fim de manhã, Cíntia Alves, 49 anos, conta que estava grávida de nove meses do segundo filho quando passou o dia todo na maré. Chegou em casa, tirou a lama do corpo e foi para a maternidade. Criou sozinha os dois filhos com o dinheiro que conseguia vendendo o que pegava na maré. Hoje, diz que isso não é mais possível. Há muitos anos que ninguém mais pega sururu na Ilha de Deus. Para encontrar o marisco, pescadores têm que ir para depois da ponte do Pina: lá para os arredores da escultura de Brennand, na ponte do Limoeiro ou até em Olinda. O sururu, tão amado pelos recifenses, está sob ameaça.</p>



<p>Moradora da Comunidade do Bode, no Pina, outro território pesqueiro do Recife, Juliana Maria dos Santos, de 45 anos, começou a pescar aos sete anos com os pais e segue até hoje. Aprendeu cedo que em época de chuva o sururu diminui. Mas a cada ano essa diminuição tem se acentuado. &#8220;Eu fui para a maré ontem [final de julho] e peguei dois quilos de sururu. Isso é muito pouco. Está um bolinho aqui, um bolinho ali. Não é mais como antigamente”, afirma, dizendo que o tempo de procura pelo sururu tem aumentado. &#8220;Eu ando duas, três horas para poder achar o sururu e depois mergulhar”.</p>



<p>O sururu vende fácil, mas a margem é curta. Segundo as pescadoras, uma galé cheia rende cerca de três quilos de massa limpa quando o marisco está magro, como está agora. Desses, R$ 30 vão para quem cata. O quilo é revendido por algo entre R$ 25 e R$ 30.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/juliana-sururu.jpg" alt="Juliana dos Santos é uma mulher negra sentada no interior de um barco de madeira com casco vermelho, ancorado à beira de um rio de águas escuras e calmas. Ela veste uma blusa regata laranja com renda no decote e short verde, com os braços apoiados sobre as pernas e o olhar sereno voltado para o lado esquerdo da imagem. Ao fundo, a paisagem é composta por vegetação de manguezal densa, coqueiros, outros barcos de madeira parcialmente visíveis e uma pequena construção de concreto sob um céu azul claro com nuvens dispersas, sugerindo uma comunidade ribeirinha em dia ensolarado." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">A pescadora Juliana Maria demora mais tempo procurando sururu do que efetivamente pescando.
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Em Brasília Teimosa, a marisqueira Edileuza Silva do Nascimento, mais conhecida como Leu, de 72 anos, diz que de vez em quando ainda sai para mergulhar. “Mas sururu não tem mais de jeito nenhum. A gente vai e às vezes não pega um. Marisco a gente só pega um pouquinho, mas não como antes. É muita poluição, muito lixo, muita garrafa pet, muito vidro. A poluição acabou com o rio Capibaribe”, lamenta ela, que, em 2024, recebeu o título de patrimônio vivo do Recife por seu notório saber na pesca.</p>



<p>Os motivos para a escassez do sururu são muitos e nem todos consensuais entre pesquisadores, pescadores e marisqueiras. O mais citado é a falta de saneamento, somada ao lixo despejado no estuário e ao assoreamento dos rios. Mas há também o que não se resolve localmente: o aquecimento dos oceanos e a alteração no regime de chuvas, efeitos das mudanças climáticas. Entram na lista ainda a pesca de mariscos pequenos demais e o possível aparecimento de uma espécie invasora.</p>



<p>“Na bacia do Pina existe pelo menos uma dúzia de causas para a quantidade de sururu variar, e elas atuam simultaneamente”, diz a oceanógrafa Mônica Costa, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).</p>



<p>Mônica Costa afirma que as reclamações sobre a escassez do sururu no Recife são válidas, mas não são novas. “Se a gente for buscar nos registros, desde o século XIX que os pescadores estão falando disso. O que não diminui a importância do alerta, porque eles estão lá todo dia, estão vendo que as coisas mudam”, diz. &#8220;Qualquer dia, ou semana, ou mês que os pescadores voltam para casa com menos do que o esperado forma um rombo enorme num orçamento que já é muito pequeno&#8221;, acrescenta.</p>



<p>A oceanógrafa explica que as mudanças que têm acontecido no estuário são importantes, principalmente o acúmulo de sedimentos. Mas não adianta apenas fazer dragagens em pontos específicos, já que toda a bacia do rio Capibaribe está comprometida. Dragagens, sozinhas, não resolvem o problema. </p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/zeis-recife-comunidades-pesqueiras/" class="titulo">Zeis no Recife: os limites da lei nas comunidades pesqueiras</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/opiniao/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Opinião</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/moradia/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Moradia</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>&#8220;Desce muita terra para os rios por causa da erosão, da falta de mata ciliar e isso acaba assoreando a bacia. Essa mudança é silenciosa. Vai acontecendo aos pouquinhos e quando você vê está tudo diferente. A questão do Capibaribe tem solução técnica conhecida, mas não tem solução política. O problema não é só no Recife. O problema é integrado, desde lá de Poção até aqui embaixo&#8221;, afirma Mônica Costa, acrescentando que a revitalização do rio é um projeto longo, que ultrapassa o ciclo eleitoral: &#8220;precisa de uma política pública que amarre o pé e a mão do governador e dos prefeitos, com obrigação de fazer, porque quatro anos não é suficiente”.</p>



<p>O biólogo Gilberto Rodrigues, professor de ecologia na UFPE, explica como as mudanças nas chuvas e o assoreamento dos rios influenciam na quantidade de sururu disponível. “O sururu precisa de uma variação de tempo dentro e fora da água para se reproduzir e crescer. No período em que ele está submerso, ele se alimenta e engorda. No período em que está fora da água, ele metaboliza. O sururu ou está ficando muito tempo no seco, sem se alimentar, ou está ficando muito tempo dentro d&#8217;água e não consegue metabolizar o alimento e acaba morrendo”, diz. Essa falta de equilíbrio também é a provável causa da diminuição do tamanho do marisco. &#8220;Não se pega mais sururu gordo”, afirma.</p>



<p>Para Mônica Costa, as mudanças climáticas podem ser a “pá de cal” na pesca artesanal do Recife. “A tendência é que a água vá ficando mais quente, e água quente significa menos possibilidade de sobrevivência. As espécies não conseguem se adaptar tão rápido quanto a mudança acontece”, diz. &#8220;É possível que a atividade pesqueira exista, desde que ela não seja a principal fonte de renda”, acrescenta, afirmando que o mais urgente é uma solução social e econômica, que garanta a dignidade das famílias pesqueiras mesmo em períodos de baixa produção.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Projeto analisa situação da pesca artesanal no Nordeste</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Nenhum órgão público registra quanto sururu sai dos estuários do Recife. A estatística pesqueira nacional ficou 13 anos sem ser publicada e o painel lançado pelo Ministério da Pesca em 2025 não inclui a pesca de mariscos catados em rios urbanos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma pesquisa do projeto <a href="https://www.instagram.com/rede.maris/" target="_blank" rel="noopener">Rede Maris</a>, com financiamento do CNPq, está aprofundando a análise sobre o que está acontecendo com a produção de marisco no litoral nordestino. É um projeto que envolve universidades de todo o Nordeste, como a Universidade de Pernambuco (UPE). A pescadora e estudante de biologia Ana Mirtes Ferreira participou da pesquisa de campo na Ilha de Deus. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Acompanhamos os pescadores da Ilha desde agosto de 2025 até julho deste ano e o que vimos é que a pesca está bem precária. Os pescadores dizem que não é mais garantido sobreviver só da pesca na cidade do Recife. Dizem que pegam mais lixo do que sururu. Antes, em questão de uma hora, se pegava até oito baldes, agora passam cerca de três, quatro horas para pegar a mesma quantidade. É mais tempo caçando o sururu do que pescando o sururu”, relatou. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra angústia que a pesquisa capturou é que os pescadores e pescadoras não pretendem repassar os saberes tradicionais para seus filhos. “Não é porque é uma profissão que traz vergonha, e sim pela falta de segurança, de valorização também do próprio produto e também pelo risco de acidente com material hospitalar e material de construção. E muitas vezes o INSS não assegura, não associa os acidentes sofridos à atividade”, disse Mirtes. O projeto Rede Maris teve início em 2024 e a pesquisa completa deve ser publicada no começo do próximo ano. </span></p>
	</div>



<h2 class="wp-block-heading">Sem defeso, pesca do sururu não tem pausa no Recife</h2>



<p>Uma questão delicada para a escassez do sururu é a sobrepesca: quando a retirada do marisco é maior do que sua capacidade de se reproduzir. Pescador de Brasília Teimosa, Rosiélio Pereira de Paula, 80 anos, afirma que hoje há mais gente indo para a maré sem conhecer os ciclos do sururu e quando ele deve ser retirado ou não. “Tem muita gente que vai só para pegar e vender, sem ninguém para ensinar”, queixa-se.</p>



<p>As próprias lideranças reconhecem que a sobrepesca é hoje um dos muitos problemas do sururu. Edvalda Ramalho, mais conhecida como Valma, preside a Colônia de Pescadores Z-20, de Igarassu, que tem quase sete mil associados, sendo 90% deles mulheres marisqueiras. &#8220;Quando se passa a pegar o marisco que não está no tamanho ideal, passa a ser pesca predatória. O que vai acontecer é o maior impacto ambiental e o reflexo é acabar o sururu&#8221;, conclui.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/poluicao-e-hidronegocios-ameacam-tradicao-e-sustento-da-pesca-artesanal-no-recife/" class="titulo">Poluição e hidronegócios ameaçam tradição e sustento da pesca artesanal no Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/aguas/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Águas</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>É esse impasse que a oceanógrafa Mônica Costa, da UFPE, tem em vista quando fala do papel da própria pesca na escassez. &#8220;Da mesma forma que eu compreendo que existe um lado fraco da corda, eles também estão puxando a corda&#8221;, afirma. &#8220;A pesca artesanal é uma questão de saber tradicional. Se você não se apropria desse saber, você ajuda a detonar o recurso.&#8221;</p>



<p>Ela se refere às regras que os pescadores mais velhos seguiam e que hoje estão se perdendo, como deixar uma área descansar depois de ter sido explorada. De família pesqueira, Jandira Rodrigues, da Comunidade do Bode, descreve como funcionava: quando acabava o sururu num ponto, todos corriam para outro, e quando voltavam, dias depois, o primeiro já tinha se recomposto. &#8220;Hoje não tem nem aqui, nem lá&#8221;, lamenta.</p>



<p>O problema é que ninguém pode parar. &#8220;O marisco se reproduz o ano todo e migra. Porém, no período chuvoso ele se reproduz mais ainda. Mas não é respeitado esse período. Porque o pescador, se não pescar, vai sobreviver de quê?&#8221;, questiona Valma. &#8220;Como é que eu vou proibir o pescador? Eu não tenho poder para isso, não é minha competência. Mas para eles deixarem de pescar e ser proibido, tem que ter um defeso. Tem que receber&#8221;, cobra a presidente da colônia.</p>



<p>A comparação que ela faz é com a lagosta, que tem defeso instituído e seguro pago pelo governo federal. &#8220;Os pescadores de lagosta ficam em casa, recebendo um salário mínimo&#8221;, diz. Para o marisco e o sururu, o que existe é apenas o Chapéu de Palha, um programa estadual que beneficia também pescadores e pescadoras artesanais.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/sururu-cintia-edilene-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/sururu-cintia-edilene.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/sururu-cintia-edilene.jpg" alt="A imagem mostra duas mulheres em um espaço simples e rústico, coberto por telhas de zinco e sustentado por madeiras. À direita, uma mulher de pele escura, corpo robusto e cabelos curtos está sentada em uma cadeira plástica branca, vestindo uma blusa vermelha estampada e shorts coloridos, com expressão serena e olhar voltado para cima. À esquerda, mais ao fundo, outra mulher de pele escura e porte magro usa uma bandana azul e roupas escuras, concentrada em separar ou limpar conchas sobre uma mesa improvisada. O ambiente é modesto, com caixas plásticas, baldes e mesas simples, sugerindo um local de trabalho artesanal ou comunitário." class="w-100" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Beneficiamento do sururu está mais demorado e expõe marisqueiras a riscos de saúde. Na foto, Cíntia e Edilene, da Ilha de Deus
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Sandra da Silva Lima, presidente da colônia de pescadores Z-1, no Recife, conta que já foram feitas várias reuniões para que esse defeso seja estabelecido, mas falta apoio político. &#8220;Nesse período de chuvas, são quatro meses que a gente tem o programa Chapéu de Palha, que não impacta muito devido a alguns vínculos que tem com o Bolsa Família”, explica. &#8220;O defeso seria justamente para esse período mais difícil para as marisqueiras, para que elas pudessem manter suas casas”, cobra.</p>



<p>Representante voluntária da colônia Z-1 na Ilha de Deus, Érika Romão explica que há desconto no Chapéu de Palha para quem é beneficiário do Bolsa Família. “Acho que isso é uma injustiça. Eu e meu esposo somos pescadores: sou do Bolsa Família e ele é do meu cadastro. Recebe só R$ 150. Eu tenho uma irmã, também pescadora, que recebe pouco mais de R$ 380, porque ela não tem Bolsa Família”, explica. “Eu já acho um dinheiro tão pouco. Porque não dá para sobreviver com um salário direito, imagina com R$ 150&#8243;.</p>



<p>Procurado pela reportagem, o Governo de Pernambuco confirmou, por meio da Secretaria de Planejamento, Gestão e Desenvolvimento Regional (Seplag), que há um teto menor para quem recebe o Bolsa Família. O benefício do Chapéu de Palha no segmento da pesca artesanal é de até R$ 387,94, pagos em até cinco parcelas. Para quem também for beneficiário do Bolsa Família, o governo do estado paga apenas R$ 150, valor definido como bolsa mínima pela Lei nº 14.492/2011.</p>



<p>Sobre o pedido das colônias para desvincular os dois programas e equiparar o valor a um salário mínimo, a Seplag não informou se há avaliação em curso. Respondeu apenas que, em 2023, a legislação foi alterada para aplicar reajuste de aproximadamente 38% e acrescentar uma quinta parcela ao programa. Em 2026, foram beneficiadas 6.032 pessoas em 58 municípios, sendo 600 no Recife, com investimento de aproximadamente R$ 6,4 milhões. O pagamento vai de maio a agosto, período que, segundo a secretaria, corresponde à escassez natural dos estoques de sururu e marisco no litoral e aos meses mais chuvosos.</p>



<p>Para receber o benefício é preciso comprovar a atividade por meio do Registro Geral da Pesca, emitido pelo órgão federal, e não estar recebendo aposentadoria ou pensão do INSS, seguro-desemprego ou seguro-defeso. Não há previsão para quem cata e beneficia o pescado sem registro, que é a situação de parte das mulheres ouvidas nesta reportagem.</p>



<p>Questionado sobre ações do estado diante da queda na produção da Bacia do Pina, seja de apoio à renda, saneamento ou dragagem, o Governo de Pernambuco não respondeu: limitou-se a dizer que as ações do Chapéu de Palha seguem o que estabelece a lei do programa.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/barco-sururu.jpg" alt="A imagem mostra uma vista aérea de um pequeno barco azul navegando sozinho sobre águas de tom esverdeado. O barco tem formato estreito e alongado, com uma cobertura simples na parte traseira e alguns objetos dentro, como caixas e equipamentos. Um homem aparece próximo ao centro do barco, aparentemente conduzindo ou trabalhando. A luz do sol reflete na superfície da água, criando pontos brilhantes que destacam o contraste entre o movimento do barco e a imensidão tranquila ao redor." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Pescadores têm que ir cada vez mais longe para achar sururu. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Lixo dá mais trabalho no beneficiamento do sururu</strong></h2>



<p>Para se fixar em pedras, pontes e cascos de navio, o sururu produz um filamento de proteína que endurece em contato com a água, o bisso. Esses fios também prendem os indivíduos uns aos outros, formando um &#8220;tapete&#8221; no leito do estuário. Quando mergulham, os pescadores trazem à superfície a manta inteira. E como o sururu não escolhe onde se fixar, vem junto o lixo que se acumulou no fundo: embalagens, caco de vidro, até agulhas.</p>



<p>Em todas as catações que a Marco Zero registrou na Ilha de Deus e no Bode havia muito lixo. E isso faz com que o trabalho das catadoras, quase sempre mulheres, demore muito mais. &#8220;Antigamente o sururu vinha limpinho. Agora a gente tem que estar com cuidado para não pegar uma agulha, para não pegar um vidro”, diz Edilene Maria Alves da Silva, 58 anos, nascida e criada na Ilha de Deus.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:33% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="533" height="799" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/sururu-vert.jpg" alt="" class="wp-image-76593 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/sururu-vert.jpg 533w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/sururu-vert-200x300.jpg 200w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/sururu-vert-150x225.jpg 150w" sizes="(max-width: 533px) 100vw, 533px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>Antes de ser vendido, e depois da catação para separá-lo do lixo, o sururu é fervido, para a abertura da casca, retirado na unha e novamente catado. Se antes era comum ver muitas mulheres na maré, hoje elas ficam mais nas etapas feitas em terra. &#8220;As mulheres não estão indo pescar. A maioria está catando. Os homens vão na baiteira, recolhem, trazem para elas beneficiarem. Eles é que fazem o mergulho. Tem algumas mulheres que vão, mas hoje 80% são homens&#8221;, detalha Sandra da Silva Lima, da colônia Z-1.</p>
</div></div>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Espécie invasora pode ameaçar o sururu nativo</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Nas muitas entrevistas realizadas para esta reportagem, vários pescadores e pescadoras citaram um sururu que “não prestava para comer” ou um “sururu branco”. &#8220;O sururu que dá junto do shopping Rio Mar é aquele sururu branco, que não tem carne, nem nada. Não adianta pegar ele. Está lastrado lá, mas de sururu branco”, contou Juliana Maria dos Santos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O professor Gilberto Rodrigues acredita que pode se tratar de uma espécie invasora, já registrada em Alagoas. “Eu ainda não tenho o registro dele no Recife, mas não significa que ele não esteja aqui”, diz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Marisqueiras ouvidas pela Marco Zero dizem que o sururu branco não é tão saboroso quanto o sururu nativo. Os relatos de Alagoas, onde mais de 3 mil pessoas sobrevivem da pesca do sururu, afirmam que é um marisco de casca fina e que se desfaz ao ser cozinhado, o que inviabiliza o consumo e a venda, causando prejuízo econômico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><a href="https://noticias.ufal.br/ufal/noticias/2023/3/pesquisadores-da-ufal-estudam-especie-exotica-de-sururu-na-laguna-mundau" target="_blank" rel="noopener">Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas (Ufal)</a> mostrou que o sururu branco tolera melhor do que o nativo as condições da água poluída: pouco oxigênio, muito sedimento, salinidade e temperatura altas. Isso pode ser uma vantagem no estuário do Recife. E como as duas espécies ocupam o mesmo habitat, o risco é que o branco vença a disputa.</span></p>
	</div>



<h3 class="wp-block-heading">Infecções, lesões e sol: os riscos do trabalho das marisqueiras</h3>



<p>A saúde também é cobrada. Edilene reclama que não enxerga mais bem no sol. Cíntia Alves parou porque não aguentava mais as dores no corpo. Mesmo na catação há riscos. Edilene estende as mãos recém-curadas de feridas que coçavam muito. Foram duas semanas afastadas do beneficiamento do sururu, com uma doença dermatológica que ela acredita ter contraído separando o sururu do lixo e da lama poluída. &#8220;A médica disse que era germe da lama”, conta. &#8220;Sou nascida e criada aqui na Ilha de Deus, sempre pesquei e nunca peguei essas coisas, nunca tive esse negócio de germe, nada. Estou com medo que volte de novo. Recomendaram a luva, mas eu não sei trabalhar com luva”, afirma.</p>



<p>Mestre em saúde pública, Alyne Nascimento afirma que é preciso pensar em soluções coletivas para proteger a saúde das marisqueiras. &#8220;É muito difícil a gente chegar e falar: precisa usar luva. Na verdade, o debate precisa ser outro, para além disso: precisamos muito mais dar atenção às questões coletivas, à raiz do problema, que é a questão da poluição, do que focar no risco individualmente”, afirma a biomédica e sanitarista, que pesquisa na Ilha de Deus desde 2020, quando participou de inquérito epidemiológico sobre os impactos do derramamento de óleo de 2019 no litoral pernambucano.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/marisqueiras-sururu.jpg" alt="A foto mostra um par de mãos femininas de pele escura trabalhando sobre uma mesa rosa, limpando pequenos mariscos conhecidos como sururu. As mãos estão molhadas e cobertas de resíduos, com as unhas pintadas de azul, revelando o esforço manual envolvido na atividade. Ao fundo, há mais mariscos espalhados e um recipiente branco, sugerindo um ambiente de preparo ou separação dos frutos do mar. A imagem transmite a dedicação e o contato direto com o trabalho artesanal da pesca e do beneficiamento do sururu." class="w-100" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">O trabalho de beneficiamento do sururu é majoritariamente feito por mulheres
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Pós-doutorando em saúde pública na Fiocruz Pernambuco, o pesquisador José Erivaldo Gonçalves participou da condução de uma cartografia com pescadoras da Ilha de Deus, dentro do Laboratório de Saúde, Ambiente e Trabalho da Fiocruz. &#8220;Quando elas foram mapeando os lugares que pescavam sururu, esses lugares estavam muito interligados aos lugares que têm água poluída, que têm o despejo de esgotos naquela região”, afirmou.</p>



<p>Foram identificados vários problemas de saúde por conta do trabalho na maré, como infecções geniturinárias recorrentes. &#8220;Há também muitos problemas dermatológicos, inclusive o câncer de pele. Muitas vezes não usam protetor solar, porque é caro. O que muitas mulheres fazem é passar querosene na pele, por conta dos mosquitos que têm no mangue. Então, é mais um processo de exposição a hidrocarbonetos. Ao mesmo tempo que elas se dizem felizes fazendo esse trabalho, ele também é adoecedor”, pondera Erivaldo.</p>



<p>Outro problema encontrado na saúde das mulheres que trabalham ou trabalharam na maré foi por conta da postura durante a coleta dos mariscos. “É um trabalho que exige ficar na mesma posição durante muito tempo. Acaba por ocorrer lesões por esforço repetitivo, doenças osteomusculares&#8221;, detalha Alyne.</p>



<p>Com o sururu sob ameaça, o meio ambiente degradado, pescadoras adoecidas e políticas públicas insuficientes, o futuro da pesca artesanal no Recife é incerto. Ao posar para uma foto desta reportagem, Érika Romão teme que a profissão que o pai ensinou a ela vá parar no museu. “Esta foto vai ficar para, no futuro, dizerem: ‘aqui era uma pescadora, isso aqui era um barco, isso aqui era um sururu que existia, mas não existe mais’”, disse. “Quando eu engravidei, há 19 anos, meu pai perguntou: ‘como você vai criar seu filho, pescando?’ E eu criei meu filho na pesca. Hoje em dia eu tenho uma menina de oito anos e eu não sei mais o que é pescar. Vou criar minha filha na pesca? Não dá mais”.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/09/erika-sururu.jpg" alt="A foto mostra Érika Romão, uma mulher de pele morena, cabelos longos e lisos, sentada sobre uma estrutura de concreto decorada com conchas verdes e azuis, à beira de um rio. Ela veste uma blusa rosa, shorts jeans e tênis vermelhos, sorrindo suavemente enquanto olha para a câmera. O cenário ao fundo revela uma paisagem natural com manguezais e, ao longe, uma linha de prédios sob um céu parcialmente nublado e iluminado pelo sol." class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Érika Romão teme pelo futuro da profissão que aprendeu com o pai
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
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	<p>O post <a href="https://marcozero.org/por-que-o-sururu-esta-desaparecendo-dos-rios-do-recife/">Por que o sururu está desaparecendo dos rios do Recife</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Recife tem 273 imóveis preservados por lei e 73% deles estão em apenas oito bairros</title>
		<link>https://marcozero.org/recife-tem-273-imoveis-preservados-por-lei-e-73-deles-estao-em-apenas-oito-bairros/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Aug 2026 21:02:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[iep]]></category>
		<category><![CDATA[imóveis preservados]]></category>
		<category><![CDATA[lei de uso e ocupação do solo]]></category>
		<category><![CDATA[preservação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 1997, o Recife criou um instrumento para garantir a preservação de imóveis, independentemente da área onde estivessem. Eram os Imóveis Especiais de Preservação, os IEPs. A lista nasceu com 154 imóveis e cresceu a passos lentos: foram acrescentados 106 até 2016 e, no ano passado, mais 13, com a promulgação da nova Lei de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 1997, o Recife criou um instrumento para garantir a preservação de imóveis, independentemente da área onde estivessem. Eram os Imóveis Especiais de Preservação, os IEPs. A lista nasceu com 154 imóveis e cresceu a passos lentos: foram acrescentados 106 até 2016 e, no ano passado, mais 13, com a promulgação da nova Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo do Recife.</p>



<p>Entre 1998 e 2011, nenhum imóvel foi acrescentado à lista. Foram 14 anos sem uma única inclusão, o intervalo mais longo desde que o instrumento foi criado. Houve um salto em 2014, mas das 98 classificações daquele ano, 96 vieram no pacote do Plano Específico da Boa Vista, uma lei de zona de preservação que, ao delimitar o perímetro, classificou os imóveis como IEP. Descontado esse conjunto, a Prefeitura incluiu dez imóveis em 28 anos por iniciativa própria: dois em 2012, dois em 2014 e seis em 2015. Depois disso, a lista voltou a ficar parada por uma década.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Quais são os Imóveis Especiais de Preservação do Recife?</span>

		<p><span style="font-weight: 400;">Apenas 87 dos 273 imóveis aparecem na lei com nome próprio. Os outros 186 são identificados só pelo endereço. Entre os nomeados há prédios facilmente reconhecidos pelos recifenses, como a sede do IMIP, o monumento no Morro da Conceição e o Teatro do Parque. Há também quatro pontes da cidade; clubes, como o Internacional e a antiga sede do América; e escolas, como o Instituto Capibaribe e o Educandário São José. Há, ainda, casas e edifícios residenciais, como a antiga residência de Manuel Bandeira, na Rua da União, e o Edifício Barão do Rio Branco, do arquiteto Delfim Amorim, cuja foto abre esta reportagem. </span></p>
<p><a href="https://drive.google.com/file/d/18IZJ8Lk-cDdkKHIQWpO_AqPc9Mk3_po9/view?usp=drive_link" target="_blank" rel="noopener">Confira a lista completa dos IEPs do Recife</a></p>
	</div>



<p>Dos 273 imóveis que compõem a lista da lei municipal – ou 271, já que há uma repetição de endereço e um campo em branco na lista oficial –, 199 estão concentrados em apenas 8 dos 94 bairros da capital pernambucana. O bairro da Boa Vista sozinho tem um quarto dos imóveis da lei.<br><br>Se a definição legal coloca o IEP como um &#8220;exemplar isolado&#8221;, na prática a lei protege alguns conjuntos urbanos sem lhes dar regras mais rígidas, como são as da Zona Especial de Preservação do Patrimônio Histórico-Cultural (ZEPH). A avenida Dezessete de Agosto concentra 33 IEPs; a rua Visconde de Goiana, 24. Na Praça de Casa Forte, são 13; na avenida Rosa e Silva e na rua Marques Amorim, dez em cada. Apenas nove ruas concentram 122 imóveis preservados pela lei dos IEPs.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Oito bairros concentram quase três quartos da lista de IEPs:</h2>



<figure class="wp-block-table"><table class="has-fixed-layout"><tbody><tr><td><strong>Bairro</strong></td><td class="has-text-align-center" data-align="center"><strong>Número de IEPs</strong></td><td class="has-text-align-center" data-align="center"><strong>Porcentagem</strong></td></tr><tr><td>Boa Vista</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">72</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">26,4%</td></tr><tr><td>Casa Forte</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">34</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">12,5%</td></tr><tr><td>Poço da Panela</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">23</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">8,4%</td></tr><tr><td>Graças</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">19</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">7,0%</td></tr><tr><td>Coelhos</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">15</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">5,5%</td></tr><tr><td>Santo Amaro</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">14</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">5,1%</td></tr><tr><td>Ilha do Leite</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">13</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">4,8%</td></tr><tr><td>Derby</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">9</td><td class="has-text-align-center" data-align="center">3,3%</td></tr></tbody></table></figure>



<p>Essa preservação isolada permite, por exemplo, que uma torre residencial avance por cima do imóvel preservado, uma vez que o entorno não tem proteção equivalente. É o caso do Edifício Maria Clementina Vianna, na Praça de Casa Forte, citado pelo arquiteto e urbanista Luiz Amorim. &#8220;É como se houvesse um conflito não apenas de escala, mas de arquitetura, de estilos diferentes. Às vezes a gente consegue concatenar a arquitetura do passado com a arquitetura de hoje de maneira brilhante, mas o que acontece é muito mais nessa condição de esmagamento da edificação que se quer preservar&#8221;, afirma o professor titular aposentado da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que hoje atua no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).<br><br>Em entrevista à Marco Zero, Luiz Amorim fala sobre o surgimento dos IEPs, o que o instrumento protegeu, o que deixou de fora e por que a lista cresceu tão pouco em quase três décadas. Confira abaixo os principais trechos:</p>



<h2 class="wp-block-heading">Entrevista // Uma aula com Luiz Amorim</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>A criação dos IEPs</strong></li>
</ul>



<p>Os IEPs foram criados em lei de 1997. E ela veio com um propósito, digamos assim, nobre, que era o de estender a proteção a um conjunto de imóveis que não teria uma condição exemplar de monumento, como, por exemplo, as grandes obras constitutivas do patrimônio religioso brasileiro, ou as obras cívicas do século XIX, como teatros, escolas, presídios, hospícios, etc., mas que constituem um determinado conjunto de obras de grande significância para a cidade, porque revelam etapas de desenvolvimento da cidade, gostos, modos de vida, técnicas construtivas, inovações compositivas e assim por diante.</p>



<p>E muitas dessas identificações não haviam sido incluídas nas grandes zonas especiais de preservação histórica, algumas delas consagradas ainda no início dos anos 1980 por lei municipal. Então, o IEP veio com esse interesse de tentar salvaguardar uma parcela dessa produção que não seria possível naquele determinado momento. As políticas de preservação são muito contingenciadas pelas questões político-administrativas e teóricas, do ponto de vista daquilo que a gente considera passível de proteção, mas principalmente das dinâmicas urbanas que constituem um mercado específico, que a gente costuma chamar de mercado imobiliário, de utilização do solo para geração de capital, pela multiplicação desse solo num ativo comercial.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/arquiteto-luiz-amorim-thiago-lubambo-300x199.jpeg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/arquiteto-luiz-amorim-thiago-lubambo-1024x678.jpeg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/arquiteto-luiz-amorim-thiago-lubambo-1024x678.jpeg" alt="O arquiteto Luiz Amorim, de barba branca e óculos, diante de uma parede com quadros." class="" loading="lazy" width="663">
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">O urbanista Luiz Amorim aponta a ausência da arquitetura moderna na lista
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Thiago Lubambo/Ceci Galeria</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>O IEP surge nesse contexto: Como é que eu posso conservar um determinado conjunto de imóveis, e mesmo que seja irrefreável esse processo de expansão do mercado imobiliário no Recife, uma das capitais de menor área do país e cujo solo urbano é valiosíssimo, porque ter um endereço no Recife não é o mesmo — estou falando do ponto de vista comercial —, não tem o mesmo valor do que em municípios que constituem a região metropolitana. Então o ativo solo urbano do Recife é muito valioso.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>O esmagamento do imóvel preservado</strong></li>
</ul>



<p>Quando você pergunta o que eu acho da lei: nos anos 1990 eu escrevi um artigo intitulado <em>Trocando gato por lebre</em>, quando eu me referia aos IEPs. Eu utilizei esse ditado porque a minha ideia era revelar que o que se estava fazendo não era necessariamente a conservação desses imóveis, mas permitir que, em certa medida, a multiplicação desse solo urbano pudesse acontecer em detrimento da preservação desses imóveis.<br><br>Essa ideia partia do princípio de que um dos aspectos que é muito levado em consideração no contexto da conservação patrimonial é a ambiência. A ambiência é entendida como aquele contexto urbano no qual esse objeto de interesse de preservação está inserido.<br><br>Exemplo: se eu tenho interesse em conservar um determinado imóvel, ou um conjunto de imóveis, eu teria que levar em consideração o sistema viário, as construções que existem ao redor, a cobertura vegetal e, até em determinadas abordagens, que tipo de atividades ali ocorrem. Se é uma área estritamente habitacional, a dinâmica urbana é distinta daquela que é de comércio e de serviço.<br><br>A proteção do IEP não envolve isso. É essa ambiência que não é respeitada no momento em que eu tenho um imóvel e a três ou cinco metros há uma edificação de 30 pavimentos. É como se houvesse um conflito não apenas de escala, mas de arquitetura, de estilos diferentes. Às vezes a gente consegue concatenar a arquitetura do passado com a arquitetura de hoje de maneira brilhante, mas o que acontece é muito mais nessa condição de esmagamento da edificação que se quer preservar.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/mais-uma-casa-modernista-e-demolida-as-escondidas-em-recife/" class="titulo">Mais uma casa modernista é demolida às escondidas no Recife</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		            </div>
	            </div>
        </div>

		


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>O interior das casas e as edículas</strong></li>
</ul>



<p>O interior dos imóveis, que é testemunho de modos de vida, pode ser alterado por inteiro. Alguns IEPs têm todo o seu “recheio”, toda a parte interior removida para criar um salão de festas, por exemplo. Mas essa parcela histórica é fundamental: entender como as pessoas moravam, onde as pessoas dormiam, onde as pessoas se alimentavam. Isso é a história sendo apagada.<br><br>A lei dos IEPs também não leva em consideração a existência dos anexos, ou seja, das edificações que faziam parte desse conjunto da habitação, as edículas. Nelas, normalmente, você tinha – claro, nas casas mais abastadas – os quartos para os criados, os empregados domésticos, motoristas, lugar para estacionar veículos.<br><br>Como, por exemplo, a casa do barão de Catende, que fica na esquina da rua Amélia com a Rosa e Silva. É hoje o edifício Costa Azevedo. Os anexos daquele casarão denunciavam ou representavam uma estrutura social de elite, com uma edícula que era completamente distinta de outras. Foram itens suprimidos porque foram considerados menores, frente às condições que se impunham naquele momento.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Como o mercado imobiliário se apropriou da lei</strong></li>
</ul>



<p>O mercado imobiliário do Recife conseguiu também fazer dessa lei um ativo imobiliário. É uma vantagem enorme para eles. Para você entender por que o mercado imobiliário aceitou o IEP sem grandes questões: a própria norma estabelece algumas vantagens, como a de que a área do imóvel preservado não é computada na área total do imóvel do empreendimento.<br><br>Isso dá um adensamento maior para a área. E, além disso, os recuos normativos são afrouxados, justamente para poder permitir a construção do imóvel naquele lote. Ou seja, o IEP cria uma brecha para negociações, para tentar viabilizar o empreendimento e viabilizar a preservação do imóvel — ou melhor, do volume do imóvel.<br><br>Na Praça de Casa Forte tem um caso muito curioso, que é um edifício que se projeta sobre o edifício. Não é como se o prédio abraçasse o casarão, mas como se avançasse sobre o imóvel preservado. É um caso emblemático: é aquele em que todas essas normas de afastamentos e proteção de ambiência são rompidas para favorecer a existência do empreendimento. O edifício é o Maria Clementina Vianna, na Praça de Casa Forte, 445, já citado anteriormente. Ver mapa abaixo:</p>



<iframe src="https://www.google.com/maps/embed?pb=!4v1786047199658!6m8!1m7!1sHxSdPnPzCw6yvHTYPj9AsQ!2m2!1d-8.03442200049575!2d-34.91862455275776!3f201.52319138421757!4f11.361679659708116!5f0.7820865974627469" width="600" height="450" style="border:0;" allowfullscreen="" loading="lazy" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin"></iframe>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Dentro do que se queria, o IEP é uma política positiva</strong></li>
</ul>



<p>Na brilhante dissertação de mestrado de José Nilson de Andrade Pereira, que eu orientei, tomamos como referência a documentação original que caracterizava os IEPs em termos de estado de conservação. E utilizamos os mesmos parâmetros para analisar a situação desses imóveis depois de feitas as intervenções.<br><br>A avaliação foi positiva, porque tomamos os parâmetros que foram inicialmente constituídos para a seleção e caracterização dos imóveis. No entanto, esses critérios originais não levavam em consideração aspectos importantes de preservação: o valor da organização espacial interna, seus elementos decorativos, as técnicas construtivas existentes e coisas muito simples, como portas e maneiras de revestimentos. Foram itens suprimidos, porque foram considerados menores.<br><br>Do ponto de vista desse critério metodológico que utilizamos, pode-se dizer que os IEPs foram positivos para a preservação das edificações segundo tais e tais parâmetros, mas não mais do que isso.<br></p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/morro-da-conceicao-300x169.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/morro-da-conceicao-1024x576.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/morro-da-conceicao-1024x576.jpg" alt="Vista aérea do Morro da Conceição, com o Monumento à Virgem cercado de casas." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Monumento no Morro da Conceição é classificado como IEP. 
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>A ausência da arquitetura moderna</strong></li>
</ul>



<p>O que me parece é que a política dos IEPs teve um início festejado, mas não houve uma ampliação sistemática e consistente desses imóveis, principalmente no que concerne aos exemplares da arquitetura moderna.</p>



<p>A maior parte dos exemplares incluídos na lista dos IEPs eram imóveis ecléticos. Há poucos imóveis modernos. E o acervo de residências modernas que nós tínhamos aqui no Recife era absolutamente exemplar.</p>



<p><a href="https://jc.uol.com.br/canal/cidades/geral/noticia/2017/09/13/casas-modernistas-protegidas-por-lei-sao-danificadas-no-recife-306408.php" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Aquelas duas casas na avenida Rosa e Silva</a> eu diria que são obras — esta é a minha opinião — que não estão entre as obras exemplares da arquitetura moderna em Pernambuco. Há outras muitíssimo mais importantes que influenciaram a produção da arquitetura residencial no Nordeste brasileiro.</p>



<p>A ausência de uma política plena de preservação levou à expansão radical do mercado imobiliário em determinadas áreas em que alguns dos representantes dessa arquitetura moderna, principalmente residencial, estavam presentes. Lotes grandes em bairros de expansão na Zona Norte e na Zona Sul foram para o espaço levando parte da história dessa arquitetura no Recife. Então, em certa medida, o instrumento do IEP teve sucesso. E eu diria que mais ainda nos imóveis em que essa troca do solo por mais solo não era possível.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Por que a lista não foi muito ampliada</strong></li>
</ul>



<p>Não houve um interesse político, porque várias iniciativas foram encaminhadas para que decisões políticas viabilizassem o aumento dessa lista. E só recentemente é que alguns imóveis foram incluídos. Muitos, eu diria assim, daqueles que sobraram em pé. Se nós tivéssemos tido uma política mais efetiva, teríamos um acervo muito maior. Porém, talvez o mercado imobiliário teria menos ativos, ou teriam ativos não tão interessantes quanto um solo livre de toda e qualquer edificação no terreno.</p>



<p>Por origem, o IEP tenta adequar uma política de preservação à dinâmica de reprodução do solo urbano, portanto, reprodução do capital imobiliário.</p>



<p>No momento em que essa lei surge, há um certo conflito. Por exemplo, eu não lembro agora do número, mas vamos dizer assim: dos 100 imóveis que foram encaminhados à Câmara de Vereadores, uns 30 não foram aprovados pelos vereadores. Isso por encaminhamento dos proprietários, com pareceres técnicos emitidos por profissionais que argumentavam contrariamente à preservação daquele imóvel.</p>



<p>Passado esse momento inicial, o mercado imobiliário entendeu que, &#8220;opa, esse é um bom negócio&#8221;. Porém, é melhor quando não se tem nenhuma preservação. Como se dá esse alinhamento entre mercado imobiliário e administração municipal é algo que não é visível, mas é discutível.</p>



<p>Portanto, não é porque não houvesse nada para preservar. É porque, de fato, não era interessante preservá-los. É só isso.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Fiscalização é inexistente</strong></li>
</ul>



<p>O Departamento de Preservação dos Sítios Históricos (DPSH), atual Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultural (DPPC), não tinha braços suficientes para fazer o acompanhamento e as fiscalizações do que estava acontecendo com os imóveis de preservação. A área do bairro de São José está incluída num desses sítios históricos estabelecidos por lei, se não me engano, desde 1981.</p>



<p>Vá ao bairro de São José e veja lá o que há de grande preservação na ambiência histórica do bairro. As ações de preservação estabelecem características a serem mantidas e o poder institucional tem por propósito coibir descaracterizações, fiscalizar, manter aquele imóvel íntegro. Porém, isso é uma das grandes questões da preservação no Recife: a administração municipal não tem tido poder de fiscalização nem de coibir ações que infringem normas municipais.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>De quem é a obrigação de preservar</strong></li>
</ul>



<p>Sempre que há um sinistro em imóveis que foram preservados ou tombados em âmbito nacional, muitas matérias jornalísticas dizem &#8220;onde estava o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), não sei o quê, que não conservou&#8221;.</p>



<p>Mas não é papel do Iphan nem manter, nem pagar pelo restauro do imóvel. Esses imóveis têm donos. O dono é quem tem que preservar esse imóvel, independentemente de ele ser uma residência, um templo barroco do século XVII ou XVIII, de posse da Igreja Católica, ou um edifício público ou cívico, como, por exemplo, o Teatro Santa Isabel, propriedade do município do Recife.</p>



<p>Não é o Estado que tem que manter e pagar pelo restauro, mas o Estado tem que fiscalizar o que está sendo feito. O Estado tem que se fazer presente para que essas ações de descaracterização não ocorram. E, claro, tem que haver uma cultura que compreenda que essa preservação é manter valores da nossa cultura. Reduzir patrimônio a valor imobiliário é muito pouco. É muito mais do que esse ativo financeiro.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>O esvaziamento da cidade e da cultura</strong></li>
</ul>



<p>Numa cidade como a nossa, hoje vemos grandes empreendimentos com imóveis de pequeno porte porque há um mercado mundial de turismo de pouca permanência, para além da capacidade hoteleira, que são os Airbnbs e outras estruturas dessa natureza. Então, estamos construindo uma série de imóveis que são dirigidos para o mercado, que é um mercado muito discutido mundo afora: vários países vêm proibindo esse tipo de comércio ou o reduzindo drasticamente, porque o efeito é absolutamente danoso para a vida da cidade.</p>



<p>Eu estou falando de centros históricos europeus, como Lisboa, Barcelona. Há um investimento massivo na ocupação de áreas onde antes havia residentes, que constituíam uma vida e uma cultura naquele lugar. E agora eles são substituídos por atores transitórios, que não carregam em si valores próprios daquele lugar. É quase como se fosse a manutenção de uma ambiência destituída de valor cultural. É quase como se fosse um cenário. E isso vem com uma expulsão radical dos seus moradores e a introdução de determinados hábitos ou determinados serviços.</p>



<p>A minha família é portuguesa [Luiz Amorim é filho do arquiteto Delfim Amorim, responsável por prédios icônicos do Recife, como o Acaiaca e o Pirapama], eu sempre vou a Portugal. E uma das vezes que eu fui a Lisboa, muitos anos atrás, eu saí no metrô, no Chiado, no centro histórico de Lisboa, e vi toda uma propaganda da McDonald&#8217;s subindo a escada. E quando eu chego lá em cima, me dou de cara com um McDonald&#8217;s grande no centro de Lisboa. Eu, literalmente, disse: &#8220;agora o processo de destruição desse centro de Lisboa ganhou um outro patamar, de processo mais avançado&#8221;.</p>



<p>Claro, eu estou falando de McDonald&#8217;s como sendo uma coisa simbólica, de uma cultura de comer rápido, comer porcaria, e ponto. Diferentemente da cultura portuguesa, em que tudo se faz ao redor da mesa, qualquer festividade é comendo. A troca de residentes por atores transitórios é uma troca do ponto de vista da compreensão de uma cultura profunda. São valores culturais que vão se perdendo.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>&#8220;Qualquer coisa é metralha&#8221;</strong></li>
</ul>



<p>Voltando para o Recife, é mais ou menos isso: não se tem essa constituição de uma consciência coletiva de que o patrimônio está para além do edifício, está para além da forma, é algo muito mais amplo. Se as pessoas não têm essa consciência, qualquer coisa é metralha.</p>



<p>Eu costumava dizer, quando dava aula na universidade, que o meu tema predileto, que nunca ninguém aceitou conduzir, para oferecer para os estudantes, era um empreendimento imobiliário na Praça da República, destruindo o Palácio das Princesas também. Porque esse é o marco simbólico da cidade, em todos os sentidos.</p>



<p>Desde que Maurício de Nassau estabeleceu o lugar da administração pública ali, desde 1630, nunca o poder saiu dali. Teve um hiato ou outro, mas sempre o poder esteve ali. Então, simbolicamente, esse exercício que eu faria era uma demonstração da submissão do poder ao capital imobiliário. Seria um belíssimo exercício de demonstração de que, de fato, cultura é metralha.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/mansao-harley-lundgren-torres-area-verde/" class="titulo">Mansão Harley Lundgren: prefeitura mudou cálculo para viabilizar prédios em jardim preservado</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
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			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Os IEPs que não podem ser vistos</strong></li>
</ul>



<p>Eu acho que isso é o que a gente pode chamar de &#8220;não problema&#8221;. O que interessa não é necessariamente o usufruto público. Essa casa [o imóvel no cruzamento da rua professor Ageu Magalhães com a Professor Andrade Bezerra, no Parnamirim, que virou IEP no ano passado] sempre teve muro alto. Mas o portão de acesso originalmente era em madeira, e ao lado, em cima desse portão, tinha uma laje em concreto que ia de canto a canto. Na área do jardim, tinha elementos de ferro que iam até em cima e a casa era completamente transparente à rua.</p>



<p>Essa era uma casa fabulosa do ponto de vista urbano, porque foi pensada para ser vista naquela rua, que é maravilhosa. Aquela rua foi um loteamento em que, com muita felicidade, foi criado aquele grande canteiro ao centro, e a casa fica no eixo. Quando entra na rua, o que você vê no fundo é aquela casa, maravilhosamente assentada, elevada — era uma zona de inundações —, com a fachada azulejada e com aquele eixo de coberta precisamente marcando o eixo da via.</p>



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<p>É uma das primeiras casas projetadas por meu pai, que depois ficou consolidado na literatura como as chamadas casas tipo Amorim, que eram casas em que ele projetava com uma coberta em laje de concreto armado, com telha canal sobre ela, com uma inclinação muitíssimo suave. Foi uma solução que ele desenvolveu para reduzir os problemas de infiltração que as lajes em concreto armado planas criavam, além do calor. Então, ele coloca a telha por cima e, claro, evita que a laje em concreto vaze, porque ela está mais protegida do processo de resfriamento e aquecimento. Vamos supor que está um calor enorme, a laje está a 200 mil graus de temperatura e de repente baixa para 50. Isso causa fissuras, e a telha protege. Então essa solução virou um tipo arquitetônico que vários outros arquitetos repetiram. E aquela casa é um dos raros exemplares ainda existentes dessa concepção, desse modo de fazer e desse modo de organizar o espaço doméstico.</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Nem todo bem preservado precisa ser visto</strong></li>
</ul>



<p>Muitas vezes o Estado tem que preservar determinados aspectos e determinados valores que não necessariamente estão expostos plenamente a todos. Isso não é um princípio de elitização. Em determinadas condições o acesso não é público. </p>



<p>Por exemplo, templos religiosos como os beneditinos não permitem o acesso de mulheres. E neles há um acervo arquitetônico, mas também de bens móveis, pinturas, mobiliário, elementos utilizados nos atos e nos ritos religiosos. Não vai se preservar esse rico acervo e essa edificação porque mulheres não podem entrar? Da mesma maneira há conventos de religiosas em que também não é permitido o acesso de homens. São normativas religiosas, porque é a zona de meditação, é a zona de privacidade.</p>



<p>Há, sim, que se imaginar que certas ações de preservação levam em consideração determinados aspectos que, sim, impedem o acesso das pessoas, mas o papel do Estado é preservar determinados valores. Certos bens não precisam ser vislumbrados nem acessados.</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/recife-tem-273-imoveis-preservados-por-lei-e-73-deles-estao-em-apenas-oito-bairros/">Recife tem 273 imóveis preservados por lei e 73% deles estão em apenas oito bairros</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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					<wfw:commentRss>https://marcozero.org/recife-tem-273-imoveis-preservados-por-lei-e-73-deles-estao-em-apenas-oito-bairros/feed/</wfw:commentRss>
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			</item>
		<item>
		<title>&#8220;A fala pública de mulheres políticas não precisa caber no modelo da fala masculina&#8221;</title>
		<link>https://marcozero.org/mulheres-fala-publica-politica-juliana-romao/</link>
					<comments>https://marcozero.org/mulheres-fala-publica-politica-juliana-romao/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Aug 2026 23:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[fala pública]]></category>
		<category><![CDATA[Juliana Romão]]></category>
		<category><![CDATA[linguagem e poder]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres na política]]></category>
		<category><![CDATA[participação feminina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por que é tão mais difícil para as mulheres falar em público? Em seu primeiro livro, A linguagem das mulheres políticas: desmecanizar o pensamento é emancipar a fala pública, da Editora Appris, a jornalista Juliana Romão fala sobre como o modelo de fala pública vigente na política é feito por e para homens. E é [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/mulheres-fala-publica-politica-juliana-romao/">&#8220;A fala pública de mulheres políticas não precisa caber no modelo da fala masculina&#8221;</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Por que é tão mais difícil para as mulheres falar em público? Em seu primeiro livro, <em>A linguagem das mulheres políticas: desmecanizar o pensamento é emancipar a fala pública</em>, da Editora Appris, a jornalista Juliana Romão fala sobre como o modelo de fala pública vigente na política é feito por e para homens. E é elitizado e conservador. “Importa o que está sendo dito e como, mas na valoração social o elemento definidor é quem está dizendo. A cor da pele, o gênero e o CEP são marcadores estruturantes das desigualdades e definem igualmente o grau de audiência à fala e à expressão”, disse a autora, em entrevista para a Marco Zero.</p>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:43% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="648" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro-648x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-76383 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro-648x1024.jpeg 648w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro-190x300.jpeg 190w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro-768x1214.jpeg 768w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro-972x1536.jpeg 972w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro-150x237.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/08/a-linguagem-das-mulheres-livro.jpeg 1012w" sizes="(max-width: 648px) 100vw, 648px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>No livro, que será lançado nesta quinta-feira, às 19h, na Livraria do Jardim, Juliana defende que mulheres não precisam aprender a caber no molde da fala masculina, mas “desmecanizar” o pensamento: pensar sobre o próprio pensar antes de pensar no microfone. Cursos de oratória e <em>media training</em> capacitam a caber no modelo tradicional de fala. Romão não os descarta, e diz que são ferramentas importantes de letramento ao jogo midiático, mas argumenta que, quando despolitizados, como ocorre na maioria deles, reforçam um cânone estereotipado e esvaziam a força do discurso.</p>



<p>Mestra em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), Juliana Romão é assessora especial no Ministério da Igualdade Racial, professora universitária e há anos assessora discursos de candidatas, parlamentares e movimentos de mulheres. Nesta entrevista, ela fala sobre o que trava a mudança linguística no Brasil e sobre o tribunal das redes, mas avisa que não existe perfil prévio adequado: a boa oradora nunca é, até que seja.</p>
</div></div>



<h2 class="wp-block-heading">&#8220;A boa oradora nunca é, até que seja&#8221;</h2>



<p>Marco Zero &#8211; <strong>Você conta que apresentou um projeto de pesquisa sobre dominação masculina na linguagem e ouviu que o tema não frutificaria. O livro nasce dessa recusa?</strong></p>



<p><strong>Juliana Romão</strong> &#8211; Não exatamente. Olhando pelo retrovisor, essa recusa foi um significativo marco desmotivador, que talvez, por um tempo, tenha me feito achar que tudo o que eu enxergava era mais individual, “coisa minha”. Mas o interesse pelos fascínios da linguagem e de como ela está entranhada nas relações sociais e políticas sempre foi muito genuíno, então não parei de me misturar com o tema, estudando, refletindo, praticando.</p>



<p>Importa o que está sendo dito e como, mas na valoração social o elemento definidor é quem está dizendo. A cor da pele, o gênero e o CEP são marcadores estruturantes das desigualdades e definem igualmente o grau de audiência à fala e à expressão.</p>



<p>Levantei muitos debates sobre o tema em sala de aula, escrevi diversos artigos que sempre trouxeram perspectivas desse debate sobre poder, linguagem e gênero. As diversas funções na minha atuação profissional estiveram umbilicalmente marcadas por essas lentes. Nesse percurso, me aproximei também das mulheres da política institucional e passei a atuar na gestão de narrativas e articulação política. De maneira muito natural, a conexão entre os desafios da fala pública dessas mulheres diversas na política e as violências e as barreiras de acesso ao poder fizeram muito sentido e provaram que nunca foi uma questão individual, e sim um fenômeno coletivo.</p>



<p>Desenvolvi uma formação para fala pública de mulheres com a proposta de pensar a própria narrativa tendo referências da linguística, da política, da filosofia, do jornalismo, dos feminismos, das artes e da vida vivida. Não mais apenas pelos moldes pré-formatados de cursos de oratória, que se mostram sim importantes, mas depois da segunda página não são suficientes para dar conta das demandas ao mesmo tempo singulares, de cada potencialidade e trajetória, e coletivas.</p>



<p>O livro nasce de todos esses acúmulos, ficaram mais estruturados com a formação.</p>



<p>“<strong>A linguagem das mulheres políticas” se dirige a candidatas, eleitas, professoras, assessoras, jornalistas, ativistas. O que essas mulheres têm em comum quando pegam o microfone?</strong></p>



<p>Todas as mulheres são desafiadas na fala pública. Todas. A curta experimentação feminina na aparição pública com protagonismo não é de A ou B ou C, mas comum ao gênero, consequência da histórica dominação masculina na expressão do mundo. Ainda que as mulheres estejam cada vez mais presentes e atuantes, o déficit de tempo longe do púlpito é grande e simbólico.</p>



<p>Uma pesquisa conduzida pelo Instituto Clarice mostrou que “saúde”, “educação” e “família” são os lugares vistos como naturais para elas. Já a “ciência e tecnologia”, “negócios” são espaços onde ainda parece estranho vê-las, sendo o grau máximo a “política”.</p>



<p>Por isso digo no livro que as mulheres falam com um canivete do julgamento mirando a jugular e isso as afeta diretamente, mas não é sobre elas, pessoalmente, tem relação com o que todas estão tentando desafiar, é sobre o padrão que não ‘pode’ ser desfeito.</p>



<p>E, nesse sentido, sem dúvida as mulheres plurais da política institucional sofrem desafios extras, uma vez que o discurso público é matéria prima da sua atuação. É comum falarmos que dar voz às pessoas, mas não é exatamente sobre ter voz, e sim sobre ter uma voz audível, respeitada.</p>



<p><strong>Você diz no livro que para cada especialista em redes sociais deveria haver uma especialista em vida real. O que se perde quando o discurso é construído pensando apenas na repercussão online?</strong></p>



<p>De cara, perde autenticidade e a rica dimensão de modulação discursiva desenvolvida com a troca, a partir da conexão que ocorre quando os olhos se cruzam. Não há edição que alcance o calor do abraço, a energia extraordinária da presença.</p>



<p>Agora, é indiscutível que a mensagem narrada nas redes, recortada e visibilizada em audiovisual, é a mais consistente estratégia de massificação discursiva do nosso tempo. Não integrar a virtualidade nem é mais uma opção viável para quem precisa se comunicar publicamente, então o desafio é movimentar-se bem e conscientemente na maré. Refletir, a partir da prática, sobre como atuar com segurança, estratégia e personalidade. Sem ingenuidade.</p>



<p>A fala que repercute nas redes, então, será tão ou mais potente quanto mais corresponder, em alguma medida, à vida de carne e osso, desenquadrada de uma tela. O efeito do virtual pode ser conduzido não para substituir quem somos, mas para alargar a performance, expandir e espalhar a mensagem que conduzimos.</p>



<p><strong>As redes sociais adicionaram uma camada nova ao receio das mulheres diante da fala pública? Nesses espaços, elas são julgadas mais que os homens e por fatores que extrapolam suas qualificações, como o corpo, a roupa, a aparência física. Isso muda o cálculo que uma mulher faz antes de se expor?</strong></p>



<p>As redes virtuais têm a capacidade de massificar ainda mais os discursos, que ganham contornos extraordinariamente mais vastos e complexos do que já era um sintoma com o advento da TV, quando a fala para grandes multidões presentes passou a ser feita para multidões ausentes; quando a imagem passou a ser tão o mais importante do que o conteúdo discursado.</p>



<p>Esse julgamento já existia na fala do púlpito, mas era exercido por menos pessoas. O tribunal das redes é mais violento e repetível, podendo ganhar escala, então sem dúvida essa camada muda o cálculo que se faz ao compor mensagens nas redes. Um cálculo que deve compor a estratégia comunicativa, não para paralisar, mas como medida de proteção e consciência, inclusive sobre as formas de denúncia e uso do ferramental jurídico para coibir práticas violentas e discriminatórias. Com firmeza e sem ingenuidade.</p>



<p><strong>No capítulo &#8220;Quem pode falar&#8221;, você retoma a <a href="https://medium.com/@fabi2moraes/falar-de-falar-sobre-falar-com-3b9e6ddb85a1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">distinção de Fabiana Moraes </a> entre falar “de” e falar “por”. Como manter a legitimidade de quem vive a experiência sem que isso restrinja os temas que uma pessoa pode abordar</strong>?</p>



<p>A legitimidade da experiência de quem vive é intransferível e inalienável. Mas não é a única perspectiva, inclusive pessoas que vivem realidades semelhantes podem ter visões distintas ou não. Essa dimensão de validação das abordagens exige um amadurecimento mesmo quanto aos caminhos para avançarmos.</p>



<p>Olhares distintos, vistos de perto, de longe ou de qualquer ângulo, enriquecem o debate, possibilitando o acesso a enquadramentos diversos do mesmo objeto, que de tão complexo são vários, com múltiplas interpretações. Nenhum deles é ilegítimo a priori. Eles vão ser primários, secundários, perspectivados, enviesados.</p>



<p>E tem algo importante também, tanto os discursos potentes quanto os vazios ou oportunistas podem ser identificados por quem escuta. Não devemos subestimar a capacidade interpretativa das pessoas e suas trajetórias.</p>



<p><strong>Você é professora, dá palestras, assessorou discursos de candidatas e parlamentares. O que desse método testou primeiro em si mesma e qual é a recomendação mais difícil de colocar em prática?</strong></p>



<p>Sem dúvida mirei em mim primeiro. Mas não como um teste de um método externo, ao contrário, a escuta e reflexão interna quanto às minhas inseguranças, potências, dúvidas e habilidades me mostrou o caminho para desenvolver uma proposta de formação alicerçada nas minhas pesquisas, estudos e práticas.</p>



<p>No livro deixo muito cristalino que não me considero uma exímia oradora e nem o objetivo é formar exímias oradoras. O projeto é dar suporte para comunicar melhor o que pretendemos, com troca, verdade e adubo para crescermos neste movimento superlativo que é pôr em comum.</p>



<p>Não existe um jeito “certo” de fazer, uma receita infalível à venda na Shopee. Então a proposta é também sobre libertação, de não precisar seguir um padrão. Não há perfil prévio adequado; a boa oradora nunca é, até que seja.</p>



<p><strong>Apesar do livro não ser exatamente um manual, há várias recomendações para quando uma mulher for falar em público: chegar cedo ao evento, não ficar no celular durante as demais falas, levar anotações impressas. Uma das recomendações mais específicas do livro é nunca abrir uma fala dizendo que está nervosa. Por quê?</strong></p>



<p>Sim, há recomendações muito abertas. Não faz muito sentido pra mim as normas imperativas que dizem como fazer. É como pensar nas risíveis roupas tamanho único. Elas, ao final, não cabem em ninguém.</p>



<p>Mas sobre a recomendação de verbalizar o nervosismo, eu trouxe esse ponto pois é um recurso muito comum e um genuíno movimento por empatia. Não há nada errado com isso especificamente, contudo, é importante que saibamos que ao mencionar essa condição, é bem provável que ela seja acionada na cabeça de muita gente uma “confirmação” da imagem estereotipada de inexperiência ou de inabilidade, comumente associadas às mulheres quando discursam. Será erguida uma impressão ou barreira que tende reduzir o que virá depois.</p>



<p>Então, se possível, segura essa informação, jajá o nervosismo vai passar. Em 30 segundos após o começo da fala, mergulho na água gelada ficará mais agradável e até prazeroso. Deixemos o frio na barriga vir, o coração acelerar; costumo dizer que ambos são manifestações de vida e homenagem. É o nosso corpo em perfeita sintonia com o momento presente.</p>



<p><strong>Do Chile ao México, mulheres estão exigindo o feminino no nome do cargo. No Brasil, o pedido de Dilma Rousseff para ser chamada &#8220;presidenta&#8221; foi recusado, mesmo havendo uma lei de 1956 que determina a flexão em cargos públicos. Por que aqui isso trava?</strong></p>



<p>De maneira macro, esse assunto revela a violenta desigualdade de distribuição de poder e de espaços de decisão. A dificuldade das mulheres, especialmente as diversas, alçarem espaços de poder aumenta exponencialmente na medida em que os cargos ficam mais “altos”. Temos pouquíssimas mulheres presidentas no mundo, de modo que o imaginário demora a assimilá-las no poderosíssimo lugar de líder de uma nação. O mesmo vale para a língua, que se move orientada pelas necessidades de uso social. Como ainda são poucas as mulheres presidentas, a engrenagem linguística não tem forças para se impor, e o uso da palavra no feminino sofre rejeição, parece incorreção e soa estranha e desnecessária.</p>



<p>Revela também que as transformações estão em curso, mas são lentas, não lineares e nem sem tensão. No Brasil, elegemos nossa primeira e até agora única presidenta, Dilma Rousseff, 14 anos antes do México, contudo, não apenas Dilma foi retirada do poder por sua agenda e condição de gênero, como os mecanismos de política para uma &#8216;cota forte&#8217; sofreram e sofrem resistência contínua dos parlamentos.</p>



<p>No Brasil, as mudanças combinadas, que possam se dar ao mesmo tempo, sofrem barreiras mais consistentes e isso trava tudo mais visivelmente. Digo isso pois o caminho é conhecido, mas pouco aplicado. É necessário uma legislação inequivocamente orientada à mudança cultural, que favoreça a equidade de gênero e raça na política; também precisamos de uma corte firme, capaz de fazer cumprir as normas; além de estruturas partidárias mais democráticas e a forte atuação dos movimentos de mulheres. E uma ação linguística também: é preciso empurrar a engrenagem da língua para incluir e visibilizar as mulheres em sua pluralidade, como ocorreu no caso da Câmara do Chile. E torná-las cada vez mais conscientes da própria capacidade de expressão.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Serviço</span>

		<p class="font-claude-response-body break-words whitespace-normal" dir="ltr">Lançamento de <em>A linguagem das mulheres políticas: desmecanizar o pensamento é emancipar a fala pública</em>, de Juliana Romão (Editora Appris), com bate-papo com a autora e a professora da UFPE Ana Veloso, prefaciadora do livro<br />
<strong>Quando:</strong> Quinta-feira, 6 de agosto, às 19h<br />
<strong>Onde:</strong> Livraria do Jardim — Av. Manoel Borba, 292, Boa Vista, Recife<br />
<strong>Quanto:</strong> Entrada gratuita. O livro custa R$ 55</p>
	</div>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/mulheres-fala-publica-politica-juliana-romao/">&#8220;A fala pública de mulheres políticas não precisa caber no modelo da fala masculina&#8221;</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>MPPE processa Prefeitura e Viva Parques por irregularidades no Parque da Jaqueira</title>
		<link>https://marcozero.org/parque-da-jaqueira-mppe-processa-prefeitura-viva-parques/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jul 2026 14:56:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[concessão de parques]]></category>
		<category><![CDATA[mppe]]></category>
		<category><![CDATA[parque da jaqueira]]></category>
		<category><![CDATA[pista de bicicross]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[viva parques]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A pista de bicicross do Parque da Jaqueira, demolida em janeiro deste ano, pode ter que ser reconstruída. O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) acionou a Justiça para obrigar a Prefeitura do Recife e a concessionária Viva Parques a refazer o equipamento. Em ação civil pública obtida com exclusividade pela Marco Zero, o MPPE pede [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A pista de bicicross do Parque da Jaqueira, demolida em janeiro deste ano, pode ter que ser reconstruída. O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) acionou a Justiça para obrigar a Prefeitura do Recife e a concessionária Viva Parques a refazer o equipamento. Em ação civil pública obtida com exclusividade pela Marco Zero, o MPPE pede que a área volte a ter exatamente as funções que tinha – esportiva, recreativa e pública – e que fique proibida ali qualquer estrutura de consumo pago, como o polo gastronômico já anunciado pela empresa.<br><br>A peça é assinada pelas promotoras Fernanda Henriques da Nóbrega, da 20ª Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital, e Belize Câmara Correia, coordenadora do Centro de Apoio de Defesa do Meio Ambiente. Foi protocolada em 20 de julho e distribuída por sorteio à 4ª Vara da Fazenda Pública da Capital. O valor da causa é de R$ 6 milhões.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/viva-parques-ignora-recomendacao-do-ministerio-publico-e-destroi-pista-de-bicicross-da-jaqueira/" class="titulo">Viva Parques ignora recomendação do Ministério Público e destrói pista de bicicross da Jaqueira</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p><br>A ação civil pública vai além da destruição da pista de bicicross. Protocolada com pedido de liminar – ou seja, o MPPE quer decisão imediata, antes de ouvir os réus –, a peça pede a paralisação das obras na área, que segue cercada por tapumes, a suspensão das licenças que autorizaram a substituição da pista, a proibição de cobrança de ingresso em qualquer área do parque, a suspensão do regulamento da Jaqueira feito pela concessionária e a retirada da publicidade irregular, incluindo a de casas de apostas, em dez dias. A multa sugerida é de R$ 50 mil por dia de descumprimento. Até o fechamento desta reportagem o pedido de liminar seguia sem apreciação.</p>



<p>O MPPE também solicita que a prefeitura abra, em um prazo de dez dias, processo administrativo para apuração de descumprimento contratual por parte da concessionária e pede a condenação dos dois réus – prefeitura e Viva Parques – por dano moral coletivo.<br><br>A empresa Viva Parques assumiu a gestão de quatro parques municipais em 10 de março de 2025 após vencer o leilão em julho de 2024, tendo sido a única proponente. Antes mesmo de assumir os parques, a empresa comunicou que iria destruir a pista de bicicross do Parque da Jaqueira e construir ali um polo gastronômico, apesar de o caderno de encargos do contrato com a Prefeitura do Recife prever apenas a manutenção do equipamento. Em novembro do ano passado, o MPPE expediu uma recomendação para que a Viva Parques não derrubasse a pista, mas a empresa fez a demolição e colocou tapumes ao redor do local.<br><br>Na ação, o MPPE se apoia principalmente no próprio contrato da prefeitura com a Viva Parques. O caderno de encargos define “manutenção” como aquilo que não altera as características da estrutura, como atualização de sistemas, revestimentos, ações preventivas e correções leves. Para o MPPE, trocar a manutenção por demolição e nova intervenção, depois da licitação e sem termo aditivo, vai contra a proposta econômica que a empresa apresentou para vencer o leilão.<br><br>O MPPE afirma, na peça, que nenhum termo aditivo sobre o <a href="https://parcerias.recife.pe.gov.br/projetos/concessao-de-parques-urbanos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">contrato de concessão dos parques</a> foi publicado permitindo a demolição da pista de bicicross. Até hoje a manutenção dela continua constando na cláusula 4.3 do caderno de encargos como investimento obrigatório.</p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">Parque da Jaqueira: os pedidos de urgência do MPPE na Justiça</span>

		<p><b>Para os dois réus, Prefeitura do Recife e Viva Parques</b></p>
<ul>
<li aria-level="1">Parar toda obra na área da antiga pista, suspender as licenças que autorizaram a substituição e entregar em 15 dias úteis um relatório técnico com fotos, plantas e cronograma do que já foi feito.</li>
</ul>
<ul>
<li aria-level="1">Nada de ingresso, taxa ou consumação mínima em qualquer área do parque; nenhum evento com controle de acesso; suspensão do trecho da Lei 18.824/2021 que abre essa brecha.</li>
</ul>
<ul>
<li aria-level="1">Suspender o regulamento de uso feito pela concessionária e garantir o direito de reunião no parque.</li>
</ul>
<ul>
<li aria-level="1">Em 10 dias, tirar os anúncios dos gradis, desligar os painéis luminosos e retirar a publicidade de bets. E não instalar nada novo sem autorização dos órgãos de patrimônio.</li>
</ul>
<p><strong>Itens 2.1 a 2.4 — só para a Prefeitura</strong></p>
<ul>
<li aria-level="1">Abrir em 10 dias processo administrativo para apurar o descumprimento do contrato.</li>
</ul>
<ul>
<li aria-level="1">Não aprovar novas etapas, pagamentos ou pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro enquanto as irregularidades não forem sanadas.</li>
</ul>
<ul>
<li aria-level="1">Publicar em 15 dias os documentos da concessão — masterplan, pareceres, aditivos, relatórios de fiscalização — e explicar as intervenções à população em linguagem acessível.</li>
</ul>
<p><em>Todos sob multa diária, sugerida em R$ 50 mil.</em></p>
	</div>



<p>Além do contrato, o MPPE aciona a legislação municipal para justificar a ação civil pública. A lei 17.610/2010, alterada em 2022, classifica o Parque da Jaqueira como Unidade de Conservação da Paisagem e proíbe qualquer intervenção que comprometa o patrimônio ambiental e cultural existente no perímetro, citando expressamente as áreas de lazer coletivo. Determina ainda que o parque atenda, em caráter exclusivo e permanente, à função social de parque público.<br><br>A ação antecipa um contra-argumento apoiado no artigo 5º dessa mesma lei, que condiciona intervenções à análise prévia do órgão ambiental municipal. Para as promotoras, o dispositivo estabelece um requisito de procedimento e não concede ao órgão &#8220;o poder discricionário ilimitado ou &#8216;cheque em branco&#8217; para aprovar qualquer tipo de intervenção&#8221;.<br><br>O MPPE antecipa na peça a possibilidade de derrota no pedido principal: se o juiz não determinar a recomposição da pista, quer ao menos uma audiência pública, precedida de estudos técnicos e documentos em linguagem acessível, para decidir o destino da área com quem usava o espaço.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Sem atrações pagas e sem bets no Parque da Jaqueira</h2>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/tapumes-300x200.jpg">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/tapumes.jpg">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/tapumes.jpg" alt="A foto mostra uma área do Parque da Jaqueira, no Recife, cercada por chapas metálicas verdes sustentadas por estruturas de madeira, indicando uma obra de revitalização em andamento. Na cerca há um painel com uma ilustração do projeto “Natureza Urbana”, mostrando caminhos, árvores e espaços de convivência, e ao lado um quadro azul com informações técnicas sobre a intervenção. O chão é de pedras irregulares, formando uma trilha entre árvores frondosas e bancos de madeira; à esquerda, uma lixeira verde reforça o cuidado ambiental do local. Ao fundo, surgem prédios altos entre as copas das árvores, compondo a paisagem urbana do Recife." class="w-100" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Ministério Público quer interrupção de obras na Jaqueira
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>A ação civil pública também mira o modelo de gestão como um todo. O MPPE quer que a Justiça afaste a exceção do artigo 4º da lei municipal 18.824/2021, que permite cobrança por atrações implementadas pela concessionária quando a receita se associa à viabilidade do contrato.<br><br>Para as promotoras, o dispositivo coloca o equilíbrio financeiro de uma empresa privada acima do direito ao lazer. A peça cita eventos com restrições já ocorridos nos parques concedidos, como o festival Bon Odori em Apipucos, com ingresso a partir de crianças de sete anos; a Arena nº 1 no Dona Lindu, durante a Copa, com setores de até R$ 500 e entrada vedada a menores de cinco anos; e um evento fitness na Jaqueira, com entrada custando R$ 209.</p>



<p>Como advertência, o MPPE dedica um trecho da peça para falar sobre as <a href="https://marcozero.org/concessao-privada-de-parques-e-elitizar-o-espaco-publico-alerta-urbanista-nabil-bonduki/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">concessões em São Paulo</a>, citando o que acontece nos parques concedidos de lá: cobrança de R$ 30 por dez minutos de banho, áreas patrocinadas com acesso a R$ 150, piqueniques cercados de 1.200 metros quadrados a R$ 26 mil. Para o MPPE, a Jaqueira corre o risco de ter esses tipos de cobranças.<br><br>Outro alvo do MPPE é a publicidade no Parque da Jaqueira: anúncios nos gradis, painéis luminosos a cada 200 metros na pista de caminhada e peças de casas de apostas, inclusive perto de brinquedos infantis. A ação lembra que, ainda na licitação, uma nota técnica da própria Prefeitura esclareceu que não seria permitida a veiculação de anúncio em grades. Sobre as bets, o MPPE invoca o Estatuto da Criança e do Adolescente, a portaria que regulamenta o setor e a Convenção sobre os Direitos da Criança. O texto da ação informa que a Prefeitura chegou a notificar a empresa, que retirou o material e depois voltou a exibi-lo.<br><br>A ação ainda pede que o regulamento do Parque da Jaqueira seja considerado nulo. Isso porque o documento veda manifestações públicas, expressões político-partidárias e cultos nas dependências dos parques, salvo com autorização específica da empresa. O MPPE sustenta que ente particular não pode editar normas restritivas de liberdade, já que o poder de polícia é indelegável, tanto por lei federal quanto por lei municipal.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/pista-de-bicicross-da-jaqueira-esta-com-os-dias-contados/" class="titulo">Pista de bicicross da Jaqueira está com os dias contados</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/bem-viver/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Bem viver</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>As promotoras também argumentam que o regulamento se opõe ao direito de reunião, garantido pela Constituição independentemente de autorização, exigindo apenas aviso prévio. A peça solicita a anulação do regulamento inteiro e, em separado, do artigo que trata das manifestações.<br><br>A Marco Zero procurou a Prefeitura do Recife e a Viva Parques para comentar os pedidos formulados na ação. A Viva Parques informou que ainda não foi citada na ação e afirmou que as intervenções na área da antiga pista – descrita como o &#8220;espaço mais antropizado do parque&#8221; – resultaram de mais de um ano de diálogo, incluindo acordo firmado em agosto de 2025 perante o MPPE e &#8220;aval técnico e formal do IPHAN e demais entidades de proteção ao patrimônio&#8221;, em dezembro de 2025. Segundo a empresa, a prática do BMX segue na Jaqueira com a de pump track e o alto rendimento passou para o Parque Santana, requalificado. A empresa também afirma que o regulamento não restringe o direito de reunião, apenas tem o objetivo de &#8220;compatibilizar o uso&#8221;. A nota completa está ao final desta reportagem.<br><br>A peça do MPPE registra os episódios de outro modo. O acordo de agosto de 2025 é descrito na ação como um compromisso condicionado: modificações na pista só ocorreriam depois de concluídas as obras do Santana e obtido o licenciamento da Sedul. E o que a ação atribui ao IPHAN é um parecer que aprovou apenas o projeto executivo da pump track, exigindo pareceres distintos para as demais etapas. Já a manifestação de dezembro de 2025 partiu do colegiado técnico dos órgãos municipais de preservação, que considerou a demolição &#8220;passível de aprovação&#8221;.<br><br>A Marco Zero também procurou a Prefeitura do Recife. Em nota, a prefeitura afirmou que os questionamentos apresentados pelo MPPE serão analisados no âmbito da ação judicial.  &#8220;A Prefeitura do Recife reforça que os parques concedidos seguem sendo equipamentos públicos, gratuitos e abertos a toda a população. A concessão não transfere a propriedade dos parques, que continuam pertencendo ao município, mas estabelece a gestão de serviços e investimentos com o objetivo de ampliar e qualificar a infraestrutura desses espaços. A execução do contrato seguirá sendo acompanhada e fiscalizada pela Prefeitura, sempre em conformidade com a legislação, o interesse público e os compromissos assumidos na concessão&#8221;, diz o restante da nota.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Confira as respostas da Viva Parques</span>

	    <p><strong>A empresa já foi citada na ação?</strong><br />
A concessionária ainda não foi formalmente citada na ação.</p>
<p><strong>O MPPE pede que a pista de bicicross seja reconstruída com as mesmas funções que tinha e que fique proibida qualquer estrutura de consumo pago na área. Qual a posição da concessionária?</strong><br />
Em relação à antiga pista de BMX da Jaqueira, que ficava no espaço mais antropizado do Parque, a Viva esclarece que as intervenções realizadas na área envolvem a construção de uma série de equipamentos e atividades antes inexistentes no Parque, como anfiteatro, quadras esportivas, ofertas gastronômicas, novos banheiros, e decorreram de um processo de mais de um ano de diálogo e formalização, que incluiu acordo firmado, em agosto de 2025, perante o Ministério Público, com a Federação Pernambucana de BMX (FPEBMX) e a Federação Pernambucana de Ciclismo, aval técnico e formal do IPHAN e demais entidades de proteção ao patrimônio, em dezembro de 2025.</p>
<p>A prática do BMX permanece sendo realizada no Parque da Jaqueira com a nova pista de PumpTrack inaugurada, já a prática de alto rendimento está a apenas 1,5km, no Parque Santana, que recebeu uma pista completamente requalificada em padrão nacional de competição, incorporando inclusive ajustes técnicos sugeridos pelos próprios atletas. Só neste último final de semana, mais de 50 crianças e adolescentes participaram da 2ª Etapa da Copa Santana de Bicicross.</p>
<p>Ainda na Jaqueira, com a pista do pumptrack, foram ampliadas as possibilidades de uso por diferentes modalidades, como cadeirantes, skatistas, patins, e diferentes faixas etárias, o que antes não era possível com o Bicicross. Todas as intervenções seguiram as diretrizes previstas no contrato de concessão e foram executadas com a anuência dos órgãos competentes.</p>
<p><strong>O MPPE pede que fique proibida qualquer cobrança de ingresso, taxa ou consumação mínima em todas as áreas do Parque da Jaqueira, inclusive durante eventos. Se a Justiça acolher esse pedido, isso inviabiliza o contrato de concessão?</strong><br />
Sobre o pedido relacionado à cobrança de ingressos, taxas ou consumação mínima, a Viva reforça que o acesso ao Parque da Jaqueira (e os demais parques) permanece gratuito para toda a população. A discussão judicial refere-se à realização de eventos nos termos previstos no contrato de concessão, em que a Viva reitera que o contrato segue em execução regular e a segurança jurídica da relação decorre exatamente da manutenção da higidez contratual.</p>
<p><strong>A ação pede a nulidade do regulamento de uso dos parques, em especial do artigo que condiciona manifestações públicas e cultos à autorização da Viva Parques. Como a empresa responde?</strong><br />
O regulamento não tem como objetivo restringir nenhum direito do cidadão, muito menos ao de reunião, mas tem como objetivo compatibilizar o uso público dos parques com a segurança dos frequentadores, a preservação do patrimônio e a adequada convivência entre as diversas atividades realizadas nesses espaços.</p>
<p>Naturalmente, todos os temas serão amplamente discutidos no âmbito do processo judicial. A Viva reitera seu posicionamento de abertura ao diálogo e se coloca à inteira disposição para tratar de todos os temas inerentes às Concessões.</p>
    </div>



<p></p>
<p>O post <a href="https://marcozero.org/parque-da-jaqueira-mppe-processa-prefeitura-viva-parques/">MPPE processa Prefeitura e Viva Parques por irregularidades no Parque da Jaqueira</a> apareceu primeiro em <a href="https://marcozero.org">Marco Zero Conteúdo</a>.</p>
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		<title>Mansão Harley Lundgren: prefeitura mudou cálculo para viabilizar prédios em jardim preservado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Jul 2026 18:56:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[anita harley]]></category>
		<category><![CDATA[cdu]]></category>
		<category><![CDATA[harley lundgren]]></category>
		<category><![CDATA[ipav]]></category>
		<category><![CDATA[prefeitura do Recife]]></category>
		<category><![CDATA[urbanismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Prefeitura do Recife aceitou alterar o cadastro de área verde da Mansão Harley Lundgren, na Zona Norte, a pedido da construtora que vai erguer três torres de 19 andares nos jardins do casarão. O processo ainda está em tramitação, mas a versão atualizada do Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) informa que o pedido [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A Prefeitura do Recife aceitou alterar o cadastro de área verde da Mansão Harley Lundgren, na Zona Norte, a pedido da construtora que vai erguer três torres de 19 andares nos jardins do casarão. O processo ainda está em tramitação, mas a versão atualizada do Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) informa que o pedido de revisão foi deferido e que a licença prévia ambiental já foi emitida. Por ser um Imóvel de Proteção de Área Verde (IPAV), o terreno é obrigado por lei a manter pelo menos 70% da área verde cadastrada. Segundo a prefeitura, o mínimo será cumprido. Mas só é alcançado porque houve mudança na forma como foi feito o cálculo da área verde.</p>



<p>Entre os bairros da Tamarineira e Parnamirim, a antiga moradia da família Lundgren – fundadora das Casas Pernambucanas e tema da série do Globoplay <em>O Testamento: O Segredo de Anita Harley</em> – tem duas proteções: uma, desde 1997, é de IPAV, que protege a vegetação do local, que possui <a href="https://marcozero.org/tres-predios-de-19-andares-serao-construidos-no-jardim-da-mansao-harley-lundgren/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">43 espécies catalogadas</a>. Outra proteção, aplicada na reunião de 2 de julho do Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU) em que foi aprovada a viabilidade dos três prédios, é a de Imóvel Especial de Preservação (IEP), uma classificação municipal que impede a derrubada do casarão.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/tres-predios-de-19-andares-serao-construidos-no-jardim-da-mansao-harley-lundgren/" class="titulo">Três prédios de 19 andares serão construídos no jardim da Mansão Harley Lundgren</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/poder/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Poder</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Toda a discussão sobre o imóvel nesta reportagem gira em torno de dois parâmetros: quanto de área verde o terreno tem cadastrado e quanto dela o projeto preserva. A construtora pediu a redução do primeiro, de acordo com o EIV, documento público disponível no site de licenciamento da prefeitura. O segundo número depende de uma escolha metodológica: se conta como área verde apenas o que está em solo natural ou também a copa das árvores que se projeta sobre áreas pavimentadas.</p>



<p>Os documentos do processo de licenciamento, do CDU e da nota da prefeitura para a Marco Zero apresentam valores diferentes para as duas coisas.</p>



<p>O projeto dos prédios é da construtora OR Empreendimentos – vinculada ao grupo Novonor, antiga Odebrecht – e prevê investimentos vultosos de R$ 500 milhões. O cronograma é de 44 meses para a construção de três torres de 60 metros de altura e um estacionamento em três níveis com 362 vagas de garagem. Os 85 apartamentos do projeto são de alto padrão, entre 297 m² e 370 m².</p>



<h2 class="wp-block-heading">A sombra das árvores conta como área verde?</h2>



<p>Dos três EIVs apresentados pela construtora, os dois primeiros trazem uma seção específica que solicita à prefeitura redução da área verde cadastrada de 9.783,30 m² (dado de 1997) para 9.371,18 m² — o que representa 435 m² a menos em relação ao cadastro atualizado em 2013, com vistoria em 2016, e que tem 9.806,39 m² de área verde. O estudo foi elaborado pela EKOA Engenharia, consultoria de Salvador contratada pela OR. O argumento da consultoria é que o cadastro mais recente teria contado como área verde trechos pavimentados que estavam cobertos pela copa das árvores.</p>



<p>Refazendo o cálculo &#8220;sem sobreposição da copa&#8221;, a consultoria chega a uma área verde menor: pela conta dela, a área verde do IPAV é a soma do solo natural (8.545,21 m²) com uma parcela da copa das árvores que se projeta para além dele, chegando a 9.371,18 m². O estudo informa a copa total das árvores, de 7.853,85 m², mas não detalha quanto dela foi efetivamente computado como &#8220;excedente&#8221;, nem como esse cálculo foi feito.</p>



<p>Comparando com o cadastro de IPAV mais atualizado, a redução pedida nos primeiros documentos é de 435 m². O EIV, porém, fala em 412 m², porque compara com o primeiro registro, de 1997. Em nota para a MZ, a Prefeitura do Recife também usa o número de 1997.</p>



<p>Reduzir a área cadastrada reduz também o piso legal: o mínimo a preservar cairia de 6.864 m² para 6.560 m². O primeiro pedido de alteração da área verde teria sido indeferido pela prefeitura. O EIV mais recente, de 12 de junho, afirma que a prefeitura &#8220;reconsiderou o entendimento anteriormente apresentado&#8221; e que &#8220;foi reconhecida a adequação da metodologia proposta para o caso específico&#8221;.</p>



<p>Já o parecer aprovado pelo CDU reproduz a ficha cadastral com os 9.806,39 m² — o número maior, mais atualizado — e declara o projeto em conformidade com o IPAV, sem mencionar em nenhum trecho que o EIV pediu a redução desse número.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/plantaharleylundgren-1024x640.png" alt="A imagem apresenta uma planta arquitetônica de implantação, mostrando a disposição dos edifícios em blocos, áreas verdes com árvores preservadas, uma piscina central com espaços de lazer, além de vias e estacionamentos que organizam a circulação de veículos e pedestres; no canto inferior direito há um quadro técnico com informações do projeto e da equipe responsável, compondo uma visão geral de como o conjunto se integra ao terreno." class="" loading="lazy" >
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução</span>
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                    </figure>

	

    <div class="box-explicacao mx-md-5 px-4 py-3 my-3" style="--cat-color: #1E69FA;">
        <span class="titulo"><+></span>

        <div class="int mx-auto">
	        <p>A Marco Zero submeteu a planta do empreendimento, assinada pelo escritório Metro Arquitetura, a uma medição digital via Python que calculou, dentro dos limites do lote, o que o desenho representa como área verde e o que representa como construção e pavimento. A medição tem margem de cerca de três pontos percentuais.</p>
<p>O resultado: 55,7% do terreno aparecem como verde – sendo 38,9 pontos de copas de árvores e 16,8 de grama e canteiro – contra 44,3% de área construída ou pavimentada. É praticamente o que o próprio quadro de áreas declara: 6.151,20 m² de solo natural mais 130,15 m² de solo permeável equivalem a 55,69% do lote. O verde desenhado na planta do projeto da construtora equivale a aproximadamente 64% da área verde cadastrada, abaixo do mínimo legal.</p>
        </div>
    </div>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p>Por sua vez, a Prefeitura do Recife, em nota para a Marco Zero, afirmou que o projeto preserva 72,74% da área verde, 7.116,82 m², com base no cadastro de 9.783,30 m². A Prefeitura do Recife não detalhou como compôs o número, que supera em cerca de mil metros quadrados o solo natural declarado no projeto arquitetônico.</p>



<p>No EIV, a nova metodologia proposta para a área verde do imóvel diz somar ao solo natural &#8220;a projeção excedente da copa das árvores&#8221;, sem citar a norma que estabeleceria esse critério.</p>



<p>Ou seja, o estudo do empreendedor usa o argumento da copa das árvores nas duas direções: quando pede a redução do cadastro, sustenta que a projeção da copa não pode se sobrepor a áreas impermeáveis no cálculo; para chegar ao número que propõe, soma ao solo natural justamente a copa que se projeta para fora dele. Vale ressaltar que a Lei 16.176/1996, que criou a categoria IPAV, define área verde como &#8220;toda área de domínio público ou privado, em solo natural, onde predomina qualquer forma de vegetação&#8221;.</p>



<p>Como a Marco Zero não teve acesso à licença prévia ambiental nem ao Parecer Técnico SLAUP nº 20/2026, não é possível saber o que exatamente a prefeitura deferiu: se a redução da área cadastrada, se a metodologia que soma ao solo natural a copa das árvores projetada sobre áreas pavimentadas, ou ambas.</p>



<p>O certo é que os números na nota da Prefeitura do Recife não batem com o que está apresentado no EIV mais recente. O EIV descreve como &#8220;grande área verde a ser preservada&#8221; uma superfície de 5.740,68 m², o equivalente a 58,7% da área cadastrada em 1997. É o mesmo valor que, no quadro de parâmetros do estudo, aparece na linha de solo natural.</p>



<p>Em nota, a prefeitura afirmou que o projeto ainda será analisado “pelos órgãos municipais competentes e deverá atender integralmente à legislação urbanística, edilícia, ambiental, patrimonial e de acessibilidade, bem como às exigências específicas decorrentes da classificação do imóvel como IPAV e IEP”.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Qual a área verde da Mansão Harley Lundgren?</strong></h2>



<figure class="wp-block-table is-style-stripes" style="font-style:normal;font-weight:400"><table class="has-fixed-layout"><thead><tr><th><strong>Fonte</strong></th><th><strong>Área verde</strong></th><th class="has-text-align-left" data-align="left"><strong>O que representa</strong></th></tr></thead><tbody><tr><td>Cadastro de 1997</td><td>9.783,30 m²</td><td class="has-text-align-left" data-align="left">Registro original do IPAV 45</td></tr><tr><td>Cadastro de 2013</td><td>9.806,39 m²</td><td class="has-text-align-left" data-align="left">Atualização da SMAS; consta da ficha reproduzida no parecer do CDU</td></tr><tr><td>Nota da Prefeitura (2026)</td><td>9.783,30 m²</td><td class="has-text-align-left" data-align="left">Base usada para calcular os 72,74% preservados</td></tr><tr><td>Pedido do empreendedor (EIV)</td><td>9.371,18 m²</td><td class="has-text-align-left" data-align="left">Redução que a consultoria da OR solicitou à prefeitura<br></td></tr></tbody></table></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Projeto usa 99,88% do potencial construtivo do terreno</h3>



<p>O quadro de parâmetros do Estudo de Impacto de Vizinhança também mostra que o projeto está encostando no limite construtivo permitido pelo zoneamento. O coeficiente de aproveitamento máximo permitido no local é de 3,5; o empreendimento apresenta 3,495. Em área, isso significa que o teto legal de construção no lote é de 39.477,52 m² e o projeto ocupa 39.430,69 m². Sobram apenas 46,83 m² de potencial construtivo não utilizado, ou 0,12% do total.</p>



<p>Os documentos públicos analisados pela Marco Zero não mostram como seria feita a construção dessas três torres sem que seja necessária a retirada de árvores para a passagem de máquinas de grande porte e caminhões pelo terreno. Como o projeto se encontra próximo, ou talvez abaixo do mínimo exigido pelo IPAV, qualquer árvore retirada para manobra de veículos durante a construção pode deixar a situação da área verde do imóvel ainda mais complicada.</p>



<p>No EIV, está escrito que será feito o plantio de 90 árvores como compensação em dobro pelas árvores que serão retiradas, o que corresponde ao corte de 45 árvores. O plantio será na área do empreendimento e na via pública adjacente, segundo o estudo. Árvores que, se bem cuidadas, demorarão décadas para terem copas tão frondosas quanto as que estão hoje no imóvel.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
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                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/mansaoharleylundgren-300x169.jpeg">
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                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/mansaoharleylundgren-1024x576.jpeg" alt="Vista aérea da Mansão Harley Lundgren cercada de árvores na Rua Padre Roma, entre prédios da Zona Norte do Recife" class="" loading="lazy" >
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	                                        <p class="m-0">Mansão onde morou a família Harley Lundgren fica entre os bairros da Tamarineira e Parnamirim
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<h3 class="wp-block-heading"><strong>Como foi a reunião do CDU que aprovou as torres</strong></h3>



<p>A Marco Zero teve acesso à ata da reunião do Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU) que aprovou a viabilidade do projeto de três edifícios nos jardins preservados da Mansão Harley Lundgren. Foi uma reunião online, indo das 9h10 às 13h06 do dia 2 de julho. O projeto no terreno do casarão da rua Padre Roma era o último assunto de uma pauta com quatro itens. Antes de chegar a ele, o presidente do conselho e secretário de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, Felipe Martins Matos, deixou a sessão. Ele informou que tinha reunião marcada com um ministro de Estado e passou a condução à suplente, Taciana Sotto-Mayor, secretária executiva de Licenciamento.</p>



<p>Foi ela quem propôs inverter a ordem da pauta, com a classificação do casarão como Imóvel Especial de Preservação sendo votada antes da viabilidade das três torres. A justificativa registrada em ata é que a sequência tornaria a discussão &#8220;mais clara e coerente&#8221;, permitindo ao conselho deliberar primeiro sobre a preservação do casarão e, em seguida, sobre &#8220;a implantação do empreendimento no restante do terreno&#8221;. Não houve objeções. A preservação municipal foi aprovada por 20 votos, sem nenhum contrário.</p>



<p>Na sequência, o arquiteto João Domingos apresentou o projeto das torres. Disse que o terreno tem aproximadamente 11 mil m², que é classificado como IPAV e que passaria a ser também IEP. Afirmou que o empreendimento &#8220;atende aos parâmetros urbanísticos previstos na legislação, destacando a preservação de área de solo natural superior ao mínimo exigido&#8221;. Não apresentou números.</p>



<p>Em seguida, o conselheiro relator Roberto Lemos Muniz foi convidado a falar, mas a presidente em exercício pediu que ele resumisse o parecer em vez de lê-lo integralmente, &#8220;considerando o adiantado da hora e a saída de alguns participantes da reunião&#8221;. Muniz aceitou. Ao resumir, disse que o projeto &#8220;deverá manter, no mínimo, 70% da área verde cadastrada&#8221;. Também não apresentou números.</p>



<p>Durante a reunião do CDU, a conselheira Circe Monteiro, representante do Mestrado de Desenvolvimento Urbano da UFPE, pediu esclarecimento sobre a área de solo permeável do empreendimento, apontando &#8220;possível equívoco material&#8221; e observando que a tabela exibida na apresentação indicava valor &#8220;zero&#8221;. O arquiteto João Domingos respondeu que o zero &#8220;decorreu da forma de apresentação da tabela, não significando ausência de soluções de permeabilidade&#8221;, e repetiu que o projeto prevê solo natural acima do mínimo exigido, além de &#8220;pavimentos drenantes e outros sistemas permeáveis&#8221;, sem informar nenhum número.</p>



<p>Em nenhum momento da reunião — nem na apresentação do empreendimento, nem no resumo do parecer, nem nas respostas aos conselheiros — se disse quantos metros quadrados do terreno serão pavimentados, quanto de área verde restará depois das obras ou quantas árvores serão retiradas. Tampouco foi mencionado que o Estudo de Impacto de Vizinhança pediu à prefeitura para reduzir a área verde cadastrada do imóvel.</p>



<p>Ao responder outra pergunta de Circe Monteiro, o arquiteto informou que a licença prévia ambiental do empreendimento já havia sido emitida. A votação seguiu sem mais debate. A viabilidade das três torres foi aprovada também por unanimidade. Em nota à MZ, a prefeitura afirmou que a ata ainda precisa ser aprovada na reunião seguinte do conselho antes de ser publicada no <a href="https://licenciamentounificado.recife.pe.gov.br/atas-entidade-cdu" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Portal de Licenciamento Unificado</a>.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Pesquisadores veem perda de paisagem na Zona Norte</strong></h3>



<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="576" height="1024" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/harleylundgrenmansao-576x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-76273 size-full" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/harleylundgrenmansao-576x1024.jpeg 576w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/harleylundgrenmansao-169x300.jpeg 169w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/harleylundgrenmansao-150x267.jpeg 150w, https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/harleylundgrenmansao.jpeg 720w" sizes="auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p>O arquiteto e urbanista Davi Valentim, doutorando em patrimônio no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), estranha a classificação do casarão como um IEP justo agora, uma vez que no ano passado houve uma grande atualização da lista de IEPs com a nova lei urbanística do Recife. E o casarão, na época, ficou de fora da lista de imóveis protegidos.</p>



<p>&#8220;Acredito que, por um lado, exista uma postura do campo do patrimônio de tentar usar o tombamento para proteger o imóvel, já com ciência de alguma especulação imobiliária, para segurar uma demolição&#8221;, diz. &#8220;Mas, a julgar pelo comportamento de troca entre a Prefeitura do Recife e o mercado imobiliário, também parece que isso pode ter sido um movimento para garantir a execução desse tipo de projeto&#8221;, afirma.</p>
</div></div>



<p>O geógrafo Ítalo Soeiro, doutor em Desenvolvimento Urbano pelo MDU da UFPE e pesquisador do Laboratório da Paisagem (UFPE), analisa que o futuro empreendimento reúne três camadas de valorização: o verde como ativo imobiliário, o casarão como ativo simbólico, e o espetáculo midiático como valor de marketing, se referindo à série sobre a herdeira das Casas Pernambucanas.</p>



<p>&#8220;O elemento do patrimônio, da memória, é muito utilizado como produção de valor para o empreendimento imobiliário. Há muito tempo o pensamento urbano deixou de entender o patrimônio e as patrimonializações como um processo contraditório com a produção de valor. A professora Norma Lacerda e outros que estudam mercado imobiliário mostram que a patrimonialização também é interessante em alguma medida para o mercado imobiliário”, afirmou Ítalo Soeiro em entrevista para a MZ.<br><br>Para Soeiro, é um caso que mostra que os IPAVs, de maneira geral, estão ameaçados. &#8220;Vende-se a lógica da preservação. Claro que é uma preservação numa lógica privada, fetichizada, que é vendida no próprio nome dos empreendimentos: Jardim não sei o quê, Bosque não sei o quê”, exemplifica.<br><br>Ainda que o novo empreendimento preserve os 70% de área verde, há impactos que não estão sendo contabilizados. “A patrimonialização não garante que o impacto desse empreendimento vá ser controlado, porque ele tem um impacto severo. Impacto na percepção, no acesso, e também na perda dessa massa verde, sobretudo no contexto da Zona Norte, que já está bem adensada”, critica Soeiro.<br><br>“A paisagem é argumento de proteção tanto do IPAV quanto do IEP. E vamos ter, na verdade, uma mudança significativa da paisagem: três torres de 19 pavimentos&#8221;, reforça Davi Valentim. &#8220;O que é diferente nesse caso específico é que estamos falando de um IEP com um IPAV. Não estamos querendo proteger só uma casa. É uma casa eclética, mas é também uma vegetação, é uma paisagem. E está numa zona que, no zoneamento da prefeitura, é considerada zona de desenvolvimento sustentável, de beira de rio. Pela própria lei, isso deveria ser importante”, afirma o urbanista.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Proteção pública, uso privado</strong></h3>



<p>Os dois pesquisadores ouvidos pela Marco Zero criticam que um imóvel com duas preservações siga sendo de uso de uma parte ínfima da população recifense. O condomínio prevê 629 moradores. &#8220;Era um jardim privado de famílias abastadas. Nesse sentido, o imóvel vai manter sua origem patrimonial de jardim privado”, critica Ítalo Soeiro.</p>



<p>&#8220;É muito comum aqui no Recife ter um IEP como salão de festa de prédio de rico. É como se fosse uma contrapartida, já que não há quase nada de contrapartida nesses empreendimentos. Mas o que eles usam como suposto argumento de contrapartida é, na verdade, o que já deveria estar incluído no projeto” , diz Davi Valentim.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 ">
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	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Foto do casarão, agora protegido, incluída no EIV
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>&#8220;O propósito de um patrimônio é que ele seja de acesso público. Aquela casa é privada, sim, mas está ali representando um contexto histórico, uma vegetação, algo significativo para a cidade. Se você olhar as imagens de cima, o buraco verde que é aquele lugar num território já cheio de prédio é um resquício de algo que é histórico para o Recife&#8221;, analisa Valentim.</p>



<p>O urbanista lembra que nem todo imóvel tombado precisa virar museu. Há outras formas de uso, como prédios para órgãos públicos e instituições. Ele cita o Pavilhão de Óbitos, anexo da antiga Faculdade de Medicina, que tem um tombamento estadual e hoje é ocupado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-PE). &#8220;O adequado para o imóvel da rua Padre Roma seria uma apropriação disso para uso público. O uso residencial é o pior que se pode colocar ali”, critica.</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Nota da Prefeitura do Recife</span>

	    <p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">A Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento (Sedul), informa que o Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU) aprovou, em reunião realizada em 2 de julho de 2026, a Viabilidade de Empreendimento de Impacto (VEI) do empreendimento e a classificação do casarão existente no imóvel como Imóvel Especial de Preservação (IEP). As propostas foram aprovadas por unanimidade pelos 21 conselheiros presentes.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">O imóvel é classificado como Imóvel de Proteção de Área Verde (IPAV) e, por isso, deve preservar, no mínimo, 70% da área verde cadastrada, conforme a Lei Municipal nº 18.014/2014, que instituiu o Sistema Municipal de Unidades Protegidas (SMUP). A área verde cadastrada é de 9.783,30 m², o que exige a preservação de, pelo menos, 6.848,31 m². O projeto prevê a manutenção de 7.116,82 m² de área verde, equivalente a 72,74% da área cadastrada, percentual superior ao mínimo exigido em lei.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">É importante esclarecer que a aprovação da VEI não autoriza o início das obras nem representa a aprovação do projeto. Trata-se de uma etapa preliminar do licenciamento, na qual são avaliadas a viabilidade urbanística do empreendimento e definidas as condicionantes e medidas mitigadoras que deverão ser cumpridas nas fases seguintes.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Entre as condicionantes aprovadas pelo CDU estão a elaboração e execução de um Plano de Circulação e Acessibilidade (PCA), com requalificação de calçadas, arborização, iluminação, travessias, sinalização e melhorias na infraestrutura cicloviária; o recuo do alinhamento do terreno, com ampliação da calçada e tratamento do fechamento frontal para permitir a visualização do casarão preservado e da área verde a partir da via pública; a apresentação de estudo de adaptação climática com soluções voltadas à redução das ilhas de calor na área de influência do empreendimento; e a adequação do projeto às exigências decorrentes da classificação do imóvel como IEP, assegurando a preservação e a restauração do casarão.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Após a aprovação da VEI, o empreendedor deverá protocolar na Prefeitura do Recife o projeto de reforma com acréscimo de área, contemplando a preservação do casarão classificado como Imóvel Especial de Preservação (IEP). Nessa fase, o projeto será analisado pelos órgãos municipais competentes e deverá atender integralmente à legislação urbanística, edilícia, ambiental, patrimonial e de acessibilidade, bem como às exigências específicas decorrentes da classificação do imóvel como IPAV e IEP.</span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Somente após a aprovação desse projeto será possível solicitar o Alvará de Construção, documento que autoriza o início das obras. Após a conclusão da obra, o empreendimento ainda deverá obter o Alvará de Habite-se/Aceite-se, emitido somente após vistoria que comprove a execução em conformidade com o projeto aprovado, o atendimento das exigências legais e o cumprimento das condicionantes e medidas mitigadoras estabelecidas no licenciamento </span></p>
<p style="font-weight: 400;"><span style="font-weight: 400;">Por fim, a Prefeitura informa que a ata da reunião do CDU ainda será submetida à aprovação na reunião subsequente do Conselho. Após essa etapa, o documento será publicado no Portal de Licenciamento Unificado e ficará disponível para a população.</span></p>
    </div>
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			</item>
		<item>
		<title>Três prédios de 19 andares serão construídos no jardim da Mansão Harley Lundgren</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Carolina Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Jul 2026 21:16:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direito à Cidade]]></category>
		<category><![CDATA[construção]]></category>
		<category><![CDATA[lundgren]]></category>
		<category><![CDATA[mansão]]></category>
		<category><![CDATA[Mercado Imobiliário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Mansão Harley Lundgren, entre os bairros da Tamarineira e Parnamirim, na Zona Norte do Recife, é uma construção imponente rodeada por mangueiras, flamboyants e pau-brasil. É por conta dessa exuberante vegetação que o imóvel é classificado pela Prefeitura do Recife como Imóvel de Proteção de Área Verde (IPAV), o que exige a manutenção de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A Mansão Harley Lundgren, entre os bairros da Tamarineira e Parnamirim, na Zona Norte do Recife, é uma construção imponente rodeada por mangueiras, flamboyants e pau-brasil. É por conta dessa exuberante vegetação que o imóvel é classificado pela Prefeitura do Recife como Imóvel de Proteção de Área Verde (IPAV), o que exige a manutenção de no mínimo 70% da sua área verde cadastrada. No dia 2 de julho, porém, o Conselho de Desenvolvimento Urbano do Recife (CDU) aprovou a viabilidade para a construção de três prédios de 19 pavimentos e quase 40 mil m² de área construída nos jardins da mansão – a mesma que ganhou repercussão nacional com o documentário <em>O Testamento: O Segredo de Anita Harley</em>, do Globoplay. Serão 85 apartamentos de alto padrão, entre 297 m² e 370 m².</p>



<p>A ata da reunião não está disponível ainda no site do CDU, mas a Marco Zero obteve acesso aos dois pareceres relacionados ao imóvel que foram aprovados. O problema é que não há, no parecer sobre a viabilidade da construção, a garantia de que o empreendimento imobiliário irá preservar 70% da vegetação hoje existente.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/mansao-harley-lundgren-torres-area-verde/" class="titulo">Mansão Harley Lundgren: prefeitura mudou cálculo para viabilizar prédios em jardim preservado</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/poder/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Poder</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>Na mesma reunião do CDU foi aprovada também a classificação do casarão como um Imóvel Especial de Preservação (IEP). Antiga residência da família Lundgren, fundadora da rede de lojas Casas Pernambucanas, o casarão é uma edificação eclética construída provavelmente nos anos 1910. O parecer da aprovação dos prédios foi feito pelo representante do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Pernambuco (Crea-PE) no CDU, o conselheiro Roberto Lemos Muniz. Já o que transforma o casarão em IEP foi relatado pela conselheira Emília Márcia Avelino, representante da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento (Sedul).</p>


    <div class="infos mx-md-5 px-5 py-4 my-5">
        <span class="titulo text-uppercase mb-2 d-block">Características do empreendimento aprovado: </span>

	    <p><span style="font-weight: 400;">3 prédios, cada um com 19 pavimentos</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As torres terão aproximadamente 60 metros de altura, com 39.430,69 m² de área total construída</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">85 apartamentos de alto padrão, com áreas privativas entre 297 m² e 370 m²</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">362 vagas de estacionamento – o que dá uma média de 4,25 vagas por unidade</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Valor do investimento não foi informado no parecer</span></p>
    </div>



<p>Segundo o parecer para inclusão como IEP, o tombamento municipal surgiu por conta de um parecer técnico da Gerência Geral de Preservação do Patrimônio Cultural (DPPC) &#8220;exarado durante análise de Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV)&#8221; feito pela construtora responsável pelo projeto, a OR Empreendimentos Imobiliários e Participações S.A., do Grupo Novonor, antiga Odebrecht. Ao contrário do que acontece com outros empreendimentos de impacto analisados pelo CDU, este não trouxe o valor total previsto de investimentos. O casarão, agora preservado, deverá servir como área de lazer para os moradores.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Parecer não apresenta a conta da área verde protegida</strong></h2>



<p>O terreno do casarão dos Lundgren é o IPAV de número 45. A ficha cadastral dele, reproduzida no parecer, registra área verde de 9.806,39 m² em 2013 (área verde original: 9.783,30 m²), num lote de 11.097,30 m². Setenta por cento disso são 6.864 m². O quadro de dados do Estudo de Impacto de Vizinhança, também reproduzido no parecer, declara solo natural de 5.740,68 m², ou seja, 1.124 m² a menos.</p>



        <figure class="wp-block-image my-5 img-center text-center">
            <picture>
                <source media="(max-width: 799px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-07-17-154410-300x169.png">
                <source media="(min-width: 800px)" srcset="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-07-17-154410.png">
                <img decoding="async" src="https://marcozero.org/wp-content/uploads/2026/07/Captura-de-tela-2026-07-17-154410.png" alt="A imagem mostra uma vista aérea de uma área urbana com vários prédios altos. No centro, há três edifícios residenciais destacados por uma linha vermelha tracejada, indicando uma região específica. Dentro desse perímetro, nota-se áreas verdes com árvores e uma construção menor, possivelmente uma casa ou edifício de poucos andares. Ao redor, há ruas e outros prédios altos, compondo um cenário típico de bairro verticalizado." class="" loading="lazy" >
            </picture>

	                        <figcaption class="legenda-credito mx-md-5">
	                                        <p class="m-0">Projeção do futuro empreendimento incluída no parecer
</p>
	                
                                            <span>Crédito: Reprodução/parecer CDU</span>
                                    </figcaption>
                    </figure>

	


<p>Os dois números, contudo, não medem exatamente a mesma coisa: &#8220;solo natural&#8221; é parâmetro urbanístico e &#8220;área verde cadastrada&#8221; é levantamento ambiental, ambos definidos separadamente pela legislação municipal do Recife. Mas o parecer não apresenta nenhum outro número que permita saber se os 70% foram alcançados. Em nenhum ponto do documento aparece a área verde remanescente do projeto.</p>



<p>Ainda assim, o documento conclui que o empreendimento &#8220;apresenta conformidade com as diretrizes de uso e ocupação do solo estabelecidas para a área, incluindo a incidência de imóvel classificado como área de proteção de vegetação (IPAV), o que impõe condicionantes à ocupação, especialmente quanto à manutenção de percentual mínimo de área verde&#8221; e aponta uma posterior exigência da licença ambiental como condição para aprovação do projeto.</p>



<p>Cálculo da Marco Zero a partir dos números da ficha cadastral indica que a área verde ocupa cerca de 88% do lote: praticamente tudo o que o projeto das torres impermeabiliza sai de dentro da área de vegetação, já que o casarão, agora preservado, não pode ceder lugar às torres. O parecer não informa quantas árvores serão retiradas, nem exige qualquer compensação ambiental, plantio ou transplante pelas árvores que serão derrubadas.</p>



    <div class="lista mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #EBEB01;">
        <span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">As principais contradições do parecer</span>

                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>1. </span>Declara conformidade com o IPAV sem apresentar um único cálculo;</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>2. </span>Não informa quantas árvores serão retiradas nem exige compensação ambiental, plantio ou transplante;</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>3. </span>Conclui pela viabilidade antes da licença ambiental que verificaria o IPAV. A licença prévia é exigida como condição posterior, o que retira do colegiado e da consulta pública a aferição dos 70%;</p>
            </div>
                    <div class="lista__item">
                <p class="m-0"><span>4. </span>A única mitigação paisagística exige permeabilidade visual do muro — e ainda subtrai lote com o recuo de alinhamento, sem recalcular o saldo.</p>
            </div>
            </div>



<p>As ações mitigadoras e compensatórias exigidas pelo parecer são apenas duas: uma de mobilidade e outra de paisagem. A primeira é um Plano de Circulação e Acessibilidade, que prevê, entre outras ações, travessias elevadas e a qualificação de uma rota de pedestres que ligue o empreendimento aos parques da Tamarineira e da Jaqueira. A segunda é o recuo do alinhamento com ampliação da calçada e o tratamento do muro frontal com permeabilidade visual, &#8220;de modo a viabilizar a visualização do casarão preservado e da área verde do IPAV a partir do logradouro&#8221;.</p>



<p>Aqui vale lembrar que a nova Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo do Recife (LPUOS) criou um mecanismo pelo qual um IPAV que abra ao menos 50% da área verde cadastrada ao acesso público ganha áreas não computáveis no coeficiente de aproveitamento. Mas o projeto aprovado é um condomínio fechado e o jardim seguirá privado.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/segredo-influencia-e-manobra-a-construcao-do-colegio-gge-na-praca-do-parnamirim/" class="titulo">Segredo, influência e manobra: a construção do colégio GGE na Praça do Parnamirim</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
                            <a href="https://marcozero.org/formatos/reportagem/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Reportagem</a>
            
		                    <a href="https://marcozero.org/temas/poder/" class="btn text-uppercase me-2 mb-2">Poder</a>
			        </div>
	            </div>
        </div>

		


<p>O parecer também afirma que houve uma consulta pública sobre a construção das três torres, que ocorreu entre os dias 10 de dezembro de 2025 e 30 de abril de 2026, quase cinco meses, e que não registrou uma única manifestação. Também não houve nenhum pedido de audiência pública. O documento mostra que havia uma placa dentro do imóvel, atrás do muro, com um QR Code para o site de licenciamento da Prefeitura do Recife.</p>



<p>A Marco Zero entrou em contato com a Prefeitura do Recife para saber quais as próximas fases de licenciamento do empreendimento, o motivo das incongruências no parecer aprovado e se a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade ou a Sedul já verificaram se o empreendimento cumpre o mínimo de 70% de área verde preservada e quais árvores serão retiradas com as construções. A MZ também entrou em contato com a OR para saber qual o total de investimentos no terreno e como será feita a preservação da área verde e do casarão.  A prefeitura respondeu, mas não tivemos resposta da OR. <a href="https://marcozero.org/mansao-harley-lundgren-torres-area-verde/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Uma nova reportagem foi publicada sobre o assunto</a>. </p>


	<div class="informacao mx-md-5 px-5 py-4 my-5" style="--cat-color: #7BDDDD;">
		<span class="titulo text-uppercase mb-3 d-block">A rica vegetação da Mansão Harley Lundgren</span>

		<h4>A ficha cadastral do imóvel como IPAV traz 43 espécies catalogadas nos jardins da mansão. A vistoria foi feita há dez anos, em 04 de julho de 2016, e traz as seguintes espécies:</h4>
<h4 class="text-text-100 mt-2 -mb-1 text-base font-bold">Espécies frutíferas (8)</h4>
<blockquote class="ml-2 border-l-4 border-[hsl(var(--border-300)/0.1)] pl-4 text-text-300">
<p class="font-claude-response-body break-words whitespace-normal">abacateiro (<em>Persea americana</em> Mill.), bananeira (<em>Musa</em> L.), cajá (<em>Spondias mombin</em> L.), coqueiro (<em>Cocos nucifera</em> L.), fruta-pão (<em>Artocarpus altilis</em> (Parkinson) Fosberg), mamoeiro (<em>Carica papaya</em> L.), mangueira (<em>Mangifera indica</em> L.) e noni (<em>Morinda citrifolia</em> L.)</p>
</blockquote>
<h4 class="text-text-100 mt-2 -mb-1 text-base font-bold">Espécies arbóreas (10)</h4>
<blockquote class="ml-2 border-l-4 border-[hsl(var(--border-300)/0.1)] pl-4 text-text-300">
<p class="font-claude-response-body break-words whitespace-normal">canela (<em>Cinnamomum zeylanicum</em> Blume), cassia-amarela (<em>Senna siamea</em> (Lam.) H.S. Irwin &amp; Barneby), cassia-mimosa (<em>Pithecellobium dulce</em> (Roxb.) Benth.), ficus (<em>Ficus benjamina</em> L.), flamboyant (<em>Delonix regia</em> (Bojer ex Hook.) Raf.), mussaenda-rosa (<em>Mussaenda erythrophylla</em> Schumach &amp; Thonn.), palmeira-saga (<em>Cycas circinalis</em> L.), pata-de-vaca (<em>Bauhinia monandra</em> Kurz), pau-brasil (<em>Caesalpinia echinata</em> Lam.) e pinheiro (<em>Casuarina</em> L.)</p>
</blockquote>
<h4 class="text-text-100 mt-2 -mb-1 text-base font-bold">Espécies de valor ornamental, nos canteiros (21)</h4>
<blockquote class="ml-2 border-l-4 border-[hsl(var(--border-300)/0.1)] pl-4 text-text-300">
<p class="font-claude-response-body break-words whitespace-normal">árvore-da-felicidade (<em>Polyscias guilfoylei</em> (W. Bull) L.H. Bailey), buganvile-rosa (<em>Bougainvillea glabra</em> Choisy), coleus (<em>Plectranthus scutellarioides</em> (L.) R. Br.), comigo-ninguém-pode (<em>Dieffenbachia</em> Schott), costus (<em>Costus spiralis</em> (Jacq.) Roscoe), cróton (<em>Codiaeum variegatum</em> (L.) Rumph. ex A. Juss.), dracena (<em>Dracaena fragrans</em> (L.) Ker Gawl.), dracena-tricolor (<em>Dracaena marginata</em> hort.), dracena-vermelha (<em>Cordyline terminalis</em> (L.) Kunth), espada-de-são-jorge (<em>Sansevieria trifasciata</em> Prain), gengibre-vermelho (<em>Alpinia purpurata</em> (Vieill.) K. Schum.), helicônia (<em>Heliconia</em> L.), imbê (<em>Philodendron imbe</em> Schott ex Endl.), ixoria (<em>Ixora</em> L.), jasmim-café (<em>Tabernaemontana divaricata</em> (L.) R. Br. ex Roem. &amp; Schult.), jibóia (<em>Epipremnum pinnatum</em> (L.) Engl.), lírio-da-paz-gigante (<em>Spathiphyllum cannifolium</em> (Dryand. ex Sims) Schott), líriope (<em>Liriope spicata</em> (Thunb.) Lour.), maranta-riscada (<em>Calathea ornata</em> (Lindl.) Körn.), murta-de-cheiro (<em>Murraya paniculata</em> (L.) Jack) e papoula (<em>Hibiscus rosa-sinensis</em> L.)</p>
</blockquote>
<h4 class="text-text-100 mt-2 -mb-1 text-base font-bold">Palmeiras (4)</h4>
<blockquote class="ml-2 border-l-4 border-[hsl(var(--border-300)/0.1)] pl-4 text-text-300">
<p class="font-claude-response-body break-words whitespace-normal">palmeira-areca (<em>Dypsis lutescens</em> (H. Wendl.) Beentje &amp; J. Dransf.), palmeira-imperial (<em>Roystonea oleracea</em> (Jacq.) O.F. Cook), palmeira-leque (<em>Livistona chinensis</em> (Jacq.) R. Br. ex Mart.) e palmeira-ráfis (<em>Rhapis excelsa</em> (Thunb.) A. Henry)</p>
</blockquote>
<p class="font-claude-response-body break-words whitespace-normal"><strong>Total: 43 espécies</strong></p>
	</div>
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