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	<title>Laércio Portela, Autor em Marco Zero Conteúdo</title>
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	<description>Jornalismo investigativo que aposta em matérias aprofundadas, independentes e de interesse público.</description>
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	<title>Laércio Portela, Autor em Marco Zero Conteúdo</title>
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		<title>Sônia Guajajara defende criação da Comissão da Verdade Indígena</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Apr 2023 19:52:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, defendeu a criação de uma Comissão da Verdade Indígena para promover a reparação pelo Estado das violências sofridas pelos povos originários no país. “Os povos indígenas no Brasil sofreram graves violações de seus direitos humanos em diversos períodos da história e nós precisamos reconhecer isso e avançar nas [&#8230;]</p>
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<p>A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, defendeu a criação de uma Comissão da Verdade Indígena para promover a reparação pelo Estado das violências sofridas pelos povos originários no país. “Os povos indígenas no Brasil sofreram graves violações de seus direitos humanos em diversos períodos da história e nós precisamos reconhecer isso e avançar nas reparações necessárias, inclusive criar a Comissão da Verdade Indígena que é uma medida fundamental para promover o início dessa reparação e para não permitir que haja repetição desses vergonhosos episódios”.</p>



<p>A declaração de Guajajará foi feita no primeiro ato de demarcação de terras do governo Lula. Como havia prometido, o presidente realizou a solenidade no Acampamento Terra Livre montado há cinco dias em Brasília e que juntou mais de seis mil indígenas de diversas etnias de todas as regiões do Brasil. Em todo o país, são 350 povos e 274 línguas indígenas. Ao todo, foram homologadas seis terras de seis estados. Duas no Norte, duas no Nordeste, uma no Sul e outra no Centro-Oeste: Arara do Rio Amônia (AC), Kariri-Xocó (AL), Rio dos Índios (RS),Tremembé da Barra do Mundaú (CE), Uneiuxi (AM) e Avá-Canoeiro (GO).</p>



<p>Na ocasião, Lula se comprometeu a demarcar todas as terras indígenas durante seus quatro anos de governo. Segundo dados da Funai repassados pela Associação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), o país possui cerca de 680 territórios indígenas regularizados e mais de 200 aguardam análise para serem demarcados. Além dos seis homologados agora por Lula, existem mais oito terras indígenas que já tiveram parecer técnico favorável da Funai, com documentação encaminhada ao Ministério dos Povos Indígenas e podem ser homologados em breve.</p>



<p>“O mandato é de quatro anos e nesses quatro anos nós vamos fazer mais do que fizemos nos outros oito anos em que eu governei esse país. Não deixem de brigar por seus direitos e de se organizar. Não tem problema de me cobrar. Aonde me encontrarem, cobrem, porque o governo existe para atender os interesses do povo e não de uma pequena elite brasileira que tem tudo”, disse o presidente. </p>



<p>O evento no Acampamento Terra Livre foi bastante prestigiado pelo governo com a presença de quase uma dezena de ministras e ministros. Coube ao Cacique Raoni, em discurso realizado em sua língua nativa, agradecer ao presidente por cumprir a promessa de criar o Ministério dos Povos Indígenas e dar às suas lideranças postos-chave no governo para tocar as políticas da área. Mas o líder caipó, que subiu a rampa com Lula na posse presidencial de 1 de janeiro e é uma referência de resistência para os povos indígenas, pediu mais: “Lula falou que ia colocar os próprio indígenas para comandar os órgãos, mas agora eu quero pedir pra ele fortalecer esses órgãos com recursos financeiros para vocês trabalharem”, afirmou, sendo bastante aplaudido.</p>



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	                                        <p class="m-0">O presidente Lula e o cacique Raoni no ato de encerramento do Acampamento Terra Livre, em Brasília. Crédito: Ricardo Stuckert</p>
	                
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<p>Dezenas de servidores indígenas da Funai acompanharam a solenidade e gritavam palavras de ordem pedindo a criação de uma política de cargos e salários para a Fundação. O presidente Lula disse que apoia a medida e ela já está sendo elaborada sob a coordenação da ministra da Gestão, Esther Dweck. Lula, inclusive, posou para fotos com um dos cartazes do movimento.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

            <div class="d-flex flex-column">
                <a href="https://marcozero.org/liderancas-indigenas-articulam-primeiras-demarcacoes-de-terras-do-governo-lula/" class="titulo">Lideranças indígenas articulam primeiras demarcações de terras do governo Lula</a>
	                    <div class="tags d-flex mt-3 flex-wrap">
            
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<h2 class="wp-block-heading">Proteção e fiscalização</h2>



<p>Para a ministra Sônia Guajajara, é preciso esclarecer a opinião pública sobre o tema das terras indígenas, quando se fala que elas ocupam 13% do território nacional, considerando que 93% das terras demarcadas ficam na Amazônia Brasileira.</p>



<p>“Isso significa que cerca de 40% do total de população indígena brasileira, que vive no Sul, Sudeste, parte do Centro-Oeste e Nordeste estão apenas em 7% da superfície demarcada restante. Outro dado importante é que 10% do total das terras demarcadas não estão na posse plena dos seus respectivos povos porque existem sobreposições por conta de empreendimentos, grilagem, invasões e a prática de uma série de crimes como o corte ilegal de madeira, o garimpo e o uso do território para o narcotráfico por isso é fundamental lembrarmos da importância da proteção e fiscalização permanente dessas terras”.</p>



<p>Além das primeiras homologações de terras do seu terceiro mandato à frente da Presidência, Lula assinou decretos recriando o Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI) e instituindo o Comitê Gestor da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). O Comitê terá o objetivo de promover e garantir a proteção, recuperação, conservação e uso sustentável dos recursos naturais nos territórios indígenas.</p>



<p>O presidente também assinou a liberação de 12,3 milhões para a Funai para aquisição de insumos, ferramentas e equipamentos às casas de farinha, no intuito de recuperar a capacidade produtiva das comunidades indígenas Yanomami.</p>



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		<title>Lideranças indígenas articulam primeiras demarcações de terras do governo Lula</title>
		<link>https://marcozero.org/liderancas-indigenas-articulam-primeiras-demarcacoes-de-terras-do-governo-lula/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Apr 2023 20:31:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Seis mil indígenas de todo o Brasil estão acampados desde a segunda-feira (24) ao lado do Teatro Nacional, em Brasília, a poucos metros do Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. A 19a edição do Acampamento Terra Livre na capital brasileira tem uma diferença este ano. Pela primeira vez na história, lideranças [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Seis mil indígenas de todo o Brasil estão acampados desde a segunda-feira (24) ao lado do Teatro Nacional, em Brasília, a poucos metros do Palácio do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. A 19<sup>a</sup> edição do Acampamento Terra Livre na capital brasileira tem uma diferença este ano. Pela primeira vez na história, lideranças indígenas ocupam espaços decisórios de poder no governo federal para impulsionar a demanda reprimida pela demarcação das terras dos povos originários.</p>



<p>A presidenta da Funai, Joênia Wapichana, ex-deputada federal pela Rede, informou que 14 terras estão prontas para serem homologadas, tendo passado por todo o trâmite legal da Fundação. A expectativa é de que a totalidade ou parte desses territórios sejam homologados na próxima sexta-feira (28), quando o presidente Lula confirmou que visitará o acampamento. O anúncio significará a retomada das demarcações depois de quatro anos de paralisação no governo Bolsonaro. Segundo dados da Funai, o Brasil possui cerca de 680 territórios indígenas regularizados e mais de 200 aguardam análise para serem demarcados.</p>



<p>Joênia esteve no Acampamento Terra Livre para relatar os desafios dos primeiros meses de governo, numa Funai com déficit de servidores, sem planos de cargos e salários, nem veículos e condições mínimas de segurança para fiscalizar e conter a atuação de madeireiros e garimpeiros nas terras indígenas. Ela reivindica, inclusive, que os órgão tenha poder de polícia para fazer frente ao crime organizado. Contou que a Fundação tem atuado muito sob a pressão de ordens judiciais. Entre as ações planejadas estão a revisão da estrutura de funcionamento do órgão e a realização de concurso público.</p>



<p>A prioridade número 1, no entanto, é destravar as demarcações, revisando com muita atenção os documentos que recebeu do governo Bolsonaro. “Separamos 14 processos para homologação. Eles passam por pareceres técnicos. Eu não vou assinar qualquer papel da outra gestão. Eu tenho que ter responsabilidade de atualizar esses processos, ver se eles estão conforme a reivindicação da nossa comunidade. Não posso assinar um documento que estava parado por 10 anos porque pode ter mudado alguma coisa”. Nesses três primeiros meses de gestão, a Funai e o Ibama revogaram duas instruções normativas que flexibilizavam o licenciamento e a exploração de madeira em terras indígenas.</p>



<p>O principal símbolo da virada política da gestão federal com o recém-protagonismo dos povos originários é a criação do Ministério dos Povos Indígenas comandado por Sônia Guajajara, deputada federal licenciada e ex-candidata a vice-presidente do Brasil pelo Psol.</p>



<p>Nos dez anos anteriores, Sônia trabalhou na coordenação do Terra Livre, ajudando a organizar o acampamento. Agora, participa como ministra de Estado. “Nós estamos aqui hoje com esse compromisso de reconstruir o nosso país. O <a href="https://amazoniareal.com.br/tragedia-humanitaria/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">povo Yanomami</a> é o símbolo do início desse governo. Vocês imaginam o que teria acontecido se o presidente Lula não tivesse sido eleito? Se não tivéssemos um ministério indígena, parlamentares indígenas, uma Funai indígena, uma Sesai indígena parta acabar com essa crise humanitária?”.</p>



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	                                        <p class="m-0">Lideranças indígenas que ocupam espaços de poder no governo federal, no Congresso e nos estados participam de plenária do Acampamento Terra Livre, em Brasília. Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>A Sesai a que a ministra se refere é a Secretaria Especial de Saúde Indígena, que integra o Ministério da Saúde e nunca havia sido gerida por um indígena até a posse este ano de Weiber Tapeba, advogado reeleito vereador de Caucaia (CE) pelo PT em 2020. Assim como Sônia e Joênia, ele esteve no acampamento para fazer um balanço dos primeiros dias de governo, lembrando que falou ao próprio Lula na edição do ano passado que os povos indígenas não queriam apenas participar da campanha, mas ajudá-lo a governar o país.<br><br>“Nós trouxemos no ano passado a nossa encantaria, a força da nossa ancestralidade pra dentro da campanha numa disputa onde a democracia estava ameaçada. Com a força do toré e dos nossos encantados agora estamos dentro do Parlamento e da Esplanada dos Ministérios”, afirmou Weiber. Uma das primeiras medidas da nova Sesai foi anular a decisão do governo Bolsonaro de proibir investimentos federais de saúde em terras não homologadas. “Estávamos sendo duplamente punidos por um Estado que sempre foi leniente, omisso e negligente para demarcar nossos territórios”.<br><br>A Sesai foi um dos órgãos mais aparelhados pelos militares no governo passado, quando assumiram a maioria das coordenações dos 34 distritos sanitários indígenas do país. Segundo Weiber, existem unidades de saúde indígena que sequer têm acesso a água potável, internet e energia elétrica, enquanto os servidores enfrentam exaustivas jornadas de trabalho. “Estamos operando com o orçamento do ano passado, mas vem aí o novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e a saúde indígena entrará como prioridade”, informou.</p>



<p>Em seu primeiro mandato de deputada federal por Minas Gerais, Célia Xakriabá (Psol) participa de uma articulação junto ao Ministério da Saúde para que 5% das equipes do novo Programa Mais Médicos sejam designados para territórios indígenas porque, segundo ela, foi com o Mais Médicos que pela primeira vez os 34 distritos indígenas tiveram cobertura completa de saúde. Em sua passagem pelo acampamento deste ano, Célia contou que se reuniu com o ministro da Educação Camilo Santana para pleitear a criação da Secretaria Nacional de Educação Escolar Indígena.</p>



<p>Para Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas, o momento é de celebrar a conquista histórica da ocupação dos espaços de poder e decisão, relacionando esse momento aos anos de luta e resistência do Acampamento Terra Livre em defesa dos territórios, das culturas e modos de vida indígenas. Mas não dá para baixar a guarda porque a oposição conservadora e anti-indígena é muito forte no Congresso. De acordo com ela, existem sete medidas protocoladas no Congresso e uma ação no STF movida pelos opositores para que a demarcação de terras indígenas volte a ser da responsabilidade do Ministério da Justiça.</p>



<p>“As forças políticas e econômicas continuam fotes e articuladas para impedir que nossos modos de vida sejam exercidos por nós em nossos territórios indígenas. A terra continua sendo o principal objeto de disputa pelo poder político e pelo poder econômico e nós estamos todos os dias nos articulando para destravar esse processo de demarcação de terra”, explicou a ministra. Essa articulação passa pelo convencimento de governadores e prefeitos de cidades que possuem territórios indígenas a criarem secretarias específicas de povos indígenas. Onze estados já aderiram à proposta e criaram as suas. </p>



<h2 class="wp-block-heading">Atos e marchas movimentam Acampamento</h2>



<p>Com o tema <em><a href="https://apiboficial.org/2023/04/06/demarcacao-de-terras-futuro-e-democracia-e-tema-da-19a-edicao-do-acampamento-terra-livre/">O futuro indígena é hoje. Sem demarcação não há democracia</a>, </em>o acampamento Terra Livre tem previstas mais de 30 atividades divididas em cinco eixos temáticos, sendo eles: Diga o povo que avance, Aldear a Política, Demarcação Já, Emergência Indígena e Avançaremos. Os eixos contam com plenárias sobre mulheres indígenas, parentes LGBT+, gestão territorial e ambiental de terras indígenas, acesso a políticas públicas e povos indígenas em isolamento voluntário.</p>



<p>Durante a programação, o movimento indígena promove três marchas pelas ruas de Brasília. A primeira, até o Congresso Nacional, aconteceu na segunda-feira (24) para pedir a derrubada dos projetos de leis anti-indígenas como o PL 191 que permite a mineração em terras ancestrais e o PL da grilagem. Projetos de Lei como esses tornam os indígenas os alvos mais frequentes da violência do campo no Brasil, representando<strong> </strong><a href="https://www.brasildefato.com.br/2023/04/17/violencia-no-campo-se-concentrou-na-amazonia-e-indigenas-sao-os-que-mais-morreram-diz-cpt">38% das pessoas assassinadas em 2022, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT)</a>.</p>



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	                                        <p class="m-0">Indígenas pataxó do sul da Bahia se integraram à marcha até o Congresso Nacional contra projetos de lei que liberam a grilagem em terras pertencentes aos povos originários. Crédito: Laércio Portela/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>A segunda caminhada acontece nesta quarta (26) no ato intitulado <em>Povos Indígenas decretam emergência climática </em>com o objetivo de chamar a atenção para o enfrentamento às violações ocasionadas pelas mudanças climáticas. Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), entidade organizadora do Acampamento Terra Livre, reitera que as terras indígenas são as áreas com maior biodiversidade e com vegetação mais preservadas, visto que são territórios protegidos e manejados pelos povos originários.</p>



<p>Um exemplo disso é o resultado do cruzamento de dados realizado pela Apib em 2022, em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), com dados do MapBiomas. O estudo aponta que no Brasil 29% do território ao redor das terras indígenas está desmatado, enquanto dentro das mesmas o desmatamento é de apenas 2%. “Não existe solução para a crise climática sem os povos indígenas e a demarcação plena das nossas terras”, reforça Dinamam.</p>



<p>Nesta quarta-feira (26), lideranças indígenas se reunirão em vigília em frente ao Supremo Tribunal Federal para reivindicar a declaração de inconstitucionalidade do Marco Temporal. O tema deve voltar a julgamento na corte no dia 7 de junho. Na quinta (27), o Acampamento Terra Livre irá debater em plenária as consequências do Marco Temporal para os direitos dos povos indígenas.</p>



<p>O Marco Temporal é uma tese proposta numa ação judicial movida pelo antigo PFL &#8211;  que se transformou no DEM e depois se fundiu ao PSL para formar o União Brasil &#8211; de que os indígenas só poderiam reivindicar para reconhecimento e demarcação os territórios que eles ocupavam no dia 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Uma ação que visa questionar o direito originário a essas terras e desconhece todo o processo de violência e expropriação a que os povos indígenas foram submetidos no Brasil. “Nosso marco não é temporal, ele é ancestral. Se querem mesmo falar do marco temporal, nós temos que falar do marco temporal da invasão no Brasil”, critica Célia Xakriabá.</p>



        <div class="leia-tambem d-flex flex-column py-2 my-4 my-md-5">
            <span class=" d-block mb-2">MAIS SOBRE ESSE ASSUNTO:</span>

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                <a href="https://marcozero.org/sonia-guajajara-defende-criacao-da-comissao-da-verdade-indigena/" class="titulo">Sônia Guajajara defende criação da Comissão da Verdade Indígena</a>
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		<title>Lula critica mercado financeiro e defende novas narrativas em entrevista à mídia independente</title>
		<link>https://marcozero.org/lula-critica-mercado-financeiro-e-defende-novas-narrativas-em-entrevista-a-midia-independente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Feb 2023 21:51:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Na véspera de completar um mês dos ataques golpistas às sedes dos três poderes da República, o presidente Lula concedeu entrevista a 40 veículos da mídia independente no salão leste do primeiro andar do Palácio do Planalto, em Brasília. A Marco Zero estava presente. Não há mais vidros quebrados e estilhaços pelo chão, mas as [&#8230;]</p>
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<p>Na véspera de completar um mês dos ataques golpistas às sedes dos três poderes da República, o presidente Lula concedeu entrevista a 40 veículos da mídia independente no salão leste do primeiro andar do Palácio do Planalto, em Brasília. A Marco Zero estava presente. Não há mais vidros quebrados e estilhaços pelo chão, mas as marcas da violência continuam lá, nos tapumes de madeira que, agora, cobrem provisoriamente parte da fachada do prédio.</p>



<p>Por pouco mais de uma hora e meia, o presidente respondeu a uma dezena de perguntas dos jornalistas. Direta ou indiretamente, o tema principal na mesa do café da manhã com a imprensa foi a ameaça à democracia que vem do bolsonarismo raiz e truculento, mas que também tem aliados no mercado financeiro, na mídia corporativa, nas Forças Armadas e no Congresso Nacional.</p>



<p>O que ficou evidente é que a ameaça ao estado democrático de direito tem muitas caras, mas uma estratégia em comum: desgastar o governo Lula, minando sua agenda econômica e social.</p>



<p>O presidente contou um pouco como tem mobilizado sua energia política para fazer frente aos movimentos de desestabilização. O mais recente deles veio do Banco Central, agora autônomo, que manteve a taxa de juros em 13,75%, o que pode, do ponto de vista do governo, paralisar a economia e comprometer a agenda de Lula de combater a fome, gerar mais emprego e renda para os brasileiros.</p>



<p>O presidente do BC, Campos Neto, foi indicado por Bolsonaro e referendado pelo Senado. “Não é só meta de inflação, tem que ter meta de crescimento, senão fica um ser humano com uma perna só. Ele (Campos Neto) não deve explicações a mim, ele deve ao Congresso Nacional, que o indicou. Eu espero que o Haddad (Fernando, ministro da Fazenda) esteja vendo, esteja acompanhando, que esteja cioso pra saber o que tem que fazer”.</p>



<p>Lula também criticou a postura de setores do chamado “mercado”, que pressionam o governo a reduzir gastos e adotar uma política de ajuste fiscal, mas que tem pouco compromisso com as questões sociais.</p>



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	                                        <p class="m-0">Marco Zero participou do primeiro encontro de Lula com a mídia independente digital. Crédito: Ricardo Stuckert</p>
	                
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<p>“O mercado precisa ter sensibilidade. Não é só para ganhar dinheiro, mas permitir que os outros possam ganhar alguma coisa. O mercado, às vezes, fica esperando que a gente se faça confiar. Tantas vezes parece que a gente tem que pedir ao mercado: ‘goste de mim, me deixe governar, me deixa fazer as coisas para as quais eu fui eleito e a gente tem que fazer’. Temos que construir uma narrativa contrária à do mercado”.</p>



<p>O presidente citou nominalmente o megainvestidor Jorge Paulo Lemann, um dos maiores acionistas das Lojas Americanas, empresa acusada de fraudar os balanços e que soma um rombo de 40 bilhões de reais. “Eu as vezes fico chateado quando faço esse discurso (de investimento no social) e dizem que o mercado ficou nervoso. O mercado ficou nervoso quando o Lemann quebrou a Americanas? Deu um desfalque de 40 bilhões? Eu não vi. Mas para aumentar dois reais do salário mínimo, o mercado fica nervoso? Precisamos construir as nossas narrativas para que a gente não abra mão daquilo para o qual a gente foi eleito”, reiterou.</p>



<p>Uma outra frente que o presidente tem se empenhado em colocar nos eixos são as Forças Armadas. Ele contou que teve conversa com os comandantes da Marinha, da Aeronáutica e do Exército e alertou que não é prudente que nenhuma instituição do Estado esteja envolvida na política, citando Forças Armadas, Ministério Público e o Itamaraty. “Não podem fazer da sua atividade privilegiada, de Estado, um partido político. Eu disse pro general (Tomás Miguel) que, lamentavelmente, o Exército de Caxias foi transformado no Exército de Bolsonaro, o que não é uma boa coisa pra esse país”.</p>



<p>O general Tomás deu declarações públicas, antes mesmo de ser nomeado para o comando do Exército, contrárias à politização das Forças Armadas.</p>



<p>Segundo o presidente Lula, as Forças Armadas aprenderam uma lição. “Se cada um ficar no seu lugar, se cada um cumprir a sua missão, esse país volta à normalidade. É para isso que eu quero contribuir no meu mandato. O Judiciário julga, o Legislativo legisla e o Executivo executa. Se cada um fizer isso, vai dar tudo certo. Se cada um quiser se meter nas coisas dos outros, não vai dar certo”.</p>



<p>O discurso propagado nas redes sociais contra a política e os políticos diz muito como chegamos até aqui, com o avanço do autoritarismo no Brasil, na visão de Lula. “O que nós vivemos no Brasil foi a negação da politica, dizendo que a política não presta, que todo político é ladrão, que o Congresso não presta. Mas a gente só precisa levar em conta que o Congresso de hoje é o estado de humor e a qualidade de informação que o povo tinha no dia da eleição. Não podemos ficar lamentando. Precisamos tentar consertar daqui a quatro anos outra vez”.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Da prisão à Casa Branca</h2>



<p>Questionado sobre a volta por cima que deu ao sair da prisão, reconquistar seus direitos políticos e vencer a eleição presidencial, Lula falou do passado e o quanto ele pesa agora em suas decisões políticas. “Na verdade, quando eu fui para a Polícia Federal, eu fui para provar a culpa dos meus acusadores. Provar que meus acusadores foram imorais no meu julgamento. Foram levianos no meu julgamento. Provei não só a minha inocência, mas a culpabilidade deles. Agora, vida que segue. Não vou esquecer, mas não vou colocar isso na mesa das negociações para governar o Brasil. Se você colocar na mesa esse sentimento, você não governa o Brasil. Muitos dos meus acusadores negavam a política e viraram políticos”.</p>



<p>Na próxima quinta-feira (9), o presidente Lula terá encontro de chefe de Estado com o presidente norte-americano Joe Biden, em Washington. Será a primeira vez que os dois se encontrarão pessoalmente desde a eleição de Lula. Um dos temas principais da pauta é a preservação do meio ambiente e a crise climática. Mas o presidente brasileiro também pretende tratar de temas que estão diretamente ligados à democracia no mundo, discutindo regulação da plataformas digitais, propagação de discursos de ódio, mentiras e desinformação nas redes sociais. Ele defende que a questão seja levada a vários fóruns internacionais, como o G-20 e os Brics (termo utilizado para designar o grupo de países de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).</p>



<p>Lula não acredita que Biden possa pedir seu apoio para o esforço de guerra na Ucrânia porque o compromisso do Brasil é com a paz. Ele informou já ter tratado do assunto com o chanceler alemão Olaf Scholz e com o presidente francês Emamanuel Macron. “Precisamos criar um grupo dos 20 para discutir a questão da paz como tivemos o G-20 para discutir a crise econômica de 2008. Hoje não temos ninguém discutindo a paz. Os Estados Unidos não discutem a paz e a Europa toda está envolvida na guerra direta e indiretamente. Quem pode negociar a paz são os países que não estão envolvidos na guerra: China, Índia, Brasil, México. Dirigentes políticos que podem conversar com os dois lados”.</p>



<p>No final do café da manhã com a mídia independente, ficou a promessa do ministro da Comunicação Paulo Pimenta e do próprio Lula de que outros encontros virão e que os grupos de mídia serão convidados a participar de fóruns de debate do governo com a sociedade civil para formatar uma política de fomento ao setor.</p>



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		<title>Eleição de Lula inaugura agenda de reconstrução nacional</title>
		<link>https://marcozero.org/eleicao-de-lula-inaugura-agenda-de-reconstrucao-nacional/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 31 Oct 2022 21:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Diálogos]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[eleição 2022]]></category>
		<category><![CDATA[Lula presidente]]></category>
		<category><![CDATA[presidente eleito]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O governo de reconstrução e reconciliação proposto por Lula em seu discurso da vitória estará repleto de desafios nas áreas política, econômica e social. Ninguém melhor do que o ex-presidente para enfrentá-los. O mandatário que deixou a Presidência com o maior índice de aprovação da história, elegeu e reelegeu sua sucessora, foi judicialmente perseguido e [&#8230;]</p>
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<p>O governo de reconstrução e reconciliação proposto por Lula em seu discurso da vitória estará repleto de desafios nas áreas política, econômica e social. Ninguém melhor do que o ex-presidente para enfrentá-los. O mandatário que deixou a Presidência com o maior índice de aprovação da história, elegeu e reelegeu sua sucessora, foi judicialmente perseguido e preso por 580 dias até sua libertação e a reabilitação de seus direitos políticos para construir uma frente ampla democrática, unindo adversários históricos, e derrotar nas urnas a máquina de Jair Bolsonaro.</p>



<p>“Eu me considero um cidadão que teve um processo de ressurreição na política brasileira, porque tentaram me enterrar vivo e eu estou aqui para governar esse país numa situação muito difícil, mas eu tenho fé em Deus que, com a ajuda do povo, nós vamos encontrar uma saída para que esse país volte a viver democraticamente, harmonicamente”, disse Lula em sua primeira fala pública depois de proclamado o resultado.</p>



<p>Antes de ter efetivamente a caneta na mão para governar, o presidente eleito precisa do acesso a informações detalhadas do governo Bolsonaro, incluindo as contas públicas, para preparar sua administração. Isso se dá por meio da montagem de um governo de transição com equipes dos dois lados, do atual e do futuro presidente, que deve funcionar nos dois meses que antecedem a posse.</p>



<p>A transição é regulamentada por lei de 2002 e decreto de 2010. O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB-SP), o ex-ministro Aluízio Mercadante (PT-SP) e a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann (PR), são cotados para presidir o gabinete de transição de Lula. A questão é saber o quanto Bolsonaro e seu governo vão colaborar com o processo.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Transição política e orçamento</strong></h2>



<p>O acesso aos dados das contas públicas, projetos e programas federais é considerado fundamental para que o presidente eleito abra negociações para ajustar a proposta do Orçamento de 2023 encaminhada pelo atual governo ao Congresso e tenha alguma margem de manobra para tirar do papel, ainda no primeiro ano de mandato, compromissos assumidos na campanha.</p>



<p>A proposta orçamentária elaborada pelo governo Bolsonaro não prevê reajuste do salário mínimo e nem garante recursos para a manutenção do Auxílio Brasil de 600 reais. Lula se comprometeu a dar aumento real ao SM em todos os anos de seu governo e a ampliar o Auxílio Brasil incluindo 150 reais por criança para as famílias beneficiadas.</p>



<p>Um outro ponto delicado será a discussão do que se convencionou chamar de Orçamento Secreto, emendas do relator ao orçamento que podem ser feitas sem a identificação dos deputados e senadores. Lula criticou veementemente a medida adotada na gestão Bolsonaro associando-a à compra de apoio político. Para 2022, o Congresso aprovou R$ 16,5 bilhões. Em 2023, a previsão é de R$ 19 bilhões para essas emendas.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Base parlamentar e Frente Ampla</h2>



<p>Por falar em Congresso, a construção de uma base parlamentar de sustentação política ao governo será um dos principais desafios de Lula, considerando a presença significativa de parlamentares da direita e até da extrema-direita no Parlamento.</p>



<p>Na Câmara, 187 dos 513 (36,4%) deputados eleitos pertencem a partidos que integraram a coligação de Bolsonaro, enquanto que a coligação de Lula elegeu 122 deputados (23,8%). No Senado, os bolsonaristas também se saíram melhor com 23 dos 81 senadores (28,4%) e os apoiadores de Lula ficaram com 11 vagas (13,6%).</p>



<p>O que significa que não há como garantir uma maioria sem buscar apoio de partidos de centro e centro-direita que não estiveram engajados oficialmente na campanha petista, como MDB e PSD, e mesmo algum nível de aproximação com parlamentares do famigerado Centrão, incluindo Republicanos e União Brasil, por exemplo. Lula terá três meses para costurar a base porque os novos deputados e senadores só assumem seus mandatos no início de fevereiro.</p>



<p>O começo da legislatura será marcado pelo processo de eleição dos novos presidentes da Câmara e do Senado, um momento chave que costuma dar o norte da relação entre o Poder Legislativo e o Executivo nos anos seguintes. Bolsonarista de primeira hora, o atual presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), pode chegar enfraquecido à disputa em caso de tentativa de reeleição. O contrário do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que conteve a tramitação de vários projetos do atual governo naquela Casa. </p>



<p>Isso considerando a perspectiva do campo progressista, mas a disputa dependerá, como sempre dependeu, da correlação de forças a ser estabelecida entre governistas e oposicionistas nas duas casas legislativas.</p>



<p>Uma questão fundamental é saber o quanto a Frente Ampla construída por Lula durante a campanha pode impactar as costuras políticas partidárias com repercussão dentro e fora do Congresso. Figuras importantes da campanha como a senadora Simone Tebet (MDB-MS) e o vice-presidente eleito Geraldo Alkcmin (PSB-SP) devem jogar um papel importante nesse processo.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Economia, investimento social e imprensa</strong></h2>



<p>A gestão da política econômica de um governo de esquerda, ou de centro-esquerda, está sempre sob o escrutínio e a pressão do mercado financeiro e da grande mídia, que atua na maior parte das vezes como sua porta-voz. Recentes editorias da Folha de SP, primeiro exigindo de Lula que antecipasse o nome do seu ministro da Economia e, depois, que desse “mostras imediatas de responsabilidade orçamentária e disposição de rumar ao centro, política e economicamente” só confirmam a premissa.</p>



<p>O apoio no segundo turno a Lula de ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central nos governos Fernando Henrique, como Armínio Fraga e Edmar Bacha, podem fazer alguma diferença dessa vez no tratamento do mercado e da imprensa à agenda do futuro presidente que é economicamente ambiciosa porque está atrelada à melhoria da qualidade de vida de milhões de brasileiros e brasileiras que hoje vivem em situação de insegurança alimentar e precarização do trabalho.</p>



<p>Lula tem dito que o Brasil precisa de credibilidade, responsabilidade e previsibilidade, tendo se comprometido durante a campanha com uma “política fiscal que siga regras claras e realistas compatíveis com o enfrentamento da emergência social que vivemos e com a necessidade de reativar o investimento público e privado para arrancar o país da estagnação”.</p>



<p>Essa agenda inclui a retomada de obras paralisadas e de programas como o Minha Casa, Minha Vida; nova lei trabalhista; reforma tributária solidária, justa e sustentável, que simplifique tributos e onde os pobres paguem menos e os ricos mais; renegociação das dívidas das famílias; programa de crédito a juros baixos para pequenos empreendedores; e a isenção de imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais por mês.</p>



<p>Pelo menos duas questões a serem enfrentadas por Lula podem tensionar a relação com setores financeiros. Lula é contra a privatização da Eletrobrás, dos Correios e da Petrobrás. Também deve propor a revisão da regra do teto de gastos, que vincula o aumento de gastos da União à inflação do ano anterior.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Protagonismo internacional</strong></h2>



<p>Uma das tarefas mais importantes do próximo governo será a remontagem do aparato institucional de proteção ao meio ambiente e defesa dos povos originários. As boiadas por onde passaram a política de devastação idealizada pelo ex-ministro do Meio Ambiente e agora deputado eleito Ricardo Salles (PL-SP). Marcada pelo aumento do desmatamento da Amazônia, redução drástica da fiscalização e aplicação de multas, defesa de grileiros e perseguição a servidores que atuam na proteção de territórios indígenas.</p>



<p>O presidente eleito se comprometeu a criar o Ministério dos Povos Originários e colocar no seu comando um(a) indígena.</p>



<p>Anunciada a vitória de Lula, o governo da Noruega informou que irá retomar o apoio financeiro à preservação da Amazônia e a redução do desmatamento. Durante os primeiros mandatos de Lula, o presidente eleito fechou acordo com o governo da Noruega, em parceria também com a Alemanha, para a constituição de um fundo bilionário de cooperação internacional, que foi cortado no primeiro ano da gestão Bolsonaro.</p>



<p>O tema da Amazônia e das mudanças climáticas é um dos que mais mobiliza a opinião pública internacional e os países mais influentes. As ações de reconstrução da política de proteção vão reabrir para o Brasil as portas dos fóruns internacionais mais importantes e devem garantir ao país o protagonismo que já teve no passado na agenda global ambiental. </p>



<p>A vitória de Lula deve fortalecer espaços multilaterais como o Mercosul, o Brics e o G-20, ampliando a voz e a articulação geopolítica dos chamados países em desenvolvimento. As crises diplomáticas do Brasil com a China – nosso principal parceiro comercial no mundo – devem ficar definitivamente para trás.</p>



<p>O resultado da eleição no Brasil fortalece também os laços do país com os vizinhos latino-americanos, uma marca da diplomacia dos dois primeiro mandatos presidenciais de Lula, entre 2003 e 2010. Com Lula no governo, os seis países que possuem as maiores economias e populações locais passarão a ter presidentes do campo da esquerda e da centro-esquerda, caso do Brasil, Argentina, México, Peru, Colômbia e Chile.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Convivência e reconciliação democrática</strong></h2>



<p>Para que toda essa imensa agenda de reconstrução nacional possa ser articulada e sair do papel é preciso baixar a temperatura política nacional. Lula deixou evidente essa prioridade: “A partir de 1º de janeiro de 2023 vou governar para 215 milhões de brasileiros e brasileiras. Não apenas para aqueles que votaram em mim. Não existem dois Brasis. Somos um único país, um único povo, uma grande nação”.</p>



<p>O discurso sinaliza a troca da retórica do ódio produzida por Bolsonaro para uma postura de conciliação nacional encampada por Lula e que pretende distensionar o ambiente da política institucional e também da vida cotidiana dos brasileiros e brasileiras. “A ninguém interessa viver num país dividido, em permanente estado de guerra. Este país precisa de paz e de união. Este povo não quer mais brigar. Este povo está cansado de enxergar no outro um inimigo a ser temido ou destruído. É hora de baixar as armas, que jamais deveriam ter sido empunhadas. Armas matam. E nós escolhemos a vida”.</p>



<p>No campo institucional, Lula já anunciou que vai recriar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social agregando empresários, trabalhadores e movimentos sociais para discutir os grandes temas da agenda nacional no modelo do seu primeiro mandato. Entre suas primeiras medidas de governo, estará a convocação de um encontro com os 27 governadores eleitos e os 27 prefeitos de capital para tratar, entre outros temas, do combate à forme; a retomada de obras de infraestrutura e moradia; e a estruturação da relação federativa na área da segurança pública, que ganhará um ministério específico.</p>



<p>Como presidente-eleito e, depois, presidente de fato, Lula estará diariamente produzindo falas e gestos políticos que necessariamente vão ser visibilizados pela mídia de massa e reforçarão pelo exemplo de cima o compromisso com o distensionamento das relações entre adversários no país. </p>



<p>A postura pode &#8211; em médio ou longo prazo &#8211; influenciar corações e mentes de fiéis evangélicos, grupo mais visado pelas mentiras bolsonaristas que reforçaram o antipetismo, e &#8220;desarmar&#8221; os pastores mais conservadores e extremistas. Os evangélicos já são 31% da população brasileira e há estimativas de que passem de 50% em 2032. </p>



<p>Importante dizer que Bolsonaro ainda tem dois meses de governo à frente da Presidência e perdeu por uma margem estreita de votos para Lula o que o coloca como a grande liderança de oposição à futura administração federal. Mesmo sem apoios relevantes no Brasil e fora para dar um golpe de estado, ele pode fazer ainda muito estrago no ambiente político do país. O atual presidente já falou a aliados nos bastidores que teme que ele e seus filhos sejam presos quando deixar o Planalto. O medo nunca foi um bom conselheiro.</p>



<p>A diferença é que, agora, do outro lado da arena, está a maior liderança popular da história recente do Brasil, respaldado pela vitória inconteste na urnas, saudada por líderes de países de todos os continentes como um “alívio” para o mundo.</p>



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		<title>O dia D para a democracia no Brasil</title>
		<link>https://marcozero.org/o-dia-d-para-a-democracia-no-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Oct 2022 01:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonarismo]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2022]]></category>
		<category><![CDATA[Lula 2022]]></category>
		<category><![CDATA[pesquisa eleitoral]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mais de 156 milhões de brasileiros e brasileiras estão aptos a votar neste domingo (30) para eleger o próximo presidente da República. A maioria (53%) de mulheres. Em 12 estados, incluindo Pernambuco, eleitores e eleitoras também vão às urnas escolher o governador ou governadora nesse segundo turno. Uma eleição atípica em que o presidente e [&#8230;]</p>
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<p>Mais de 156 milhões de brasileiros e brasileiras estão aptos a votar neste domingo (30) para eleger o próximo presidente da República. A maioria (53%) de mulheres. Em 12 estados, incluindo Pernambuco, eleitores e eleitoras também vão às urnas escolher o governador ou governadora nesse segundo turno.</p>



<p>Uma eleição atípica em que o presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) passou meses desqualificando o processo eleitoral, questionando as urnas eletrônicas e <a href="https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/redacao/2022/10/27/bolsonaro-reforca-ataques-ao-tse-para-tentar-terceiro-turno-se-perder.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">atacando ministros</a> do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)<a href="https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/redacao/2022/10/27/bolsonaro-reforca-ataques-ao-tse-para-tentar-terceiro-turno-se-perder.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">.</a> Mais até: incentivando a desobediência à lei e incitando apoiadores a praticar atos de violência.</p>



<p>As <a href="https://g1.globo.com/rj/sul-do-rio-costa-verde/noticia/2022/10/23/roberto-jefferson-resiste-a-ordem-de-prisao-do-stf-e-fere-a-tiros-policiais-federais.ghtml">rajadas de tiros de fuzil</a> do ex-deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson, <a href="https://gauchazh.clicrbs.com.br/politica/eleicoes/noticia/2022/10/bolsonaro-diz-que-nao-tem-uma-foto-com-roberto-jefferson-mas-e-desmentido-por-imagens-que-circulam-nas-redes-sociais-cl9luxr0j004b014u73p385a0.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aliado de primeira hora de Bolsonaro</a>, contra policiais federais que cumpriam mandado de prisão contra ele são o exemplo mais emblemático e prático da combinação entre o discurso de ódio e a política armamentista bolsonarista.</p>



<p>A propagação de fake news e desinformação, especialmente nas redes sociais, whatsapp, telegram e nos púlpitos das igrejas evangélicas, foi novamente o maior desafio para as autoridades eleitorais. A conhecida pressão dos pastores bolsonaristas sobre os fiéis se ampliou para grupos de empresários e comerciantes que ameaçaram <a href="https://piaui.folha.uol.com.br/eleicoes-2022/crescem-denuncias-de-empresarios-chantageando-empregados-e-fornecedores-votar-em-bolsonaro" target="_blank" rel="noreferrer noopener">demitir funcionários</a> que não votassem em Bolsonaro.</p>



<p>Para o cientista político Túlio Velho Barreto, essa é uma eleição de uma importância sem precedente no país desde o processo de redemocratização nos anos 1980. “Da primeira eleição direta para presidente, em 1989, até agora, jamais a democracia esteve tão ameaçada”, afirma, lembrando o caminho político percorrido para chegarmos até aqui: do questionamento das regras do jogo por <a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2014/10/psdb-pede-ao-tse-auditoria-para-verificar-lisura-da-eleicao.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Aécio Neves em 2014,</a> que abriu as portas para <a href="https://jornalggn.com.br/noticia/historia-do-breve-golpe-de-2016/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o golpe contra Dilma</a>, em 2016, ao protagonismo da extrema-direita <a href="https://esquerdaonline.com.br/2018/11/02/a-extrema-direita-mundial-parabeniza-jair-bolsonaro/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a partir de 2018</a>.</p>



<p>Túlio afirma que o governo Bolsonaro e suas lideranças agiram à margem da lei desde que chegaram ao poder em 2019 e sem um projeto para o país. A referência histórica do bolsonarismo é a ditadura civil-militar de 1964-1985 e ele atua com o intuito de destruir a Constituição Federal de 1988 e o seu legado.</p>



<p>O cientista político acredita que Bolsonaro aposta no segundo mandato para construir um arranjo institucional autoritário e exercer um poder sem os limites hoje impostos pela Constituição e o controle dos poderes Legislativo e Judiciário. O presidente citou, inclusive, a possibilidade de encaminhar projeto ao Congresso para ampliar o número de ministros do STF e garantir maioria. A última vez que isso aconteceu foi justamente na <a href="https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2022/10/11/stf-historia-ministros-jair-bolsonaro-ditadura-militar-venezuela-hungria.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">ditadura militar</a>. Com a repercussão negativa, tem se comprometido a manter o total de 11 cadeiras na Corte.</p>



<p>Historicamente, parte importante de todo projeto autoritário é descredibilizar, atacar e calar a imprensa. Não à toa, durante os quatro anos de governo, Bolsonaro, seus filhos, ministros e principais autoridades públicas federais <a href="https://marcozero.org/normalizacao-de-ataques-a-imprensa-e-parte-da-erosao-da-democracia-no-pais/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">pressionaram e ameaçaram</a> sistematicamente profissionais da comunicação, especialmente as mulheres jornalistas.</p>



<p>“O que está em jogo na eleição desse domingo é a defesa da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa nesse país, onde em setembro do 2022 aconteceram mais de 250 ataques contra jornalistas e comunicadores de modo geral. O que está em jogo é a defesa da liberdade das pessoas que atuam no campo dos direitos humanos”, enfatiza Ana Veloso, professora de comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, coordenadora do Observatório de Mídia e integrante do coletivo Intervozes.</p>



<p>A <a href="https://marcozero.org/retrospectiva-a-pandemia-que-nao-deixou-2020-comecar-ou-terminar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">política negacionista</a> e a falta de empatia com as vítimas da pandemia de Covid-19 se conformou como a experiência mais radical vivida no governo Bolsonaro que dá a medida do projeto autoritário citado por Túlio e Ana. O Brasil contabiliza 688 mil mortes. O <a href="https://especiais.gazetadopovo.com.br/coronavirus/casos-no-mundo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">segundo país no mundo</a> em números absolutos de óbitos por Covid, perdendo apenas para os Estados Unidos, que superaram a marca de 1 milhão de vítimas fatais. Com 3% da população mundial, o Brasil possuiu 10% do total de mortos por Covid-19 no planeta.</p>



<p>“Tivemos uma altíssima mortalidade de indígenas, uma maioria de negros, idosos e pobres. Somos o último país a ter um governante a ainda negar a gravidade do que foi e do que ainda é a pandemia. Ele se recusou a reconhecer luto nacional, continua a fazer propaganda de produto sem eficácia, incentivou a invasão de hospital, agressão a profissionais de saúde, e sabotou todas as respostas possíveis para o enfrentamento da pandemia, desdenhou do sofrimento e da morte”, critica Bernadete Perez, médica sanitarista, professora da UFPE e vice-presidenta da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).</p>



<p>A <a href="https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2022/01/volta-do-brasil-ao-mapa-da-fome-e-retrocesso-inedito-no-mundo-diz-economista.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">volta do Brasil ao Mapa da Fome</a> é também um dos símbolos mais gritantes da falta de empatia com os mais pobres e de políticas continuadas e consistentes, como o aumento real do salário mínimo e o apoio à agricultura familiar, de combate à desigualdade. Dados de junho do 2<sup>o</sup> Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar apontavam o número de 33,1 milhões de brasileiros sem ter o que comer diariamente. Uma volta aos anos 1990.</p>



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	                                        <p class="m-0">Eleitora de Lula mostra cartaz de apoio em caminhada do ex-presidente na cidade de São Gonçalo, Rio de Janeiro. Crédito Ricardo Stuckert</p>
	                
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<h2 class="wp-block-heading"><strong>Pesquisas de véspera dão vantagem a Lula</strong></h2>



<p>Duas pesquisas divulgadas na noite do sábado (29), véspera da votação, confirmaram a vantagem de Lula nas intenções de voto dos eleitores na reta final do segundo turno. No <a href="https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2022/pesquisa-eleitoral/noticia/2022/10/29/ipec-lula-tem-54percent-dos-votos-validos-2o-turno-e-bolsonaro-46percent.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ipec</a>, encomendada pela TV Globo e realizada entre quinta e sábado, Lula obteve 54% dos votos válidos contra 46% de Bolsonaro. Os dois aparecem com os mesmos percentuais da pesquisa anterior, de 24 de outubro.</p>



<p>No <a href="https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2022/pesquisa-eleitoral/noticia/2022/10/29/datafolha-lula-tem-52percent-dos-votos-validos-no-2o-turno-e-bolsonaro-48percent.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Datafolha</a>, encomendado pela Globo e pela Folha de SP, a diferença é menor e caiu na margem de erro na comparação com a anterior. Agora, Lula tem 52% dos votos válidos contra 48% de Bolsonaro. Os dois aparecem, portanto, empatados no limite da margem de erro de dois pontos para mais ou para menos. No levantamento anterior, a diferença era de 53% para 47%.</p>



<p>Considerando os votos totais no Datafolha, Lula aparece com os mesmos 49% de antes e Bolsonaro oscilou positivamente de 44% para 45%. Quatro por cento das pessoas ouvidas disseram votar em branco ou que vão anular o voto e 2% seguiam indecisos. Os dados do Datafolha também revelam que essa é uma eleição de rejeições, do antipetismo contrta o antibolsonarismo: 46% dos eleitores dizem não votar de jeito nenhum em Lula e 50% dizem o mesmo sobre Bolsonaro.</p>



<p>Ao longo da eleição, as pesquisas mostraram que Lula possui mais votos entre as mulheres, os católicos e a população com renda abaixo de 2 salários mínimos. A região mais petista do Brasil é o Nordeste. Já Bolsonaro tem mais votos entre os homens, evangélicos e nos estratos de renda acima de 2 salários mínimos. A região mais bolsonarista é o Sul do Brasil.</p>



<p>No entanto, a que mais mobilizou a atenção dos dois candidatos no segundo turno foi a Sudeste, onde estão os três maiores colégios eleitorais do país e Bolsonaro ganha nos válidos por 52% a 48% na pesquisa de véspera do Datafolha.</p>



<p>Em Pernambuco, as duas pesquisas dão vantagem para Raquel Lyra (PSDB) na disputa com Marília Arraes (Solidariedade). No Ipec, Raquel tem 54% contra 46% de Marília nos votos válidos. Mesmo percentual da pesquisa Datafolha. </p>



<h2 class="wp-block-heading">Frente ampla contra o bolsonarismo</h2>



<p>No segundo turno, Lula conseguiu ampliar significativamente a <a href="https://www.terra.com.br/noticias/eleicoes/lula-ganha-apoio-formal-de-tebet-e-fhc-e-amplia-leque-de-aliancas-para-2-turno,6dc3a96b84cf4184524094699989987d4hdoi1w0.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">frente pela democracia</a> com o engajamento e apoio de Simone Tebet (MDB-MS), do PDT de Ciro Gomes, da ex-ministra Marina Silva, da maior parte do PSDB, incluindo ex-ministros da Economia e presidentes do Banco Central do governo Fernando Henrique Cardoso. O próprio FHC, e até o ex-senador José Serra, declararam voto em Lula nesse segundo turno.</p>



<p>Artistas globais e não globais também aderiram em peso à campanha, incluindo ex-lavajatistas arrependidos como o ator Marcelo Serrado e o deputado Alexandre Frota. O arco de apoios cresceu a ponto de incluir grandes empresários alinhados à centro-direita, representantes do mercado financeiro e figuras políticas como J<a href="https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2022/10/15/joao-amoedo-declara-voto-em-lula-no-segundo-turno.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">oão Amoêdo</a>, candidato a presidente do Novo em 2018. Houve também um movimento importante de religiosos – evangélicos, católicos e de matriz africada – em defesa da democracia e declarando o voto em Lula para se contrapor às mentiras difundidas nas igrejas contra o ex-presidente.</p>



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	                                        <p class="m-0">Marina Silva, Lula, Simone Tebet e Janja em agenda em ato de campanha na Grande Belo Horizonte. Crédito: Ricardo Stuckert</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>Bolsonaro contabilizou o apoio dos atuais <a href="https://recordtv.r7.com/fala-brasil/videos/governadores-do-sudeste-declaram-apoio-a-bolsonaro-no-segundo-turno-05102022" target="_blank" rel="noreferrer noopener">governadores dos três estados do Sudeste</a>: Romeu Zema (Novo) em Minas, de Claúdio Castro (PL), no Rio, ambos reeleitos, e do governador de São Paulo Rodrigo Garcia (PSDB), terceiro colocado no primeiro turno. Também declararam votos em Bolsonaro o jogador Neymar Jr. e alguns dos principais <a href="https://g1.globo.com/df/distrito-federal/eleicoes/2022/noticia/2022/10/17/bolsonaro-cantores-sertanejos-brasilia.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">representantes da música sertaneja</a>, como Leonardo, Zezé de Carmargo, Chitãozinho, Gustavo Lima e Sula Miranda.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Projeto de reconstrução nacional</h2>



<p>São dois os desafios postos para os democratas no Brasil. Primeiro, derrotar Bolsonaro nas ruas, depois construir maiorias para tocar uma agenda de reconstrução nacional. “É isso o que está em jogo agora: impedir em definitivo a morte da democracia, sequestrada e torturada que foi com a ascensão da extrema-direita ao poder, ou ter que enfrentar um regime autocrático e terrorista ainda que construído a partir de eleições, o que lhe daria um fajuto verniz de democracia”, analisa Túlio Velho Barreto.</p>



<p>“Trata-se de impedir, em última instância, a barbárie; para dar início à reconstrução do projeto civilizatório propiciado pela Constituição Federal de 1988, aprofundado nas décadas de 1990, mas, sobretudo, na primeira década deste século (durante os dois mandatos de Lula)”, argumenta.</p>



<p>Túlio acredita que uma vitória de Lula por uma pequena margem deve ser seguida de um questionamento legal e político pelo atual presidente e seus apoiadores – nos moldes de Aécio Neves em 2014 &#8211; e não descarta o que chama de ações terroristas como a praticada por Roberto Jefferson. “Essas duas bombas de efeitos retardados foram montadas por Jair Bolsonaro e aliados durante todo o seu mandato. E dão consequências ao modus operandi da linha-dura que atuou na ditadura e na reação ao retorno da democracia, da qual alguns militares do governo  fizeram parte ou são tributário de seu legado terrorista”.</p>



<p>Para a médica sanitarista Bernadete Perez, é preciso afirmar que os brasileiros e brasileiras não estão condenados ao retrocesso civilizatório dos últimos anos, mas à possibilidade real da mudança. “O que a gente tem que fazer imediatamente é por fim democraticamente a esse pesadelo. Precisamos recuperar a vontade das pessoas, dos grupos, dos coletivos para a construção de projetos críticos e alternativos à descrença, ao pessimismo, às redes frias de violação dos direitos humanos e pra isso a gente precisa de esperança, reencantamento, práxis dos territórios, alegria dos territórios, diversidade cultural e de resistência insistente e criativa. A ocorrência de transformações depende sempre do desejo também, de imaginar futuros e novas utopias possíveis”.</p>



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			</item>
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		<title>Coletivos populares viram votos para Lula na reta final da eleição</title>
		<link>https://marcozero.org/coletivos-populares-viram-votos-para-lula-na-reta-final-da-eleicao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 28 Oct 2022 14:25:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[coletivos populares]]></category>
		<category><![CDATA[comunicação popular]]></category>
		<category><![CDATA[Lula 2022]]></category>
		<category><![CDATA[Lula presidente]]></category>
		<category><![CDATA[material de campanha]]></category>
		<category><![CDATA[periferia com Lula]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A falta de material de campanha, o discurso violento de Bolsonaro e o clima de tensão no ar. Nada disso foi capaz de sufocar a iniciativa de coletivos populares do Recife e Região Metropolitana de ir pras ruas de suas comunidades disputar o voto em Lula na reta final do segundo turno. Isso não significa [&#8230;]</p>
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<p>A falta de material de campanha, o discurso violento de Bolsonaro e o clima de tensão no ar. Nada disso foi capaz de sufocar a iniciativa de coletivos populares do Recife e Região Metropolitana de ir pras ruas de suas comunidades disputar o voto em Lula na reta final do segundo turno. Isso não significa que os coletivos não tinham ou tenham receito de ser hostilizados por bolsonaristas, mas colocaram em primeiro lugar a urgência do combate à fome, a defesa da democracia e o resgate e ampliação de direitos perdidos e por conquistar.</p>



<p>Alguns desses coletivos se manifestaram abertamente por uma candidatura nas redes e nas ruas pela primeira vez na sua história. Foi o caso do Coletivo Força Tururu, de Paulista, com 14 anos de existência. O engajamento pró-Lula veio ainda no primeiro turno. “Decidimos entrar de cabeça na campanha um mês e meio antes do primeiro turno. Primeiro, formamos um grupo para dialogar com pessoas que pensam igual a gente, ou seja, votam em Lula e, posteriormente, montamos estratégias para trabalhar com pessoas que pensam diferente da gente, indecisos ou até mesmo quem vota em Bolsonaro`, explica André Fidélis, do coletivo.</p>



<p>Os integrantes do Força Tururu sentiram a necessidade de criar uma marca, foi então que surgiu o #TururuTáComLula. Depois, eles investiram em elaborar um material que tivesse a” cara e o sentimento da comunidade”. Foram 1.500 “preguinhas”, 800 adesivos de carro e portão e um banner. E mais: produziram dois spots para anuncicleta &#8211; anúncio em aúdio para bicicleta &#8211; que já circularam por 20 horas, com vozes dos próprios moradores do Tururu.</p>



<p>Nas últimas semanas, o coletivo realizou sete reuniões com grupos diferentes da comunidade, uma caminhada pelas ruas do Tururu, um ato de serigrafia de camisa e, no próximo sábado (29), fará um evento para estampar camisas e visibilizar a candidatura de Lula na véspera da votação do segundo turno. André confessa que, antes de realizarem a caminhada, os integrantes do coletivo estavam com muito receio de sofrerem algum tipo de violência dos bolsonaristas mais extremistas, mas o que viram foi uma recepção muito positiva dos moradores, pedindo adesivos e material.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Produção própria de material</h2>



<p>Aliás, material de campanha é um tema à parte. Na verdade, a falta de material para ser distribuído nas comunidades. Problema enfrentado pelo Coletivo Fala Alto, que atua nas comunidades do Alto do Pascoal, Córrego do Deodato, Bomba do Hemetério e adjacências. Eles têm tentado obter material com partidos e organizações e pedido doações. Conseguiram TNT, um pouco de cetim e uma tela para serigrafia em camisa.</p>



<p>“Foi uma maneira que a gente achou de produzir material próprio porque quando a gente anda pela comunidade e o povo vê uma praguinha no peito, um adesivo, uma bandeira na bicicleta ou no carro, sempre perguntam onde é que tem, onde é que conseguem e, na verdade, não tem. Às vezes é até difícil a gente conseguir pra gente”, conta Kayo Na Real. Por conta disso, o Fala Alto decidiu fazer uma ação para pintar camisas.</p>



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	                                        <p class="m-0">Camisas produzidas pelo coletivo Fala Alto. Crédito: Divulgação</p>
	                
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<p>A deliberação saiu do comitê que o coletivo criou. A ideia surgiu da inquietação de moradores da comunidade que sentiram a necessidade de convencer os eleitores indecisos e pessoas que votaram em outros candidatos no primeiro turno. Mostrar a importância da classe trabalhadora votar em Lula. Kayo diz que esse era um trabalho historicamente feito pelos partidos de esquerda, mas que deixaram de lado. “Esse trabalho de estar dentro da comunidade, de falar pra massa. Diferente de chegar no Centro da cidade quando a galera está com a cabeça no trabalho ou querendo chegar em casa. Não que não seja importante fazer ato no Centro, mas só focar nisso não tem dado certo”.</p>



<p>“A gente passou por um golpe contra uma presidenta eleita, a gente passou por diversas reformas durante o governo golpista de Michel Temer e sempre se falou em greve geral, em se parar tudo e nada aconteceu. Então, assim, a gente tem esse intuito de fazer (o debate) dentro da comunidade pra trazer de volta essa raiz que a esquerda tradicionalmente tinha e deixou, essa essência. De sair daqui pra fora e não o inverso. A ideia é essa”, enfatiza.</p>



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	                                        <p class="m-0">Arrastão pró-Lula nas comunidades do Alto do Pascoal e da Bomba do Hemetério. Crédito; Arnaldo Sete/MZ Conteúdo</p>
	                
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<p>Nessa quinta (28), o grupo realizou o ato mais importante desse segundo turno na comunidade. Um Arrastão cultural que saiu da Caixa d´água, passou na frente do Compaz e desceu pra Bomba do Hemetério. Aproveitaram a ação para distribuir o máximo de material possível para os moradores e encorajá-los, pelo exemplo, a avermelhar a comunidade. “A gente vê muito o 22, a gente vê muito a bandeira do Brasil, mas que se for avermelhar, a gente consegue cobrir esses tons aí que estão do lado fascista da eleição. A ideia é essa, que quem tem seu paninho vermelho, sua camisa vermelha, bote pra fora, pendure nas janelas”, explica.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Divergência e posicionamento público</h2>



<p>O Fala Alto e o Força Tururu têm trabalhado, cada um, de forma unificada contra Bolsonaro, mas para alguns jovens moradores e moradoras de periferia que atuam em coletivos e apoiam Lula, a disputa começou a ser travada dentro de suas próprias organizações. É o caso de Martihene Oliveira e Gilberto Luiz, fundadores do Coletivo Sargento Perifa, da comunidade do Córrego do Sargento, Zona Norte do Recife.</p>



<p>Foi muito duro para Martihene ver integrantes do grupo fazendo campanha para Bolsonaro no domingo do primeiro turno. Os dias que se seguiram foram angustiantes e ela compartilhou essa dor com o também jornalista Gilberto Luiz. No dia 11, os dois fizeram uma postagem no instagram oficial do coletivo assumindo publicamente o apoio a Lula para presidente. Foram incentivadas por outros integrantes também pró-Lula incomodados com a situação.</p>



<p>Antes, avisaram no grupo de zap do coletivo. O Perifa toca mais de 10 projetos que mobilizam dezenas de pessoas na comunidade. “Tem pessoas que são pilares para o coletivo e não votam em Lula. Não podíamos abrir mãos delas. Tivemos que puxar a bala pro peito da gente mesmo e dizer que nossa posição era enquanto jornalistas do Perifa. Essa foi a melhor estratégia que a gente teve e eu faria tudo de novo”.</p>



<p>A jornalista, a primeira de sua família a obter o diploma de ensino superior, é neta do fundador já falecido da Assembleia de Deus no Córrego do Sargento e ela mesma era referência religiosa local até deixar a igreja em 2019, já como uma resposta ao avanço do discurso conversador a partir da eleição de Bolsonaro em 2018. Na postagem, Martihene e Gilberto enumeram os motivos porque votam em Lula e defendem a coerência do seu posicionamento para gerar reflexão. Foram dezenas de comentários positivos e muito poucas pessoas deixaram de seguir o Perifa.</p>



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<p>Martihene criou um grupo de zap para debater com pessoas da comunidade que se aproximaram dela depois do seu posicionamento público. A jornalista tem feito porta a porta confrontando a fala de Bolsonaro e suas mentiras com a vida real das pessoas. Quando ele disse que não existia fome no Brasil, ela foi em algumas casas e perguntou aos moradores se tinham comida na geladeira. Eles deixaram ela entrar e mostraram a escassez de alimentos na casa. “Tenho certeza que consegui votos levando essa consciência política”.</p>



<p>Martihene aposta no porta a porta para convencer os eleitores quando os temais são mais delicados, como é o caso do abordo, ainda mais numa comunidade como o Córrego do Sargento, majoritariamente evangélica. “Eu preciso conscientizar a moradora sobre a diferença entre o que é ser a favor do aborto e o que é entender o aborto como uma questão de saúde pública. Quem aqui não conhece alguém que já abortou clandestinamente mesmo não sendo a favor do aborto, correndo sérios riscos? Isso tem feito as mulheres refletirem porque todas têm um caso próximo conhecido”.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Realizações e propostas nas redes sociais</h2>



<p>No Ibura, um dos maiores e mais populosos bairros do Recife, as integrantes do coletivo Ibura Mais Cultura decidiram investir suas forças nas redes sociais e no whatsapp nesse segundo turno a partir da percepção de que as fake news espalhadas pelos bolsonaristas têm confundido os eleitores e aumentado o apoio ao atual presidente. Isso ficou evidente nas conversas presenciais com os moradores ainda no primeiro turno e na grande quantidade de eleitores e eleitoras com bandeiras do Brasil e vestindo amarelo nas seções eleitorais da comunidade no dia 1 de outubro.</p>



<p>Integrante do coletivo, Lídia Lins diz que parte desse apoio vem do processo de “alienação que acontece dentro das igrejas” espalhadas pelo bairro. Apesar disso, ela explica que muita gente, embora tenha uma visão crítica do PT, vai votar em Lula porque está sentindo o peso no próprio bolso, especialmente mulheres chefes de família.</p>



<p>A aposta nas redes faz sentido porque a maior parte dos seguidores do coletivo é do próprio bairro. O público, em sua maioria de jovens, cresceu também em outras faixas etárias a partir da atuação do coletivo na pandemia e no apoio às vítimas das chuvas no inverno desse ano. As postagens agora chegam para mais gente. A estratégia é divulgar os avanços do governo Lula, os investimentos e as políticas públicas que beneficiaram diretamente as populações periféricas. Relembrar o que foi feito de positivo no passado por Lula e Dilma para confrontar o discurso antipetista.</p>



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<p>“A gente fez essa escolhas entendendo que em 2018 a gente errou muito, nós no sentido amplo da esquerda, do campo progressista, que acaba dando muito palco ao discurso bolsonarista, compartilhando todos os absurdos que Bolsonaro e seus apoiadores acabavam propagando. Por isso decidimos dar evidência ao que já foi feito por Lula e às suas propostas. A onda antipetista fez com que muita coisa fosse esquecida e não repercutisse”, analisa Lídia, alertando que os mais jovens já pegaram algumas políticas em andamento e não têm noção histórica das mudanças e de como elas foram impactando no tempo.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Arrebentando barreiras invisíveis</h2>



<p>Na comunidade do Coque, quem está à frente da mobilização política anti-bolsonarista nesse segundo turno é o Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis, o Mabi. Criado em 2000 por um grupo de amigos que curtiam e tocavam rock, o Movimento nasceu com a ideia de descriminalizar a periferia e a pobreza. O estigma do bairro ficou evidente já no início quando decidiram realizar eventos fechados e parte do público e mesmo algumas outras bandas que curtiam o movimento não queriam ir ao Coque. Foi quando decidiram fazer os shows e eventos próximo à Estação Joana Bezerra e facilitar a chegada e saída de todos.</p>



<p>Em 2005, em parceria com alunos e professores da UFPE produziram um jornal local, que depois se transformou num fanzine. A ideia era abrir uma possibilidade de o mundo escutar a voz do Coque, explica Procópio Silva, do coletivo, mas acabaram escrevendo sobre tudo, e caindo mais no terreno da arte. Entre 2010 e 2012, alguns dos integrantes do Mabi entraram na universidade pública. Um fez psicologia, outro fez sociologia. Procópio entrou em ciências sociais. Foi quando perceberam que além de focar no trabalho de descriminalização da pobreza, eles poderiam contribuir com a entrada de pessoas periféricas no ensino superior público.</p>



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	                                        <p class="m-0">Grafitagem do Mabi no Coque. Crédito: Divulgação</p>
	                
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<p>Hoje têm uma sede numa casa alugada com três salas, sendo um estúdio, um espaço para guardar os equipamentos musicais e uma outra onde dão aulas preparatórias para o pré-vestibular a moradores da comunidade. No ano passado, 50% dos alunos conseguiram entrar na universidade pública federal. E é nessa sala em que o coletivo agora está realizando rodas de diálogo com moradores e moradoras para defender o voto em Lula nesse segundo turno. Foi a disputa eleitoral, inclusive, que depois de tanto tempo, motivou a criação de uma página específica do coletivo no Instagram.</p>



<p>Procópio divide a história do Mabi em quatro fases, a última é a do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis em Estado de Exceção, já sob o governo Bolsonaro. “Frente a esse fascismo bolsonarento, a gente do Mabi não poderia ficar calado e a gente tá utilizando a voz que a gente tem, não sabemos o impacto dessa nossa voz dentro do Coque, mas a gente tem uma voz, e a gente vem utilizando ela para se posicionar contra esse fascismo bolsonarento. A partir desse entendimento a gente criou uma série de estratégias. Fizemos mutirão de grafite, roda de diálogo, cine coque, além das nossas redes sociais e do boca a boca”, explica Procópio.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Campanha de escuta e comparação</h2>



<p>Na quarta-feira (26), um carro de som passava pela Av Norte anunciando uma “super carreata” de Bolsonaro na Guabiraba. Assim como outros locais de morro na Zona Norte do Recife, lá também virou alvo das investidas bolsonaristas. No primeiro turno, chamou a atenção as propagandas de Alberto Feitosa, que foi reeleito deputado estadual. No segundo turno, o que tem se visto são bandeiras de Raquel Lyra (PSDB) ao lado das de Bolsonaro, ainda que a candidata não tenha declarado apoio à reeleição do presidente.</p>



<p>“O pai de Priscila Krause (Gustavo Krause, que foi do partido de sustentação da ditadura militar no Brasil) reativou essas bases antigas que tinha nos morros, de campanhas anteriores”, diz Tatiane Gâmboa, militante do Movimento Sem Terra que tem passado os dias em campanha nas ruas da Zona Norte.</p>



<p>É em ruas de comércio, como a principal de Nova Descoberta, que Tatiane diz se concentrar a propaganda bolsonarista nos morros. “Mas quando se entra mesmo nas comunidades, na parte da escadaria, só dá Marília Arraes e Lula”, diz. A campanha que Tatiane está levando para as ruas é feita de luta e esperança. Na falta de material, os próprios militantes e movimentos estão confeccionando panfletos e bandeiras em mutirões. “Temos que avermelhar a cidade”, diz.</p>



<p>Nas passeatas e panfletagens, Tatiane conta que o importante é ouvir o que as pessoas ainda indecisas sobre o voto têm a dizer. “E depois eu falo sobre o que vai ter impacto na vida da pessoa. Salário mínimo, saúde, educação…muitos dizem que vão votar em Lula quando fazem a comparação”, diz. Com a enxurrada de mentiras despejadas nesta eleição, Tatiane também aprendeu a desmentir as notícias falsas que vê repetidas nas abordagens. “Se o percentual de votos para Lula foi de mais de 60% agora no segundo turno vai ser mais de 70% em Pernambuco”, acredita.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Sem tempo a perder</h2>



<p>Apesar da maior parte dos eleitores e eleitoras informarem aos institutos de pesquisa que já decidiram o voto, ainda há uma margem de eleitores indecisos que podem fazer a diferença na reta final da disputa. Por isso, muitos coletivos populares que atuam nos territórios periféricos têm agendadas ações para essa sexta (28) e sábado (29) em suas comunidades. Na sexta, o Mabi vai fazer um cine debate na Academia da Cidade, no Coque, a partir das 16h, para discutir as fake news. No sábado, pela manhã, o Força Tururu realiza pintura de camisa e adesivaço no Campo do Tururu, em Paulista. Nesse mesmo dia, véspera da eleição, integrantes do Sargento Perifa vão ocupar a avenida principal da Linha do Tiro para estampar camisas de Lula Presidente.</p>



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		<title>Divisão de votos de eleitores de Lula na disputa local é maior desafio para campanha de Marília</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Oct 2022 21:01:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A primeira rodada de pesquisas para o Governo de Pernambuco deixou evidente o que as urnas no primeiro turno já haviam registrado: os eleitores de Lula estão divididos no voto para governador e, para vencer, Marília Arraes (SD) precisa convencer a maior parte deles a também votar nela. Nesse sentido, a caminhada com o ex-presidente [&#8230;]</p>
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<p>A primeira rodada de pesquisas para o Governo de Pernambuco deixou evidente o que as urnas no primeiro turno já haviam registrado: os eleitores de Lula estão divididos no voto para governador e, para vencer, Marília Arraes (SD) precisa convencer a maior parte deles a também votar nela. Nesse sentido, a caminhada com o ex-presidente no Centro do Recife na manhã dessa sexta (14) é encarada como o principal evento da reta final da disputa e deverá ser bastante explorada no guia de rádio e TV e nas redes sociais da candidata.</p>



<p>Pesquisa Ipec divulgada na terça (11) mostrou que Raquel Lyra (PSDB) abriu vantagem sobre Marília, com 50% das intenções de voto contra 42%. Nos votos válidos, sem contar brancos e nulos, Raquel pontua 54% contra 46% da oponente. A análise da taxa de rejeição também beneficia a candidata tucana para quem 18% do eleitorado disse que “não votará de jeito nenhum”, enquanto 32% dizem o mesmo para Marília. Na mesma pesquisa, Lula obteve o apoio para presidente de 68% dos entrevistados contra 25% de Bolsonaro (PL).</p>



<p>Em tese, provocar a casadinha do voto de presidente com o de governadora não será uma tarefa fácil para Marília, considerando o quadro da votação no primeiro turno, quando o candidato oficial de Lula, Danilo Cabral (PSB), ficou em quarto lugar na disputa. Importante considerar aqui o desgaste de 16 anos de governo do PSB, a má avaliação da gestão do atual governador Paulo Câmara (PSB) e a demora na definição do candidato governista. A relação e vinculação do nome de Marília – candidata do PT à Prefeitura do Recife em 2020 &#8211; com Lula também está num outro patamar.</p>



<p>Nesse segundo turno, Raquel Lyra disse que assumiria uma “posição de independência” e não anunciou apoio nem à candidatura de Lula e nem à de Bolsonaro.</p>



<p>Para entender melhor o cenário eleitoral, a Marco Zero Conteúdo analisou a votação do primeiro turno nas 20 cidades mais populosas do estado. Marília venceu em quatro delas: Cabo de Santo Agostinho, Ipojuca, Goiana e Serra Talhada. Raquel obteve mais votos em seis: Recife, Vitória de Santo Antão, Caruaru, Gravatá, Garanhuns e Igarassu. Considerando apenas o voto nesses maiores colégios eleitorais, Raquel conquistou 677.072 mil votos (67,06% do seu total) contra 541.162 de Marília (46,07% de sua votação geral).</p>



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	                                        <p class="m-0">Votação para Presidente da República no primeiro turno das eleições de 2022 em Pernambuco</p>
	                
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<p>O quadro mostra uma certa concentração de votos de Raquel no Recife, na Região Metropolitana e no Agreste a partir do polo de irradiação de Caruaru, onde foi prefeita por duas vezes, tendo renunciado ao mandato este ano para concorrer ao Governo de Pernambuco. No caso de Marília, seus votos estão mais espalhados pelas regiões do estado, o que, na soma, lhe garantiu a maior votação geral no primeiro turno com 1.175.651 votos e 23,97% contra 1.009.556 e 20,58% de Raquel.</p>



<p>Numa disputa estadual que teve, pela primeira vez, quatro candidatos competitivos disputando uma vaga no segundo turno, a influência dos três que ficaram para trás também deve ser considerada nessa segunda etapa da disputa eleitoral. O ex-prefeito de Jaboatão, Anderson Ferreira (PL), por exemplo, que governou por dois mandatos o segundo município mais populoso do estado e ficou em terceiro lugar, venceu em sete das 20 maiores cidades: Jaboatão, Paulista, São Lourenço da Mata, Abreu e Lima, Olinda, Camaragibe e Carpina. Cidades onde a Assembleia de Deus, à qual a família Ferreira é vinculada, tem presença e influência mais efetiva.</p>



<p>Candidato do bolsonarismo no primeiro turno, Anderson Ferreira tem dito que aguarda uma orientação do presidente para definir seu posicionamento no segundo turno para o governo local. Marília Arraes já disse que, ao contrário do que aconteceu na disputa pela Prefeitura do Recife há dois anos, não há a menor chance de ela se unir com Anderson por conta da ligação dele com Jair Bolsonaro. Afinal, a casadinha com Lula é a principal aposta da candidata do Solidariedade para chegar ao Palácio do Campo das Princesas.</p>



<p>Acontece que os expressivos votos dados a Anderson na RMR estarão em disputa nessa nova fase da eleição. Detalhe, das sete cidades mais populosas onde Anderson obteve mais votos do que seus concorrentes, em quatro Raquel ficou em segundo lugar, em duas Marília e Miguel em uma.</p>



<p>Se Anderson conseguiu, a partir de sua atuação em Jaboatão, ampliar seu arco de votação para a RMR e Raquel fez o mesmo no Agreste, a partir de Caruaru, o mesmo se deu com o quinto colocado na disputa, o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho (União Brasil), que venceu na cidade que era administrada por ele e teve boa votação nos principais municípios do Sertão. Levando em conta os 20 maiores colégios eleitorais, Miguel saiu vitorioso em Petrolina e Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste, a única cidade em que Bolsonaro venceu Lula no primeiro turno, repetindo o mesmo feito de 2018 contra Fernando Haddad (PT). Ao contrário da postura de indefinição de Anderson, Miguel anunciou de pronto seu apoio a Raquel Lyra nesse segundo turno.</p>



<p>O pai de Miguel, o senador Fernando Bezerra Coelho, ex-líder do governo Bolsonaro no Senado, já declarou voto em Raquel e no atual presidente neste segundo turno. Raquel também tem tido apoios público de eleitores de Lula. Nesta quinta (13), o Movimento Ética e Democracia, formado por advogados, economistas e profissionais liberais, lançou carta de apoio a Lula e à candidata tucana, entre os seus integrantes estão José Arlindo, ex-secretário do governo Jarbas Vasconcelos, o economista Jorge Jatobá, também ex-secretário de Jarbas, e o ex-vereador Jaime Asfora.</p>



<p>Quarto colocado na disputa ao Governo do Estado, Danilo não venceu a eleição em nenhum dos 20 maiores municípios pernambucanos, ficando na maioria deles na quarta ou quinta posição. Seu melhor desempenho foi um segundo lugar em Serra Talhada e um terceiro em Garanhuns e São Lourenço da Mata. Um quadro evidente do desgaste político do PSB. Afinal, Danilo tinha o apoio oficial de pelo menos 11 prefeitos dessas 20 cidades, contra três de Raquel e quatro de Marília, um de Anderson e um de Miguel.</p>



<p>O PSB, aliás, declarou apoio a Marília em nota, sem citar o nome dela, mas se posicionando em favor “da candidatura que for apoiada pelo presidente Lula”. O PT teve uma postura de maior engajamento partidário no apoio à candidata do Solidariedade, <a href="https://marcozero.org/desafetos-politicos-e-familiares-se-aliam-em-torno-de-marilia-arraes-para-fortalecer-lula/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">anunciando sua posição em coletiva à imprensa</a> com a presença de Marília, do senador Humberto Costa (PT) e dos deputados e deputadas eleitas pelo partido para a Câmara e a Assembleia.</p>



<p>Nas 20 maiores cidades do estado, Lula ultrapassou os 60% da preferência do eleitorado nas quatro em que Marília obteve mais votos, em três das seis lideradas por Raquel (em Caruaru ficou com 56,02%), mas apenas em uma das sete vencidas por Anderson (em Jaboatão obteve 54,25%), o candidato oficial de Bolsonaro. Lula também ultrapassou os 60% em Petrolina e perdeu em Santa Cruz do Capibaribe.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Socióloga vê apoio velado de Raquel a Bolsonaro e diz que Marília deveria dar demonstração pública de compromisso com as pautas dos movimentos sociais</em></strong></h4>



<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-left is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><strong>Entrevista Carmen Silva, socióloga integrante do SOS Corpo</strong></p><p><strong>Os números da votação no primeiro turno indicam um quadro de divisão dos votos do eleitor de Lula em várias candidaturas ao Governo do Estado, inclusive naquelas que não o apoiaram. Como você analisa esses dados? O que o resultado do primeiro turno pode indicar para o segundo turno na disputa entre Raquel e Marília?</strong></p><p>Os dados do primeiro turno indicam várias coisas que a gente precisa configurar aqui. Uma primeira é o desgaste da gestão do PSB. O fato de o candidato da situação, Danilo Cabral, não ter ganho e ficar em situação desfavorável nas 20 maiores cidades do estado é um indicativo de que o povo pernambucano não aguenta mais esse modelo de gestão que o PSB implantou aqui. Por outro lado, esse foi o candidato apoiado pelo ex-presidente Lula no primeiro turno em função das alianças construídas nacionalmente, que favoreceram o primeiro lugar de Lula nessa fase da disputa. Esse resultado do primeiro turno em Pernambuco indica também que o voto de Lula está diluído entre os eleitores que votaram nas mais diferentes possibilidades que estavam colocadas ao Governo do Estado. Ou seja, as duas candidatas que chegam ao segundo turno, Raquel e Marília, têm votos de eleitores que votam em cada uma delas e em Lula. Não dá para dizer o mesmo em relação a Bolsonaro. Os dados também indicam que a possibilidade de um segundo turno configurado localmente da mesma forma que está configurada a polarização nacionalmente não é muito provável. É mais difícil. Agora, o fato de Raquel ter saído na frente nas primeiras pesquisas de intenção de voto não é um indicativo de que isso vai se manter durante todo o mês da campanha. Inclusive porque a campanha está em curso e crescendo muito, tanto a de Raquel quanto a de Marília, mas também a de Lula, que está crescendo muito mais e que, agora, declarou voto em Marília.</p><p><strong>PSB, PT, PCdoB e PDT, entre outros partidos, anunciaram o apoio à candidatura de Marília Arraes. Nessa sexta, Marília vai ter evento com Lula no Recife, que deve ser explorado no guia de rádio e TV e nas redes sociais. O quanto todos esses movimentos podem ser suficientes para garantir a casadinha de votos entre Lula e Marília no segundo turno?</strong></p><p>Além dos partidos citados, também declararam apoio a Marília, o PSOL e o PCB, que são partidos de esquerda, e um conjunto de movimentos sociais, como o MST, o MTST, o Fórum de Mulheres de Pernambuco, a Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, entre outros. Isso indica que o campo associado às lutas sociais e o campo de partidos políticos mais à esquerda todos declararam apoio a Marília, baseados na casadinha, no fato de que Lula apoia Marília e interessa para a eleição de Lula que se amplie a margem de votação do ex-presidente aqui em Pernambuco. Pra Lula, interessa ter um governo de Pernambuco que seja aliado no plano federal de seu governo por isso interessa apoiar a candidata que desde o primeiro turno estava manifestando apoio à sua candidatura, que tem uma trajetória de trânsito no campo da esquerda. Embora Marília hoje esteja no Solidariedade, ela já foi do PSB e do PT. Por outro lado, para Marília interessa nacionalizar a disputa em Pernambuco exatamente porque o presidente Lula foi muito bem votado no estado. Pra Raquel, tudo indica que não interessa nacionalizar. Em vídeos que estão circulando na internet com ela dialogando com eleitores em espaço que parece de mercado público, talvez a feira de Caruaru, ela revela que não tem nada contra Bolsonaro, portanto, se ela não tem nada contra, ela tem algo a favor. Mas ela já informou que não vai se posicionar na eleição pra presidente. Ou seja, não interessa pra Raquel nacionalizar, fazer a disputa casada. Afinal, Lula é o candidato com maior expressão no eleitorado pernambucano. Ela quer puxar o debate para as questões do estado. Mas aí ela precisava colocar em debate qual é o modelo de desenvolvimento para Pernambuco que quer apresentar? Quais são as políticas públicas que ela quer apresentar? Como é que ela entende a questão da inclusão das pessoas em situação de pobreza, das mulheres, do povo preto, do povo sem terra e sem casa no orçamento público do estado? Ao dizer que não apoia nenhuma das candidaturas pra presidente, Raquel expressa um apoio velado a Bolsonaro. A candidatura Bolsonaro é uma candidatura trabalhada em torno da desinformação, das fake news e também dos crescentes episódios de violência Então, na medida em que essa associação entre Bolsonaro e Raquel for feita, ela tende a ser fragilizada na disputa estadual. Uma outra consideração importante a fazer é a do fundamentalismo religioso. Na medida em que vários candidatos da extrema direita expressam apoio a Raquel e vão pra essa campanha, isso configura que, apesar dos bons modos e da aparência da candidata Raquel, ela expressa um campo político que é contrário às pautas da sociedade, às pautas dos movimentos sociais e da esquerda. Ou seja, ela está representando em Pernambuco uma articulação da direita tradicional com a extrema direita e com o fundamentalismo religioso que dá força a essa extrema-direita. Essa é uma variável importante também de ser levada em conta.</p><p><strong>Pela primeira vez, temos duas mulheres disputando o segundo turno das eleições para o Governo. O que do ponto de vista programático e também de discurso político pode ser decisivo ou importante para a conquista do voto especificamente das mulheres – que são maioria entre os eleitores – nesse segundo turno? Acredita que as candidatas podem se comprometer com a agenda e as pautas feministas aqui no estado ou devem passar ao largo desse debate com receio de perder apoio de setores mais conservadores?</strong></p><p>Eu diria que nenhuma das duas candidatas tem uma trajetória de vínculo com a agenda feminista, apesar de serem mulheres que ocupam esse lugar na política em função das conquistas históricas do movimento feminista. Penso que, pela atual situação do debate eleitoral, elas tendem a passar ao largo do debate feminista, não manifestar apoio às nossas pautas porque elas estão disputando entre si também setores mais conservadores, mais religiosos e tal. Todavia, eu acho que seria muito importante que a candidata Marília, que tem recebido apoio dos movimentos sociais e dos partidos de esquerda, buscasse demonstrar algum compromisso nesse segundo turno com a agenda das pautas feministas, assim como com as pautas antirracistas, com as pautas do MST, do MTST, com as pautas antiproibicionistas, contra o genocídio da juventude negra, contra o encarceramento, pelos direitos das mulheres, pela legalização do aborto ou, pelo menos, pela melhoria do atendimento ao aborto legal na rede pública do estado. Porque se ela não fizer isso, a campanha pode torná-la muito semelhante à campanha da adversária. E como foi lembrando na primeira pergunta, Raquel saiu na frente nas primeiras pesquisas de intenção de voto e para que isso seja revertido é necessário que haja um diferencial da candidatura de Marília. Seria o momento de ela demonstrar que esse diferencial (do apoio de Lula e do campo progressista) faz sentido. Isso ajudaria a candidata a se diferenciar de Raquel e ampliar o empenho que esses movimentos já estão fazendo em levar o seu nome na campanha e apoiar o crescimento da sua possibilidade de vencer a eleição.</p><p></p></blockquote>



<p></p>
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		<title>O jornalismo declaratório naturalizou o discurso de ódio de Bolsonaro, diz Fabiana Moraes</title>
		<link>https://marcozero.org/o-jornalismo-declaratorio-naturalizou-o-discurso-de-odio-de-bolsonaro-diz-fabiana-moraes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Oct 2022 19:52:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[discurso de ódio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não dá para pensar o Brasil que sai das urnas nesse primeiro turno das eleições presidenciais sem refletir sobre o jornalismo que praticamos, seus enquadramentos e suposta imparcialidade. A mais importante contribuição para esse debate é o novo livro da jornalista, pesquisadora e professora do curso de Comunicação Social da UFPE, Fabiana Moraes. Para quem, [&#8230;]</p>
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<p>Não dá para pensar o Brasil que sai das urnas nesse primeiro turno das eleições presidenciais sem refletir sobre o jornalismo que praticamos, seus enquadramentos e suposta imparcialidade. A mais importante contribuição para esse debate é o novo livro da jornalista, pesquisadora e professora do curso de Comunicação Social da UFPE, Fabiana Moraes. Para quem, o jornalismo declaratório praticado por anos pela grande imprensa, e ainda ativo, naturalizou o discurso de ódio de Bolsonaro e pavimentou seu caminho até o poder.</p>



<p>Em <em>A Pauta é uma Arma de Combate </em>(Arquipélago, 2022) ela agrega teoria, reflexão e prática para uma profunda análise sobre os mecanismos de desumanização midiática e seus entrecruzamentos de classe, raça, gênero e território.</p>



<p>Fabiana produz uma crítica contundente à ideia de objetividade – sem deixar de reconhecer os procedimentos técnicos necessários à prática jornalística, como a rigorosa apuração dos fatos – realçando como ela é “perpassada por uma racionalidade objetiva profundamente racializada, profundamente classista, profundamente generificada”.</p>



<p>Racionalidade responsável por “hierarquizar humanidades”, desumanizando pessoas trans, indígenas, negras e nordestinas.</p>



<p>No texto, a pesquisadora aprofunda a perspectiva do conceito de jornalismo de subjetividade, que já trazia no seu livro anterior <em>O Nascimento de Joyce</em> (Arquipélago, 2011). É nessa subjetividade individual, mas sobretudo coletiva, que ela vai dizer que estão presentes valores, pré-conceitos, medos e outrofobias que vão enquadrar o olhar jornalístico e não podem ser ignorados. Ao “tirar a subjetividade do armário”, Fabiana expõe a inconsistência do discurso de neutralidade produzido pela mídia tradicional, nos oferecendo argumentos consistentes.</p>



<p>Movida por uma reflexão que gera ação transformadora, ela articula o jornalismo de subjetividade à reflexividade contínua sobre ensino e prática; crítica aos valores-notícia; capacidade criativa/criadora; dimensão ativista e sensibilidade hacker; e insterseccionalidade.</p>



<p>Isso mesmo, ATIVISMO, que ela já apresenta de cara no título da obra ao colocar a pauta como uma tecnologia de enfrentamento à desumanização. Postura que Fabiana adotou desde os primeiros anos de trabalho nas duas décadas em que esteve na redação do Jornal do Commercio, de Pernambuco, antes mesmo de entrar na academia, onde fez o mestrado em comunicação e o doutorado em sociologia.</p>



<p>Não bastasse todo o percurso teórico produzido por autores nacionais e de fora do Brasil que ela apresenta no livro, somado a uma série de exemplos sobre coberturas jornalísticas enviesadas da imprensa local e internacional, Fabiana ainda oferta aos leitores uma análise autocrítica de três de suas principais reportagens publicadas no JC: <em>A vida é Nelson</em> &#8211; de 2012, por ocasião do centenário de nascimento do jornalista Nelson Rodrigues; <em>Ave Maria –</em> abordando o tema do feminicídio já em 2013; e <em>Casa Grande e Senzala </em>&#8211; também de 2013, no aniversário de 80 anos do lançamento do livro de Gilberto Freire.</p>



<p><em>A Pauta é uma  Arma de Combate </em>será lançado na próxima terça-feira, dia 11, às 18h30, com sessão de autógrafos e debate no Centro Cultural Cais do Sertão, no Recife Antigo. A mesa vai contar com a presença dos jornalistas Laurindo Ferreira, do Jornal do Commercio; Eduarda Nunes, da Agência Retruco; e mediação de Beto Azoubel, da Secretaria de Cultura de Pernambuco.</p>



<p>Nessa entrevista concedida à Marco Zero alguns dias antes do primeiro turno das eleições, Fabiana conta mais sobre as motivações para escrever o novo livro e o contexto de transformações do jornalismo e da política no Brasil.</p>



<p>Vale o clichê da leitura obrigatória (da entrevista e do livro) contra o clichê da neutralidade (do jornalismo e da imprensa).</p>



<p><strong>Quando veio a decisão de escrever o livro? O que te levou de </strong><em><strong>O Nascimento de Joyce</strong></em><strong> até <em>A </em></strong><em><strong>Pauta é uma Arma de Combate</strong></em><strong>?</strong></p>



<p>Depois de <em>O</em> <em>Nascimento de Joyce</em>, ao passar do tempo, eu percebi que a minha análise sobre a subjetividade tinha ganhado outro contorno. Claro, normal, eu pesquisei outras coisas, tive novos conhecimentos, tive contato com outras literaturas. Com um livro que eu acho que é bem importante, estrutural para que tudo isso aconteça, que é o <em>Masculino, </em><em>o </em><em>gênero do jornalismo </em>(Insular, 2014)<em>, </em>de Márcia Veiga. A tese de Márcia perpassava por questões de gênero, pela questão colonial. Eu não tinha uma leitura sobre esse aspecto da colonialidade tão densa quando eu escrevi Joyce, então a questão da subjetividade ganha mais corpo. Em <em>O </em><em>Nascimento de Joyce</em>, que é o embrião disso tudo, essa perspectiva da ideia de subjetividade no jornalismo não avança tanto enquanto dimensão coletiva, ela fica muito na dimensão ainda individual, e que é geralmente como a subjetividade no jornalismo é lida. Essa ideia de alteridade, do olhar do jornalista, do recorte. Geralmente a gente lê assim e eu fico observando como essa leitura é uma leitura que não está errada, mas ela não diz sobre o potencial da subjetividade em seu aspecto coletivo. Também vemos a subjetividade como algo já de saída positivo e a leitura não deve ser essa. Tenho pensando muito isso. O racismo é uma questão subjetiva e social, socialmente compartilhada. Assim como o machismo é uma questão subjetiva e socialmente compartilhada. Falar sobre subjetividade é falar sobre individual, mas coletivo antes de tudo. Essa foi uma questão bem importante para que esse livro fosse desenhado.</p>



<p><strong>No livro, você fala da possibilidade de o jornalismo “restaurar humanidades”, isso partindo da ideia que ele também desumaniza. Queria que você falasse sobre esses processos. Até porque no final do livro você vai colocar a pauta como um lugar de restauro dessa mesma humanidade.</strong></p>



<p>A gente não pode separar o jornalismo de toda uma sistemática adotada por nós, como sociedade, uma sistemática, primeiro, sobre a ideia de civilização, uma ideia de humanidade que teria escalas de gradação. Da incivilizada à civilizada. O jornalismo está dentro desse desenho e é esse desenho de sociedade civilizada que ele vai enquadrar. Esse desenho é melhor apresentado e articulado, historicamente, a partir do momento em que a Igreja deixa de ser aquela que vai ditar as normas comportamentais de uma maneira majoritária e você tem aí a ascensão da ideia da razão, a razão pautando a humanidade. O maior movimento filosófico disso é o iluminismo, que é o que a gente aprende na escola. A gente aprende a Revolução Francesa quase como uma revolução civilizatória, essa queda da monarquia, portanto da igreja, porque Deus indicava uma pessoa na terra. Isso tudo é questionado, você passa a ter parlamento, indicando seus representantes e aí, o homem como o centro. Sai deus e entra o homem, onipresente e onisciente, que é o dono dessa razão.</p>



<p><strong>E como isso tudo mobiliza o conhecimento e o jornalismo?</strong></p>



<p>Esse movimento civilizatório, colocando aqui entre aspas, vai ter relação com o direito, o jornalismo, a medicina… Mas, para entrar na questão da humanidade, ele também é um movimento que vai dizer quem são os melhores humanos e os que não são, essa escala de gradação daquilo que é incivilizado até o civilizado. O modelo civilizatório ideal é o europeu, sem dúvida nenhuma, é ele que vai pautar a autoridade brasileira no início do século XIX, que vai estar presente desde a nossa mesa, como devemos nos comportar, até casar ou não casar, quem deveria ditar regras, desenhar as cidades. Pensar que em Recife, o teatro Santa Izabel, o mercado de São José, são todos construídos por arquiteto francês. O nosso modelo civilizatório é bastante europeizado. Isso significava dizer que eles eram melhores humanos. Melhores do que indígenas, do que pessoas negras… Tentando simplificar um pouco assim.</p>



<p><strong>Começa aí o enquadramento “civilizatório”.</strong></p>



<p>A questão indígena, a Igreja já tinha adiantado que os negros da terra não gostariam de ser escravizados, muito embora a gente tenha dependido da escravização indígena para construir nossos engenhos. Mas calou-se em relação aos negros vindos de África. A medicina, o direito e o jornalismo também entenderam indígenas, pessoas negras, as mulheres e pessoas pobres sem acesso à terra como esses indivíduos menores. E aí me interessa pensar especialmente como o jornalismo vai realizar isso.</p>



<p><strong>Como isso acontece?</strong></p>



<p>Você vai ter uma ascensão do modelo comercial do jornalismo no Brasil que está muito associado à presença de pessoas escravocratas dentro dos jornais e também de pessoas que eram pró-abolição, mas que não defendiam que pessoas pobres, negras ou indígenas, ou mulheres, eram dotadas de uma racionalidade que devesse ganhar espaço, atenção e respeito. Acho importante pontuar que esse processo também diz respeito aos nordestinos. Porque você também vai ter uma ascensão do jornalismo brasileiro no momento em que estava acontecendo grandes coberturas desse local que mais tarde viria a se chamar Nordeste. Por exemplo, a Guerra de Canudos, depois Lampião. Dez anos antes da Guerra de Canudos, a cobertura da seca de 1887. Esses três eventos marcam muito o Nordeste que até hoje é regurgitado por essa imprensa. Também ali ela conseguiu desenhar muito bem quem seria esse modelo de racionalidade, mais do que isso, de progresso. Se a bandeira da gente tem “ordem e progresso”, essas pessoas dessa região representavam justamente aquilo que essa bandeira não queria, que era anti-ordem e anti-progresso. Canudos é a síntese disso. Eu nem preciso te dizer como esse jornalismo ainda reverbera essa forma de ver o Nordeste. Tudo isso são falas de desumanização que a gente, de certa maneira, naturalizou e repetiu. Por isso que eu acho que essa ideia de restaurar humanidades é, de certa maneira, observar como todo esse caminho de desumanização foi feito e como é que ele pode ser detonado, como é que ele pode ser implodido desde a base. Se isso ainda é possível.</p>



<p><strong>Você cita no livro conceitos como outrofobia, outromização. Esse medo do outro. Me parece que isso se enquadra também com o que você está falando agora. Esse lugar que se afirma pela negação do outro. O progresso se afirma pela negação do atraso que é o Nordeste. Você ainda vê essa outrofobia ao Nordeste reverberando na imprensa na atualidade?</strong></p>



<p>Alguns dias antes do primeiro-turno, Simone Tebet (MDB) disse que o Nordeste pode se transformar no Sudeste. Disse essa frase subentendendo esse modelo de pior e de melhor. Bolsonaro falou que não tem nada de bom saindo dos rincões, dos grotões, numa referência ao PT. E a gente sabe que o PT está muito relacionado, nos últimos dez ou 15 anos, ao Nordeste. Então, eu acho que esse é o imaginário que ultrapassa fortemente esse limiar do jornalismo. Outro exemplo é essa capa da Veja que saiu recentemente e que diz que São Paulo é a capital do Nordeste. O interessante nessa frase, nessa afirmação, é que todas as pessoas que estão naquela capa, saídas do Nordeste, vão vencer na vida a partir do momento em que elas se inserem nesse lugar. Então, é muito interessante a gente pensar de fato como esse traçado entre melhor e maior, civilizado e incivilizado, ele vai retornando com novos filtros, novas formas de dizer, mas ele se mantém ali. Então a resposta à sua pergunta é sim. Ainda é bem forte.</p>



<p><strong>Um dos temas que você mais aborda no livro é o da objetividade, para, de certa forma, desconstruir essa ideia de neutralidade, imparcialidade. Você vai falar da imparcialidade como lugar da objetividade excludente e racializada. Como você vê a questão da objetividade na construção do que a gente está conversando aqui do jornalismo de subjetividade?</strong></p>



<p>Eu acho que tem uma distinção aí, entre objetividade jornalística, sem a qual o jornalismo não vai existir. Tem a ver com o que a gente está fazendo agora, por exemplo, você está me entrevistando, está apurando, depois você checa, vai ver se aquilo ali bate ou não. Se eu estou dizendo pra você que minha cor preferida é o amarelo, você não pode escrever que Fabiana não gosta de amarelo. Ou seja, tem toda a questão da objetividade jornalística, sem a qual o jornalismo não existe. E eu acho que isso é prego batido e ponta virada. Essa é uma questão. A outra questão é a gente pensar que foi justamente a partir desse dizer imparcial e objetivo, e eu acho que a gente está falando de uma outra objetividade, que essas grandes empresas do noticiário brasileiro, sejam sudestinas ou não, Jornal do Commercio, Diario de Pernambuco, Folha de S. Paulo, o Povo, Jornal Nacional, todas essas empresas, que se apresentam como imparciais, objetivas, todas elas fazem isso, em seus manuais, em seus congressos, mas a gente sempre soube que não são. E é muito interessante que a gente geralmente analisava isso não pelo viés do discurso da objetividade, se falava de ideologia, a gente não pegava a ideia de objetividade e imparcialidade para fazer uma leitura sobre a posição dos veículos, e a gente sabe muito bem que jamais houve essa imparcialidade, muito embora ela seja um produto, uma característica muito forte pra se blindar de críticas, por exemplo.</p>



<p><strong>Preservávamos a ideia de objetividade.</strong></p>



<p>Eu acho que essa era uma questão importante, como a gente olhava, como a gente fazia as críticas na perspectiva da ideologia, mas não necessariamente pensando no discurso da objetividade. As empresas sempre demonstraram que, fazendo isso, se apresentaram como objetivas, ao mesmo tempo, citando outras empresas jornalísticas como militantes. O que é uma operação dupla e poderosa. No momento em que eu chamo o outro de militante, eu me coloco no espaço da neutralidade, isso é bem importante.</p>



<p><strong>Um marcador para desqualificar o outro, no caso, a imprensa independente.</strong></p>



<p>Voltando ao que você perguntou. Para analisarmos essa ideia de imparcialidade que esses veículos formaram, vamos ver como são tratados os indígenas na imprensa. Quem são os indígenas no Brasil quando eles não estão em conflito e quando eles não estão morrendo? Quem são as pessoas transexuais, travestis principalmente, quando elas não estão presas ou morrendo? Quem são as pessoas negras fora das datas de 13 de maio e 20 de novembro? A gente pode falar de diversos grupos sociais e pensar como historicamente eles apareceram na imprensa brasileira. A mesma que falava de imparcialidade e objetividade. Eu quero dizer que imparcialidade e objetividade nunca fizeram nada por esses grupos. E ao mesmo tempo essas empresas sempre se orgulharam de performar esse papel.</p>



<p><strong>Pode dar exemplos?</strong></p>



<p>Quando eu pego 30 anos de Revista Veja e eu tenho quase 80% de capas com pessoas brancas, que tipo de objetividade e imparcialidade a gente tem? Não existe objetividade. Eu posso falar de subjetividade, nesse caso. O que essa objetividade na verdade está fazendo é performar uma não ideologia, uma não escolha, não racismo, não machismo. Como é que a pobreza brasileira aparece historicamente na imprensa? Capas da Veja foram dadas sobre a questão das domésticas, quando começa a questão da PEC das domésticas, a questão da regulamentação do trabalho? É só a gente pensar, pegar, essa inclusão extremamente classista, racista e machista pra gente se perguntar que objetividade foi essa que a imprensa brasileira performou? Por isso que eu falo que essa imparcialidade sempre teve a exclusão e a outromização, de transformar o outro em diferente e o diferente em desigual. Transformar diferença em desigualdade é algo que a imprensa sempre fez muito bem, imprensa mundial e brasileira, como a elite racista fez isso também.</p>



<p><strong>C</strong><strong>omo </strong><strong>você vê a postura da imprensa a partir do avanço da pauta do racismo puxada pelos movimentos negros e sociais. Você acha que ess</strong><strong>a</strong><strong> passou a ser uma discussão importante nas redações com um compromisso mais estruturante pela mudança ou que a imprensa, de certa forma, ainda está apenas performando a partir dessa demanda? </strong><strong>Lembro aqui que quando estávamos na universidade e nas redações não havia qualquer discussão sobre racismo.</strong></p>



<p>Eu acho que essas coisas, de certa forma, coexistem, sabe? Eu acho que elas chegam de fato e se democratizam. Isso que você falou, a gente não discutia essas coisas quando a gente estava estudando jornalismo, nem na universidade, nem nas disciplinas nem no papo com os colegas. Raça, gênero… acho que a gente era muito pautado por essa perspectiva marxista que dominava nas universidades, onde tudo era classe, onde tudo era operariado. Isso foi uma discussão forte no movimento negro, sempre foi uma discussão forte e muita gente até hoje quando fala em i-den-ti-ta-ris-mo, fala assim: “vocês do identitarismo estão acabando com a luta de classes”. Isso é algo que volta e meia aparece. Esse cenário de luta que a gente está falando é muito recente, eu saí da universidade praticamente em 1998, o que no tempo histórico não é nada. Acho que isso tinha a ver com a própria imprensa e isso se refletia no curso de jornalismo porque essas questões eram questões de militantes. E ser militante era um palavrão, e ainda é. Quando eu falo sobre ativismo e militâncias eu tô querendo fazer uma provocação sobre isso. Então eu acho que você tem uma mudança de paradigma nisso também a partir da entrada de pessoas negras, com cotas, com universidade, tem a ver com a pressão social de movimentos vários, de ativistas.</p>



<p><strong>Uma mudança também institucional.</strong></p>



<p>No governo Fernando Henrique Cardoso você vai tendo ali o início do desenho de questões relacionadas a raça a partir do campo institucional, ainda não era como vai ser depois no governo Lula, mas você começa a ter a criação de pastas, de secretarias, isso muito relacionado à Conferência de Durban, em 2001, quando o movimento negro mundial se organiza, tem uma carta, uma repercussão internacional. Depois, no governo Lula, você vai ter a lei 10.639, que é do ensino de história e cultura africana nas escolas, que é mais uma lei no papel longe de acontecer. Na verdade, os evangélicos vão cair em cima disso. Então você tem por conta de muitos movimentos sociais, e aí pensando nesses feministas, indígenas, que vão provocar a pressão social e isso também entra no campo institucional, e isso vai repercutindo socialmente na sociedade brasileira, correlacionado com a questão da disseminação dos aparatos tecnológicos, redes sociais. Essas coisas estão imbricadas. E aí eu acho que os caminhos de mudança que a gente vê na imprensa brasileira tem a ver com essas pressões. Que estão de fora pra dentro.</p>



<p><strong>Pressões que vão crescendo&#8230;</strong></p>



<p>Eu até falo no livro, por exemplo, da questão da capa do Aqui PE, quando você tem uma mulher assassinada com a calcinha exposta e aquilo gera um movimento, que eu acho relevante pra gente pensar nesse momento, aqui em Pernambuco. As coisas não vêm de graça. Os jornais também não queriam perder leitor, perder dinheiro por serem criminalizados porque o Ministério Púbico bateu ali, né? E a palavra “feminicídio” de repente começou a ocupar os jornais, quando eu escrevi o <em>Ave Maria</em>, que é uma das reportagens que está no livro, a palavra feminicídio era meio que ainda vista com maus olhos, quando eu chamo Ana Paula Portela para escrever um artigo para o caderno, ela tentando trazer esse tipo de questão, isso causou um certo desconforto no jornal. Foi em 2013. Então teve essa mudança provocada por uma pressão social e também porque está havendo uma reconfiguração das redações a partir dessa questão da diversidade, da lei de cotas. Isso é uma questão forte. Essa nova configuração.</p>



<p><strong>Começa a ter um tensionamento por dentro, não é?</strong></p>



<p>Exatamente. Muito embora eu acho que, sim, tem uma coisa que continua. Eu vou trazer a palavra performance de volta. A Folha de S. Paulo faz seu conselho editorial e traz Suely Carneiro, traz Thiago Amparo e, logo depois, vem um artigo sobre sinhas pretas, do Leandro Narloch, depois você tem Antônio Risério falando de racismo de negros contra brancos. Já com Narloch, Suely Carneiro decide sair do conselho editorial. Porque é isso. É muito perverso. Eu até acho que a Folha tenha seu quinhão de diversidade, mas ele, na verdade, se apresenta muito mais para fazer uma boa figura, do que de fato rever a estrutura do jornal, que é uma estrutura racista. Aquilo que muita gente diz. Eu não vejo a Folha de S. Paulo fazer nenhum artigo para contemporizar o assassinato dos judeus. A Folha de S. Paulo não vai fazer um artigo antissemita. Um pró e outro antissemita, isso não cabe, mas cabe artigos contemporizando o racismo brasileiro. Eu achei incrível a posição de Suely Carneiro: eu não vou ficar aqui, não vou ficar aqui, com a utilização perversa de uma pessoa negra numa estrutura que é racista. Se isso representa um dos maiores jornais brasileiros significa alguma coisa.</p>



<p><strong>Lembrar aqui que o coordenador nacional do jornalismo da Globo, Ali Kamel, maior veículo de comunicação privada do país, escreveu um livro com o título <em>Não Somos Racistas</em> (Nova Fronteira, 2007) na época da discussão sobre as cotas.</strong></p>



<p>Foram empresas contra as cotas, não é? Várias pessoas eram contra as cotas. Caetano Veloso era contra as cotas.</p>



<p><strong>A Folha até hoje acho que não fez uma revisão de sua posição.</strong></p>



<p>Fez não. O Globo fez.</p>



<p><strong>No livro você faz uma análise do quanto a postura da imprensa e a utilização do jornalismo declaratório tem a ver com a chegada de Bolsonaro ao poder. Assim como a utilização do termo “polêmica”.</strong></p>



<p>Eu comecei a observar como todas as vezes que falavam da relação entre imprensa e Bolsonaro geralmente lembravam do Superpop, do CQC e de programas correlatos. CQC com aquele misto de jornalismo e humor. O Superpop com essa coisa do entretenimento, da faixa polêmica: “Como o sr. é capaz de dizer isso?”, não sei o que… E aí é muito mais fácil bater nesses programas que a gente chama, sei lá…</p>



<p><strong>Com a desculpa que isso aí não é jornalismo…</strong></p>



<p>Isso aí não é jornalismo, não sei o que, sabe? Eu comecei a observar a questão da objetividade e o jornalismo declaratório é um dos baluartes dessa objetividade. Tem um texto de Gaye Tuchman, quando ela vai falar que o declaratório guarda uma série de estratégias ali, e aí eu comecei a olhar como é que a imprensa em 2018, 2019 cobria o presidente, saindo do CQC e indo para os veículos e para as editorias de economia e de política. E essas editorias, seja do Jornal do Commercio, Correio Braziliense, O Povo, O Globo ou Folha era justamente isso. Era tentar mostra que Bolsonaro era um cara destemperado, acontece que esse destempero dele vai estar relacionado a atos completamente misóginos, machistas ou racistas que são tratados igualmente como meros destempero. Pra essas empresas, falar sobre machismo e questões correlatas é ainda coisa de militante. É uma coisa que você pode falar meramente como se estivesse narrando algo que aconteceu e, sabe, você tem que se manter distante…. É uma aspinha ali e pronto. Como se a produção dessas aspas não fosse ela mesma algo que traz ainda mais espaço pra essa pessoa e reforça o discurso violento.</p>



<p><strong>Que tem consequências.</strong></p>



<p>Além dessas questões que eu estou falando do racismo e machismo tem que se colocar também fortemente a criminalização dos movimentos sociais. Nesse sentido, Bolsonaro vai fazer um favor para a imprensa porque os movimentos sociais já eram criminalizados há muito tempo por essa imprensa, os indígenas também. Indígenas no sentido de serem classificados como pessoas que não produzem, que não nos levam ao progresso. Então essa questão da criminalização dos movimentos sociais eu acho que é muito forte e repercute quando Renata Vasconcelos faz aquela pergunta a Lula sobre o MST na entrevista ao Jornal Nacional. Aquela é uma pergunta que tem história na imprensa brasileira. Bolsonaro também era um cara que tava surgindo criminalizando os movimentos sociais. (44.25). Acho que essa é uma questão que a gente precisa colocar em relevo para entender porque Bolsonaro também deve a esse status quo, empresariado, imprensa.</p>



<p><strong>E o jornalismo declaratório joga um papel nisso.</strong></p>



<p>Acontece que através do jornalismo declaratório você higieniza Bolsonaro. Você naturaliza a fala de Bolsonaro. Quando você diz que é polêmico porque ele está destemperado, por que isso ou aquilo… E não dá para colocar só a imprensa nesse grupo, né? Isso aconteceu no Congresso quando tem a fala de Bolsonaro sobre o Ulstra (notório torturador Carlos Brilhante Ulstra), isso acontece quando ele fala lá no centro judaico sobre o negro de arrouba e não é criminalizado. E você vai tendo aí todas as instituições democráticas, inclusive a imprensa, naturalizando esse cara. E a melhor resposta que Bolsonaro dá é no dia da posse dele, quando ele coloca todo mundo (imprensa) no porão, sem água, sem sofá… Se tem uma coisa que não se pode dizer de Bolsonaro é que ele não é coerente. Bolsonaro é extremamente coerente no discurso dele. Quem não foi coerente fomos nós, a imprensa.</p>



<p><strong>Você tá falando do que aconteceu em 2018. E agora? No 7 de setembro, a Globonews deu 10 horas de cobertura política para ele. E o modelo de coberutra do governo nos últimos quatro anos seguiu o mesmo procedimento técnico do que era com Lula, com FHC… O jornalismo não transformou a cobertura do governo considerando a excepcionalidade que é o governo Bolsonaro. E parece que na campanha segue a mesma coisa. O mesmo espaço ali para cada um no Jornal Nacional. Como você vê a cobertura da mídia <em>mainstream</em>? Mudou alguma coisa ou ela continua asfaltando a estrada do bolsonarismo?</strong></p>



<p>Eu acho que tem uma diferença. Você falou muito bem quando disse que a imprensa vai tratar agora como tratava os governo anteriores. A seu modo. Assim, tem um governo de excepcionalidade que é tratado tecnicamente e pronto, como se ele correspondesse a isso. Concordo que isso aconteceu. Mas nessa imprensa que se posiciona, eu acho que você tem um fortalecimento sim (de outra posição), consegue se articular melhor, consegue se proteger, na articulação…. Eu vejo hoje, por exemplo, a Marco Zero&#8230; O Festival Fala é exemplo disso também, sabe? De uma articulação maior. Isso eu acho bem positivo. Eu acho que tem uma mudança nesse sentido. E nessa grande imprensa, nesse jornalismo empresarial, eu não digo a linha editorial de fato do veículo, mas eu acho que tem vozes que conseguem fazer ali esse contraponto desse contraditório de maneira mais forte. Conseguem nomear esse governo do que ele é. Tem a ver com aquilo que a gente falou antes. As redações vão mudando de alguma maneira. Eu vejo pessoas que estavam há mais tempo nas redações mais à vontade para falar de certas coisas porque essas coisas vão deixando de ser tabus. Falar em racismo já não é mais esse tabu todo no jornalismo.</p>



<p><strong>Mas as mudanças vêm devagar e, às vezes, mal disfarçadas, não é?</strong><br><br>A gente viu na cobertura de George Floyd que a Globonews recebeu aquela lapada toda porque só botou gente branca na tela e no outro dia (incluiu jornalistas negras). A gente teve aquele momento ali e depois voltou tudo como era antes. Às vezes parece que se fez algo estrutural, mas não se fez. Então eu acho que tem essas vozes, sim. Mas como você mesmo já colocou, a cobertura do 7 de setembro mostra muito como ainda existe, em algum grau, uma espécie de tentativa de acordo. Vou pegar aqui dois escândalos. O do MEC, por exemplo, não é qualquer coisa. Era desvio de uma das áreas mais importantes de qualquer governo, uma das que mais tem verba, o Fundeb ali, tem isso relacionado tanto ao ministro, que sai nas mídias com a cara dele, mas falando em nome de Bolsonaro, relacionando também aí o Centrão. E, agora, essa questão da compra de imóveis, de mais de 50 imóveis comprados com dinheiro vivo. Essas questões não repercutem naquele que foi o maior catalisador do antipetismo, que é o Jornal Nacional, da TV Globo. Isso significa alguma coisa. A ideia é: “a gente vai alfinetar”. Eu não estou dizendo que o jornal não fale mal de Bolsonaro, mas eu acho que ainda não se coloca nele a pecha de corrupto. Nomear Bolsonaro de corrupto ainda parece ser demais. A gente já construiu quem vai ser o grande corrupto do Brasil e acabou-se. Dentro dessa construção entre bem e mal, que é muito forte, Bolsonaro usa muito bem isso… Tem uma mudança de atores, mas estruturalmente a imprensa ainda negocia.</p>



<p><strong>Queria que você falasse da pauta como arma de combate. Algo que, me parece, já está presente nas matérias que você produzia quando ainda trabalhava no Jornal do Commercio. Me parece que a perspectiva subversiva dessas tuas reportagens já estava lá na pauta.</strong></p>



<p>Quando eu entro na universidade e, logo depois, na redação é que eu vi o quanto eu não era uma pessoa comum nesses lugares. E isso fez uma diferença. Quando eu comecei a atuar mais especificamente como jornalista, uma coisa que me chamava muita atenção eram as formas, não que a redação fosse formada por repórteres ricos, não tinha isso, a gente sabe, tem classe média, trabalhadora também. Mas, no geral, os meus colegas tinham pais que eram professores ou pedagogos, não sei o que… Minha mãe não terminou a quinta série, era camareira, enfim, minha família… classe média baixa, moradora do Alto José Bonifácio. E quando eu entro na redação eu percebo muito fortemente como tinha um modo muito pobre, por exemplo, de falar e reapresentar a pobreza. Como, por exemplo, quando se falava de povo, era o povo no seu aspecto quase folclórico ou era no aspecto violento. Eu sabia muito bem que existiam várias dimensões de pobreza naquele lugar.</p>



<p><strong>Por experiência própria, não é?</strong></p>



<p>Na frente da minha casa morava uma família que catava latinha. Nessa época meu pai ainda não morava na frente da rua, morava no beco, na barreira, e na descida da barreira tinha essa casa. Era uma casa em que os caras iam presos, as meninas se prostituiam. Uma delas portadora de HIV. O meu pai tinha todos os filhos na escola. Painho não deixava a gente ficar depois das 8 horas da noite na rua para não se misturar. Então, eu me incomodo muito quando eu entro no jornal e vejo as formas (de cobertura), geralmente binárias, pobres, sabe? Isso me chamou muito a atenção. E aí eu acho que muito do que veio dessa ideia da pauta veio, no início, como uma tentativa de subverter o próprio jornalismo. A própria redação, da maneira de representação. Eu disse: “gente, espera aí, a gente pode fazer melhor isso aqui”. Eu pensava isso. “É injusto falar da galera desse jeito porque eu sei que não é bem assim”. E uma coisa que me chamava atenção, quando eu entrei no Caderno C (caderno de cultura do Jornal do Commercio), era como no caderno você não via pessoa pobre. A cobertura de cultura era uma cobertura interessante de observar. Sabe? Muito classe média mesmo. Eu me lembro que eu fui fazer uma coluna sobre as dançarinas de brega. Foi minha primeira pauta no Caderno C. Todo mundo achou esquisitíssimo. Quando eu fui fazer a vida mambembe, que eram os tipos da periferia, acharam esquisitíssimo, aqueles doidos de calças rasgadas. Então, quando você pega as editorias e vê que aqui você pode falar de pobreza, aqui você pode falar de cultura, como se as coisas não estivessem concatenadas, né? E aí eu acho que a ideia de dar nó na pauta tem muito a ver com isso, sabe? Como produzir uma crítica do jornalismo a partir da própria redação. A partir de um incômodo meu de como as coisas eram mostradas e referendadas.</p>



<p><strong>Lembra de algum caso?</strong></p>



<p>Lembro quando o shopping Rio Mar inaugurou e abriu as Casas Bahia e tinha muita gente. A imagem da galera na escada rolante, o povo caindo, e isso virou a graça da redação. Todos se divertindo quando um funcionário de TI viu aquilo e questionou: “engraçado, eu não vejo vocês tirando onda do povo que fica a noite todinha para comprar um Apple na fila da loja lá em Nova Iorque. A pessoa dorme lá e faz vigília e ninguém acha engraçado”. Aí eu disse, é o racismo, o classismo. É o anti-pobre e quase o auto-ódio. Eu nunca esqueci isso. Quando o impeachment de Dilma saiu eu soube que houve uma salva de palmas na redação. Às vezes para dar um nó nisso eu tinha que me fazer de doida, por isso eu falo da sensibilidade hacker. Não parecia que eu estava fazendo o que eu estava fazendo.</p>



<p><strong>Tem duas coisas no livro que não parece</strong><strong>m</strong><strong> fazer sentido num </strong><strong>texto</strong><strong> sobre jornalismo. </strong><strong>Primeiro, dizer que </strong><strong>o</strong><strong> livro é uma declaração de amor. A palavra amor num livro de jornalismo soa…</strong></p>



<p>Eu ainda estou nessa porque eu amo.</p>



<p><strong>A outra é que, q</strong><strong>uando você está falando do jornalismo e da subjetividade, você coloca os cinco pontos da subjetividade e você fala uma coisa que, in</strong><strong>clusive</strong><strong>, tem muito a ver com o </strong><strong>Festival </strong><strong>Fala </strong><strong>que é a</strong><strong> “capacidade criativa”… Porra, amor e criatividade no jornalismo? Acho ótimos </strong><strong>também</strong><strong> os exemplos </strong><strong>de referência </strong><strong>que você traz. Que sujam, entre aspas, o jornalismo.</strong></p>



<p>Isso era outra questão que aparecia muito, né? Nas entrevistas, conversas com estudantes e jornalistas que perguntavam as minhas referências pensando em Gay Talese, Capote… E eu lia o que tinha na minha frente, eu lia outdoor, eu lia Giovana, eu lia… Isso enche o saco, sabe? Até parece que eu tinha que ter aquela leitura para ser uma jornalista mais respeitável. Aí eu pensei. “vou escancarar isso”. Eu lia Sabrina. Eu lia as entrevistas da Playboy. Quando eu disse que catava as coisas, tinha um monte de revista de mulher pelada. Era isso que circulava quando eu era pirraia. Seis filhos. Meu pai tinha seis filhos. Uma bandeja de iogurte no sábado pra todo mundo dividir. Era assim que funcionava. E aí eu achava que era importante falar um pouco sobre isso, sabe? Como essas nossas referências como jornalistas precisam também ser sublinhadas e valorizadas como aquilo que também nos faz jornalistas, para além das referências canônicas. A gente não é só jornalista por causa de referência canônica. Quando eu pego isso e vejo essa galera que sai da universidade saindo de vários lugares&#8230; São pessoas que muitas vezes ainda não têm… e às vezes têm… são ratos de biblioteca, lêem Graciliano desde pirraia, nâo sei o que… Existem também essas possibilidades, mas a gente sabe como, às vezes, é difícil o acesso. Por exemplo, você não tinha universidades nos interiores do Brasil. Então essa é uma questão pra mim, de a referência não canônica também ser sublinhada. E aí tá relacionado a essa questão do criativo, né?</p>



<p><strong>Explica esse criativo.</strong></p>



<p>Criativo o jornalismo sempre foi. Criamos, por exemplo, narrativas muito específicas sobre pessoas transsexuais… Nós criamos isso. E aí eu acho interessante que a gente pense nesse chamado jornalismo literário que é aquele jornalismo que teve a concessão de ser criativo, mas aí separando ele do investigativo, que é esse melhor jornalismo. O jornalismo do jornalismo. Então o literário teve essa concessão. Mas a gente estava criando também outros espaços. E aí eu acho bem importante quando você tem, a partir da crise do jornalismo, esse <em>boom</em> de outras formas de narrar. Inclusive se você não traz outras formas de narrar, você morre. Eu acho que a presença dos podcasts no Brasil tem muito a ver com isso. O projeto Querino, como acontece agora. Aí eu tô pensando mais nesse formato desse jornalismo narrativo, investigativo-narrativo. Praia dos Ossos, Querino, a participação de atores e atrizes para refazer cenas&#8230; Tiago Rogero também em Vidas Negras fazia bastante. Vindo aqui pro local, UFPE. Sheila Borges e Giovana Mesquita que vão fazer aí Santos do Povo pra falar de covid, através dos santos, com uma equipe de comunicação fazendo esses roteiros, fazendo vozes, atuando. Portanto, vai se tornando mais presente. Eu acho que, de certa maneira, materializa mais essa ideia do criativo. Que tinha no nascimento do jornalismo, mas foi, de certa maneira, ou silenciado ou colocado num canto específico, do literário, em nome da objetividade. Se a gente era o espaço social da credibilidade, de se falar a verdade, como é que a gente ia dizer que era criador? De certa maneira você atirava no próprio pé. Então era muito melhor negar esse espaço do criativo.</p>



<p><strong>Pra finalizar. Por que o livro é uma declaração de amor?</strong></p>



<p>Porque eu tô há tanto tempo nessa porra dessa profissão (risos)… falando sobre esse negócio, analisando… Não, sem brincadeira. Eu acho aquilo que a gente falou lá no começo. Eu acho que se a gente foi capaz de produzir tanta violência e tantos “outros”, tantos e tantos “outros” assim, às vezes, inclusive, incutindo esse auto-ódio porque muitas vezes quem construiu esse outro já era esse próprio outro. Entendido como esse “outro”. Quando eu falo da redação do Jornal do Commercio, por exemplo, tinha um pouco isso, sabe? Tinha gente preta, tinha homossexuais, tinha pessoas que acabavam pegando aquele discurso ali da proximidade do poder, entendendo-se como poder. E ai eu entendo que se a gente foi capaz de produzir isso tudo, de invisibilizar tanto, ou visibilizar de forma distorcida, eu acho que a gente também é capaz de fazer exatamente o contrário. Eu acho que para uma melhor democracia é possível um melhor jornalismo, é necessário um melhor jornalismo, na verdade. Eu não consigo pensar uma melhor democracia sem que o jornalismo faça parte. Eu tô interessada nisso. Eu não estou interessada nessa democracia pra inglês ver. Essa democracia que, na verdade, é quase um fio, com uma manta tênue, assim, e por trás dela se você continuar vai ver o extermínio de indígenas, o extermínio da população preta. Essas questões vão aparecendo enquanto as pessoas vão falando de democracia. Mas de que democracia a gente está falando? Eu acho que hoje a sociedade brasileira já entende que a gente viveu durante muito tempo uma democracia completamente precária. E aí eu não consigo entender que a gente avance nesse sentido sem que o jornalismo também faça parte. E ele patina nessa importância às vezes. Patina também porque cavou esse lugar de estabilidade. Eu acho que hoje em dia são os coletivos de jornalismo que vêm, de certa maneira, mostrando o caminho para que as outras empresas comecem a agir.</p>
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		<title>Rosa Amorim leva MST à Alepe em eleição que tem bolsonaristas líderes de votos</title>
		<link>https://marcozero.org/rosa-amorim-leva-mst-a-alepe-em-eleicao-que-tem-bolsonaristas-lideres-de-votos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Oct 2022 09:04:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos Humanos]]></category>
		<category><![CDATA[bolsonarismo]]></category>
		<category><![CDATA[Coronel Alberto Feitosa]]></category>
		<category><![CDATA[Dani Portela]]></category>
		<category><![CDATA[deputados estaduais eleitos]]></category>
		<category><![CDATA[eleição na Alepe]]></category>
		<category><![CDATA[Pastor Júnior Tércio]]></category>
		<category><![CDATA[Rosa Amorim MST]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O MST vai ocupar a Assembleia Legislativa de Pernambuco. Pela primeira vez na história, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra conquistou uma cadeira no legislativo estadual com a eleição, neste 2 de outubro, de Rosa Amorim (PT), 25 anos, natural de Caruaru e filha de assentados. Ela obteve 42.682 votos. Estudante de teatro, militante [&#8230;]</p>
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<p>O MST vai ocupar a Assembleia Legislativa de Pernambuco. Pela primeira vez na história, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra conquistou uma cadeira no legislativo estadual com a eleição, neste 2 de outubro, de Rosa Amorim (PT), 25 anos, natural de Caruaru e filha de assentados. Ela obteve 42.682 votos.</p>



<p>Estudante de teatro, militante do Levante Popular da Juventude e coordenadora do Armazém do Campo, no Recife, Rosa levará para a Alepe <a href="https://marcozero.org/rosa-amorim-e-o-nome-e-o-rosto-do-mst-nas-eleicoes-2022-em-pernambuco/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a urgência do combate à fome</a>, associada às pautas da desapropriação de terras para fins de reforma agrária, incentivo às cooperativas rurais e à produção de alimentos orgânicos, tecnologias já desenvolvidas pelo MST.</p>



<p>A eleição de de Rosa Amorim em Pernambuco não é um fato isolado, mas faz parte de uma estratégia nacional do MST. O movimento lançou 15 candidaturas a deputado estadual e federal em 12 estados e conseguiu eleger seis, todos pelo PT. Além de Pernambuco, obteve vitórias no Ceará (1 estadual), Bahia (1 federal), Rio de Janeiro (1 estadual) e Rio Grande do Sul (1 federal e 1 estadual).</p>



<p>Uma outra candidata do campo progressista chega com força à Alepe. Postulante do PSOL ao Governo de Pernambuco, em 2018, e <a href="https://marcozero.org/psb-mantem-hegemonia-na-camara-do-recife-novidade-e-o-avanco-do-feminismo/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">recordista de votos na eleição para a Câmara de Vereadores do Recife</a>, em 2020, Dani Portela agora é deputada estadual eleita com 38.215 votos, confirmando sua ascensão política. A eleição de Dani abre vaga na Câmara do Recife para o mandato coletivo das Pretas Juntas, do PSOL, com Elaine Cristina e Débora Aguiar, que estavam na primeira suplência. Este ano, <a href="https://marcozero.org/conciliar-cuidados-com-filhos-e-campanha-eleitoral-o-duplo-desafio-para-candidatas-negras-e-da-periferia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Elaine (PSOL) tentou vaga na Alepe</a> e Débora (Rede) na Câmara dos Deputados. </p>



<p>O PSOL seguirá na próxima legislatura com apenas uma representação na Alepe, já que a mandata coletiva das Juntas não conseguiu a reeleição, <a href="https://marcozero.org/juntas-inauguram-nova-forma-de-fazer-politica-na-assembleia-legislativa/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">reduzindo o patamar dos 39.175 votos, em 2018</a>, para 15.410 em 2022.</p>



<p>Apesar do espaço ocupado por Rosa e Dani, um ponto negativo dessa eleição é a redução da participação das mulheres na Assembleia, que cai de dez deputadas para apenas seis, num dos anos em que entidades de mulheres mais se articularam no estado para apoiar candidaturas de <a href="https://marcozero.org/candidatas-feministas-e-antirracistas-estao-unidas-para-mudar-a-fotografia-do-poder/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mulheres feministas e antirracistas</a> e, especialmente, de <a href="https://marcozero.org/articulacao-negra-de-pernambuco-recomenda-votos-em-nove-candidaturas-antirracistas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mulheres negras</a>.</p>



<p>Foram reeleitas na Alepe, a delegada Gleide Angelo (PSB) e a médica Simone Santana (PSB). Além de Dani e Rosa, chega à Assembleia Débora Almeida (PSDB), ex-prefeita de São Bento do Una. A médica Socorro Pimentel (União Brasil), deputada na legislatura 2015-2018, retorna à Casa.</p>



<p>Algumas das deputadas estaduais da atual legislatura deixaram a Alepe para concorrer a outros cargos. É o caso de Priscila Krause (Cidadania), candidata a vice-governadora <a href="https://marcozero.org/marilia-arraes-e-raquel-lyra-disputam-governo-de-pernambuco-em-segundo-turno-sem-o-psb/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">na chapa de Raquel Lyra (PSDB)</a> que passou para o segundo-turno; de <a href="https://marcozero.org/teresa-leitao-e-a-primeira-senadora-da-historia-de-pernambuco/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Teresa Leitão (PT)</a>, eleita senadora na chapa de Danilo Cabral (PSB) depois de cinco mandatos como deputada estadual; e de Clarissa Tércio (PP), eleita deputada federal. Fabíola Cabral (PP) e Dulcicleide Amorim (PT)  também tentaram vagas na Câmara dos Deputados, mas não obtiveram sucesso. A deputada Alessandra Vieira (União Brasil) não concorreu à reeleição, compondo a chapa de Miguel Coelho (União Brasil) na vaga de vice-governadora.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Voto conservador</h2>



<p>Dois candidatos ultraconservadores e símbolos do bolsonarismo em Pernambuco foram os campeões de votos para a Assembleia na eleição de 2022. O até então vereador do Recife Pastor Júnior Tércio (PP), da Assembleia de Deus, foi o mais votado, totalizando 183.733 votos, e o reeleito coronel Alberto Feitosa (PL), com 146.842 votos. Júnior é marido da deputada estadual, agora eleita federal, Clarissa Tércio (PP).</p>



<p>Negacionistas, Clarissa e Júnior Tércio se posicionaram durante a pandemia <a href="https://marcozero.org/medicos-com-patrocinio-politico-e-planos-de-saude-promovem-uso-da-cloroquina/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">em defesa do uso da cloroquina</a> para o que chamavam de tratamento precoce da Covid-19, mesmo sem qualquer comprovação científica. Também têm se colocado como os maiores <a href="https://marcozero.org/parlamentares-evangelicos-atacam-clinica-para-impedir-aborto-legal-e-expoem-crianca-de-10-anos-vitima-de-violencia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">opositores ao direito ao aborto</a>, incluindo casos previstos em lei. Fizeram toda sua campanha explorando o mote do bem (a direita) contra o mal (a esquerda).</p>



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	                                        <p class="m-0">Júnior Tércio e Clarissa Tércio com Bolsonaro. Coronel Alberto Feitosa acompanhando o presidente em agenda em Pernambuco. Crédito: Divulgação Facebook</p>
	                
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<p>No campo da esquerda, o mais bem votado foi o ex-prefeito do Recife e agora deputado reeleito João Paulo (PT), com 74.441 votos.</p>



<p>Ao todo, 25 dos 36 deputados estaduais que tentaram a reeleição permanecerão na Alepe a partir de 2023. Mesmo número de reeleitos em 2018. Outros 24, do total geral de 49 vagas, vão estrear no Legislativo estadual ou, ao menos, não pertencem à Casa na atual legislatura.</p>



<p>Entre as novidades estão Jarbas Filho (PSB), filho do senador e ex-governador Jarbas Vasconcelos (MDB); e France Hacker (PSB), duas vezes prefeito de Sirinhaém e irmão da prefeita de Rio Formoso, Isabel Hacker (PSB), mãe de Sérgio Hacker, esposo da <a href="https://marcozero.org/so-vou-estar-satisfeita-quando-sari-estiver-atras-das-grades-diz-mirtes-renata/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sari Corte Real, condenada pela morte do menino Miguel</a>.</p>



<p>A <a href="https://marcozero.org/a-grande-familia-os-candidatos-que-herdam-votos-e-poder-em-pe/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">tradição familiar continua a pesar</a> na Assembleia com as vagas passando de pai pra filho. É o caso de Eriberto Filho (PSB), que herdou os votos do pai Eriberto Medeiros (PSB), eleito agora deputado federal. Ele e Jarbas Filho vêm se somar à extensa bancada dos herdeiros reeleitos, entre eles Antônio Coelho, do União Brasil, (filho do senador Fernando Bezerra Coelho), Aglaílson Victor, do PSB, (filho do ex-deputado Aglaílson Júnior) e Henrique Queiroz Filho, do PP, (filho do ex-deputado Henrique Queiroz), entre tantos outros.</p>



<p>Também foi reeleito o deputado Romero Albuquerque (União Brasil), com 46.344 votos. Ele se notabilizou por <a href="https://marcozero.org/deputado-de-pernambuco-gastou-mais-com-redes-sociais-do-que-lula-e-bolsonaro/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">gastar mais de 472 mil reais em posts impulsionados</a> no Facebook para promover sua candidatura à reeleição e a da mulher Andreza Romero (Podemos), vereadora do Recife, para deputada federal (não eleita) como &#8220;protetores de animais&#8221;. No sábado, 1 de outubro, <a href="https://www.instagram.com/p/CjMCehnubEj/?utm_source=ig_web_copy_link" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mensagem que fere a lei eleitoral </a>foi disparada para eleitores pedindo votos para o casal.</p>



<p>São quatro os deputados estaduais que estão trocando a Assembleia pela Câmara dos Deputados, em Brasília: Eriberto Medeiros (PSB), Clodoaldo Magalhães (PV), Lucas Ramos (PSB) e Guilherme Uchôa Júnior (PSB). Não por acaso, todos  pertencentes a famílias de políticos profissionais. Os três últimos, inclusive, filhos de ex-deputados estaduais.</p>



<p>Apesar do fracasso da candidatura de Danilo Cabral (PSB) neste primeiro-turno, que acaba com 16 anos de domínio político do PSB à frente do Governo do Estado, o partido foi o que mais elegeu deputados estaduais em 2022, no total de 14 parlamentares, mais até do que em 2018, quando ficou com 11 vagas.</p>



<p>O segundo partido com mais deputados eleitos é o PP, com 8, seguido do PL e União Brasil, com 5 cada um; PT, PV, PSDB e Solidariedade elegeram cada um outros três parlamentares; enquanto Republicanos, PCdoB, Patriota e PSOL conseguiram fazer um deputado cada.</p>



<p>Se levarmos em conta as alianças políticas construídas pelas cinco principais candidaturas ao Governo de Pernambuco, os partidos que apoiaram Danilo fizeram a maior bancada, com 31 deputados que, agora, serão disputados por Marília Arraes (Solidariedade) e Raquel Lyra (PSDB) no enfrentamento do segundo-turno. Além de outros 12 parlamentares eleitos que apoiaram as candidaturas de Anderson Ferreira (PL), Miguel Coelho (União Brasil) e João Arnaldo (PSOL).</p>



<p><strong>VEJA A LISTA DOS DEPUTADOS ESTADUAIS ELEITOS PARA A LEGISLATURA 2023-2026 NA ALEPE</strong></p>



<p>Pastor Junior Tercio (PP) -183.733<br>Coronel Alberto Feitosa (PL) -146.842<br>Delegada Gleide Angelo (PSB) -118.869<br>Antonio Coelho (UNIÃO) -91.698<br>Rodrigo Novaes (PSB) -85.107<br>Eriberto Filho (PSB) &#8211; 78.979<br>João Paulo (PT) -74.441<br>Gilmar Junior (PV) -68.359<br>Chaparral (UNIÃO) -66.842<br>Francismar (PSB) -66.621<br>Gustavo Gouveia (SD) -66.031<br>Doriel (PT) -65.837<br>Aglailson Victor (PSB) -64.714<br>Romero Sales Filho (UNIÃO) -64.366<br>Luciano Duque (SD) -61.373<br>Dannilo Godoy &#8211; (PSB) -56.366<br>William Brigido &#8211; (REPU) -55.358<br>Antonio Moraes &#8211; (PP) &#8211; 54.756<br>Claudiano Filho &#8211; (PP) -53.024<br>Simone Santana (PSB) -53.001<br>France Hacker (PSB) &#8211; 52.009<br>Adalto Santos (PP) -51.370<br>Jeferson Timóteo (PP) -51.324<br>Debora Almeida (PSDB) -51.282<br>Pastor Cleiton Collins (PP) -50.510<br>Fabrizio Ferraz (SD) -48.793<br>Mario Ricardo (REPU) -48.699  <br>Joaquim Lira (PV) -48.293<br>Romero (UNIÃO) -46.344<br>Renato Antunes (PL) -46.224<br>Alvaro Porto (PSDB) -46.026<br>Kaio Maniçoba (PP) -45.791<br>Jarbas Filho (PSB) -45.331<br>Rodrigo Farias (PSB) -45.220<br>Waldemar Borges (PSB) -44.857<br>Henrique Queiroz Filho (PP) -43.822<br>José Patriota (PSB) -43.584<br>Abimael Santos (PL) -43.530<br>Sileno (PSB) -43.195<br>Diogo Moraes (PSB) -43.116<br>Rosa Amorim (PT) -42.632<br>João Paulo Costa (PC DO B) -42.473</p>



<p>Dani Portela (PSOL) &#8211; 38.215</p>



<p>Joel da Harpa (PL) -35.938<br>Socorro Pimentel (UNIÃO) -35.515</p>



<p>João de Nadegi (PV) -29.019<br>Joãozinho Tenório (PATRI) &#8211; 28.048</p>



<p>Izaias Regis (PSDB) -27.104</p>



<p>Nino de Enoque (PL) -24.851</p>



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		<title>Comunidade do Sapo Nu, Curado: “Aqui nós fomos os bombeiros”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Laércio Portela]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Jun 2022 16:02:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens]]></category>
		<category><![CDATA[alagamento]]></category>
		<category><![CDATA[chuvas recife]]></category>
		<category><![CDATA[comunidade Sapo Nu]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A água subiu rápido, muito rápido e a correnteza veio forte. Acostumados com as inundações, os moradores da comunidade do Sapo Nu, no Curado, não imaginavam que essa seria a pior de todas. O rio Tejipió – que corta a região &#8211; transbordou e as águas avançaram sem obstáculos sobre as casas na madrugada do sábado (28). Apesar dos apelos por telefone, o socorro dos bombeiros e da defesa civil não chegou e os vizinhos precisaram improvisar os mais diversos meios para salvar vidas numa situação de caos.</p>



<p>“Aqui nós mesmos fomos os bombeiros”, relata o office boy Fernando da Silva, 33 anos, morador da Colina, um morro ao lado do Sapu Nu. Ele dormia na casa da sogra na área de baixo e, diante do desespero dos moradores, se juntou a outros jovens para resgatar dezenas de pessoas, muitas crianças e idosos, que estavam ilhadas nas suas residências há muitas horas temendo pelo pior. Precisaram agir por conta própria para evitar uma tragédia.</p>



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<p>Na quarta-feira à tarde (1), uma equipe da <strong>Marco Zero Conteúdo</strong> visitou a comunidade. Passados cinco dias da enchente, o cenário de devastação ainda está por toda parte. Na lama acumulada, nos móveis destroçados, nas roupas, livros, brinquedos, colchões e eletrodomésticos inutilizados se avolumando do lado de fora das casas. Mas especialmente na memória de cada família. Mães, pais, avós e avôs que zelaram para que os filhos, filhas, netos e netas não fossem arrastados pela correnteza.</p>



<p>O mutirão salvou a vida de famílias como a do motorista Martinélio Anaíldo da Silva, 47. Ele, a esposa Rafaela e os filhos Adriele e Lucas, de 21 e 15 anos, ficaram de 3h da madrugada até 17h30 dentro da casa inundada. Na residência da frente, a auxiliar administrativa Lauriene Rodrigues da Silva, 40, temeu pela vida da filha Isadora, de oito anos. O marido, Cristiano, quebrou a telha para a família se refugiar no telhado ao lado da caixa dágua, onde ficaram por quatro horas até a ajuda chegar.</p>



<p>Do alto de sua casa, na Rua Camponesa, Lauriene, Cristiano e Isadora viram as famílias de Martinélio e das residências vizinhas de Tiago, Gilma e Deusaura serem salvas num bote improvisado com um grande isopor e cordas. Em outros lugares da comunidade, o socorro chegou de jangada e até em portas de geladeiras. Apesar de toda destruição e da força das águas do rio Tejipió, não houve vítimas fatais.</p>



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<p>Muito moradores, no entanto, estão de luto pela morte de parentes em outras regiões de moradia precária do Grande Recife atingidas pelas fortes chuvas dos últimos dias. Marceneiro, serralheiro e soldador, Leandro Alves, 43 anos, perdeu o neto de apenas 10 meses de vida quando a casa onde sua filha Letícia, 17, e o marido viviam no Ibura foi atingida por um deslizamento de barreiras. Desde então, ele acolheu a filha no Sapo Nu.</p>



<p>Nesta quarta (1), Leandro reclamava da falta de apoio dos órgãos públicos no socorro às vítimas da enchente na comunidade. “Nem Bombeiros, nem Celpe, nem Exército, nem Marinha, nem Defesa Civil apareceram por aqui”. Agora, ele pede caminhões para levar os destroços que tomam as ruas. “Imagine se acontece uma nova enchente com todo esse entulho por aí”. Na rua ao lado, a primeira equipe da Prefeitura do Recife começava a trabalhar na desobstrução dos caminhos com um trator.</p>



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<p>Por toda parte percebia-se um certo sentimento de revolta pela indiferença do poder público e da imprensa. “Vocês são os primeiros que chegam por aqui.”, foi um comentário frequente enquanto a equipe da MZ circulava pelas ruas enlameadas da comunidade.</p>



<p>Essa invisibilização machuca, mas não paralisa os moradores de Sapo Nu. Na terça (31), um grupo deles bloqueou a pista da BR-232 para exigir o religamento da energia de algumas ruas que estavam sem luz desde o sábado. O protesto foi desmobilizado pela Polícia Rodoviária Federal, mas surtiu efeito e a Celpe fez o religamento.</p>



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	                                        <p class="m-0">Gilma José Rodrigues mora sozinha à beira do rio Tejipió e precisou da ajuda dos vizinhos para ser socorrida num bote feito de isopor e cordas. Crédito: Arnaldo Sete</p>
	                
                                    </figcaption>
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<p>O companheirismo que salvou vidas no sábado continua fazendo a diferença para a reconstrução de Sapo Nu. Em cada esquina é possível ver o apoio de amigos e vizinhos na limpeza compartilhada das casas e na ajuda para o transporte dos objetos e móveis que restaram. A atuação de coletivos periféricos e de jovens ativistas tem garantido a segurança alimentar e a proteção de muita gente que perdeu todos os bens materiais.</p>



<p>Uma dessas pessoas que não tem medido esforços para ajudar é a estudante de ciências sociais da UFPE, Judy Maria de Amorim, 23, cuja família foi diretamente afetada pela inundação em Sapo Nu. Ela e um grupo de amigas vêm se dedicando desde o fim de semana a organizar o recebimento e entrega de doações de alimentos, roupas e materiais de higiene aos moradores mais atingidos. “A situação é muito grave. Temos que fazer a nossa parte”, explica.</p>



<p>Esse pequeno relato das histórias vividas em Sapo Nu deve muito a Judy, que foi nossa guia pela comunidade.</p>



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<p><strong>COMO AJUDAR OS MORADORES DE SAPO NU</strong> <strong>E OUTRAS COMUNIDADES PRÓXIMAS</strong></p>



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<p>Pix:  judyamorim1@gmail.com  JUDY MARIA DE AMORIM</p>



<p>Endereço: MERCEARIA DO VAVÁ, NO FINAL DA RUA THOMAZ LIMA, COMUNIDADE DO SAPO NU, CURADO</p>



<p>Tipo de doações necessárias: ALIMENTOS NÃO PERECÍVEIS, COLCHÕES, ÁGUA, PRODUTOS DE HIGIENE E LIMPEZA, FRALDAS, ABSORVENTES, LENÇÓIS E AGASALHOS.</p>



<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>



<p>Pix: 133.520.574-86 BRUNA ALVES DE LIMA (Coletivos <strong>@perifericas e @espacoculturaldasmarias</strong>)</p>



<p>Endereço: RUA QUARENTA E NOVE, 40, ZUMBI DO PACHECO</p>



<p>Tipo de doações necessárias: ALIMENTOS NÃO PERECÍVEIS, COLCHÕES, ÁGUA, PRODUTOS DE HIGIENE E LIMPEZA, FRALDAS, ABSORVENTES, LENÇÓIS E AGASALHOS.</p>



<p><em><strong>As imagens desta reportagem foram produzidas com apoio do <a href="http://www.reportfortheworld.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">Report for the World</a>, uma iniciativa do <a href="http://www.thegroundtruthproject.org/" rel="noreferrer noopener" target="_blank">The GroundTruth Project.</a></strong></em></p>



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